Mostrar mensagens com a etiqueta Artista: Queen. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Artista: Queen. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Quero tudo e quero tudo agora: os Queen lançam caixa de luxo de “The Miracle”


Quando soube que os Queen iam lançar uma box de luxo do álbum "The Miracle", a minha reação foi de estupefação — “A sério, o "The Miracle"? Qual é que vão fazer a seguir, o "Flash Gordon"?”. Não é segredo que não morro de amores pelo antepenúltimo disco dos Queen, mas como fã incurável que sou, já tinha a box nas mãos no primeiro dia. O meu veredicto final não podia estar mais longe da impressão inicial. Este é o melhor lançamento de arquivo dos Queen desde, pelo menos, 2014, quando saiu “Live At The Rainbow”.

Independentemente da (falta de) inspiração do álbum, “The Miracle” é um disco importante na história dos Queen. Ao mesmo tempo que a banda tentava fazer um comeback portentoso — não foi por acaso que o single de avanço foi o roqueiro “I Want It All” —, por esta altura, circa 1987, os Queen já sabiam da condição de Freddie, por isso o disco começa a ter um feeling de despedida. A colocação de “Was It All Worth It?” no fim do disco também não é inocente. Este feeling seria muito mais acentuado nas sessões subsequentes, que deram origem a “Innuendo” e “Made In Heaven”. O estado de espírito de “The Miracle” é ainda muito mais optimista, desde a abertura com "Party", até ao tema-título "The Miracle".

A escolha deste disco para uma edição de luxo é enigmática, por não ser (de todo) um dos melhores discos dos Queen, mas por outro lado essa é precisamente a razão que torna a reavaliação de “The Miracle” mais premente. Será assim tão mau como a fama que carrega? Esta caixa confirma que não.

Para esta edição de luxo, os Queen foram à master digital restaurar a versão original de "The Miracle", que tinha “Too Much Love Will Kill You” no Lado A, entre "I Want It All" e "The Invisible Man". O tema ficou envolto em disputas de royalties que não foram resolvidas antes do lançamento do disco, e como tal, só veria a luz do dia no álbum a solo de Brian May, “Back To The Light”, em 1992. A versão das sessões de “The Miracle” só apareceria mais tarde, no disco póstumo dos Queen, “Made In Heaven”, em 1995. Devido ao facto de ser uma master digital, não podemos esperar grandes melhorias nesta nova tiragem em vinil, mas fica restituída a verdade do álbum.

A origem digital do álbum, que foi gravado praticamente por inteiro numa consola digital, e com uso excessivo de instrumentação electrónica, é um dos sintomas que explicam a tepidez e a falta de alma em "The Miracle". Como se explica o abuso da electrónica, especialmente quando se tem executantes tão virtuosos numa banda como os Queen? O factor humano é providencial na sonoridade dos Queen e isso fica provado no segundo disco da caixa, "The Miracle Sessions" — a jóia da coroa desta edição —, que mostra Freddie, Brian, Roger e John em estúdio, livres e soltos, a tocarem as suas partes nos respectivos instrumentos. Estes foram, em muitos casos, substituídos mais tarde por sintetizadores. À falta de versões ao vivo destas canções (não houve digressão devido à condição de Freddie), "The Miracle Sessions" mostra-nos como soariam estes temas caso os Queen tivessem levado o álbum para a estrada.

"The Miracle Sessions" é então dividido em duas partes, começando com uma versão alternativa do álbum, constituída por uma amálgama de demos, takes alternativos e ensaios de estúdio, colados com diálogo para dar uma sensação de continuidade. É uma experiência alternativa ao álbum original que, como referi em cima, é o mais próximo que alguma vez estaremos de ouvir as canções de "The Miracle" ao vivo. E é uma maravilha. Mesmo faixas absolutamente amorfas como "Party" e "Rain Must Fall" ganham nova vida nestas versões com instrumentação humana. É a primeira vez que ouvimos "Breakthru", de longe o melhor tema de The Miracle, com bateria e baixo verdadeiros. Este disco confirma também que "Breakthru" é na verdade uma colagem com outro tema, "When Love Breaks Up", que ouvimos aqui pela primeira vez.

Como seria de esperar, as melhores músicas da iteração final do álbum são as melhores músicas dos ensaios. "Scandal" soa por isso gloriosamente na sua versão despida em estúdio. O ensaio de "I Want It All" bate ainda mais forte que a versão final e é delicioso ouvir Freddie a deixar escapar um “shit!” quando entra cedo demais em "I Want It All". Freddie volta a antecipar-se em "Rain Must Fall", mas desta vez consegue segurar o vernáculo. "The Invisible Man" é aqui a demo original de Roger, que já conhecíamos da edição deluxe de 2011, mas agora com um take alternativo e estendido do solo de guitarra de Brian May no fim.

A segunda parte de "The Miracle Sessions" desvenda uma antologia de canções, (supostamente) completamente novas, gravadas nas sessões de "The Miracle". Supostamente porque temas como "Dog With A Bone", "I Guess We’re Falling Out", e o mais recente single "Face it Alone" já eram conhecidos dos fãs que frequentavam as convenções dos Queen desde há décadas. Confesso que esperava que a escolha para o tema de promoção a esta box recaísse sobre "I Guess We’re Falling Out", uma música muito mais radiofónica e representativa do material mais upbeat das sessões de "The Miracle" — em oposição a "Face It Alone", que captura melhor o mood mais sombrio de "Innuendo". O facto é que "Falling Out" requeria gravações adicionais devido aos nananas de Freddie, que revelam que a lírica não estava terminada (e que explica por que não foi utilizado em "Made In Heaven").

Não é certa a extensão da recauchutagem em estúdio de "Face It Alone" (há ali pelo menos uma correção de tom na faixa vocal de Freddie) a quanto foi tratado, mas tendo em conta o resultado minimalista, não me parece que Brian e Roger tenham mexido muito com as gravações originais. E este até é um exemplo em que um solo a rasgar de Brian May poderia elevar a canção para outro nível. "Face It Alone" nao é o melhor tema "perdido" interpretado por Freddie Mercury (esse continua a ser "It's In Everyone Of Us" de David Pomeranz, a última performance ao vivo na vida de Freddie), mas em todo o caso, é sempre bom ouvir música "nova" de Freddie Mercury. Nem que fosse a cantar o "Malhão".

"Dog With A Bone" é mais uma sessão de improviso do que uma canção, mas serve para nos relembrar da versatilidade e poder absurdos da voz de Roger Taylor. Só mesmo nos Queen é que alguém com este talento pode ser "só" o baterista. "Water" e "You Know You Belong To Me" são, estas sim, composições completamente novas e desconhecidas de Brian May, e eu só me pergunto se ele se esqueceu da existência destes temas. Nunca mais apareceram em discos dos Queen, ou sequer a solo.

O terceiro disco da caixa, "Miracumentals" (a sério, Brian? Não era melhor, sei lá, Instrumiracles? Ok, é igualmente mau), é outra revelação — um disco de versões instrumentais que revela pequenos detalhes, como por exemplo as harmonias na introdução de "Breakthru", as quais parecem retiradas de um tema do álbum “Barcelona”, que Freddie produziu na mesma altura que “The Miracle”. É um disco óptimo para fazer karaoke.

O set inclui ainda material vídeo em BluRay e DVD, que reúne os clipes de "The Miracle" e os respectivos making-ofs. Mais importante ainda, é possível escolher as misturas surround dos singles, que foram criadas há 20 anos para o DVD "Greatest Video Hits 2", bem como os respectivos comentários de Brian e Roger, também gravados para esse DVD. É pena que o resto do álbum não tenha sido misturado em surround.

A box de “The Miracle” é, de longe, o melhor produto a sair da esfera dos Queen nos últimos anos. Tem que ser o novo barómetro para os próximos lançamentos. E se a nova regra do Dr Brian May for lançar versões expandidas dos álbuns menos bem conotados dos Queen, que venha daí uma caixa de luxo do "Hot Space". Nenhum outro disco dos Queen precisa tanto de uma reavaliação como esta corajosa e transgressiva incursão pela Gay Disco no início dos anos 80.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Freddie Mercury - 30 anos depois, o Rei ainda vive

Uma carta de amor a Freddie, no dia do aniversário da sua morte.


Uma das minhas memórias mais fortes de infância foi a noite de 24 de novembro de 1991, quando a televisão dava a notícia da tragédia do desaparecimento de Freddie Mercury. Tinha acabado de fazer seis anos e na minha perceção confusa do mundo, onde o Pai Natal existia e as novelas eram cenas da vida real, o Freddie era meu tio. E nem sequer estou a brincar. Sabia lá eu que Wembley era em Londres. Para mim, que via o VHS com o concerto dos Queen diariamente, era ali ao cimo da rua.

Foi por isso em choque que recebi a notícia que aquele tio próximo que falava uma língua estranha e via todos os dias, embora somente em vídeo, estava morto. Aquela noite foi a minha primeira interação com a morte.

No próprio dia, a RTP passou o documentário da BBC “Freddie Mercury: A Tribute”, uma colagem de clipes e performances aos vivo dos Queen (Hammersmith ‘75, Rio ‘85, Live Aid ‘85, Wembley ‘86) que foi, efetivamente, a melhor forma de o relembrar e ilustrar a sua gloriosa vida. Durante anos repeti o mesmo sonho: estava no Live Aid em Wembley e vi o Freddie colapsar, a morrer à minha frente, no fim da performance do “We Are The Champions”.

Lembro-me de ir para a cama nessa noite e de me deitar enquanto o meu pai tentava explicar o que se estava a passar. Não faço a mínima ideia do que me disse, só me lembro de que fingi entender para o fazer feliz. Coitado. Ver-se obrigado a explicar a morte a um miúdo de 6 anos. 30 anos volvidos, eu não o saberia fazer. “O Freddie desapareceu”, dizia o José Rodrigues dos Santos. Sim, mas para onde?

Para onde? Para lado nenhum. Ou melhor, para todo o lado. 30 anos volvidos, a música dos Queen está mais forte e pujante do que nunca. São mais populares nas novas gerações do que qualquer outra banda antiga, incluindo os Beatles. Não sou eu, são os números do Spotify e do YouTube que o dizem. Têm uma loja na Carnaby Street em Londres. Loja essa que durante semanas teve filas de horas por causa de uns discos de vinil exclusivos com músicas que toda a gente já ouviu milhares de vezes. Loja essa que teve confrontos à porta (não, não estou a brincar) na última semana porque se percebeu que não havia discos para todos.

Para mim, está aqui. Aqui mesmo, no coração. 30 anos depois do seu alegado desaparecimento, não há dia nenhum que passe e que não ouça a sua voz. A sua música fez, faz e para sempre fará parte do tecido da minha vida. O rei Freddie Mercury desapareceu há 30 anos, mas nunca foi embora das nossas vidas. Anyway the wind blows… and Queen lives.

sábado, 24 de novembro de 2018

Nós somos os campeões — A lista definitiva dos melhores álbuns dos Queen

Uma vez que continuo a receber e-mails irados à custa da crítica ao poucochinho "Bohemian Rhapsody" e hoje faz 27 anos que o Rei Freddie nos deixou, tenho a desculpa perfeita para escrever mais uma vez sobre a minha banda favorita.

Com toda a atenção que é dada a Freddie Mercury, esquecemo-nos que os Queen eram de facto uma excelente banda, com excelente música e com uma matriz de choque com o establishment que é o exacto oposto do que o Dr Brian May nos quer vender hoje em dia. Uma banda com o repertório tão vasto e tão variado, que os fãs nunca vão concordar qual o melhor e o pior. Esta é a minha lista.

15. FLASH GORDON (1981)

"What's happenin', Flash?!"


É obviamente o álbum mais fraco dos Queen, dêem-se as voltas que se derem. Tem apenas uma canção terminada, com cabeça tronco e membros ("The Hero"), sendo que nem sequer foi o single do álbum. Esse foi "Flash" (ou "Flash's Theme" no disco), pouco mais que uma colagem de efeitos sonoros sobre uma linha de baixo de uma nota repetida apenas (e vá, com uma bridge pelo meio). Não deixa de ser uma colagem cool, mas é só isso mesmo, uma colagem. E foi um hit.
"Flash Gordon" é uma festa de sintetizadores e um disco brutalmente experimental; e contudo, os Queen têm todo o meu respeito pela coragem de lançarem este trabalho completamente anticlimático, logo a seguir a terem conquistado ambos os lados do Atlântico com o álbum "The Game".
Imaginem os tomates que são precisos para a maior banda do mundo da altura suceder o seu álbum mais bem recebido com isto. Maravilha. Só mesmo os Queen.

Faixas essenciais: "The Hero", "Flash's Theme" e vá, "Football Fight".


14. THE MIRACLE (1987)

"Goodbye, the party is over"


Na altura do seu lançamento, "The Miracle" foi visto com bons olhos pelos fãs dos Queen, que já ansiavam por algo mais próximo das suas origens Rock. O entusiasmo vinha de "I Want It All", um tema Rock straight-forward que prometia um álbum mais pesado, em consonância com o movimento Hair Metal que dominava as tabelas da altura. Nada mais falso.
Olhando para trás, "The Miracle" não conseguiu ser isso nem outra coisa nenhuma, a não ser música feita para agradar às massas, o que é exactamente o oposto daquilo que os Queen são (ou foram até 1982). "The Miracle" trouxe uns Queen normalizados, a tentarem entrar com toda a força na rádio mainstream da altura. E honra seja feita aos rapazes, isso foi conseguido com sucesso, uma vez que os singles (e os respectivos vídeos) são de facto terrivelmente atraentes.
"Breakthru" e o tema-título "The Miracle" são os pontos altos, "I Want It All" é o arquétipo do tema perfeito para a rádio, "Scandal" é uma jóia escondida e até "The Invisible Man" pode ser desculpável, se visto como um momento de Queen just wanna have fun. Já para coisas como "Party", "Khashoggi's Ship", "Rain Must Fall", ou "My Baby Does Me" é mais difícil encontrar desculpas (como é que "Too Much Love Will Kill You" e "My Life Has Been Saved" ficaram de fora?). Nem os singles disfarçam um álbum profundamente desinspirado. A festa tinha mesmo acabado para os Queen.

Faixas essenciais: "Breakthru", "The Miracle" e "Scandal".


13. THE WORKS (1984)

"It's software, it's hardware. It's heartbeat, it's time-share"


O álbum “Hot Space” gerou tensões tão grandes no seio dos Queen, que por pouco não separou a banda em definitivo. O público não quis nada com as experiências Gay Disco de Freddie Mercury e por isso os Queen em 1984 abriram o Windows no safety mode, com o lançamento de um álbum seguríssimo-mesmo-na-roupa-mais-delicada — "The Works". Nunca percebi muito bem o título do álbum, a não ser na perspectiva que este disco foi visto pelos Queen como mais um dia no escritório.
Os Queen estavam desesperados por reaver a sua audiência de volta e por isso estavam propositadamente a jogar pelo seguro. Nesta altura, a única coisa que ancorava os Queen à sua matriz ultrajante eram os vídeos, que compensavam o facto da banda se ter (finalmente) rendido à crítica e começar a produzir pop adulta by-the-numbers para agradar à MTV. Ironia das ironias, o single principal do álbum "Radio Ga Ga" fala precisamente disso mesmo.
Valeram os singles, impossíveis de não gostar, até porque são tão easy-listening, não é?

Faixas essenciais: "I Want To Break Free", "It's A Hard Life" e "Hammer To Fall".


12. JAZZ (1978)

"Only football gives us thrills, Rock 'n' Roll just pays the bills"


Os Queen passaram a década de 70 a ostentar nos seus álbuns o lema "No synths!", orgulhando-se de que todos os sons misteriosos ouvidos na sua música eram provenientes da guitarra de Brian May. Isto é tudo muito bonito, mas no fim do dia, acabava por ser uma limitação que os Queen se auto-infligiam. Sem razão nenhuma.
A verdade é que em 1978, as ideias dos Queen para um mundo perfeito sem sintetizadores já começavam a escassear. Nesta altura, o core business dos Queen já eram os concertos, onde a banda brilhava intensamente e o álbum "Jazz" foi demasiado-obviamente composto para ser tocado ao vivo para dezenas de milhares de pessoas. Isso já era óbvio no antecessor de 1977 ("News Of The World"), mas aqui já nem disfarçam ("Let Me Entertain You" é um bom exemplo). Parecia que os Queen estavam apenas numa de go through the motions, sem grande intenção de arriscar ou inventar coisas novas, como era a sua matriz de trabalho (excepção será o magrebino "Mustapha" e talvez "Dead On Time", a roçar o heavy metal).
Curiosamente, também aqui os Queen denunciam isto mesmo no tema "More Of That Jazz" ("what you're given is what you've been given a thousand times before"). Os Queen precisavam de se reinventar e ainda bem que o fizeram no álbum "The Game".

Faixas essenciais: "Mustapha", "Fat Bottomed Girls" e "More Of That Jazz".


11. Queen (1973)

"Mother Mercury, look what they've done to me"


O primeiro álbum dos Queen é aquilo que no atletismo se chama de "falsa partida". Há aqui muitas e dispersas influências (Led Zeppelin a mais óbvia) e boas ideias, algumas mais tarde desenvolvidas para algo superior ("Seven Seas Of Rhye") e outras felizmente abandonadas ("Jesus" era demasiado preachy para uma banda Rock).
Os Queen já arranham algumas malhas como "Doing Alright", "Liar" e "Son And Daughter", que iriam em breve desabrochar ao vivo. "Keep Yourself Alive" abre a discografia dos Queen com um riff glorioso, mas a canção não está ao nível.
Parecia ainda faltar alguma confiança aos Queen, mas como sabemos, a modéstia não é propriamente o forte do nosso Freddie e felizmente a sua visão grandiosa iria em breve dar asas à banda londrina.

Faixas essenciais: "Doing Alright", "Liar" e "Son And Daughter".


10. The Game (1980)

"Are you ready for this? Are you hanging on the edge of your seat?"


Os Queen entraram na década de 80 com uma explosão... de sintetizadores. Quebrando o dogma que levaram até ao álbum "Jazz", os Queen agarraram-se aos sintetizadores com toda a fome de quem estivera uma década à míngua e comportaram-se como aquele miúdo que recebe uma Nintendo 64 pelo Natal e durante três meses não sai do quarto (eu em 1998, portanto).
Ha quem diga que a partir daqui, os Queen deixaram de ser muito bons e passaram a ser apenas bons. Eu discordo, uma vez que os Queen continuaram a fazer boa música e se não era tão boa como o passado, não teve a ver com o uso de sintentizadores per se, mas sim com o mau uso dos mesmos, ou então o seu uso excessivo mascarar outras deficiências da banda, como algum desinteresse dos seus membros, depois de uma década exaustiva de ciclos álbum-tour-álbum-tour.
"The Game" foi no entanto um triunfo absoluto para os Queen, uma vez que foi o álbum que conquistou a América, nomeadamente com o single "Another One Bites The Dust". É o exemplo perfeito de como casar com bom gosto os velhos Queen, com o uso do novo brinquedo.

Faixas essenciais: "Dragon Attack", "Another One Bite's The Dust" e "Save Me".


9. NEWS OF THE WORLD (1977)

"You brought me fame and fortune and everything that goes with it. I thank you all"


Há um momento no filme "Bohemian Rhapsody" que define "News Of The World" – quando Brian May diz a Freddie Mercury (três anos mais tarde do que na realidade aconteceu) "quero escrever uma canção que o público possa cantar connosco". Temas como "We Will Rock You" e "We Are The Champions" são exercícios disto mesmo.
"News Of The World" é puro Arena Rock, mas nem por isso os Queen deixaram de ser ultrajantes. Prova disso é que as sugestões sexuais se estavam a tornar cada vez mais óbvias ("you gotta fight from the inside, attack from the rear"). Pena que "Get Down, Make Head" fosse à última hora alterado para "Get Down, Make Love".
Adoro "News Of The World" e dói-me deixá-lo aqui no número 9, mas notem que ter um álbum como este na nona posição não significa que seja fraco. Significa apenas que os Queen eram assim TÃO bons.

Faixas essenciais: "It's Late", "Spread Your Wings" e "My Melancholy Blues".


8. SHEER HEART ATTACK (1972)

"Baby you've been had"


Estava eu esta semana na Pretty Green em Carnaby Street e começa a tocar o "Brighton Rock" nas colunas. Os rapazes que trabalhavam na loja — deviam ter os seus 20 anos —perguntavam-se o que raio era aquilo. Eu intrometi-me orgulhoso — "Isto é Queen!" —, ao que um respondeu — "não sabia que os Queen faziam música pesada!". Ah pois. E eu terminei com "os Queen faziam de tudo e era tudo bom!". E se há testamento disso mesmo é "Sheer Heart Attack", um álbum mais simplista que o seu antecessor ("Queen II") e o seu sucessor ("A Night At The Opera") e que trocou uma abordagem menos complexa e grandiosa na composição por uma sonoridade mais pesada em temas como "Brighton Rock", "Tenement Funster", "Flick Of The Wrist" (que malha!) e "Stone Cold Crazy" (um cover habitual dos Metallica). Os Queen conquistaram as tabelas do UK e do Japão com este álbum e as coisas começaram finalmente a aquecer (como se pode atestar pela capa do álbum).

Faixas essenciais: "Brighton Rock", "Flick Of The Wrist" e "In The Lap Of The Gods... Revisited".


7. Hot Space (1982)

"I've got fire down below, I'm just a regular dynamo"


Baixem lá essas forquilhas, ó seus fãs dos Greatest Hits. Não, "Hot Space" não é propriamente um desfilar de hits como, por exemplo, "The Works". E ainda bem. Porque "Hot Space" é o álbum que define exactamente o que eram os Queen — uma banda sempre a puxar os limites, sem medo de correr riscos e mais que isso, com vontade de correr riscos; vontade de chocar, ser ultrajante. Em suma, o oposto daquilo que o filme "Bohemian Rhapsody" nos mostrou.
Tenho um tremendo, tremendo respeito pelos Queen por este álbum. Pese embora os próprios Brian e Roger ainda o odiarem, continua a ser um testamento de como os Queen não têm paralelo. Mas mais. É na verdade um dos álbuns que mais ouço.
Depois disto, os Queen avançaram para fazer música "melhor" (ninguém pode dizer que "I Want To Break Free" não é melhor que "Body Language", ou "Radio Ga Ga" pior que "Back Chat"), mas os Queen deixaram de ser o gajo da gabardine que vai para o parque mostrar as partes íntimas às velhotas e deixar todos os transeuntes em estado de choque.
Imaginem lá agora que o John Bonham nunca tinha morrido em 1980 e os Led Zeppelin tinham feito um álbum Gay Disco. What the fuck? Exacto. Nunca teriam a coragem de fazer um álbum desses. E por isso é que os Queen são melhores. Os melhores. De sempre. Word.

Faixas essenciais: "Staying Power" ao vivo (eu sei, eu sei, é batota) , "Cool Cat" e "Under Pressure".


6. I N N U E N D O (1991)

"My make-up may be flaking, but my smile still stays on"


Os Queen estavam convencidos que "Innuendo" iria ser o último álbum que Freddie Mercury poderia gravar, por isso sabiam que tinham que make this one count. Depois do tiro ao lado com "The Miracle", aqui não havia espaço para falhanços. Era o tudo ou nada. E por isso mesmo os Queen capricharam neste álbum extraordinário, com clássico atrás de clássico ("I'm Going Slightly Mad" é talvez a faixa mais britânica de sempre), exceptuando quando quiseram fazer a vontade ao Freddie e deixá-lo cantar um tema para a sua gata Delilah. E o tema que não resultou com a Montserrat Caballé ("All God's People") também era desnecessário. Fora isso, é uma saída triunfal para o arco discográfico dos Queen. Não é por acaso que "The Show Must Go On" é a última faixa do álbum. Freddie não sabia se ia sequer terminar "Innuendo", quanto mais gravar mais alguma coisa a seguir...

Faixas essenciais: "Innuendo", "I'm Going Slightly Mad" e "The Show Must Go On".


5. A Kind Of Magic (1986)

"Here we are. Born to be kings"


"A Kind of Magic" é um álbum puro 80s. E nem pensem que isto tem uma conotação negativa, uma vez que tem tudo o que foi de bom nos 80s e tudo na conta certa. A simbologia do álbum é deliciosa e a música é a mescla perfeita entre uma banda Rock dos anos 70 e os sintetizadores dos anos 80. Os Queen também conseguiram o feito de cruzar na perfeição um álbum de banda sonora com um álbum Rock. Continua a ser um testamento que os Queen podiam e sabiam fazer tudo e era tudo bom.

Faixas essenciais: "One Vision", "Who Wants To Live Forever" e "Gimme The Prize (Kurgan's Theme)".


4. MADE IN HEAVEN (1995)

"So quiet and peaceful (dreaming...); Tranquil and blissful"


Muito falei nesta crónica de "riscos"; que os Queen eram excepcionais porque não tinham medo de correr riscos e faziam-no com gosto e com vontade de desafiar o mundo, a crítica e os próprios fãs. Tudo verdade. Mas nessa perspectiva, que riscos é que os Queen correram no adult sounding "Made In Heaven"? Nenhuns. Excepto o risco que o seu vocalista pudesse morrer a qualquer momento. Isso é capaz de ser arriscado. E foi mesmo. Porque Freddie Mercury morreu mesmo a meio de "Made In Heaven".
Sabendo da situação periclitante de Freddie, os Queen mudaram-se de armas e bagagens para Montreux em 1991, onde ocuparam os Mountain Studios (onde mais tarde foi erguida uma estátua ao Rei, que serviu de capa para o álbum e ainda lá está nos dias de hoje), à espera que Freddie Mercury tivesse uns dias de melhoria e apanhasse um avião para mandar abaixo mais umas faixas vocais. As sessões foram por isso aquilo que (compreensivelmente) puderam fazer delas.
Neste período, Freddie gravou "You Don't Fool Me", "A Winter's Tale" e metade de "Mother Love". Aqui as coisas ficam um pouco difusas, uma vez que Brian May afirma que a última faixa que Freddie gravou foi "Mother Love" em Montreux, tendo que abandonar a sessão a meio e nunca voltado para a completar (e por isso é Brian quem canta o último verso). Esta é uma versão mais dramática e pro-Queen da História, apanágio do nosso astrofísico favorito.
A outra versão é do produtor David Richards, que disse que a última faixa vocal que Freddie gravou foi na verdade "A Winter's Tale", em Londres, a 11 de Novembro de 1991. A 10 dias de morrer, portanto.
Toda este elán faz com que "Made In Heaven" seja um álbum especial. É um álbum que prova que Freddie tinha, acima de tudo o resto, uma missão neste mundo — cantar. Fê-lo até ao fim contra tudo e contra todas as doenças, dores e um sofrimento inimaginável. E tudo para que nós, os seus fãs, quem o amava verdadeiramente sem pedir nada em troca, pudéssemos desfrutar de mais um miminho. E que miminho ele nos deixou. Obrigado, Freddie.

Faixas essenciais: "Two Much Love Will Kill You", "Mother Love" e "A Winter's Tale", duas faixas gravadas nos últimissimos dias do Rei.


3. A Night At The Opera (1975)

"So très charmant, my dear"


Já quase tudo foi dito sobre "A Night At The Opera", o álbum que tem como grande defeito não estar à altura do seu mamutiano single de avanço — "Bohemian Rhaposdy". Mas como tal seria possível?
Não pensem porém que "Bohemian Rhapsody" está sozinho neste disco pleno de charme e finesse.
A variedade é mesmo o grande forte do álbum, que abre com o tema mais agressivo da discografia dos Queen — "Death On Two Legs [Dedicated To..." (dedicado ao antigo manager da banda Norman Sheffield),  evoca o music hall nos muito British "Lazing On A Sunday Afternoon", "Seaside Rendezvouz" e "Good Company", deixa Roger fazer a sua declaração de amor aos automóveis em "I'm In Love With My Car" e claro, o épico de Mercury "The Prophet's Song", que só não é mais conhecido porque ficou sempre na sombra de Bo Rhap.

Faixas essenciais: "Death On Two Legs [Dedicated To...", "The Prophet's Song" e (obviamente) "Bohemian Rhapsody".

2. Queen II (1973)

"I reign with my left hand, I rule with my right; I'm lord of all darkness, I'm Queen of the night"


Já todos ouviram falar do "Chinese Democracy" dos Guns N' Roses — um álbum tão exageradamente produzido, que acabou por ficar na sua própria sombra. Ora, o que Axl Rose queria afinal fazer com "Chinese Democracy"? Simples. Queria fazer o seu próprio "Queen II". A diferença é que levou 11 anos a fazer o que os Queen demoraram 1 mês.
Há tanto que se passa em "Queen II", que é difícil acompanhar. É como aqueles filmes do David Lynch, que só à 4ª ou 5ª visualização é que percebemos que "Ahhh, então aquilo é uma guitarra!" (nesta fase pré-sintetizadores, era sempre).
"Queen II" é todos os superlativos ao mesmo tempo. Dividido num Side White de Brian May e Side Black de Freddie Mercury, o álbum tem um pouco de tudo e é "O" grande triunfo artístico da discografia dos Queen. Nunca mais os rapazes fizeram algo tão complexo. Bem, exceptuando obviamente aquele tema do "A Night At The Opera".

Faixas essenciais: "White Queen (As It Began)", "Ogre Battle" e "The March Of The Black Queen".


1. A Day At The Races (1976)

"I can dim the lights and sing you songs full of sad things"


"A Day At The Races" é o álbum mais accomplished da carreira dos Queen. Aqueles 20 minutos entre o gongo que abre "A Day At The Races" e o fim de "You And I" são o absoluto e indisputado pináculo da discografia dos Queen. "Tie Your Mother Down", "You Take My Breath Away", "Long Away", "The Millionaire Waltz" e "You And I". Não precisavam de fazer mais nada na carreira deles.
Vira-se o disco e o Lado B começa com o "Somebody To Love". Enough said.

Faixas essenciais: "Tie Your Mother Down", "You Take My Breath Away" e "The Millionaire Waltz"; Ah e "Teo Torriatte", claro. Esperem, e o "Somebody To Love"?

sábado, 27 de outubro de 2018

Is this just fantasy? — "Bohemian Rhapsody" foi exactamente o desastre olímpico que eu esperava

O cronista da NiT e fanático dos Queen foi à estreia mundial em Londres e traz a review do filme que chega para a semana a Portugal

"Bohemian Rhapsody" foi exactamente o desastre olímpico que eu esperava que fosse. O filme é uma espécie de versão Disney da história dos Queen: limpinho, lavadinho, uma visão higienizada de Freddie Mercury que se pode mostrar às crianças e imprimir em livros de colorir. Em Maio escrevi aqui que com os dados que estavam lançados, só podíamos temer o pior e as expectativas confirmaram-se. O Dr. Brian May é um homem de muitos talentos — um dos mais inventivos, melódicos e singulares guitarristas da história da música; um astrofísico brilhante; um protector felino do seu legado — mas infelizmente, a produção de filmes não é um desses talentos. Foi exactamente por isso que Sacha Baron Cohen abandonou o projecto, quando percebeu que o instinto protector de Brian não iria permitir o filme ganhar as asas que merecia.

Antes de mais, deixem-me desmontar um mito que se criou quando começaram a sair as primeiras fotos e os primeiros trailers do filme: Rami Malek não é um bom Freddie Mercury. Ele imita-lhe os movimentos, sim, mas não conseguiu capturá-lo. Para se ser Freddie, não basta imitar-lhe as poses; não basta arranjar um treinador de movimentos para copiar exactamente como Freddie se movia do Ponto A para o Ponto B. Não chega. Para se ser Freddie, é preciso entender Freddie. É preciso fazer os mesmos movimentos, mas com a mesma força, a mesma confiança e a mesma autoridade. É preciso perceber que este era um homem extremamente inseguro que, quando lhe davam um microfone para a mão, era o Rei do Mundo e não tinha dúvidas disso (e não estou a ser metafórico).

Atente-se por exemplo na célebre performance do Live Aid: reparem como Freddie comanda uma audiência de 80 mil pessoas no Wembley e 2 mil milhões de pessoas em casa como se de um exército se tratasse; como ele ordena o público a segui-lo — "I like it, SING IT AGAIN!" — e todos o fazem com um sorriso nos lábios, como quem está a carpir mágoas numa experiência metasensorial. Não se sente nada deste poder em Rami Malek. Tudo é mecânico, forçado e sem vida, como se estivesse a reproduzir uma coreografia num musical. Há muito pouco de Freddie em Rami. Lamento, mas meter uma dentadura não chega.

Em defesa de Rami Malek, devo dizer que a tarefa que tinha entre mãos era extraordinariamente difícil. Mas temo que na preparação do filme, ele nunca tenha percebido isso. Eu entendo que Rami não tenha tempo para perder em tamanha dedicação. Afinal, há mais filmes e séries para gravar. E não há problema nenhum com isso, entenda-se. Rami Malek é um bom actor, mas não é o actor que Freddie precisava. É muito poucochinho. Era preciso estudar, ver horas, dias, semanas, meses de vídeos de concertos, entrevistas e filmagens do "boring Freddie" para se perceber a extrema riqueza, profundidade e complexidade deste homem tão brilhante e perturbado. Era preciso tempo e dedicação. Era o papel de uma vida. Era preciso um method actor. Como por exemplo, se bem se lembram, Sacha Baron Cohen.

Dito isto, a performance de Rami Malek está longe de ser o pior de "Bohemian Rhapsody". É apenas aquilo que salta mais à vista para um fã dos Queen mais atento. Isso e as inúmeras imprecisões históricas, que vão muito para além do moustachegate de que falei na semana passada (os Queen a  gravarem "We Will Rock You" com Freddie Mercury de bigode). A banda sonora já tinha dado a dica, com um alinhamento cronologicamente todo trocado, mas que é exactamente aquilo que vemos no verdadeiro caos factual que é "Bohemian Rhapsody".

As coisas começam logo mal quando vemos os Queen numa digressão americana em 1974-1975 ao som de "Fat Bottomed Girls", escrito em 1978 (altura em que Freddie já tinha cabelo curto e se vestia em cabedal integral). Mais à frente, vemos Freddie a explicar a Mary Austin que "Love Of My Life" foi escrito para ela, enquanto lhe mostra imagens (reais) de um concerto no Rio de Janeiro que na realidade ocorreu 10 anos mais tarde (1985), mas com Freddie a utilizar um stage costume de 1976. No filme, "We Will Rock You" (1977) é composto em 1980 e "Another One Bites The Dust" (1980) é escrito em 1982 para terminar uma discussão do grupo na gravação do álbum "Hot Space". Para quem conhece a história dos Queen, tudo isto é no mínimo bizarro.

Daqui para a frente, a História como-realmente-aconteceu é completamente deitada pela janela fora. O caos é total, com o filme a contar uma narrativa dos Queen nos anos 80 que simplesmente não aconteceu, muitas vezes através de cenas parodicamente dramatizadas, que mais parecem saídas de uma telenovela mexicana. E tudo culmina no bizarro dia do Live Aid em que, no mesmo dia, Freddie consegue encontrar o homem que tinha tomado o seu coração 5 anos antes (Jim Hutton), leva-o a tomar chá a casa dos pais, reconcilia-se com Mary Austin e ainda faz o Live Aid. Há dias que têm 5 anos, de facto.

Mas não pensem que o pior do filme é esta embrulhada temporal. O filme trata a maiorias dos episódios da História dos Queen pela rama, preocupando-se em demasia em enunciar o maior número de factos, sem lhes dar o devido contexto. Porque é que as coisas aconteceram como aconteceram? Não interessa, é preciso andar mais uns anos, que o filme não pode ser muito longo. E isto reflecte-se na profundidade das próprias personagens. Na verdade, à excepção de Freddie, Mary Austin e Paul Prenter (o grande vilão da história), nenhum dos personagens do filme têm personalidade própria. Todos se limitam a deixar-se levar mecanicamente de episódio em episódio, como se fossem props do filme, para relatar vagamente e em ordem caótica factos que se passaram na história dos Queen.

Dos personagens, sabemos que o Brian é um astrofísico, que o Roger gosta de gajas e que o John não tem interesse nenhum. E sabemos disto porque o Freddie o diz numa das muitas cenas interrompidas por "momentos informativos" em que se sente o evidente toque do Dr. Brian May, que quer deixar bem claro quem-disse-o-quê e assim esclarecer a audiência sobre quem estava do lado certo da história (entenda-se: Brian e Roger estavam certos, contra Freddie e John).

"Bohemian Rhapsody" vale por ser uma (sempre pertinente) celebração dos Queen. Nem tudo é mau. Em primeiro lugar, a música. Aqui, não havia que enganar. A utilização de gravações originais dos Queen no filme foi uma decisão acertada e se aqueles ensaios para o Live Aid são gravações genuínas do Freddie a desafinar e a perder a voz, então tiro o meu chapéu ao Dr. Brian May, porque temos ali um tesouro.

O ponto alto do filme é a composição do tema "Bohemian Rhapsody" nos Rockfield Studios (uma quinta no Sul de Gales) . Aqui sim, é deixado o espaço e o tempo suficiente para a acção respirar e o filme se desenrolar. É precioso ver o método criativo de Freddie a compor a letra da canção, numa altura que se apercebia da sua sexualidade. É maravilhoso ver o Freddie obsessivo a puxar a voz de Roger Taylor aos limites para só mais um Galileo. É magnífico ver Freddie picar Brian para melhorar o seu solo de guitarra: "Está bom, mas agora toca como se a canção fosse tua!". É uma cena que vale o preço do bilhete do filme. Essa e o impressionante CGI que recriou o (entretanto demolido) Estádio do Wembley para a cena do Live Aid. O filme utiliza o áudio original dos Queen no Live Aid e se a performance de Rami Malek é demasiado mecânica, toda a caracterização que rodeia a cena é absolutamente irrepreensível.

A escolha dos restantes actores também foi na generalidade feliz. O actor que faz de Brian May é mais parecido com o Brian May que o próprio Brian May. O actor de John Deacon também é inacreditavelmente igual. Já para Roger Taylor, não conseguiram encontrar um actor que ficasse tão bem vestido de mulher como o Roger (não era fácil). Bob Geldof também está brilhantemente representado, assim como Jim Hutton e Bono Vox, que faz uma aparição relâmpago no início do filme no backstage do Live Aid. Se a preocupação com a caracterização foi evidente, que dizer do guarda-roupa, que é simplesmente fenomenal. Todos os fatos de Freddie estão lá e toda a gente parece saída da década de 70 e 80. Quando não está tudo trocado, claro.

Tenho que vos confessar: é muito difícil para mim escrever uma review de "Bohemian Rhapsody" nestes termos. Durante toda a carreira dos Queen, eles sempre foram arrasados pela crítica, que nunca compreendeu o apelo marginal da banda. Hoje, parece que sou eu que estou a tomar esse lugar. Mas não é assim. Há poucas coisas que eu ame tanto na vida como os Queen (a minha família e pouco mais). Mas por isso mesmo tenho a certeza que os Queen mereciam mais que este filme tão pobrezinho. O último desejo de Freddie ao seu manager Jim "Miami" Beach foi "Faz o que quiseres com a minha música; só nunca me faças parecer aborrecido". "Bohemian Rhapsody" não faz propriamente Freddie parecer aborrecido, mas fá-lo parecer infinitamente menos interessante do que realmente foi. É pena.

A história dos Queen merece de facto ser contada. O problema é que é demasiado ultrajante para ser contada num filme para crianças. Que é exactamente o que "Bohemian Rhapsody" é: uma introdução aos Queen para crianças, um "Queen for dummies", visualmente acurado, mas sem nenhuma profundidade. Ou então sou eu que sou demasiado exigente com a banda que me fez apaixonar pela música.

P.S.: Se quiserem saber a verdadeira História dos Queen, como ela aconteceu, na correcta ordem cronológica e com o foco naquilo que realmente interessa — a música — então é ouvirem o especial "Queen: A Concert Through Time And Space" na NiTfm, com a primeira parte dedicada aos anos 70 e a segunda parte dedicada aos anos 80. Tudo livre de qualquer higienização e brutalmente honesto.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Temam o pior — O filme dos Queen que tem tudo para correr mal

A minha bipolaridade antes e depois de ver o trailer de "Bohemian Rhapsody"

Antes de ver o trailer (texto escrito na noite de 14 de Maio):
Vem aí "Bohemian Rhapsody", o filme que promete trazer a história não contada de Freddie Mercury e da música dos Queen. Ora, sendo eu um fã irremediável dos Queen e sendo o Freddie — em quem se centra a história do filme — o meu herói de sempre, só posso estar a vibrar de excitação. Certo? Certo?! Errado.

Por mais que eu devesse estar entusiasmado com um filme sobre a vida do meu herói, não consigo deixar de pensar que vai ser um desastre de proporções épicas. O filme tem tudo para correr mal. Este é, aliás, um desastre anunciado desde há 8 anos. Lembro que foi em 2010 que se deu o início da produção do filme e foi feito o casting de Sacha Baron Cohen. Sacha que, 6 anos depois, se fartou dos Queen e mandou o projecto mais ambicioso da sua vida às malvas. Claro que quando digo "fartou-se dos Queen", quero realmente dizer "fartou-se de Brian May", o verdadeiro (único?) timoneiro do porta-aviões da banda britânica neste momento (o Roger quer é copos, caça e bater em tambores). Adoro o Brian, mas ele é um control freak e os anos infinitos de produção falhada do filme evidenciaram que ele estava a tentar polir ao máximo a imagem do Freddie. O afastamento do Sacha foi provocado por essa mesma diferença criativa .

É isto que me deixa com suores frios. Todos os sinais apontam para uma total higienização de Freddie Mercury em "Bohemian Rhapsody". E o que me chateia mais nem é a possível distorção dos factos da sua vida (que até pode ser compreensível, em função de um enredo mais cinemático), mas sim a higienização da sua personalidade. Temo que o filme pinte Freddie como um herói impoluto que não foi de maneira nenhuma. Temo que a preocupação em preservar a imagem lhe apague todas as nuances, todas as linhas turvas que eram precisamente as que lhe conferiam maior beleza e de onde nasceram as suas melhores obras. Obras como o tema-título do filme, "Bohemian Rhapsody".

Não tenho medo de ver os defeitos nos meus heróis. Pelo contrário. É nos defeitos que eles mostram humanismo. Vejo beleza na sua complexidade e até na sua falência. Sacha Baron Cohen parecia o perfect fit para o personagem — denso, misterioso e personalidade forte. Rami Malek de Mr. Robot? Não tenho tanta certeza. Pelo menos aceitou à partida as condições impostas pela banda. Mas quem sou eu para o criticar? Eu também aceitaria tudo o que me pusessem à frente, só pela oportunidade de ser o Freddie.

A preocupação de Brian May tem algum fundamento. Nesta era em que o politicamente correcto esmaga todas as formas de expressão livre em favor de versões lixiviadas da realidade, é um desafio fazer um filme sobre os insanos anos 70 e loucos 80s que tenha apelo universal. Mas tanto polimento vai inevitavelmente fazer sofrer o produto final. Um filme sobre Freddie Mercury que não é para maiores de 18 anos? Please.

Compreendo que a banda queira centrar o enredo na música, mas para se contar a verdadeira história de Freddie Mercury, é preciso sujar as mãos. E muito. Se queriam um filme fiel à realidade, talvez o melhor realizador para o projecto fosse o infame Gaspar Noé, que acabou de ir a Cannes com mais uma sangria de sexo, música e alienação. E olha, não foi precisamente assim a vida do Freddie?!



O enredo de "Bohemian Rhapsody" não é difícil de adivinhar e pelo que Brian May deixou escapar no Instagram, até já foi ensaiado no documentário "Days of Our Lives". Querem uma aposta? Lembrem-se que leram aqui primeiro:

A história começa com quatro rapazes que se conhecem no Imperial College em Londres e que rapidamente ganham notoriedade às costas do seu extravagante frontman. A banda faz três álbuns sempre em crescendo de popularidade, mas vê-se na bancarrota, apesar do sucesso. É aqui revelado o primeiro vilão da história, o manager dos Queen, que a banda descobre, lhes anda a sugar o dinheiro.
Os Queen são salvos por John Reid, manager de Elton John que, reza a lenda, diz aos Queen para não se preocuparem com mais nada sem ser fazer o melhor álbum de sempre. A banda vai para estúdio gravar "Bohemian Rhapsody", tema que é inicialmente rejeitado pelas rádios, mas mais tarde descoberto por Kenny Everett — DJ da BBC que fica obcecado com a opereta de Freddie — e passa o tema 14 vezes num só dia. Os Queen levantam voo e planam alto sobre os anos 70, chegando ao topo do mundo em 1980, com o sucesso retumbante de "Another One Bites The Dust" nos EUA.
É aqui que entra o segundo vilão da história: Paul Prenter. Freddie nomeia Prenter como o seu assistente pessoal e este dá-lhe a conhecer a louca vida gay de Nova Iorque no início dos anos 80 (vida essa que culminou na doença que o matou). Prenter, que achava que Freddie era maior que os Queen, convence-o que a banda deviam soar como a música que eles ouviam nas discotecas que frequentavam. Isto cria uma clivagem nos Queen, com Brian e Roger de um lado a quererem seguir a sua herança Rock 'n' Roll, Freddie e Prenter do outro a quererem adoptar uma linguagem mais gay e John, fã dos Chic e do movimento Disco, no meio a tentar equilibrar as coisas.
Deste choque resulta o álbum "Hot Space" e a inevitável implosão da banda, que infelizmente nunca chega a um equilíbrio em estúdio. A clivagem é notória e o álbum sofre com a sonoridade de duas bandas diferentes, cada uma a tocar para seu lado. O equilíbrio chegaria mais tarde em palco, quando os rapazes são obrigados a tocar em conjunto e ser uma banda novamente. Os Queen fazem finalmente das canções de "Hot Space", canções dos Queen e embarcam numa das melhores digressões da sua História, que acaba num triunfante concerto em Milton Keynes (mais tarde lançado em DVD como "On Fire At The Bowl"). Esta comunhão não é suficiente para manter os Queen vivos e a banda acaba por se separar, embora tal nunca seja oficialmente admitido.
Freddie vai a solo e recebe mais dinheiro sozinho para "Mr Bad Guy" do que os Queen receberam para "Hot Space", irritando ainda mais a banda. O disco adopta uma sonoridade full on gay club e, como se pode adivinhar pelo facto de ninguém se lembrar dele nos dias de hoje, é um espectacular falhanço. A banda reforma-se para "The Works", um álbum muito mais sóbrio que é bem recebido pelo público.
Mas como um mal nunca vem só e não há duas sem três, o terceiro naufrágio dos Queen acontece quando a banda tem a infeliz ideia de fazer uma residência em Sun City, terra do Apartheid, no Outono de 1984. A crescente consciencialização social dos anos 80 não perdoa os Queen pela ofensa e a banda cai em desgraça. E é aqui que, caído do céu, surge o Live Aid. Os Queen vêem no evento uma oportunidade de redenção e contra todas as expectativas e uma doença de Freddie cuja gravidade ainda não era bem entendida, fazem a melhor actuação da história da humanidade. O filme termina com Freddie e os Queen em glória.



E aí têm, a história dos Queen e o mais-que-provável plot do filme em apenas sete parágrafos. Já foi contada em "Days Of Our Lives" e não vejo a necessidade de voltar a fazê-lo neste filme. Os Queen estão a andar sobre gelo muito fino e qualquer passo em falso será fatal. Posso estar redondamente enganado acerca de "Bohemian Rhapsody", mas os sinais não são nada animadores. Atentem só no cartaz do filme:


O mau gosto deste cartaz é de uma atrocidade indizível. Começando pela cor azeiteira, passando pelo reflexo do grafismo dos Queen nos óculos e terminando no lema do filme, que inexplicavelmente não é uma linha escrita por Freddie Mercury. E tanto que havia por onde escolher. "Anyway the wind blows" teria sido perfeito, ainda mais sendo do tema-título do filme.

Obviamente que vou ver "Bohemian Rhapsody", mas levo poucas ou nenhumas expectativas. O último pedido de Freddie a Jim Beach (manager dos Queen desde 1978) foi "façam o que quiserem com a minha música, mas por favor nunca me tornem aborrecido." Espero que Brian May se tenha lembrado disso a fazer este filme.

Depois de ver o trailer (texto escrito na noite de 15 de Maio):


Vem aí "Bohemian Rhapsody", o filme que vai contar a história dos Queen, a minha banda preferida e de Freddie Mercury, o meu herói de sempre! WE WILL, WE WILL ROCK YOU! (bate três vezes na mesa) WE WILL, WE WILL ROCK YOU! (bate mais três vezes na mesa). Nunca mais chega Novembro.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Top 10: Dez momentos em que Freddie Mercury foi o Rei

O maior dos Maiores, o rei dos Reis (e acho que já esgotei as hipérboles e os superlativos) fez anos


O dia em que o Rei faz anos. Foi ontem. Como todos os dias são bons para festejar o aniversário do Rei, eis uma pequena lista com as suas 10 melhores performances ao vivo. E um pouco de História também. Parabéns, amigo Farrokh.


10. "It's In Everyone Of Us" – Dominion Theatre, London (1988/04/14)



Quando se pensa na última actuação ao vivo de Freddie Mercury, quase sempre se fala no concerto de Knebworth Park em 1986. Mal. Knebworth foi de facto o último concerto de Freddie com os Queen, mas a sua última actuação ao vivo seria em 1988 no Dominion Theatre, por honras do musical "Time", para o qual Freddie contribuiu com dois temas: "Time" e "In My Defence". Ambos maravilhosos, diga-se (se não ouviram ainda, é carregar nos links).

Freddie fez uma aparição especial no Dominion para a caridade e teve um dueto inesperado com Cliff Richard no seu tema "It's In Everyone Of Us". A voz de Freddie está impecável (já não andava em tour há quase 2 anos) e a performance é irrepreensível. Ouçam só o entusiasmo na plateia; todos sabiam que estavam a assistir a um momento único, mas ninguém imaginava que seria a última actuação ao vivo do Rei.

Curiosamente, o Dominion Theatre alojaria entre 2002 a 2014 o musical "We Will Rock You" dos Queen e como tal teve durante 12 anos uma mega-estátua de 8 metros de altura (!!!) de Freddie à porta.


9. "Sheer Heart Attack" – Summit, Houston (1977/12/11)



Se quiserem ver o Freddie Mercury 'going nuts' em palco, é pesquisarem qualquer performance de "Sheer Heart Attack". O tema remonta às sessões do álbum de 1973 com o mesmo nome, mas só foi terminado em 1977 para "News Of The World", mesmo a tempo da revolução Punk que pretendia destruir as bandas da realeza do Rock, bandas precisamente como os Queen. Era a anarquia contra a monarquia.

Sempre que os Queen tocavam "Sheer Heart Attack", normalmente no encore, Freddie entrava em modo vendaval e levava tudo à frente — amplificadores, microfones, o Brian May —, injectado a entusiasmo e muita cocaín... Entusiasmo, era isso.

Freddie podia querer levar o ballet às massas, mas não se deixem enganar pelas poses — Freddie era um bad boy. Se têm dúvidas, aproveito para recordar o episódio em que Sid Vicious dos Sex Pistols tentou intimidar Freddie nos Wessex Studios em Londres e saiu de lá com o rabinho entre as pernas. Freddie não estava para aturar as merdas de Sid e depois de gozar com ele (chamando-o de Simon Ferocious), pegou-lhe nos colarinhos e empurrou-o para fora do estúdio. Freddie era ballet, punk, ópera, rock, o que quer que ele quisesse ser, a qualquer momento. Bom em tudo. Como se comprova pelo vídeo em cima no lendário concerto em Houston (vejam aqui outro ponto alto do concerto – "My Melancholy Blues"), na légua americana da News Of The World Tour em 1977. Punk de lantejoulas? Siga.

P.S.: Na verdade o vídeo em cima é uma compilação de várias performances de "Sheer Heart Attack" (em Houston, o tema corta para "Jailhouse Rock"). Se quiserem ver o Freddie a destruir mais cenas, podem ver as performances completas de Houston em 1977, Hammersmith em 1979, Paris em 1979 e Buenos Aires em 1981.


8. "Another One Bites The Dust" – Estadio Vélez Sarsfield, Buenos Aires (1981/03/01-08)



Na ressaca da conquista dos Estados Unidos com o (algo inesperado) sucesso do álbum "The Game", os Queen quiseram dar novos mundos ao mundo e decidiram ir à conquista de mercados nunca antes navegados. Ao saber que tinham uma grande legião de fãs na América do Sul, os Queen embarcaram rumo ao hemisfério sul, na que terá sido provavelmente a maior aventura da sua história – a South America Bites The Dust Tour.

Entenda-se que o Brasil e a Argentina viviam ditaduras militares, por isso fazer um concerto num destes países era algo impensável para quem queria um controlo rígido de massas. As peripécias foram muitas; começando logo pela recepção na Argentina, onde os Queen foram escoltados pelo exército que os conduziu em contramão na autoestrada, enquanto militares disparavam as metralhadoras para o ar para desviar o trânsito. Assustador? O Freddie tinha um guarda-costas cujo cartão de visita era ter assassinado 212 pessoas. Os fãs perseguiam os Queen para todo o lado, a loucura era total. Na terceira e última data em Buenos Aires (1981/03/08), Freddie apareceu em palco para "Another One Bites The Dust" com a camisola da selecção da Argentina, na companhia de um tal de Maradona. Esse mesmo. Dois deuses no mesmo palco, ao mesmo tempo. Loucura a dobrar.

O vídeo em cima é de "Another One Bites The Dust" na segunda data de Buenos Aires (não há vídeo da terceira noite), com Brian May a usar uma cartola irresistível, que se tornaria a imagem de marca de um outro guitarrista que apareceu uns anos mais tarde. Mas o ponto alto desta noite veio antes, na indizível comunhão de Freddie com a audiência argentina. Quem me dera estar ali no meio:




7. "Staying Power" – Milton Keynes Bowl (1982/06/05)



Volvido apenas um ano da loucura da América do Sul e em 1982, os Queen já eram alvo de fuzilamento em praça pública. A banda constou o interesse gerado por temas dançáveis como "Another One Bites The Dust" (principalmente nos Estados Unidos) e resolveu entrar em modo full (gay) disco no Lado A do controverso "Hot Space" (álbum que alegadamente terá influenciado Michael Jackson para o seu "Thriller"). Inovação e reinvenção, dizem uns; sell-outs, acusam outros.

Dentro da banda, nem todos concordaram com esta nova direcção: Freddie Mercury (e o seu tão odiado assistente Paul Prenter, que não gostava de guitarras) foram os maiores impulsionadores da nova sonoridade; John Deacon sempre foi fã dos Chic e adepto do funk, por isso também estava em casa; no pólo oposto, Roger Taylor foi (e ainda é) abertamente contra este álbum; Brian May também não achou grande piada ao conceito (que o afastava da frente da sonoridade dos Queen), mas tentou adaptar-se como pôde à nova direcção musical. E que bem que o fez; principalmente quando a banda levou o álbum à estrada e proporcionou uma das melhores digressões da História dos Queen. Os temas cresceram em palco e ali, os Queen voltaram a ser um grupo coeso, com Brian May de regresso ao centro da paisagem sonora.

O concerto de Milton Keynes Bowl em 1982 (lançado em DVD em 2004) é o melhor exemplo da relação de amor-ódio que tanto os fãs como a banda têm com este período acidentado. De um dos álbuns mais odiados dos Queen saiu uma das melhores digressões, com passagens triunfais por Leeds e Edimburgo e uma saída pela porta grande em Milton Keynes. Sabendo da gravação televisiva do espectáculo, Freddie quis deixar algumas palavras sobre a reacção negativa do público e da crítica ao álbum novo da banda:
"Most of you know that we’ve got some new sounds out in the last week. We’re gonna do a few songs in the funk/black category - whatever you call it. That doesn’t mean we’ve lost our rock’n’roll feel, ok? It's only a bloody record! People get so excited about these things... We just wanna try a few new sounds; this is "Staying Power"."
Sorrio sempre com a ingenuidade do Freddie nestas palavras – "é SÓ um disco dos Queen". Como se isso fosse de somenos. Freddie sentia que tinha algo a provar e arrancou para uma performance olímpica de "Staying Power", uma das canções mais difíceis de cantar ao vivo; ou como Freddie disse em Kassel, semanas antes – "a real bitch to sing". O tema era tão difícil que sempre que Freddie não se sentia na sua melhor forma, os Queen não o tocavam; ainda começou por fazer parte da setlist da The Works Tour em 1984, mas foi completamente abandonado depois da débâcle em Milão e nunca mais apareceu. Em Milton Keynes, Freddie vai a todas.

"Hot Space" gerou tensões tão grandes no seio da banda, que só não separou os Queen em definitivo porque os projectos a solo que lhe seguiram foram unanimemente desastrosos. E rapidamente os Queen se aperceberam que a soma das partes valia muito mais que cada uma das rainhas.


6. "Somebody To Love" – Hammersmith Odeon, London (1979/12/26)



Por falar em "real bitches to sing", esta é a maior bitch de todas. Há vídeos no Youtube só dedicados às falhas ao vivo de Freddie (não foram assim tantas) e a maioria deve-se às notas ingratas de "Somebody To Love". Se Freddie estivesse em noite sim, "Somebody To Love" era invariavelmente o ponto alto do espectáculo; se estava em noite não, a canção podia ser um desastre.

A insana agenda dos Queen durante os anos 70 não ajudou em nada a voz de Freddie. Não havia tempo de descanso no meio do infinito ciclo álbum-tour-álbum e as cordas vocais bem precisavam do repouso. Isso torna ainda mais impressionante quando ouvimos a forma soberba que Freddie apresentou durante a Crazy Tour no fim de 1979. A primeira metade do ano fora passada na estrada, na promoção do álbum "Jazz" e gravação do álbum ao vivo "Live Killers"; mal chegaram do Japão, logo os Queen entraram em estúdio para a primeira fase das sessões do álbum "The Game". "Crazy Little Thing Called Love" foi lançado no Outono e, para promover o single, os Queen fizeram-se à estrada novamente para uma curta digressão. No meio, umas semanas de paragem que fizeram milagres.

Depois das merecidas férias, a Crazy Tour apanhou os Queen em modo caviar, com a banda ultra coesa e Freddie em grande forma vocal, talvez mesmo a melhor de sempre. O segundo concerto de Newcastle, em especial, tem a fama de ser a sua melhor performance ao vivo. Pena não haver gravações de qualidade ao nível da performance. Ouçam aqui "Bohemian Rhapsody" de Newcastle, com Freddie a atingir as todas as notas mais altas que normalmente evita. Impressionante.

O vídeo em cima documenta a performance irrepreensível da maior das bitches – "Somebody To Love" – na última noite da Crazy Tour. O concerto completou uma série de 7 espectáculos em Londres, onde em Dezembro de 1979 os Queen bateram consecutivamente uma série de salas icónicas da cidade: Lyceum Ballroom, Rainbow Theatre, Purley Tiffany's, Tottenham Mayfair, Lewisham Odeon, Alexandra Palace e Hammersmith Odeon. O último fez parte da série Concerts for the People of Kampuchea, que reuniu em Hammersmith bandas como os Wings (Paul McCartney), The Who e os The Clash, para a angariação de fundos para o povo do Cambodja.

O concerto de Hammersmith foi gravado em vídeo e é uma das (muitas) pérolas que o Dr. Brian May continua a fazer refém no seu arquivo, ao invés de a lançar para a ávida comunidade de fãs dos Queen, que desesperam por isto há décadas. É um dos pontos altos da banda, particularmente de Freddie que fez aqui a sua última aparição pública antes de deixar crescer o seu icónico bigode.


5. "White Queen (As It Began)" – Rainbow Theatre, London (1974/11/20)



Os Queen são sobejamente conhecidos pela sua imagem dos anos 80, com Freddie Mercury de bigode. O que nem todos sabem, é que houve um tempo em que os membros da banda usavam maquilhagem, pintavam as unhas e vestiam roupas femininas em palco. Foram os early days dos Queen.

No início de 1974, os Queen eram uma banda em ascensão, esfomeada pelo sucesso, com tudo para provar ao público. Ainda a banda andava na estrada com o seu primeiro álbum (lançado em Julho de 1973) e já planeava a estratégia para a promoção do segundo álbum, que fora gravado em Agosto. Sem nenhum hit single, a banda lutava para sobreviver. Naquela altura, parecia uma loucura uma banda como esses tais de "Queen" marcarem um concerto para o Rainbow Theatre – uma das salas mais prestigiadas de Londres. Mas Freddie sabia que ia ser uma estrela e só estava à espera de uma oportunidade para brilhar.

A oportunidade surgiu quando a 21 de Fevereiro, David Bowie (que estava a promover "Rebel Rebel") desistiu da sua aparição no Top Of The Pops da BBC e assim abriu uma vaga no programa musical mais visto do Reino Unido. Não foi Bowie, foram os Queen tocar o seu novíssimo single "Seven Seas Of Rhye", lançado daí a dois dias. De repente, tudo mudou.

"Seven Seas Of Rhye" disparou para o nº 10 da tabela de singles, "Queen II" subiu ao nº 5 dos álbuns e quando os Queen apareceram no Rainbow, esgotaram os mais de 3 mil lugares, provando que eram uma banda que vinha para ficar. Os Queen quiseram documentar a ocasião e foram ao Rainbow gravar o seu terceiro álbum ("Queen III – Live At The Rainbow" soa tão bem...), só que o motor da banda estava em alta rotação e obviamente, esse álbum nunca veria a luz do dia (até 2014). Mesmo depois de Brian May ter caído na cama do hospital por exaustão após 6 concertos consecutivos em Nova York e de lhe ser diagnosticada hepatite, os Queen enfiaram-se em estúdio e escreveram novas canções para um novo álbum de originais. Assim nasceu "Sheer Heart Attack".

Os Queen voltariam ao Rainbow em Novembro de 1974 para promover "Sheer Heart Attack" – um álbum menos polido que "Queen II", mas mais pesado e com mais potencial comercial. Na semana do concerto, o single de promoção ao álbum – o double A-Side "Killer Queen" / "Flick Of The Wrist" –chegou ao nº 2 das tabelas, falhando por uma unha negra o posto mais alto (Brian May faria referência a essa frustração durante o concerto). Mal sabia ele que aquilo seria apenas o início de uma longa caminhada real dos Queen.

O concerto de Novembro foi mais uma vez gravado profissionalmente em áudio e em vídeo, mas igualmente posto na gaveta, até à sua inclusão parcial na (extremamente limitada) caixa "Box Of Tricks" em 1992. O concerto veria apenas o seu lançamento completo, em toda a sua glória, na maravilhosa caixa "Live At The Rainbow" em 2014, a qual agrupou também o concerto de Março.

Tanto no concerto de Março como no de Novembro, podemos ouvir os Queen a darem o litro. Nesta altura, Freddie ainda não tinha as manhas que foi apanhando ao longo da carreira – por vezes "protegendo-se" de algumas notas mais ambiciosas – e dava tudo noite após noite. Por isso não é de admirar que possamos ouvir coisas incríveis nas gravações ao vivo dos early days dos Queen. O tema em cima é um dos melhores exemplos disso – o superlativo "White Queen (As It Began)", uma balada do álbum "Queen II" que ao vivo ganha outra dimensão.

Freddie já se mostrava um predestinado a lidar com a plateia, mas ainda não era o showman que conhecemos dos estádios dos anos 80. Em sua defesa, ele não teve nenhum modelo para se basear; foi ele, em grande parte, que inventou o seu próprio conceito. Freddie Mercury inventou-se a si próprio: inventou o seu nome, inventou a sua persona no palco, inventou a banda que os Queen se tornariam.


4. "Love Of My Life" – Rock In Rio, Rio de Janeiro (1985/01/18)



Quando os Queen regressaram ao Brasil em 1985, para a primeira edição do festival Rock In Rio (que hoje é um franchising milionário), Freddie já era um especialista em audiências sul-americanas. Aliás, de todas as bandas estrangeiras que ali actuaram, os Queen eram provavelmente a mais experiente naquele país, uma vez que já tinha actuado em São Paulo em 1981 para uma audiência de 130 mil pessoas, na altura um recorde do mundo para concertos pagos. Os Queen sempre gostaram de recordes – até porque, como dizia Freddie: "the bigger, the better... in everything" – e voltaram a bater o recorde do mundo no Rock In Rio, quando actuaram duas noites para uma audiência de 250 a 350 mil pessoas.

Freddie já sabia que o público brasileiro tinha um fraquinho por "Love Of My Life" (vejam aqui no concerto de São Paulo em 1981), por isso quando chegou a hora de cantar para o audiência do Rio, Freddie... não cantou. Limitou-se a levantar os braços e a conduzir o público como se de uma orquestra se tratasse. 350 mil pessoas na palma da mão do Rei. Arrepiante.


3. "You Take My Breath Away" – Hyde Park, London (1976/09/18)



Estejam a fazer o que estiverem, parem. Parem e ouçam com atenção o Rei ao piano na melhor balada de todos os tempos. Nesta fase avançada de evolução civilizacional, já deveria ser unânime e axiomaticamente aceite que "You Take My Breath Away" é a melhor canção de amor alguma vez escrita. Quem não corrobora desta doutrina, ou nunca ouviu a canção (façam favor), ou anda com o coração parado e ainda não foi avisado.

“You Take My Breath Away” é Freddie Mercury em todo o seu esplendor. Com exceção de um (majestoso) solo de guitarra de Brian May lá para o fim, aqui só há Freddie: ao piano e na voz; aliás, Freddie em todas as vozes: agudos, médios e graves, layers e layers de Freddie, é tudo dele. E há o silêncio, elemento fulcral neste tema. Sozinho, Freddie vê-se obrigado a um dueto com o silêncio, amiúde interrompido pela rede de harmonias que mostram um Freddie perdido, atormentado pelas vozes do seu subconsciente. “You Take My Breath Away” é sombrio; é a declaração de amor mais visceral e incondicional, quase ameaçadora; um amor como uma força bruta que lavra tudo à sua passagem e nem o próprio Freddie consegue deter.

Muito se fala em “Bohemian Rhapsody” como a grande obra-prima de Freddie Mercury e em termos de grandeza, é um ponto de vista difícil de refutar. Mas se olharmos atentamente, qual obra-prima de menor porte mas mais polida e refinada, é “You Take My Breath Away” o momento de maior beleza da carreira de Freddie. E por que não? De toda a História da música Pop.

2. "Crazy Little Thing Called Love" – Wembley Stadium, London (1986/07/12)



Se o Live Aid foi a noite triunfal de Freddie Mercury (já lá vamos), a aparição dos Queen  no Wembley um ano mais tarde, para dois concertos esgotados, foi o seu coroamento. O "Live At Wembley '86" (ou mais tarde "Live At Wembley Stadium" é não só o concerto mais famoso dos Queen, como também uma das gravações ao vivo mais célebres de qualquer banda Rock. Não há ninguém que não identifique de imediato o casaco amarelo ou a icónica pose de Freddie (que anos mais tarde daria um meme para assinalar qualquer triunfo).

Na Magic Tour em 1986 (digressão de promoção ao álbum "A Kind Of Magic"), já todo o concerto dos Queen era milimetricamente pensado. O climax surgia perto do fim, na eufórica sequência "Bohemian Rhapsody" / "Hammer To Fall" / "Crazy Little Thing Called Love", todos com performances estratosféricas na épica noite do segundo concerto de Wembley. O melhor momento da História da Humanidade – há quem diga. Eu, por exemplo.

Era muito novo para me lembrar, mas o meu Pai conta-me que eu "nasci para a música" quando o concerto de Wembley passou na RTP no Verão de 1988, tinha eu dois anos. Durante aquelas duas horas em que olhei hipnotizado para a televisão, fui feliz como nunca e daí para a frente, a minha vida mudou. Se eu sou como sou, se hoje estou aqui a escrever isto, é tudo por causa deste concerto.

P.S.: Ver também a não menos épica performance de "Crazy Little Thing Called Love" na primeira noite de Wembley, que Freddie dedica a todos os "crazy faggots out there".


1. "We Will Rock You" - Live Aid, Wembley Stadium, London (1985/07/13)



A noite de Freddie Mercury. Quando Freddie conduzia a audiência em "We Will Rock You" com um grito de "I like it, sing it again!", milhares de milhões de espectadores em todo o Mundo já moravam na palma da sua mão. O Wembley, esse era seu desde que "Radio Ga Ga" pusera as 74 mil pessoas que enchiam o estádio a bater palmas com a coordenação de um comício nazi. Mas naquela noite, Freddie queria mais que o Wembley; queria o Mundo. E agarrou-o, ao dançar com o cameraman em "Hammer To Fall", como se desse a mão às 1.9 mil milhões de pessoas (um terço da humanidade) que o viam em casa. Arrepiante.

E foi assim que na noite de 13 de Julho de 1985, o planeta acordou para um facto que estivera o tempo todo à sua frente: não havia um showman como Freddie Mercury. Não havia e não voltou a haver alguém com aquela capacidade para captar e entreter a audiência. O Wembley parecia uma pequena chávena para o brilho da estrela que explodia em palco. Assim foi a vida de Freddie Mercury: como uma estrela que brilhou muito, muito rápido, muito intensamente e explodiu, porque o universo não aguentava com tanto brilho. Parabéns, Rei.


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Os dias das nossas vidas: 30 anos de Queen no Live Aid e outras efemérides

Hoje é um dia especial para mim e para os Queen.




Hoje é um dia especial para mim e para os Queen. Faz hoje exactamente 30 anos que foi lançado "One Vision", o primeiro tema que juntou os quatro membros dos Queen na composição, inspirados pela noite triunfal que tiveram, meses antes, no Live Aid - a noite em que os Queen reinaram o Mundo e o mito de Freddie Mercury nasceu.

Quando Freddie conduzia a audiência em "We Will Rock You" com um grito de "I like it, sing it again!", milhares de milhões de espectadores em todo o Mundo já moravam na palma da sua mão. O Wembley, esse era seu desde que "Radio Ga Ga" pusera as 74 mil pessoas que enchiam o estádio a bater palmas com a coordenação de um comício nazi. E aqui reside a magnitude deste feito: aquele não era sequer o público dos Queen.

No Wembley havia U2, Elton John, David Bowie, reunião dos The Who e Paul McCartney a cantar Beatles. Todos os grandes nomes da Pop Rock estavam no Live Aid, incluindo os líderes das tabelas de então. A maioria da audiência em Wembley, pelo menos a falange mais nova, estava lá para ver os U2 (reparem nos cartazes à frente do palco), a banda jovem e sensação da época. Aquele não era o público dos Queen, mas aquela era a noite de Freddie Mercury.

Naquela noite, Freddie queria mais que o Wembley, Freddie queria o Mundo. E agarrou-o, ao dançar com o cameraman em "Hammer To Fall", como se desse a mão às 1.9 mil milhões de pessoas (um terço da humanidade) que o viam em casa. E foi assim, que na noite de 13 de Julho de 1985, o planeta acordou para um facto que estivera o tempo todo à sua frente: não havia um showman como Freddie Mercury, com uma capacidade sem paralelo para captar a audiência. Não havia e não voltou a haver. O Wembley parecia uma pequena chávena para o brilho da estrela que explodia em palco. Assim foi a vida de Freddie Mercury: como uma estrela que brilhou muito, muito rápido, muito intensamente e explodiu, porque o universo não aguentava com tanto brilho.

E assim nasceu o mito de Freddie Mercury, no Live Aid, onde os Queen deram à humanidade os melhores 20 minutos da sua História. O filho dessa noite nasceria a 4 de Novembro de 1985 e chamar-se-ia "One Vision".

Hoje é um dia especial. Enquanto os Queen lançavam "One Vision" no Reino Unido, quis o destino que a milhares de quilómetros, numa cidade perdida no interior de Portugal, nesse mesmo dia nascesse um enorme fã da banda.. Faz hoje exactamente 30 anos.