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sábado, 16 de dezembro de 2017

A melhor música de 2017



Chegámos àquela altura do ano. Listas, listas e mais listas. Adoro. Sabem o que ai vem, por isso não vos vou fazer perder tempo. Sem mais demora, eis a lista daqueles que foram — considerados por mim — os melhores álbuns de 2017. E no fim uma playlist para ouvir tudo de uma vez.

10. Neil Young — "Hitchhiker"


Será que um álbum que foi gravado há mais de 40 anos (1976), mas lançado apenas em 2017, conta para as contas de melhor álbum no ano em que finalmente foi editado? É um dilema recorrente em artistas como Neil Young e Bruce Springsteen, adeptos de guardar na gaveta algumas das suas melhores pérolas durante longos períodos de tempo. No ano passado, tive uma dúvida semelhante com "The Gouster" de David Bowie e este ano com "Man Of War" dos Radiohead — o melhor tema de 2017, mas gravado em 1997 (com faixa vocal de 2017?).

Seja de que forma olhemos para "Hitchhiker", o resultado da análise será sempre superlativo. Seria um grande álbum se fosse lançado em 1976 e é igualmente saindo em 2017. Gravado numa única noite de lua cheia no Verão de 1976 (Neil insistia em gravar em noites de lua cheia), nos estúdios de Indigo Ranch em Malibu, "Hitchhiker" materializa em disco um momento mágico em que a interpretação imaculada e um lote de canções inatacável são somados.

A maioria das canções foi lançada em diferentes álbuns ao longo dos anos, com excepção de "Give Me Strength" e do maravilhoso "Hawaii" (como é que é possível?); o próprio tema-título — "Hitchhiker" — só apareceu em 2010, no álbum "Le Noise". Mas não pensem que o facto de já conhecermos a maioria das canções torna "Hitchhiker" irrelevante. O álbum apresenta versões definitivas de todos os seus temas, salvo "Powderfinger" e "Pocahontas" — ambas regravadas em 1979 para "Rust Never Sleeps".

Melhor momento: O falsetto em "Hawaii"iiiiii.


9. Mount Eerie — "A Crow Looked At Me"


É possível que nunca tenham ouvido falar nos Mount Eerie. Eu também não, até este ano. Um pouco de contexto então: os Mount Eerie são o projecto musical do músico e produtor Phil Elverum, que contou com diversos colaboradores ao longo dos anos. Entre eles, a sua mulher Geneviève Castrée, que participou em quatro álbuns da banda. Em Julho do ano passado, Geneviève morreu com um cancro no pâncreas, um ano a seguir ao diagnóstico. Phil foi atirado contra a brutalidade dos acontecimentos com uma única defesa: a música.

Menos de um ano volvido, chega-nos um novo álbum dos Mount Eerie, com o relato cronológico do processo de luto de Phil Elverum. E é brutal. Não é aquele brutal de quando saímos do cinema depois de uma reposição do "Blade Runner" e dizemos "ei, foi brutal!". Não. Isto é brutal no sentido bruto da palavra. É dor transformada em arte (embora o própria diga que tal é impossível) e é de partir o coração: "I don't want to learn anything from this, I love you".

Melhor momento: O niilismo de "Real Death".


8. VA — "Twin Peaks: Limited Event Series Original Soundtrack" / "Music from the Limited Event Series"



Vou ser o mais directo possível. As melhores coisas que aconteceram no mundo em 2017 foram o Tetra do Benfica, o "The Legend Of Zelda — Breath Of The Wild" para a Nintendo Switch e a terceira série de "Twin Peaks". Quaisquer palavras são parcas para descrever a experiência quimérica daquelas 18 horas de televisão, algo nunca antes visto e dificilmente repetível.

Para lá das dimensões filosóficas e visuais da série, também a música assume um papel fundamental, tanto na narração da história, como no fecho de cada capítulo da mesma. Isto porque a série é na verdade um longo filme de 18 horas, dividido em 18 partes de uma hora. Os marcadores que separam cada um dos capítulos são performances ao vivo na Roadhouse. A quantidade de música nova que David Lynch deu a descobrir na série é assombrosa, pelo que foram lançadas duas bandas sonoras para cobrir todo este espectro: "Twin Peaks: Limited Event Series Original Soundtrack", uma banda sonora mais tradicional e "Twin Peaks: Music from the Limited Event Series", com maior foco nos temas apresentados na Roadhouse. Ambos essenciais.

Melhor momento: A sombria versão instrumental de "Saturday" pelos Chromatics, superior à versão original de Johnny Jewel com lírica, incluída no seu álbum "Windswept".


7. Cigarettes After Sex — Cigarettes After Sex"


Os Cigarettes After Sex já andavam a prometer um álbum há vários anos; há 5 mais precisamente, altura do lançamento do seu primeiro EP — "I.". Desde então, o momentum da Dream Pop oscilou vigorosamente depois da sua expansão no início da década e já está longe do lugar de proa conquistado por discos como o homónimo dos The xx (que também tiveram novo trabalho este ano, mas abaixo das expectativas). Depois de vários singles dispersos ao longo dos últimos anos, os Cigarettes After Sex deram-nos finalmente o seu primeiro long play em 2017 e não desapontaram. O que não significa que nos dessem algo diferente do que esperávamos. Pelo contrário.

Se alguma coisa pode ser dita contra o álbum de estreia dos CAS é que é um disco de um mood só e só de um mood. Mas esses presumíveis desdéns podem ser vistos como virtudes por quem procura simplesmente um álbum introspectivo, ambiental e pacífico. Um álbum ao mesmo tempo vagaroso e poderoso. O disco descolou da pequena pista da banda texana e voou para alturas bem acima da dimensão do grupo, algo bem patente no concerto do Mexefest há poucas semanas. À imagem dos The xx, seguir-se-á o inevitável disco irrelevante dentro de dois anos.

Melhor momento: O riff de "K." que abre o álbum e estabelece o mood.


6. Slowdive — "Slowdive"


Entre muitas coisas, 2017 foi o ano da "second coming" do Shoegaze. E faz todo o sentido que assim seja. Numa altura em que há uma demanda por sonoridades cheias, projectadas em formato IMAX, o Shoegaze assenta que nem uma luva neste nicho do mercado.

Tivemos assim o regresso dos Ride — que voltaram a contar com Andy Bell, depois de 18 anos a colaborar com os irmãos Gallagher — e mais importantemente, vimos os Slowdive aterrar com um álbum astronómico, um dos melhores dreamies dos últimos anos. "Star Roving" é uma das grande malhas do ano.

Melhor momento: "Star Roving" a levar-nos às estrelas.


5. IDLES — "Brutalism"



Em tempos de incerteza, os IDLES trazem-nos carnificina concisa. Em tempos de mentira, os IDLES trazem-nos honestidade. Em tempos de Photoshop e body shaming, os IDLES trazem-nos uma barragem visceral de bílis alegre e jovial. Não são palavras minhas, são retiradas (e traduzidas) do site da banda, mas nem por isso deixam de ser a perfeita descrição do primeiro álbum da banda de Bristol, depois de "Welcome EP" (2012) e do "Meat EP" (2015). "Brutalism" é feroz, visceral e sucinto.

O impacto dos IDLES na cena underground não é de somenos. Numa das melhores (e mais deliciosamente exageradas) reviews que li este ano, o crítico descrevia o álbum de estreia da banda como a soma de "Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols", "It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back" (Public Enemy), "Fresh Fruit For Rotting Vegetables" (Dead Kennedys) e "Bad Brains", tudo ao mesmo tempo. Embora a descrição tenda muito para o lado da hipérbole (e eu adoro reviews desavergonhadamente hiperbólicas) e beneficie do marasmo em que vive a up-and-coming cena Rock em 2017, já dá para perceber o entusiasmo gerado pelos IDLES.

Melhor momento: O furioso "Mother", tema sobre a falecida mãe do vocalista Joe Talbot... e os Tories.


4. The War On Drugs — "A Deeper Understanding"


O novo dos The War On Drugs (que é o mesmo que dizer, de Adam Granduciel) era um dos discos mais esperados de 2017. O lançamento do épico "Thinking of a Place" no Record Store Day de Abril antecipava algo em grande e felizmente que as expectativas não foram defraudadas. "A Deeper Understanding" é um grandíssimo álbum e um grandíssimo candidato a álbum do ano. É certamente um dos mais sólidos — entra forte em "Up All Night" e mantém a bitola lá em cima até ao fim.

Cosendo texturas com as mesmas linhas do anterior "Lost In A Dream", o novo álbum dá uma sensação de continuidade na discografia dos The War On Drugs, como se de uma única música de 2 horas se tratasse. Este mesmismo funciona como um pau de dois bicos — por um lado, oferece conforto e segurança ao ouvinte; por outro, não oferece nada de novo. Porque sejamos sérios: a verdade é que The War On Drugs são tão variados como os AC/DC. Not that there's anything wrong with it. É o que é. Eu também passo o Verão inteiro a comer sardinha e o Inverno a comer bitoque e nunca me canso.

Melhor momento: O glorioso glockenspiel roubado a "Born To Run" de "Holding On". Tema do ano?

3. Roger Waters — "Is This The Life We Really Want?"


Uma esmagadora surpresa. Não devem encontrar o novo álbum de Roger Waters em muitas listas de final do ano e isso deve-se a duas razões: 1. Estamos em 2017 e Roger Waters já não é um artista relevante há quase 40 anos; 2. A maior parte do público não ouviu ou não prestou a devida atenção a "Is This The Life We Really Want?" devido à razão número 1.

Como toda a gente, também eu não tinha grandes expectativas para o novo disco de Roger. Mas acabou por ser uma das grandes obsessões deste ano. Para lá da visão niilista da vida e do mundo, "Is This The Life We Really Want?" é um exercício de introspecção implacável. Roger despe-se por completo, olha para dentro e escava a fundo em si mesmo. Nu e cru. Sem medos. E desta vez, não é só a interminável saga do pai que morreu na guerra; é o próprio Roger que morreu por dentro e quer falar sobre isso. Este é o álbum mais pessoal de toda a sua carreira e se eu tivesse que apostar, diria que só chegou agora, porque só agora é que Roger aprendeu a olhar para dentro. Um disco intenso e extenuante, dissecado aqui.

Melhor momento: A intensa trilogia que fecha o álbum — "Wait For Her" / "Oceans Apart" / "Part Of Me Died" — tão pessoal, que chega a ser desconfortável.


2. Ryan Adams — "Prisoner"


"If loving you is wrong, I am a criminal. I am a prisoner for your love." é talvez a melhor linha que eu ouvi este ano. É simples, tão simples que arranha o lugar-comum, mas tão certeira. E não é assim que nasce a melhor Pop?

As canções de "Prisoner" foram escritas na ressaca do divórcio de Ryan Adams com a actriz Mandy Moore. Na altura, em vez de se enclausurar para escrever e gravar esses temas, Ryan preferiu lidar com a separação através da desconstrução de "1989" que, tal como toda a música que Ryan escrevia na época, também é sobre amor perdido e corações partidos.

Prisoner" é um álbum pejado de canções de amor (e falta dele), obrigatório para quem vive as canções Pop como o Tom do "500 Days Of Summer". Esteve "assim" do galardão de álbum do ano (o álbum foi dissecado aqui), mas acabei por me deixar ir para onde me mandou o meu coração. E o meu coração mora em Manchester.

Melhor momento: "If loving you is wrong, I am a criminal.". Tudo dito. E não esquecer o álbum de B-Sides com 17 (!!!) faixas bónus.


1. Liam Gallagher + Noel Gallagher — "As You Were" + "Who Built The Moon?"


Tenho a perfeita noção de quão polémica arrisca a ser esta escolha. Não é segredo para ninguém que sou um apaixonado dos Oasis e dos irmãos Gallagher. Sim, sou um Parka Monkey. Prendam-me. Este ano cobri extensivamente o regresso glorioso do "nosso miúdo" (RKid para os fãs dos Oasis) Liam Gallagher, as bulhas com o mano mais velho, a crise de meia-idade de Noel, bem como o seu ambicioso álbum novo. Não há aqui sequer qualquer tentativa de imparcialidade — se estamos num ano em que um dos manos Gallagher lança um álbum, é muito provável que ele apareça no meu top. Ora, 2017 viu não um, mas dois álbuns dos manos — "As You Were" de Liam e "Who Built The Moon?" de Noel. E não poderiam ser mais diferentes.

A pergunta óbvia é qual deles o melhor. É óbvia, mas não é a pergunta correcta. Porque ambos se complementam. Algures entre "As You Were" e "Who Built The Moon?" está o álbum do ano. Pensem nestes discos como dois volumes da mesma obra, duas faces da mesma moeda. Liam tem as melhores canções, Noel tem a melhor produção. Liam tem o foco, Noel tem a ambição. Liam tem as melhores partes, Noel tem o melhor todo. Entre os dois, está o balanço perfeito entre canções e produção, atmosfera e atitude. E se Noel passou o ano a ser um idiota, não estou a ver nada que o irrite mais a ter que partilhar o primeiro lugar com mano mais novo. As you fucking were.

Melhor momento: O sincero e comovente pedido de desculpas de Liam em "For What It's Worth".


11-20. Menções honrosas

20. Brand New — "Science Fiction"
19. The Orwells — "Terrible Human Beings"
18. Spoon — "Hot Thoughts"
17. Morrissey — “Low In High School”
16. LCD Soundsystem — "American Dream"
15. Kaitlyn Aurelia Smith — "The Kid"
14. Waclaw Zimpel / Jakub Ziolek — "Zimpel / Ziolek"
13. Ride — "Weather Diaries"
12. Kurt Vile / Courtney Barnett — "Lotta Sea Lice"
11. Destroyer — "Ken"


Faixa bónus: as melhores canções

E para completar a resenha de 2017, fiquem também com a lista das 20 melhores canções do ano, com direito uma playlist com tudo incluído no fim. Maravilha.

20. Cloud Nothings — "Enter Entirely"
19. The Orwells — "Put The Body In The Bayou"
18. Queens Of The Stone Age — "Feet Don't Fail Me"
17. IDLES — "Mother"
16. Destroyer — "Tinseltown Swimming In Blood"
15. LCD Soundsystem — "Emotional Haircut"
14. Noel Gallagher's High Flying Birds — "The Man Who Built The Moon"
13. Morrissey — "Spent The Day In Bed"
12. Slowdive — "Star Roving"
11. The Weeknd — "Secrets"

10. Ride — "Home Is A Feeling"
9. Brand New — "Lit Me Up"
8. Kurt Vile / Courtney Barnett — "Over Everything"
7. Tears For Fears — "I Love You But I'm Lost"
6. Foo Fighters — "Run"
5. Neil Young — "Hawaii"
4. The War On Drugs — "Holding On"
3. Ryan Adams — "Prisoner"
2. Liam Gallagher — "For What's It Worth"
1. Radiohead — "Man Of War"

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Abram alas para o homem que fez a lua — O ambicioso novo álbum de Noel Gallagher

A crise de meia idade de Noel Gallagher não é assim tão má como parecia

Se a crónica de ontem deixou escapar que eu levo este assunto do álbum novo do Noel Gallagher demasiado a peito — pessoalmente até —, então deixem-me que vos diga que estão completamente certos. Se me lêem habitualmente, já deram conta da importância da música dos manos Gallagher na minha vida, pelo que esta é uma matéria que levo brutalmente a sério.

Não pensem que por isso sou brando com os rapazes de Manchester. Pelo contrário. A expectativa e o escrutínio andam de mãos dadas e eles estão sempre sujeitos a exigência máxima. Mais, isto é motivo de discussão diária ao jantar com a minha namorada. Ela defende o Noel e diz que o rapaz anda confuso. Eu ataco-o porque ele só tem dito merda. E ela depois acusa-me de ser igual a ele e com isso ganha automaticamente a discussão com o paradoxo do absurdo de qualquer ataque meu ao Noel ser um ataque também à minha pessoa. Parece-vos confuso? Bem-vindos à minha vida.

Já não estamos no Kansas. Muito menos em Oasis

Soa a sirene do quartel com uma explosão de sound effects e sintetizadores, ouvimos Ysée a canalizar demónios de "Smack My Bitch Up" (The Prodigy) e "Power" (Kanye West) e desde logo percebemos que já não estamos no Kansas. Muito menos em Oasis. Estamos sim no Kentucky, mais precisamente em "Fort Knox", no já conhecido tema de abertura de "Who Built The Moon?" onde Noel mostra ao que vem. Foi a última composição a entrar no álbum e é provavelmente o tema de todo o disco que mais se afasta do espectro tradicional dos álbuns de Noel. Como já vimos, não é propriamente uma grande revolução para o que o foi fazendo nos últimos 20 anos; a diferença é ver o que no passado era atirado para B-Side aparecer agora como figura de proa. Em condições normais, diria que é uma escolha sui generis para tema de abertura, mas já sabemos que a intenção de Noel era precisamente fazer um statement à cabeça. Início excelente e prometedor. O pior vem a seguir.

"Who Built The Moon?" evidencia alguma intermitência logo no início com a transição do auspicioso "Fort Knox" para o underwhelming "Holy Mountain". Já disse tudo o que havia para dizer sobre o híbrido Plastic Bertrand — Ricky Martin de Noel. Para esquecer.
Muito mais interessante é o toque Soul / R&B do tema seguinte — "Keep On Reaching". Presumo que era este o tema que a Noel se referia quando disse ao Chris Moyles que soava a Marvin Gaye no novo álbum. Não tenho a certeza quanto ao Marvin, mas um Stevie Wonder ficaria orgulhoso a ouvir isto. Fresco e entusiasmante.



Depois vem mais um headscratcher. "It's A Beautiful World"  soma um beat de Chemical Brothers a uma bassline pulsante e veste tudo numa atmosfera etérea, onde até a faixa vocal de Noel aparece mergulhada. É um tema ambicioso e um épico de manual. Mesmo fustigado pela clássica lírica nonsense de Noel — "It's like a dream you and one night and put it over there", hã? —, "It's A Beautiful World" tinha tudo para ser um triunfo inatacável. Só que a meio do tema, Noel resolveu inventar. Enquanto ouvimos o som maravilhoso de um sintetizador evocativo de "Cluster One", somos interrompidos por um anúncio em francês de Charlotte Marionneau (a tocadora de tesouras) — "Attention, attention! Mesdames, messieurs!" — que aparece do nada e completamente a despropósito. Sei que Noel quer fazer "some cutting edge shit" para gerar atenção, mas a música não tem que sofrer com isso. A vontade em agir fora da caixa é tão grande que Noel se permite a arruinar o clímax daquela que poderia ter sido a sua pièce de resistance. Uma pena.

Por falar em épicos de manual, "She Taught Me How To Fly" foi directamente retirado da cartilha dos New Order. A bateria é textbook Stephen Morris e o baixo emula Peter Hook na perfeição. Depois da interpretação algo insípida no programa de Jools Holland no mês passado (onde o grande destaque foi dado à tocadora da tesoura), com o enquadramento sónico adequado, o tema tem aqui palco para brilhar. A lírica carrega na mesma tecla de "Holy Mountain" e "It's A Beautiful World". Noel está feliz com a sua mulher (Sarah MacDonald, que também aparece na capa do álbum) e não se coíbe de elaborar extensivamente sobre o assunto.

O álbum continua a ganhar tracção com o enigmático "Be Careful What You Wish For", que a espaços parece um B-Side de Tears For Fears; e note-se que "parece Tears For Fears" é um dos maiores elogios no meu livro. Outrora um tema deste tipo teria sido sumariamente atirado para a escuridão do Lado B de um single. Hoje é mais um tema onde Noel sai, com sucesso, da sua zona de conforto.



Segue-se aquele que é provavelmente o tema mais "safe" de todo o álbum. "Black & White Sunshine" é o mais óbvio throwback da clássica sonoridade dos Oasis e poderia perfeitamente figurar no miolo de "Chasing Yesterday" como irmão-gémeo de "You Know We Can't Go Back". David Holmes não deixou porém que o tema passasse sem o seu dedo e acrescentou-lhe uns backwards sounds para ter a certeza que o álbum pára em todos os apeadeiros do que deve ser um disco psicadélico. Há ainda aqui um pequeno easter egg — um cheirinho a Pet Shop Boys sempre que Noel diz "You got the nerve, I got the brains" e me deixa sempre à espera que ele complete com "let's make lots of money!".

"Interlude (Wednesday Part 1)"  e "End Credits (Wednesday Part 2)" são os toques mais visíveis de David Holmes em todo o álbum. O produtor, para além do trabalhos em bandas sonoras cinematográficas, fez muita coisa apetitosa no advento do Trip Hop no fim dos anos 90. Estes interlúdios instrumentais solidificam a influência francesa do álbum (aposto que a menina Sarah MacDonald é fã da cultura do país), evocando o superlativo "Moon Safari" dos Air. Noel ganha a sua aposta quando arrisca na música ambiente e deixa água na boca para o que poderia ser um álbum ainda mais instrumental. Se contarmos com "Fort Knox", são três temas aqui. Mais uma prova que Noel sucede quando se preocupa apenas com a música e não com ser weird for the sake of it.



Já "If Love Is The Law" não é propriamente weird, mas soa a uma faixa horrível dos Mumford & Sons, embora tema que isso seja um pleonasmo. Vale pela harmónica de Johnny Marr que aparece no fim a salvar a honra da canção.

E agora "make room for the man who built the moon", que é como quem diz, o momento alto de "Who Built The Moon?" que estava guardado para o fim. Citando o irmão mais novo de Noel (desculpa lá, miúdo), "The Man Who Built The Moon" é bíblico. A guitarra maldosa, a produção angulosa, a lírica perigosa ("We never should have left town in the first place"), a orquestração cinemática de um filme de terror dos anos 60, tudo cai no sítio certo.
Este pode muito bem ser o Bond Theme de que tanto temos ouvido falar este ano. É pena que não seja utilizado na próxima entrada do franchise da EoN, uma vez que até o título encaixaria que nem uma luva a um filme da saga de James Bond, mas depois de rejeitarem os Radiohead duas vezes, já nada me surpreende. "The Man Who Built The Moon" é facilmente o melhor tema do álbum (até porque o outro concorrente é uma faixa bónus) e, por que não, um dos melhores temas que ouvi este ano.

Veredicto

"Who Built The Moon?" é o álbum que Noel Gallagher queria fazer desde há 20 anos e nunca teve coragem. A aposta na electrónica e na sonoridade psicadélica está longe de ser uma coisa nova, mas se até hoje esses temas haviam sido relegados para fora do corpo principal dos álbuns, aqui puderam finalmente ter o lugar de destaque que mereciam. Embora este seja o disco que já se esperava de Noel há muitos anos, não é necessariamente por isso o melhor da sua discografia, uma vez que sofre de alguma intermitência no reportório. É o próprio Noel quem admite que pela primeira vez na sua carreira foi para estúdio sem canções e foi inventando à medida que ia avançando. É uma abordagem diferente da que estava habituado, que por vezes resulta em cheio ("Fort Knox") e outras vezes nem por isso ("Holy Mountain").

Não é por acaso que pela primeira vez na sua carreira, faltaram B-Sides para completar o lote do álbum. Todos os discos de Noel Gallagher e dos Oasis podem ser desdobrados em dois: o álbum principal e as faixas bónus / Lados B, que na boa tradição Smithsiana oferecem uma audição tão ou mais aprazível que o lote principal. Normalmente, estas faixas extra incluem-se num de dois grupos: temas acústicos e/ou inacabados: ou temas experimentais, demasiado fora da caixa para o corpo principal. Ora, como os temas do segundo grupo desta vez foram parar ao álbum e não houve muitas sobras do primeiro grupo nas sessões de gravação, Noel correu o risco de não cumprir a tradição que mantinha desde o primeiro álbum dos Oasis. Valeu o engenheiro de som, que gravou uma lindíssima performance do pungente "Dead In The Water" nos estúdios da RTÉ 2FM em Dublin e que assim permite a Noel manter a sua tradição. É a clássica pérola escondida de Noel.



Noel disse um dia que "good times don't make good records" (bons tempos não fazem bons discos) e talvez seja essa a razão de não ter a torrente habitual de canções a cair na esferográfica. Estas carências são mascaradas com a produção cinemática de David Holmes, que faz este disco valer mais pela soma das partes. "Who Built The Moon?" é assim uma experiência sónica diferente dos dois primeiros álbuns de Noel — "Noel Gallagher's High Flying Birds" e "Chasing Yesterday" — que se focavam nas canções como entidades individuais. Pena que a espaços se sinta que Noel está demasiado preocupado em fugir do passado (uma antítese do álbum anterior) e força o pensamento fora da caixa sem critério. Não obstante tudo isto, "Who Built The Moon?" é um capítulo fulcral na carreira do Chief e deixa a promessa de ser um stepping stone para obras sónicas ainda mais ambiciosas no futuro. Aguardemos.

Por outro lado, o meu Last.fm diz-me que já fiz 193 scrobbles em "Who Built The Moon?" (isto é, já ouvi faxia do álbum por 185 vezes) desde Terça-feira. Se considerarmos uma média de 4 minutos por tema, isto resulta em 13 horas a ouvir o álbum em 4 dias apenas. Nada mau para um álbum de crise de meia-idade.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A crise de meia-idade de Noel Gallagher

Respirem fundo, vem aí um longo ensaio sobre o novo álbum de Noel Gallagher

Há quem compre um Porsche e há quem comece uma banda. Noel Gallagher já não quer nada com os Oasis e por isso fez um álbum ostensivamente diferente de tudo o que tinha feito até agora. Ou pelo menos é essa a ideia que ele quer passar. Só que não é bem assim.

Um desejo antigo

Vamos ler nos próximos dias muitas reviews que apontarão "Who Built The Moon?" como "uma revolução", "um enorme desvio na sonoridade" de Noel e se perguntarem ao próprio, ele será o primeiro a confirmar tal teoria. Nada mais falso. Quem esteve com atenção ao que Noel fez nos últimos 20 anos percebe que este disco é um avanço lógico e apenas a concretização de um desejo antigo. Os sinais estavam todos lá.

Noel começou a flirtar com sonoridades psicadélicas em tempos tão idos como 1998, nas sessões do que poderia ter sido o seu primeiro álbum a solo, abortado quando o seu irmão Liam invadiu Wheeler End — o estúdio onde Noel gravava sozinho — e assim ressuscitou os Oasis, nascendo daí o álbum "Standing On The Shoulder Of Giants" (2000); mais tarde, ainda nos Oasis, em temas como "Falling Down" e "The Turning" de "Dig Out Your Soul" (2008); já a solo, com "AKA... What A Life!" do seu homónimo álbum de estreia (2011); no álbum de colaboração com os Amorphous Androgynous que ficou na gaveta, de onde ainda sobreviveram pérolas como "The Right Stuff" e "The Mexican", que acabariam no último álbum até à data "Chasing Yesterday" (2014). Este disco não nasceu do vácuo.

Uma campanha desastrosa

Para quem esteve atento, a "nova direcção" trilhada em "Who Built The Moon?" é somente um passo natural no arco discográfico de Noel Gallagher. Já a forma como Noel quis promover este disco foi tudo menos natural. O mancuniano quis deixar bem claro que este é um corte com o passado e talvez com medo que as pessoas não percebessem a ideia, decidiu proceder a uma estratégia de marketing verdadeiramente kamikaze.
Para dar início às hostilidades, começou por virar os seus próprios fãs contra si, apelidando-os de "little 15-year-old snotty cunts with polka-dot scarfs" (uma tradução livre disto poderia ser "pequenos coninhas ranhosos de 15 anos com écharpes às bolinhas"), sublinhando que a intenção neste momento é dividir a sua fanbase para deitar fora os "Parka Monkeys" (numa óbvia referência ao irmão Liam).

Alienar propositadamente os próprios fãs? Como se justifica uma coisa destas? Duas hipóteses de explicação. Primeira hipótese: Noel passa por uma crise identitária de meia-idade e já não se identifica com os seus fãs; agora é BFF de Bono Vox, frequenta as festas da alta sociedade e acha que cresceu cultural e socialmente para lá do espectro dos Oasis, da Britpop e da lad culture que os engloba. Segunda hipótese: Noel sempre tratou os seus fãs com desdém e mesmo assim, eles estiveram sempre lá durante mais de 20 anos; Noel achou por isso que eles nunca o iriam abandonar e quis ir à procura de novos targets.

O problema é que nisto Noel esqueceu-se de duas coisas muito importantes: são os seus fãs leais que compram os discos que lhe dão o dinheirinho no fim do mês; os seus fãs são leais não só a ele, mas também ao irmão mais novo e até podem admitir que Noel os insulte, mas não admitem que rebaixe o Liam que, apesar dos 45 anos, ainda é carinhosamente chamado de R Kid (o nosso miúdo). O resultado desta campanha desastrosa, ao nível de António Costa nas Legislativas de 2015, foi que Noel passou de Chief — adorado por milhões, a Beige Boy — bombo da festa nas redes sociais.

As primeiras amostras

Não foram só os insultos que espantaram os fãs de Noel. O Chief quis desde logo dar a conhecer dois temas fracturantes para mostrar ao que vinha: o inenarrável primeiro single "Holy Mountain" (já lá vamos) e a faixa de abertura "Fort Knox", tema que Noel diz ser inspirado em "Power" de Kanye West (2007) — uma referência interessante, mas (não por acaso) das menos aprazíveis para os fãs dos Oasis. Escolhida a dedo, portanto.

"Fort Knox" é um tema predominantemente instrumental, que canaliza as brilhantes sessões de "Standing On The Shoulder Of Giants", mais especificamente temas como "Fuckin' In The Bushes" e "Teotihuacan" (que acabaria na banda sonora dos X-Files), com um óbvio toque do produtor David Holmes — cuja influência se faz sentir ao longo de todo o disco. Holmes é conhecido pelo seu trabalho em bandas sonoras cinematográficas e pelos seus discos Trip Hop no final dos anos 90 (atentem em "Don't Die Just Yet", do álbum "Let's Get Killed" (1997)). Foi uma excelente aposta de Noel para a produção deste álbum (já me estou a adiantar na review) e o seu dedo sente-se logo no primeiro tema.

Antes de "Fort Knox", já tínhamos ouvido o ofensivo "Holy Mountain". Já o disse aqui — um rip-off de uma banda francesa dos anos 70 (Plastic Bertrand) com um refrão do Ricky Martin. É tão mau que parece uma piada. O melhor que posso dizer deste descarrilamento é que é, de facto, catchy. Mas catchy na mesma medida em que "She Bangs" é catchy, por isso não sei até que ponto pode ser um elogio. "Holy Mountain" assustou toda a gente, mas talvez fosse esse mesmo o propósito de Noel — gerar atenção.

O Scissorgate

Não contente com o choque gerado pelas duas primeiras amostras do álbum, Noel subiu a parada e apareceu no programa de Jools Holland para tocar o novo "She Taught Me How To Fly" com uma miúda na banda a tocar... uma tesoura. Sim, leram bem. Foi o Scissorgate. Se os fãs de Noel já estavam confusos, pior ficaram. "O que raio se está a passar com o nosso Noel?", perguntava-se nas redes sociais. Do outro lado da barricada, Liam retorquiu com a promessa de ter alguém em palco a afiar um lápis e mais uma vez ganhou o lance.

Noel estava habituado a que tudo o que fizesse fosse visto como cool e a verdade é que se o scissorgate tivesse acontecido há um ano, a reacção teria certamente sido outra. Mas meses de má publicidade fazem muita coisa e quando começaram a aparecer pessoas a descascar batatas nos concertos de Liam (numa clara alusão ao insulto clássico do mano mais novo), Noel percebeu que passara a alvo de chacota público. Para piorar, os fãs não estavam a comprar bilhetes para os seus concertos (que normalmente esgotam em minutos) e terá sido aí que se deu o clique e Noel acordou da sua crise de identidade. Seguiram-se algumas entrevistas mais sóbrias, onde defendeu que "isto é só um álbum" e que "daqui a 10 anos isto vai ser olhado como apenas uma fase", mas o mal estava feito.

Resta apenas a música para salvar Noel Gallagher. Será que o seu novo álbum o pode salvar? A review de "Who Built The Moon?" segue dentro de momentos.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Tears For Fears no Royal Albert Hall — Como pode música tão depressiva ser tão eufórica?

Crónica do concerto mais curto da minha vida

Foi tudo muito rápido. Num momento estava a virar pints no bar do Royal Albert Hall, ansioso que chegasse a hora do concerto e daí a nada, já estava a aplaudir a saída de Roland Orzabal e Curt Smith do palco, confuso com o facto de só terem tocado meia hora. Meia hora?! Então eu venho de Portugal para os ver e eles só tocam meia hora? Só que não foi bem assim.

Os Tears For Fears foram a Londres promover a nova compilação "Rule The World: The Greatest Hits" e tocaram durante 100 minutos para uma plateia ávida pela sua música. Foi o primeiro concerto dos TFF em nome próprio na Europa desde 2005 e no RAH, foi o primeiro desde 1985, ano em que nasceu este que vos escreve. O entusiasmo na plateia reflectia a saudade e a importância do momento. Já vi alguns concertos na minha vida (este foi o 200º) e poucas vezes vi uma reacção tão fanática por parte do público, a dançar e a cantar por cima de todos os códigos de etiqueta britânicos. Foi um verdadeiro Royal Happy Hall.

Da minha parte, este era "só" o concerto mais ansiado da minha vida. Partindo do princípio que a ciência não nos dará para breve a ressurreição do Freddie Mercury, de todas as minhas bandas de eleição, só os Tears For Fears me faltavam ver. E as expectativas — que não eram tímidas — voaram para a estratosfera. Lembram-se da "Get Psyched Mix" do Barney Stinson do "How I Met Your Mother"?
"Now, people think a good mix should rise and fall. But people are wrong! It should be all rise, baby! Now prepare yourselves for an audio journey to the white, hot center of adrenaline!"
Foi exactamente como o Barney descreveu. Em vez de uma sinusoidal de emoções, os Tears For Fears presentearam-nos com hora e meia de cabeçadas nos limites do êxtase. Qual é a banda que se atreve a começar um concerto com o seu maior hit? Os Tears For Fears, pois claro. Entraram em palco com "Everybody Wants To Rule The World" e daí até ao final com "Shout", foi sempre lá em cima (só não foi sempre a subir, porque já não havia mais para subir) com uma torrente de hits e deep cuts eufóricos. Porque é mesmo de euforia que se trata, quando falamos dos TFF. Tenho várias fotografias neste concerto que nunca poderão ser mostradas, porque estou com um sorriso tão idiota que parecia saído de uma excursão para ver o mar pela primeira vez. E isto a ouvir música sobre depressão e esgotamentos nervosos. Como pode música tão depressiva ser tão electrizante?

Desde a insanidade do primeiro single "Mad World" (tema de 1982 que teve segunda vida em 2003, quando foi o nº1 de Natal nas tabelas britânicas), passando pelo romantismo de "Head Over Heels" ("I wanted to be with you alone and talk about the weather"), ou pelo ecumenismo de "Sowing The Seeds Of Love" ("those fucking politics"). Sempre lá em cima. Mas não foram só os êxitos que fizeram o concerto; foram também os doces saídos das profundezas dos álbuns — "Secret World" (do fantástico "Everybody Loves A Happy Ending"), "Broken" (só com passagem instrumental) e "Memories Fade" (o momento mais intenso da noite); e a cereja no topo, o fenomenal cover de "Creep", de uma certa banda que em tanta coisa são os sucessores espirituais dos Tears For Fears.

O momento alto da noite surgiria no fim, com o épico jazzista-orgânico-progressivo "Badman's Song", deep cut do álbum "The Seeds Of Love" de 1989 que (dizem-me) durou 9 minutos, mas que quando terminou me fez pensar "Já?! Então mas isto não era suposto durar 9 minutos?". Para a noite ser perfeita, só faltou o feroz "Raoul And The Kings Of Spain", favorito dos fãs que Roland teima em não cantar. Faltou também o último single da banda "I Love You But I'm Lost", lançado para promover a compilação "Rule The World: The Greatest Hits" (que foi o que os TFF foram fazer ao RAH), mas inexplicavelmente ignorado na setlist. Que outra banda poderia dar um concerto para promover o lançamento de um single e não o tocar? Pois. Clássico trolling dos sempre elusivos Tears For Fears.

No fim, senti que foi o concerto mais curto da minha vida. Mas esse é um daqueles mistérios do tempo. Por que raio faz os bons momentos parecerem tão curtos e depois os estica na memória para a eternidade? Fuck knows.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A melhor música da primeira metade do ano

O crítico de música da NiT tem a playlist perfeita para o verão

Já dobrámos a primeira metade de 2017 e chegou a altura de rever a matéria dada com uma playlist mesmo a tempo da praia, da piscina, ou daqueles 'warm sunny days indoors' tão bons. Notem que isto não é bem a vossa clássica "Playlist de verão". Pelo menos não estou a ver ninguém a curtir Mount Eerie num sunset de copo de gin na mão. O espectro é mais largo que isso e o critério é absolutamente pessoal e parcial. Passemos então aos maiores destaques da playlist.

Álbum do ano: Ryan Adams — "Prisoner"

A playlist abre com "Doomsday", um tema retirado de "Prisoner" — o mais recente álbum de Ryan Adams e o que mais me encheu as medidas este ano. O Ryan tem dado muito que falar pelo tamanho da sua língua, numa série de ataques aos The Strokes no Twitter, que já não víamos desde que o Liam Gallagher se tornou um gajo calmo (até quando fala do irmão!). O próprio reconheceu isso mesmo e assinou o tweet da mesma forma que Liam fecha os seus escritos — "As you were". Adoro, adoro, adoro.

Infelizmente só se fala nas bocas de Ryan Adams e não no que realmente importa, que é o seu mais recente, superlativo e criminosamente ignorado trabalho "Prisoner". Este álbum mostra um Ryan na sua zona de conforto, que no seu caso é o mesmo que dizer —  a carpir mágoas com canções sobre relações falhadas e corações partidos. Continua a haver algo de irresistivelmente masoquista e metaromântico nesta vontade Louis-CKiana de Ryan se apaixonar sem medo da miséria do pós-heartbreak, ou até na ânsia da inspiração que essa miséria lhe pode dizer. E não é esse o sal da vida?

Mas não pensem o universo de "Prisoner" se esgota nos 12 temas que compõem o álbum. Semanas após o seu lançamento, Ryan lançou 17 (!!!) temas adicionais gravados nas sessões deste álbum. Se quiserem mergulhar mais a fundo nesta fase prolífica do músico americano, não deixem de ouvir a overwhelming compilação "Prisoner B-Sides".


Tema do ano: Radiohead — "Man Of War"

A segunda entrada da playlist é "Man Of War" dos Radiohead. Segundo a minha fiel fonte dos Radiohead, "Man Of War" foi o tema que a banda sugeriu à EoN  (produtora dos filmes do James Bond) quando foram abordados para escrever o tema de "Spectre". "Man Of War" foi escrito por alturas do "The Bends" como uma homenagem aos Bond themes, na expectativa de um dia os Radiohead serem chamados à prova (no documentário "Meeting People Is Easy", podemos ver a banda no estúdio a gravar o tema). A chamada não chegou tão cedo como esperavam e "Man Of War" ficou na gaveta durante 20 anos.

O telefone tocou finalmente em 2015, mas a EoN perversamente não aceitou "Man Of War" por ser um tema antigo. Como tal, os Radiohead gravaram "Spectre", que foi igualmente rejeitado por ser 'demasiado dark' e em última instância foi chamado Sam Smith, que acabaria por gravar o deveras underwhelming "Writing On The Wall".

Na verdade, talvez "Man Of War" fosse demasiado complexo para o retrato que a EoN quer fazer do James Bond nos seus filmes. Na visão original de Ian Fleming, James Bond é um assassino. Pura e simplesmente. É um homem com mais morte e menos swing que a série de filmes quer fazer crer. Mas acima de tudo, Bond é um homem. Um homem igual aos demais, com medos, desejos e anseios. A morte dos outros é a forma que Bond encontrou para compensar a sua própria morte interna. E é assim que os Radiohead se atrevem a caracterizá-lo no melhor tema de 2017... mas que foi gravado em 1997 (ou entre 1995 e 1997 para ser mais exacto) e agora viu finalmente a luz do dia na reedição de "OK Computer". Podem ler mais sobre "Man Of War" aqui.


Regresso do ano: Roger Waters — "Is This The Life We Really Want?"

O regresso mais surpreendente do ano tem que ser o de Roger Waters. Tanto pelo simples facto de ele acontecer, como (e principalmente) por ser algo que realmente vale a pena ouvir. Faz-me muita confusão ler as opiniões quase unanimemente complacentes e moderadas relativamente a "Is This The Life We Really Want?". Condescendentes, diria até. Parece que ouviram uma vez — se ouviram uma vez sequer — escreveram meia dúzia de banalidades e siga para bingo. Mas que é isto? Todas as reacções são possíveis, mas se há uma coisa que Roger Waters não provoca é indiferença. Esta condescendência constitui maior ofensa ao Roger do que se lhe dissessem na cara que o álbum é uma valente merda. Mas que nova moda é esta de não ter opinião para não magoar ninguém? Vamos agora todos pintar as nossas palavras de cinzento porquê? Para agradar aos outros? Citando o Roger, "fuck them!".

Vou ser directo: "Is This The Life We Really Want?" não é um álbum de digestão imediata. É uma audição extenuante, tal o negativismo que assola a música do princípio ao fim. É também um álbum fatalmente político; eu até costumo ser apologista que os meus artistas se mantenham longe da política, mas a verdade é que o "Animals" era político e não deixa de ser uma obra-prima por isso. Roger tem opiniões fortes e quer expressá-las; e ainda bem. Se ao menos o fizesse mais vezes.

Para lá da visão niilista da vida e do mundo, "Is This The Life We Really Want?" é também um exercício de introspecção implacável. Roger despe-se por completo, olha para dentro e escava a fundo em si mesmo. Sem medos. E desta vez, não é só a interminável saga do pai que morreu na guerra; é o Roger que morreu por dentro e quer falar sobre isso. Este é o álbum mais pessoal de toda a sua carreira. E se eu tivesse que apostar, diria que este álbum confessional só chegou agora, porque só agora é que Roger aprendeu a olhar para dentro e viu a besta que é.

Roger descreveu "Is This The Life We Really Want?" como um álbum "parte tapete mágico, parte discurso político, parte angústia". Belo resumo. Ouçam, mas tenham um copo de vinho à mão, de preferência. Sempre é uma anestesia para o vazio que vão sentir.

Para uma leitura mais aprofundada sobre "Is This The Life We Really Want?", podem ir aqui, aqui e aqui.

O que resta do ano: Foo Fighters, The War On Drugs e Liam Gallagher

A primeira metade de 2017 também nos deu muitas amostras do que podemos esperar para o que resto do ano. Muitos destes temas são singles de avanço dos respectivos álbuns que aí vêm e compõem também parte do melhor que já se ouviu este ano.

Começando pelos Foo Fighters, que deixaram água na boca com o novo "Run", tema que testaram no concerto do Alive com resposta positiva. No último álbum, Dave quis dar uma de Roger Waters e formular um elaborado conceito que cruzava uma série televisiva sobre a cultura musical de várias cidades, com um álbum em que cada tema era inspirado numa cidade e acompanhava o respectivo episódio. O conceito era ambicioso, a série foi excelente, o álbum nem por isso. "Run" parece ser um regresso dos Foos à boa forma, depois do sensaborão "Sonic Highways".

Os The War On Drugs vêm aí com "A Deeper Understanding", o tão aguardado sucessor do maravilhoso "Lost In the Dream" de 2014. E cada faixa parece ser melhor que a anterior. Este não engana.

Liam Gallagher está de volta e o seu álbum "As You Were" (que como já vimos parece estar a virar hashtag para qualquer post mais corrosivo) é ao mesmo tempo a maior expectativa e a maior incógnita deste ano. Apesar de ser um enorme fã do Liam, confesso que não esperava muito das suas canções (que nunca fogem muito à regra dos 'Liam standards'), mas cada faixa tem-me vindo a surpreender. Quem sabe e não teremos aqui uma revelação. Em qualquer dos casos, o que eu quero mesmo é o regresso dos Oasis. As you were.


A playlist

Sem mais demora, fiquem então com a playlist com os 25 temas que fizeram o melhor que ouvi na primeira metade de 2017 (na verdade são 26, mas quem está a contar?).

segunda-feira, 3 de abril de 2017

As melhores de sempre do mês de Março

Março foi estranho. Mês de altos e baixos, começou com o entusiasmo da antecipação da Primavera deste ano, logo interrompido pela depressão do Inverno antecipado do ano que vem. Not cool. "Où Est le Soleil?", como perguntava o Paul McCartney no B-Side de "Flowers In The Dirt", disco de 1989 gravado com Elvis Costello que foi este mês lançado em formato Deluxe (e aí está a minha referência mandatória aos Beatles, logo no subtítulo)
Nesta fina linha entre o entusiasmo e a depressão das últimas semanas, valeu a enxurrada de música que nos chegou, com álbuns novos dos Real Estate, Sleaford Mods, Father John Misty, The Jesus And Mary Chain, Jarvis Cocker (dos Pulp) e muito mais pelo meio. Senhoras e senhores, bem-vindos a uma viagem pela já clássica playlist mensal da NiT, com as melhores de sempre... do mês passado.

Como o sol está aí outra vez e eu quero música para ouvir de janelas abertas e vento na cara, começamos a playlist de Março com as guitarras estridentes de "Wake Up" dos Circa Waves, banda de Liverpool que vem ganhando visibilidade com o seu segundo álbum "Different Creatures". Não sei ao certo ao que vêm estes rapazes, mas que vêm com toda a força, lá isso vêm.

Seguimos de janela aberta com os Temples (aqui não há Queen, Rafa, desculpa!), também eles no segundo álbum "Volcano". Estes, aposto, já dispensam apresentação. Os Temples continuam, e bem, na crista da nova onda de Psychedelia onde os Tame Impala são McNamaras e os Pond (que também têm tema novo) são um gajo qualquer bom mas nem de perto tão bom como o McNamara, mas cujo nome eu não sei porque não percebo puto de surf e já levei esta metáfora longe demais para a minha bagagem no assunto.

The New Pornographers já nos tinham brindado com uma grande malha em Janeiro — "White Ticket Attractions" — e continuaram este mês a mostrar o seu "Whiteout Conditions" que está quase a chegar, desta vez com o tema-título. Não consigo decidir qual a melhor amostra do novo álbum, mas garanto-vos: podem continuar de janela aberta a beber esse sol. E por falar em beber sol, vamos dar um passeio à praia com os já veteranos The Shins e este caloroso "Name For You", retirado do primeiro álbum da banda em 5 anos — "Heartworms". E já chega de sol, avancemos para algo mais obscuro.

É possível que nunca tenham ouvido falar nos Mount Eerie. Eu também não, até recentemente. Um pouco de contexto então: os Mount Eerie são o projecto musical do músico e produtor Phil Elverum, que contou com diversos colaboradores ao longo dos anos. Entre eles, a sua mulher Geneviève Castrée, que participou em quatro álbuns da banda do marido. Em Julho do ano passado, Geneviève morreu com um cancro no pâncreas, um ano depois do diagnóstico. Menos de um ano volvido, chega-nos um novo álbum dos Mount Eerie com o relato cronológico do processo de luto de Phil Elverum. E é brutal. Mas não é aquele brutal de quando saímos do cinema depois de uma reposição do "Blade Runner" e dizemos "ei, foi brutal!". Não. Isto é brutal no sentido bruto da palavra. É heartbreaking: "I don't want to learn anything from this, I love you".

A surpresa do mês esteve a cargo da banda extraconjugal de Damon Albarn — os Gorillaz — que anunciaram inesperadamente um álbum novo a abarrotar de convidados e desde logo mostraram três faixas novas. Uma delas é "We Got The Power" com Jehnny Beth das Savages e um convidado muito especial: Noel Gallagher. Esse mesmo. Enquanto esperávamos por novidades do mano mais novo (que deve estar a rebentar com o seu primeiro single a solo), Noel decidiu ao cortar aos bocados o que restava da Britpop, fazendo as pazes com o seu ex-arqui-inimigo. Mas pior que o rol de negligências de Noel (primeira parte dos U2, Noel? A sério?), pior que o esdrúxulo álbum novo do Jarvis Cocker dos Pulp (deve ser o Brexit que anda a deixar tudo maluco na ilha), é saber que a Britpop já merece honras de artigos na Pitchfork. Agora sim, a Britpop morreu. Viva a Britpop! I guess.

E quem disse que o Noel Gallagher não é um artista influente? Veja-se Father John Misty, que continua a promover o seu novo álbum à imagem de Noel, isto é, a insultar o Ed Sheeran: "I’m not doing what Ed Sheeran does. It’s not this cynical approach: ‘I know what these idiots will like.’". Tão bom. Insultos à parte, "Pure Comedy" era o lançamento mais esperado do mês e Josh Tillman não desiludiu. Uma das malhas é "Total Entertainment Forever", faixa onde saxofones canalizam a irresistível Pop americana dos anos 80 e onde desejos sexuais por Taylor Swift voltam a ser notícia.

Igualmente esperado era o novo dos Real Estate. "In Mind" tem a matriz de um álbum standard da banda de New Jersey, o que significa que não inventa a roda, mas também não envergonha. Os Real Estate seguem como aquela camisola velhinha que não dá muito estilo, mas aquece sempre. E se os Real Estate não foram especialmente inovativos, que dizer dos Sleaford Mods? Mais um ano, mais um álbum, a fazer jus à média insana de um álbum por ano que mantêm desde 2011. "English Tapas" é novo, mas de novo tem muito pouco. O normal, portanto. Não esperamos propriamente ópera do duo britânico. É apenas o novo capítulo de uma carreira tão "samey" que se pode caracterizar como um único longo e particionado álbum.

Tudo isto e muito mais na clássica Playlist NiT de Março, só com música lançada no último mês.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Ryan Adams - "Prisoner" (Review)

Mesmo a tempo da ressaca do Dia dos Namorados, o músico norte-americano lança um álbum sobre corações partidos, o primeiro desde "1989" - disco de covers de Taylor Swift - lançado em 2015. E é de audição obrigatória.

Quando fiz uma roadtrip costa-a-costa pelos EUA em 2011, planeei passagens por todos os locais-chave: NY, Chicago, Las Vegas, LA... Todos os clássicos. De todo o trajecto, do que é que eu gostei mais? Dos desvios. A minha viagem não vos interessa para nada, mas serve para explicar a discografia recente de Ryan Adams.

Ryan Adams deixou-nos a coçar a cabeça quando decidiu, também ele, fazer um desvio à sua carreira em 2015 e lançar um álbum de covers de Taylor Swift. O que quereria ele com aquilo? Ridicularizar Swift? Provar que consegue transformar água em vinho? Não e não. A versão de "1989" foi um triunfo tanto para ele como para Taylor Swift e quanto muito, foi o maior elogio que Taylor poderia receber ao seu talento como compositora. Mas e Ryan, o que sobrou para ele no meio disto tudo? Um desvio tão fora da estrada como "1989" teria que obrigar o seu GPS a recalcular o trajecto da sua discografia.

De certa forma, "Prisoner" é apenas uma continuação do caminho trilhado por Ryan Adams na sua versão de "1989". Faz todo o sentido, ou não tivesse o primeiro sido escrito enquanto o segundo era gravado. Confusos? Passo a explicar. As canções de "Prisoner" foram escritas na ressaca do divórcio de Ryan Adams com a actriz Mandy Moore. Na altura, em vez de se enclausurar para escrever e gravar esses temas, Ryan preferiu lidar com a separação através da desconstrução de "1989" que, tal como toda a música que Ryan escrevia na época, também é sobre amor perdido e corações partidos. Temas como "Breakdown" e "Haunted House" poderiam perfeitamente figurar no álbum de covers. Mas nem só de Taylor Swift vive "Prisoner", ou não fosse Ryan Adams o homem que tão depressa faz covers de "Wonderwall" como de "Shake It Off".

Nas faixas que conhecíamos de "Prisoner", Ryan Adams já havia canalizado influências de Hair Metal e AOR em "Do You Still Love Me?", da vertente mais Folk da Pop americana em "To Be Without You" e até de early Eagles em "Doomsday". No que faltava ouvir do álbum, Ryan alastra as suas influências a todo o espectro do Rock radiofónico americano dos anos 80. Os casos são inúmeros e as semelhanças são demasiado óbvias para passarem despercebidas.

"Shiver and Shake", por exemplo, decalca de tal forma a atmosfera de "I'm On Fire" de Bruce Springsteen, que o meu ouvido (tão treinado a Bruce) passa os 3 minutos à espera da entrada do Boss. Não entra Bruce, mas chega mais à frente, em "Tightrope", um solo de saxofone tenor tirado a papel químico do "seu" Clarence Clemons. É esta uma das valências de Ryan Adams: em vez de ostensivamente plagiar os seus heróis, Ryan emula o ambiente das suas músicas preferidas e cria um original que soa exactamente igual à sua referência.

O caso mais curioso aparece em "Anything I Say To You Now", mais especificamente naqueles acordes em eco no início do tema, que são uma imagem de marca de um artista com o nome muito parecido com Ryan Adams. Avinhem de quem estou a falar. Exactamente, Bryan Adams. A parte curiosa disto é que Ryan é perseguido pelo fantasma de Bryan nos seus concertos, desde que em 2002 um heckler o fez perder a paciência em Nashville quando gritou por "Summer Of '69". Foram anos de terapia em psicólogos, como o próprio Ryan contou ao New York Times, até que voltou à mesma venue em 2015 e tocou... "Summer Of '69". Este episódio resume muito bem o propósito de "Prisoner" - um álbum onde Ryan lida com os seus fantasmas.

"Prisoner" é um álbum pejado de canções de amor (e falta dele), obrigatório para quem vive as canções Pop como o Tom do "500 Days Of Summer"; é um dos melhores discos que (até ver) 2017 nos trouxe. Comparando com o output anterior de Ryan Adams, "Prisoner" é mais variado que "1989" e por isso também uma audição mais completa e satisfatória. Pena que as canções de Taylor Swift sejam, na globalidade, superiores. Mas a vida é assim mesmo, às vezes é nos desvios que encontramos o melhor da viagem.

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