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terça-feira, 22 de junho de 2021

O génio resiliente de Noel Gallagher


Noel Gallagher atingiu esta semana o décimo segundo nº 1 na tabela de álbuns do Reino Unido com o lançamento da compilação "Back The Way We Came", que reúne os melhores temas (segundo ele) da sua carreira a solo. Este é o quarto no.1 da sua discografia a solo (em quatro álbuns), depois de oito com os Oasis (em oito álbuns), aos quais se somam nove singles que também atingiram o topo das tabelas. Números impressionantes que, ainda assim, deixam Noel longe de reunir consensos. Não que ele os queira, ou sequer os procure — Noel adora antagonizar a sua própria audiência — mas é notável que depois de três décadas a disparar hits, melodias e letras que aumentaram a realidade das nossas vidas, Noel ainda seja olhado de soslaio pela franja mais hipster do público que, pura e simplesmente, não o percebe. Não é assim tão difícil.

As canções de Noel Gallagher personificam tudo aquilo que a música pop deve ser — durante quatro minutos e meio, transformam a nossa vida mundana numa aventura épica, onde o amor vence e os sonhos são realidade. "In my mind my dreams are real" ("Rock 'n' Roll Star") é a linha que define toda a magia da escrita de Noel. Um rapaz do council estate que recusou o seu destino, votado a uma vida esquecida na classe média-baixa mancuniana, e aprendeu a olhar para as estrelas enquanto ouvia a música dos Beatles, Stone Roses, Sex Pistols e The Smiths, trancado no quarto, para se esconder de um pai bêbado e violento. Quantos de nós não passámos horas infinitas trancados no quarto a ouvir música, cada um com as suas razões? Eu sei que passei. A diferença é que o Noel teve a coragem, e o talento, de pegar na guitarra e começar a escrever as suas próprias viagens ao céu. Conduzido por uma melancolia e uma ânsia de sair muito inglesas, o Noel veio anunciar que há mais para além do que nos querem dar. Que não estamos presos ao nosso destino. Que num mundo onde nos querem pôr constantemente no nosso lugar, baixinhos e inofensivos, podemos ser o que quisermos ser. Que num mundo onde todos nos dizem para olhar para o chão, devemos apontar ao céu. Que num mundo obcecado com a morte, podemos viver para sempre

Para quem vem de baixo, para quem tem a ânsia de chegar mais alto, ou simplesmente para os sonhadores — todos aqueles que vivem a vida a olhar para as estrelas —, estas canções ressoam, batem forte como um exorcismo, um bálsamo que nos leva deste "mundo grande e mau" (para citar outro génio da Britpop). Não é suposto serem uma afirmação intelectual, são apenas o reflexo das nossas ansiedades, a verdade que procurávamos e que nos liga uns aos outros. É por isso que, 25 anos depois, milhões de pessoas ainda cantam em plenos pulmões estas canções em bares, parques, arenas, estádios e comboios um pouco por todo o mundo, enquanto abraçam um qualquer desconhecido ao seu lado. Porque o apelo da sua música é transversal. É esse o génio resiliente de Noel Gallagher — um génio que cruza gerações, continentes e estratos sociais.

Sei perfeitamente que é daqui que vem grande parte da resistência aos Gallaghers. Por muito que se glorifiquem histórias da ascensão social do underdog, quando elas acontecem na realidade, quem está em cima não gosta dos trepadores que ali chegam e quem está em baixo não gosta dos que saem de lá. Basta olhar para o caso do Ronaldo, que mesmo depois de tantos anos de conquistas, de se afirmar como um génio que será lembrado durante décadas, para muitos nunca passará de um azeiteiro pé rapado dos confins Madeira. A ascensão dos Gallaghers significa o triunfo dos bárbaros, dos iletrados, da classe operária. A classe intelectual nunca os perdoará. Mas que importa isso para os sonhadores? Rigorosamente nada.

Se leram até aqui, já perceberam que a música do Noel teve uma grande influência na minha vida. Foi ele que ensinou um miúdo que cresceu trancado num quarto em Castelo Branco a olhar para o céu, apontar ao Sol e querer sempre mais. Lembro-me como se fosse ontem de estar naquele quarto — o meu Pai chamava-lhe "o bunker" —, a voar com a música dos Oasis, tal como o Noel fizera anos antes com os seus heróis. "In my mind my dreams are real", e foram mesmo. Noel não é Morrissey, mas a sua lírica é tão ou mais efectiva.

Atentemos no imaginário de “Slide Away”, provavelmente a obra-prima do espólio de Noel Gallagher. “Slide Away” é uma canção de amor, mas não é uma canção de amor qualquer. Em vez do prosaico “quero ficar contigo para sempre”, Noel pede para "ser aquele que brilha contigo" (“Let me be the one who shines with you”), porque juntos, nós voamos (“Together we fly”) e juntos, vamos apontar ao Sol (“we’ll find a way of chasing the sun”). Querem lírica mais gloriosamente romântica que isto? Curiosamente, a música de Noel é praticamente assexuada (Noel Gallagher não é, definitivamente, o George Michael), em vez disso remete-nos para uma dimensão amorosa platónica, estratosférica, onde um beijo nunca é “só” um beijo — é um desejo pintado num céu de veludo. E a Supernova de Champagne, bem, isso talvez seja de facto uma metáfora sexual.

O Noel de hoje já não tem nada a ver com o rapaz do "Definitely Maybe", que ansiava por uma vida melhor fora do council estate. Mas Noel continua a olhar para as estrelas. Os últimos 10 anos deram-nos preciosidades como “A Simple Game Of Genius”, “Alone On The Rope”, “Revolution Song”, “Let The Lord Shine A Light On Me”, ou “Rattling Rose”, curiosamente, ou muito provavelmente não, todas elas fora do alegado best of que Noel lançou na semana passada. Noel adora antagonizar e confundir a sua audiência, Há coisas que nunca mudam. Esqueçam por isso a nova colectânea e ouçam antes esta playlist de Lados B da sua carreira a solo, que é muito mais interessante.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

A glória das manhãs que veio de Manchester

What's the story? Morning glory.


Quando comecei a trabalhar em Londres, uma das coisas que mais estranhei foi a atitude dos ingleses para com as manhãs de trabalho. Todos os dias, quando chegava ao escritório de manhã e dizia um alto "Good mo'nin'" em inglês amourinhado, o meu chefe perguntava-me não-retoricamente "How are you doing?". Percebi que não era retórico, uma vez que ele ficava sempre a olhar para mim fixamente à espera de uma resposta. Hã? Mas o que é que ele tem a ver com isso? Eu chego ao trabalho para trabalhar e ele confronta-me com perguntas pessoais? Que lhe vou dizer? Que estou deprimido porque o fim-de-semana acabou? Porque o Benfica vai atrás no campeonato? Não podia, obviamente.

E então eu respondia-lhe com um "Ok". O "Ok" menos miserável que me era possível, tendo em conta que eram 7:55 da manhã de uma terça-feira sem sol e sem perspectivas de ele aparecer durante o resto do dia. Mas depois eu devolvia-lhe a pergunta — "How about you?" — e ele retorquia com um contundente: "Spectacular!". Wait, what? E eu ficava de rastos.

A verdade é que nós, em Portugal, estamos mal habituados. Vemos o sol todos os dias e damo-lo como garantido. Não lhe damos a importância devida. Mesmo com o sol radioso lá fora, damo-nos ao luxo de ir para o trabalho deprimidos. Passar o dia de trombas. Até porque "é trabalho" — dizemos nós —, é suposto estarmos deprimidos. Certo? Errado. Para os ingleses, não.

O facto de eles normalmente não terem sol faz com que tenham que se alimentar de outra coisa qualquer — uma força ou energia interior qualquer (perdoem-me, não sou bom a fazer de Gustavo Santos) —, que lhes faça enfrentar a jornada de trabalho com alegria e pujança. É algo que nos é estranho, uma vez que nós, portugueses, nos alimentamos do sol e da vitamina D e da cor e da luz e quando não as temos, caímos em depressão. Os ingleses, não. Eles conseguem sair do buraco de alguma forma e ainda ter os rins para dar a volta e criar música que alimenta, inspira e salva as vidas dos habitantes do Sul da Europa. Como a minha.

Por isso comecei a pensar que, uma vez que estou aqui e tenho que viver no mesmo clima dos ingleses — e obviamente, como bom português que sou, também odeio os dias cinzentos —, tenho agora que adoptar uma postura diferente para com as manhãs de trabalho. E daí voltei-me para a minha inspiração de sempre — a música de Manchester. Não esquecer que Manchester é uma cidade ainda mais escura, fria e austera que Londres. E que mesmo assim é um bastião de uma cultura de afirmação, cor e positivismo sem paralelo. Se alguém tem o segredo, são eles. E pensei: como é que o Ian Brown dos Stone Roses responderia à pergunta "How are you doing?", de manhã, num dia de chuva, à entrada do trabalho?




"GLORIOUS!", diz o Ian Brown. Para falar verdade, antes já os Oasis tinham feito uma canção sobre isso. Estava encontrada a minha musa. Mais uma vez, a música de Manchester a tomar conta na minha vida. Ela que me salvou mais vezes do que eu posso contar e me influenciou em toda a linha, desde a maneira de vestir, até à maneira de andar e até agora, à maneira de como respondo de manhã à pergunta "How are you doing?""Glorious!", digo sempre. Agora são os gregos e os espanhóis, europeus do sul e haters de cinzento como nós, que ficam baralhados. Ninguém sabe de onde vem aquela Morning Glory e muito menos imaginam que vem da cinzenta Manchester.



P.S.: Vem esta reflexão a propósito do episódio desta semana do London Calling — " …E ao sexto dia, Deus criou MANchester" — a minha carta de amor a Manchester, onde discorri sobre o absolutamente inigualável espólio musical da cidade: Buzzcocks, The Fall, Joy Division, A Certain Ratio, The Durutti Column, New Order, The Smiths, James, The Stone Roses, Electronic, Inspiral Carpets, The Charlatans, Happy Mondays, Oasis, The Verve, uff... Um programa a não perder.

P.P.S.: Sim, há um outro significado para "morning glory", mas o trabalho no campo da engenharia não é assim tão entusiasmante.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Todas as cores de um Beige Boy — Noel Gallagher ao vivo em Wembley

Noel Gallagher apresentou o seu último álbum em Londres com um concerto colorido e arrojado.

Indiferente ao epíteto de "Beige Boy" que o irmão mais novo lhe colocou, ou talvez até a desafiar essa noção que se tornou um homem insípido com a idade, o sucesso e o status, Noel Gallagher regressou a Wembley munido de um dos light-shows mais impressionantes a que já assisti — a rivalizar com os mestres David Gilmour e Roger Waters — e deu um concerto pleno de cor e personalidade. Já sabia que ia ser bom (é o Noel!), mas não sabia que ia ser TÃO bom. Uma agradável surpresa.

É de facto preciso coragem para descartar o espólio de uma vida de canções (que estão a ser devidamente capitalizadas pelo irmão), em detrimento de um álbum novo muitos furos abaixo da bitola a que o Noel nos habituou. Por esta altura, mesmo imbuído na sua soberba, até o próprio Noel já se terá percebido que este não é o seu melhor trabalho, mas nem por isso deixou de tocar o álbum quase na íntegra (deixando de fora o melhor tema — "The Man Who Built The Moon"). Para o Noel, é este o álbum que temos, é este o álbum que vai e ponto final. Respect por isso.

O preço a pagar é ver os seus espectáculos — outrora instantaneamente esgotados — com dificuldades para encher salas de 10 mil pessoas, enquanto o irmão vende 40 mil bilhetes em minutos para o Finsbury Park. No Wembley Arena porém, não parecia caber mais ninguém. Por entre uns idiotas com t-shirts do Liam — e eu que me dei ao trabalho de ir a casa trocar a parka que tinha vestida por um bomber jacket igual ao do Noel! — havia uma plateia ávida pela música do Noel. Os fiéis.

Depois de uma hora de álbum novo, o Noel lá resolveu dar uns bombons à audiência. O primeiro tema dos Oasis surgiu já na segunda metade do set, mas logo do álbum mais pobre da banda — "Heathen Chemistry". Noel manteve-se sempre em gincana pelo material mais conhecido do grande público e mais à frente tivemos canções de "Don't Believe The Truth" e do meu preferido (mas tão odiado) "Standing On The Shoulder Of Giants". De "Definitely Maybe", só houve um B-side e de "(What's The Story) Morning Glory?", só os obrigatórios "Wonderwall" e "Don't Look Back In Anger".

Mas se era para sermos radicais, eu também me livrava destas duas maçadas e substituía por temas escritos no período criativo dourado de 1998 e 1999 que serviu para alimentar os Oasis e o Noel durante 10 anos. Vamos embora Noel, "Solve My Mystery" e "Idler's Dream", em vez de "Wonderwall" e "Don't Look Back In Anger".

O entusiasmo retraído era tal, que a audiência cantou até as partes de piano de "Wonderwall", num dos momentos de maior euforia colectiva da noite. Para além destes, os mais óbvios, as grandes reacções da noite saldaram-se por insanos mosh pits em "Ballad Of The Mighty I" (grande tema, mas wtf?!) e "Go Let It Out" (perfeitamente justificado, foi o ponto alto do concerto e também eu lá mergulhei) e por singalongs em "If I Had A Gun" (aquele primeiro álbum a solo é uma delicia do princípio ao fim) e "Dead In The Water", que foi aliás o único tema novo a ter uma recepção semelhante aos clássicos.

O que me leva também à conclusão óbvia que, se dúvidas ainda houvesse, as canções do álbum novo não foram adoptadas pelo público. Nem mesmo pelo público do Noel, que é lesto a devorar e a decorar as suas letras. Esta já é a quarta vez que vejo o Noel a solo em Londres e é a primeira que vejo uma audiência a morrer. Mesmo em temas novos, o público do Noel nunca desarma. Basta observar a reacção eufórica que teve "In The Heat Of The Moment" — single do álbum anterior — para perceber que nem só de Oasis vivem os fãs do Noel.

O forte do Noel sempre foram os refrões contagiantes — simples e virais, impossíveis de tirar da cabeça. Ninguém nos últimos 25 anos escreveu tantos e tão orelhudos refrões como ele. Neste capítulo, Noel faz jus à sua alcunha, é ele o Chefe. Se agora decide anular o seu forte e começar a focar apenas nos grooves, deixa de ser o melhor e passa a ser apenas bom. E conhecendo-o como o conheço, o Noel não é menino para se contentar com isso. Muito menos quando vê o irmão passear o seu sucesso (com as canções dele) à sua frente. Esperemos pois pelo álbum de redenção, pleno de refrões contagiantes, e pela digressão de consagração, que deverão estar já aí ao virar da esquina. Para já, se quiserem ver um Noel diferente de tudo o que nos mostrou até hoje (eventualmente até demais), é aproveitar e apanhar a digressão de "Who Built The World?" enquanto é tempo.








quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O dia em que o Rock morreu

O 21º aniversário do último grito de glória do Rock à escala global. É hoje.


Knebworth Park, 10 de Agosto de 1996. Noel Gallagher entra no palco cheio de si: "THIS IS HISTERAY! THIS IS HISTERAY! Right here, right now, THIS IS HISTERAY!" grita, ciente que naquele momento estava sentado no topo do mundo. Ao seu lado, o irmão Liam podre de bêbedo, como sempre (naquela altura). Na sua cabeça, tudo normal; afinal, ele já se sentia no topo do mundo desde que cantava nos bares de Manchester "Tonaaaaaaaaaaaaaaaaaaa-ite I'm a Rock N' Roll staaaaaaaaaaaar" para dez bifes saídos das obras. Knebworth Park era por isso somente o cumprimento do óbvio para Liam. A sua maior preocupação naquela era a cerveja, que não estava suficientemente fresca.

Mas Noel sabia da efeméride que Knebworth encerrava. Depois de ditar que todos os que estavam ali, naquele momento, presenciavam História, Noel dá as boas vindas oficiais com um "bom dia, planeta Terra!"... e arranca para um eufórico "Columbia" (do álbum de estreia "Definitely Maybe"). Basta ouvir os gritos de "Yeah-yeah-yeah!!! Yeah! Yeah! YEAAAAAH!" do Noel nas backing vocals e medir, de zero a Knebworth, o quanto ele estava a flutuar acima do chão.



Nunca fui a Knebworth Park. Com muita pena minha, nunca tive oportunidade de ir ao local sagrado onde os Pink Floyd enterraram o "The Dark Side Of The Moon" em 1975, os Led Zeppelin enterraram os seventies em 1979 e os Queen se enterraram em 1986. Por alguma razão, Knebworth parece estar sempre associado a uma imagem bipolar de apogeu e fecho de ciclo. Qual acaso profético, foi também o local escolhido pelos Oasis para celebrar aquele que seria o pináculo da Britpop e último grande grito do Rock no mainstream musical, com um fim-de-semana de concertos esgotados em Agosto de 1996. Faz hoje exactamente 21 anos. Sem saberem, na sua noite da sua maior bebedeira, os Oasis estavam também ali a enterrar o Rock.

A ressaca da bebedeira viria logo a seguir. Numa perversa coincidência, ao mesmo tempo que se fazia a festa em Knebworth, um grupo de raparigas desconhecidas — umas tais de Spice Girls — saltava para o primeiro lugar das tabelas do Reino Unido e da Irlanda com o tema "Wannabe". Mal sabiam Noel, Damon, Jarvis e seus pares, que tudo ia mudar a partir dali. Atrás das Spice, vieram as Britneys, os Backstreets e até por cá os Excesso. O Rock tinha deixado de ser o estilo com maior projecção e em breve deixaria de ser tocado nas rádios generalistas.

Esta troca de poderes fez-me ganhar uma aversão especial às Spice Girls. Na verdade, hoje posso confessar que "Wannabe" tinha aquele hook de piano (ba-bada, badá-bababada) que até nem era mau de todo. Somaram-se uns bons hooks a uma imagem polida e milimetricamente medida e mudou-se todo um panorama musical.

Desde então, o mais próximo que o Rock esteve do mainstream e das rádios generalistas terá sido na vaga de Nu Metal do fim dos 90s; ou quando os White Stripes lançaram "Seven Nation Army" em 2003; ou talvez quando Foo Fighters encheram o Wembley em 2008, cavalgando no sucesso do single "The Pretender; ou mais recentemente quando os Arctic Monkeys lançaram "A.M." e o single "Do I Wanna Know?" em 2013. Em 21 anos, não houve muitas bandas Rock a ocuparem novamente a cadeira dos deuses.

Quanto aos Oasis, o melhor que poderiam ter feito a seguir a Knebworth seria gozar umas merecidas férias para limpar a cabeça. Mas Noel e a Creation (a editora da banda) queriam capitalizar o momentum e como tal afogaram-se em cocaína para fazer o álbum "Be Here Now", lançado um ano mais tarde, em Agosto de 1997. O mundo recebeu "Be Here Now" em euforia, mas rapidamente se apercebeu que não era assim tão bom como desejava. O álbum denotava clara falta de quality control: metade brilhante, metade decepcionante, mas todo ele dilatado ao máximo. Quando a banda se apercebeu disso, já o mundo tinha seguido em frente e trocado os Oasis pelos "zig-a-zig-ahhh". Terminava assim a última dinastia do Rock no mainstream.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A melhor música da primeira metade do ano

O crítico de música da NiT tem a playlist perfeita para o verão

Já dobrámos a primeira metade de 2017 e chegou a altura de rever a matéria dada com uma playlist mesmo a tempo da praia, da piscina, ou daqueles 'warm sunny days indoors' tão bons. Notem que isto não é bem a vossa clássica "Playlist de verão". Pelo menos não estou a ver ninguém a curtir Mount Eerie num sunset de copo de gin na mão. O espectro é mais largo que isso e o critério é absolutamente pessoal e parcial. Passemos então aos maiores destaques da playlist.

Álbum do ano: Ryan Adams — "Prisoner"

A playlist abre com "Doomsday", um tema retirado de "Prisoner" — o mais recente álbum de Ryan Adams e o que mais me encheu as medidas este ano. O Ryan tem dado muito que falar pelo tamanho da sua língua, numa série de ataques aos The Strokes no Twitter, que já não víamos desde que o Liam Gallagher se tornou um gajo calmo (até quando fala do irmão!). O próprio reconheceu isso mesmo e assinou o tweet da mesma forma que Liam fecha os seus escritos — "As you were". Adoro, adoro, adoro.

Infelizmente só se fala nas bocas de Ryan Adams e não no que realmente importa, que é o seu mais recente, superlativo e criminosamente ignorado trabalho "Prisoner". Este álbum mostra um Ryan na sua zona de conforto, que no seu caso é o mesmo que dizer —  a carpir mágoas com canções sobre relações falhadas e corações partidos. Continua a haver algo de irresistivelmente masoquista e metaromântico nesta vontade Louis-CKiana de Ryan se apaixonar sem medo da miséria do pós-heartbreak, ou até na ânsia da inspiração que essa miséria lhe pode dizer. E não é esse o sal da vida?

Mas não pensem o universo de "Prisoner" se esgota nos 12 temas que compõem o álbum. Semanas após o seu lançamento, Ryan lançou 17 (!!!) temas adicionais gravados nas sessões deste álbum. Se quiserem mergulhar mais a fundo nesta fase prolífica do músico americano, não deixem de ouvir a overwhelming compilação "Prisoner B-Sides".


Tema do ano: Radiohead — "Man Of War"

A segunda entrada da playlist é "Man Of War" dos Radiohead. Segundo a minha fiel fonte dos Radiohead, "Man Of War" foi o tema que a banda sugeriu à EoN  (produtora dos filmes do James Bond) quando foram abordados para escrever o tema de "Spectre". "Man Of War" foi escrito por alturas do "The Bends" como uma homenagem aos Bond themes, na expectativa de um dia os Radiohead serem chamados à prova (no documentário "Meeting People Is Easy", podemos ver a banda no estúdio a gravar o tema). A chamada não chegou tão cedo como esperavam e "Man Of War" ficou na gaveta durante 20 anos.

O telefone tocou finalmente em 2015, mas a EoN perversamente não aceitou "Man Of War" por ser um tema antigo. Como tal, os Radiohead gravaram "Spectre", que foi igualmente rejeitado por ser 'demasiado dark' e em última instância foi chamado Sam Smith, que acabaria por gravar o deveras underwhelming "Writing On The Wall".

Na verdade, talvez "Man Of War" fosse demasiado complexo para o retrato que a EoN quer fazer do James Bond nos seus filmes. Na visão original de Ian Fleming, James Bond é um assassino. Pura e simplesmente. É um homem com mais morte e menos swing que a série de filmes quer fazer crer. Mas acima de tudo, Bond é um homem. Um homem igual aos demais, com medos, desejos e anseios. A morte dos outros é a forma que Bond encontrou para compensar a sua própria morte interna. E é assim que os Radiohead se atrevem a caracterizá-lo no melhor tema de 2017... mas que foi gravado em 1997 (ou entre 1995 e 1997 para ser mais exacto) e agora viu finalmente a luz do dia na reedição de "OK Computer". Podem ler mais sobre "Man Of War" aqui.


Regresso do ano: Roger Waters — "Is This The Life We Really Want?"

O regresso mais surpreendente do ano tem que ser o de Roger Waters. Tanto pelo simples facto de ele acontecer, como (e principalmente) por ser algo que realmente vale a pena ouvir. Faz-me muita confusão ler as opiniões quase unanimemente complacentes e moderadas relativamente a "Is This The Life We Really Want?". Condescendentes, diria até. Parece que ouviram uma vez — se ouviram uma vez sequer — escreveram meia dúzia de banalidades e siga para bingo. Mas que é isto? Todas as reacções são possíveis, mas se há uma coisa que Roger Waters não provoca é indiferença. Esta condescendência constitui maior ofensa ao Roger do que se lhe dissessem na cara que o álbum é uma valente merda. Mas que nova moda é esta de não ter opinião para não magoar ninguém? Vamos agora todos pintar as nossas palavras de cinzento porquê? Para agradar aos outros? Citando o Roger, "fuck them!".

Vou ser directo: "Is This The Life We Really Want?" não é um álbum de digestão imediata. É uma audição extenuante, tal o negativismo que assola a música do princípio ao fim. É também um álbum fatalmente político; eu até costumo ser apologista que os meus artistas se mantenham longe da política, mas a verdade é que o "Animals" era político e não deixa de ser uma obra-prima por isso. Roger tem opiniões fortes e quer expressá-las; e ainda bem. Se ao menos o fizesse mais vezes.

Para lá da visão niilista da vida e do mundo, "Is This The Life We Really Want?" é também um exercício de introspecção implacável. Roger despe-se por completo, olha para dentro e escava a fundo em si mesmo. Sem medos. E desta vez, não é só a interminável saga do pai que morreu na guerra; é o Roger que morreu por dentro e quer falar sobre isso. Este é o álbum mais pessoal de toda a sua carreira. E se eu tivesse que apostar, diria que este álbum confessional só chegou agora, porque só agora é que Roger aprendeu a olhar para dentro e viu a besta que é.

Roger descreveu "Is This The Life We Really Want?" como um álbum "parte tapete mágico, parte discurso político, parte angústia". Belo resumo. Ouçam, mas tenham um copo de vinho à mão, de preferência. Sempre é uma anestesia para o vazio que vão sentir.

Para uma leitura mais aprofundada sobre "Is This The Life We Really Want?", podem ir aqui, aqui e aqui.

O que resta do ano: Foo Fighters, The War On Drugs e Liam Gallagher

A primeira metade de 2017 também nos deu muitas amostras do que podemos esperar para o que resto do ano. Muitos destes temas são singles de avanço dos respectivos álbuns que aí vêm e compõem também parte do melhor que já se ouviu este ano.

Começando pelos Foo Fighters, que deixaram água na boca com o novo "Run", tema que testaram no concerto do Alive com resposta positiva. No último álbum, Dave quis dar uma de Roger Waters e formular um elaborado conceito que cruzava uma série televisiva sobre a cultura musical de várias cidades, com um álbum em que cada tema era inspirado numa cidade e acompanhava o respectivo episódio. O conceito era ambicioso, a série foi excelente, o álbum nem por isso. "Run" parece ser um regresso dos Foos à boa forma, depois do sensaborão "Sonic Highways".

Os The War On Drugs vêm aí com "A Deeper Understanding", o tão aguardado sucessor do maravilhoso "Lost In the Dream" de 2014. E cada faixa parece ser melhor que a anterior. Este não engana.

Liam Gallagher está de volta e o seu álbum "As You Were" (que como já vimos parece estar a virar hashtag para qualquer post mais corrosivo) é ao mesmo tempo a maior expectativa e a maior incógnita deste ano. Apesar de ser um enorme fã do Liam, confesso que não esperava muito das suas canções (que nunca fogem muito à regra dos 'Liam standards'), mas cada faixa tem-me vindo a surpreender. Quem sabe e não teremos aqui uma revelação. Em qualquer dos casos, o que eu quero mesmo é o regresso dos Oasis. As you were.


A playlist

Sem mais demora, fiquem então com a playlist com os 25 temas que fizeram o melhor que ouvi na primeira metade de 2017 (na verdade são 26, mas quem está a contar?).