A propósito do casal que angariou dinheiro para tirar do ar uma das canções mais amadas e mais generosas da quadra natalícia.
Se têm acompanhado as notícias desta silly season natalícia, já devem ter lido sobre aquele casal de imbecis que convenceu centenas de outros imbecis a doarem dinheiro para a causa mais estúpida do ano — comprar os direitos de "Last Christmas" dos Wham!, destruir as masters e tirar a música do ar. Não que eu queira dar muita publicidade a este grupo de idiotas, mas a NiT escreveu sobre isso, e podem ler tudo aqui.
Como piada, a ideia pode funcionar para os tristes. Mais que isso, não passa de uma manobra para ganhar publicidade (como eu lhes estou aqui a dar), ou, na pior das hipóteses, uma grande burla. Na prática, a ideia é obviamente inexequível. "Last Christmas" é uma das mais populares, mais perenes e mais amadas canções de Natal da História da música popular. Foi originalmente lançada em 1984, há quase 40 anos, mas a sua popularidade não pára de aumentar. Originalmente impedida de chegar ao lugar cimeiro das tabelas por outro grande hit natalício onde George Michael também canta — "Do They Know It's Christmas", da Band Aid —, "Last Christmas" foi até há 2 anos o single mais vendido nas tabelas britânicas que nunca chegara a número 1. Foi apenas na última semana de 2020 (tecnicamente no dia 1 Janeiro de 2021), que o tema finalmente alcançou o primeiro lugar. A canção não vai desaparecer tão cedo e não é um grupo de idiotas que pode mudar isso.
O que este casal fez, ao convencer centenas de tontos a darem o seu dinheiro, angariando uma soma a norte de 62 mil dólares, foi basicamente burlar esta gente de gosto discutível e capacidade cognitiva indiscutivelmente fraca. Com esta soma, muito abaixo dos 20 milhões necessários para começar a conversa com a editora, nem sequer vão conseguir retirar os "oooh ooaah" do George no início da música, antes da lírica começar. E no entanto, amealharam dinheiro suficiente para não trabalhar um ano, à custa de alguns idiotas. Bem feito para eles. Tentar acenar dinheiro mal intencionado para acabar com o que milhões de outras pessoas gostam é a antítese do que é o Natal. A propósito desta idiotice, a vocalista dos Skunk Anansie, Skin, comentou: "aposto que eles mudariam de ideias quando o dinheiro das royalties começasse a entrar!"
Mas pior que a maldade de tentar impedir os outros de ouvir música que gostam é impedir que os mais necessitados beneficiem do dinheiro que é todos os anos angariado por "Last Christmas". Bem sei que não é um facto muito conhecido, até porque o George Michael ajudava os outros desinteressadamente, sempre com a condição de não ser conhecido como o benfeitor — a maior parte destes casos só foram conhecidos após a sua morte em 2016. Mas a verdade é que o dinheiro das royalties de "Last Christmas" ganho por George Michael é doado a causas humanitárias desde 1984... até aos dias de hoje. Foi a própria família que confirmou esse era o desejo de George, em mais um acto de bondade de um homem que era demasiado boa gente para um mundo tantas vezes cruel para com ele.
George disse em 1985 à revista Smash Hits (as minhas fontes sobre o George Michael são seguras): "Todos os meus lucros de "Last Christmas" vão também para a Etiópia. O Band Aid foi óptimo, mas foi só um dia na vida de toda a gente. Acho que não é suficiente. É impossível não ter uma consciência social sobre estas coisas quando estás a fazer rios de dinheiro. Por isso tentei convencer a editora, CBS, para doar a parte deles dos lucros também, mas eles não quiseram "abrir um precedente". Mas espero que outros artistas no Top 10 de Natal também doem os seus lucros". Que eu saiba, foi só mesmo George Michael a fazê-lo. Saudades do George.
Por isso já sabem, sempre que ouvirem "Last Christmas", para além de ouvirem uma grande música, também estão a ajudar. Não é isso que é o Natal?
"Obrigado pela paciência", escreveu George Michael no fim do livrete do CD original de “Older”, em 1996. Haviam passado 6 anos desde o lançamento do (maravilhoso) “Listen Without Prejudice Vol. 1”, uma eternidade para uma das maiores super-estrelas Pop do planeta. Em reclusão da vida pública, George viveu nesses anos uma montanha-russa entre o êxtase de encontrar o amor e a tragédia de o perder; entre o luto que queria privado e uma batalha legal pública com a Sony, pela sua liberdade artística. George perdeu a batalha nos tribunais, mas ganhou a liberdade que queria e um novo fôlego na sua carreira. Com uma nova editora, George teve o tempo necessário para juntar um leque de canções que podiam ombrear com a elevada bitola dos seus trabalhos anteriores.
Da dor, do luto e da catarse, nasceu "Older" — uma obra-prima de Pop adulta em fusão com Jazz e Bossa Nova, que viu esta semana a sua primeira reedição em 26 anos, desde o lançamento original em 1996. É a primeira vez que são reunidos os Lados B e as remixes desta era, outrora apenas em singles obscuros e difíceis de encontrar. Já não era sem tempo. É preciso mesmo muita paciência para ser fã de George Michael.
Nunca o artista mais proficiente, George Michael era absolutamente intocável até 1998. Qual Midas, tudo em que tocou até à colectânea “Ladies & Gentlemen”, George transformou em ouro. “Older” não foi excepção. Com um título a reflectir o seu amadurecimento como homem e como artista, “Older” pegou no ponto onde havia deixado o seu arco discográfico em 1990. É evidente a curva evolutiva da sua carreira, desde os calções curtos e as canções mais leves dos Wham!, inspiradas na Pop Motown, passando pela fase Elvis em "Faith", as estruturas mais complexas de “Listen Without Prejudice”, numa transição gradual até à Pop adulta da era "Older", fundada em Jazz, House, Bossa Nova e sobretudos Versace. George foi Rei em todas as eras, dominou todas as categorias. Isto sim, é ser o Rei da Pop.
Em “Older”, tudo começa com Anselmo Feleppa — o homem que George conheceu no Rio de Janeiro, em Janeiro de 1991, quando encabeçou o cartaz do Rock In Rio 2 no Maracanã. O álbum é dedicado ao brasileiro e as canções são escritas directamente para ele. Anselmo estava na primeira fila no estádio, e foi como nos filmes — um bingo de olhares, e uma conexão instantânea que não seria mais quebrada em vida. Literalmente. Depois de um ano de paixão, Anselmo foi diagnosticado com o vírus da SIDA no fim de 1991. Em Agosto seguinte, apenas um ano e meio depois de conhecer George, Anselmo morreu. A tragédia varreu a vida de George como um furacão, e esteve 2 anos sem escrever uma nota de música. O poço secou. Até que chegou “Jesus To A Child”.
Quando a música finalmente veio a George Michael, era Anselmo que dominava a escrita. O clique foi dado em 1994, quando George pôs em palavras aquele momento que mudou a sua vida no Maracanã: “you smiled at me like Jesus to a child”. "É isto! Sou eu e o Anselmo!", exclamou num momento de epifania. George juntou-lhe um ritmo de Bossa Nova, apropriado ao sujeito da canção, e em pouco tempo, tinha uma música nova. A primeira em muitos anos.
Animado com a viragem no seu bloqueio criativo, George atreveu-se a ir aos MTV Europe Music Awards em Berlim, cantar este tema que nunca ninguém tinha ouvido. Para quem estava fora do mundo da música há tanto tempo, era um risco trazer "Jesus To A Child", uma balada dilacerante sobre a perda de um amado, para um espectáculo que estava a ser transmitido em directo, sem rede, para todo o mundo. George arrasou. A performance foi tão unanimemente recebida, que George voltou ao estúdio de moral renovada para trabalhar, agora sim, no que seria o seu próximo álbum.
"Older" teve uma gestação difícil. George dizia que via as canções como puzzles à espera de serem resolvidos. Laborava arduamente em cada canção, peça a peça, até chegar à sua forma final. Mas quem diz qual é a forma final de uma canção? No caso de "Fastlove", a versão que ouvimos no álbum, que foi lançada em single e foi hit em todo o mundo, é (pelo menos) a segunda forma final do tema. A primeira versão, mais tarde rebaptizada como "Summer Mix", é um midtempo Jazz de fim de tarde de Verão. Já estava terminada e pronta para sair, quando George conheceu o produtor Jon Douglas, que trabalhava nos estúdios SARM em Notting Hill. A entrada em cena de Jon foi um game-changer na criação de "Older", de tal forma que ganhou crédito de produtor no álbum. Foi Jon que convenceu George a regravar "I’m Your Man" com um perfume House, o que serviu como ponto de partida para a versão uptempo de "Fastlove", que conhecemos e amamos. Uma ode aos one-night-stands, “Fastlove” levantava um pouco do véu sobre a vida privada de George (que mais tarde foi posto literalmente a nu em "Outside"). Foi George a sair, muito literalmente, do armário.
George completou o disco numa última sessão de estúdio a 5 de Janeiro de 1996 e 3 dias depois, "Jesus To A Child" era lançado como single de avanço de "Older", o primeiro na Virgin — a sua nova editora. O single entrou directamente para o nº 1 da tabela no Reino Unido, destronando “Earth Song”, de Michael Jackson, um single da… Sony. O álbum chegou em Maio, acompanhado do super-single "Fastlove", que também entrou directamente para o número 1 das tabelas (o single tinha a referida "Summer Mix" como Lado B exclusivo aos Estados Unidos. Pude ouvir esta versão pela primeira vez, agora, na box Super Deluxe de "Older" — é uma revelação). Com dois números 1 seguidos, estavam alinhadas as estrelas para um regresso ao estrelato de George Michael. Assim foi.
“Older” foi unanimemente recebido como um regresso portentoso de George Michael. Mas foi muito mais que apenas um regresso; foi também uma completa reinvenção do sex symbol de calções curtos que assaltara as tabelas 10 anos antes; ou do Elvis louro, com um crucifixo na orelha esquerda, que fizera o mesmo nos tempos de "Faith". George provava assim que era um artista Pop completo, triunfando nos mercados adolescente, coming of age, e adulto. Durante um ano, George não saiu da MTV, das rádios, das tabelas, de todo o lado. "Older" foi visto como um caso de estudo sobre como um artista Pop engendrar um comeback. Por coincidência (ou não), Madonna seguir-lhe-ia os passos em 1998, com um comeback semelhante, numa imagem muito mais discreta. O que não entrou no case study é que com George, fez parte de um processo natural. Como sempre foi. Tudo era sincero em George.
“Older” saltou para o número 1 dos álbuns no Reino Unido, destronando os reis das tabelas daquele ano — os Oasis. Funny story: George e Liam Gallagher tornar-se-iam vizinhos em Highgate, e convidados habituais de festas rijas nas casas de um e do outro. Consta que a última vez que Liam e Noel estiveram juntos, em termos amigáveis, foi precisamente numa festa na casa de George em 2012. E claro, antes disso, houve a famosa história em que George foi ver os Oasis a Bournemouth e levou a afterparty tão longe que… acordou em Coventry. Mas divago.
A viagem de "Older" culminou em mais uma tragédia pessoal para George. Em Fevereiro de 1997, a sua mãe Leslie morreu de um cancro, com o qual vinha a lutar há um ano. George não pôde sequer receber o prémio de Artista do Ano nos Brit Awards, uma vez que estava no hospital com ela. O lendário concerto Unplugged na MTV (cujo vídeo, lamentável e inexplicavelmente, não está incluído nesta caixa) foi a última vez que a mãe de George o viu a cantar ao vivo.
O single "You Have Been Loved", o sexto (!), e último, extraído do álbum, ganhou então um novo sentido para George. O tema foi um dos primeiros "puzzles" das sessões de "Older" e começou como uma peça acústica de David Austin, na altura com o nome "The Price Of Property" (mau, eu sei). Quando pegou nele, George deu-lhe uma volta completa e transformou-o num lamento sobre a morte de Anselmo, "God Is Dead", a questionar a sua própria espiritualidade. O tema levou nova volta e passou a responder à questão que colocava inicialmente — "Don't think that God is dead. You have been loved". Era agora a canção sobre uma mãe que perdera o filho. Quando saiu, em Setembro de 1997, "You Have Been Been Loved" voltou a virar — para George, era sobre um filho que perdeu a mãe; para o resto do Reino Unido, era sobre um país que perdeu a sua princesa. Diana morrera dias antes e a música de George ecoava o sentimento nacional (só foi impedido de chegar ao número 1 por "Candle in the Wind" '97", o multi-platinado single de Elton John, que regravou o tema de Marilyn Monroe para homenagear a princesa). No fim de contas, foram extraídos 6 singles de "Older", e todos chegaram ao top 3 das tabelas britânicas. Um recorde que se mantém até hoje.
George já não está connosco, mas a falta de proficiência da sua equipa mantém-se. Desde que George morreu, tivemos apenas uma reedição de "Listen Without Prejudice Vol. 1" (que já estava pronta para sair quando era vivo), um documentário (que também já estava terminado) e agora a reedição de "Older". Esta reissue foi apenas razoável, tendo em conta que houve zero material novo, zero material em vídeo (e George estava na MTV a toda a hora naquela altura) e zero material de alta resolução e surround. E tudo isto existe — as misturas Atmos foram preparadas e estão disponíveis apenas em streaming, o que não faz qualquer sentido. No mínimo, falta a esta reedição um BluRay com o vídeo do MTV Unplugged, e o álbum "Older" em alta resolução Stereo e Surround. Isto seria o mínimo dos mínimos. Melhor ainda seria a inclusão de demos e do disco de duetos abortado — "The Trojan Souls". Mas já nem peço tanto. Segundo David Austin, a próxima reissue será de "Songs From the Last Century" — o álbum de covers Jazz de 1999. Esperemos que desta vez ele leve em conta as sugestões dos fãs. É de facto preciso muita paciência quando se é fã de George Michael.
P.S.: Tomei a iniciativa de compilar o melhor do material bónus da caixa Super Deluxe de “Older” no programa desta semana do London Calling na NiTfm. Entre outras malhas, podem ouvir a “Summer Mix” de “Fastlove”, bem como os Lados B “You Know That I Want To”, “I Can’t Make You Love Me”, ou “Safe”. Está tudo aqui, ou aqui.
No céu, Aretha Franklin vai ter muitos fãs à sua espera. Freddie Mercury e George Michael já devem estar em pulgas.
Já os estou a ver em pulgas à porta do céu. "A Aretha vem aí, a Aretha vem aí!", exclama o George, visivelmente entusiasmado. Mal ouviu a notícia, foi logo buscar os Ray-Ban Aviator e o casaco de cabedal que queimou no vídeo do "Freedom '90" (no céu, os casacos de cabedal também ressuscitam) para receber a rainha com a pompa do vídeo de "I Knew You Were Waiting (For Me)".
"Rainha?! Quem é que me chamou?", intervém Freddie, a chegar ao portão do céu enquanto termina a ponta de um cigarro.
"Não és tu, Freddie! É "a" rainha! Ela vem aí!", responde o George a ajeitar nervosamente a cabeleira loira (no céu, o George Michael adoptou o look do "Faith").
"Como assim a rainha? A Aretha?! A Aretha morreu? Poor darling", suspira o Freddie, ao mesmo tempo que atira a beata para o chão, ateando mais um foco de ignição na Serra de Monchique. "Aquela voz... Quem me dera cantar como ela! Sabias que ela é a minha cantora favorita?"
"Também a minha! É a melhor de sempre!", sorri o George. "Quando ela chegar, vou recebê-la como no vídeo "I Knew You Were Waiting"!".
"Ah, então por isso é que estás assim vestido!", desmancha-se a rir o Freddie, deixando sair a sua dentuça toda cá para fora (no céu ainda se recusa a fazer a qualquer intervenção cirúrgica que lhe possa afectar a projecção da voz). "Nada disso, darling. Vamos os três fazer um trio. E vai ser uma lenda nos céus!".
Confesso. Não sou a pessoa mais qualificada para falar sobre Aretha Franklin. O Soul não é a minha praia e o meu tema preferido que a Aretha cantou é o "I Knew You Were Waiting (For Me)", um dueto com o George Michael. Conheco-a através do George e do Freddie Mercury. Sei da forma que falavam dela. Sei que era a cantora favorita de sempre dos meus cantores favoritos de sempre.
Vejam os olhos do Freddie e do George brilhar quando falam dela. Quando ouvimos o Freddie Mercury suspirar que o sonho dele era cantar como a Aretha, nem é preciso dizer mais nada. Na prática, a Aretha está para o Freddie e para o George, na mesma medida em que eles estão para mim; é a deusa dos meus deuses. E isso chega-me para saber da sua importância e lhe deixar toda a minha reverência e R-E-S-P-E-C-T.
Gosto de pensar que ela foi ter com eles e que eles estão em êxtase por verem o seu maior ídolo. E que vão gravar um tema a três que vai conquistar e que nós só poderemos ouvir quando nos juntarmos a eles. Até lá fiquemos com a música terrena da Aretha.
Nos últimos dias de vida, George Michael realizou um documentário sobre os melhores anos da sua carreira. Esta semana o filme viu finalmente a luz do dia.
George Michael deixou-nos no último Natal com muito menos música do que devia. O seu derradeiro trabalho foi o documentário "George Michael: Freedom", filme que realizou nos últimos dias de vida para promover a reedição do álbum "Listen Without Prejudice Vol.1" de 1990 e que irá para as lojas amanhã. O filme tem como grande mérito explicar por que um talento tão grande como George nos deu tão pouca música.
George Michael lançou o seu primeiro single "Wham Rap! (Enjoy What You Do)" em 1982 e ao longo de 34 anos de carreira discográfica, editou apenas 7 álbuns de originais – 3 com os Wham! e 4 a solo. Em período semelhante, o seu amigo Elton John fez 17 álbuns e isto já em fase descendente da sua carreira. Porquê tão pouca produtividade? Ainda que nunca de forma explícita, o documentário indica-nos três razões: insegurança, perfeccionismo e perda. Nada que não soubéssemos já pela música de George. Bastava estarmos atentos.
Insegurança. George foi sempre um menino tímido e inseguro que precisava da aprovação dos outros. Foi Andrew Ridgeley (o miúdo fixe da escola, com quem formaria os Executive e mais tarde os Wham!) que lhe deu a confiança para se lançar no mundo do espectáculo. Em "Listen Without Prejudice Vol.1", já depois de se ter tornado uma mega estrela, George diz em "Waiting (Reprise)" que "All those insecurities that have held me down for so long, I can't say I've found a cure for these". Só esta necessidade de aprovação explica que o documentário passe tanto tempo a ouvir as opiniões de "famosos" como James Corden, Ricky Gervais, e Jean Paul Gaultier sobre a música de George.
Aliás, o rol de celebridades que aparecem para reverenciar George é avassalador: Mark Ronson, Mary J. Blige, Nile Rodgers, Tony Bennett, Elton John ("I think people generally adore George. Not just his music."), Stevie Wonder (que faz uma piada a ele mesmo – "O quê? O George é branco?!"), Kate Moss, as supermodelos de "Freedom '90" (Naomi Campbell, Christy Turlington, Cindy Crawford, Linda Evangelista e Tatjana Patitz – quem?) e até o actual líder das tabelas britânicas Liam Gallagher, que descreve George como "Modern day Elvis" e revela que Noel também ouvia os Wham!. Naturalmente que todos discorrem sobre como George é fantástico, mas disso já todos sabíamos. A maioria dos testemunhos é dramatizado e dispensável; teria sido preferível ouvir o que tinham para dizer os que estiveram realmente em palco e no estúdio com George, casos de Deon Estus (baixista dos Wham! e de George a solo) e claro, de Andrew Ridgeley. Nem sequer houve nada da Pepsi e da Shirlie. Uma pena.
Perfeccionismo. Talvez uma consequência da razão apontada em cima, George era também um control freak. Neste documentário é ele o realizador e o narrador, algo que só causa estranheza a quem não conhece George. Este é o mesmo George Michael que em 1984 se desentendeu com o realizador Lindsay Anderson no filme "Foreign Skies: Wham! in China"; que em 1990 dava ordens a David Fincher (esse mesmo, do "Fight Club") no teledisco de "Freedom '90"; que em 1992 afastou Thierry Mugler do vídeo de "Too Funky"; e que ao longo da sua carreira vetou o lançamento de todos os filmes-concerto que gravou porque não estava completamente satisfeito com eles, acabando por lançar (provavelmente por obrigação contratual) o mais insípido de todos – "Live In London", ao vivo no Earls Court em 2008. Para trás ficaram (pelo menos) os filmes do The Final Concert dos Wham! no Estádio do Wembley em 1986, da Faith Tour no Madison Square Garden em 1988 e da Cover To Cover Tour na Wembley Arena em 1991. Todos eles aparecem no documentário em pequenos excertos, que perfazem alguns dos melhores momentos deste filme.
George era muito teimoso, "um dos homens mais teimosos que já conheci", diz Elton John. Tão obstinado a fazer as coisas à sua maneira, que levou a toda-poderosa Sony a tribunal por esta não aceitar a mudança de direcção artística em "Listen Without Prejudice Vol.1". George tinha razão em querer fazer um álbum diferente de "Faith" (como questiona Nile Rogers: "quando se tem aquela dimensão de sucesso, chega-se a casa e pensa-se 'e agora? o que é que eu faço?!'"); mas não toda a razão, principalmente quando classificou como "escravatura" a sua relação com a editora, enquanto vivia numa mansão em Highgate. No fim, George perdeu no tribunal em toda a linha e confessou que "foi tudo uma completa perda de tempo". Acabaria por ser David Geffen a salvar George (também seria interessante ouvi-lo), ao comprar o contrato com a Sony por 40 milhões de dólares. Mas a história do litígio com a Sony tem muito que se lhe diga e isso é pela primeira vez explicado neste documentário.
Na verdade, a batalha legal contra a Sony serviu como escape para a morte de Anselmo Feleppa, o namorado de George (para os mais desavisados, sim, George era homosexual) que caiu aos pés da SIDA pouco depois daquela lendária actuação de George com os Queen, que serviu precisamente para consciencialização desta doença. O conflito foi a forma que George encontrou para canalizar a raiva que sentia pela perda do amor da sua vida. O que nos leva à última razão da falta de produtividade de George.
Perda. O terceiro e mais sombrio de todos os motivos aparece na parte final do documentário. "George Michael: Freedom" terá sido provavelmente a primeira vez em que George fala abertamente da sua relação com Anselmo Feleppa num registo pura e cruamente confessional. O desaparecimento da sua paixão abalou-o profundamente. Depois da batalha com a Sony e subsequente resgate pela Virgin, George sacou um álbum superlativo sobre luto, sofrimento e recuperação – "Older". O single de avanço – "Jesus To A Child" – era sobre Anselmo e dizia tudo o que George sentia, numa perspectiva agridoce: "I've waited for you all those years and just when it began, he took you away".
"Older" foi um mega-sucesso crítico e comercial e parecia um bálsamo na vida de George Michael. Mas o alívio pela boa prestação do seu álbum não durou muito tempo. George descobriu que a mãe tinha cancro e Lesley morreria poucos meses depois, em 1997. George sentiu que estava amaldiçoado e confessa que aqui "perdeu a música" nele.
E perdeu mesmo. Na prática, a carreira de George Michael parou ali. A seguir a "Older", houve um punhado de faixas na colectânea "Ladies & Gentleman" (1998), um álbum de covers em 1999 ("Songs From The Last Century") e um último album de originais em 2004 – "Patience" –, muito abaixo da bitola de qualidade de George. George termina o filme com o desejo de ser recordado como um grande compositor e um artista com um integridade. Onde quer que esteja, pode ficar descansado, que isso ninguém lhe vai tirar. No resto, o tempo far-lhe-á a devida justiça, como já fez no último ano, em que até mereceu artigos na Pitchfork.
"George Michael: Freedom" é um documentário de George Michael, sobre George Michael e à George Michael. Não admira por isso que partilhe as virtudes e os defeitos do homem: é um retrato honesto, profundo e destemido, mas a espaços também auto-indulgente e disperso; é um filme de partir o coração, que nos recorda o quanto George melhorou as nossas vidas; é um excelente resumo dos anos musicais de George, desde os tempos dos Wham! até a música se lhe acabar em "Older"; e é especial, por ser o último trabalho de George Michael.
No documentário, Ricky Gervais recordou-me o motivo que me levou a começar a ouvir George Michael nos meus turbulentos anos de adolescente: "em tempos de grande depressão há sempre quem diga que 'isto é terrível'; e depois há os escapistas, aqueles que dizem 'let's party!'". George tinha essa coragem. Isto para além de me ter ensinado as primeiras dicas para engatar miúdas com a letra de "I'm Your Man". Fun fact: as dicas funcionaram na altura e ainda funcionam hoje. True story.
Uma ode à máquina de música dançável de George Michael
É um dos maiores e mais injustos preconceitos da nossa sociedade: em Portugal, gostar de Wham! ainda é tabu. Com os anos, chegámos à conclusão que era aceitável gostar de Prince, Madonna e Michael Jackson (e ainda bem), mas por alguma razão, ainda temos que murmurar que gostamos de George Michael e dos Wham!. Raramente se vê uma menção ao duo Pop britânico na imprensa portuguesa; na rádio, só passa o "Last Christmas" por altura no Natal e à noite, até o Plateau se recusa a passar outro tema que não o "Wake Me Up Before You Go-Go". Um ultraje.
Qual não é o meu espanto, pois, quando vejo esta semana duas peças diferentes sobre os Wham!, primeiro pelo Nuno Galopim (Máquina de Escrever), a propósito dos 30 anos do último concerto da banda e depois pelo Tiago Castro no"Álbum de família" da Radar, homenageando "Make It Big" de 1984. Fica aqui a minha ovação ao Nuno e ao Tiago. Já era tempo de fazer justiça aos Wham!, a melhor banda Pop de sempre.
Melhor banda Pop de sempre? "Que heresia!", já vos estou a ouvir, enquanto preparam o arremesso da esferográfica ao monitor. Calma, eu explico. Comecemos pelo princípio: os Wham! foram um duo de vida meteórica formado por George Michael e Andrew Ridgeley, que brilhou de forma incandescente na sua curta passagem pelo panorama musical. O registo da banda no Reino Unido é verdadeiramente avassalador: de 1982 a 1986, lançaram 9 singles e todos (sublinho: TODOS) entraram para o Top 10 das tabelas britânicas, sendo que 4 deles chegaram ao 1º lugar. Os álbuns "Fantastic" e "Make It Big" também foram #1. São números impressionantes que dão uma ideia ideia do impacto que os Wham! tiveram na altura.
Bem sei que toquei num assunto delicado: será que a popularidade e a qualidade da música são duas variáveis directamente relacionáveis? Não necessariamente, mas também não têm que ser inversamente proporcionais. O "Bohemian Rhapsody" foi #1 durante nove semanas e ninguém discute a valia da canção.
Os Wham! foram muito mais que apenas um fenómeno de popularidade. Se olharmos para a Pop de hoje, percebemos que há demasiados intérpretes que não escrevem as suas próprias canções, puros produtos de venda ao público que vêem as suas carreiras projectadas ao milímetro, desde a imagem, à produção da música e à respectiva promoção. É como uma linha de montagem, onde todas as decisões resultam de uma análise puramente técnica e comercial. Fecha-se o espaço à arte e ao rasgo e traçam-se fronteiras de forma e conteúdo. Tudo soa ao mesmo. No fim de contas, "arte" é coisa que ali não mora e o "artista" pouco tem a ver com o processo, a não ser dar a cara para o público.
Os Wham!, por outro lado, eram um produto saído somente da cabeça de George Michael. George era o mentor, cantor, compositor e o produtor da banda e ainda tocava múltiplos instrumentos nos discos (tudo isto quando tinha pouco mais que 20 anos). Andrew Ridgeley, o outro membro do duo, estava lá apenas para atrair uma faixa etária mais velha e tirando o apoio moral, ainda hoje se está para saber o que fazia Andrew exactamente nos Wham! (a sua guitarra nem sequer era ligada nos concertos).
É certo que os Wham! tinham uma forte componente de imagem, mas também os Beatles a tinham no início de carreira, durante o auge da Beatlemania. E os Wham! não soavam como nada do que havia em 1983 no Reino Unido. Num panorama Pop onde despontavam os Duran Duran na New Wave e os Culture Club no Reggae, os Wham! faziam música Disco com toques de Soul; quanto muito, soavam como a Motown. Era música negra americana dos 70, para um público branco britânico dos anos 80. George Michael foi, aliás, sozinho, a Motown britânica dos anos 80; numa altura em que a própria Motown estava moribunda, sobrevivendo à tona de água apenas com artistas como Lionel Ritchie e Stevie Wonder. Mas se a nossa sociedade aceita pacificamente que Stevie Wonder é um génio (é mesmo), então por que raio tanto desdém pelos Wham!?
"Isso é música de paneleiros" é a minha justificação preferida. Então e o Freddie Mercury, não é "paneleiro" também? E não é o melhor de sempre? Então não podemos ouvir a música do senhor porque ele gosta de dormir com cavalheiros? Não me faz muito sentido.
"Isso é piroso", dizem-me. Certo. Então e alguém sairia à rua com as roupas roxas que o Prince usava? E o David Bowie? Um foleiro. Não vamos gostar de nenhum deles? Também não me parece válido.
"Eu não gosto da música, nem sou obrigado a gostar". Claro que não, mas expliquem-me, como é que podem não ficar contagiados por temas como "Club Tropicana", "I'm Your Man" ou "Freedom" e ser arrebatados com uma urgência de saltar para a pista de dança? Não? Nada? Então o melhor é verem isso com o médico, porque o sangue que vos corre nas veias está prestes a gelar.
Não tenham medo de gostar dos Wham! e muito menos tenham medo de admitir que gostam. A sério, vão ver que é "Fantastic" e não dói nada.