Mostrar mensagens com a etiqueta Artista: Guns N' Roses. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Artista: Guns N' Roses. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Apetite por dinheiro - Quando as edições de luxo caem no ridículo

Os Guns N' Roses passaram de Apetite por Destruição para apetite por dinheiro na reedição de "Appetite For Destruction"

Vem aí a reedição de "Appetite For Destruction", o primeiro álbum dos Guns N' Roses e muito mais que o melhor álbum da banda de Hollywood, um fortíssimo candidato para melhor álbum Rock de sempre. "Ei, lá está este gajo com os exageros do costume", já vos estou a ouvir. Nada disso, meus amigos. Todos os superlativos são parcos para traçar "Apetite For Destruction" como a besta destrutiva sem paralelo que é. Aqui não há Hakuna Matata para ninguém. Isto é o manual de sobrevivência para a selva urbana. Appetite entra a matar com "Welcome To the Jungle" e fixa à cabeça uma bitola altíssima de onde não mais sai. E daí advém o único senão do disco: é que é, de facto, um álbum cansativo.

Desde que se ouvem os primeiros acordes em eco de Slash e rebenta o grito maníaco de Axl, que "Appetite For Destruction" nos agarra pelo pescoço e nos sujeita a uma tareia emocional de tal ordem, que quando chegamos ao fim de "Paradise City", já estamos fisicamente de rastos. O problema é que ao contrário dos concertos dos Guns, aqui ainda só vamos a meio do álbum! Hora, pois, de levantar a agulha, mudar o disco de lado e levar com mais uma torrente visceral de riffs sujos, solos maiores que a vida e gemidos de orgasmos (sim, é "isso" mesmo que ouvem em "Rocket Queen"). O resto do álbum é passado num estado de transe, como um cavalo que continua a levar pauladas quando já morto no chão.

Quando os oceanos secarem, o céu ficar vermelho e o apocalipse das máquinas se bater sobre nós (como bem ilustrado na capa original censurada em 1987 e obviamente censurada neste mundo de coninhas de 2018), algures num gira-discos ainda tocará "Appetite For Destruction" e aí sim, será dado o cenário perfeito para se ouvir o melhor e mais mau álbum Rock de sempre.



Mas voltemos à Terra.

Somado a tudo o que exponho em cima, está o facto de "Appetite For Destruction" ser, a nível pessoal, um dos álbuns da minha vida. Um disco que nos meus dezoito anos revolucionou a maneira como me vestia, como me expressava e como me relacionava com o mundo. O sol brilha quando ouço Appetite. Até em Londres. Por isso imaginam o entusiasmo com que fui tomado quando ouvi o anúncio da reedição deste álbum. E a desilusão que se seguiu. Pior que desilusão, um sentimento de traição, a roçar a ofensa. Os Guns passaram de apetite por destruição para apetite por dinheiro.

Atenção. Notem que este não é um artigo a acusar os Guns de quererem ganhar dinheiro — quem faz uma obra-prima daquelas, tem direito a todo o dinheiro do banco. Muito menos é um artigo sobre como as edições de luxo são a nova forma de extorsão das editoras — eu ADORO ser extorquido com edições de luxo dos meus álbuns preferidos e estou sempre preparado para largar grandes quantias pela música que eu amo. E nem sequer é um artigo de revolta pelo preço da edição "Locked N' Loaded" , uma caixa surreal que custa a módica quantia de 1000 euros — o colecionador obsessivo que há em mim (e que vence invariavelmente o bom-senso) quer sempre a opção mais alta e em condições normais, eu iria acabar por vergar à caixa de luxo. Mas não me posso sentir estúpido. Se querem o meu dinheiro, têm que me dar conteúdo. É só disso que se trata.


https://www.youtube.com/watch?v=CpVrCQv3m7c

Como alguém que compra praticamente todas as edições de luxo das suas bandas preferidas — e acreditem, são muitas — por mais extravagantes e caras que sejam e que tem uma casa que parece um museu da secção de boxed sets da Fnac (se a loja já existisse nos anos 70), acho que tenho alguma autoridade na matéria.
Mais que isso, para alguém que sabe um pouco do que foi a história fascinante e improvável (quase do campo da fantasia) daquela que era à data a banda mais perigosa do mundo, não posso deixar de me senti traído pela minha banda preferida dos meus anos de faculdade.

"If you got the money, honey, we got your disease"

A magia que acontecia quando aqueles 5 ex-delinquentes (agora milionários) começavam a gravar é inapelável. Aconteceu naquele tempo (1985-1987), naquele lugar (Hollywood), naquele clima (a ferver) e com os AppetiteFive (Axl, Slash, Izzy, Duff, Steven). Tudo o que eles fizeram é documento histórico e deve ser tratado como tal. Não me importo (mesmo) de inchar com os 1000 euros, mas para isso têm que me dar tudo na caixa. TUDO. Mas já lá vamos.

Para começar, é absolutamente ofensivo deixar de fora da caixa a gravação original de "Don't Cry", uma das melhores de sempre dos Guns, que só ficou de fora de "Appetite For Destruction" porque — e estou a citar o Axl — já havia uma balada no álbum ("Sweet Child O' Mine"). A decisão, se tinha que ser feita entre os dois, foi a correcta. Mas que explicação é há para ficar de fora outra vez? Guardar para a caixa dos "Use Your Illusion"? Não faz sentido. 1985 é 1985 e 1991 é 1991. Anos diferentes, gravações diferentes. As versões dos Illusions são boas, mas o cheiro a látex já lá não está. Ouçam a gravação original dos Mystic Studios em 1985 (em baixo) e digam-me se não sentem o cheiro a sexo, suor e látex a sair pelas colunas.


https://www.youtube.com/watch?v=JPS2NQyz7Js

Depois há a (tão aplaudida) decisão de deixar de fora "One In A Million", ao mesmo tempo que inclui os restantes temas de "G N' R Lies". O tema é ofensivo, sim. É de mau gosto, é. Mas porra, e depois? Se existe, se foi escrito nos anos de Appetite na casa de West Arkeen, gravado nesta altura e representa um determinado tempo, então porquê ficar de fora da caixa? Está tudo tranquilo com o facto de começarmos a apagar a história?

Mas o pior é a quantidade de lixo que está presente na caixa e que só serve para encarecer o preço. Caveiras? Bandanas? Posters? Mas isto é uma caixa para miúdos de 16 anos ou para miúdos que tiveram 16 anos há 30? E quem é que com 16 anos tem mesadas de 1000 euros?

O potencial para esta caixa era enorme. A ainda existirem, não há qualquer razão para as sessões de gravação dos AppetiteFive não aparecerem aqui na sua totalidade. E já nem estou a contar com os home demos de West Arkeen (por exemplo) que existem, andam por aí em circulação, mas não têm aquela magia dos AppetiteFive. Sem contar com documentos ao vivo (completamente ausentes da caixa, salvo uns B-Sides), era assim que devia ser a edição "Locked N' Loaded":

CD 1 + LP 1-2 (45rpm): Appetite For Destruction
1. Welcome To The Jungle
2. It's So Easy
3. Nightrain
4. Out Ta Get Me
5. Mr. Brownstone
6. Paradise City
7. My Michelle
8. Think About You
9. Sweet Child O' Mine
10. You're Crazy
11. Anything Goes
12. Rocket Queen

CD 2 + LP 3-4: B-Sides N’ EPs
Live ?!*@ Like a Suicide
1. Reckless Life
2. Nice Boys
3. Move To The City
4. Mama Kin
Live From The Jungle
5. Shadow Of Your Love (Live)
6. It’s So Easy (Live at The Marquee 28 June 1987)
7. Knockin’ On Heaven’s Door (Live at The Marquee 28 June 1987)
8. Whole Lotta Rosie (Live at The Marquee 28 June 1987)
Sweet Child O' Mine 7"
9. Sweet Child O' Mine (Edit/Remix)
Welcome To The Jungle 12"
10. You’re Crazy (Acoustic Version)
G N' R Lies
11. Patience
12. Used To Love Her
13. You’re Crazy
14. One In A Million
Patience 12"
15. Interview With W. Axl Rose

CD 3 + LP 5-6: Appetite Sessions Part 1
Mystic Studios (August 1985)
1. Welcome to the Jungle (5:00)
2. Anything Goes (5:11)
3. Don’t Cry (4:42)
4. Back Off Bitch (4:57)
5. Heartbreak Hotel
Sound City (June 2-4, 1986) Part 1
6. Nightrain (4:54)
7. Rocket Queen take 1 (6:13)
8. Out Ta Get Me (4:02)
9. Think About You (3:54)
10. My Michelle (4:23)
11. You’re Crazy (3:24)
12. Paradise City (5:40)
13. Move to the City take 1 (3:15)
14. Jumpin’ Jack Flash (3:26)
15. Shadow of Your Love (2:43)
16. November Rain piano (9:44)
(77 min)

CD 4 + LP 7-8: Appetite Sessions Part 2
Sound City (June 2-4, 1986) Part 2
1. Welcome to the Jungle (4:59)
2. Don’t Cry (5:19)
3. Nice Boys (2:59)
4. Back Off Bitch (4:41)
5. Anything Goes (4:33)
6. Rocket Queen take 2 (6:07)
7. Reckless Life (2:47)
8. Move to the City take 2
9. Mama Kin (3:29)
10. Heartbreak Hotel (4:41)
11. November Rain acoustic (4:54)
12. Ain’t Goin’ Down No More (instrumental) (3:33)
13. Jumpin’ Jack Flash acoustic (3:53)
14. Move to the City acoustic (3:48)
15. Untitled song in progress
16. You’re Crazy acoustic
17. The Plague
18. Cornshucker Stomp
19. New Work Tune
(78 min)

CD 5 + LP 9: Appetite Sessions Part 3
Pasha Studios (August 1986)
1. Sweet Child O’ Mine (6:29)
2. Nightrain (5:14)
3. Jumpin’ Jack Flash (3:31)
4. You’re Crazy (3:35)
5. Reckless Life (3:11)
6. Heartbreak Hotel (4:15)
7. Shadow of Your Love (2:59)
8. Welcome to the Jungle (4:59)
9. Don't Cry (5:25)
10. Mr. Brownstone (4:13)
11. Move to the City [clean Live Like a Suicide] (3:27)
12. Mama Kin [clean Live Like a Suicide] (3:41)
13. Nice Boys [clean Live Like a Suicide] (?:??)

CD 6 + LP 10-11: Appetite Sessions Part 4
Rumbo Studios, Take One Studio & Can Am Studio (Fall 1986 | Producer: Mike Clink)
1. Welcome to the Jungle
2. It’s So Easy
3. Nightrain
4. Out Ta Get Me
5. Mr. Brownstone
6. Paradise City
7. My Michelle
8. Think About You
9. Sweet Child O’ Mine
10. You’re Crazy
11. Anything Goes
12. Rocket Queen
Rumbo Studios (1988)
13. Patience (5:56)
14. One in a Million (6:32)
15. You’re Crazy (4:26)
16. Used To Love Her (1:30)
17. Cornshucker (4:20)

Mas calma, que não é tudo. Se a caixa dos Queen com a discografia completa em 15 LPs me custou 400 euros e a caixa "The Early Years" dos Pink Floyd com 27 discos foi 450€, com 11 LPs e 6 CDs ainda estamos muito longe da relação ideal "value for money". Uma vez que as faixas exclusivas aos singles já estão nos discos "B-Sides N' EPs", os 12" que aparecem na caixa tornam-se também redundantes, pelo que não precisamos deles. Falta-nos, obviamente, material ao vivo. Para justificar o preço, tem que ser muito e em boa qualidade. No mínimo, deveríamos ter :

  • CD e LP com concerto completo do Marquee em 1987 (parcialmente lançado em lados B e no EP japonês conhecido como Live In The Jungle);
  • Blu-Ray e LP com concerto completo do Ritz em 1988;
  • Blu-Ray com documentário com entrevistas novas com os AppetiteFive, a Adriana dos gemidos de "Rocket Queen", David Geffen, etc;
  • Blu-Ray com as melhores versões possíveis dos históricos concertos do Roxy, Troubador e Music Machine;
  • Blu-Ray com remistura em surround e álbum em HD (este está na caixa!!!). 

E aí sim, levavam-me os 1000 euros. Desta forma, desculpem lá, mas não vai dar. Simplesmente não consigo justificar a mim mesmo gastar tanto dinheiro por tão pouco. Claro que nem tudo é mau nesta edição. Temos as sessões de "Sound City", ainda que incompletas, e daí já ouvimos o fortíssimo "Shadow Of Your Love", onde podemos imediatamente sentir a importância de Steven Adler na sonoridade da banda — um baterista que dança a tocar. Mas é insuficiente. Por muito que eu ame o "Appetite For Destruction", vou ter que boicotar esta reedição. Tem que ser dado algum tipo de sinal às editoras para que, se nos quiserem extorquir, tenham que incutir valor no seu produto.


https://www.youtube.com/watch?v=aHUmy5PvPjQ

Quem é que estou a enganar? Às tantas não vou de férias este ano. Ou então vendo um rim.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Slash é Deus e outras notas do concerto dos Guns N' Roses

Passadas duas semanas, ainda estou em lua de mel com aquela noite mágica no Passeio Marítimo de Algés


Sexta-feira, 3 de Junho. Fui ao Passeio Marítimo de Algés ver os Guns N' Roses pela terceira vez, mas a meio do primeiro tema percebi que afinal era a só primeira vez que eu estava a ver Guns N' Roses. As duas primeiras (2006 e 2010) foram outra coisa qualquer que depois disto, eu nem me quero lembrar. Foi uma revelação. Depois dos anos das trevas, a minha fé nos Guns N' Roses foi restaurada. E acho que os 60 mil ali presentes sentiram o mesmo.

Desde então, passaram-se duas semanas, mas ainda estou em recuperação do concerto. Literalmente, porque algures no meio da confusão, alguém me terá passado uma daquelas belas viroses e a minha garganta ainda não recuperou; e porque ainda estou abananado com o que vi e senti em frente àquele palco. Seguem-se algumas notas sobre o concerto, com o habitual aviso que podem esperar superlativos.

Vou começar por fazer uma revelação da forma mais heterossexual que conseguir. Aqui vai: o Slash a tocar guitarra é das coisas mais lindas, mais maravilhosas, que se pode ver em vida. Period. É uma visão deslumbrante, olhar para aquele desenho animado humano de cartola em cima de uma farta cabeleira, a expelir sons divinos de uma guitarra. A alma que Slash injecta à música (mesmo quando não é escrita por ele) é uma virtude tão superlativa que só pode ser classificada de uma forma: é um dom. Foi a primeira vez que ouvi o seu cover de "Wish You Were Here" (obra de outro Deus da guitarra) e para não vos dizer que foi do caralhão (não posso fazer uso de palavrões aqui), digo só que foi um dos pontos altos do concerto. Slash é Deus. Period.

O Duff é uma máquina de coolness clinicamente bem oleada. O baixo e o penteado estão sempre no ponto. Tudo bem feito.

Adoro o tio Axl. Fui um dos poucos que saiu em defesa da sua escolha para novo vocalista dos AC/DC antes do histórico concerto de Algés (depois foi fácil, até o Guardian lhe deu 5 estrelas). Mas se no ano passado ele esteve imperial, este ano mostrou zonas cegas no espectro vocal e entrou demasiadas vezes em modo Mickey Mouse. Também não me pareceu muito bem disposto, embora não tenha sido isso a afectar a sua performance. O pior foi a inexplicável insistência em assassinar a sua própria versão de "Knockin' On Hevaen's Door" de Bob Dylan, que todos aprendemos a amar com os seus "hey, hey, hey-hey-yeaah". Para onde foram?!

"Estranged" e "Coma" foram os musts da noite. Que delícia para os olhos e os ouvidos. Dois épicos imaculadamente interpretados, que mostram que os Guns N' Roses foram um dia a perfeita fusão entre a melodia de Elton John, a luxúria dos Aerosmith, a pompa dos Queen e a grandiosidade dos Pink Floyd e tudo isto em plena era do Grunge, que negava todos os anteriores.

"Better" nunca foi sequer um dos melhores temas dos "NuGuns" (Guns sem Slash e Duff) e não tem rigorosamente nada a ver com a sonoridade da banda original; chega a ser ofensivo ver isto ao lado dos clássicos. No pólo oposto está "This I Love", que parece talhada para as mãozinhas de Slash. Juntamente com "There Was A Time" (o melhor tema dos NuGuns, infelizmente ausente da setlist), "The Blues" ("Street Of Dreams", o tanas), "Catcher In The Rhye" (com Brian May!) e "Madagascar", merecia uma reimaginação com a banda original. Pensando nisso, até "Shackler's Revenge" poderia resultar; o que me leva a crer que no meio de algum verbo de encher e diluído em toda aquela super-produção, há um grande álbum escondido em "Chinese Democracy". Mas deixemos essa análise para outro dia.

Para já, o mais importante é que alguém agarre no Izzy – nem que seja com sacos de notas – e o meta dentro de um estúdio a escrever "canções dos Guns N' Roses". Porque só ele sabe exactamente como se faz. Mas lá estou eu a divagar; voltemos a Algés.

Não foi barato, mas fui para o Golden Circle. O veredicto? Foram os 130€ mais bem empregues do último ano. Ainda há pouco tempo houve quem desse 500€ por um saco-cama para ir ver o Papa, mas esse não tocava o "Paradise City" de costas. Eu dei 130€ e vi Deus. O que me leva ao próximo ponto.
Slash é Deus. Não sei se já tinha dito.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Bem-vindos à selva, novamente: tudo sobre a iminente reunião (incompleta) dos Guns N' Roses

Desde a noite do nó em Hollywood, a 6 de Junho de 1985 (depois de apenas um dia de ensaios), que a formação clássica dos Guns N' Roses, composta por Axl Rose, Slash, Duff McKagan, Izzy Stradlin e Steven Adler, protagonizou um dos casamentos mais apaixonantes e explosivos do Rock N' Roll. Com a paixão, veio a tormenta e o drama não mais abandonou esta relação até à sua implosão em meados da década de 90. A maior banda Rock N' Roll dos últimos 30 anos está agora prestes a reunir-se e a questão que fica, à partida, é... valerá a pena?


Em primeiro lugar, é preciso perceber que a banda que gravou "Appetite For Destruction" e semeou o caos na Califórnia em finais dos anos 80 já não existe. Apesar de vivos (o que, convenhamos, era extremamente improvável), Axl, Slash, Duff, Izzy e Steven estão mais velhos, mais cínicos e alguns apresentam limitações evidentes - Izzy não gosta de andar estrada e Steven teve um AVC (e problemas recorrentes com drogas e... com toda a gente na banda). Mas mesmo se se juntassem novamente, essa já não seria a banda de delinquentes que os eram Guns nos 80s. A reunião do gangue de Hollywood original é uma ideia entre o impossível e o imaginário.

Restam então Axl, Slash e Duff, a quem se deve juntar Dizzy Reed da formação de "Use Your Illusion", bem como Richard Fortus (guitarrista desde 2001) e Frank Ferrer (baterista desde 2006) da formação mais recente, ocupando os lugares de Izzy e Steven, respectivamente. Fica um sabor agridoce nesta que parece ser uma reunião híbrida entre membros originais (Axl, Slash, Duff e vá, Dizzy) e membros da formação Axl-e-amigos (Frank e Fortus), mas isto pode até ser um bom sinal. Senão vejamos: Steven e Izzy são dois músicos voláteis, que a qualquer momento poderiam sair e pôr em riscos os contratos milionários que aí vêm; já Slash e Duff são dois workaholics que nunca pararam desde que saíram dos Guns, mantendo-se em sucessivos ciclos de álbum-digressão-álbum. Duff até já acompanhou os Guns na América do Sul em 2014, pelo que o factor novo aqui acaba por ser o regresso de Slash.

Assim, em vez de ser uma reunião de nostalgia pura, a soma de dois músicos funcionais permite que esta reunião híbrida possa sonhar em ser uma banda outra vez.  O Metal Sludge fala na possibilidade de um punhado de temas novos (Slash está sempre a sacar de riffs novos da carteira) e isso é, até ver, a mais entusiasmante de todas as notícias. Claro que isto pode entrar em conflito com o ritmo absurdamente vagaroso de Axl Rose, mas se chegámos até aqui, por que não esperar um bocadinho mais?

A reunião vale a pena? CLARO QUE SIM. Claro que a reunião de músicos com uma química única vale sempre a pena, independentemente da idade e da pança que apresentam (as bocas do peso não têm piada nem originalidade). Não é a mesma coisa? Claro que não, mas e depois? Nunca nada é igual ao que já foi. Resta-me desejar que Izzy entre no (eventual) processo de criação de temas novos, era ele a espinha-dorsal da banda original.

A reunião (incompleta) dos Guns N' Roses parece iminente e a qualquer hora podem surgir novos desenvolvimentos na novela interminável do Rock N' Roll que é a banda de Los Angeles. Antes do anúncio oficial, vamos fazer uma revisão dos acontecimentos por ordem cronológica (obrigado ao MyGNRforum pela ajuda):

7 de Junho de 2014: Guns N' Roses (versão Axl-e-amigos) dão o último espectáculo, fechando a residência no Hard Rock Hotel, em Las Vegas. Comenta-se que "as coisas ficaram em Vegas";

1 de Julho de 2014: É lançado o vídeo "Appetite For Democracy" que documenta a residência em Las Vegas, tal só é possível com a aprovação de Slash;

22 de Agosto de 2014: Slash culpa os media pelos conflitos entre os membros dos Guns N' Roses;

1 de Outubro de 2014: O radialista Eddie Trunk, conhecido "insider" dos Guns N' Roses, comenta: "a reunião está em andamento";

6 de Outubro de 2014: Slash enumera as qualidades de Axl Rose;

6 de Dezembro de 2014: Richard Fortus, guitarrista dos Guns N' Roses desde 2001, (ainda) fala sobre o próximo álbum da banda e refere que pode incluir material dos tempos de Slash;

26 de Janeiro de 2015: Del James, um dos homens mais próximos de Axl, faz um tag a Slash no Twitter;

6 de Fevereiro de 2015: Slash deseja feliz aniversário a Axl Rose no Twitter;

22 de Fevereiro de 2015: Tommy Stinson, baixista dos Guns N' Roses desde 2001, revela que "está fora do circuito" da banda;

1 de Maio de 2015: Slash volta a elogiar Axl Rose: "Axl é criativamente explosivo, tudo o que ouvem dele é honesto até ao tutano";

7 de Maio de 2015: Slash diz "nunca digo nunca" a uma reunião do Guns N' Roses, admitindo a animosidade entre ele e Axl já se dissipou;

15 de Maio de 2015: Slash afirma que Axl Rose é o melhor frontman de todos os tempos;

22 de Maio de 2015: Duff McKagan admite que uma reunião dos Guns N' Roses "pode acontecer";

27 de Julho de 2015: DJ Ashba, guitarrista dos Guns N' Roses desde 2009, abandona a banda com uma carta aberta;

31 de Julho de 2015: Bumblefoot, guitarrista desde 2006, deixa também os Guns N' Roses de acordo com uma "fonte dentro da banda";

22 de Agosto de 2015: Slash confirma na imprensa sueca que voltou a falar com Axl: "já não era sem tempo";

2 de Outubro de 2015: Richard Fortus diz que não sabe o que se passa com os Guns N' Roses;

7 de Outubro de 2015: Matt Sorum, baterista que substituiu Steven Adler em 1990 e ficou até 1997, recusa-se a falar na reunião: "Invoco a quinta emenda";

9 de Outubro de 2015: Gilby Clarke diz que gostava de fazer parte da reunião;

14 de Outubro de 2015: Blitz revela que há uma proposta para a versão original dos Guns N' Roses tocar em Portugal em 2016;

5 Novembro de 2015: Um dos maiores promotores argentinos refere que a versão original dos Guns N' Roses se vai reunir para o ano;

12 de Novembro de 2015: Nikki Sixx dos Motley Crue diz que os Guns N' Roses se vão reunir e já "toda a gente sabe";

25 de Dezembro de 2015: Guns N' Roses apagam o seu site oficial, deixando apenas o logótipo original da banda desenhado por Slash.

26 de Dezembro de 2015: Um anúncio misterioso começa a passar nos cinemas americanos antes do novo filme da saga "Star Wars" e o site Metal Sludge refere que pode vir aí novo material da nova-velha formação;

27 de Dezembro de 2015: Eddie Trunk revela que o anúncio será feito "na próxima Terça-Feira", a 5 de Janeiro, dia do anúncio do cartaz de Coachella;

29 de Dezembro de 2015: A Billboard confirma que os Guns N' Roses vão a Coachella em 2016 e avança com uma digressão de 25 estádios nos EUA durante o Verão. Começa a circular informação que a primeira aparição da banda reunida será a 6 de Janeiro no programa de Jimmy Kimmel.
A reunião parece iminente.