Uma carta de amor a Freddie, no dia do aniversário da sua morte.
Uma das minhas memórias mais fortes de infância foi a noite de 24 de novembro de 1991, quando a televisão dava a notícia da tragédia do desaparecimento de Freddie Mercury. Tinha acabado de fazer seis anos e na minha perceção confusa do mundo, onde o Pai Natal existia e as novelas eram cenas da vida real, o Freddie era meu tio. E nem sequer estou a brincar. Sabia lá eu que Wembley era em Londres. Para mim, que via o VHS com o concerto dos Queen diariamente, era ali ao cimo da rua.
Foi por isso em choque que recebi a notícia que aquele tio próximo que falava uma língua estranha e via todos os dias, embora somente em vídeo, estava morto. Aquela noite foi a minha primeira interação com a morte.
No próprio dia, a RTP passou o documentário da BBC “Freddie Mercury: A Tribute”, uma colagem de clipes e performances aos vivo dos Queen (Hammersmith ‘75, Rio ‘85, Live Aid ‘85, Wembley ‘86) que foi, efetivamente, a melhor forma de o relembrar e ilustrar a sua gloriosa vida. Durante anos repeti o mesmo sonho: estava no Live Aid em Wembley e vi o Freddie colapsar, a morrer à minha frente, no fim da performance do “We Are The Champions”.
Lembro-me de ir para a cama nessa noite e de me deitar enquanto o meu pai tentava explicar o que se estava a passar. Não faço a mínima ideia do que me disse, só me lembro de que fingi entender para o fazer feliz. Coitado. Ver-se obrigado a explicar a morte a um miúdo de 6 anos. 30 anos volvidos, eu não o saberia fazer. “O Freddie desapareceu”, dizia o José Rodrigues dos Santos. Sim, mas para onde?
Para onde? Para lado nenhum. Ou melhor, para todo o lado. 30 anos volvidos, a música dos Queen está mais forte e pujante do que nunca. São mais populares nas novas gerações do que qualquer outra banda antiga, incluindo os Beatles. Não sou eu, são os números do Spotify e do YouTube que o dizem. Têm uma loja na Carnaby Street em Londres. Loja essa que durante semanas teve filas de horas por causa de uns discos de vinil exclusivos com músicas que toda a gente já ouviu milhares de vezes. Loja essa que teve confrontos à porta (não, não estou a brincar) na última semana porque se percebeu que não havia discos para todos.
Para mim, está aqui. Aqui mesmo, no coração. 30 anos depois do seu alegado desaparecimento, não há dia nenhum que passe e que não ouça a sua voz. A sua música fez, faz e para sempre fará parte do tecido da minha vida. O rei Freddie Mercury desapareceu há 30 anos, mas nunca foi embora das nossas vidas. Anyway the wind blows… and Queen lives.
A vida e a música do eterno vocalista dos Queen, na semana da reedição da sua discografia a solo
Em Novembro de 1986, com os Queen ainda a recuperar de uma mega-digressão que enchera Knebworth, Wembley (duas vezes) e mais de 20 estádios por toda a Europa, Freddie Mercury dava entrada nos estúdios Townhouse, em Londres, para gravar um cover. Parecia ser mais uma bizarra decisão na errática carreira a solo de Freddie. Mas para mim, a escolha de "The Great Pretender", originalmente gravado pelos The Platters em 1965, foi tudo menos um acto aleatório. Freddie começou aqui uma série de mensagens subliminares para os seus fãs, preparando-os para o que aí vinha. O que ele queria dizer, a quem estivesse com atenção, é que era ele o grande fingidor. Ele sim era o "The Great Pretender". Ninguém o levou a sério.
Freddie era um homem frágil. Vendo-o em cima do palco, ninguém diria. Ali, ele usava a máscara de macho dominante, uma força da natureza que aliava uma voz divina a uma presença em palco nunca vista antes ou depois. Ali, ele podia fingir. Mas fora das luzes e dos decibéis, onde não podia fugir à realidade, Freddie era extremamente inseguro. O seu alter-ego artístico era a bolha que o distanciava dos demais e o protegia do mundo lá fora, mas ao mesmo tempo era a prisão que o sufocava. Freddie aparentava ter muito amor à sua volta, mas sentia-se terrivelmente solitário, lamentando não ter ninguém que o compreendesse: "People have a hard time to accept me as a normal person. I'd like to share my life with someone, but nobody wants to share their life with me. The more I open up, the more I get hurt. I'm riddled with scars and I just don't want it anymore."
Freddie tinha criado uma projecção monstruosa de si mesmo que se tornara impenetrável, mesmo na sua vida pessoal. O seu alter-ego alienava toda a gente do seu verdadeiro "eu" — um homem por um lado era extremamente intenso, perigosamente volátil e de temperamento difícil, mas que no seu downtime era, segundo o próprio, apenas "aborrecido". No fim de contas, era apenas um homem à procura de aceitação. E não somos todos? Como diria o David Bowie, "apenas um mortal com o potencial de um super-homem". A única forma de Freddie fugir a este novelo que atara com a sua própria imagem era, claro está, fingindo. Através da sua música.
Não é por acaso que a música de Freddie Mercury aborda tantas vezes o tópico da solidão. E se nos Queen ele tinha algum freio, talvez devido à sua timidez ou à protecção da sua máscara ("It's A Hard Life", ou "My Melancholy Blues" são raros exemplos), quando chegou a altura de gravar o seu primeiro álbum a solo em 1983 — "Mr. Bad Guy" —, Freddie foi a todo gás para dentro da sua mente: "Living On My Own" é auto-explicativo; "Man Made Paradise" pinta o cenário da sua vida — "History repeats itself, I seem to be all by myself again"; "Mr. Bad Guy" e "My Love Is Dangerous" são um auto-retrato de um vilão — "everyone's afraid of me" / "step carefully"; "Love Me Like There's No Tomorrow" fecha o álbum confessionalmente — "God knows I learnt to play the lonely man, I've never felt so alone in all my life". É tudo extremamente pessoal. Quase incomodamente pessoal.
Por outro lado, de uma forma perversa, os temas de "Mr. Bad Guy" aliam estas letras extremamente sombrias, profundas e pessoais, a música tentativamente Gay Disco, feita com sintetizadores low budget que parecem ter vindo do Toys R Us e a uma produção barata, indigna de um disco com a assinatura do mesmo homem que em tempos escreveu "Bohemian Rhapsody". Deve ter sido estarrecedor para quem foi comprar o álbum a solo de Freddie em 1985 e se deparou com isto. É quase como que Freddie não quisesse que o público dos Queen ouvisse o seu álbum; como se ele a meio ficasse tímido ou inseguro com a forma como se estava a expor e decidisse sabotar intencionalmente o seu próprio disco. Até o título do álbum, que esteve até à ultima hora para se chamar "Made In Heaven", foi violentado. Parece ridículo, eu sei. Mas como explicar que as faixas vocais de Freddie, que deveriam ser o pano frontal da sua musica A SOLO, foram colocadas debaixo de um papel vegetal, como se Freddie estivesse a cantar na sala ao lado?
Mas tudo isto era Freddie. Uma soma de contradições explosiva e por demais fascinante. É por isto que "Mr. Bad Guy" é um álbum tão importante para perceber quem era o verdadeiro Freddie Mercury. O outro lado de "Don't Stop Me Know" é este. Nesta altura faltava-lhe o Dr. Brian May para lhe pôr o freio e Freddie deixou-se descarrilar.
Não é por isso difícil perceber que "Mr. Bad Guy" seja o patinho feio da discografia de Freddie Mercury (juntamente com "Hot Space" dos Queen, mas esse ainda foi calibrado pelo nosso astrofísico favorito). No filme "Bohemian Rhapsody", o álbum é demonizado como o disco terrível que separou os Queen. Desde o seu lançamento original em 1985, "Mr. Bad Guy" nunca mais foi revisitado. Até agora.
Uma vez que os Queen, os verdadeiros, foram votados ao esquecimento pelo Dr. Brian May e pelo Sr. Roger Taylor, demasiado ocupados a viver o sonho Americano com um cantor de cabaret nas asas do filme, abriu-se a janela natalícia para um lançamento de Freddie Mercury a solo. E Jim Beach, manager dos Queen, aproveitou para revelar a muito adiada remistura de "Mr. Bad Guy". E em boa hora o fez. Numa altura em que a imagem de Freddie é progressivamente saneada, nada melhor que recordar que para além do Bom, Freddie também tinha o Mau e o Vilão. E que era nestas linhas turvas que se desenhava a personagem mais apaixonante da História da música.
Para além da nova remistura de "Mr. Bad Guy", chegou também uma reedição da versão 2012 de "Barcelona", quando foi totalmente regravado com uma orquestra real, substituindo os sintetizadores do álbum original. E para fechar a quadra dedicada a Freddie, veio também a nova compilação "Never Boring", cujo nome foi retirado do famoso pedido que Freddie fez a Jim Beach, quando o nomeou como o seu executor testamentário e representante legal nos Queen: "Do whatever you want with my music, just never make me boring". Foi um pedido que nem sempre foi satisfeito, mas certamente que tal não foi por falta de vontade do "Miami" Beach.
Os três discos foram lançados na sexta-feira e eu passei o fim de semana a ouvir estas reedições, a reconectar-me com a discografia a solo do Freddie e a relembrar-me de como o amo. A nova remistura de "Mr. Bad Guy" é absolutamente essencial. Pela primeira vez, não parece que Freddie está a cantar noutra sala. Os sintetizadores baratos continuam lá, como sempre feios que dói, mas a composição de Freddie continua intocável e beneficia agora de uma produção mais afinada, que faz o álbum ganhar uma nova vida. Estou há 4 dias a ouvir isto num loop compulsivo.
Também a colectânea "Never Boring" traz novas remisturas das faixas avulsas de Freddie, caso de "The Great Pretender". Este é o caso de um tema que não precisava de uma remistura, mas a nova versão vale por fazer sobressair outros detalhes que antes estavam escondidos. Já a regravação de "Barcelona" datada de 2012 é exactamente isso. Datada de 2012. A gravação original, provavelmente a gravação mais próxima do divino de toda a História da música, essa é intemporal.
Freddie era o grande fingidor, mas fingia menos nos seus discos a solo. Era ali que ele deixava escapar tudo o que não conseguia dizer nos muito mais expostos discos dos Queen. É ali que podemos perceber que grande parte da grandeza deste homem vem da sua própria escuridão. E é por isso que todos estes 3 discos são documentos essenciais para a compreensão do verdadeiro Freddie Mercury. Se pelo menos o tivéssemos ouvido.
P.S.: Se não conhecem a fundo os trabalhos a solo de Freddie Mercury, aconselho-vos vivamente ouvirem esta playlist:
No céu, Aretha Franklin vai ter muitos fãs à sua espera. Freddie Mercury e George Michael já devem estar em pulgas.
Já os estou a ver em pulgas à porta do céu. "A Aretha vem aí, a Aretha vem aí!", exclama o George, visivelmente entusiasmado. Mal ouviu a notícia, foi logo buscar os Ray-Ban Aviator e o casaco de cabedal que queimou no vídeo do "Freedom '90" (no céu, os casacos de cabedal também ressuscitam) para receber a rainha com a pompa do vídeo de "I Knew You Were Waiting (For Me)".
"Rainha?! Quem é que me chamou?", intervém Freddie, a chegar ao portão do céu enquanto termina a ponta de um cigarro.
"Não és tu, Freddie! É "a" rainha! Ela vem aí!", responde o George a ajeitar nervosamente a cabeleira loira (no céu, o George Michael adoptou o look do "Faith").
"Como assim a rainha? A Aretha?! A Aretha morreu? Poor darling", suspira o Freddie, ao mesmo tempo que atira a beata para o chão, ateando mais um foco de ignição na Serra de Monchique. "Aquela voz... Quem me dera cantar como ela! Sabias que ela é a minha cantora favorita?"
"Também a minha! É a melhor de sempre!", sorri o George. "Quando ela chegar, vou recebê-la como no vídeo "I Knew You Were Waiting"!".
"Ah, então por isso é que estás assim vestido!", desmancha-se a rir o Freddie, deixando sair a sua dentuça toda cá para fora (no céu ainda se recusa a fazer a qualquer intervenção cirúrgica que lhe possa afectar a projecção da voz). "Nada disso, darling. Vamos os três fazer um trio. E vai ser uma lenda nos céus!".
Confesso. Não sou a pessoa mais qualificada para falar sobre Aretha Franklin. O Soul não é a minha praia e o meu tema preferido que a Aretha cantou é o "I Knew You Were Waiting (For Me)", um dueto com o George Michael. Conheco-a através do George e do Freddie Mercury. Sei da forma que falavam dela. Sei que era a cantora favorita de sempre dos meus cantores favoritos de sempre.
Vejam os olhos do Freddie e do George brilhar quando falam dela. Quando ouvimos o Freddie Mercury suspirar que o sonho dele era cantar como a Aretha, nem é preciso dizer mais nada. Na prática, a Aretha está para o Freddie e para o George, na mesma medida em que eles estão para mim; é a deusa dos meus deuses. E isso chega-me para saber da sua importância e lhe deixar toda a minha reverência e R-E-S-P-E-C-T.
Gosto de pensar que ela foi ter com eles e que eles estão em êxtase por verem o seu maior ídolo. E que vão gravar um tema a três que vai conquistar e que nós só poderemos ouvir quando nos juntarmos a eles. Até lá fiquemos com a música terrena da Aretha.
O maior dos Maiores, o rei dos Reis (e acho que já esgotei as hipérboles e os superlativos) fez anos
O dia em que o Rei faz anos. Foi ontem. Como todos os dias são bons para festejar o aniversário do Rei, eis uma pequena lista com as suas 10 melhores performances ao vivo. E um pouco de História também. Parabéns, amigo Farrokh.
10. "It's In Everyone Of Us" – Dominion Theatre, London (1988/04/14)
Quando se pensa na última actuação ao vivo de Freddie Mercury, quase sempre se fala no concerto de Knebworth Park em 1986. Mal. Knebworth foi de facto o último concerto de Freddie com os Queen, mas a sua última actuação ao vivo seria em 1988 no Dominion Theatre, por honras do musical "Time", para o qual Freddie contribuiu com dois temas: "Time" e "In My Defence". Ambos maravilhosos, diga-se (se não ouviram ainda, é carregar nos links).
Freddie fez uma aparição especial no Dominion para a caridade e teve um dueto inesperado com Cliff Richard no seu tema "It's In Everyone Of Us". A voz de Freddie está impecável (já não andava em tour há quase 2 anos) e a performance é irrepreensível. Ouçam só o entusiasmo na plateia; todos sabiam que estavam a assistir a um momento único, mas ninguém imaginava que seria a última actuação ao vivo do Rei.
Curiosamente, o Dominion Theatre alojaria entre 2002 a 2014 o musical "We Will Rock You" dos Queen e como tal teve durante 12 anos uma mega-estátua de 8 metros de altura (!!!) de Freddie à porta.
Se quiserem ver o Freddie Mercury 'going nuts' em palco, é pesquisarem qualquer performance de "Sheer Heart Attack". O tema remonta às sessões do álbum de 1973 com o mesmo nome, mas só foi terminado em 1977 para "News Of The World", mesmo a tempo da revolução Punk que pretendia destruir as bandas da realeza do Rock, bandas precisamente como os Queen. Era a anarquia contra a monarquia.
Sempre que os Queen tocavam "Sheer Heart Attack", normalmente no encore, Freddie entrava em modo vendaval e levava tudo à frente — amplificadores, microfones, o Brian May —, injectado a entusiasmo e muita cocaín... Entusiasmo, era isso.
Freddie podia querer levar o ballet às massas, mas não se deixem enganar pelas poses — Freddie era um bad boy. Se têm dúvidas, aproveito para recordar o episódio em que Sid Vicious dos Sex Pistols tentou intimidar Freddie nos Wessex Studios em Londres e saiu de lá com o rabinho entre as pernas. Freddie não estava para aturar as merdas de Sid e depois de gozar com ele (chamando-o de Simon Ferocious), pegou-lhe nos colarinhos e empurrou-o para fora do estúdio. Freddie era ballet, punk, ópera, rock, o que quer que ele quisesse ser, a qualquer momento. Bom em tudo. Como se comprova pelo vídeo em cima no lendário concerto em Houston (vejam aqui outro ponto alto do concerto – "My Melancholy Blues"), na légua americana da News Of The World Tour em 1977. Punk de lantejoulas? Siga.
P.S.: Na verdade o vídeo em cima é uma compilação de várias performances de "Sheer Heart Attack" (em Houston, o tema corta para "Jailhouse Rock"). Se quiserem ver o Freddie a destruir mais cenas, podem ver as performances completas de Houston em 1977, Hammersmith em 1979, Paris em 1979 e Buenos Aires em 1981.
8. "Another One Bites The Dust" – Estadio Vélez Sarsfield, Buenos Aires (1981/03/01-08)
Na ressaca da conquista dos Estados Unidos com o (algo inesperado) sucesso do álbum "The Game", os Queen quiseram dar novos mundos ao mundo e decidiram ir à conquista de mercados nunca antes navegados. Ao saber que tinham uma grande legião de fãs na América do Sul, os Queen embarcaram rumo ao hemisfério sul, na que terá sido provavelmente a maior aventura da sua história – a South America Bites The Dust Tour.
Entenda-se que o Brasil e a Argentina viviam ditaduras militares, por isso fazer um concerto num destes países era algo impensável para quem queria um controlo rígido de massas. As peripécias foram muitas; começando logo pela recepção na Argentina, onde os Queen foram escoltados pelo exército que os conduziu em contramão na autoestrada, enquanto militares disparavam as metralhadoras para o ar para desviar o trânsito. Assustador? O Freddie tinha um guarda-costas cujo cartão de visita era ter assassinado 212 pessoas. Os fãs perseguiam os Queen para todo o lado, a loucura era total. Na terceira e última data em Buenos Aires (1981/03/08), Freddie apareceu em palco para "Another One Bites The Dust" com a camisola da selecção da Argentina, na companhia de um tal de Maradona. Esse mesmo. Dois deuses no mesmo palco, ao mesmo tempo. Loucura a dobrar.
O vídeo em cima é de "Another One Bites The Dust" na segunda data de Buenos Aires (não há vídeo da terceira noite), com Brian May a usar uma cartola irresistível, que se tornaria a imagem de marca de um outro guitarrista que apareceu uns anos mais tarde. Mas o ponto alto desta noite veio antes, na indizível comunhão de Freddie com a audiência argentina. Quem me dera estar ali no meio:
Volvido apenas um ano da loucura da América do Sul e em 1982, os Queen já eram alvo de fuzilamento em praça pública. A banda constou o interesse gerado por temas dançáveis como "Another One Bites The Dust" (principalmente nos Estados Unidos) e resolveu entrar em modo full (gay) disco no Lado A do controverso "Hot Space" (álbum que alegadamente terá influenciado Michael Jackson para o seu "Thriller"). Inovação e reinvenção, dizem uns; sell-outs, acusam outros.
Dentro da banda, nem todos concordaram com esta nova direcção: Freddie Mercury (e o seu tão odiado assistente Paul Prenter, que não gostava de guitarras) foram os maiores impulsionadores da nova sonoridade; John Deacon sempre foi fã dos Chic e adepto do funk, por isso também estava em casa; no pólo oposto, Roger Taylor foi (e ainda é) abertamente contra este álbum; Brian May também não achou grande piada ao conceito (que o afastava da frente da sonoridade dos Queen), mas tentou adaptar-se como pôde à nova direcção musical. E que bem que o fez; principalmente quando a banda levou o álbum à estrada e proporcionou uma das melhores digressões da História dos Queen. Os temas cresceram em palco e ali, os Queen voltaram a ser um grupo coeso, com Brian May de regresso ao centro da paisagem sonora.
O concerto de Milton Keynes Bowl em 1982 (lançado em DVD em 2004) é o melhor exemplo da relação de amor-ódio que tanto os fãs como a banda têm com este período acidentado. De um dos álbuns mais odiados dos Queen saiu uma das melhores digressões, com passagens triunfais por Leeds e Edimburgo e uma saída pela porta grande em Milton Keynes. Sabendo da gravação televisiva do espectáculo, Freddie quis deixar algumas palavras sobre a reacção negativa do público e da crítica ao álbum novo da banda:
"Most of you know that we’ve got some new sounds out in the last week. We’re gonna do a few songs in the funk/black category - whatever you call it. That doesn’t mean we’ve lost our rock’n’roll feel, ok? It's only a bloody record! People get so excited about these things... We just wanna try a few new sounds; this is "Staying Power"."
Sorrio sempre com a ingenuidade do Freddie nestas palavras – "é SÓ um disco dos Queen". Como se isso fosse de somenos. Freddie sentia que tinha algo a provar e arrancou para uma performance olímpica de "Staying Power", uma das canções mais difíceis de cantar ao vivo; ou como Freddie disse em Kassel, semanas antes – "a real bitch to sing". O tema era tão difícil que sempre que Freddie não se sentia na sua melhor forma, os Queen não o tocavam; ainda começou por fazer parte da setlist da The Works Tour em 1984, mas foi completamente abandonado depois da débâcle em Milão e nunca mais apareceu. Em Milton Keynes, Freddie vai a todas.
"Hot Space" gerou tensões tão grandes no seio da banda, que só não separou os Queen em definitivo porque os projectos a solo que lhe seguiram foram unanimemente desastrosos. E rapidamente os Queen se aperceberam que a soma das partes valia muito mais que cada uma das rainhas.
6. "Somebody To Love" – Hammersmith Odeon, London (1979/12/26)
Por falar em "real bitches to sing", esta é a maior bitch de todas. Há vídeos no Youtube só dedicados às falhas ao vivo de Freddie (não foram assim tantas) e a maioria deve-se às notas ingratas de "Somebody To Love". Se Freddie estivesse em noite sim, "Somebody To Love" era invariavelmente o ponto alto do espectáculo; se estava em noite não, a canção podia ser um desastre.
A insana agenda dos Queen durante os anos 70 não ajudou em nada a voz de Freddie. Não havia tempo de descanso no meio do infinito ciclo álbum-tour-álbum e as cordas vocais bem precisavam do repouso. Isso torna ainda mais impressionante quando ouvimos a forma soberba que Freddie apresentou durante a Crazy Tour no fim de 1979. A primeira metade do ano fora passada na estrada, na promoção do álbum "Jazz" e gravação do álbum ao vivo "Live Killers"; mal chegaram do Japão, logo os Queen entraram em estúdio para a primeira fase das sessões do álbum "The Game". "Crazy Little Thing Called Love" foi lançado no Outono e, para promover o single, os Queen fizeram-se à estrada novamente para uma curta digressão. No meio, umas semanas de paragem que fizeram milagres.
Depois das merecidas férias, a Crazy Tour apanhou os Queen em modo caviar, com a banda ultra coesa e Freddie em grande forma vocal, talvez mesmo a melhor de sempre. O segundo concerto de Newcastle, em especial, tem a fama de ser a sua melhor performance ao vivo. Pena não haver gravações de qualidade ao nível da performance. Ouçam aqui "Bohemian Rhapsody" de Newcastle, com Freddie a atingir as todas as notas mais altas que normalmente evita. Impressionante.
O vídeo em cima documenta a performance irrepreensível da maior das bitches – "Somebody To Love" – na última noite da Crazy Tour. O concerto completou uma série de 7 espectáculos em Londres, onde em Dezembro de 1979 os Queen bateram consecutivamente uma série de salas icónicas da cidade: Lyceum Ballroom, Rainbow Theatre, Purley Tiffany's, Tottenham Mayfair, Lewisham Odeon, Alexandra Palace e Hammersmith Odeon. O último fez parte da série Concerts for the People of Kampuchea, que reuniu em Hammersmith bandas como os Wings (Paul McCartney), The Who e os The Clash, para a angariação de fundos para o povo do Cambodja.
O concerto de Hammersmith foi gravado em vídeo e é uma das (muitas) pérolas que o Dr. Brian May continua a fazer refém no seu arquivo, ao invés de a lançar para a ávida comunidade de fãs dos Queen, que desesperam por isto há décadas. É um dos pontos altos da banda, particularmente de Freddie que fez aqui a sua última aparição pública antes de deixar crescer o seu icónico bigode.
5. "White Queen (As It Began)" – Rainbow Theatre, London (1974/11/20)
Os Queen são sobejamente conhecidos pela sua imagem dos anos 80, com Freddie Mercury de bigode. O que nem todos sabem, é que houve um tempo em que os membros da banda usavam maquilhagem, pintavam as unhas e vestiam roupas femininas em palco. Foram os early days dos Queen.
No início de 1974, os Queen eram uma banda em ascensão, esfomeada pelo sucesso, com tudo para provar ao público. Ainda a banda andava na estrada com o seu primeiro álbum (lançado em Julho de 1973) e já planeava a estratégia para a promoção do segundo álbum, que fora gravado em Agosto. Sem nenhum hit single, a banda lutava para sobreviver. Naquela altura, parecia uma loucura uma banda como esses tais de "Queen" marcarem um concerto para o Rainbow Theatre – uma das salas mais prestigiadas de Londres. Mas Freddie sabia que ia ser uma estrela e só estava à espera de uma oportunidade para brilhar.
A oportunidade surgiu quando a 21 de Fevereiro, David Bowie (que estava a promover "Rebel Rebel") desistiu da sua aparição no Top Of The Pops da BBC e assim abriu uma vaga no programa musical mais visto do Reino Unido. Não foi Bowie, foram os Queen tocar o seu novíssimo single "Seven Seas Of Rhye", lançado daí a dois dias. De repente, tudo mudou.
"Seven Seas Of Rhye" disparou para o nº 10 da tabela de singles, "Queen II" subiu ao nº 5 dos álbuns e quando os Queen apareceram no Rainbow, esgotaram os mais de 3 mil lugares, provando que eram uma banda que vinha para ficar. Os Queen quiseram documentar a ocasião e foram ao Rainbow gravar o seu terceiro álbum ("Queen III – Live At The Rainbow" soa tão bem...), só que o motor da banda estava em alta rotação e obviamente, esse álbum nunca veria a luz do dia (até 2014). Mesmo depois de Brian May ter caído na cama do hospital por exaustão após 6 concertos consecutivos em Nova York e de lhe ser diagnosticada hepatite, os Queen enfiaram-se em estúdio e escreveram novas canções para um novo álbum de originais. Assim nasceu "Sheer Heart Attack".
Os Queen voltariam ao Rainbow em Novembro de 1974 para promover "Sheer Heart Attack" – um álbum menos polido que "Queen II", mas mais pesado e com mais potencial comercial. Na semana do concerto, o single de promoção ao álbum – o double A-Side "Killer Queen" / "Flick Of The Wrist" –chegou ao nº 2 das tabelas, falhando por uma unha negra o posto mais alto (Brian May faria referência a essa frustração durante o concerto). Mal sabia ele que aquilo seria apenas o início de uma longa caminhada real dos Queen.
O concerto de Novembro foi mais uma vez gravado profissionalmente em áudio e em vídeo, mas igualmente posto na gaveta, até à sua inclusão parcial na (extremamente limitada) caixa "Box Of Tricks" em 1992. O concerto veria apenas o seu lançamento completo, em toda a sua glória, na maravilhosa caixa "Live At The Rainbow" em 2014, a qual agrupou também o concerto de Março.
Tanto no concerto de Março como no de Novembro, podemos ouvir os Queen a darem o litro. Nesta altura, Freddie ainda não tinha as manhas que foi apanhando ao longo da carreira – por vezes "protegendo-se" de algumas notas mais ambiciosas – e dava tudo noite após noite. Por isso não é de admirar que possamos ouvir coisas incríveis nas gravações ao vivo dos early days dos Queen. O tema em cima é um dos melhores exemplos disso – o superlativo "White Queen (As It Began)", uma balada do álbum "Queen II" que ao vivo ganha outra dimensão.
Freddie já se mostrava um predestinado a lidar com a plateia, mas ainda não era o showman que conhecemos dos estádios dos anos 80. Em sua defesa, ele não teve nenhum modelo para se basear; foi ele, em grande parte, que inventou o seu próprio conceito. Freddie Mercury inventou-se a si próprio: inventou o seu nome, inventou a sua persona no palco, inventou a banda que os Queen se tornariam.
4. "Love Of My Life" – Rock In Rio, Rio de Janeiro (1985/01/18)
Quando os Queen regressaram ao Brasil em 1985, para a primeira edição do festival Rock In Rio (que hoje é um franchising milionário), Freddie já era um especialista em audiências sul-americanas. Aliás, de todas as bandas estrangeiras que ali actuaram, os Queen eram provavelmente a mais experiente naquele país, uma vez que já tinha actuado em São Paulo em 1981 para uma audiência de 130 mil pessoas, na altura um recorde do mundo para concertos pagos. Os Queen sempre gostaram de recordes – até porque, como dizia Freddie: "the bigger, the better... in everything" – e voltaram a bater o recorde do mundo no Rock In Rio, quando actuaram duas noites para uma audiência de 250 a 350 mil pessoas.
Freddie já sabia que o público brasileiro tinha um fraquinho por "Love Of My Life" (vejam aqui no concerto de São Paulo em 1981), por isso quando chegou a hora de cantar para o audiência do Rio, Freddie... não cantou. Limitou-se a levantar os braços e a conduzir o público como se de uma orquestra se tratasse. 350 mil pessoas na palma da mão do Rei. Arrepiante.
3. "You Take My Breath Away" – Hyde Park, London (1976/09/18)
Estejam a fazer o que estiverem, parem. Parem e ouçam com atenção o Rei ao piano na melhor balada de todos os tempos. Nesta fase avançada de evolução civilizacional, já deveria ser unânime e axiomaticamente aceite que "You Take My Breath Away" é a melhor canção de amor alguma vez escrita. Quem não corrobora desta doutrina, ou nunca ouviu a canção (façam favor), ou anda com o coração parado e ainda não foi avisado.
“You Take My Breath Away” é Freddie Mercury em todo o seu esplendor. Com exceção de um (majestoso) solo de guitarra de Brian May lá para o fim, aqui só há Freddie: ao piano e na voz; aliás, Freddie em todas as vozes: agudos, médios e graves, layers e layers de Freddie, é tudo dele. E há o silêncio, elemento fulcral neste tema. Sozinho, Freddie vê-se obrigado a um dueto com o silêncio, amiúde interrompido pela rede de harmonias que mostram um Freddie perdido, atormentado pelas vozes do seu subconsciente. “You Take My Breath Away” é sombrio; é a declaração de amor mais visceral e incondicional, quase ameaçadora; um amor como uma força bruta que lavra tudo à sua passagem e nem o próprio Freddie consegue deter.
Muito se fala em “Bohemian Rhapsody” como a grande obra-prima de Freddie Mercury e em termos de grandeza, é um ponto de vista difícil de refutar. Mas se olharmos atentamente, qual obra-prima de menor porte mas mais polida e refinada, é “You Take My Breath Away” o momento de maior beleza da carreira de Freddie. E por que não? De toda a História da música Pop.
2. "Crazy Little Thing Called Love" – Wembley Stadium, London (1986/07/12)
Se o Live Aid foi a noite triunfal de Freddie Mercury (já lá vamos), a aparição dos Queen no Wembley um ano mais tarde, para dois concertos esgotados, foi o seu coroamento. O "Live At Wembley '86" (ou mais tarde "Live At Wembley Stadium" é não só o concerto mais famoso dos Queen, como também uma das gravações ao vivo mais célebres de qualquer banda Rock. Não há ninguém que não identifique de imediato o casaco amarelo ou a icónica pose de Freddie (que anos mais tarde daria um meme para assinalar qualquer triunfo).
Na Magic Tour em 1986 (digressão de promoção ao álbum "A Kind Of Magic"), já todo o concerto dos Queen era milimetricamente pensado. O climax surgia perto do fim, na eufórica sequência "Bohemian Rhapsody" / "Hammer To Fall" / "Crazy Little Thing Called Love", todos com performances estratosféricas na épica noite do segundo concerto de Wembley. O melhor momento da História da Humanidade – há quem diga. Eu, por exemplo.
Era muito novo para me lembrar, mas o meu Pai conta-me que eu "nasci para a música" quando o concerto de Wembley passou na RTP no Verão de 1988, tinha eu dois anos. Durante aquelas duas horas em que olhei hipnotizado para a televisão, fui feliz como nunca e daí para a frente, a minha vida mudou. Se eu sou como sou, se hoje estou aqui a escrever isto, é tudo por causa deste concerto.
1. "We Will Rock You" - Live Aid, Wembley Stadium, London (1985/07/13)
A noite de Freddie Mercury. Quando Freddie conduzia a audiência em "We Will Rock You" com um grito de "I like it, sing it again!", milhares de milhões de espectadores em todo o Mundo já moravam na palma da sua mão. O Wembley, esse era seu desde que "Radio Ga Ga" pusera as 74 mil pessoas que enchiam o estádio a bater palmas com a coordenação de um comício nazi. Mas naquela noite, Freddie queria mais que o Wembley; queria o Mundo. E agarrou-o, ao dançar com o cameraman em "Hammer To Fall", como se desse a mão às 1.9 mil milhões de pessoas (um terço da humanidade) que o viam em casa. Arrepiante.
E foi assim que na noite de 13 de Julho de 1985, o planeta acordou para um facto que estivera o tempo todo à sua frente: não havia um showman como Freddie Mercury. Não havia e não voltou a haver alguém com aquela capacidade para captar e entreter a audiência. O Wembley parecia uma pequena chávena para o brilho da estrela que explodia em palco. Assim foi a vida de Freddie Mercury: como uma estrela que brilhou muito, muito rápido, muito intensamente e explodiu, porque o universo não aguentava com tanto brilho. Parabéns, Rei.