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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Abram alas para o homem que fez a lua — O ambicioso novo álbum de Noel Gallagher

A crise de meia idade de Noel Gallagher não é assim tão má como parecia

Se a crónica de ontem deixou escapar que eu levo este assunto do álbum novo do Noel Gallagher demasiado a peito — pessoalmente até —, então deixem-me que vos diga que estão completamente certos. Se me lêem habitualmente, já deram conta da importância da música dos manos Gallagher na minha vida, pelo que esta é uma matéria que levo brutalmente a sério.

Não pensem que por isso sou brando com os rapazes de Manchester. Pelo contrário. A expectativa e o escrutínio andam de mãos dadas e eles estão sempre sujeitos a exigência máxima. Mais, isto é motivo de discussão diária ao jantar com a minha namorada. Ela defende o Noel e diz que o rapaz anda confuso. Eu ataco-o porque ele só tem dito merda. E ela depois acusa-me de ser igual a ele e com isso ganha automaticamente a discussão com o paradoxo do absurdo de qualquer ataque meu ao Noel ser um ataque também à minha pessoa. Parece-vos confuso? Bem-vindos à minha vida.

Já não estamos no Kansas. Muito menos em Oasis

Soa a sirene do quartel com uma explosão de sound effects e sintetizadores, ouvimos Ysée a canalizar demónios de "Smack My Bitch Up" (The Prodigy) e "Power" (Kanye West) e desde logo percebemos que já não estamos no Kansas. Muito menos em Oasis. Estamos sim no Kentucky, mais precisamente em "Fort Knox", no já conhecido tema de abertura de "Who Built The Moon?" onde Noel mostra ao que vem. Foi a última composição a entrar no álbum e é provavelmente o tema de todo o disco que mais se afasta do espectro tradicional dos álbuns de Noel. Como já vimos, não é propriamente uma grande revolução para o que o foi fazendo nos últimos 20 anos; a diferença é ver o que no passado era atirado para B-Side aparecer agora como figura de proa. Em condições normais, diria que é uma escolha sui generis para tema de abertura, mas já sabemos que a intenção de Noel era precisamente fazer um statement à cabeça. Início excelente e prometedor. O pior vem a seguir.

"Who Built The Moon?" evidencia alguma intermitência logo no início com a transição do auspicioso "Fort Knox" para o underwhelming "Holy Mountain"Já disse tudo o que havia para dizer sobre o híbrido Plastic Bertrand — Ricky Martin de Noel. Para esquecer.
Muito mais interessante é o toque Soul / R&B do tema seguinte — "Keep On Reaching". Presumo que era este o tema que a Noel se referia quando disse ao Chris Moyles que soava a Marvin Gaye no novo álbum. Não tenho a certeza quanto ao Marvin, mas um Stevie Wonder ficaria orgulhoso a ouvir isto. Fresco e entusiasmante.



Depois vem mais um headscratcher. "It's A Beautiful World"  soma um beat de Chemical Brothers a uma bassline pulsante e veste tudo numa atmosfera etérea, onde até a faixa vocal de Noel aparece mergulhada. É um tema ambicioso e um épico de manual. Mesmo fustigado pela clássica lírica nonsense de Noel — "It's like a dream you and one night and put it over there", hã? —, "It's A Beautiful World" tinha tudo para ser um triunfo inatacável. Só que a meio do tema, Noel resolveu inventar. Enquanto ouvimos o som maravilhoso de um sintetizador evocativo de "Cluster One", somos interrompidos por um anúncio em francês de Charlotte Marionneau (a tocadora de tesouras) — "Attention, attention! Mesdames, messieurs!" — que aparece do nada e completamente a despropósito. Sei que Noel quer fazer "some cutting edge shit" para gerar atenção, mas a música não tem que sofrer com isso. A vontade em agir fora da caixa é tão grande que Noel se permite a arruinar o clímax daquela que poderia ter sido a sua pièce de resistance. Uma pena.

Por falar em épicos de manual, "She Taught Me How To Fly" foi directamente retirado da cartilha dos New Order. A bateria é textbook Stephen Morris e o baixo emula Peter Hook na perfeição. Depois da interpretação algo insípida no programa de Jools Holland no mês passado (onde o grande destaque foi dado à tocadora da tesoura), com o enquadramento sónico adequado, o tema tem aqui palco para brilhar. A lírica carrega na mesma tecla de "Holy Mountain" e "It's A Beautiful World". Noel está feliz com a sua mulher (Sarah MacDonald, que também aparece na capa do álbum) e não se coíbe de elaborar extensivamente sobre o assunto.

O álbum continua a ganhar tracção com o enigmático "Be Careful What You Wish For", que a espaços parece um B-Side de Tears For Fears; e note-se que "parece Tears For Fears" é um dos maiores elogios no meu livro. Outrora um tema deste tipo teria sido sumariamente atirado para a escuridão do Lado B de um single. Hoje é mais um tema onde Noel sai, com sucesso, da sua zona de conforto.



Segue-se aquele que é provavelmente o tema mais "safe" de todo o álbum. "Black & White Sunshine" é o mais óbvio throwback da clássica sonoridade dos Oasis e poderia perfeitamente figurar no miolo de "Chasing Yesterday" como irmão-gémeo de "You Know We Can't Go Back". David Holmes não deixou porém que o tema passasse sem o seu dedo e acrescentou-lhe uns backwards sounds para ter a certeza que o álbum pára em todos os apeadeiros do que deve ser um disco psicadélico. Há ainda aqui um pequeno easter egg — um cheirinho a Pet Shop Boys sempre que Noel diz "You got the nerve, I got the brains" e me deixa sempre à espera que ele complete com "let's make lots of money!".

"Interlude (Wednesday Part 1)"  e "End Credits (Wednesday Part 2)" são os toques mais visíveis de David Holmes em todo o álbum. O produtor, para além do trabalhos em bandas sonoras cinematográficas, fez muita coisa apetitosa no advento do Trip Hop no fim dos anos 90. Estes interlúdios instrumentais solidificam a influência francesa do álbum (aposto que a menina Sarah MacDonald é fã da cultura do país), evocando o superlativo "Moon Safari" dos Air. Noel ganha a sua aposta quando arrisca na música ambiente e deixa água na boca para o que poderia ser um álbum ainda mais instrumental. Se contarmos com "Fort Knox", são três temas aqui. Mais uma prova que Noel sucede quando se preocupa apenas com a música e não com ser weird for the sake of it.



Já "If Love Is The Law" não é propriamente weird, mas soa a uma faixa horrível dos Mumford & Sons, embora tema que isso seja um pleonasmo. Vale pela harmónica de Johnny Marr que aparece no fim a salvar a honra da canção.

E agora "make room for the man who built the moon", que é como quem diz, o momento alto de "Who Built The Moon?" que estava guardado para o fim. Citando o irmão mais novo de Noel (desculpa lá, miúdo), "The Man Who Built The Moon" é bíblico. A guitarra maldosa, a produção angulosa, a lírica perigosa ("We never should have left town in the first place"), a orquestração cinemática de um filme de terror dos anos 60, tudo cai no sítio certo.
Este pode muito bem ser o Bond Theme de que tanto temos ouvido falar este ano. É pena que não seja utilizado na próxima entrada do franchise da EoN, uma vez que até o título encaixaria que nem uma luva a um filme da saga de James Bond, mas depois de rejeitarem os Radiohead duas vezes, já nada me surpreende. "The Man Who Built The Moon" é facilmente o melhor tema do álbum (até porque o outro concorrente é uma faixa bónus) e, por que não, um dos melhores temas que ouvi este ano.

Veredicto

"Who Built The Moon?" é o álbum que Noel Gallagher queria fazer desde há 20 anos e nunca teve coragem. A aposta na electrónica e na sonoridade psicadélica está longe de ser uma coisa nova, mas se até hoje esses temas haviam sido relegados para fora do corpo principal dos álbuns, aqui puderam finalmente ter o lugar de destaque que mereciam. Embora este seja o disco que já se esperava de Noel há muitos anos, não é necessariamente por isso o melhor da sua discografia, uma vez que sofre de alguma intermitência no reportório. É o próprio Noel quem admite que pela primeira vez na sua carreira foi para estúdio sem canções e foi inventando à medida que ia avançando. É uma abordagem diferente da que estava habituado, que por vezes resulta em cheio ("Fort Knox") e outras vezes nem por isso ("Holy Mountain").

Não é por acaso que pela primeira vez na sua carreira, faltaram B-Sides para completar o lote do álbum. Todos os discos de Noel Gallagher e dos Oasis podem ser desdobrados em dois: o álbum principal e as faixas bónus / Lados B, que na boa tradição Smithsiana oferecem uma audição tão ou mais aprazível que o lote principal. Normalmente, estas faixas extra incluem-se num de dois grupos: temas acústicos e/ou inacabados: ou temas experimentais, demasiado fora da caixa para o corpo principal. Ora, como os temas do segundo grupo desta vez foram parar ao álbum e não houve muitas sobras do primeiro grupo nas sessões de gravação, Noel correu o risco de não cumprir a tradição que mantinha desde o primeiro álbum dos Oasis. Valeu o engenheiro de som, que gravou uma lindíssima performance do pungente "Dead In The Water" nos estúdios da RTÉ 2FM em Dublin e que assim permite a Noel manter a sua tradição. É a clássica pérola escondida de Noel.



Noel disse um dia que "good times don't make good records" (bons tempos não fazem bons discos) e talvez seja essa a razão de não ter a torrente habitual de canções a cair na esferográfica. Estas carências são mascaradas com a produção cinemática de David Holmes, que faz este disco valer mais pela soma das partes. "Who Built The Moon?" é assim uma experiência sónica diferente dos dois primeiros álbuns de Noel — "Noel Gallagher's High Flying Birds" e "Chasing Yesterday" — que se focavam nas canções como entidades individuais. Pena que a espaços se sinta que Noel está demasiado preocupado em fugir do passado (uma antítese do álbum anterior) e força o pensamento fora da caixa sem critério. Não obstante tudo isto, "Who Built The Moon?" é um capítulo fulcral na carreira do Chief e deixa a promessa de ser um stepping stone para obras sónicas ainda mais ambiciosas no futuro. Aguardemos.

Por outro lado, o meu Last.fm diz-me que já fiz 193 scrobbles em "Who Built The Moon?" (isto é, já ouvi faxia do álbum por 185 vezes) desde Terça-feira. Se considerarmos uma média de 4 minutos por tema, isto resulta em 13 horas a ouvir o álbum em 4 dias apenas. Nada mau para um álbum de crise de meia-idade.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A crise de meia-idade de Noel Gallagher

Respirem fundo, vem aí um longo ensaio sobre o novo álbum de Noel Gallagher

Há quem compre um Porsche e há quem comece uma banda. Noel Gallagher já não quer nada com os Oasis e por isso fez um álbum ostensivamente diferente de tudo o que tinha feito até agora. Ou pelo menos é essa a ideia que ele quer passar. Só que não é bem assim.

Um desejo antigo

Vamos ler nos próximos dias muitas reviews que apontarão "Who Built The Moon?" como "uma revolução", "um enorme desvio na sonoridade" de Noel e se perguntarem ao próprio, ele será o primeiro a confirmar tal teoria. Nada mais falso. Quem esteve com atenção ao que Noel fez nos últimos 20 anos percebe que este disco é um avanço lógico e apenas a concretização de um desejo antigo. Os sinais estavam todos lá.

Noel começou a flirtar com sonoridades psicadélicas em tempos tão idos como 1998, nas sessões do que poderia ter sido o seu primeiro álbum a solo, abortado quando o seu irmão Liam invadiu Wheeler End — o estúdio onde Noel gravava sozinho — e assim ressuscitou os Oasis, nascendo daí o álbum "Standing On The Shoulder Of Giants" (2000); mais tarde, ainda nos Oasis, em temas como "Falling Down" e "The Turning" de "Dig Out Your Soul" (2008); já a solo, com "AKA... What A Life!" do seu homónimo álbum de estreia (2011); no álbum de colaboração com os Amorphous Androgynous que ficou na gaveta, de onde ainda sobreviveram pérolas como "The Right Stuff" e "The Mexican", que acabariam no último álbum até à data "Chasing Yesterday" (2014). Este disco não nasceu do vácuo.

Uma campanha desastrosa

Para quem esteve atento, a "nova direcção" trilhada em "Who Built The Moon?" é somente um passo natural no arco discográfico de Noel Gallagher. Já a forma como Noel quis promover este disco foi tudo menos natural. O mancuniano quis deixar bem claro que este é um corte com o passado e talvez com medo que as pessoas não percebessem a ideia, decidiu proceder a uma estratégia de marketing verdadeiramente kamikaze.
Para dar início às hostilidades, começou por virar os seus próprios fãs contra si, apelidando-os de "little 15-year-old snotty cunts with polka-dot scarfs" (uma tradução livre disto poderia ser "pequenos coninhas ranhosos de 15 anos com écharpes às bolinhas"), sublinhando que a intenção neste momento é dividir a sua fanbase para deitar fora os "Parka Monkeys" (numa óbvia referência ao irmão Liam).

Alienar propositadamente os próprios fãs? Como se justifica uma coisa destas? Duas hipóteses de explicação. Primeira hipótese: Noel passa por uma crise identitária de meia-idade e já não se identifica com os seus fãs; agora é BFF de Bono Vox, frequenta as festas da alta sociedade e acha que cresceu cultural e socialmente para lá do espectro dos Oasis, da Britpop e da lad culture que os engloba. Segunda hipótese: Noel sempre tratou os seus fãs com desdém e mesmo assim, eles estiveram sempre lá durante mais de 20 anos; Noel achou por isso que eles nunca o iriam abandonar e quis ir à procura de novos targets.

O problema é que nisto Noel esqueceu-se de duas coisas muito importantes: são os seus fãs leais que compram os discos que lhe dão o dinheirinho no fim do mês; os seus fãs são leais não só a ele, mas também ao irmão mais novo e até podem admitir que Noel os insulte, mas não admitem que rebaixe o Liam que, apesar dos 45 anos, ainda é carinhosamente chamado de R Kid (o nosso miúdo). O resultado desta campanha desastrosa, ao nível de António Costa nas Legislativas de 2015, foi que Noel passou de Chief — adorado por milhões, a Beige Boy — bombo da festa nas redes sociais.

As primeiras amostras

Não foram só os insultos que espantaram os fãs de Noel. O Chief quis desde logo dar a conhecer dois temas fracturantes para mostrar ao que vinha: o inenarrável primeiro single "Holy Mountain" (já lá vamos) e a faixa de abertura "Fort Knox", tema que Noel diz ser inspirado em "Power" de Kanye West (2007) — uma referência interessante, mas (não por acaso) das menos aprazíveis para os fãs dos Oasis. Escolhida a dedo, portanto.

"Fort Knox" é um tema predominantemente instrumental, que canaliza as brilhantes sessões de "Standing On The Shoulder Of Giants", mais especificamente temas como "Fuckin' In The Bushes" e "Teotihuacan" (que acabaria na banda sonora dos X-Files), com um óbvio toque do produtor David Holmes — cuja influência se faz sentir ao longo de todo o disco. Holmes é conhecido pelo seu trabalho em bandas sonoras cinematográficas e pelos seus discos Trip Hop no final dos anos 90 (atentem em "Don't Die Just Yet", do álbum "Let's Get Killed" (1997)). Foi uma excelente aposta de Noel para a produção deste álbum (já me estou a adiantar na review) e o seu dedo sente-se logo no primeiro tema.

Antes de "Fort Knox", já tínhamos ouvido o ofensivo "Holy Mountain". Já o disse aqui — um rip-off de uma banda francesa dos anos 70 (Plastic Bertrand) com um refrão do Ricky Martin. É tão mau que parece uma piada. O melhor que posso dizer deste descarrilamento é que é, de facto, catchy. Mas catchy na mesma medida em que "She Bangs" é catchy, por isso não sei até que ponto pode ser um elogio. "Holy Mountain" assustou toda a gente, mas talvez fosse esse mesmo o propósito de Noel — gerar atenção.

O Scissorgate

Não contente com o choque gerado pelas duas primeiras amostras do álbum, Noel subiu a parada e apareceu no programa de Jools Holland para tocar o novo "She Taught Me How To Fly" com uma miúda na banda a tocar... uma tesoura. Sim, leram bem. Foi o Scissorgate. Se os fãs de Noel já estavam confusos, pior ficaram. "O que raio se está a passar com o nosso Noel?", perguntava-se nas redes sociais. Do outro lado da barricada, Liam retorquiu com a promessa de ter alguém em palco a afiar um lápis e mais uma vez ganhou o lance.

Noel estava habituado a que tudo o que fizesse fosse visto como cool e a verdade é que se o scissorgate tivesse acontecido há um ano, a reacção teria certamente sido outra. Mas meses de má publicidade fazem muita coisa e quando começaram a aparecer pessoas a descascar batatas nos concertos de Liam (numa clara alusão ao insulto clássico do mano mais novo), Noel percebeu que passara a alvo de chacota público. Para piorar, os fãs não estavam a comprar bilhetes para os seus concertos (que normalmente esgotam em minutos) e terá sido aí que se deu o clique e Noel acordou da sua crise de identidade. Seguiram-se algumas entrevistas mais sóbrias, onde defendeu que "isto é só um álbum" e que "daqui a 10 anos isto vai ser olhado como apenas uma fase", mas o mal estava feito.

Resta apenas a música para salvar Noel Gallagher. Será que o seu novo álbum o pode salvar? A review de "Who Built The Moon?" segue dentro de momentos.