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quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Animals and me

A história de como o "Animals" se cruzou com a minha vida e a análise da nova reedição, que traz o álbum pela primeira vez em Surround.


Deixem-me, antes de mais nada, apresentar-me. Sou engenheiro civil e mudei-me para Londres no início de 2018, há quase cinco anos. No primeiro dia de trabalho, segunda-feira, 8 da manhã, tive o meu primeiro "monday meeting" — uma hora onde eram atribuídos os projetos e as horas de trabalho para a semana de cada um dos engenheiros. Todos se reuniam no centro do escritório a olhar para um ecrã gigante que mostrava uma folha de Excel com a lista dos projetos que a empresa tinha em carteira. Apaixonado por Londres e pela música britânica, alguns nomes sobressaíam ali imediatamente, ruas e lugares que conhecia de discos e concertos históricos das minhas bandas favoritas. Wembley, Earl’s Court ou… Battersea Power Station.

Vou agora puxar um pouco mais para trás. Os Pink Floyd são, a par dos Queen, a minha banda preferida desde que me lembro de existir. A coleção do meu Pai tinha todos os discos dos Floyd e aquelas capas ficaram desde cedo cravadas na suscetível mente de um miúdo que, já na altura, era absolutamente obcecado por música e preferia “brincar” com a aparelhagem do pai do que com os seus próprios bonecos. Uma capa, em especial, sempre me deixou particularmente impressionado — a enigmática capa de "Animals", disco dos Pink Floyd originalmente lançado em 1977. Uma imponente mega fábrica em tijolo, com quatro chaminés gigantes e um porco a voar sob um céu apocalíptico. Essa fábrica, soube mais tarde, era a Battersea Power Station. Lembro-me de estar na faculdade e de ler uma notícia sobre o projeto de reabilitação da Power Station e de pensar que seria um sonho um dia trabalhar naquele projeto. Ri-me. Era um sonho longínquo, quase impossível, para um jovem a marrar nas catacumbas do Técnico.

Saltamos 10 anos para a frente e lá estou eu, sentado no centro do escritório, à espera de ser colocado no meu primeiro projeto em Londres. O diretor ia passando pelos nomes da lista e atribuindo trabalho a todos, mas nada para mim. Até que chegou à linha que dizia Battersea Power Station. O meu coração saltou umas batidas. "Nuno, vais liderar este projeto.", disse o diretor. Palavras que pararam o tempo, qual Matrix. Nem queria acreditar.

Instintivamente, talvez fruto de anos de catequese e educação católica, olhei para cima. Vi uma luz. Era a lâmpada no teto falso. Mas também a realização de que a sorte me tinha sorrido. Se alguma vez na vida senti que tinha chegado ao sítio certo, à hora certa, foi neste momento. Os astros alinharam-se.

Agarrei a oportunidade com unhas e dentes e nos dois anos que se seguiram, período em que a minha barba se pintou de branco, liderei e entreguei o meu projeto de sonho — a Fase 3 da reconstrução da Battersea Power Station que, nem de propósito, está prestes a abrir ao público, já no dia 14 de Outubro (também dava um bom artigo para a NiT). Foi um projeto duríssimo, mas sempre que as forças me faltavam, olhava para a majestosa Power Station, e saía rejuvenescido. Estava a viver um sonho. Mas a história não terminou aqui.

Quando juntei poupanças suficientes para comprar uma casa em Londres, a minha intenção era clara — um apartamento com vista para a Power Station, uma espécie de capa do "Animals" viva, que eu pudesse ver todas as manhãs quando acordasse, todas as noites antes de me deitar, ou sempre que me apetecesse olhar pela janela. É precisamente a olhar para ela, a Battersea Power Station, que vos escrevo, aqui sentado no meu sofá. E nem sequer falta a Algie a voar na minha sala.

Serve esta longa introdução para vos contextualizar sobre a importância do álbum “Animals” dos Pink Floyd na minha vida, e sobre o meu comprometimento com a banda britânica em geral; a propósito da novíssima edição de "Animals", que foi lançada na semana passada em CD, LP e Blu-Ray. Apresentando o sufixo "2018 Remix", esta reedição oferece novas misturas em Stereo (em todos os formatos) e em Surround no Blu-Ray, o qual também apresenta uma versão de Alta Resolução da mistura original de 1977. Dito assim, parece um lançamento prosaico. De todo. A história da mistura em Surround de "Animals" remonta a 2004, quando foi primeiramente ventilado que o Engenheiro de Som da banda, James Guthrie, estava a trabalhar no projeto com o objetivo de uma edição no ano seguinte, ou seja, em 2005. Ainda andava eu na faculdade.

Guthrie terminou primeiro a mistura em Surround de "Wish You Were Here", alegadamente por volta de 2007, mas esta ficou na gaveta até 2011, quando os Pink Floyd fizeram a última campanha massiva de reedições do seu catálogo. De "Animals", nada se ouviu. Não é preciso grande imaginação para adivinhar que a missão de Guthrie, de agradar a gregos e a troianos (leia-se, Roger Waters e David Gilmour), terá sido hercúlea. Mas conseguiu.

Algures em 2018, há 4 anos portanto, James Guthrie terminou finalmente as remixes Stereo e Surround de "Animals". Aubrey Powell tirou mais uma série de fotografias majestosas da Battersea Power Station, agora em obras (possivelmente comigo lá no meio), e tudo estava pronto para o lançamento da versão 5.1 do disco sonicamente mais problemático dos Floyd. Só que não.

https://www.youtube.com/watch?v=jX5x9wzMN4s

Roger e David entraram então num conflito (que é como quem diz, continuaram o seu eterno conflito) devido a um texto adjudicado a Mark Blake, sobre as sessões de gravação de "Animals". Blake tem vários livros editados sobre a banda e está dentro dos factos, mas este texto em particular é largamente elogioso para Waters e praticamente negligencia a contribuição dos outros membros da banda. Nomeadamente David Gilmour que, naturalmente, vetou a sua inclusão nesta reedição. Entretanto, os fãs dos Pink Floyd, que nada sabiam, viviam no escuro relativamente ao tão propalado Animals em Surround.

Em Maio de 2021, Roger lançou uma notícia no seu website, acompanhado de um vídeo jocoso, revelando que a razão do atraso era um braço de ferro entre ele e David sobre o tal texto, mas que ele, numa atitude salomónica, ia aceitar a exclusão do texto no livrete da reedição, para finalmente libertar as remixes de "Animals". Estava fechado este capítulo do conflito entre Waters e Gilmour, a novela que nunca acaba.

E eis que chegamos aqui, Setembro de 2022, e depois de mais de 18 anos de espera, podemos finalmente ouvir as remisturas de "Animals" em Stereo e Surround. A espera foi recompensada. As novas versões de “Animals” (ou vá, de 2018) põem o álbum no mesmo panteão audiófilo habitado pelos outros discos de nomeada dos Floyd (“The Dark Side Of The Moon”, “Wish You Were Here”, ou “The Wall”), todos eles gravados em estúdios profissionais, como Abbey Road. “Animals” foi gravado em Britannia Row, num estúdio que eles próprios construíram (literalmente — Nick Mason conta na sua biografia que a banda acompanhou e dirigiu a obra e montou todo o equipamento). As instalações não correspondiam à mesma bitola a que os Pink Floyd estavam habituados e a sónica do disco sofreu com isso. Esta nova mistura, mais limpa, fina e delicada, levanta um véu que cobria as gravações nas fitas originais e revela pormenores que não ouvíamos antes.

Foram tomadas algumas liberdades com as faixas vocais de Roger Waters, outrora afogadas em reverb e agora secas, frontais e definidas. Podemos OUVIR o Roger, atentar na sua dicção e locução das palavras, como se ele estivesse sentado ao nosso lado. A dinâmica do espectro sonoro ficou intacta, com a guitarra de David Gilmour a explodir nas colunas, sempre que este arranca um solo. Podemos agora ouvir todas as notas de David em alta-definição, como quem tira um VHS e põe um Blu-Ray. Também em Full HD aparecem as teclas hipnóticas de Richard Wright, finalmente com espaço para respirar com toda a claridade. Mas o maior beneficiado desta remix terá sido Nick Mason, que viu sua a bateria saltar para a frente da paisagem sonora.

Tudo isto pode ser testemunhado ao ouvir a nova mistura em Stereo, mas a verdadeira jóia da coroa desta reedição é a remistura em Surround. Ouvir mesmo atrás de nós os porcos a grunhir, os cães a ladrar, e as ovelhas a balir põe-nos dentro da quinta do universo de George Orwell, tal como imaginada por Roger Waters e David Gilmour. A introdução de Rick nas teclas em “Pigs (Three Different Ones)” já era nauseante em stereo; em Surround, deixa-nos a cabeça a andar à roda.

Contudo, este levantamento do véu das limitações técnicas de Britannia Row chega com um preço. A sónica monolítica da mistura original assentava que nem uma luva no conteúdo abrasivo do álbum. Esta rugosidade e sujidade da mistura original perdeu-se. Este deixa de ser o álbum Punk dos Pink Floyd, onde a banda desceu aos infernos e voltou para nos trazer a visão distópica da sociedade. Também é de lamentar que não tenha sido incluído qualquer material extra: nem a versão completa de “Pigs On The Wing” (exclusiva ao formato de cartucho 8-track), nem as versões iniciais de estúdio que circulam entre os fãs (e que tinham Roger na voz em “Dogs” e diferentes takes de guitarra), nem qualquer material ao vivo da lendária In The Flesh Tour — uma digressão tao intensa e atribulada, que terminou em Montreal com Roger Waters a chamar um fã ao palco para lhe cuspir na cara (“who was trained not to speak in the fan”, não é?).

Portanto, se quiserem ouvir “Animals” MELHOR, mais claro e limpinho, ouçam a 2018 Remix. Se quiserem ouvir “Animals” PIOR, mais sujo e monolítico, ouçam o original. São duas experiências diferentes, e por isso não vos poderei dizer qual é a melhor. A minha preferida continua a ser a original, uma vez que é suposto que "Animals" seja um álbum sujo. Não podemos ouvir os porcos sem descermos à pocilga.

A Surround Mix não tem nada a apontar. Arrisco dizer que esta mistura imersiva é a melhor de todas as experiências Surround dos Pink Floyd. Antes já tivemos “Meddle” (um bónus da colecção “The Early Years”), “The Dark Side Of The Moon” (SACD, Blu-Ray), “Wish You Were Here” (SACD, Blu-Ray), “A Momentary Lapse Of Reason” (Blu-Ray), “The Division Bell” (Blu-Ray), e (se quiserem contar com este) “The Endless River” (Blu-Ray). Se considerarem as misturas quadrifónicas, ainda houve “Atom Heart Mother”. “Animals” é o melhor deles todos, o que nos deixa com grandes expectativas para o trabalho de James Guthrie no outro gigante que falta — “The Wall”, alegadamente já terminado em 2021 e agora à espera de luz verde para o seu lançamento.

Se pensarmos que “Animals” demorou 4 anos só em discussões de packaging, o futuro não parece animador. Se adicionarmos o facto que, no divórcio entre Roger Waters e restantes Floyd, Roger ficou com o controlo de tudo o que fosse relacionado com “The Wall” e “The Final Cut”, as perspectivas não são as melhores para ouvirmos estes em Surround. E não esquecer o filme "The Wall Live In Earl’s Court", o santo graal dos Pink Floyd, que está refém na cave de Roger. Se o génio criativo dos Pink Floyd (como ele se autodenomina) desse mais atenção a estes projectos e menos a amizades com líderes bafientos de leste, mais lhe valia.

sábado, 9 de abril de 2022

Os Pink Floyd do lado certo da história

O cronista musical da NiT e fanático dos Pink Floyd reflecte sobre o regresso da banda, em missão de ajuda ao povo ucraniano, e a desilusão que Roger Waters se revelou.


E eis que do nada, surge um novo tema dos Pink Floyd. O primeiro desde 2014, e a primeira gravação nova desde o maravilhoso "The Division Bell", de 1994. Dito assim, parece uma ficha pesada a cair; altíssima responsabilidade para com um legado de seis décadas, que produz novos fãs todos os anos e é hoje tão ou ainda mais forte do que quando a banda estava activa. Na verdade, foram apenas dois músicos que se juntaram para ajudar uma causa que merece toda a nossa atenção.

David Gilmour estava a gravar o seu novo álbum a solo quando a guerra eclodiu na Ucrânia. Chocado com os acontecimentos, David apressou-se a registar o seu apoio ao povo ucraniano nas redes sociais, e retirou das plataformas de streaming na Rússia a sua música a solo, bem como a discografia pós-Waters dos Pink Floyd. Esta retirada parcial da música dos Pink Floyd, juntamente com o silêncio do sempre activo e muito barulhento Roger, deixou-me logo um amargo na boca. Mas já vamos ao Roger.

Avô de dois netos meio-ucranianos, David está mais próximo da causa do país invadido. Depois veio a notícia do seu amigo Andriy Khlyvnyuk, vocalista do grupo Boombox que abriu para o David num show de beneficiência em 2015, que fora atingido por um estilhaço em confrontos com o exército russo e estava a recuperar no hospital. Khlyvnyuk tinha abandonado uma digressão americana dos Boombox, para se juntar ao exército ucraniano e defender o seu país. Dias antes do incidente, Andriy gravara um vídeo a cantar a capella o cântico patriótico "Oi u luzi chervona kalyna" nas ruas de Kiev, interrompendo o silêncio perturbador de uma cidade em guerra. 

Foi o áudio desse vídeo, gravado num iPhone, que serviu de inspiração para David Gilmour. Sabendo que o nome Pink Floyd ia gerar muito mais atenção, David ligou a Nick Mason e perguntou-lhe se estava a fim de gravar um tema, como Pink Floyd, para ajudar a Ucrânia. Recordo que Nick rejeitou todos os convites de David para colaborações nos seus discos a solo, respondendo sempre: "só estou disponível para os Pink Floyd". Assim foi.

"Hey, Hey, Rise Up!" foi lançado de surpresa na sexta-feira e, se já ouviram, perceberam rapidamente que não se trata de um tema "normal" dos Pink Floyd. Se é que existe tal coisa, entre o espólio de "Piper", "Ummagumma" e "The Final Cut". A única voz que ouvem é a de Andriy Khlyvnyuk, a cantar nas ruas de Kiev. De resto, temos de volta os solos da guitarra de David (a Telecaster 'Workmate', que sobrou do leilão de há 3 anos), e há espaço os drum fills de Nick respirarem na mix. É Pink Floyd. E tem mais edge do que tudo o que ouvimos no insípido "The Endless River".

Não é um "Echoes", um "High Hopes", ou um "Comfortably Numb". Mas não precisa. O que interessa é a mensagem e a mensagem é que já chega desta merda. Esta guerra à nossa porta tem que acabar e é reconfortante ver os meus heróis do lado certo da história. Enche-me o coração ver o David utilizar a arma poderosíssima que tem nas suas mãos (a marca dos Pink Floyd) para fazer o bem. Em sentido contrário, parte-me o coração ver o meu outro herói tornar-se num daqueles “tu não percebes, pá”, que me dão a volta ao estômago.

Permitam-me desabafar um pouco sobre o Roger Waters. O Roger é um dos meus heróis. Sou tão apaixonado pela paixão que imprime em tudo o que faz, seja a expelir a sua arte, ou a defender as suas causas, que dei o nome dele ao meu pastor alemão — e talvez por isso, o universo quis que ele tivesse uma personalidade irascível, como quem o baptizou.

Para além de amar a música, sempre defendi o Roger nas suas causas. Concorde-se ou não com as suas posições políticas socialistas (semelhantes às do David) mais polémicas, na Venezuela, ou na Palestina, tudo o que o Roger sempre fez foi pôr-se ao lado dos mais fracos. Ao lado dos venezuelanos, contra as sanções do gigante norte-americano. Ao lado do povo palestiniano, contra o massacre do poder israelita. Dar força aos fracos contra os fortes, sempre foi este o diapasão de Roger. Por isso é uma mágoa tão grande vê-lo tão tímido contra esta guerra. Roger fala em "nuances" na análise deste conflito, quando o próprio Roger é o homem menos nuanceado que já existiu. Tudo o que ele diz e faz é exposto em ecrãs gigantes, letras garrafais e gritos ao microfone em estádios. E é assim que gostamos dele. Mas o Roger precisa de acertar o seu compasso moral e o seu sentido básico de decência.

Mais: acredito que se o Roger não se tivesse tornado num "tu não andas a ler as notícias certas, pá", estaríamos agora a falar de uma reunião muito mais abrangente dos Pink Floyd. Partilho o sentimento do David quando disse que a posição do Roger "é uma enorme desilusão". Para todos os que perguntam se isto é Pink Floyd sem o Roger Waters, eu lembro que o Roger está há mais tempo fora dos Pink Floyd do que eu estou fora do útero da minha mãe.

Para além da ajuda ao povo ucraniano, há um outro lado, muito inteligente, no uso do nome Pink Floyd neste tema. Para quem não sabe, os Pink Floyd são mais populares na Rússia que o próprio Putin. Nos anos 70 e 80, quando os seus discos eram proibidos, criou-se um mercado negro massivo de produção de discos piratas dos Pink Floyd — sei bem disto porque tenho estas prensagens. Por isso não será a melhor maneira de chegar a um povo que não tem acesso a notícias fidedignas, e mudar umas quantas mentalidades, através da música? Putin só cairá quando os russos quiserem e o David está a tentar fazer a sua parte com as armas que tem. A isto chama-se estar do lado certo da história.

O novo tema dos Pink Floyd está aí e todos os lucros reverterão para Ucrânia por isso, comprem. É música, é Pink Floyd, é para ajudar, é um no brainer.

terça-feira, 8 de junho de 2021

David Gilmour vs Roger Waters: A guerra sem fim



Quase tão antigo como o conflito israelo-palestiniano, e tão ou mais interessante, é o conflito Waters-Gilmouriano. Duas estrelas que durante duas décadas colidiram numa supernova criativa e que agora parecem nao sair do buraco negro. As duas últimas semanas trouxeram muitas novidades, mas desta vez nem todas más. Aqui o tio Nuno, parte interessada neste conflito há mais de 30 anos, dá-vos o update do essencial.

Comecemos pelo fim. Ontem saiu uma entrevista à Rolling Stone do casal inseparável John/Yok..., errr desculpem, David/Polly, onde o tio David atira a matar sobre o tio Roger. Na parte mais escaldante da entrevista, a inevitável pergunta dos Pink Floyd, David não mostrou a sua habitual contenção:

RS: Is there anything going on with Pink Floyd on the archival front? There’s been talk of an Animals reissue in recent years.

Gilmour: Well, a very lovely Animals remix has been done, but someone has tried to force some liner notes on it that I haven’t approved and, um, someone is digging his heels and not allowing it to be released.

Samson: But you don’t have liner notes, do you?

Gilmour: No, we’ve never had liner notes.

Samson: Why are you suddenly having liner notes?

Gilmour: Because someone wants them, and they got a journalist to write some, and I didn’t approve them. And he’s just getting a bit shirty. You know how he is, poor boy.

Ora, esta entrevista e esta resposta em particular, explicam o que aconteceu na semana passada na barricada do tio Roger que, como sabemos, não é propriamente conhecido pela sua contenção. Num vídeo carregado de veneno, o Roger anunciou o lançamento da nova remistura do álbum Animals, bloqueada desde 2018 pelo conflito Waters-Gilmouriano, tudo graças àbonomia do próprio Roger, que ia ceder pela sua parte e anuir ao lançamento sem as liner notes escritas por Mark Blake (autor de "Pigs Might Fly: The Inside Story of Pink Floyd"), que contariam a história por trás da criação do álbum e que David se recusava a incluir nesta reissue. Algumas notas sobre isto:

Em primeiro lugar, o David está (quase) correcto em como, mal ou bem, os lançamentos dos Pink Floyd nunca tem liner notes. Curiosamente, a excepção que me recordo é a caixa "Shine On", que o próprio David lançou como projecto pessoal em 1992, quica para "legitimar" os seus Floyd ao lado dos classic Floyd, numa altura em que o assunto ainda era, e muito, discutido (hoje acho que não há discussão - os Floyd dos 80s e 90s são tão Floyd como os dos 70s). Retirando essa (curiosa) excepção, de facto, os lançamentos dos Floyd costumam deixar a música falar por si e deixar o "behind the scenes" envolto em mistério.

Depois, como é óbvio, a inclusão destas liner notes é mais do interesse do Roger do que do David, uma vez que o Roger é que foi o principal responsável pela criação e pelo conceito do álbum "Animals". Se David tivesse levado a sua ideia avante, o álbum "Wish You Were Here" teria sido formado por 3 longas composições: "Shine On You Crazy Diamond" no Lado A e "Raving And Drooling" e "You Gotta Be Crazy" no Lado B. Teria sido um álbum largamente instrumental mas, segundo Roger (e bem), sem um fio condutor. Com a composição conjunta do tema "Wish You Were Here", o disco ganhou uma nova direcção e o resto é história. Para "Animals", uma nova perspectiva Orwelliana recuperou "Raving And Drooling" de Roger como "Sheep" e "You Gotta Be Crazy" de David como "Dogs". A face política de então inspirou Roger para "Pigs (Three Different Ones)" (com a ajuda de um loop de Rick Wright e que nunca foi creditado) e estava assim feito o álbum mais sombrio dos Pink Floyd. Para Roger, ele compôs 4/5 do álbum. Para David, ele compôs metade, uma vez que "Dogs" compõem a quase totalidade do Lado A. Ambos têm razão à sua maneira, mas é impossível fazê-los concordar em quem fez mais ou em quem fez o que (o que, convenhamos, é um bocado triste quando pensamos que estes senhores já tem 80 anos). As liner notes de Mark Blake, mais elogiosas para o Roger, foram assim naturalmente vetadas pelo David. E assim chegámos a 3 anos de um conflito sem fim à vista. Até há semana passada.

O vídeo de Roger a anunciar a reedição de "Animals" apanhou toda a gente de surpresa, primeiro porque ninguém sabia por que este projecto estava bloqueado e segundo, porque não lhe cabe a ele fazer esse anúncio. Para todos os efeitos, o Roger saiu da banda em 1985, anunciando que os Pink Floyd eram uma "força esgotada". David tinha outras ideias e levou a bandeira dos Pink Floyd pelos anos 80 e 90, introduzindo a banda a novas gerações (eu incluído), provando que Roger estava errado. Entretanto, os Pink Floyd tornaram-se num million dollar business e Roger, responsável pela maioria da sua música, ficou de fora da esfera de decisões, por (má) decisão própria. Para o bem e para o mal, é assim que funciona. Chegados aos dias de hoje, temos o ridículo dos livros de Polly Samson a serem anunciados no site oficial dos Pink Floyd e os projectos de Roger Waters, (auto-denominado) génio criativo dos Pink Floyd, fora do site, fora do Facebook, fora de tudo. É ridículo, sim, mas o Roger só se pode culpar a ele próprio. Por mais que esbraceje e ataque o David, nada vai mudar nesse sentido.

Nesta guerra sem fim, o Roger foi suficientemente esperto ao antecipar os comentários da entrevista da Rolling Stone (certamente alguém o avisou do que aí vinha) e, com este vídeo, sair como o herói da situação para os fãs, e colocar o David entre a espada e a parede (e ao mesmo tempo lançar as famigeradas liner notes no seu site - o tio Roger não dá ponto sem nó - enquanto chamou David de "a jolly good guitarist and singer"). Depois da cedência de Roger, David está agora obrigado a lançar a remistura de "Animals", sob pena de sair como o vilão da história que age puramente por despeito e perder a imagem de "nice guy" que tem na audiência. E esta é a única boa notícia para nós, fãs dos Pink Floyd, que estamos para este conflito como os filhos de um casal divorciado que não se consegue entender. Do mal o menos, vamos mesmo ter a caixa de "Animals", com novas remisturas em Stereo e Surround e uma nova e mais recente imagem da magnífica Battersea Power Station, onde este que vos escreve trabalhou durante 2 anos como Lead Engineer de Temporary Works (a jóia da coroa da minha carreira profissional). Nesta altura, já não espero que os meus dois ídolos se entendam, mas como diz o David no fim da sua entrevista na Rolling Stone - "we live and we hope".

segunda-feira, 1 de março de 2021

Pink Floyd: 48 anos do lado escuro da lua

"Everything under the sun is tune, but the sun is eclipsed by the moon"

“Sou louco há um caralhão de anos.” Começa assim o álbum mais consagrado dos Pink Floyd e provavelmente a marca mais conhecida da História do Rock, que faz hoje 48 anos de loucura. E o que é que eu posso escrever que ainda não foi dito sobre este disco que mudou tudo? Quem me conhece sabe que sou dado ao uso de superlativos e talvez seja essa a razão pela qual nunca tenha escrito nada sobre o “The Dark Side Of The Moon”. É que não há disco mais publicamente superlativado que este. Vejo-o como um filho mimado, que já tem atenção suficiente de toda a gente e que, como tal, não precisa das minhas loas em público. O que não quer dizer que não o faca em privado. Fui ver à minha base de dados do Discogs e tenho 17 cópias deste álbum em casa. Sim, leram bem, dezassete. E isto sem contar que a caixa Immersion tem 8 versões diferentes lá dentro (original, remix, surround, quadraphonic, ao vivo, demo, etc), ou que o álbum é reproduzido na íntegra no disco ao vivo “p·u·l·s·e”, do qual conto com 5 versões diferentes. Sou fã, já perceberam a ideia. Portanto, se nunca escrevi sobre o “Dark Side”, sendo alguém naturalmente de fácil superlativo, é porque temo entrar em tilt, ao procurar na língua portuguesa termos superlativíssimos (eu não disse?) para este álbum. Vou fazer aqui o melhor que posso.

Dizem os mais cépticos que a música não pode mudar o mundo. Mas como não, se a música muda a vida de tanta gente? A minha foi abanada várias vezes, em capítulos diferentes da minha existência, por discos que aterraram no meu mundo, sempre na hora certa. O primeiro terá sido “The Dark Side Of The Moon”. Em Castelo Branco, somos introduzidos ao álcool muito cedo. E cedo aprendi que era com grau de alcoolémia que melhor se apreciavam os Pink Floyd. Mas não foi assim que os comecei a ouvir, na tenra idade dos zero, quando o meu Pai tocava o “Dark Side”, ainda estava eu na barriga da minha Mãe. Talvez tenha sido por isso que fiquei com esta loucura. Ou então foi por causa daquele concerto de Veneza em 1989, com o palco na água e o público em gôndolas, que o meu Pai gravou em VHS (“numa noite de trovoada”, contará ele) e que eu via de olhos dilatados e imaginação no espaço, sempre que havia visitas lá em casa. Ou então foi por causa da chegada a casa daquele mágico CD do “The Division Bell” em 1994, que o meu Pai tocava todos os Domingos de manhã e que ficou tão ancorado no meu cérebro, que ainda hoje não passa uma semana em que não o ouça. Não foi, portanto, com o álcool que eu fui introduzido ao “Dark Side”. O disco já existia na minha vida. Mas quando eu tinha 15 anos e achava que já sabia tudo do Mundo (e na verdade sabia tão pouco), ouvi o “Dark Side” às escuras, catalisado por meia dúzia de médias e de repente, tudo fez sentido. Foi a primeira vez que eu “percebi” o Roger Waters e desde então que quando ele fala, eu ouço. Achei que ficara avisado para as armadilhas do Mundo que o tio Roger tão brilhantemente apontava. E olhem para mim hoje, 20 anos depois, a cair fatalmente em cada uma delas. 

Depois de ver o lado escuro da lua, nunca mais me calei com os Floyd. Fui para o Liceu contar a todos sobre a minha descoberta, mas sem grande sorte. Olhavam para mim como se eu estivesse a falar sobre uma seita esquisita e em defesa deles, era provavelmente com o mesmo ar de demência que eu me expressava. Com as miúdas então, nem vale a pena falar. O “Dark Side” não fazia muitos amigos. Até que numa festa de aniversário bastante “regada” (“vamos beber sumo”, dizia à minha Mãe), apanhei uma conversa de um grupo mais velho que estava a falar, imaginem, dos Pink Floyd. Wow. Afinal esta gente existe! As pupilas dos meus olhos dilataram imediatamente e finalmente pude jogar o meu futebol. Foi nessa conversa que ouvi uma interpretação do “On The Run” que, não sendo necessariamente verdade, é tao perfeita que nunca sequer pus em causa. A história reza assim: o tema tem um loop de sintetizador que evoca alguém a correr (o tema chama-se “On The Run”!); ouvem-se passos ofegantes, de alguém certamente atrasado para qualquer coisa; segue-se o anúncio de um aeroporto – “Tenham a vossa bagagem e passaporte prontos para os voos para Roma, Cairo e Lagos” – ah, ele está atrasado para o seu voo de férias; o indivíduo corre loucamente em direcção às portas do avião, na sua cabeça está o seu destino de sonho, a fuga do marasmo do seu quotidiano; ouve-se um riso insano – “Vivo para hoje, vou-me embora amanhã. Sou assim.”; a corrida continua, as portas já estão próximas; quando finalmente chega à porta de embarque, o avião já está a levantar; frustrado, fica ofegante a ver o seu sonho fugir; e eis que, depois de levantar, o avião que perdera por um triz explode diante dos seus olhos. Tau! “Manda vir mais uma rodada de médias!”, disse o João Francisco. Afinal, às vezes o sonho pode ser o nosso maior pesadelo. E às vezes é uma bênção quando não conseguimos o que queremos. Já todos passámos por isto.

Por isso é que “The Dark Side Of The Moon” é tão universal – porque nos diz respeito a todos. Porque as armadilhas dos sonhos, do tempo, do dinheiro, do nomadismo, do conflito e, em última instância, da morte, são comuns a todos nós. Somos consumidos pelo que temos, pelo que queremos e pelo que perdemos. Nascemos, trabalhamos e morremos. Qual o sentido da vida? Faz sentido ter medo da morte? Vivemos para alimentar as nossas próprias prisões – a carreira, a prestação do carro e da casa e as pressões do status quo. Por isso é que o “Dark Side” – um ensaio sobre a loucura e o stress induzido pela vida na nossa sociedade ocidental – faz ainda mais sentido hoje do que fazia nos anos 70. Não há discos perfeitos. Mas o mais perfeito de todos os discos é “The Dark Side Of The Moon”. Acho que não há maior ou melhor superlativo que este.

Fiquem em baixo com a performance ao vivo em Wembley do álbum na íntegra (uma das versões incluídas na caixa referida em cima). “Vemo-nos no lado escuro da lua”.

 “O lado escuro da lua não existe, na verdade é tudo escuro.”

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A noite de libertação de Nick Mason


"Welcome to what's apparently the saucer of my secrets. Or my saucers and my secrets, I don't know. The band was unsure of what to call ourselveswe thought about Australian Roger Waters but decided at last minute to change it.
I'm not quite sure if this one is better."
Nick Mason, ao apresentar os Nick Mason's Saucerful Of Secrets no Half Moon, em Londres

Há um nítido sentimento de libertação nesta noite do inesperado regresso de Nick Mason aos palcos. Tenho o privilégio de estar aqui, no Half Moon, um pequeno e claustrofóbico bar em Putney que aparenta levar não mais que 50 pessoas, para esta inusitada ocasião. Olho à volta e lembro-me que foi precisamente para isto que eu me mudei para Londres. O ambiente fervia e todos comentavam entredentes: seria Nick capaz de dar conta do recado? Feitas as contas, ele já não tocava sozinho em palco desde a digressão de "Animals" em 1977, já lá iam mais de 40 anos. Toda a gente levava grande curiosidade, mas a verdade é que ninguém esperava grande coisa.

Desde que Nick Mason começou a ter ajuda nas suas partes de bateria em 1980, na The Wall Tour, que se estabeleceu a ideia generalizada que Nick é um baterista tecnicamente pouco hábil. Houve até alguma surpresa quando ele fez questão de aparecer sozinho no Live 8, em 2005, na famosa reunião dos Floyd. Acontece que já aí o Nick nos estava a tentar dizer alguma coisa.

E disse mais nos últimos anos, quando foi várias vezes convidado por David Gilmour para aparecer nos seus shows a solo e recusou repetidamente. Mason cansou-se de ser tratado como um napron de mesa e deu a saber a David que não estava mais disponível para enfeite, estava apenas e só disponível para os PINK FLOYD. Até porque depois da morte de Richard Wright e da saída de Roger Waters em 1985, Nick + David = Pink Floyd.

Mas David nunca o chamou para os Pink Floyd.

E por isso, farto de ser refém da vontade de Roger e David para poder sair de casa e fazer o que gosta, Nick (que é, note-se, o único músico presente em TODOS os álbuns dos Floyd) resolveu pôr mãos à obra, formar uma banda e provar a todos o quanto estávamos errados sobre a sua aptidão para a bateria.

E eis que chegamos aqui, ao Half Moon, um bar tão recôndito que mais parece um regresso aos longínquos tempos do UFO. É a noite de libertação de Nick Mason e dos seus Saucerful Of Secrets, o supergrupo menos super da História. O centro do palco é tomado por Guy Pratt, carismático baixista de estrada dos Pink Floyd e de David Gilmour desde 1987 (e genro de Richard Wright); nos flancos temos as guitarras de Gary Kemp dos Spandau Ballet (que agora vivem sem Tony Hadley) e de Lee Harris, guitarrista e manager dos The Blockheads pós-Ian Dury (no Técnico chamavam a isto de segunda derivada). Lá atrás, nas teclas, o produtor e mago de estúdio Dom Beken e lá muito ao fundo, demasiado ao fundo para quem é o cabeça de cartaz da noite e o homem que todos vieram ver, Nick Mason — esse mesmo, o baterista proscrito, alegadamente inábil e supostamente reformado dos Pink Floyd. É a noite de redenção deste suspeito grupo de músicos renegados, órfãos de banda e ratos de estúdio que, quais Rocky contra Apollo Creed, tiveram finalmente o seu shot at the title. E boy se o aproveitaram.


""The Nile Song" was actually the first Pink Floyd song I learned how to play when I was a kid. When I was with David, rehearsing for his On An Island tour in 2006, we were suggesting songs and I suggested to play this. And then David suggested that I should play in another band! And so I did!"
Guy Pratt, na introdução de "The Nile Song", tema nunca tocado pelos Pink Floyd

No passado presos à marca dos Pink Floyd, hoje Nick Mason e Guy Pratt foram livres e tocaram a música que conheciam e amavam fora das amarras dos líderes da banda, das telas gigantes e dos porcos a voar. O foco foi a música e exclusivamente o reportório que os Floyd fizeram antes do game-changer "The Dark Side Of The Moon", normalmente e infelizmente esquecido. Em suma, um sonho para qualquer fã dos Floyd. Ora atentem na insana setlist da noite:


A noite foi de glória total. Nick esteve imaculado e provou ser mil vezes o baterista que todos pensavam que ele era. Eu incluído. Impressionante a forma como o velhote varreu o dificílimo crescendo de "Set The Controls For The Heart Of The Sun". Um misto de felicidade e perpelexidade encheu a sala, como se de um sucesso de um velho amigo se tratasse.

Notava-se o nervoso miudinho no palco, mas salvo alguns excessos do teclista e algumas insuficiências nas guitarras (deuses há muitos, mas David Gilmour só há um), a banda esteve no ponto. Curiosamente, as grandes gafes da noite vieram dos membros com maior experiência de palco, com Guy Pratt a não acertar o baixo no crescendo de "A Saucerful Of Secrets" e Gary Kemp a esquecer-se de chegar ao microfone para cantar por diversas vezes, tal era a concentração no seu instrumento. A grande revelação foi Lee Harris, que se encarregou de levantar os pesos mais pesados de David e deu show no solo de "One Of These Days". Só tive pena que Nick não tivesse "cantado" ao vivo a sua famosa linha "one of these days I'm gonna cut you into little pieces".

Nick Mason era o Floyd que me faltava ver ao vivo e nunca pensei que tal se concretizasse nestes moldes. A minha vénia àquele que daqui para a frente terá que ser reconhecido como um fantástico baterista. Poucos dias depois de ter ver o Roger no Atlântico, é o culminar de uma semana maravilhosa para ser um fã dos Pink Floyd.

Saí do Half Moon de coração cheio e com o bónus de levar a setlist do palco na mão. Pensava que a noite não poderia ter corrido melhor. Até que olho para o lado e vejo o homem da noite, ele mesmo, Nick Mason. Depois de andar um dia atrás do Roger para um autógrafo sem sucesso, apanho o Nick assim, casualmente, à saída de um bar. E nisto lembrei-me do que dizia o John Lennon no seu tema "Beautiful Boy": a vida é o que acontece quando estamos ocupados a fazer outros planos. Nem mais.



quarta-feira, 23 de maio de 2018

Roger Waters em Lisboa — Um ataque bombástico aos sentidos

Bem-vindos à máquina — crónica da noite em que Roger nos submeteu à sua centrifugadora sensorial


Antes de falar no concerto de Roger Waters no Atlântico (eu sei, agora é Altice Arena, mas como não sei como se chamará daqui a um ano, fica Atlântico), deixem-me falar-vos primeiro do que significa para mim o Roger.

Vi o Roger pela primeira vez em 2002. Foi o meu primeiro grande concerto e a experiência marcou-me de tal forma que nunca mais quis outra coisa. Passei a minha vida em busca de voltar a agarrar aquele momento efémero de puro êxtase que só é possível obter num concerto, um bingo dos sentidos que nenhum outro evento na vida é capaz de dar. Voltei a apanhá-lo diversas vezes ao longo dos anos e foi no Atlântico que vi o maior espectáculo visual da minha vida, quando cumpri o sonho de ver ao vivo o show do The Wall em 2011.

Embora nunca tenha estado com o Roger pessoalmente, na minha mente a nossa relação é estreita. Foi ele quem me guiou durante a adolescência, trancado no bunker do meu quarto. Para além do meu Pai, nenhum homem me influenciou tanto e marcou tanto a minha vida como o Roger. É um herói, um ídolo. Amo-o. Amo-o com tanta força que o queria beijar na boca. E talvez por isso mesmo ainda bem que nunca tenhamos estado juntos.

Mas já chega de mim, vamos ao Roger. Como todas as mais interessantes personalidades da História da Humanidade (onde ele a seu tempo terá o seu espaço), o Roger é uma figura altamente polarizante. Basta escavar em qualquer caixa de comentários para percebermos que as opiniões se dividem em dois grandes campos: Roger é um génio e Roger é uma besta. E ambos poderão ter absoluta razão.

É compreensível a reacção aos seus anticorpos — a personalidade obnóxia, as opiniões vincadas sobre religião e o conflito entre Israel e Palestina, a forma como tratou o David Gilmour e fez implodir os Pink Floyd — não é fácil gostar de Roger Waters. Do outro lado está o seu incomensurável génio. É da cabeça dele que nascem os conceitos de álbuns maiores que a vida como "The Dark Side Of The Moon", "Animals" e "The Wall", obras de um génio louco e perturbado que não podem ser desligadas de uma personalidade irascível. Avé ao Deus David, cheio de graça, que sofreu pelos nossos pecados e aturou o Roger durante tanto tempo — o tempo suficiente para que pudéssemos desfrutar daquelas obras-primas que engrandecem as nossas vidas.

E é dessas obras que sai o núcleo duro da digressão que Roger trouxe a Lisboa. "Us + Them" (sendo "them" os "outros", todos aqueles que não têm a sua visão) serve de promoção ao seu (excelente) último álbum "Is This The Life We Really Want?", mas é dos clássicos que a maioria da audiência espera. E Roger já chegou a uma idade em que (finalmente) quer dar ao público o que o público quer. É um Roger diferente, este que veio a Lisboa. Mais calmo e meloso, com mais vontade de construir pontes em vez de as queimar. Claro que pelo meio destrói meia dúzia de figuras da política sem dó nem piedade (com Trump no olho do furacão), mas é assim o Roger que nós conhecemos e amamos.

Uma das derivas megalómanas de Roger é que foi ele quem inventou o espectáculo Rock. E se esta afirmação pode não ser totalmente consensual (deveria ser), já na questão de quem faz o maior, mais grandioso, mais meticulosamente calculado espectáculo Rock, aí não há espaço para dúvida — Roger é o mestre desta arte. E quem foi ao Atlântico pôde testemunhar isso na primeira pessoa.

Desde logo pela qualidade sónica do espectáculo. Se já assistiram a um concerto no Atlântico, sabem que a acústica da sala pende entre o mau e o aberrante, um problema de fundo que nunca foi resolvido desde a sua inauguração há vinte anos. Ninguém consegue pôr som em condições naquela sala. Ninguém, com uma única excepção: Roger Waters. Sempre. Entenda-se, os técnicos de som do Roger são tão experientes que conseguiriam pôr música em qualquer casa de banho do mundo. Para eles o Atlântico é só uma segunda-feira. O sistema quadrifónico do Roger enche o Atlântico com minúcia e mestria. Explosões, gritos e todo o tipo de efeitos sonoros atacam-nos por todos os lados, ao mesmo tempo que os instrumentos ouvem-se com claridade e separação. Uma maravilha para os sentidos.




Depois há a componente visual e se Roger é Messi no som, na imagem é Jonas e Cristiano Ronaldo e Eusébio e Pelé e Maradona e Poborsky, tudo ao mesmo tempo. Não há nada nem ninguém sequer minimamente comparável. O momento em que o cenário da Battersea Power Station baixa (não consigo fugir do meu local de trabalho) em "Dogs" vale por si só o preço do bilhete. Todos os que ali estiveram vão contar aos filhos e netos da magnificência daquele momento. O início do segundo set é, aliás, o ponto alto de todo o espectáculo, beneficiando do rico imaginário do álbum "Animals". Segue-se "Pigs (3 Different Ones)" e um porco insuflável gigante viaja pelo Atlântico com a mensagem "mantém-te humano", enquanto imagens de guerra são projectadas no cenário da Power Station. Mais uma maravilha para os sentidos.

Para quem ainda não tinha as pupilas cocainamente dilatadas, Roger dá uma última machadada nos sentidos desenhando o prisma da capa de "The Dark Side Of The Moon" sobre a plateia em "Eclipse". Se por esta altura não estão ainda em completo deslumbramento sensorial, então o melhor é irem ver isso a um cardiologista.


O espectáculo de Roger é uma centrifugadora sensorial. Ele trabalha cada um dos nossos sentidos e submete-os a uma lavagem tal que, no fim do programa, eles saem da máquina lavadinhos, prontos para enfrentarem o mundo cão e mau lá fora mais uma vez (como fazia na minha adolescência). Só quem foi ao Atlântico sabe, só quem foi é que viu, só quem foi sentiu. Entrámos no Atlântico com o peso dos nossos problemas, levámos uma tareia emocional lá dentro e saímos leves, limpos e a levitar.

O momento de maior beleza da noite é guardado para o encore. Sem os adereços dos temas dos Pink Floyd, Roger abre-nos o coração na lindíssima sequência "Wait For Her" / "Oceans Apart" / "Part Of Me Died" que fecha o seu último álbum. Revela-nos que está apaixonado, que finalmente encontrou o amor verdadeiro. E de repente aquela noite de explosões, prismas e porcos a voar ganha uma nova dimensão espiritual.

As comparações com David são inevitáveis. Apesar de tocarem a mesma música, os concertos de um e outro são experiências completamente diferentes. Do lado do David, a preocupação é quase exclusivamente pela música na sua vertente melódica, sendo a parte visual apenas um complemento. Um complemento muitíssimo bem executado, diga-se, como se pode atestar pelo magnífico "Live At Pompeii" do ano passado.

Do lado do Roger, a grande preocupação é mexer com as emoções da audiência. O espectáculo é um mastodonte audiovisual, sensorial e emocional sem paralelo, mas fica atrás do David na parte musical. Isto é particularmente perceptível em temas onde o solo de guitarra reina como "Comfortably Numb" e a falta de David se faz verdadeiramente sentir. E pensar que houve um dia que estas duas forças da natureza trabalhavam juntas.

Em suma, "Us + Them" visa fazer um ataque bombástico aos sentidos da audiência. O espectáculo é uma experiência tão emocionalmente pesada, que depois de três horas a chorar e a carpir mágoas imerso na musica e no espectáculo, saí do Atlântico exausto. Queria vê-lo dois dias seguidos, mas não fui capaz. Não me consegui submeter à mesma montanha russa emocional e passar por todo aquele ordálio mais uma vez.

P.S.: Montez, faz um favor à cultura portuguesa e contrata os técnicos de som do Roger Waters para resolverem a acústica do Atlântico. Eles fazem milagres.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

"David Gilmour Live at Pompeii" é o melhor filme do ano e nem há discussão possível

O melhor filme do ano esteve nos cinemas esta semana. E eu entro nele.

Foi como a passagem de um cometa – efémera e espectacular. O melhor filme do ano esteve nos cinemas esta semana e quem não estava avisado, nem deu por ele. Como um cometa fulgurante, "David Gilmour Live at Pompeii" também foi visto apenas por uma só noite, numa única exibição nos cinemas um pouco por todo o mundo. Quem viu, saiu da sala deslumbrado; quem não viu, tem que esperar pelo DVD/Blu-Ray. Mas já não vai ser a mesma coisa.

Ver o "David Gilmour Live at Pompeii" no cinema, imerso num sistema de som pomposamente baptizado de 'Dolby Atmos' (um sem-número de colunas espalhadas por toda a sala), sentiu-se como um privilégio. Um espectáculo para os sentidos e uma experiência quasi-religiosa. Foi certamente o mais próximo que poderia estar de regressar àquela noite mágica em Pompeia. Não me odeiem, mas sim, eu estive "lá" há um ano e foi "só" a melhor noite da minha vida. Na altura, contei aqui na NiT a história da minha imensa expectativa para o concerto e, na ressaca, o sentimento que depois daquilo não havia mais nada para ver. Sorte a minha que o David decidiu gravar aquela noite para a eternidade.

O filme começa com um pequeno documentário a contar a história de como David chegou a Pompeia e conseguiu autorização para o primeiro espectáculo com público no anfiteatro romano desde o tempo dos gladiadores (79 d.C., para ser mais preciso). David já ali tinha actuado com os Pink Floyd em Outubro de 1971, mas sem público, para a gravação do filme "Pink Floyd Live At Pompeii" de Adrien Maben. No seu regresso, David tocou para uma audiência de apenas duas mil pessoas em duas noites, com o filme a documentar quase exclusivamente a segunda noite (a melhor das duas, mas sou suspeito – foi a minha!). Das imagens dos ensaios em Brighton com a nova banda – devidamente vigiados pelo lindíssimo Kahn (o pastor-alemão do David) – saltamos para Pompeia e para a recepção heróica de David por parte do presidente da cidade, que o distinguiu como cidadão honorário. E assim chegamos à noite do concerto e ao prato principal do filme.

O concerto abre com o instrumental "5 A.M." (que também dá início ao último álbum "Rattle That Lock"), num magnífico plano de um drone a cobrir o anfiteatro em ruínas, sob o olhar ameaçador do Vesúvio ao fundo. O vulcão esteve tranquilo nessa noite e não se importou de assumir os papéis de cenário e personagem-chave no filme; também ele queria ver o David, aposto.

É muito difícil apontar momentos altos no orgasmo contínuo de duas horas que se seguiu. Talvez "High Hopes", porque é só a melhor música de sempre; talvez "Sorrow", porque estremeceu todo o complexo do Almada Fórum (a única sala na zona de Lisboa com o sistema 'Dolby Atmos'); talvez "One Of These Days", porque foi o único tema repetido de 1971 e o momento mais puro Floyd da noite; talvez "Comfortably Numb", porque tem o melhor solo de guitarra do universo e mais além.



Mas houve muito mais para além do já esperado brilhantismo da épica música dos Floyd (e do David a solo). Perdidas no filme, houve diversas pequenas pérolas que fizeram brilhar o filme-concerto: por exemplo, o momento em que David é surpreendido pelo arsenal descarregado no fogo-de-artifício em "Run Like Hell" e tem uma visível reacção de "qué esta merda?"a olhar para o céu (acreditem, eu também fiquei estúpido a ver aquilo); quando Roger Waters faz uma aparição especial neste tema, com o seu grito maníaco a rebentar nas colunas traseiras da sala; ou quando David abre o coração e fala sobre "fantasmas do passado" em Pompeia, referindo-se a Richard Wright, seu amigo e colega dos Floyd, falecido em 2008.

Senãos? Houve poucos. O maior terá sido a realização demasiadamente esquizofrénica, sinal dos tempos que correm. Não há tempo para apreciar um plano, porque o realizador salta logo para o seguinte. Saudades dos planos longos e contemplativos da guitarra de David no filme original dos Floyd. Aqui cada plano não dura mais que 3 a 4 segundos, o que não casa muito bem com o tom melancólico de grande parte da música ali tocada. Materializar um momento tão superlativo numa fita de filme não era tarefa fácil, admito-o. Gavin Elder – o realizador – fê-lo de forma fenomenal, mas entusiasmou-se um bocadinho demais. Não o condeno.

A nível sonoro, para quem está a obsessivamente ouvir o bootleg do concerto desde há um ano, também tenho umas coisas a dizer: de positivo, a pós-produção de bom gosto a que certos temas foram sujeitos, com a introdução de alguns efeitos sonoros que ouvimos nos álbuns, nomeadamente o já referido grito do Roger no "Run Like Hell", o rádio em "Wish You Were Here", ou os relógios em "Time";  de negativo, o inexplicável afogamento das partes do baixista Guy Pratt na mistura. Guy é uma besta do baixo e gosta de introduzir aqui e ali várias licks de improviso que dão um toque de imprevisibilidade aos espectáculos de David; é um espectáculo dentro do espectáculo. Foi uma pena perceber que as suas licks foram suprimidas, ou ficaram indissociavelmente perdidas na mistura.

Note-se que o concerto foi fortemente editado para a versão de cinema. Tive pena, porque a sala anunciava um filme de 180 minutos e a sessão acabou por durar pouco mais de duas horas, já contando com o documentário. Mas compreendo que nem todo o público tenha estômago para uma sessão de 3 horas e meia. Os temas cortados na versão de cinema foram: "Faces Of Stone", "The Blue", "Money", "Fat Old Sun", "Coming Back to Life", "On An Island", "The Girl In The Yellow Dress" (esta felizmente nem no DVD estará) e "Today". Aproximadamente uma hora de concerto que fica em exclusivo para o lançamento DVD / Blu-Ray do filme do ano (que me perdoe o Bruno Vaz, mas este tópico não merece discussão). Já estou em pulgas para ver tudo em casa novamente.

P.S.: Se quiserem ler mais sobre a minha aventura a seguir o David Gilmour nos últimos 2 anos (7 concertos em 4 países: Croácia, Itália, Estados Unidos e Inglaterra), podem consultar os seguintes tópicos publicados ao longo deste período aqui na NiT e no meu blog – a menina dos meus olhos – o Escolha Musical do Dia:

Capítulo 1: "Inspira / Expira"
Capítulo 2: "Rattle That Broken Foot Tour Journal – Três Prólogos"
Capítulo 3: "Rattle That Broken Fout Tour Journal – Um Fariseu em Pula"
Capítulo 4: "Rattle That Broken Fout Tour Journal – Gilmour e Gladiadores no Arena di Verona"
Capítulo 5: "Rattle That Broken Fout Tour Journal – Siga para Florença"
Capítulo 6: "Adeus, David Gilmour – A caminho de Pompeia"
Capítulo 7: "David Gilmour em Pompeia: depois disto, não há mais nada para ver"
Capítulo 8: "Adeus, David Gilmour (outra vez) – O último Royal Albert Hall"
Capítulo 9: "A dream within a dream – A banda sonora da minha vida é um filme"
Capítulo 10: "Coração cheio"

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

David Gilmour e um Fariseu em Pula

Quando eu tive o David Gilmour à distância da minha canadiana na Arena de Pula, lembrei-me de um episódio bíblico.



Conta o Novo Testamento que quando os Fariseus conheceram Jesus Cristo, não ficaram muito impressionados. Os Fariseus sabiam de estórias de um Rei cujo reino "não fazia parte deste mundo", um Rei dos Reis, mas quando lhes apareceu, Jesus era "apenas" um homem mal vestido que falava de maneira diferente. "O quê? É isto?! É este gajo? Este gajo está vestido pior que nós!", terão protestado os Fariseus, num qualquer dialecto hebraico.

Quando eu tive o David Gilmour à distância da minha canadiana na Arena de Pula, na Croácia, lembrei-me deste episódio bíblico. Durante toda a minha vida, tive Gilmour como um ser divino, criador de obras que engrandeceram a minha existência. Mas agora este ser divino estava ali, tão perto de mim, mais perto do que eu poderia imaginar quando o meu Pai me submetia a visualizações repetidas do concerto dos Pink Floyd em Veneza. Vi-o como um qualquer Fariseu que teve o acaso de se cruzar com aquele a quem chamavam o Rei dos Reis. E assim pude ver que David Gilmour é "apenas" um homem vestido com uma t-shirt preta. David é, afinal, humano.

Mas vamos ao princípio. Recuemos 24 horas.
Chego a Pula no dia anterior ao concerto e vou directo para a Arena. Estão a montar o palco e pasme-se, as visitas turísticas ainda estão abertas. Entro. WOWOWOW!!! O que é isto? PINK FLOYD WORLD TOUR? Equipamento dos Pink Floyd?! Nem acredito que me deixam andar ali.
Ao fim da tarde, enquanto virava canecas num bar com vista panorâmica para a Arena, David aparece para o soundcheck. Sem mais, começa a despejar temas do novo álbum, um depois do outro, seis no total. Incrível, um concerto de borla!
Depois vem "Wish You Were Here". Esta todos conhecem, é vê-los de telemóvel em punho, a gravar o momento. Cena normal nos nossos dias. Mas David ainda tem mais uma na manga. Pam... Pam... Pam... Pam... "High Hopes"! A minha reacção neste momento não deveria ser descrita aqui, sob pena de perder a imagem máscula perante as meninas. Mas que se foda. Mal ouvi o sino, desatei a chorar descontroladamente, cara escondida no braço da canadiana. "High Hopes" é a minha música, o meu elixir. Naquele momento, tudo valera a pena. O pé partido, o risco da viagem solitária para a Croácia, o frio que rapei em Zagreb, tudo fora compensado.

Fast-forward para o concerto. Já conhecendo os cantos à casa, finto a segurança e consigo entrar com uma garrafa de Jameson. Ouvir Pink Floyd sóbrio também é fixe, é verdade, mas para que é que eu haveria de fazer uma coisa dessas?
Vou directo com um LP do "The Division Bell" para junto do camarim do David, na esperança de um autógrafo. Poucos minutos depois, David sai do camarim. "DAAAAVID!", grito em súplica. David vira-se e vem na minha direcção. Quase a chegar, a um metro apenas, David repara que naqueles parcos segundos se haviam juntado dezenas atrás de mim. David pára. Vira-se. Vai-se embora.
"FODA-SE! Estive tão TÃO perto! FODA-SE!", gritei num português que pareceu aos demais um qualquer dialecto hebraico.

Procuro o meu lugar. Segunda fila, ainda a inspirar o fumo saído do palco, que maravilha. E logo chega David, com todas as rugas à minha frente, juntando o ar frágil de um homem de 69 anos, com a robustez de quem teve que aturar o Roger Waters durante quase duas décadas.
Não sabia nada da setlist e tinha feito um aviso de excomunhão a quem ousasse quebrar-me esse segredo. Por isso quando David arrancou com o BRRRRRUMMMM de "Sorrow", saltei da cadeira num grito que deve ter sido audível no outro lado do Adriático (na verdade são dois gritos bem audíveis neste vídeo). Foi o meu momento da noite.
Ao longo da noite, David fartou-se de borrar a pintura, num concerto longe da perfeição, mas tão perto de mim. Pude ver que ele é "apenas" um homem e passei a amá-lo ainda mais por isso. Porque David Gilmour não é um homem qualquer, é um homem que cria coisas divinas.

Artigo publicado originalmente
na revista online New In Town (NiT), 
Segunda-Feira, 10 de Outubro de 2015