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terça-feira, 8 de novembro de 2022

“Only The Strong Survive”: o projecto de vaidade que fecha o ano horrível de Bruce Springsteen


Sou fã do Bruce Springsteen desde que o meu Pai trouxe para casa um CD de capa branca, com um homem de guitarra às costas, tinha eu 9 anos. Desde que fui introduzido com o “Greatest Hits”, que tive a minha vida preenchida e aumentada pela música do Bruce. Entre o meu velhinho blogue e as publicações da NiT, já escrevi mais de 30 textos sobre o Boss, todos elogiosos para com a sua música. Num artigo escrito há 3 anos, conto o episódio de quando o conheci pessoalmente e pude atestar que ele era tão cool como eu imaginava. Acrescentei na altura que Bruce “é muito mais do que um mero herói. Os heróis têm uma vida finita e perfeita. Vivem durante um filme, um livro, uma música. Bruce é real, com todas as imperfeições que tal encerra e que constroem um personagem muito mais complexo”. Eu gosto de ver os meus heróis sob a lupa dos seus defeitos (não há nenhum que não os tenha), de modo a humanizá-los. Porque todos os heróis cometem erros e Bruce acumulou muitos no último ano. E o pior de tudo, é que eu acho que ele nem sequer sabe que errou.

As coisas até começaram a prometer com o anúncio da digressão europeia da E Street Band, a primeira desde 2017; e possivelmente a última, tendo em conta que Bruce já leva 73 anos e os shows da banda são célebres pela energia eletrizante e pela duração acima das 3 horas. A bolha de entusiasmo rebentou rapidamente com o escândalo da venda de bilhetes para a digressão americana (que eu vou explicar com mais detalhe em baixo) e, como as coisas podem ficar sempre piores, agora chega-nos um álbum de covers Soul absolutamente insípido, que na melhor das hipóteses nos diz que Bruce entrou na sua fase Rod Stewart — artisticamente vazio e remetido a uma carreira de cantor de karaoke — e na pior, nos sugere que Bruce está na sua fase Madonna — completamente alienado do mundo real.

Vamos por partes. Antes de nos focarmos no novo disco, puxemos um meses para trás, até ao escândalo do “preço dinâmico” dos bilhetes na digressão americana. Para quem não sabe, o esquema de preço dinâmico segue a mesma lógica que se usa nos hotéis e nas viagens de avião, isto é, uma procura elevada no sistema dispara o preço dos bilhetes. Apesar do esquema ter sido anunciado, os fãs, fiéis e alheios a esta nova forma de extorsão, mobilizaram-se de cartão de crédito em punho à hora do início da venda de bilhetes, como sempre o fizeram no passado. O resultado foi catastrófico. Com o sistema entupido em poucos minutos, os preços das entradas para a plateia dispararam para a ordem dos 5 mil dólares. Até os lugares longe do palco não se conseguiam comprar por menos de 500 dólares.

É verdade que este sistema não é original, os Rolling Stones já faziam isto, mas os Stones nunca chamaram a si um pedestal moral, do qual Bruce sempre se valeu, por exemplo, nas suas posições políticas. Os bilhetes venderam-se, como sempre, mas não todos. Pela primeira vez, Springsteen vai entrar numa digressão que à partida não está esgotada. Além desta efeméride, o resultado prático da manobra foi que milhares de fãs do Bruce, que o seguem há décadas, ficaram de fora dos concertos. Os shows passaram a ser, efetivamente, um exclusivo para os super ricos, e um luxo proibitivo para a classe média. Ele afastou conscientemente os fãs que passam dificuldades, os mesmos sobre quem ele vai cantar.

Supostamente, este esquema vem auto-regular o mercado, ainda que de uma forma selvaticamente liberal e claro, ultra lucrativa para o Bruce. Ora, Bruce Springsteen é reconhecidamente um artista com uma posição política forte e fortemente à esquerda. Como se explica, então, tal ganância a quem toda a vida cantou sobre as provações da classe trabalhadora? Ficou uma nódoa que vai ser difícil, se não impossível, de tirar.

Compreender-se-ia esta manobra num quadro de dificuldades financeiras, ou de angariação de fundos para uma causa. Mas não. Bruce acabou de receber um cheque recorde de 500 milhões de euros (!) da editora pela venda dos direitos do seu catálogo, a maior quantia um artista já recebeu, e um valor que nem sequer é comensurável para a tal classe média que ele representa. Nada contra ver o Bruce receber tal quantia, pelo contrário, eu próprio já lhe deu muito do meu bolso (comprei bilhetes para quatro datas desta digressão e, acreditem, não foram baratos); mas para quem é tão obscenamente (e meritoriamente) rico, reitera-se a questão: como se justifica esta exploração predadora aos bolsos dos seus tão fiéis fãs?

A única explicação que encontro é esta: Bruce Springsteen está completamente desconectado com a realidade. Talvez da idade, talvez do (muito) dinheiro, talvez da muita bajulação (da qual eu também sou culpado), alguma coisa parece ter mudado em Bruce desde a pandemia. Depois de uma vida sempre com os pés no chão, Bruce parece finalmente ter-se deslumbrado. O novo álbum, “Only The Strong Survive”, um disco de covers Soul a ser lançado na próxima semana, parece vir a confirmar isto. E se eu utilizei o verbo “parecer” três vezes neste parágrafo, é porque ainda estou em negação.

Não há nada de particularmente obsceno sobre este disco. A premissa é inofensiva: Bruce Springsteen quis fazer um álbum de homenagem aos seus heróis do Soul, com uma coletânea de covers. Não são temas muito populares (como fora a seleção de Phil Collins, no seu disco “Going Back”, de premissa semelhante), nem tão-pouco completamente desconhecidos. As canções trazem a tarimba de qualidade da Motown, da performance nas tabelas, e do teste do tempo.

Mas também não há nada de particularmente, ou sequer remotamente interessante neste disco. Sem música assinada por ele, Bruce tinha aqui a oportunidade de pôr a sua impressão digital nas suas canções favoritas, mas os temas são largamente uma cópia tirada a papel químico dos originais. Quem conhece as versões originais, não vai encontrar nada de novo aqui, a não ser a voz de Bruce. E convenhamos, com um Bruce septuagenário a cantar, não há nenhuma razão para se ouvir estas versões em detrimento dos originais da Motown. A escolha do nome do disco, diga-se, também não foi a mais feliz. Para quem acabou de lançar um álbum sobre a morte dos seus amigos (“A Letter To You”), segui-lo com “Only The Strong Survive” não foi propriamente a melhor ideia.

Nem tudo é mau. Quando a música começa a tocar, está tudo no sítio, com a produção de Ron Aniello a fazer a colagem primorosa às gravações antigas. Ouvimos Bruce a canalizar o seu melhor sotaque de Filadélfia e Nova Orleães, a interpretar temas que claramente lhe dizem muito. A performance em “The Sun Ain’t Gonna Shine Anymore” é o meu ponto alto do disco, talvez porque seja o tema mais próximo do que Bruce escrevia nos anos 70, ou talvez porque tenha mais do seu cunho pessoal. É preciso procurar o dedo de Bruce no detalhe e nas entoações, como em “Someday We’ll Be Together”, uma interpretação potente que fecha o disco e que supera o original de Diana Ross, mais nuanceada, mas menos emocional que Bruce. É a excepção que confirma a regra de “Only The Strong Survive”.

Se a ideia era fazer um disco Soul, seria muito melhor Bruce recorrer às suas próprias composições. Atentem, por exemplo, no disco “The Promise”, com canções escritas na época de “Darkness” (1976-1977), mas só lançadas em 2010. Uma seleção desse repertório permite-nos ouvir como seria um verdadeiro álbum Soul de Bruce Springsteen: “The Brokenhearted”, “Someday (We’ll Be Together)” — não confundir com o tema das Supremes, “One Way Street”, “Breakaway”, e só aqui já temos pelo menos meio disco maravilhoso.

Em última análise, “Only The Strong Survive” é um projecto de vaidade que vai chegar no dia 11 de novembro e vai desaparecer tão depressa como chegou, sem deixar marca. Os fãs vão comprar, ouvir uma vez e guardar para nunca mais. Não haverá uma única pessoa, dos milhões que compraram bilhetes para a tour do próximo ano, a pedir um destes temas para o set de Bruce. Com tanta música nova para ouvir, é difícil encontrar um motivo para escutar este disco mais que uma vez. E isto vem de quem ainda hoje ouve em repeat faixas dos últimos discos “Western Stars” e “A Letter To You”. Infelizmente, “Only The Strong Survive” parece vir de alguém que já não tem nada a dizer, e tendo em conta os últimos discos de Bruce, eu nem acho que isso seja verdade. Mas é certamente, e de longe, o projecto mais descartável da carreira de Bruce Springsteen.

No fundo, é um disco novo de Bruce Springsteen que não tem música de Bruce Springsteen, e esse é o grande problema de “Only The Strong Survive”. É bege, insosso, sem a chama da E Street Band e sem a sinceridade dos seus discos a solo. E pior, é apenas o primeiro volume, com um segundo previsto para Março. Os fãs, ávidos por música nova do Bruce, vão ter que continuar à espera.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Bruce Springsteen: Nascido nos Estados Unidos da Hipocrisia

O shot que tramou Bruce Sprinsgteen e tirou o anúncio da Jeep do ar.


Não há concertos para falar e talvez por isso o assunto da semana no mundo da música foi a detenção de Bruce Springsteen Novembro passado, um caso que, como fã do Bruce, não posso esconder que me incomodou. Vamos lá então falar do elefante na sala. O Bruce foi apanhado pela polícia com álcool no sangue, mais precisamente 0.02 g/l. E não, o zero não está mal posto. A história é que ele foi intercetado por um fã a pedir um autógrafo e uma foto, e esse fã ofereceu-lhe um shot de um licor que ele fizera. O Bruce, como Boss que é, sorriu e anuiu a todos os pedidos, como sempre faz. Eu sei, porque já aconteceu comigo.

Esta cena foi testemunhada por um carro da polícia que estava no local e que seguiu imediatamente no encalce da mota onde seguia Bruce. Mandaram-no parar, et voilá, acusou 0.02 g/l. Embora o limite de álcool no sangue no estado de New Jersey seja 0.08 g/l (recordo que em Portugal são 0.5 g/l, sendo que só é crime a partir dos 1.2 g/l), os senhores da polícia federal decidiram deter o Bruce Springsteen, alegando que, apesar do nível negligível de álcool do sangue, ele não estava em condições de seguir para casa. Ficaram, pois, com uma história para contar e com uma pequena vingança contra o tema “American Skin (41 Shots)” (um tema tão medíocre que nem precisava de retaliação), onde Bruce condenou a brutalidade da polícia que baleou 41 vezes um negro em NY, sem que este estivesse armado. A diferença aqui é que o Bruce deu 1 shot e os polícias 41.

Ora, eu não quero de maneira nenhuma advogar a condução embriagada, mas sou de Castelo Branco, por isso sei quando é que alguém pode estar em condições de “levar o carro”. Sei que se todos os condutores de Castelo Branco fossem detidos ao marcarem 0.02 g/l, a área da zona industrial da cidade não seria suficiente para alojar os calabouços de um estabelecimento prisional construído só para o efeito. Sei também que se este hábito vigorasse em Portugal, eu já teria sido preso mais vezes que o Vale e Azevedo. Este caso, para mim, tresanda a perseguição pessoal. Compreendo que a polícia tenha ido atrás de um homem que viram beber um shot, mas detê-lo quando perceberam que estava muito abaixo do limite legal é um abuso de poder inaceitável. Não interessa se sou eu, se é o Bruce, se é o Vilarinho. A intenção da polícia (não de toda, só daqueles idiotas) neste processo é óbvia – atacar o Bruce Springsteen.

Coincidência ou não, e eu inclino-me mais para a segunda, este caso vem a público poucos dias depois de Bruce protagonizar um anúncio para a Jeep (podem ver aqui), onde apela ao encontro dos americanos num espaço comum, mostrando uma capela no Kansas situada exatamente no meio da estrada 48 dos EUA. Um anúncio é político, sim, mas apela ao entendimento, uma ideia que hoje em dia parece radical e que nitidamente aborreceu muita gente. Mal passou no Super Bowl, gerou-se uma incrível onda de críticas contra o anúncio e contra o próprio Bruce, muito à conta de republicanos que nunca perceberam a ironia de "Born In The U.S.A.". Quando este caso de nano-alcoolismo foi revelado, foi como gasolina para as mãos desta gente, que não tardou em crucificar Bruce na fogueira, do alto do seu pedestal moral americano. Resultado? A Jeep resolveu retirar o anúncio do ar, com medo de represálias dos moralistas. Se há coisa para a qual não tenho paciência nenhuma são falsos moralistas ávidos do cancelamento de todos à sua volta e que, invariavelmente, são os primeiros a morrer pela própria espada. Os Estados Unidos da Hipocrisia estão cheios destes insuportáveis falsos moralistas (Portugal também os tem, mas esses são apanhados antes de sequer saírem de casa). Quanto aos que tentaram apanhar o Bruce, daqui não levam nada. #IstandWithBruce

Estou contigo, Bruce. Deixa esses moralistas hipócritas dos EUA e vem mas é para Portugal. E traz a garrafa, que a gente bebe também. 

 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Os 10 melhores álbuns de 2020

Os Working Men's Club


Chegámos aos últimos dias do ano mais estranho das nossas vidas, tempo para o habitual resumo discográfico do ano. Sem mais demoras, passemos então ao Top dos 10 melhores álbuns que ouvi em 2020 (na verdade são 11), numa selecção com discos para todos os estados de espírito, apropriada para o ano esquizofrénico que agora finda.


0. Neil Young – "Homegrown"

Neil Young lançou a confusão nas minhas listas anuais, ao tirar da gaveta um álbum gravado em 1974, que viu a luz do dia pela primeira vez em 2020. E que álbum. “Homegrown” era a peça que faltava para entender a trilogia Ditch (que afinal é uma quadrilogia) – a fase mais introspectiva e mais fascinante da carreira de Neil Young. Um disco sobre um amor perdido, fechado a sete chaves por ser demasiado pessoal e Neil querer, na altura, seguir em frente com a sua vida. Num ano em que o mundo se viu numa espiral destravada rumo ao abismo, Neil Young resolveu lembrar-nos daquilo que realmente interessa – o amor. Como olhar então para “Homegrown”? É demasiado ancorado a 1974 para ser um disco de 2020, mas grande parte do álbum é música “nova”, completamente desconhecida até este ano e de tal forma superlativa que tinha que ter um lugar nesta lista. Fica então com o número “zero” e serve de prefácio para a contagem dos álbuns lançados no último ano e gravados, enfim, mais recentemente.

Faixa essencial: “Separate Ways”


10. Destroyer – "Have We Met"

Sou fã dos Destroyer desde “Kaputt”, lançado em 2011 e um dos melhores discos da última década. Desde então, Dan Bejar tem tentado abordagens radicalmente diferentes em cada novo álbum, com resultados naturalmente dispersos. O anterior “ken” (2017) fora um trabalho mais de grupo e curiosamente, achei-o menos interessante que este “Have We Met”, que teve uma gestação solitária em duas fases distintas: primeiro, Bejar compôs tudo e gravou as demos sozinho em casa; depois, o baixista dos Destroyer, John Collins, produziu e aumentou as faixas no seu iPad e chamou o habitual guitarrista da banda, Nicolas Bragg, para acrescentar umas linhas de guitarra. Et voilá, um ano antes do ano do lockdown (o álbum foi lançado em Janeiro), os Destroyer fizeram um álbum em isolamento, sobre o isolamento. E o melhor desde “Kaputt”.

Faixa essencial: “Cue Synthesizer”


9. Perfume Genius – "Set My Heart On Fire Immediately"

Comecei a acompanhar o Perfume Genius (Michael Hadreas) em 2014, aquando do seu álbum “Too Bright” e desde então tem sido sempre a subir. "Set My Heart On Fire Immediately" não parece só o culminar de toda a sua discografia e temática anterior, é um cocktail esquizofrénico de influências, uma miríade de estilos que tornariam este parágrafo demasiado penoso de ler, se eu começasse aqui num name-dropping. Também penosa – ou catártica, depende do ponto de vista – é a audição do álbum do princípio ao fim, de uma vez só. Num disco de forma grandiosa, mas conteúdo introspectivo, a intensidade da voz, da lírica e da música, fazem de "Set My Heart On Fire Immediately" um verdadeiro desafio. Sonicamente, o álbum dispara para todas as direções, mas consegue manter um fio condutor etéreo e temático. Viajamos sobre as nuvens, na voz dorida de Hadreas, acompanhando a eterna luta contra a prisão do seu corpo, sempre com o amor como única forma de redenção. Melhor disco da carreira de Perfume Genius.

Faixa essencial: “Describe”


8. Fleet Foxes – "Shore"

Os Fleet Foxes deram as boas vindas ao Outono com o disco perfeito para a ocasião. “Shore” foi lançado exactamente às 13:31 de 22 de Setembro, para coincidir com o Equinócio de Outono – um capricho que soa, e é, muito millennial, mas que mapeia com precisão o posicionamento emocional deste álbum. Segundo Robin Pecknold – cantor, compositor e líder dos Fleet Foxes – é um disco que “celebra a vida diante da morte”. Filho dos fantasmas do lockdown (vamos ter muitos), “Shore” é sonicamente o disco perfeito para o fim de um dia terrível no trabalho, um bálsamo depois da dor. E o melhor álbum da discografia dos Fleet Foxes.

Faixa essencial: “Can I Believe You”


7. Baxter Dury – "The Night Chancers"

O filho de Ian Dury dos Blockheads (temo que Baxter nunca se livrará desta sombra) tem um dos discos mais cool do ano. Lançado antes das trevas do lockdown, "The Night Chancers" lembra-nos de um mundo livre de Covid, em que nem tudo se devia aos fantasmas do confinamento. A estética sónica do álbum leva-nos numa caminhada nocturna pelos bares de Oberkampf (ou do Cais do Sodré, depende do imaginário do ouvinte), enquanto Baxter vai expelindo a sua poesia perversa e libidinosa, sobre linhas de sintetizador que nos sugerem que o perigo se aproxima a qualquer instante, provavelmente sobre a forma de uma mulher. Não é ao acaso que as backing vocals  femininas são um acompanhamento constante ao longo do álbum, como se de vozes na mente de Baxter se tratassem. "The Night Chancers" é uma relíquia das nossas vidas pré-Covid e, sim, também o melhor disco da já longa carreira de Baxter Dury.

Faixa essencial: “I’m Not Your Dog”

 

6. Doves – "The Universal Want"

Parece um conto de fadas – o parente pobre da post-Britpop que já todos tinham esquecido regressa em 2020 para um dos álbuns do ano. “The Universal Want” surge do nada, 11 anos depois do último disco dos Doves e o mais incrível é que este álbum é melhor do que tudo o que precedeu a discografia da banda de Manchester. Carregado de melodias que abraçam o ouvido, riffs que arrepiam a espinha e paisagens sonoras que convidam a ficar, “The Universal Want” não veio reinventar a roda, mas trouxe 10 das melhores composições de 2020. O regresso do ano. 

Faixa essencial: “For Tomorrow”


5. Taylor Swift – "evermore"

Taylor Swift é a mais entusiasmante artista mainstream do momento e para quem ainda tinha dúvidas que a menina Taylor é a melhor compositora da última década, penso que 2020 veio pôr uma pedra sobre o assunto. Para mim, que já era fã da faceta Pop de Taylor, deixou de haver dúvidas acerca do sumo das cancões, quando Ryan Adams extraiu um dos melhores álbuns dos últimos 10 anos a partir dos temas de “1989”. Curiosamente, o caminho que Taylor trilhou desde então vai dar ao encontro dessa mesma sonoridade mais minimalista e é precisamente isso que ouvimos nos dois álbuns que lançou este ano. “folklore” e “evermore” são dois lados da mesma moeda e no futuro deverão ser olhados como um par (tal como “Use Your Illusion I” e “Use Your Illusion II” dos Guns N’ Roses), mas a visão da Taylor Swift é que são dois álbuns distintos e por isso, vou respeitá-la. Para ser justo, ambos os álbuns poderiam figurar nesta lista, mas como não queria repetir artistas, a escolha recaiu no melhor dos dois, que é o mais recente “evermore” – uma colecção pessoal com um tema para cada estado de alma. 

Faixa essencial: “champagne problems”


4. Ryan Adams – "Wednesdays"

A surpresa do ano. Depois de ter sido cancelado em 2019, Ryan Adams regressou este mês com o lançamento-surpresa do álbum "Wednesdays", disco que supostamente seria a segunda parte de uma trilogia programada para 2019 e agora projectada para 2021. "Wednesdays" é um disco que por vezes parece ter saído da fase Ditch de Neil Young, outras vezes passa pelo "Nebraska" de Bruce Springsteen e que tantas vezes evoca o sangue derramado pelo coração de Bob Dylan em "Blood On The Tracks". Se estão hesitantes em ouvir "Wednesdays" por causa do que Ryan Adams terá ou nao terá feito há 10 anos, o meu conselho é seguirem as palavras sábias de Steve Van Zandt - "Confiem na arte, nunca no artista". Gostam do álbum? Não tenham problemas em admitir. #metoo

Faixa essencial: “I'm Sorry And I Love You”


3. Bruce Springsteen – "Letter To You"

Quem diria que Bruce ainda tinha em si um grande álbum para a E Street Band? O maravilhoso "Western Stars" de 2019 mostrou-nos um Bruce envelhecido e confortável na sua pele de ancião, mas sucessivas desilusões em trabalhos com a E Street Band (desde "Magic" de 2007, que não havia um álbum que enchesse as medidas) adivinhavam um lento crepúsculo em da sua sonoridade mais clássica. Tudo isso foi mandado pela janela em 2020, quando Bruce resolveu regressar às origens e fazer um álbum “à anos 70”. Como? Foi à gaveta buscar um punhado de temas que escrevera quando tinha 18 anos. Bruce recuperou “Janey Needs A Shooter”, “Song For Orphans” e “If I Was The Priest”, regravou-os e conseguiu de forma incrível canalizar a energia e a urgência do Bruce adolescente, naquelas que foram para mim as melhores coisas que eu ouvi em 2020. Mas isto sou eu que sou um fã hardcore do Bruce Springsteen, com a perfeita noção de que qualquer coisa que ele faça vai sempre partir da pole position. Dividido em 3 lados, “Letter To You” perde gás no Lado B, prova que teria beneficiado de uma ligeira edição. De qualquer forma, é um disco inesperado de pulmão cheio, que mostra que Bruce ainda está aqui para as curvas.

Faixa essencial: “Janey Needs A Shooter”


2. Daniel Lopatin - "Uncut Gems: Original Motion Picture Soundtrack"

Não é todos os dias que chega um álbum que cria um universo próprio com a sua sonoridade. O exemplo máximo desta efeméride terá sido a banda sonora de “Blade Runner” de Vangelis que, tal como anunciava no filme, começou uma vida nova nas Off World Colonies. Mas se a banda sonora de “Blade Runner” nos atirou para um futuro distante (a partir de 1982) e um espaço infinito, a banda sonora de “Uncut Gems” vira para dentro, para o espaço não menos desconhecido, não menos enigmático e não menos infinito da nossa mente. Daniel Lopatin dá uso a sintetizadores que evocam gigantes do passado Tangerine Dream, Klaus Schulze (e Vangelis, claro) e pintores sónicos do presente, para criar uma paisagem cinemática lustrosa, perfeita para uma obra que vive da soma entre a imagem e o som e submerge o espectador num universo só seu. Lopatin que, curiosamente, usou nesta banda sonora o seu nome próprio, ao invés do seu alter-ego Oneohtrix Point Never, que lancou outro álbum este ano (“Magic Oneohtrix Point Never”), interessante a espaços, mas não tao convincente como “Uncut Gems”. O filme saiu nos últimos dias de 2019, tarde demais para figurar nas listas do ano passado, e é para mim o melhor que vi e ouvi este ano. Com “Letter To You” e o disco que se seguirá na contagem, a banda sonora de “Uncut Gems” forma um tríptico dos meus álbuns favoritos deste ano e honestamente, qualquer um poderia figurar no primeiro lugar.

Faixa essencial: “The Ballad Of Howie Bling”


1. Working Men's Club – "Working Men's Club"

A revelação do ano. Há doze meses, quem é que sabia quem eram os Working Men's Club? Pouca gente, imagino. O compositor e cantor da banda, Sydney Minsky-Sargeant, disse na altura que “o motivo pelo qual não há muitas bandas Rock em voga é porque toda a gente faz a mesma merda. Ninguém pode estar surpreendido que o Rock esteja a morrer”. Entretanto, Syd pôs mãos à obra e os Working Men's Club lançaram um dos melhores singles do ano ("Valleys"), um dos álbuns de estreia mais entusiasmantes do ano (o homónimo "Working Men's Club") e ainda deram o melhor concerto que vi durante a pandemia (no Oslo Hackney em Londres e sim, foi seguríssimo). O corolário terá sido o anúncio este mês como suporte dos New Order, no mega concerto em Heaton Park em 2021. Hoje ainda poucos são os que conhecem as letras de Syd, as linhas de baixo de Liam Ogburn e as pinceladas da guitarra de Mairead O’Connor (a banda mais promissora do norte de Inglaterra ainda nem sequer tem uma página na Wikipedia), mas prevejo que isso mude nos próximos meses, ou pelo menos quando a banda puder voltar à estrada para mostrar o seu primeiro álbum. "Working Men's Club" não é o disco de Rock típico. A fusão com a electrónica confere ao álbum um apelo underground, que funciona melhor debaixo de pouca luz e muitos decibéis. Os acenos ao passado são óbvios, mas nunca distractivos – o álbum começa com um ‘olá’ aos New Order e termina com um ‘adeus’ aos Stone Roses; pelo meio há aromas da pop lustrosa dos Human League, do neo-psicadelismo dos Tame Impala, e da esquizofrenia dos Joy Division, numa palete que tantas vezes parece ter levado o dedo de Martin Hannett (foi Ross Orton quem produziu o álbum). Todos estes acenos funcionam como um veículo e não como um fim em si mesmo. O Syd tem 18 anos e é provável que nem sequer conheça grande parte do reportório que enunciei atrás. Fazer-me lembrar deles é o melhor elogio que lhe posso prestar. Mal posso esperar pelo segundo álbum.

Faixa essencial: “John Cooper Clarke”


Epílogo

A escolha do Top 10 foi difícil, por isso fiquem com mais 9 sugestões (sem nenhuma ordem particular) e uma playlist no Spotify para acomodar tudo:

The Avalanches – We Will Always Love You

Creeper – Sex, Death & the Infinite Void

Fiona Apple – Fetch the Bolt Cutters

IDLES – Ultra Mono

Benjamim – Vias de Extinção

Declan McKenna – Zeros

Fontaines D.C. – A Hero's Death

Sufjan Stevens – The Ascension

Andy Bell – The View From Halfway Down

Run The Jewels - RTJ4

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Springsteen e eu

Como a música de Bruce Springsteen salvou a minha vida

Hoje faz anos um dos meus heróis. Não usa capa, não tem uma banda desenhada, mas salva vidas. Vidas como a minha. Bruce Springsteen é muito mais do que um mero herói. Os heróis têm uma vida finita e perfeita. Vivem durante um filme, um livro, uma música. Bruce é real, com todas as imperfeições que tal encerra e que constroem um personagem muito mais complexo. Um personagem que vai viver para sempre, ou pelo menos muitos anos para além da sua vida. Pelo menos e certamente enquanto eu viver e puder contar a história do meu herói.

Sabem aquele ditado que diz que nunca devem conhecer os vossos heróis? Não se aplica a Bruce Springsteen. Quando tive a honra de conhecer o meu herói numa tórrida tarde de Verão em 2014, depois de 8 horas e meia debaixo do sol à espera dele, Bruce foi tudo aquilo que eu imaginei e mais ainda que um herói pudesse ser. Quando lhe pedi para tirar uma foto comigo, ele acenou com a cabeça - o aceno mais cool que vi em toda a minha vida -, pôs-me a mão nas costas e perguntou com aquela voz deliciosamente rouca: "Ok, man, ok... Where do I look?". Eu apontei para a Cristina, que tinha o meu telemóvel e que, coitada, tremia que nem varas verdes e chorava baba e ranho. Pudera. Ela tinha acabado de dar um beijo ao Bruce e ainda estava a suster aquele nirvana. Agora tinha a tarefa hercúlea de capturar um momento chave da minha vida com uma foto. Eu e o Bruce ficámos em contraluz, mas isso acabou por dar um efeito mais etéreo à fotografia, como que se a objectiva tivesse ficado encadeada por aquele momento.


Depois saímos do hotel e no meio do banho de multidão à porta, ainda tive tempo de lhe dar o meu primeiro "Darkness In The Edge Of Town" para ele assinar. O momento ficou capturado noutra foto, onde os meus olhos brilham intensamente, a olhar o meu herói assinar o disco com que ele salvara a minha vida nos anos transactos. Com os olhos lavados em lágrimas de alegria e alívio, voltei para o carro e senti que se tinha fechado um ciclo na minha vida. Outro disco se seguiria. Outro álbum onde Bruce contaria a sua história e onde eu pudesse ler ali a minha. E assim aconteceu.

O ciclo de "Darkness" começara em Dezembro de 2008, com o meu choque frontal com a realidade da vida adulta. Ao mesmo tempo que acabava o curso no Técnico e começava uma vida rotineira de trabalho, terminava a relação mais sólida e duradoura da minha vida, a qual durou os 5 anos de faculdade. Tinham sido os meus anos "Born To Run" — o álbum onde o Bruce estampou todos os seus, e meus, sonhos de juventude. Quando nada parece impossível e o mundo parece estar ali, de braços abertos, à nossa espera. E parecia estar mesmo.

https://www.youtube.com/watch?v=nGqjav-KbDU&t=45s

Em 1975, Bruce Springsteen cometeu a incrível proeza de ser capa das revistas Time e Newsweek na mesma semana. Mas não era só a América que estava aos seus pés. A digressão de promoção de "Born To Run" teve uma passagem triunfal pelo Hammersmith Odeon em Londres, mais tarde documentada num superlativo álbum ao vivo, num concerto promovido com o outdoor "Finally London is ready for Bruce Springsteen & The E Street Band". Nada parecia impossível e a expectativa do mundo era grande, para conhecer o que Bruce tinha na manga para o álbum seguinte.

Mas Bruce prosseguia numa interminável digressão onde entravam e saíam temas novos sem aparente critério e álbum novo, nem vê-lo. O problema era um contrato que Bruce assinara com o seu antigo manager Mike Appel, que estipulava que Bruce recebesse uma ínfima parte dos direitos das suas músicas. Reza a lenda que Bruce assinou este contrato num parque de estacionamento em New Jersey, sem sequer o ler. Na prática, isto significava que a única fonte de rendimento de Bruce Springsteen vinha das suas performances ao vivo, o que o obrigava a andar indefinidamente na estrada para pagar as suas contas. Foi o choque frontal de Bruce Springsteen com a realidade da vida adulta. Desse choque, nasceu um disco — "Darkness On The Edge Of Town".

Nos meses que se seguiram ao meu choque com a realidade, vivi na agonia de quem está perdido e à procura de respostas sobre as grandes questões da vida. Como tantas outras vezes, o universo enviou-me um disco para me dar respostas. Nesse período, descobri "Darkness In The Edge Of Town". Tudo o que eu precisava de ouvir naquele momento estava condensado ali. Bruce tinha a chave, todas as respostas que eu procurava. E as respostas são que não há respostas. Os mistérios permanecem por resolver e acumulam-se numa bagagem que temos carregar e com a qual temos de viver. Essa é a chave. Saber viver com toda a bagagem e continuar nesta maravilhosa viagem.

No trailer para o filme de "Western Stars", que será lançado no próximo mês, Bruce faz um resumo da sua viagem com a própria bagagem: "Life's mysteries remain and deepen. It's answers unresolved. So you walk on through the dark, because that's where the next morning is". Nesta viagem pela escuridão que todos temos que fazer, eu encontrei a minha lanterna — a música de Bruce Springsteen.

P.S.: Se não conhecem a música do Boss, fiquem com uma playlist de Bruce Springsteen para iniciantes:

https://open.spotify.com/playlist/5li6KXJtNsDOXnYFzqxQOS?si=wZYIQyqTSVWg8WMtzF4JIQ&fbclid=IwAR0QtHsr2QX_rRwX9C7mCwaGhSLB6EERdwrLquacPbCrotdyi2hCDsp12nU

domingo, 23 de junho de 2019

Madonna contra Bruce Springsteen — A grande batalha nas tabelas da última semana

The Queen vs. The Boss — A batalha que colocou os fãs da Madonna contra Bruce Springsteen

Talvez não se tenham apercebido, mas na última semana deu-se uma das maiores batalhas das tabelas dos últimos anos — Madonna contra Bruce, The Queen vs. The Boss. Normalmente as editoras têm o cuidado de evitar que lançamentos de artistas que almejem o primeiro lugar da tabela coincidam na mesma semana. Mas desta vez calhou que ao mesmo tempo, na sexta passada, Madonna decidiu lançar o seu luso-perfumado (mas pouco) "Madame X" e Bruce Springsteen tirou da gaveta o seu álbum perdido "Western Stars". Os dias que se seguiram viram uma batalha feroz nas trincheiras.

Ambos os álbuns foram recebidos com alguma surpresa. "Western Stars" foi uma obra-prima inesperada — um disco que Bruce foi guardando desde 2011, inseguro sobre a reacção do seu público, mas que acabou por ser aclamado pela crítica e pela maioria dos fãs. Já dissertei extensivamente sobre "Western Stars" na crónica da semana passada.

Já "Madame X" foi o típico álbum "late period" da Madonna — um disco que colecciona as "novas tendências" dos últimos 5 anos, numa tentativa desesperada da Rainha da Pop em se manter relevante e em coleccionar mais uns hits. A Madonna, concedo-lhe o feito de se ter conseguido manter relevante ao longo de quatro décadas numa cena tão fugaz como a música Pop (e por isso ainda lhe é concedida tanta atenção, bem como planos de estacionamento especiais pela EMEL). O problema é que esta fugacidade em 2019 é exponenciada pela velocidade com que as ondas vão e vêm. No passado, Madonna foi-se rodeando dos produtores da moda, conhecedores do que fervia por entre a audiência teen, para lhe darem a receita dos hits que sempre perseguiu. Hoje em dia, com as mudanças na paisagem cultural a serem conduzidas por fenómenos virais, o espaço de uma artista com o peso da Madonna é ainda mais limitado. Imagino que ela esteja à espreita do que as filhas estão a ouvir e sendo a Madonna, pode ligar ao produtor de uma determinada faixa e pagar-lhe o voo para estarem a gravar no dia seguinte. Mas com o tempo que demora a manejar uma estrutura pesada como a do lançamento de um álbum novo da Madonna, quando ele chega às ruas, já a tendência mudou uma série de vezes. No caso de "Madame X", o resultado é uma almálgama de sonoridades desconexas que não soam nem particularmente actuais, nem particularmente passadas, mas que acima de tudo, não soam particularmente harmoniosas. E qual é a ideia do uso profuso de adereços vocais como o vocoder? A Madonna é reconhecida primeiramente pela sua voz. Sou particularmente adverso a temas onde canta como se estivesse a mastigar uma sandes de presunto ("God Control"). Mas divago.

Os lançamentos dos discos foram muito diferentes. Bruce apresentou "Western Stars" timidamente, quase como que envergonhado do que poderiam dizer dele. Não houve nenhum anúncio de uma digressão a solo ou com a E Street Band para promover o álbum. Pior que isso, Bruce anunciou de forma apologética a intenção de lançar um álbum e ir para a estrada com a sua banda para o ano que vem, ainda antes do lançamento de "Western Stars", como se este álbum fosse algo de somenos. Já Madonna apareceu no Festival da Eurovisão e a juntar à sua máquina publicitária, ainda anunciou a Madame X Tour, com 48 datas nos Estados Unidos e 31 datas na Europa (incluindo 6 no nosso Coliseu dos Recreios e 15 aqui no London Palladium). E foi aqui que ela sacou do seu Ás de trunfo — o ticket bundling — isto é, todos os bilhete vendidos (pelo menos nos EUA e no UK) incluíam uma cópia do seu novo álbum "Madame X". Isto significa que a venda de cada bilhete conta como a venda de uma disco.

As digressões sempre foram utilizadas com o objectivo final de promover um disco novo. Mas nesta era em que os artistas ganham mais com as digressões do que com os álbuns, a ordem dos factores reverteu-se. A verdade é que o "ticket bundling" não é original, nem exclusivo de Madonna. O truque já tem alguns anos e é utilizado com frequência pelos artistas de maior nomeada, de modo a facilitar o caminho para o primeiro lugar das tabelas. Mas não faz muito sentido. Grande parte do público quer ir ao concerto para ouvir os hits antigos e não quer saber do último álbum para nada; esses vão ficar com um disco que nunca vão ouvir. Já os verdadeiros fãs do artista, aqueles que não podem esperar, esses já têm o álbum de qualquer forma e vão agora ficar com duas cópias do mesmo disco. Por outro lado, dá também uma vantagem virtual (e injusta) nas tabelas.

Foi precisamente assim que "Madame X" começou a última semana. Com um avanço enorme sobre todos os outros. Só que quando os álbuns chegaram ao juízes que realmente decidem o andamento das tabelas — o público — a maré começou a virar. O hype do novo álbum da Madonna deu-lhe a liderança automática no iTunes e na Amazon na sexta-feira de manhã, mas a meio do dia, já era Bruce quem liderava.

E foi aí que começámos a assistir a cenas incríveis nas trincheiras desta batalha, algo que passou aparentemente despercebido aos mass media, mas que eu não via desde a famosa batalha entre os Oasis e os Blur nos mid-90s. Na tentativa de salvar a sua rainha, os fãs da Madonna começaram a acorrer às plataformas virtuais de venda, desde o iTunes até à Amazon, para deixar reviews de 1 estrela a "Western Stars" com o grito de guerra: "Buy Madame X". Alguma noção é precisa, caros fãs da Madonna.


Foi assim toda a semana. Bruce a recuperar paulatinamente da desvantagem inicial até à liderança em quase todos os mercados. Vejamos então a posição final de "Madame X" e "Western Stars" nas tabelas cujo resultado já é conhecido:

  • Reino Unido: Bruce #1; Madonna #2
  • Irlanda: Bruce #1; Madonna #8
  • Escócia: Bruce #1; Madonna #4
  • Itália: Bruce #1; Madonna #2
  • Alemanha: Bruce #1; Madonna #5
  • Holanda: Bruce #1; Madonna #2
  • Bélgica (Valónia): Madonna #2; Bruce #3
  • Bélgica (Flandres): Bruce #1; Madonna #2
  • Finlândia: Bruce #3; Madonna #7
  • Suécia: Bruce #3; Madonna #10
  • Noruega: Bruce #1; Madonna #6
  • Austrália: Bruce #1; Madonna #2
  • Nova Zelândia: Bruce #1; Madonna #5
Como podemos ver, as tabelas até agora dão a vitória a Bruce Springsteen em quase toda a linha. Faltam ainda alguns resultados importantes, como o de França (Madonna tem 10 datas no Grand Rex, em Paris), o de Portugal (que Madonna deve ganhar facilmente) e claro, o dos Estados Unidos. As primeiras notícias dão conta de uma vitória tangencial de Madonna em casa, por apenas 25 mil cópias. O que na prática significa que Madonna não vendeu mais álbuns, mas com a ajuda dos bilhetes e do "ticket bundling", pode agora dizer que o seu álbum foi número 1 nos EUA. Uma vitória pírrica, portanto.

Há várias reflexões a fazer aqui. Em primeiro lugar, o facto de estarmos a falar numa batalha entre dois artistas que tiveram o seu auge comercial há 35 anos significa que nos faltam ícones hoje para despoletar o mesmo nível de paixão; aquela cegueira que faça fãs irem insultar o álbum de outro artista só para defender a sua dama. E mais que isso, este truque do "ticket bundling", que é mais um sinal de aviso que os miúdos não estão a comprar discos. Ainda há poucas semanas tivemos o Ed Sheeran a esgotar a Luz por duas noites e a regressar ao topo das tabelas em Portugal com um álbum que lançou há dois anos. É ele quem carrega a tocha de saber o que fazer nos dias de hoje e levar os miúdos a comprarem discos outra vez. Mas se é no Ed Sheeran que depositamos todas as nossas esperanças, então estamos condenados.

domingo, 16 de junho de 2019

Era uma vez no Oeste — "Western Stars", o maravilhoso novo disco de Bruce Springsteen

Hoje à noite, as estrelas do Oeste vão brilhar outra vez

Que maravilhosa surpresa. Aos 69 anos, numa altura que já poucos esperavam, Bruce Springsteen volta a sacar de um clássico para o seu reportório e cimenta a sua posição como o melhor contador de histórias do último século. O Boss já nos acompanhou na fuga da raízes, já nos levou à orla da cidade e já nos conduziu pelo rio abaixo. Agora, em "Western Stars", Bruce senta-nos no banco do pendura da sua pick-up e dá-nos boleia rumo ao Oeste americano, com mais um set de histórias de vidas mundanas, embrulhadas num álbum rico, polido e cinemático.

"Western Stars" é o disco mais cinemático da discografia de Bruce Springsteen desde "Nebraska" de 1982. Mas se a paisagem de "Nebraska" era lúgubre, como um filme de Béla Tarr; as imagens evocadas por "Western Stars" são vibrantes, como um filme de Wes Anderson. Bruce descreveu este álbum como "a jewel box of a record" ("uma caixa de jóias de disco") e eu, que confesso, duvidei do entusiasmo do Boss, hoje confesso que não encontro melhor descrição para o seu décimo nono álbum de originais.

Há um pouco de toda a carreira de Bruce em "Western Stars": ouve-se a América de "The Rising" em "Tucson Train"; as histórias de "Tunnel Of Love" em "Western Stars" e "Moonlight Motel"; a atmosfera de "Devils And Dust" em "Drive Fast (The Stuntman)" e "Somewhere North of Nashville"; a inocência de "E Street Shuffle" em "Sleepy Joe's Cafe"; a riqueza de "Working On A Dream" em "There Goes My Miracle", "Sundown" e, na verdade, um pouco por todo o álbum. "Western Stars" é o sucessor natural do cânone sonhador de "Working On A Dream" (2009), o que faz todo o sentido, uma vez que este lote de canções remonta a esta altura.



"Western Stars" é lançado em 2019, mas a sua génese é antiga e o seu espírito ainda mais remoto. Segundo o que Bruce foi adiantando nas suas entrevistas ao longo dos anos, a ideia de um álbum de histórias do Oeste terá nascido antes do ano 2000, por alturas da Reunion Tour com a E Street Band. As gravações terão começado em 2010, depois da Working On A Dream Tour (2009) e das sessões de "The Promise" (2010), tendo o álbum sido sucessivamente posto na gaveta em detrimento de projectos (agora sabemos) inferiores, como "Wrecking Ball" (2012) e "High Hopes" (2014).

Bruce estava inseguro relativamente à reacção do seu público a "Western Stars" e com alguma razão, diga-se. A fanbase de Bruce é muito exigente, espera sempre que Bruce saque de um novo "Born To Run" e nunca fica satisfeito com menos que isso. Mas Bruce já não tem 20 anos e já não quer fugir da sua cidade natal (como contou em "Sprinsgteen On Broadway" (2018), agora vive a 10 minutos da casa onde nasceu). Por estes dias, ele quer pegar na sua pickup e contar as histórias das vidas perdidas que foi encontrando ao longo dos anos. E quer fazê-lo com a roupagem das canções da Pop sul-californiana do início dos anos 70, que despoletaram a sua imaginação quando ele era miúdo. É um álbum arriscado, que rompe com a estética clássica dos seus discos com a E Street Band, mas é ao mesmo tempo um álbum deliciosamente familiar. Bruce faz leves acenos ao seu passado, num álbum firmemente ancorado na eternidade. 

Os arranjos orquestrais são tão quentinhos e aconchegantes que só apetece abraçar a música. Mais que isso, estes arranjos opulentos conferem a "Western Stars" um estatuto de intemporalidade. O álbum foi lançado na sexta, mas após 5 audições, parece que estas canções estiveram sempre aqui. São canções que contam histórias de vida como a minha e vossa. São canções que, nestes tempos de divisão, chegam para nos juntar. São canções que, nestes tempos pesados, nos visam aliviar. Para todos nós que sentimos o peso do trabalho, das contas e de todos os problemas da vida, este álbum é um bálsamo que nos levanta o peso das costas.



Bruce usa a qualidade cinemática de "Western Stars" para desmistificar o mito cultural moribundo do sonho americano. No epílogo do álbum, o herói, incapaz de satisfazer as exigências do compromissos domésticos e da sociedade ("bills and kids and kids and bills"), entra na sua pickup e faz-se à estrada rumo à escuridão ("where nobody travels and nobody goes"), fechando assim o círculo de "Nebraska". Ele chama-nos à terra, com as suas histórias de heróis comuns com vidas partidas; e ao mesmo tempo, consegue pôr-nos a olhar para as estrelas.

Eu estou tão feliz com este álbum, que só me apetece abraçar o Bruce e assegurá-lo que está tudo bem; dizer-lhe que não há razão para inseguranças e que todos aqueles álbuns que ele tem na gaveta podem vir cá para fora. Depois de "Wrecking Ball" e "High Hopes", confesso que já temia que ele tivesse perdido a sua musa. Queria muito que este álbum fosse bom. Foi muito melhor do que eu esperava. Obrigado, Bruce.

P.S.: Este é apenas um dos projectos que Bruce Springtseen tem na calha para os próximos tempos. Bruce já revelou que tem pronto um lote de canções para gravar com a E Street Band e para lançar num álbum em 2020. Antes disso, ainda em este ano, a quadra natalícia deverá trazer-nos uma nova mega-caixa com gravações antigas, que vai suceder a "Tracks" de 1998. Este ano é também o 35º aniversário de "Born In The U.S.A." (1984) e o material que foi gravado nessas sessões é tanto, que vai certamente acontecer uma caixa expansiva do álbum, à semelhança do aconteceu com "Born to Run: 30th Anniversary Edition" (2005), "The Promise: The Darkness on the Edge of Town Story" (2010) e "The Ties That Bind: The River Collection" (2015). Se quiserem ter uma ideia do que ficou para trás nas sessões de "Born In The U.S.A" e do que poderia ser um segundo disco deste álbum, ouçam o podcast do London Calling — Murder Incorporated – O segundo disco de Born In The U.S.A..

domingo, 8 de abril de 2018

"Tunnel Of Love", um álbum de amores impossíveis

Um olhar sobre o álbum mais negligenciado da discografia de Bruce Springsteen

"Bobby said he'd pull out, Bobby stayed in / Janey had a baby, wasn't any sin / They were set to marry on a summer day / Bobby got scared and he ran away".
Contos de fadas? Onde é que isso já vai. A história que Bruce Springsteen traz em "Spare Parts" não é edificante, não vem em contos de fadas e muito menos espera um final feliz. Mas é uma história da vida real e é apenas uma de muitas narrativas de desolação que assolam o álbum "Tunnel Of Love". Mas deixem-me enquadrar-vos primeiro.

Bruce anunciou esta semana o lançamento em vinil da segunda vaga da sua discografia, a qual compreende o período em que foi efectivamente um artista a solo, isto é, sem o suporte da sua E Street Band a tempo inteiro. Entre o fim da digressão de "Born In The U.S.A." e o reatamento definitivo em 1999, a E Street Band só se juntou na Tunnel Of Love Express Tour (de onde saiu o "Chimes of Freedom", EP também incluído nesta caixa) e na breve reunião de 1995 para o lançamento da colectânea "Greatest Hits", que deu também lugar ao filme e correspondente EP "Blood Brothers" (aqui pela primeira vez em vinil).

Foi um período de 10 anos de música mais introspectiva e menos acessível, globalmente menos inspirada, mas nem por isso desprovida de interesse. Principalmente quando falamos do primeiro disco desta vaga — o tormentoso "Tunnel Of Love", um lote de canções que Bruce achou demasiado pessoal para serem levadas à E Street Band.

"Tunnel Of Love" é a jóia mais negligenciada da discografia de Bruce Springsteen, muito por culpa das expectativas de quem esperava um segundo volume de "Born In The U.S.A.". O que até vem a calhar, uma vez que é de expectativas goradas que o álbum trata. Aqui não há cavaleiros brancos, nem princesas em castelos. Há, sim, personagens reais, homens e mulheres mutilados pela vida, readaptados a ciclos sucessivos de frustrações e desencontros. É um álbum de amores impossíveis.



Se a lírica é brutalmente honesta, a sonoridade do disco representa uma viragem em cotovelo do que se ouvira em "Born In The U.S.A.". O início cru, acappella, revela à cabeça que o sucesso do seu álbum blockbuster lhe trouxe tudo, menos aquilo que Bruce realmente queria:
"I got the fortunes of heaven in diamonds and gold / I got all the riches, baby, any man ever knew / But the only thing I ain't got, honey, I... ain't got you"
"Tunnel Of Love" foi gravado em pleno processo de separação de Bruce. E isso ouve-se. Olhando para o nome, poder-se-á afirmar que é um álbum sobre amor. E é, de certa forma. Mas não no sentido romântico da palavra; não na mesma medida que, por exemplo, "The Ties That Bind", disco que escrevera 8 anos antes (e que ficou na gaveta em detrimento do mais amplo "The River"). "The Ties That Bind" era sobre o compromisso, sobre a responsabilidade de escolher uma pessoa para viver para sempre. Mas 'para sempre' é muito tempo e nesta altura, Bruce já viveu o suficiente para perceber que não há contos de fadas.

Dez anos antes, ele já fora o sonhador em "Born To Run" e já tinha embatido contra a realidade do mundo em "Darkness Of The Edge Of Town". Mas estas eram ainda as ilusões e desilusões de um jovem a quem faltava viver a vida. Os anos 80 deitaram Bruce, firme, de cabeça no chão e resultaram no desmoronamento do seu casamento e na escrita de discos sombrios como "Nebraska" e boa parte de "Born In The U.S.A." (vão lá ouvir com atenção as letras do tema-título e de "Dancing In The Dark", por exemplo). Chegados a 1987, onde antes havia compromisso, agora há traição. Onde havia inocência, agora há cinismo. Onde havia um casamento, agora há um divórcio.
"So tell me who I see when I look in your eyes? / Is that you, baby, or just a brilliant disguise?"


Como a toda discografia de Bruce, é preciso chegar a um determinado capítulo da nossa vida para fazer match com a vida de Bruce e perceber devidamente a música. No caso de "Tunnel Of Love", se nos estamos a relacionar com as canções, é sinal que as coisas nesse momento não estão a correr muito bem. A mim, já serviu de banda sonora para uma discussão de breakup que durou cinco horas. Cinco horas. Deu para ouvir o álbum todo mais de 6 vezes (sim, eu fui lá virar o disco 12 vezes).

Os mais cépticos do Boss (Brucépticos?) dirão que "Tunnel Of Love" foi uma tentativa de abarcar o mercado do Adult Contemporary. Mas a música que ouvimos aqui, por muito 'Oceano Pacífico' que possa soar, é tão somente o espelho do estado de alma de Bruce em 1987. Indiferente aos milhões que "Born In The U.S.A." lhe ofereceu (até porque o sucesso profissional não lhe deu trouxe felicidade a casa), Bruce continuou a escrever canções sobre o homem comum, com as quais todos nos podemos relacionar. Ryan Adams disse esta semana que este é um álbum que vos vai salvar a vida umas quantas vezes. A minha já salvou.

"Tunnel Of Love" é um álbum de amores impossíveis mas nem por isso traz uma perspectiva niilista ao amor, terminando com uma nota de esperança em "Valentine's Day": "So hold me close honey, say you're forever mine / And tell me you'll be my lonely valentine". Como diz em "Spare Parts", somos todos uma amálgama de peças avulsas que luta por manter o mundo a andar à roda. E foi isso que Bruce fez.

Enquanto gravava "Tunnel Of Love", Bruce aproximou-se da cantora que fazia backing vocals na E Street Band e cuja presença se sente um pouco por todo o álbum. Ele e Patti Scialfa acabaram por se juntar pouco depois e estão juntos até hoje. Não foi bem 'felizes para sempre' — 'para sempre' é muito tempo —, mas até ver, foram 31 anos. Um amor possível, portanto. Não será isto um conto de fadas?

P.S.: O título da crónica foi roubado ao novo livro da Inês Meneses, radialista do "Fala Com Ela" na Radar, "PBX" com Pedro Mexia e "O Amor é…" com Júlio Machado Vaz. Todos programas de audição recomendada.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Quilómetros de música — Uma viagem pelas 10 melhores canções sobre estrada, automóveis e roadtrips

Uma lista para ouvir de pedal a fundo.

A relação do automóvel com a música é tão antiga como a paixão do homem pela própria máquina. A partir do momento em que se tornou um meio de transporte acessível às massas e passou a fazer parte do nosso quotidiano, acompanhando-nos para todo o lado, o automóvel tornou-se numa musa de inspiração. Há um conforto que só aquela máquina solitária, cega, surda e muda nos pode oferecer. O triângulo amoroso homem-música-automóvel foi estreitado com o advento do auto-rádio, que tornou o próprio veículo num local privilegiado para audição de música, com vista cinemática para a paisagem lá fora.

É no espírito da celebração deste casamento perfeito entre a música e o automóvel que proponho uma viagem pelos 10 melhores temas sobre estrada, automóveis e roadtrips. Algumas escolhas são óbvias, outras talvez nem tanto, mas todas são prova que a relação entre o homem e a sua querida máquina automóvel é melhor explicada com guitarras eléctricas em volume máximo. No fim ainda ficam com a playlist do Spotify. Para ouvir de pedal a fundo.

10. AC/DC — "Highway To Hell" ("Highway To Hell", 1979)



Não podia faltar. Bem sei que ao mesmo tempo que clicavam neste post, já estavam a fervilhar com a a vossa própria lista das canções que tinham que estar aqui e grande probabilidade há que "Highway To Hell" fosse uma delas. Aqui a têm. Estamos numa auto-estrada a caminho do inferno e ainda bem, porque hell ain't a bad place to be.

9. The Clash — "Brand New Cadillac" ("London Calling", 1979) 



Qual carro clássico, sucessivamente tratado com pinturas renovadas ao longo dos anos, "Brand New Cadillac" foi originalmente um tema rockabilly de Vince Taylor and his Playboys em 1959 — incluído como Lado B do single "Pledgin' My Love" — e levou múltiplas roupagens nas 6 décadas seguintes. Em 2014, o tema foi regravado pela enésima vez para utilização num anúncio da Cadillac, mas nem essa, nem nenhuma outra toca sequer na versão dos The Clash.
Em 1979, vinte anos depois do seu lançamento original, os The Clash gravaram uma versão portentosa de "Brand New Cadillac" para o seu álbum seminal "London Calling" e deram com esta versão toda uma nova dimensão de coolness ao Cadillac.

8. Guns N' Roses — "Dust N' Bones" ("Use Your Illusion I", 1991)



Se achavam que isto ia ser uma lista de musiquinhas para acompanhar anúncios sorridentes de automóveis para a TV, esqueçam lá isso. Nem todas as viagens terminam com uma chegada em segurança e "Dust N' Bones" é certamente um desses casos:

"All about some guy who gets his brains all splattered on your beloved motherfuckin' Highway 65."

Axl Rose introduz desta forma elucidativa aquele que é um dos temas mais niilistas dos Guns ("in the end we are just dust n' bones"), num concerto em 1991 no Estado de Indiana, por onde passa a Interstate 65. É uma das melhores contribuições de Izzy Stradlin para os caóticos Use Your Illusions, mas não é propriamente um tema para abrir o vidro e meter a cabeça de fora da janela. A não ser que ao mesmo tempo passe um camião em sentido contrário.

7. Eagles — "Take It Easy" ("Eagles", 1972)



Por falar em meter a cabeça de fora da janela, eis a canção perfeita para o efeito. A discografia dos Eagles pode ser caracterizada na generalidade como o arquétipo de "música de estrada". Não que eles tenham inventado o conceito, mas adoptaram-no do imaginário americano do Country Rock e da Americana e exploraram-no até ao limite. São os próprios que admitem que adoptaram essa estratégia comercial na sua música.
"Take It Easy", como tantas canções dos Eagles, preenche o vácuo mental de quem vai ao volante com paisagens e histórias dramáticas de vidas mais interessantes e perigosas que as que vivemos. Pela capacidade de teleporte, é a banda sonora cinemática perfeita tanto para uma roadtrip no deserto, como para o regresso a casa ao fim de um dia no escritório.

6. Mark Knopfler — "Speedway At Nazareth" ("Sailing To Philadelphia", 2000)



Que a música dos Dire Straits é do melhor combustível para a condução, não é segredo para ninguém. Mark Knopfler reconheceu esse potencial em 1982, ao fazer-nos companhia no trânsito com o épico "Telegraph Road"("six lanes of traffic, three lanes moving slow"). Por isso não foi surpresa que quando Knopfler decidiu fazer um álbum sobre o imaginário americano na viragem do milénio – "Sailing To Philadelphia" –, o escocês tivesse aproveitado o potencial automobilístico da sua música com o superlativo "Speedway At Nazareth". O tema nasceu das conversas que Knopfler teve ao longo dos anos com o seu amigo sueco Stefan Johansson – antigo piloto de Fórmula CART e Fórmula 1 – e conta a história de uma temporada das corridas da NASCAR, utilizando-a como uma metáfora para a vida. Impossível não meter prego a fundo no acelerador quando se ouve o solo de guitarra final.

5. The Stills–Young Band — "Long May You Run" ("Long May You Run", 1976)



"Long May You Run" é uma carta de amor adorável de Neil Young a um veículo, com uma inspiração ligeiramente mórbida. Se gostam do tema e não querem ser spoilados com a sua verdadeira origem, é melhor pensarem bem antes de continuar a ler.
Na verdade, "Long May You Run" é uma homenagem de Neil ao seu querido Mortimer Hearseburg ("Mort"), um Pontiac de 1948 que foi o seu primeiro carro e era um... carro fúnebre. Neil Young não o utilizava para esse efeito, mas talvez aproveitasse o espaço lá atrás para umas belas sestas nas suas roadtrips. Foi precisamente numa dessas viagens ao volante do seu Mort – entre Toronto e Los Angeles – que Neil conheceu Stephen Stills e juntos formaram os Buffalo Springfield. Os dois continuaram a colaborar ao longo da década seguinte nos CSNY (Crosby, Stills, Nash & Young), mas quando estes se zangaram na mega-digressão de estádios em 1974, Stills e Young decidiram continuar onde tinham ficado nos Buffalo e lançaram "Long May You Run" em 1976.
Quanto ao Mortimer Hearseburg, o veículo acabaria por morrer em Junho de 1965, quando a caixa de velocidades rebentou em Blind River, Ontario (embora a letra diga que foi em 1962).

4. Tom Petty & The Heartbreakers — "Runnin' Down A Dream" ("Full Moon Fever", 1989)



E eis que chegamos ao mestre incontestável das roadtrips. A lírica cinemática, o solo que convida a carregar no acelerador, está aqui tudo. Tom Petty sabia como ninguém curar a banda sonora para uma viagem ao volante de um automóvel. A sua música evocava a pureza da descoberta, a inocência da aventura, a curiosidade pelo desconhecido.

"I felt so good like anything was possible."

"Runnin' Down A Dream" fala sobre as diferentes etapas da vida no contexto de uma roadtrip. Esteja a fazer sol lá fora ou a chover, o optimismo é uma constante, porque estamos a correr para o sonho:

"I put the pedal down to make some time, there's something good waitin' down this road."

Tom personificava o idealismo do coração americano pré-11 de Setembro, quando a amabilidade e o espírito aventureiro se sobrepunham à paranóia do desconhecido. Perdemos o músico na semana passada, mas ele deixou-nos o legado que nos vai acompanhar para sempre ao volante.

3. Steppenwolf — "Born To Be Wild" ("Steppenwolf", 1968)



Música central do épico motoqueiro "Easy Rider" de 1969, este é o tema pelo qual todos os outros nesta lista de alguma forma se guiaram. "Born To Be Wild" foi lançado originalmente no álbum homónimo dos Steppenwolf em 1968 e posteriormente usado em inúmeras bandas sonoras incluindo, obviamente, "Easy Rider", filme que projectou o tema a hino eterno dos motores.

2. Deep Purple — "Highway Star" ("Machine Head", 1972)



O expoente máximo da história de amor entre o homem e o automóvel. "Highway Star" retrata o automóvel como extensão natural do homem; como catalisador das suas emoções; como mulher-troféu que é mais bonita que todas as outras e que anda mais que todas as outras.
O tema nasceu no autocarro dos Deep Purple a caminho de Portsmouth em 1971, quando um jornalista perguntou à banda como era o sue processo de composição e Ritchie Blackamore – só para demonstrar – pegou numa guitarra acústica e inventou um riff, ao mesmo tempo que Ian Gillian improvisava a letra com uma declaração de amor ao seu carro. O tema foi criado ali, na hora, e tocado pela primeira vez nessa mesma noite. Seria gravado em Dezembro desse ano em Montreux e lançado no seguinte como tema de abertura do álbum "Machine Head".
"Highway Star" é pedal a fundo do princípio ao fim, a música perfeita para conduzir.

20-11. Menções honrosas

10 temas que não entraram na lista, mas poderiam ter entrado.

20. Tom Cochrane — "Life Is A Highway"
19. Saxon — "Wheels Of Steel"
18. The Kinks — "Drivin'"
17. ZZ Top — "I'm Bad, I'm Nationwide"
16. Brian May — "Driven By You"
15. Iggy Pop — "The Passenger"
14. The Doors — "Roadhouse Blues"
13. The Rolling Stones — "Start Me Up"
12. Queen — "I'm In Love With My Car"
11. Golden Earring — "Radar Love"

1. Bruce Springsteen — "Born To Run" ("Born To Run", 1975)



"I gotta know how it feels. I wanna know if love is wild. I wanna know if love is real."

Muito mais que uma música sobre conduzir, "Born To Run" é uma música sobre fugir. A estrada como a vida; o carro como a fuga; o assento do pendura como metáfora do casamento. É o jovem sonhador Bruce Springsteen a definir quem era e ao que vinha. Uma canção maior que o automóvel, maior que a estrada e maior que a vida. Porque a vida não é nada mais que uma longa – por vezes tranquila, por vezes tortuosa –, mas sempre fascinante estrada.



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

"Prova um pouco disto, vai mostrar-te onde estás. Ou pelo menos vai ajudar-te a sentir"

Bruce Springsteen vem ao Rock In Rio 2016. Como foi da última vez?



Rejubilem. Bruce Springsteen voltará a Portugal em Maio, 4 anos depois do seu último concerto no Rock In Rio Lisboa e 2 anos depois do cameo em "Tumbling Dice" com os Stones. A reacção nas redes sociais foi forte e outra coisa não seria de esperar. Não há outro artista a quem eu já tenha visto tamanha devoção, como a Bruce Springsteen. As pessoas não amam só a música dele, as pessoas amam o homem; amam-no incondicionalmente e seguem-no para todo o lado, como se de uma religião se tratasse. São décadas disto. Eu falo à vontade do assunto, porque eu próprio sou um devoto (planeio vê-lo 3 vezes este ano: LA, Lisboa e Madrid). E Bruce retribui essa devoção ao vivo, despejando o depósito noite após noite.

Para quem nunca o viu ao vivo, para quem nunca "sentiu", toda esta divagação pode soar estranha e exagerada. "É só um gajo a cantar!", disse-me uma vez um radialista céptico. Negativo. É muito mais que isso. Mas só se compreende estando lá, não há volta a dar. Agora que ele vem "cá" outra vez, a melhor forma para lançar o novo concerto é recordar o que escrevi poucas horas depois do fim do último, ainda de sobremaneira afectado pelo êxtase e pela falta de sono. Aqui vai:

Nota prévia: Se não estão preparados para (mais) um texto cheio de superlativos e loas a Bruce Springsteen, devem abandonar desde já este espaço. Aqui sempre se adorou, adora-se e vai continuar a adorar-se o Boss.

Segunda nota prévia: Por volta das 21:30 de ontem, a meio do concerto dos James no Palco Mundo, Tim Booth deu o mote para o que se passaria umas horas mais tarde. No alto daquele ar pálido de ex-presidiário em tentativa de reinserção na sociedade, Tim contou uma história que terá marcado o fim da sua adolescência rebelde:

"I was a 16 years old punk rocker, all my role models were self destructive. I was into the Sex Pistols and Iggy Pop and a 100 other tortured artists who wished to come on stage and cut themselves for people's entertainment.
And then... when I was 17, a friend of mine bought me a ticket to see a concert in Birmingham. I didn't wanna go, because I didn't like the guy's music. And they dragged me along to this guy's concert and after the 3rd song, I was standing up with the biggest smile on my face. That was Bruce Springsteen & The E Street Band.
They showed me another kind of artist that doesn't have to burn himself out... That doesn't have to cut themself for people's entertainment. They showed me a new way of being onstage. So, it's a great pleasure to be here this evening, with you and with them.
We need more role models like Bruce Springsteen. I needed one."

Bruce Springsteen & The E Street Band ao vivo, como uma "life changing experience", onde é que eu já ouvi isto? É uma história cujos contornos são comuns a milhares de pessoas em todo o Mundo e que ontem foi partilhada por muitas mais. Depois do espectáculo sensaborão de Alvalade em 1993 com a Other Band (sim, a "outra" banda de Bruce foi mesmo baptizada desta forma imaginativa), havia uma clara onda descrente em relação ao Boss no nosso país. Até ontem. Ou melhor, até hoje, porque o Boss demorou a chegar e quando entrou no Palco Mundo do RiR, já passava das 0:00 de 4 de Junho de 2012.

Bruce demorou, mas quando chegou, não defraudou as expectativas e deu aquele que foi (para mim) o melhor (e mais longo?) concerto do festival. Foi mais que um concerto, foi uma experiência. Vou ter que escrever qualquer coisa sobre o que presenciei, mas não sei ao certo o quê, uma vez que ainda estou em êxtase pós-orgásmico. Por onde começar?
Foram 2 horas e meia de masturbação emocional colectiva. Um turbilhão de emoções. Milhares de vidas que nunca mais serão as mesmas. Porque a partir de ontem, para essas pessoas houve qualquer coisa "lá dentro" que mudou, uma paixão que acordou. Foi assim que aconteceu com Tim Booth na sua juventude, foi assim que aconteceu com o meu melhor amigo que, tal como Tim, também eu "arrastei" para o concerto de ontem. E tal como Tim, também ele deu por si com um sorriso idiota na cara ao fim do 3º tema. São muitos anos a arrancar sorrisos a carrancudos.

Desde as 2:30 de hoje, hora que arrancaram Bruce do palco com fogo-de-artifício, que a imprensa se rendeu e multiplicou loas ao Boss, elegendo a sua actuação como o ponto alto do Rock In Rio 2012. Mas não só. Hoje já li críticas que vão desde "o concerto do festival", passando pelo "concerto do ano", até ao "concerto da década”. Como disse ontem Bruce, após um "Twist And Shout" já com foguetes ao fundo: "You've just experienced the legendary E Street Band!". Ninguém se pode queixar que não foi avisado. Na introdução de "Spirit In The Night" (tema de onde é retirado o título desta crónica), Bruce revelou ao que vinha :
"The E Street Band has come thousands of miles, just to be here in Lisbon tonight. And we've come here on a mission!
We're gonna bring the power! We're gonna bring the glory! We're gonna bring the fun! We're gonna stimulate your sexual organs, with the power of Rock N' Roll!
Can you feel the spirit? Can you feel the spirit now?"



E assim foi. Depois de 3 dias consecutivos de Rock In Rio, hoje estou de rastos. Sem voz, com a garganta rebentada e já não sinto pernas, pés ou costas. Estou mais morto que vivo, mas estou feliz. Com o tal sorriso idiota na cara.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Bruce Springsteen: 40 anos de "Born To Run" — Um ensaio sobre o sofrimento

Quem mais nos poderia fazer reflectir sobre a importância de um estado de espírito do qual fugimos toda uma vida?


"Why do we suffer? I got the answer to that one: because we have to! What would life be?"
"Por que sofremos? Eu sei a resposta: porque temos que o fazer! Como é que seria a vida?"
É com esta reflexão sobre o sofrimento que Bruce Springsteen abre o filme "Wings For Wheels" — o premiado documentário que mostra o making of de "Born To Run", álbum que comemorou 40 anos na semana passada.

"Born To Run" foi o álbum que lançou Bruce Springsteenpara o estrelato em 1975, atirando-o para as capas das revistas Time e Newsweek na mesma semana. Mais importante que isso, foi a obra que definiu a carreira de Bruce, onde este introduziu os personagens que o seguiram nas décadas seguintes, personagens que deram asas à nossa imaginação e com as quais nos pudemos identificar tantas e tantas vezes. Como disse Jon Stewart aquando da condecoração de Bruce nos Prémios Kennedy:

"When you listen to Bruce’s music, you aren’t a loser. You are a character in an epic poem... about losers."
"Quando ouves a música do Bruce, não és um falhado. És um personagem num poema épico... sobre falhados."

Segundo Bruce Springsteen, "Born To Run" é um conjunto de histórias épicas que poderiam decorrer todas "numa interminável noite de Verão". São histórias que dançam à volta de uma motivação, de uma vontade: FUGIR. Há por todo o álbum um sentimento que uma jornada importante se aproxima, um momento que vai definir a nossa vida. O sentimento é de urgência, de fuga das raízes. É preciso fazer alguma coisa para mudar uma vida que não nos satisfaz e é preciso fazê-lo urgentemente. Querer ir embora daqui, sem saber ainda para onde. Na verdade, isso não importa, desde que seja para longe. Não há certezas, a não ser de que aqui, nesta vida, já não dá. Vamos fugir.

Mais cedo do que tarde, inevitavelmente percebemos que os problemas fogem connosco e nada corre como tínhamos planeado. É a vida. Somos obrigados a chocar com ela de frente e a música de Bruce Springsteen parece servir de manual para saber como fazê-lo. Ou pelo menos para perceber que não estamos sozinhos. Que alguém, há muitos anos, muito longe de nós e em circunstâncias diferentes, passou pelo mesmo. Bruce mostrou que o sofrimento é sentido por todos e é sentido da mesma forma. Com "Born To Run", Bruce Springsteen uniu pela primeira vez milhões de pessoas à volta de um sentimento, de uma vontade, de uma urgência, de um sofrimento. É essa a força, é essa a magia de Bruce Springsteen.

Quem mais nos poderia fazer reflectir sobre a importância de um estado de espírito do qual fugimos toda uma vida? O sofrimento. Porque ninguém sabe sofrer como Bruce Springsteen.


Artigo publicado originalmente
na revista online New In Town (NiT), 
Quinta-Feira, 3 de Setembro de 2015