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terça-feira, 1 de março de 2022

"The Tipping Point": Em tempo de guerra, os Tears For Fears regressam com um disco catártico sobre perda, luto, dor e superação

O cronista musical da NiT é um fanático de Tears For Fears e vai trazer-vos tudo o que precisam de saber e, fundamentalmente, tudo o que não precisam de saber, sobre o novo disco da banda de Bath.


Os Tears For Fears (TFF) têm um novo álbum e vocês não imaginam o gosto que me dá escrever esta frase. À hora que vos escrevo, estou na Central Line, de regresso de uma sessão de autógrafos na hmv do Westfield, em Londres, ainda eletrificado por ter conhecido e conversado com os meus heróis. É esse o tipo de fanático que vos escreve. Mas não pensem que isso amnistia de alguma forma a responsabilidade dos TFF na hora de lançar um disco novo. Bem pelo contrário, sou especialmente exigente com as minhas bandas favoritas. 

A fasquia é particularmente elevada quando se trata dos Tears For Fears. Já o escrevi aqui — o arco discográfico dos Tears For Fears, desde "The Hurting" até "Everybody Loves A Happy Ending", é nada menos do que perfeito. Cada álbum é drasticamente diferente do anterior, todos são inseridos no contexto musical e pessoal da sua época e todos, sem excepção, são extraordinários. "Happy Ending", em particular, pareceu fechar este arco de forma primorosa em 2004, com um maravilhoso e catártico (não são todos?) disco de reconciliação, depois de 10 anos sem sequer uma palavra entre Curt Smith e Roland Orzabal. Estava por isso muito apreensivo relativamente a este novo trabalho. 
 
A primeira vez que ouvi as músicas novas foi na passada segunda-feira, 25 de fevereiro, em Hackney, num Q&A com Curt e Roland, que com a conversa se tornou no que aqui chamam de "advance listening party". As minhas reservas não foram diluídas. Lembrava-me bem da primeira vez que ouvira "Happy Ending" em 2004 e da paixão instantânea que esse disco me despertou. Não estava a sentir o mesmo arrepio naquela sala gelada em Hackney. O mais importante daquela noite foi a torrente de informação inaudita que Curt e Roland ali despejaram sobre as gravações, os seus conflitos pessoais, as suas vidas privadas e como tudo influenciou a difícil gestação deste disco. Foi essencial para contextualizar a música quando, uns dias mais tarde, pude ouvir o álbum do princípio ao fim, como mandam as regras. Mas já lá vamos. Comecemos pelo fundamental contexto.
 
"The Tipping Point" saiu na última sexta-feira, mas os Tears For Fears tinham um disco pronto para sair no final de 2017. Também se chamava "The Tipping Point", mas não tinha nada a ver com o álbum que agora nos chegou. A primeira iteração deste disco fora o resultado de sucessivas sessões de gravação com produtores de nomeada, que Roland descreveu como "speed dating", e que visavam uma busca vápida por um hit single. Escusado será sublinhar o quão bizarro é ter alguém a tentar ensinar os Tears For Fears em como escrever um hit. E no entanto, Curt e Roland alinharam na estratégia e no final de 2017, os astros começaram a alinhar-se: era anunciada uma nova colectânea, "Rule The World", que juntava dois novos temas aos êxitos antigos; e era marcado um comeback show no Royal Albert Hall, para assinalar o regresso triunfal dos TFF (adivinhem quem lá esteve). O plano que a editora desenhou consisitia em promover o best of como rampa de lançamento do novo disco de originais, a sair no início de 2018. Só que à última hora, os decisores negaram-se a lançar o disco, e o manager da banda limitou-se a dizer: "Vocês não precisam de lançar música nova, basta andarem na estrada a tocar os hits antigos". Foi despedido na hora. Sem manager, sem editora e sem disco, era o regresso à estaca zero para os Tears For Fears.
 
Estas foram, porém, boas notícias para Curt Smith. Ele não via nenhum propósito em perseguir um êxito nesta fase da sua carreira e já detestava o disco, mesmo antes de ele ter saído. Quando a estrutura frágil que segurava esse conceito bizarro que era um disco "moderno" dos TFF colapsou, o fim da banda parecia iminente. Só que entretanto, outra tragédia se abateu sobre os Tears For Fears. 
 
No verão de 2017, a mulher de Roland Orzabal, Caroline, sua companheira desde a adolescência, morreu. Pior, desintegrou-se numa lenta espiral descendente de alcoolismo e demência, num inferno do qual Roland tentou sair através das suas canções, algumas das quais podemos ouvir em "The Tipping Point". É o caso do tema-título, que se refere ao "ponto de viragem" em que viu a sua mulher passar para "o lado de lá", mais morta que viva. O outro é "Please Be Happy", cuja demo Roland partilhou na sua conta pessoal do Soundcloud em Abril de 2017 e rapidamente apagou (sendo que a Internet não esquece), por ser demasiado descritiva. Já voltaremos a este tema.
 

 
Ao lidar com uma tragédia pessoal, Curt e Roland aproximaram-se. E depois de quase dois anos de recuperação anímica de Roland, arrastando o impasse sobre o futuro da banda, os rapazes reuniram-se no final de 2019, na casa de Curt em Los Angeles, para discutir o que fazer com o disco que fora abandonado no início de 2018. Smith foi claro — "se é para continuar na mesma direcção, não contes comigo", disse a Roland. E foi nesse momento que, pela primeira vez desde que tinham 17 anos, Curt e Roland se sentaram com guitarras acústicas a tentar procurar um caminho comum na música. O resultado desse dia foi "No Small Thing", o tema de abertura do álbum "The Tipping Point" e, esse sim, o "ponto de viragem" para um futuro com sentido dos Tears For Fears. Desde esse dia, até ao fim da gravação do disco, foram três meses. Só que depois, já adivinharam, rebentou a pandemia. E o novo disco dos TFF foi mais uma vez para a gaveta. Até agora.
 
Voltamos agora para Hackney. Depois de meses de promoção, a falar para tudo o que fosse jornalista e podcaster, os Tears For Fears tiveram o primeiro contacto com os seus fãs desde 2019. Era para ser uma sessão de perguntas e respostas mas, levados pelo entusiasmo, os rapazes quiseram mostrar aos seus fiéis, em primeira mão, as novas músicas. Todas tiveram direito a uma introdução onde foi explicado o processo criativo, a produção, a sua escolha para o disco (entre mais de 30 faixas), enfim, uma verdadeira dissertação de cada tema, isto ainda antes de os ouvirmos.
 
Começámos por ouvir “Rivers Of Mercy”, anunciado à partida como um dos temas fortes do álbum. O tema começa com sons de motins, mas logo se transforma numa faixa atmosférica, que mergulha a sequência de acordes de “Woman In Chains”, num “Blood Of Eden”, de Peter Gabriel. Não é das minhas favoritas, confesso, mas isso sou eu que começo a ouvir “The Seeds Of Love” na segunda faixa. Roland descreveu “Rivers Of Mercy” como uma canção de amor e compreensão em tempos de guerra. Só que isto foi na segunda-feira e a guerra só começou na quinta, quando os tanques russos invadiram a Ucrânia. O propósito original da música era referir-se aos tempos tumultuosos da pandemia, das manifestações do Black Lives Matter e da invasão ao Capitólio. Claro que na semana passada, o tema ganhou uma dimensão completamente nova. E quão irónico é que o tema de abertura, "No Small Thing", atire a linha "freedom is no small thing" precisamente nesta semana?
 
Roland introduziu “Master Plan” (nada a ver com o épico dos Oasis) como um clássico "snidey jab at the recording company", piscando o olho ao público na procura de um bingo de entendimento, como quem quer evocar temas na mesma linha de "Death On Two Legs""Welcome To The Machine" ou, talvez mais apropriadamente, "You Never Give Me Your Money". É que "Master Plan" é Roland a canalizar o seu mais intrínseco McCartney na melodia, com Lennon nos arranjos. Ouvem-se laivos de "A Day In The Life" e acenos a "Schrodinger's Cat", num tema que fecha o flanco ao álbum anterior, fortemente perfumado pelos Fab Four.
 
"Long, Long, Long Time" foi o terceiro tema que ouvimos de Curt Smith para o novo álbum — uma contribuição bastante mais significativa que o normal para o músico que se mudou para L.A.; é também o melhor de todos, com o refrão angelicalmente interpretado por Carina Round. Já conhecíamos "Stay" desde 2017, incluído na referida compilação "Rule The World", que aqui funciona muito melhor como uma conclusão tranquila do álbum. O mais catchy, porém, é "Break The Man", um tema que, esse sim, é "moderno" na produção e na lírica, retratando a luta contra o patriarcado que Curt Smith projecta para a vida das suas filhas. É evidente que com a idade, Roland se sente mais à vontade para deixar Curt tomar um papel mais preponderante no álbum da banda. "The Tipping Point" é, de longe, o disco mais Curt heavy dos Tears For Fears.
 

 
Os rapazes também não se coibiram de mostrar as canções supostamente “modernas” que sobreviveram do disco abortado de 2017. A primeira que ouvimos foi “My Demons", que Roland descreveu como “a melhor tentativa em alcançar uma sonoridade moderna para os Tears For Fears”. Moderna? “My Demons” soa a Depeche Mode de 1987-1990, o que é obviamente um elogio. Depeche For Fears tem tudo para resultar. Roland disse que a chave deste disco está no equilíbrio, e como tal, "My Demons" segue "Break The Man" com a linha "I am the demolition man".
 
Outra das faixas “speed dating” que sobreviveu foi “End Of Night”, que Roland disse que pode, ou não, ter sido escrita para uma colaboração com The Weekend. Não é difícil imaginar essa fusão, depois do sample que o norte-americano roubou para o seu hit “Secrets”. Também não admira que tenha sido esta a faixa que a nova editora escolheu para single de avanço do novo álbum. Os TFF vetaram a decisão, e bem, em favor do muito mais apropriado tema-título “The Tipping Point”. O tema já é conhecido desde o ano passado e é um dos pontos fortes do álbum. Fundado no beat de “Everybody Wants To Rule The World” e na sequência de acordes de “Head Over Heels”, intenso e incessante, é o sumário perfeito deste maravilhoso novo disco dos Tears For Fears. 
 
A obra-prima de "The Tipping Point" é, contudo, o já referido “Please Be Happy”. Um filme de Béla Tarr em forma de canção. Uma chapada de mortalidade. Depois da demo proibida de Roland em 2017, “Please Be Happy” aparece aqui numa versão decalcada da original, mas agora com a voz de Curt, cuja entrega é também em tudo semelhante à de Roland. É como se este tema fosse de tal forma pessoal, que Roland não quis que o público o ouvisse com a sua voz. Ao introduzir o tema em Hackney, o mais literal de todos sobre o inferno que passou com a espiral destrutiva da sua mulher, Roland desatou a chorar. Naquele momento, quis dizer-lhe que estava tudo bem. Que a música dos Tears For Fears fora sempre sobre a luta contra a dor e deitar tudo cá para fora (“let it all out”). É por isso que se chamam Tears - For - Fears. É música visceral, da víscera do músico, para a víscera do ouvinte. Se alguém percebe o Roland, somos nós, os ouvintes, que o seguimos desde sempre, a lutar contra a nossa dor usando a sua música como antídoto. Nós percebemos. Achei que o Roland precisava de ouvir isso, mas não tive oportunidade de o dizer naquela noite.
 
E eis que chegamos a Sexta-Feira, 25 de Fevereiro, dia do lançamento oficial de "The Tipping Point". Acordo com o anúncio de uma imperdível sessão de autógrafos dos Tears For Fears na hmv do Westfield — um centro comercial no Oeste de Londres. Agarrei no meu vinil de "Seeds Of Love" e no fim do dia, lá fui eu com uma pilha de nervos para o Westfield. Conhecem aquele ditado que diz que nunca devem conhecer os vossos heróis? Esqueçam lá isso. Quando vi o Roland, disse-lhe tudo aquilo que não pude dizer em Hackney. A resposta dele fica comigo. No fim, sussurrei-lhe "não digas nada ao Curt, mas o meu álbum favorito é o "Raoul And The Kings Of Spain" [disco de 1995, sem Curt Smith]". Roland riu-se, pôs a mão ao lado da boca para Curt não ver e disse baixinho "o meu também!". Foi um momento bonito com um dos meus heróis, que vou guardar para sempre. 
 
Apesar das boas impressões que tirei da listening party do início da semana, foi só quando tive o disco na mão e o pude ouvir do princípio ao fim, uma e outra vez, sem conseguir parar de virar o prato, que percebi o fio condutor de "The Tipping Point". Curt tinha razão — só fazia sentido lançar um disco dos Tears For Fears, se este disco tivesse algum sentido. Um disco catártico sobre perda, luto, dor e superação. Vive independente de todos os outros discos dos TFF, estilística e sonicamente, na velha tradição do espólio da banda, como referi no início do texto. A linha que conecta todos os pontos desta imaculada discografia é precisamente o nível de profundidade e de intensidade da música, que vibra num comprimento de onda diferente da música Pop habitual. Quem conhece os Tears For Fears para além da rama dos seus êxitos, sabe bem disto. Esqueçam o passado. Os Tears For Fears são uma grande banda hoje. Neste momento. Em tempo de guerra, "The Tipping Point" é o disco que o mundo precisa ouvir.
 
P.S.: Se quiserem ouvir um resumo da carreira dos Tears For Fears, nao deixem de ouvir o podcast do London Calling desta semana.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Tudo é possível quando espalhas as sementes do amor - uma carta a "The Seeds Of Love"

Sentem-se e leiam a (longa) carta de amor que o cronista da NiT escreveu ao terceiro álbum dos Tears For Fears


O álbum mais ambicioso dos anos 80 acaba de ganhar uma edição de luxo, que finalmente faz jus ao espectro maior que a vida que os 50 minutos originais apenas conseguiram arranhar. Se os anos 60 tiveram "Smile" dos The Beach Boys e os anos 00 tiveram "Chinese Democracy" dos Guns N’ Roses, os anos 80 tiveram "The Seeds Of Love" e, nesta categoria dos álbuns impossíveis de resolver, “Seeds” foi o único novelo que se desatou.

Espalhando as sementes de "The Seeds Of Love"

Depois 4 anos em gestação, um rodopio de produtores a entrar e sair do estúdio e mais de um milhão de libras gastos (um recorde à data), "The Seeds Of Love" viu finalmente a luz do dia em Setembro de 1989, revelando uma sonoridade orgânica, completamente nova, para desilusão de alguns e espanto de todos. “Onde é que estão os sintetizadores?”, perguntaram os ouvintes mais belenenses, ávidos de sucessores de "Shout", "Everybody Wants To Rule The World" e "Head Over Heels". Os sintetizadores desapareceram, para dar lugar a instrumentos reais e pinturas sónicas sistinas. “Para criar algo de novo, é preciso destruir primeiro”, disse Roland Orzabal acerca de Seeds. "É um processo doloroso e moroso, mas ultimamente necessário". 

A criação de "The Seeds Of Love" foi de tal forma dolorosa, que minou a relação do duo Curt Smith / Roland Orzabal e, em última instância, acabou por destruir os Tears For Fears. Curt foi posto de lado no processo criativo e até no disco foi substituído no baixo por Pino Palladino e na voz por Oleta Adams. Curiosamente, tinha sido Oleta a luz que iluminara o caminho da mudança para os Tears For Fears.

Foi num fim de noite em Kansas City, a meio de uma extenuante digressão americana que parecia nunca ter fim, que os Tears For Fears viram a luz. Estávamos em Junho de 1985, em pleno auge do sucesso de "Songs From the Big Chair", mas para Roland e Curt, a cada concerto as músicas soavam cada vez mais estáticas e monótonas. Ninguém se divertia em palco. Quando viram Oleta Adams a ferver ao piano de um bar, no hotel onde estavam hospedados, Roland e Curt ficaram vidrados. Como é que ela imprimia tanta paixão e intensidade na sua música, só com um piano e perante um dúzia de pessoas, ao passo que eles sentiam que os seus concertos eram apenas mais uma noite no escritório, perante salas esgotadas de 12 mil pessoas? “Porque é que não nos conseguimos divertir assim?”, indagou Roland. Foi o ponto de partida para a revolução de "The Seeds Of Love".

A direcção estava escolhida, mas o caminho foi tortuoso. Foram 4 anos de trabalho árduo de estúdio, de fazer e desfazer, baralhar e voltar a dar, que produziram uma miriade de visões e versões alternativas, que agora podemos ouvir, neste espreitar por trás da cortina das lendárias sessões de Seeds, que é esta edição de luxo. 

A bíblia dos sonhos

Em 2020, chega finalmente a tão esperada edição de luxo de "The Seeds Of Love". Depois de 5 anos a ser empurrado em sucessivos adiamentos, o terceiro álbum dos Tears For Fears vai finalmente receber o tratamento expansivo que tanto merecia, numa caixa com 4 CDs e 1 Blu-Ray, lançada esta semana.

A caixa traz a habitual remasterização do álbum no primeiro disco e a colectânea completa dos lados B no segundo. Mas a jóia da coroa são dois discos carregados de faixas de improviso em estúdio, num pequeno olhar sobre estas lendárias sessões, das quais, segundo consta, resultaram mais de 24 horas de fitas guardadas na cave de Roland Orzabal. Infelizmente, “só” (!) vamos ter acesso a 3 horas destas cassetes. Digo isto porque passei os últimos dias completamente imerso nas sessões de Seeds e, ao fim das 3 horas, estou como o miúdo incauto a quem ofereceram um gelado - “o que é que se diz?” Quero mais!

"The Seeds Of Love" é talvez o disco mais imaculadamente produzido que eu já ouvi, onde todos os detalhes da paisagem sónica foram obsessivamente analisados. É absolutamente fascinante perceber como é que estas peças de fino recorte evoluíram, desde a fase embrionária das primeiras gravações caseiras, passando pelo improviso orgânico do estúdio, até à versão polida que ouvimos no álbum. Pelo meio, somos brindados com algumas pérolas instrumentais, como a Early Mix do hit "Sowing The Seeds Of Love", que põe a nu todas as texturas com se coseram este disco. As versões instrumentais são, aliás, uma das delícias que povoa esta caixa e que nos permite apreciar o magnífico trabalho de estúdio dos Tears For Fears.

Por entre a inúmeras preciosidades que aqui encontramos, tenho que ressaltar as tão antecipadas versões dos TFF de "Rhythm Of Life" — tema que acabou por ficar fora dos álbum e como tal foi oferecido a Oleta Adams, que o lançou como single de avanço do seu álbum de estreia "Circle Of One" (que também vale a pena ouvir). Ouvimos primeiro a demo caseira de Roland Orzabal e depois a deliciosa versão de improviso nos Townhouse Studios. Uma pena que "Rhythm Of Life" não tenha chegado à versão final. Mas honra seja feita aos Tears For Fears, se há uma conclusão que se pode tirar deste mergulho nas sessões de Seeds, é que as decisões tomadas na produção da versão final do álbum foram quase todas acertadas. Mesmo tendo em conta alguns lados B superlativos, casos do inquieto "Always In The Past", do atmosférico "Music For Tables", ou das infusões de World Music em "Tears Roll Down" e de Hip Hop (!) em "Johnny Panic And The Bible Of Dreams" — todos eles reunidos no segundo disco desta caixa.

As jam sessions e as sessões abortadas com os produtores rotativos (temos até uma versão Hip Hop do Rocker "Year Of The Knife"!) surgem no terceiro e quarto discos e são, sem dúvida, o ponto alto desta caixa. É como escreve em cima – chegamos ao fim e ficamos com vontade de mais. Ou então sou eu, que sou gajo para mamar as 24 horas dos Tears For Fears a improvisar sobre temas como "Badman’s Song", ou "Standing On The Corner Of The Third World". Não esquecer ainda a nova remistura do álbum em surround pelo mestre sónico do Prog, Steven Wilson, sobre a qual eu ainda não me posso pronunciar, uma vez que o meu sistema de som só está preparado para o stereo. Mas os especialistas já ouviram e aprovaram.

The sun and the moon, the wind and the rain

Esta reedição dá-me também a oportunidade de dizer tudo aquilo que eu sinto por este álbum. E ó, meu Deus, há tantos sentimentos para falar. Amo "The Seeds Of Love" como umas meias quentinhas num dia de inverno. Nem de propósito, como o dia londrino em que vos escrevo. Porque é exactamente isso que este álbum representa — aconchego, conforto e segurança —, um disco tão quentinho que só apetece abraçar. E tudo isto veiculado numa expressão artística visceral, de perfeita comunhão com o universo, por via de uma lírica preenchida com simbologia dos astros e dos elementos — "O sol e a lua, o vento e a chuva" ("The sun and the moon, the wind and the rain") — uma expressão repetida em nada menos que três dos oito temas do álbum e que visa transcender a complexa condição humana, ao infinito que nos rodeia.

"The Seeds Of Love" é um dos álbuns da minha vida, mas ao contrário da maioria dos restantes desse panteão, importantes numa determinada fase e depois desvanecidos no tempo e na memória, Seeds tem a particularidade de ver o meu apreço crescer com o passar dos anos. Como um bom vinho. Demorei anos a aquecer para o caos jazzista de "Badman's Song" no Lado A, mas hoje, aqueles 9 minutos passam a correr. A inocência deliciosa de "Advice For The Young At Heart" ainda me derrete o coração. E sequência etérea do Lado B, desde "Standing On The Corner Of The Third World", até "Famous Last Words" toca como a banda sonora do meu porto seguro, longe no espaço e no tempo de tudo que é stress, problemas e desamores. “Dreaming I was safe in life, like mussels in a shell”, canta Roland em "Standing On The Corner Of The Third World", numa linha que resume toda a atmosfera do álbum "The Seeds Of Love".

Deixemo-nos de falsas modéstias — o arco discográfico dos Tears For Fears nos anos 80 é nada menos que perfeito. Começando na sonoridade urbana e contraída (agora tão em voga) da Synthpop de "The Hurting" (1983), passando para o big sound TrevorHorniano de "Songs From The Big Chair" (1985), e terminando na cataplana de fusão de Jazz, Sould, Rock, Psicadelismo, Hip Hop e World Music que foi "The Seeds Of Love", todas as disciplinas dos anos 80 foram dominadas pelos Tears For Fears. Neste árido contexto pandémico, nada melhor que saciar a nossa sede de emoções, nesta palete de sons, cores e sabores que é a caixa de "The Seeds Of Love".

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Tears For Fears em Brighton — A crónica de uma jornada frenética

Muito mais que uma crónica de um concerto, uma carta de amor aos Tears For Fears


Esta é muito mais do que uma mera crónica de um concerto. É a crónica de uma jornada frenética entre Londres, Brighton e Esher, que envolveu um concerto dos Tears For Fears nas grades, inundações, ameaças de morte, posters assinados, setlists, palhetas, cartazes, sorrisos trocados com o Roland Orzabal e o Curt Smith e o bónus deste falar comigo no microfone DURANTE O CONCERTO (desculpem o caps lock, é a emoção ainda). E tudo isto enquanto o trabalho e a vida quotidiana decorriam normalmente. Longos dias duram cem anos. Esta jornada durará uma vida. Esta é a crónica de como uma banda pode marcar uma vida. É uma carta de amor aos Tears For Fears.


1. The Bible Of Dreams — O sonho de uma vida

Um dos sonhos de toda a minha vida adulta sempre foi ver os Tears For Fears ao vivo. Na minha adolescência, a banda de Bath representou o papel de psicólogo. Foi a música deles que me ensinou que não havia mal nenhum em expressar as minhas emoções (para mal dos meus pecados, segundo a minha mãe). Desde esse tempo que os TFF foram a banda mais constante em toda a minha vida, até mais que os "gigantes" Queen e Pink Floyd, que eu normalmente aponto como as minhas bandas favoritas, mas que têm uma presença muito mais sazonal no meu quotidiano, quando comparados com os TFF.

Ao longo dos anos, esperei pacientemente que viessem a Portugal. Todas as Primaveras cruzava os dedos para que o Covões, a Roberta, ou o Montez se lembrassem deles e os trouxessem aos seus festivais. Antes do tempo do Facebook, passava os dias a fazer refresh na página da Blitz, sempre em pulgas pelas novas confirmações para os festivais. Mas nunca eram os Tears For Fears. Ou eles não vinham à Europa, ou se vinham, escapavam invariavelmente ao nosso circuito.

Em 2005, numa altura em que andava no Técnico e mal tinha dinheiro para ir à Costa, projectei uma viagem a Londres para ir ver os TFF ao Hammersmith Odeon. As minhas poupanças de 200€ riram-se. Não fui. Acabei por com esse dinheiro ir a Madrid ver o (na altura ultra-entusiasmante) regresso dos "Queen" com o Paul Rodgers, numa épica viagem de autocarro que ainda está por contar.


Em 2016, a viver um ponto baixo na minha vida e farto de esperar que os TFF viessem até mim, decidi ir eu até eles. Projectei então uma viagem-relâmpago aos Estados Unidos, para os ir ver ao histórico Red Rocks, no Colorado (digam-me lá se o cartaz não é uma maravilha). Mas não era uma aventura barata e mesmo já com mais alguns trocos na carteira, as minhas poupanças voltaram a rir-se. E eu voltei a não ir. Acabei por (num orçamento bem mais simpático) ir a Londres carpir mágoas com o David Gilmour no Royal Albert Hall (história aqui), naquele que ainda é, até à data, o seu último concerto em nome próprio. Mas faltavam sempre os Tears For Fears.

Foi por isso sem pensar duas vezes que, quando no Outono de 2017 os Tears For Fears marcaram uma data para o lendário Royal Albert Hall (notem esta tendência, sempre os mesmos lugares a aparecerem ciclicamente), eu marquei bilhete e viagem de Lisboa. Foi uma noite gloriosa, inesquecível, perfeita, a melhor de sempre; todos os superlativos se aplicam (e foram na altura documentados aqui na NiT). Curiosamente, essa noite marcou também o fim de um ciclo, uma vez que acabou por ser a minha última viagem de turismo a Londres, antes de me mudar definitivamente para cá.



Há um ano surgiu uma oportunidade, daquelas que imediatamente percebemos que só aparecem uma vez na vida. Numa noite de insónias, fui ver como estavam os bilhetes para a digressão de 2019 dos Tears For Fears. Esta digressão era para ter acontecido há um ano (e eu não tinha bilhete), mas entretanto a mulher do Roland Orzabal morreu de cancro e atirou-o para uma depressão que impossibilitou o lançamento do novo álbum dos TFF e fez adiar a digressão um ano. Com esse adiamento, muitos pediram a devolução do dinheiro e com isso libertaram alguns lugares de luxo. Lugares como o que me apareceu NA PRIMEIRA FILA em Brighton (lá estou eu com o Caps Lock) e parecia caído dos céus, mesmo no meu colo. Nem queria acreditar. Depois de agradecer ao Freddie, ao George e meus restantes anjinhos, marquei o lugar sem mais pestanejar. E sem pensar que o concerto era em Brighton, numa segunda-feira.


2. The Working Hour — Um dia de trabalho pouco normal

Tinha tudo programado ao pormenor. Saía de Londres de manhãzinha e ia para Esher trabalhar como habitualmente. Às 4:00, se o dia corresse excepcionalmente bem e não houvesse problemas para resolver na obra da Battersea Power Station, agarrava nas coisas e punha-me no comboio a caminho de Brighton. Com o tempo bem contado, estava lá à hora da abertura de portas.

Não se comecem já a rir. É que eu tinha mesmo que lá estar à hora de abertura de portas. Isto porque normalmente o Roland e o Curt assinavam uns 25 posters da tour e só os primeiros a chegar à venue é que os agarravam. Nada podia falhar, com o risco de não passar um dos testemunhos desta apertada corrida de estafetas e ir tudo por água abaixo. E por falar em água. Estava o dia a correr dentro da normalidade possível de uma segunda-feira, quando à uma da tarde ligam-me da Foxtons (a agência onde aluguei a minha casa em Londres) e dizem-me que estava a cair água no apartamento do vizinho de baixo. Isto significava que podia haver uma inundação em minha casa. Fucking hell. Era mesmo o dia indicado para acontecer uma tragédia destas.

Minha gente. Há uma coisa que precisam de saber sobre mim. Sou um gajo muitíssimo zeloso com os seus pertences. E obsessivo-compulsivo quando se trata da sua colecção de discos de vinil. Quando trouxe para Londres toda a minha colecção de mil discos (hoje já são 2 mil), foi na certeza de que eles comigo é que estavam bem. Pensar que um maldito cano roto qualquer tinha arruinado anos de trabalho e de paixão, deixou-me num estado de pânico e corrosão interior que é difícil explicar aqui. Descrevi a situação ao meu chefe como a catástrofe que de facto era. E ele, que já me conhece o suficiente para saber da importância dos meus discos, liberou-me, "mas só depois de fazeres as tuas timesheets!", diz. Estes ingleses e as putas das regras. Feita a tarefa, pus-me a caminho de casa temendo o pior.

Chegado a casa, não havia sinais de água no chão. Alívio. O cano roto estava a verter no apartamento de baixo, mas o meu estava aparentemente salvo. Pelo menos ate aos meus vizinhos de cima — um casal germânico-coreano muito brincalhão — voltarem às suas brincadeiras de sábado à noite na banheira. Mas adiante.

Agora era hora de voltar a pôr o plano inicial nos carris. Pijama na mala e siga para Victoria, para apanhar o comboio rumo a Sul. À saída de Victoria Station uma das minhas imagens preferidas de Londres: a Battersea Power Station vista por trás do parque de comboios de Pimlico, antes da Grosvenor Bridge. Todas as dificuldades pareciam ter ficado para trás. Agora era só smooth sailing.



3. I Believe — Antes do concerto

Cheguei a Brighton debaixo do clássico tempo britânico — os showers. Como o próprio nome indica, levei um banho a caminho da venue e por isso cheguei ao Brighton Centre todo ensopadinho. Mas mesmo a tempo do que eu queria. Fui um dos primeiros a entrar e pude assim ter o merch stand só para mim e sim, os posters assinados estavam lá. Mas bolas, 50£?! Ainda por cima eram só 15, por isso tinha que decidir rapidamente. Enfim, isto um dia não são dias. Para além do tão desejado poster assinado, trouxe ainda umas meias do Seeds Of Love que são a minha nova paixão.



Estava então na hora de programar o próximo passo. Uma vez que tinha bilhete para a fila da frente, pensei em levar, pela primeira vez, um cartaz para um concerto. Mas o que é que eu podia pedir aos rapazes? A primeira coisa que me passou pela cabeça foi pedir para tocarem o meu tema preferido de sempre dos Tears For Fears — o ferocíssimo "Raoul And The Kings Of Spain". Mas isso tinha dois senãos: em primeiro lugar, conheço a banda e sei que não era por eu pedir o tema que eles o iam tocar, não estando ensaiado; e depois é um tema da iteração Roland-a-solo dos TFF e eu sabia que ia ter o Curt mesmo à minha frente. Então decidi-me pela second-best-thing:


Sim, é como leram – queria cantar o verso do "Shout". Para quem não se lembra, é aquela parte: "in violent times, you shouldn't have to sell your soul". Teoricamente, o meu plano tinha tudo para dar certo. Sabia que era o último tema do set e sabia que o Roland costumava emprestar o microfone à audiência para cantar o refrão. Quando fui vê-los ao Royal Albert Hall em 2017, vi o Roland deixar um tipo cantar parte do verso e, pasmem-se, ele não sabia a letra. Mas eu sabia e ia mostrá-lo ao Roland, "I Believe". Siga para a sala principal do Brighton Centre.

Antes do prato forte da noite, Allison Moyet a abrir. E que bela surpresa. Entre os hits dos Yazoo e da sua carreira a solo, a ex-vocalista do duo synthpop (que formou com o hitmaker Vince Clarke, quando este saiu dos Depeche Mode) foi uma revelação.
Olhando à minha volta, apercebo-me que sou um alien ali dentro. Não só sou o único estrangeiro na sala, também sou o único abaixo dos 35.Altura também para pôr alguma coisa no estômago, que tinha passado o dia todo só com uma torradinha às 8 da manhã. Sai então duas pints, que os Tears For Fears estão mesmo a chegar.


4. Head Over Heels — O concerto de uma vida I

Já discorri vezes sem conta neste espaço sobre a excelência dos Tears For Fears. Mas para quem ainda não leu o memorando, aqui vai mais uma vez: os Tears For Fears foram a melhor banda dos anos 80. Period. Onde os The Smiths têm o "Hatful of Hollow", os TFF têm o "The Hurting"; onde os The Cure têm o "Disintegration", os TFF têm o "The Seeds Of Love"; onde os U2 têm o "The Joshua Tree", os TFF têm o "Songs From The Big Chair". São a banda mais completa de todas as que saíram desta década.

O maior elogio que se pode fazer aos TFF é que são uma banda que envelheceu bem. São uma banda que teve sucesso nos anos 80, mas a sua palete sonora é muito mais larga que essa década. O arco discográfico dos Tears For Fears é nada menos que perfeito (também porque os rapazes tiveram sempre o dom de perceber quando parar). Cada álbum é uma ilha independente, que vive por si própria e só está ligada às demais por meras questões de linguagem. É o próprio Roland que confessa que "para construir algo de novo é preciso destruir primeiro o que existe; para criar, é preciso matar". A discografia dos TFF é tão perfeita que só apetece abraçar e dormir agarradinho a ela, para depois de manhã pedir em casamento. Mas para quê complicar uma relação que já é tão perfeita?

Daqui resulta que o espólio dos Tears For Fears não é muito extenso (especialmente para uma banda que nasceu há quase 40 anos), mas clinicamente preciso. Qualquer iteração do seu repertório daria uma setlist sólida. Quando esta é construída à volta dos hits da banda, não há como falhar. O set foi por isso uma cavalgada de hit after hit, com uns deep cuts preciosos lá pelo meio. Os êxitos são tantos, que os Tears For Fears se deram ao luxo de começar com "Everybody Wants To Rule The World", tão somente o tema com mais scrobbles no Spotify.

Segue-se o apaixonante "Secret World", um tema de significado muito especial, onde os rapazes mostram a simbiose que ilustra porque é que a magia dos Tears For Fears precisa da presença de ambos. Não tirei muitos vídeos nesta noite, uma vez que estava a tentar absorver ao máximo o que se passava à minha frente. Mas mostro-vos o meu vídeo preferido de Brighton, com os rapazes em perfeita harmonia em "Secret World":



A discussão da importância das partes nos Tears For Fears é antiga. Há uma grande facção de fãs que considera que Roland, sozinho, é os Tears For Fears. E é fácil perceber porquê. Roland é o génio esquecido dos anos 80. A sua imagem não era tão icónica como Morrissey, não era tão dark como Robert Smith e (definitivamente) não era tão atractiva como a de Simon Le Bon. Roland sempre foi o protótipo do anticool. Mas isso nunca me importou. Nunca foi esse o seu apelo. Há um magnetismo animal indizível em Roland Orzabal, um dos personagens mais densos e enigmáticos da música.

Nos Tears For Fears, Roland era quase tudo. Era ele quem escrevia a maior parte da música, cantava a maior parte das canções e no entanto, quando chegava a hora de escolher os singles, eles eram invariavelmente para o Curt. Porque a verdade é que era Curt quem vendia os Tears For Fears.

Um dia o Andrew Ridgeley dos Wham! (olha quem) disse que os Tears For Fears eram "all about Curt". E de facto era o Curt quem figurava nas capas da Bravo; era o Curt quem aparecia nas festas com o Morrissey; era o Curt quem era amigo do Phil Collins (e que o levou para ser atormentado pelo Roland nas sessões do álbum "The Seeds Of Love"). Mesmo não sendo a fonte da música, era mesmo tudo acerca do Curt Smith. (Nota, não subestimem o senhor Andrew Ridgeley; ele pode ter pouco ou nenhum talento musical, mas é um milionário que fez fortuna à custa de uma carreira na música... sem ter talento musical).

Curt esteve impecabilíssimo e aqueles que dizem que não faz falta aos Tears For Fears precisam de ver com os próprios olhos a performance de temas como o épico "Badman's Song". Como é hábito, o clássico de 10 minutos foi o ponto alto do show. Eis os rapazes numa jam em "Badman's Song":



O Andrew Ridgeley tinha razão. Há de facto alguma coisa de especial acerca do Curt Smith. Tem um ar simultaneamente afável e impecabilíssimo, que o tornam numa máquina inabalável de coolness. É ele o aileron dos Tears For Fears. Tê-lo ali ao pé de mim, à distância de um braço, a mandar aquela linha de baixo pulsante do "Broken" e ainda por cima a fazer eye contact comigo a cada dois minutos, (suspiro), deixava-me derretido como se fosse uma fã adolescente a olhar para a capa da Bravo. Nem parecia real.


5. Memories Fade — O concerto de uma vida II

Memórias voltaram de uma noite em 2011, quando numa (outra) jornada épica, cruzei o deserto do Nevada em tempo recorde, só para apanhar o Curt Smith ao vivo em Los Angeles, numa sala que levava no máximo umas 50 pessoas. No fim conversámos durante imenso tempo, sobre como ele não sabia se os Tears For Fears iam voltar a gravar, sobre como ele adorava Portugal e sobre como ele era apaixonado pelo futebol de Cristiano Ronaldo. Descobri aí que o Curt era um adepto fervoroso do Manchester United e estava "Head Over Heels" para que o José Mourinho assumisse o comando da sua equipa do coração. "Careful what you wish for", já fiz o ditado inglês. Anos mais tarde, o seu "Advice" iria cumprir-se, mas "I Believe" que depois de um "Year Of The Knife" em Manchester, tudo se transformou num "The Hurting". Esta só os fãs é que perceberam. Adiante.

E por falar no "The Hurting", na introdução de "Mad World", o Curt perguntou ao público quem é que era fã dos TFF desde essa altura. 1983, portanto. E eu, que estava ali mesmo ao pé dele, respondi-lhe que ainda nem sequer tinha nascido. Eu quero aqui relembrar que estava na primeira fila. Não sei se já tinha dito. Aliás, antes de começar o concerto, eu tinha-me levantado da primeira fila para me encostar às grades, não fosse algum chico-esperto tapar-me o campo visual. Mas voltando ao Curt, ele ouviu e respondeu NO MICROFONE "there is someone here who is very excited about not being born yet then. God, I'm old." Fucking hell. Talk about contact with your idols.

Claro que o contacto que eu estava mesmo desejoso era que me deixassem cantar um bocadinho do "Shout". Sabia que o Roland tinha deixado a audiência cantar em todos os concertos até então, por isso não havia razão nenhuma para que o meu plano não desse certo. Só que alguma coisa tinha acontecido no encore break. A banda estava a ter alguns problemas técnicos. Nada que fosse perceptível de onde eu estava a ouvir, a não ser quando os rapazes trocaram inadvertidamente de microfones em "Mad World" e as backing vocals do Roland ficaram por cima da lead vocal do Curt, algo que pareceu divertir muito o Roland.



Roland esteve visivelmente martelado durante todo o concerto. E segundo as informações que me chegam dos grupos do Facebook, tem sido assim a digressão toda. É difícil perceber o que passará na sua cabeça depois da morte da sua mulher. Roland revelou ao Evening Standard que bateu no fundo no ano passado e que demorou muito tempo a sair do buraco. A sua transformação desde o show do Royal Albert Hall é evidente. Roland está mais velho, mais bruto, mais animal. Mas com a mesma dor e potência de sempre na voz. Espero que tenha carpido as mágoas em canções que possamos ouvir no futuro. Como esta —"Please Be Happy" —, que partilhou em Julho de 2017, quando a sua mulher morreu e que quase ninguém ouviu.

O processo de recuperação de Roland fez adiar a digressão no ano passado e não se sabe que mais dano terá trazido aos Tears For Fears. O novo álbum — "Tipping Point" — foi anunciado pela banda em 2013, mas já estamos em 2019 e não há sinal que o seu lançamento esteja próximo. Julgando pelo novo merchandising, a artwork deve ser esta — será que o nome do álbum mudou para "Dancing Gramophone"?! —, mas tudo o resto é desconhecido.

Nunca acaba o drama nos TFF. Recordo que a digressão esteve mais uma vez em perigo há um mês, quando Curt Smith começou a publicar mensagens crípticas no Twitter, dando a entender que tinha abandonado os Tears For Fears. Isso acabou por ser confirmado (certamente não inadvertidamente, que o Roland é um tipo muito inteligente) numa entrevista há poucas semanas, quando confessou isso mesmo ao Irish Examiner.


Esta digressão acabou por não trazer muitas novidades, para desespero dos fãs (o meu desespero é que continuam sem tocar o "Raoul", mas isso sou eu). A grande novidade da digressão surgiria em, adivinhem, Brighton. Foi a primeira performance de "Suffer The Children" desde 1983. Os fóruns entraram em histeria, bem mais que os presentes, diga-se. Eu adorei. Mas já sabem, estava mais em pulgas para o encore.


6. Shout — O encore

Azar dos azares. À entrada para o encore, a banda não parecia muito contente. O Curt chegou, agarrou no microfone e enquanto falava das "fucking technical issues" que a banda tivera com os microfones, Roland foi para a outra ponta do palco. Algo não estava a correr bem.

Eu sabia que o "Shout" ia fechar o encore, por isso saquei finalmente do meu cartaz: "PLEASE LET ME SING THE VERSE OF SHOUT". O Curt viu, riu-se para mim e avisou Roland — "Hey, looks like someone here wants to sing the verse of "Shout"!". Mas depois o Curt olhou para mim e lembrou — "but we're not going to do "Shout" now". E de facto não iam. Mas já vão perceber.

Mas nisto, o Roland, que estava do outro lado do palco de costas para o Curt (e para mim), oblívio ao que se estava a passar, não percebeu e deu ordens ao teclista para começar o drum loop de "Shout". E daí acelerou para a versão mais rápida de "Shout" desta digressão. Pela primeira e única vez, Roland não foi ao público e por isso, paciência, o meu desejo não foi satisfeito. Só quando já se estava a despedir, Roland apercebeu-se do cartaz e riu-se para mim. Hey, já é alguma coisa. E sim, eu sei, este parece o relato de uma fã adolescente. Não é, mas acho que já perceberam que é como se fosse.

Depois da saída da banda do palco, tempo para pedir uns goodies aos roadies da banda. Fui o primeiro a pedir a setlist (ai não!) ao roadie do Roland e depois de me ignorar algumas vezes, lá me deu a que estava no microfone do Curt. Atentem no encore que estava previsto.


Vêem? O Curt tinha razão — a setlist mostrava que a banda ia fazer o seu clássico cover do "Creep" e só depois, para terminar, o "Shout". Enfim, nabice minha que não puxei o cartaz mais cedo. Repararam naquela palheta ali no meio da setlist? Ah pois. Não contente com a setlist, fiquei mais uns minutos a fazer a cabeça do pobre roadie para me dar a palheta do Roland. E acreditem, eu consigo ser muito chato nestas coisas. Ele lá cedeu e quando eu a vejo, não contenho o riso. CLARO que o Roland ia tocar com uma palheta com a sua própria cara. Só podia ser dele. Mais narcisista que isto, é impossível. Não era à toa que o Curt o chamava de Sun King.

Com a mala cheia de presentes e um sorriso rasgadíssimo na cara, saí do Brighton Centre a levitar, com a sensação de ter tido uma experiência extra-corporal. Ter ali o Roland e o Curt a tocar ao pé de mim, não pareceu real. Ainda não parece real, quando penso nisso. Valeu tudo a pena. E chegava assim ao fim uma jornada épica de emoções fortes. Pensava eu.

Nada mais falso.


7. Swords And Knives — Depois do concerto

Eu queria mesmo poder chamar a este capítulo de "Goodnight Song", um tema reconfortante do álbum "Elemental", perfeito para ouvir à hora da caminha. Mas a minha experiência na dormida em Brighton foi mais de "Swords And Knives".

Antes de mais, deixem-me explicar-vos (e defender) o meu raciocínio. Já tinha gasto imenso dinheiro no bilhete para o concerto (primeira fila de um concerto como os Tears For Fears aqui no UK não é brincadeira); mais a viagem de comboio, que é outra machadada neste país; mais a batelada do poster assinado. A viagem já estava muito cara. Ora, como sabia que tinha que apanhar o comboio para Esher muito cedo no dia seguinte, ia ficar só com umas 4 a 5 horas para dormir. Não valia a pena marcar um quarto e gastar mais uma torrente de dinheiro. Solução? Uma cama num hostel. Bela ideia.

As coisas no hostel não começaram bem. As fotografias mostravam um quarto para 4 pessoas, mas afinal a minha reserva era para uma camarata de 6 pessoas. Enfim, siga que eu tenho sono. Chegado ao quarto, escuro total. E aquele cheiro a metro sem ar condicionado parado no meio de um túnel a 40 graus. Para ver onde metia os pés, liguei a lanterna do telemóvel e percebo que todos os beliches estavam ocupados, menos o andar de cima de um deles. Era a minha cama.

Quando me aproximo, sai do andar de baixo um "Vinnie Jones" furibundo na minha direcção (vou reproduzir em inglês) — "YOU FUCKING FUCK! It's 11:30! Do you think this is thr time to enter the room and slam the fucking door? You woke me up!". Das outras camas, nem um pio. Eu, obviamente intimidado pelo formato 16 por 9, ecrã PAL-PLUS do meu interlocutor, digo – "I didn't slam the door, it just closed automatically".

Mas ele não ficou muito contente com a minha resposta ou, diria eu, sequer com o facto de eu lhe ter ousado a responder. E daí avança mais um passo e encosta o nariz dele ao meu, qual jogador da bola, e atira — "I'M GONNA FUCKING KILL YOU! You're saying that wasn't a slam?! Maybe you wanna show me a slam now, do you? Do you wanna slam the door on my face, you fucking fuck?".

Bem, that escalated quickly. Neste momento, como devem compreender, só o facto de eu ter mantido a minha roupa interior intacta e as minhas pernas hirtas, já foi uma vitória. Ainda arrisquei ir lavar os dentes para a casa de banho (mais barulho para deleite do nosso amigo "Vinnie Jones"), mas quando voltei e o ouvi a praguejar entredentes numa língua que eu já nem sequer conseguia decifrar, aí percebi que tinha que bater em retirada. É que eu ia dormir mesmo por cima do "Vinnie Jones". Ou melhor, não ia dormir, porque seria impossível dormir naquelas condições. Agarrei na trouxa e fui à recepção explicar o sucedido.

Resultado? Deram-me um quarto só para mim. In your face, "Vinnie Jones". E ainda me prometeram que o iam banir para sempre da cadeia de hostels. Ainda bem que eu ia sair do hotel às 5 da manhã, caso contrário ainda me arriscava a que o meu amigo "Vinnie" me chegasse a roupa ao pêlo. Mas também convenhamos que quando um gajo se arrisca a pagar 17£ por uma noite em Brighton, levar nos cornos deve ser mesmo das melhores coisas que podem acontecer.

E tudo isto foi só uma segunda-feira.


8. Break It Down Again — O dia seguinte

Quando cheguei à estação de Brighton, ainda faltavam 20 minutos para o meu comboio. Era o primeiro de três comboios que me iriam levar até Esher (onde trabalho), em mais uma corrida de estafetas onde qualquer falha resultaria num desastre de proporções épicas (ok, era só chegar atrasado ao trabalho, mas os ingleses são muito picuinhas com isto das horas). Fui buscar um daqueles grandes cafés, adequado para o longo dia que aí vinha.

Ao anúncio da plataforma, 5 minutos antes da partida, segui em direcção ao comboio, mas fui interceptado por um revisor — "Show me your ticket, please". Lá mostrei. "I'm sorry Sir. This is not a valid ticket. This is only for off-peak trains". Oi? Off-peak trains? Ó amigo, isto são 5 da manhã. Ok, já são quase 6, mas 6 da manhã é hora de ponta? "Yes, you must go to the Travel Centre and pay the excess". Mas nisto já só faltavam 3 minutos para a largada do comboio. Esta realização fez-me entornar o café em cima de mim. Corri enquanto tentava limpar o leite com café do casaco. O excesso de um bilhete de 35£ eram "só" 21£. Até corei. Mais uma corrida e consegui apanhar o comboio ao sinal do pipipi das portas. A primeira etapa estava safa.

A primeira passagem de testemunho era em East Croydon e havia apenas 4 minutos de diferença entre a chegada de um e a partida do outro. E como não poderia deixar de ser, o comboio de Brighton atrasou-se... 4 minutos. Saí esbaforido do comboio e entre subir escadas, correr e descer escadas, devo ter feito um recorde de 20 segundos e 3 pessoas atropeladas. Mais uma vez depois do pipipi, lancei-me para dentro de uma carruagem cheia de East-Croydonianos que não acharam muita piada à brincadeira.

A segunda passagem de testemunho foi em Clapham Junction e aí sim, já foi tudo smooth sailing. Quer dizer, foi tranquilo porque não apanhei nenhum pica, porque na verdade só paguei o excesso do off-peak e não o excesso para a ligação até Esher. Era o fim de 24 horas loucas, das quais ainda estou agora a recuperar.

À hora que termino de escrever este texto, já passaram 5 dias desde o concerto e olhando para trás, tudo foi tão rápido que a sensação é que foi tudo um sonho. Um sonho bom. Daqueles de que não apetece acordar e quando o maldito despertador toca, metemos o snooze para tentar voltar. Não pareceu e continua sem parecer real. E tal como no concerto de 2017, voltei a sentir que tudo passou demasiado rápido. É o mistério do tempo, que faz os bons momentos parecerem tão curtos e depois os estica na memória para toda a eternidade.


9. Mother's Talk — P.S.:

Esta semana a minha mãe ligou-me com más notícias. Depois de ouvir o London Calling desta semana — o meu programa de rádio na NiTfm (se não conhecem, you're missing out!) —, disse-me: "Expões-te demasiado! Toda aquela conversa que a música mudou a tua vida e não sei quê. Expões-te em demasia!" Ó Mãe, a culpa é do Roland e do Curt. Fala com eles.

Por falar no London Calling, não deixem de seguir a página no Facebook e claro, ouçam o programa desta semana "Shows From the Big Chair", dedicado aos Tears For Fears. Uma vez que não tive tempo para preparar o programa nos moldes habituais, o programa é o primeiro de sempre a ser gravado integralmente de improviso.

A ideia era contar a história épica das 24 horas de Brighton e intercalá-la com algumas das melhores performances ao vivo dos Tears For Fears. Mas tal como sempre acontece quando começo a contar as minhas histórias (perguntem às minhas estagiárias), acabei por me entusiasmar e ter que interromper o programa quando já batia praticamente a hora e meia. O programa tem performances em 1983 no programa de John Peel para a BBC, em 1985 no Massey Hall, em Toronto e em 1996 no Shepperd's Bush, aqui em Londres. Absolutamente imperdível.

10. Benfica — 0. Nacional


Perdoem-me, mas tinha que fazer menção a isto.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Tears For Fears no Royal Albert Hall — Como pode música tão depressiva ser tão eufórica?

Crónica do concerto mais curto da minha vida

Foi tudo muito rápido. Num momento estava a virar pints no bar do Royal Albert Hall, ansioso que chegasse a hora do concerto e daí a nada, já estava a aplaudir a saída de Roland Orzabal e Curt Smith do palco, confuso com o facto de só terem tocado meia hora. Meia hora?! Então eu venho de Portugal para os ver e eles só tocam meia hora? Só que não foi bem assim.

Os Tears For Fears foram a Londres promover a nova compilação "Rule The World: The Greatest Hits" e tocaram durante 100 minutos para uma plateia ávida pela sua música. Foi o primeiro concerto dos TFF em nome próprio na Europa desde 2005 e no RAH, foi o primeiro desde 1985, ano em que nasceu este que vos escreve. O entusiasmo na plateia reflectia a saudade e a importância do momento. Já vi alguns concertos na minha vida (este foi o 200º) e poucas vezes vi uma reacção tão fanática por parte do público, a dançar e a cantar por cima de todos os códigos de etiqueta britânicos. Foi um verdadeiro Royal Happy Hall.

Da minha parte, este era "só" o concerto mais ansiado da minha vida. Partindo do princípio que a ciência não nos dará para breve a ressurreição do Freddie Mercury, de todas as minhas bandas de eleição, só os Tears For Fears me faltavam ver. E as expectativas — que não eram tímidas — voaram para a estratosfera. Lembram-se da "Get Psyched Mix" do Barney Stinson do "How I Met Your Mother"?
"Now, people think a good mix should rise and fall. But people are wrong! It should be all rise, baby! Now prepare yourselves for an audio journey to the white, hot center of adrenaline!"
Foi exactamente como o Barney descreveu. Em vez de uma sinusoidal de emoções, os Tears For Fears presentearam-nos com hora e meia de cabeçadas nos limites do êxtase. Qual é a banda que se atreve a começar um concerto com o seu maior hit? Os Tears For Fears, pois claro. Entraram em palco com "Everybody Wants To Rule The World" e daí até ao final com "Shout", foi sempre lá em cima (só não foi sempre a subir, porque já não havia mais para subir) com uma torrente de hits e deep cuts eufóricos. Porque é mesmo de euforia que se trata, quando falamos dos TFF. Tenho várias fotografias neste concerto que nunca poderão ser mostradas, porque estou com um sorriso tão idiota que parecia saído de uma excursão para ver o mar pela primeira vez. E isto a ouvir música sobre depressão e esgotamentos nervosos. Como pode música tão depressiva ser tão electrizante?

Desde a insanidade do primeiro single "Mad World" (tema de 1982 que teve segunda vida em 2003, quando foi o nº1 de Natal nas tabelas britânicas), passando pelo romantismo de "Head Over Heels" ("I wanted to be with you alone and talk about the weather"), ou pelo ecumenismo de "Sowing The Seeds Of Love" ("those fucking politics"). Sempre lá em cima. Mas não foram só os êxitos que fizeram o concerto; foram também os doces saídos das profundezas dos álbuns — "Secret World" (do fantástico "Everybody Loves A Happy Ending"), "Broken" (só com passagem instrumental) e "Memories Fade" (o momento mais intenso da noite); e a cereja no topo, o fenomenal cover de "Creep", de uma certa banda que em tanta coisa são os sucessores espirituais dos Tears For Fears.

O momento alto da noite surgiria no fim, com o épico jazzista-orgânico-progressivo "Badman's Song", deep cut do álbum "The Seeds Of Love" de 1989 que (dizem-me) durou 9 minutos, mas que quando terminou me fez pensar "Já?! Então mas isto não era suposto durar 9 minutos?". Para a noite ser perfeita, só faltou o feroz "Raoul And The Kings Of Spain", favorito dos fãs que Roland teima em não cantar. Faltou também o último single da banda "I Love You But I'm Lost", lançado para promover a compilação "Rule The World: The Greatest Hits" (que foi o que os TFF foram fazer ao RAH), mas inexplicavelmente ignorado na setlist. Que outra banda poderia dar um concerto para promover o lançamento de um single e não o tocar? Pois. Clássico trolling dos sempre elusivos Tears For Fears.

No fim, senti que foi o concerto mais curto da minha vida. Mas esse é um daqueles mistérios do tempo. Por que raio faz os bons momentos parecerem tão curtos e depois os estica na memória para a eternidade? Fuck knows.