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domingo, 11 de fevereiro de 2018

Estamos vivos — Uma reflexão sobre o Rock em 2018

O labirinto que cerca o Rock e a procura de uma saída

O Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell em trabalho e rocker a tempo inteiro, mexeu com as águas esta semana. Bastou-lhe despejar a alma numas linhas de um jornal para que, neste mundo beije e insípido onde o politicamente correcto reina e todos temem ter uma opinião, ele fosse imediatamente notícia. Não estranho. Numa crónica publicada no Jornal de Leiria, o Fernando discorre sobre os cronistas de Lisboa "de todo o peido que a Madonna dá", que dão o Rock como "uma coisa ultrapassada, para gente “fatela” e “burra”". Ora, eu também sou um cronista de Lisboa e embora não me sinta um dos visados (ou não fosse um fellow rocker a tempo inteiro), o tema é por demais pertinente para me passar ao lado. Até porque se o assunto é Rock 'n' Roll (e a sua tão propalada morte), então é comigo também.

Concordo com o Fernando em grande parte do texto. Adorei a metáfora da família do Rock "sentada à mesa, a comer com as mãos, a beber da garrafa e a abanar a cabeça". Retrata bem essa maravilhosa maluqueira que é o Rock, que nos mantém indefectíveis mesmo quando partimos quatro dedos de um pé num moshpit no Alive, ou mesmo quando levamos um pontapé nas partes baixas num concerto dos Metallica — ambas comigo, sim. São ossos do ofício. É o prazer em quebrar as regras, um escape das nossas vidas mundanas. E é essa visão de família que sinto quando olho para o tio Axl a ajudar o tio Angus a repor o carvão no comboio dos AC/DC, para que este continue a rolar infinitamente por essa linha fora.

Relativamente à morte do Rock 'n' Roll, desde os anos 60 que ela é declarada semanalmente e no entanto ele continua aí. O Rock é dado como moribundo nas publicações, mas vemo-lo de boa saúde na venda de bilhetes para espectáculos — veja-se a loucura na procura para o Alive, para os Metallica e para os U2. É dado como fora de moda, mas a venda de t-shirts (até nas lojas mais mainstream) mostram que o Rock é que tem ainda as marcas mais cool do mercado. Por isso não se deixem levar pelas notícias — o Rock está bem vivo. O que não significa que o panorama seja só de rosas. Ignorar o complexo labirinto onde o Rock está colocado é contribuir para a sua marginalização. O que também não significa que seja um mau prenúncio. Mas vamos por partes.

O labirinto onde o Rock está metido é complexo. Por um lado, há um claro défice de investimento nas bandas Rock, tanto monetário por parte das editoras, como social por parte dos media. Sem o dinheiro nem a projecção de outros tempos, as bandas vêem-se com menos recursos e menos tempo para criar as obras grandiosas do passado. Os tempos dos adiantamentos de milhões para a gravação de um álbum já lá vão e isso, inevitavelmente, vai reflectir-se na qualidade do material. Porque por cada "Chinese Democracy" há um "A Night At The Opera" ou um "The Seeds Of Love".

Por outro lado, se esse investimento megalómano porventura existir (pela própria banda, por exemplo), o lucro com as vendas em formatos físicos não vai justificar a despesa. Os tempos mudaram e com as novas formas de ouvir música e a migração para as plataformas de streaming, o investimento na criação da música Rock — mais caro que a EDM ou que o Hip Hop, onde basta um laptop para "fazer" música — deixou de compensar. As bandas veêm-se encurraladas neste ciclo vicioso do qual é complicado sair. A solução que encontraram para recuperar rendimentos foram longas digressões após longas digressões, interrompidas por um "novo álbum", muitas vezes apenas como pretexto para ir novamente para a estrada. E por isso chegamos a este ponto curioso — perverso, até — em que numa altura que se ouve cada vez mais música, os artistas passem cada vez mais por dificuldades. O reavivamento do mercado do vinil e a aposta nos (meus tão amados) boxed sets veio equilibrar um pouco as coisas e a aposta na valorização da música é um dos caminhos, mas os puristas e os coleccionadores não deixam de ser apenas um nicho do mercado.

Antes que venham com a questão da pirataria, esqueçam. Ela sempre existiu e está aqui desmistificada. Porque não é a restringir a audição e a perseguir os ouvintes que os miúdos se vão apaixonar pela música, pelas bandas e pelas suas histórias, O que é preciso é deixar as pessoas apaixonarem-se pela música. As pessoas fazem as coisas mais incríveis por amor. Até comprar discos. Uma porrada deles.

Independentemente das vendas físicas, a transição para o streaming é evidente, pelo que terão que ser essas plataformas — que vieram, em parte, substituir o papel das "editoras" — a compensar melhor os artistas pela sua música e até a investir neles; mas isso implica uma negociação complexa, da qual estamos ainda muito longe. A não ser, claro, que estejamos a falar de "marcas" já estabelecidas, com poder de alavancagem suficiente para negociar. Foi o caso dos Beatles, que por causa disto mesmo, só recentemente entraram no Spotify. E aqui reside outra questão importante na marginalização do Rock — a falta de "marcas" novas.

Se pensarmos em cada banda (ou artista) como uma "marca", em que marcas é que os novos investidores preferem apostar? Se virmos as bandas novas axiomaticamente como marcas de risco e as bandas mais antigas e já estabelecidas como marcas seguras, a resposta é fácil. A falta de "marcas" novas acaba por ser o grande problema dos media, nomeadamente das publicações musicais, problema esse do qual são ao mesmo tempo réus e vítimas. Vítimas, porque não são eles os principais culpados do que está a acontecer, sendo apenas um peão (um cavalo, vá) nesse grande tabuleiro de xadrez; réus, porque não fazem nada para mudar o estado das coisas e deixam simplesmente a coisa andar, até finalmente afundarem elas mesmas — casos da NME, Rolling Stone e, obviamente, da Blitz.

Depois há a questão da projecção social. Com a falta de promoção por parte das editoras, as bandas são obrigadas a auto-promover-se. Mas o mundo está hoje pejado de um falso e pútrido puritanismo que disseca todas as opiniões (ou meros desabafos nas redes sociais), confunde a criação com o criador e tritura quem se atreve a pensar pela sua cabeça. Não é por isso fácil ser-se um jovem rocker com ideias fortes e vontade de transcender as regras. Se estas fugirem do status quo, um bocadinho que seja, cai uma shitstorm sobre ele e lá se vai o seu trabalho. Nem para os velhos a coisa está fácil. Perguntem ao Cid, humilhado por causa de uma piada; ou ao Reininho, indignadamente expulso de um programa da RTP. Ser um homem livre é algo que se paga e em Portugal paga-se a dobrar.

Com o panorama mirrado em "estrelas" beije e com pouco brilho, fica difícil vender revistas. Principalmente quando elas estão demasiado preocupadas em encaixar nos "novos tempos", ou então com medo de apostar em alguém com um discurso mais anguloso, não vá o alvo ser apontado para eles também. É de facto, um ciclo vicioso.

Há também o argumento que tudo está feito. Que o Rock está esgotado e só estamos a repetir os ases do passado. Isto é historicamente falso. Desde a sua invenção que o Rock teve a capacidade de se reinventar sempre —Prog, Punk, Metal, Grunge, Britpop, Indie e por aí fora. Há sempre espaço mais uma mutação. E porquê? Porque o Rock está sempre aí em quem o ama e olhem à vossa volta — somos muitos. Enquanto houver rockers, haverá Rock. E aqui recupero o argumento do início, que esta marginalização do Rock não tem de ser forçosamente um mau prenúncio. Porque todas as grandes explosões, todos os grandes movimentos do passado, começaram assim. Debaixo do radar. A mensagem continua a mesma do célebre concerto do Liceu D. Pedro V em Maio de 1979, onde os Xutos & Pontapés fizeram a sua segunda actuação ao vivoEstamos vivos. Pela minha parte, enquanto eu viver e me for dado espaço para difundir o Rock, nestas linhas ele viverá.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Toda a verdade sobre as lojas de discos em Lisboa

Guia completo com tudo o que precisam saber sobre onde ir e de onde fugir.

As notícias dizem que o mercado do vinil está em contínua subida, mas se falarem com os vendedores independentes vão ouvi-los defender que não é bem assim; ou pelo menos que não vêem uma fatia significativa do bolo desse tão badalado crescimento. É pena. Com as Amazons e as Fnacs cada vez mais poderosas e lucrativas e a crise ainda a tilintar na cabeça dos consumidores, não sobra muito para os verdadeiros carregadores do ceptro da cultura do vinil — as lojas de discos. E porque precisamos cuidar das coisas boas que ainda temos, é tempo de vos dar a conhecer quais as lojas que devem visitar em Lisboa (e referir aquelas com que não devem perder o vosso tempo). Mas antes disso, um pouco de contexto.

Sou um melómano inveterado e coleccionador obsessivo. Desde que esvaziei o meu primeiro mealheiro para comprar o "Greatest Hits I&II" dos Queen aos 8 anos, acumulei muita experiência em lojas de discos. Quando viajo não vou a museus, vou a lojas de discos. Em Lisboa, no fim-de-semana, em vez de ir à praia, vou a lojas de discos. Percebem a ideia. Foram muitos anos e muitos milhares de euros gastos a comprar discos todas as semanas, rua-acima, escadas-abaixo, crate-para-a-frente, prateleira-para-trás, eCooltra-para-aqui, metro-para-ali. A lista que vos trago representa o meu legado e esteve 10 anos in-the-making. 

Não sei se já repararam, mas levo isto muito a sério. Record shopping é o meu hobby, o meu yoga, a minha amante. Tal não significa que seja uma actividade solitária — só eu e os discos. Pelo contrário. Record shopping a dois é ainda melhor e não há nada como partilhar a paixão pela música com alguém especial. Chamem-lhe ménage a trois — um chavascal com o amor e a música. Mas hey, divago.

Em suma, record shopping é muito mais do que apenas "comprar discos". É uma experiência multi-sensorial (visão, olfacto e, obviamente, audição) que só pode ser devidamente cultivada a explorar as crates (caixas de discos) de uma lojinha perdida num qualquer recanto da cidade, enquanto se discute o estado e a história da música e do mundo com o senhor atrás do balcão. E é tão bom viver numa cidade como Lisboa, lugar privilegiado para record shopping. Com lojas para todos os gostos, escolha aqui não falta. Sem mais, sigamos então para a lista definitiva com tudo o que precisam de saber sobre as lojas de discos em Lisboa. São 20 lojas, devidamente organizadas por ordem de preferência. Boas descobertas.


Sound Club Vinyl Store
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 24,
1200-273 Lisboa

Uma arca do tesouro. Não se deixem enganar pelo pequeno tamanho da loja, porque se a área é diminuta, a densidade de discos é insana. Como todas as melhores lojas de discos do mundo (e acreditem, já fui a algumas), também a Sound Club é um caos. Um caos com personalidade própria e pérolas inesperadas em cada esquina e cada caixa. No fundo, a loja apenas reflecte a imagem do dono, vivendo consoante o mood do Alexandre Barbosa, um artista em nome próprio, record seller de dia e DJ à noite.
Ser atendido por ele é sempre uma experiência diferente. Se o apanharem num dia bom, podem desmarcar os planos que tiverem porque não vão sair da loja tão cedo, perdidos em conversas filosóficas sobre o mercado do vinil (o Alexandre defende que a subida é uma ilusão) e estórias e lendas e dossiers sobre a noite lisboeta (que ninguém conhece tão bem como ele). E podem também desmarcar o jantar, porque vão sair de lá de sacos cheios e o orçamento só vai dar para uma lasanha do Pingo Doce.
A primeira vez que fui à Sound Club, há mais de 10 anos (ainda estava no Largo da Trindade), questionei o Alexandre acerca da organização caótica da sua loja. A resposta ensinou-me aquele que é o verdadeiro espírito do record shoppinga beleza está na descoberta. Estar a procura de Beatles e levar Creedence. Querer o "Sgt. Pepper", levar o "Magical Mystery Tour" e descobrir que é ainda melhor. E é isto mesmo. É possível que a Sound Club não tenha o disco que procuram, mas tem de certeza o disco que precisam.


Carbono
R. Telhal 6B,
1150-323 Lisboa

Selecção riquíssima, porventura a maior de Lisboa. É impossível explorar a Carbono numa só visita, até porque há vários níveis de investigação, os quais podem ser identificados altimetricamente: nas caixas em cima, mais fáceis de analisar, estão os discos mais caros, seleccionados de acordo com a procura do público; nas crates do chão está tudo o resto, muitas vezes discos repetidos em igual ou melhor estado do que há em cima, mas marcados 5€ a 10€ abaixo. É a mergulhar nas crates que se descobrem as verdadeiras pechinchas. O pior é que os discos estão dispostos de forma aleatória e por isso vão ter mesmo que aguentar essas costas, com longas horas de cócoras.
O downside da Carbono é que é uma loja geralmente overpriced (embora haja lá muitas surpresas, se for bem investigada) e não dão muito espaço a descontos, mesmo com quantidades grandes. O upside é que se estão à procura de um disco, é muito provável que ele esteja na Carbono. Paragem obrigatória.


Discolecção
Calçada do Duque 53-A, 
1200-156 Lisboa

A loja do Sr Vítor Nunes é o David Lynch das lojas de discos em Lisboa. Fascinante, mas elusiva, charmosa, mas fugida. Adorava ir lá mais vezes, bastava que para isso ela estivesse aberta. Parece fácil, não é? Antes fosse, mas eu tenho mais dificuldade em encontrar a porta da Discolecção aberta do que o Dale Cooper tem em encontrar o portal para o Black Lodge. Às vezes penso que vivemos em fusos horários antípodas, tal é a taxa de nariz na porta que eu tenho na loja.
Lá dentro, a selecção discográfica é relativamente pequena, mas gloriosa e totalmente imprevista. Prensagens que nunca viram, discos que nem sabiam que existiam, é o que podem esperar aqui. E tudo fairly priced. Nunca se sabe que maravilha ou raridade se vai apanhar, mas é garantido que o Sr. Vítor consegue sempre sacar umas surpresas no seu espólio. Afinal, já são 20 anos disto.


Tabatô Records (Crew Hassan)
R. Andrade 8A, 
1170-014 Lisboa

Uma revelação. Não se deixem enganar pela inexistência de prateleiras com discos quando entram na loja, porque na verdade a Tabatô Records faz parte da Crew Hassan, que é um restaurante/bar/cooperativa-cultural/fuck-knows-what-else e para chegarem à parte que interessa, têm que entrar, cruzar o bar e descer as escadas até à cave. Ainda não estão convencidos pelo aspecto hippie? Calma. Cheguem-se às prateleiras e comecem a passar os discos enquanto o vosso queixo desce de estupefacção.
O core pode ser o Reggae e a música africana, mas a Tabatô tem “só” a melhor selecção de música portuguesa de toda a cidade. E mais ainda. Discos raros, álbuns impossíveis de encontrar num estado em que não pareça que foram lavrados por um tractor, é uma pérola atrás da outra. Os preços estão um pouco puxados para cima, mas os discos estão muito bem seleccionados e já sabem, a qualidade paga-se. Mas não se assustem, falem com o Bastien, que o rapaz é uma simpatia. Levem um porradão de discos e ele faz-vos uma atenção.
A loja é um filão escondido numa zona up-and-coming no coração de Lisboa e é de visita obrigatória. 


Glam-O-Rama
R. Viriato 12, 
1050-010 Lisboa

Selecção mais virada para o metal e música pesada. Se essa for a vossa praia, não sei o que é que ainda estão a fazer a ler isto, já deviam estar a caminho. A loja do Luís Lamelas é tão obviamente um produto da sua paixão que é impossível sair de lá sem nos apaixonarmos por ela também. O Luís é de uma amabilidade e disponibilidade impagáveis e se lhe pedirem ajuda, ele vai fazer das tripas coração para vos encontrar o disco que desejam. Ou então fazer de Spotify humano e sugerir algo que não conhecem, mas que ele de alguma maneira adivinhou que iam gostar (e não falha). Ou então apenas discorrer (quilo)gramas de sabedoria sobre a cena punk lisboeta dos anos 80. Tudo enquanto mergulham nas crates recheadas de bons discos a preços baixos. Atenção àquelas crates do chão, peçam-lhe o banquinho e percam ali uns minutos, que vale a pena. Visita essencial para collectors, obrigatória para metalheads.


Zero à Direita
R. Almeida Garrett 162A,
2785-338 São Domingos de Rana

Não é bem em Lisboa, não é bem uma loja de discos, não é bem uma loja sequer, mas vale a pena a viagem a São Domingos de Rana para conhecer o Vítor Aguiar e explorar o seu magnífico espólio discográfico e de áudio high-end. O negócio dele é feito maioritarmente pelo Discogs, o que é melhor em comodidade, mas isto de comprar discos sem contacto humano e visual não é a mesma coisa. A selecção é variada e a qualquer momento podem dar de caras com aquela irresistível prensagem japonesa que até há um minuto não sabiam que tinham que ter, mas agora não conseguem deixar para trás. É sempre um prazer fazer uma visita ao Vítor, tão voluntarioso que nada custa saírem de lá sócios dele.


Vinyl Gourmet
R. Lourenço Marques 4, 4º Dto, 
2685-326 Prior Velho

Também fora de Lisboa, também loja online e também com um showroom para visitas atempadamente agendadas. A selecção da Vinyl Gourmet é diferente das outras todas nesta lista, uma vez que é estritamente virada para audiófilos. A qualidade sónica é a palavra de ordem aqui. O Sérgio presta-vos um serviço premium a todos os níveis, desde a escolha da prensagem do álbum que procuram (sempre a melhor do mercado, desde que não esteja out-of-print), passando pelo embalamento do disco, até à sua manutenção ao longo do tempo. Caro, como é óbvio. Mas já sabem, a qualidade paga-se sempre e aqui não é excepção.


Magic Bus
Av da Liberdade 9, loja 6
1250-139 Lisboa

Mini-loja escondida numa pequena área comercial na Avenida da Liberdade (lado oposto ao Hard Rock), com uma selecção pequena mas cirúrgica de tudo um pouco. Recomendo vivamente uma visita porque encontram sempre uma ou outra pérola.
Recordo a primeira vez que lá fui (ainda a loja estava na Calçada do Duque — atenção que a informação do Google não está actualizada) e o senhor me deixou mexer na caixa de singles dos The Smiths da sua própria colecção (nem estava para venda) enquanto suava nervosa e compulsivamente, provavelmente a ver a sua vida a andar para trás. No fim, passou com distinção o teste da paciência com o cliente. Podem também encontrá-lo nas feiras do LXFactory aos fins-de-semana.


Largo (Books & Records Megastore)
Largo do Intendente Pina Manique 18, 
1150-041 Lisboa

Outra loja elusiva. Encontro o senhor dos discos mais vezes nas feiras de vinil do Park e na feira da ladra, que na sua loja do Largo do Intendente. A loja deixou recentemente de ter também livros, dedicando-se a partir de agora somente à música. E ainda bem, que o senhor dos livros não transpirava simpatia (ao contrário do senhor dos discos, que é impecável). A selecção discográfica é bastante interessante, com a maioria dos discos em excelente estado e a preços razoáveis. Tem também uma parede deliciosa, forrada a bandas sonoras.


Mau Génio
Estr. de Benfica 731A. Centro Comercial Nevada, Loja 9,
1500-089 Lisboa

No Centro Comercial Nevada, bem no coração de Benfica, a Mau Génio fica um pouco fora de mão para quem vive no centro de Lisboa, mas a viagem vale muito a pena. Isto porque o Nevada é um dos últimos sobreviventes dos centros comerciais pequenos dos anos 80 e é por isso também uma viagem até à infância, principalmente para quem, como eu, sente saudades daquelas lojas maravilhosamente claustrofóbicas. Não estou a brincar. Estou farto do design minimalista das Apple Stores, o que eu gosto mesmo é de ter a vista ocupada com tanta coisa, que põe a minha cabeça a andar à roda. Mais que uma loja de discos — dos quais tem uma selecção muitíssimo interessante, também disponível online —, o core da Mau Génio é a quantidade babilónica de CDs e DVDs que enchem a loja (literalmente) até ao tecto. Uma vista impressionante.


Groovie Records
Rua de São Paulo, 252
1200-399 Lisboa

Fuck knows. Adorava ir à loja e dizer-vos como é (o feedback que tenho é bom), mas já perdi a conta ao número de eCooltras que aluguei para dar invariavelmente com o nariz na porta. O que me vale é que a viagem nunca é perdida, porque tenho ali ao lado a Tabacaria para beber um daqueles morteiros picantes e dar gás para a viagem de volta de eCooltra. De táxi, queria dizer. Depois volto para casa de táxi. É isso.
Adenda: Consegui finalmente encontrar a loja aberta e vale muito a pena a visita. A selecção é variada e tem particular foco no Garage Rock. A loja tem a sua própria label e promove artistas em ascensão com edições cuidadosamente curadas. O atendimento também é impecável.


T'N'T
R. de Campolide 54C, 
1070-037 Lisboa

TNT é nome de explosivo e de um tema dos AC/DC, mas o baptismo da loja vem dos nomes do Tó e da Ticha, casal de roqueiros e donos da loja de discos mais Rock N' Roll de Lisboa. Fora do circuito do Bairro Alto, e mais parecida com uma loja de bairro, a visita ao T'N'T vale pela conversa com a Ticha, que nos enche com a sua simpatia e as suas estórias com olhos a brilhar de quando conheceu os seus ídolos. A paixão pelo Rock N' Roll bate forte aqui.


Vinil Experience
Rua do Loreto 65, 
1200-471 Lisboa

Sabes que estás numa loja de discos quando o dono parece o Neil Young. A Vinil Experience é uma pequena loja no primeiro andar da Rua do Loreto, melhor encontrada pro quem desce a Rua da Atalaia. Loja mais virada para o Prog e Rock psicadélico, tem uma invejável vitrine com boxed sets e várias salas com oferta para todos os gostos. As selecção de caixas é única em Lisboa e de esvaziar a carteira ou chorar por vê-la cheia.


Flur
Avenida Infante D. Henrique, Armazém B4 Cais da Pedra - Santa Apolónia, 
1900 Lisboa

Loja eclética em Santa Apolónia, ao pé do Lux.  Ideal para uma visita depois de um bom almoço num dos restaurantes no Cais da Pedra, a Flur é mais virada para a música electrónica, mas tem um pouco de tudo nas prateleiras. Muito procurada pelos DJs puristas que só passam vinil. Se quiserem saber o que anda a passar nos bares, é fazer-lhes uma visita.


Peekaboo Records
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 35,
1200-273 Lisboa

Loja no terceiro piso do Espaço Chiado gerida pelo DJ Trol2000 (Rodrigo Alves), é focada no Disco e Soul, mas tem uma selecção muito interessante de música ambiental e experimental, com discos que não é habitual encontrar noutros locais.


Discoteca Lisboa
Rua dos Fanqueiros 166, 
1100-232 Lisboa

Loja com uma selecção eclética e imprevista, mas mais virada para a música folk portuguesa para alimentar a procura dos turistas que povoam a área. Se explorarem as crates, vão encontrar algumas belas surpresas.


Carpet & Snares Records
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 28,
1200-273 Lisboa

A Carpet & Snares é local de passagem sempre que vou a caminho a caminho da Sound Club. Não tenho nada a apontar à loja, mas como é virada para a música electrónica (dubstep, house, techno) e essa não é a minha praia, nunca a explorei. Se gostarem do estilo, dêem lá uma saltada e avaliem vocês mesmos.


Amor Records
Tv. do Marquês de Sampaio 14, 
1200-109 Lisboa

A loja é recente e nunca lá fui espreitar para ver como é. Culpa minha, neste caso. O projecto é uma aventura de 3 imigrantes brasileiros apaixonados pela música e só pela paixão, merecem uma visita. Já comuniquei com eles por mensagem e sempre foram prestáveis.


Pretérito Perfeito
R. Sampaio Bruno 39, 
1350-149 Lisboa

Mais um punhado de viagens de eCooltra perdidas. Meu, atende-me lá a campainha, que eu quero gastar aí umas notas.


Louie Louie
Esc. do Sto. Espírito da Pedreira 3,
1200-290 Lisboa

Uma tourist trap. Selecção paupérrima e overpriced, mas pior que tudo é o atendimento abominável. De uma antipatia e agressividade inenarráveis, representa a completa antítese da experiência desanuviadora que é record shopping. Se querem espairecer e gastar o vosso dinheirinho, há muitos locais para o fazer, mas este não é definitivamente um deles. De fugir.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A miúda que decifrou o puzzle

O fim do meu Groundhog Day


Perdoem-me a petulância, mas achei este Dia dos Namorados uma grande banhada. Não é um pensamento novo, mas se no passado o motivo do soslaio era comum à maioria dos que detestam o Dia de S. Valentim (estava solteiro), agora as minhas razões são outras. Celebração do amor? Mas qual amor? Alguém sabe o que isso é?

Não me levem a mal, não quero negar o amor de ninguém. Todas as formas são válidas, desde que ao abrigo da lei e até algumas que (ainda) não estão reconhecidas têm o meu apoio (não é disso que eu estou a falar, R Kelly). Amem-se à vontade. Amem-se bués. Amem-se à bruta. Se vos pergunto se sabem o que isso é, é porque tudo à minha volta parece menor, quando comparado com este sentimento esmagador que se abateu sobre mim sem dó nem piedade. Não sei explicar isto. É como se o Benfica ganhasse todos os dias. É como se o Jonas fizesse golo sempre que ela se ri. É como se eu fosse uma panela de pressão que só alivia quando lhe digo que a amo. É como os Pink Floyd: gigante e impossível de categorizar. Não há aqui lugares-comuns, só há os lugares do meu mundo que melhor se adequam ao que sinto. Falo com o que conheço.

O que é que isto tem a ver com música? Como tudo na minha vida, tudo começou com uma música (que ficará em segredo). Depois dessa música, deu-se início ao meu Groundhog Day, pleno de caos, equívocos e hedonismo. Mas não é essa a estória que vos trago. Vou fazer fast-forward para o capítulo mais interessante e contar-vos como se resolveu o enigma do dia em time loop. Mais uma vez, tudo começou com uma (outra) música. Dizia o Rui Veloso que "não se ama alguém que não ouve a mesma canção", mas ninguém leva isso mais a sério que eu.

Não quero nem me atrevo a dissertar sobre o que motiva amar alguém. Mas será pacífico admitir vários estádios desse sentimento, desde a faísca do primeiro olhar, até ao clique mágico que nos deixa 'head over heels'. O meu clique deu-se quando ela decifrou uma música eu tinha na cabeça. Assim, that simple. Teimosa, a música martelou-me durante semanas a fio, sem que eu soubesse título, letra, ou artista. Sabia apenas trautear um refrão em nananas (devo aqui abrir este parêntesis para dizer que sou um Shazam a reconhecer música). Era por isso uma missão impossível. E no entanto, quando eu lhe trauteei a melodia que me perseguia, ela chegou, ouviu e identificou: "Tonight", Bryan Adams. O clique.
Era difícil ser mais foleiro, bem sei. Se me tivesse sido dado a escolher, teria matutado um tema obscuro do David Bowie, ou um Lado B dos The Smiths. Mas a vida não espera pelo lance da nota artística e decidiu resolver a contenda com um minor hit dos anos 80. Naquele momento, tive a certeza que era ela quem eu procurava. Se esta miúda era capaz de decifrar os puzzles da minha mente, era tudo o que eu queria.

Como explicar os mistérios do amor, quando é nas coisas mais simples que ele se descobre? Quando as peças se juntaram naquele clique, ficou tudo tão claro, tão nítido. Porra. Como é que eu perdi tanto tempo? Foi como se tivesse desperdiçado todos os dias desde que a conheci. Como se tivesse vivido o mesmo dia, repetido e cinzento, num Groundhog Day em time loop até que tudo se encaixasse no lugar certo. Quando ela decifrou o puzzle, eu pude finalmente acordar para um novo dia; com uma vista ainda melhor do que o Bill Murray para a Andie McDowell. E assim, um amor que começou confuso e desconfiado, transformou-se num furacão de loucura, paixão e desejo de mais e mais e mais, porque tudo nunca é demais. Tudo por causa de uma música. Sabem o que isso é?

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Contra o medo, whisky e Rock N' Roll

Cada um escolhe o seu evangelho e os meus foram escritos por Beatles, Queen, Pink Floyd e Springsteen.



Permitam-me hoje um tom particularmente sério. Os ataques terroristas de sexta-feira em Paris deixaram-me muito perturbado, não tanto pela proximidade, mas sim pelo alvo: bares, restaurantes, futebol e música. Imaginem se sexta-feira à hora de jantar atacassem simultaneamente o Bairro Alto, o Cais do Sodré, o Estádio da Luz num jogo da Selecção Nacional e o Coliseu dos Recreios durante um concerto. Eu estaria num destes locais de certeza absoluta.

Está claro que este foi um ataque à nossa forma de viver e à nossa cultura, mas de todos os alvos, o que me deixa mais perturbado é o Bataclan. Atacar a música? Porquê?! Não dá para entender. A música é a nossa forma de viver mais congregadora e inofensiva. Até o Irão já acolheu a música dos Queen há mais de uma década. As salas de concertos são lugares sagrados da nossa civilização, locais de peregrinação onde estranhos se cruzam e criam laços em torno de um amor comum: a música.

A maioria das vítimas destes atentados eram jovens rockers cujo pecado foi um concerto numa sexta à noite. Podia ter sido ido eu ali. Este é o meu povo. Esta é a minha gente. Gente que ali dentro, em frente ao palco a curtir a música, não tem cor, clube, nação, religião, ou sex... género (sexo têm, às vezes). Gente que se junta nestes locais sagrados de comunhão de alegria, para celebrar a música.

Na sequência dos atentados, foram cancelados os concertos de U2, Deftones e Motörhead em Paris, bem como as digressões europeias dos Foo Fighters, Prince e, obviamente, dos Eagles Of Death Metal. Compreendo as decisões das bandas, especialmente dos EODM (não consigo imaginar o que passa pela cabeça deles depois de uma coisa destas), mas feito o luto, é preciso marcar posição e seguir em frente.

Depois do que aconteceu, todos temos medo. É inevitável, eu também o tenho. A questão aqui é se nos deixamos vencer por ele. Se há coisa que eu abomino, se há que coisa que eu não admito na minha vida, é a política do medo. Agora, mais do que nunca, não podemos sucumbir à cultura do medo, não nos podemos render. Agora é preciso demonstrar que não é por isto que vamos mudar o nosso modo de vida. Não podemos deixar que nos digam onde é que vamos hoje à noite.

O comunicado reivindicativo do Daesh refere o Bataclan como um local "onde centenas de apóstatas se juntavam numa festa de devassa e prostituição". Não gosto de discutir assuntos religiosos. Cada um escolhe o seu evangelho e os meus foram escritos por Beatles, Queen, Pink Floyd e Springsteen. Na sexta-feira atacaram uma das minhas mesquitas e a minha retaliação será feita continuando nessa devassa das orgias musicais em concertos regados a cerveja e whisky. Contra o medo, até ao fim. Contra o medo, whisky e Rock N' Roll.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Não, não são os Queen. Mas "eu vou" na mesma

Afinal quem é que vem ao Rock In Rio-Lisboa?



Ontem à noite, a internet foi invadida por títulos garrafais um tudo-nada enganosos: QUEEN EM PORTUGAL; QUEEN NO ROCK IN RIO-LISBOA; QUEEN TRAZEM NOVO VOCALISTA QUE SUBSTITUI FREDDY MERCURY. Não, não e não. Está tudo mal, está tudo errado.

Em primeiro lugar, quem é este Freddy que eu vi em todo o lado? Não conheço. O nome que o vocalista dos Queen escolheu foi Freddie Mercury e se começamos a achar este erro de somenos, falemos também dos Beetles, dos Punk Floyd e dos Trolling Stones.

Em segundo, quem vem a Portugal não são os Queen, é Queen+ Adam Lambert. Não sou eu que o digo, são os próprios. Reparem no cuidado da nota à imprensa e atentem na forma meticulosa como a própria banda trata o assunto: "Queen+ Adam Lambert vão ser cabeças de cartaz no Rock In Rio-Lisboa 2016", em oposição a "Queen foram cabeças de cartaz no primeiro Rock In Rio em 1985", na Barra da Tijuca. São coisas diferentes e devidamente separadas. Adam Lambert não "é dos Queen" e não substitui ninguém, ele "vem com os Queen".
O mais cínicos dirão que pela leis da aritmética, se somamos Adam Lambert no nome, temos que subtrair Freddie Mercury e o baixista John Deacon. Certo. Mas convenhamos que o nome nos cartazes ficaria demasiado longo.

Os Queen morreram com Freddie Mercury, no dia 24 de Novembro de 1991. Ressuscitaram várias vezes desde então, é verdade: primeiro com o histórico concerto de tributo em 1992, que reuniu toda a nata do Rock em torno dos restantes membros da banda no local onde Freddie fora coroado o Rei; e em 1995, com o lançamento das gravações finais de Mercury no álbum "Made In Heaven". Depois, o baixista John Deacon abandonou a banda com a convicção que não valia a pena procurar novo dono para as sabrinas de Freddie, porque elas não iam servir a mais ninguém. Dos Queen, sobraram apenas o baterista Roger Taylor e o guitarrista Brian May, que ficaram com um grave problema entre mãos: uma enorme vontade de continuar a fazer música e tocar os seus êxitos, mas sem nenhum substituto à altura do Rei Freddie. Começou então a demanda por um novo dono das sabrinas.

Primeiro veio Paul Rodgers, o sonhador. O Paul chegou em 2004, cheio de boas intenções e viu na banda uma oportunidade para começar algo de novo, interessante e desafiante. Mas Brian May só queria os "seus" estádios de volta e não estava preparado para tratar o projecto como outra coisa que não uma banda de tributo aos Queen. Queen+ Paul Rodgers foi isso mesmo e no início, foi óptimo. O sucesso da primeira digressão foi tal (eu próprio fui a dois concertos), que Brian e Roger decidiram arriscar um álbum de originais com Paul, com o sucesso que conhecem. Ou melhor, provavelmente nem sequer conhecem de todo. Como as paixões de Verão — curtas, intensas e pouco realistas — Q+ PR não sobreviveram ao choque com a realidade. A banda estava partida em duas facções e foi uma questão de tempo até Paul perceber que estava a mais e sair. No fim de contas, foi uma colaboração curta, mas que deu alegria a muita gente que pôde ver Brian May e Roger Taylor ao vivo pela primeira vez (eu! eu!), capitalizando a fome do público pelos Queen.

É com base nessa infindável fome do Mundo pelos Queen, que Brian May e Roger Taylor continuam no seu projecto de banda tributo glorificada, agora com Adam Lambert. Ao contrário do ambicioso Paul, imagino que Adam esteja contente por fazer aquilo que lhe mandam, sem levantar muitas ondas. Sendo dono de capacidades vocais acima da média, reconhecidas pelo "Ídolos" americano, é o perfect man for the job. Em digressão desde 2012, Queen+ Adam Lambert chegam agora a Portugal para o Rock In Rio-Lisboa e eu lá estarei obviamente, nem que seja só para rever o Brian e o Roger. Não, não são os Queen. Mas "eu vou" na mesma.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O ouvinte tem sempre razão

Mas tem mesmo?


O ouvinte tem sempre razão? Não. Mas claro que não! Ou é preciso recordar que os Aqua foram #1 em todo o mundo em 1997 com "Barbie Girl"? Ainda alguém se lembra do Crazy Frog? E do Scatman John? E do R. Kelly? Ah ok, desse lembramo-nos por causa daquela cena chata da pedofilia.

Este fim-de-semana aconteceu o maior festival português na Zambujeira do Mar e, acreditem, eu queria ficar calado. A sério, juro que queria. Mas a quantidade de fezes que foi atirada na defesa desta nova ideia de 'festival de Verão' não me deixa ficar calado.

Outras vozes já se expressaram devidamente. As minha preferidas foram a de João Quadros, no Twitter: "Ainda assim: cartaz do PS > cartaz do Sudoeste" (tão bom) e a de João Pedro Rodrigues, no Facebook, um membro da "tribo" (parabéns ao génio publicitário que inventou este conceito) que avaliou o festival com 5 estrelas, comentando de forma assertiva: "epah mais um ano a partir aquela merd* toda !!! O cartaz é fatela Ya, mas o que conta com é o espírito !!!". Meus amigos do Sudoeste, quando um dos membros mais fervorosos da vossa tribo apelida o cartaz de "fatela Ya", eu acho que não preciso de entrar em cena com adjectivação adicional. O trabalho está feito.

Mas depois vieram as fezes.

Dizem-me que é a evolução, que a música nova irrita sempre as gerações mais velhas e que assim é que deve ser. Certo. Mas o quando o Dylan ligou a guitarra eléctrica no Newport Folk Festival em 1965 e chocou uma audiência que esperava um espectáculo acústico, ele não se limitou a carregar num botão para tocar hits da década anterior, nem começou a atirar bolos à audiência. Tocou a música dele AO VIVO, foi REAL.
E quando os Sex Pistols abriram a distorção e cuspiram no público dos bares suados da Grã-Bretanha de 1976, ainda era música AO VIVO que saía das colunas, por muito desafinada que fosse. Era REAL (excepto quando o Sid Vicious não ligava o baixo, aí era mesmo só cuspo).

Dizem-me que isto é "música do meu tempo" e que o meu tempo já passou. Música do meu tempo? Eu nasci nos anos 80 e as minhas bandas preferidas são dos anos 60 e 70. Moldei o meu gosto porque o meu Pai me deu a conhecer música e eu ganhei curiosidade para procurar mais. Os jovens ouvem aquilo que lhes dão e se eles gostam de caca é porque só lhes deram caca, dia após dia, após dia, e eles não conhecem outra coisa. Isto é só mais um capítulo do livro dos nossos tempos "Ausência dos pais em casa". Os miúdos não precisam de gostar dos Beatles nem dos Stones, mas convém conhecê-los, como parte da História e da Cultura que eles são. Não conhecer os Beatles é tão grave como não saber quem foi Hitler. E aposto que muitos não conhecem nenhum deles.

Dizem-me que que a geração mais nova gosta de volume e de graves e não quer saber do conteúdo. Certo. Mais uma vez, gostam disso porque é aquilo que lhes dão. É fácil. É anestésico. É acéfalo. Dá para desligar facilmente e assim dar atenção às babes que passam e à selfie que se tira.

Dizem-me frases feitas numa linguagem torpe de políticos, que normalmente antecede a sentença "e por isso vamos ter que aumentar os impostos". Mas esquecem-se de falar no desinvestimento. Porque aí é que reside a explicação. Querem uma ideia do que estamos a falar? Eu dou. Uma pesquisa rápida no Google revela-nos que Calvin Harris — talvez o nome mais caro do SW — cobra aproximadamente 500 mil euros por actuação. Dando um exemplo de outro cabeça de cartaz deste ano, os Muse cobram perto de 850 mil euros para dar um concerto. Pois. E se olharmos para o volume do cartaz? "Fatela Ya", como diz o João Pedro. Ou apenas o fruto do desinvestimento.

Dizem-me coisas em tom paternalista, de gente bem intencionada que acha que temos que "ser razoáveis" para com o festival e os seus organizadores e patrocinadores, "ser razoáveis" para com a vertigem do lucro. Mas isto é música. Desde quando é que temos que "ser razoáveis" para com a arte? Foi a isto que chegámos? Não é na música que devemos procurar a pureza? Pelo menos foi isso que a música do meu Pai me ensinou.

Não, o ouvinte não tem sempre razão. Como em todas as culturas, é preciso educar para colher frutos. Se educarem os miúdos com caca, eles vão ouvir caca. E caca é muito mais barato. Já aqui o escrevi: há demasiadas coisas medíocres na nossa vida, a música não pode ser uma delas.


Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Terça-Feira 11 de Agosto de 2015

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O novo filme de James Bond e a pergunta do milhão de euros

Quem se seguirá a Adele? E quem devia seguir? Tudo aqui.



Sou fã acérrimo da saga de James Bond. Desde que joguei o mítico "Goldeneye 007" na Nintendo 64 e depois fui ao cinema ver o Pierce Brosnan fugir a um helicóptero numa mota pelos telhados de Ho Chi Minh em "Tomorrow Never Dies", que fiquei agarrado. Os filmes não são o que podemos chamar de intelectualmente exigentes, mas oferecem a fantasia (aquele início do "Goldeneye" é a ficção e a perfeição em doses iguais) e a acção que preciso para me alienar do marasmo de um quotidiano sem explosões, nem Aston Martins, nem a Eva Green. Mas apesar de gostar dos filmes, o que me move mesmo na saga do espião inglês é a música, mais precisamente os temas do genérico de cada filme. Arrisco dizer que nenhuma outra saga está tão bem representada neste capítulo como a de James Bond.

Se têm dúvidas, ouçam a compilação "The Best of Bond...James Bond" (qualquer uma delas, embora eu prefira a ordem da compilação de 2002) e tirem as vossas conclusões. É malha atrás de malha, numa enxurrada impressionante. Desde as várias versões do clássico "James Bond Theme", originalmente composto por Monty Norman em 1962 para "Dr.No", passando pelo drama de "Goldfinger", a intensidade de "Thunderball", a saudade de "From Russia With Love", a candura de "Nobody Does It Better", a Pop de "A View To A Kill" e até algum refugo como "Diamonds Are Forever" (o José Castelo Branco destruiu para sempre este tema para mim, quando o vi cantá-lo vestido de mulher na televisão. Porra. Vade retro). Tendo em conta que a saga acompanhou a cultura popular desde os anos 60, o leque de artistas que já contribuiu para os filmes é vasto e representativo do mainstream de cada década: Shirley Bassey nos anos 60, Paul McCartney nos 70s, Duran Duran nos 80s, Sheryl Crow nos 90s, Jack White 00s e Adele 10s. Há espaço para tudo.

Agora que estamos a poucos meses da chegada de "Spectre", fica a questão do milhão de euros: quem vai cantar o tema do próximo filme de James Bond? Bem, um milhão de euros não sei, mas vale pelo menos 15 mil libras, quantia que um apostador pôs nos Radiohead esta semana, levando à suspensão das apostas. Das duas, uma: ou o cavalheiro sabia de alguma coisa que nós não sabemos, ou então é um fã dos Radiohead sem grande amor ao dinheiro. E nós já sabemos como é com os fãs dos Radiohead: o melhor é não os contrariar.

A lógica dita que a resposta à grande pergunta esteja algures nas tabelas dos últimos anos. Os rumores mais fortes indicavam primeiro Sam Smith, depois Ellie Goulding e agora Radiohead. A resposta deve morar aqui. Também já se falou no Kanye West (por favor não, vamos manter o Bond classy), Ed Sheeran (pior ainda, ele quanto muito devia fazer a banda sonora dos Teletubbies) e até no Noel Gallagher (seria bom, mas duvido muito), mas essas são hipóteses mais remotas.

A minha aposta entre o trio dos preferidos seria (de longe) os Radiohead. É interessante pensar na voz de Thom Yorke à frente da frota de trompetes que costuma acompanhar os temas de Bond. E basta recordar o que eles fizeram com "Nobody Does It Better" para ficar com água na boca.

Mas a minha preferência pessoal não recai em nenhum dos anteriores.

O tema que apresenta um filme de James Bond precisa de ser explosivo, dilacerante e poderoso; precisa de nos pôr aos saltos no banco do cinema ainda antes do filme começar; precisa, por isso, da figura maior do rock musculado dos nossos dias. Mandasse eu na EON e subempreitava o tema de "Spectre" a Josh Homme e aos Queens Of The Stone Age. Fico com água na boca, só de pensar nas explosões no ecrã ao som das guitarras da banda californiana. E fazia mais: dava a banda sonora (que já foi entregue a Thomas Newman) a Trent Reznor, que tão bem tem tratado os filmes de David Fincher. E já que estamos com o balanço, aproveitava e dava o próximo filme ao próprio David Fincher. Mas talvez já me esteja a entusiasmar.

"Spectre" sai em Outubro deste ano, por isso já deve faltar pouco para saber a resposta à pergunta do milhão de euros. Fica a faltar-me só o Aston Martin. E a Eva Green.


Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Segunda-Feira, 3 de Agosto de 2015

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A velha questão da pirataria vista por um melómano

Não é a atacar os ouvintes que se resolve a questão da pirataria.



Rejubilem. Após sucessivas ameaças, o Pirate Bay foi este ano bloqueado em Portugal. O problema da pirataria está resolvido e os artistas vão finalmente começar a ver o dinheiro que eles merecem. Certo? Errado. Não vou sequer dissertar sobre o gravíssimo precedente que se abre com o bloqueio destes sites, num ato de censura norte-coreanista que pareceu ser aceite com relativa tranquilidade. Não é no âmbito legal que eu quero entrar, porque desse lamaçal, percebo muito pouco. O que eu quero é saber da música, da proteção dos artistas que a fazem e claro, de quem a ouve. Porque não é a atacar os ouvintes que se resolve a questão da pirataria.

Mas antes de avançar, vou apresentar-me: o meu nome é Nuno Bento e sou um melómano. Grande parte do meu ordenado é investido em música. Tenho os meus álbuns divididos por três casas e em nenhuma delas tenho espaço para mais, mas continuo a comprar discos e já é difícil andar na minha sala sem dar um pontapé num vinil do David Bowie. Por isso falo à vontade, tenho a consciência tranquila. O dia em que me prenderem por pirataria é o dia em que toda esta discussão deixa de fazer sentido.

Falo à vontade para dizer que, mesmo assim, sempre fiz downloads (legais, é desses que eu estou a falar, ok?). Muitos. Estou sempre à procura de música nova e os downloads nunca me impediram de a comprar mais tarde. O meu amor pela música não pode ser platónico, necessita de contacto físico. Preciso de agarrar no CD, folhear o livrete, ler as letras, ver os agradecimentos. E se gostar mesmo do álbum, compro o vinil para ter a artwork em tamanho real nas minhas mãos, retirar o disco da capa, cheirá-lo, pô-lo a rodar. É um ritual.

Esses rituais são fomentados a ouvir música. Não é a restringir a audição e a perseguir os ouvintes que os miúdos se vão apaixonar pela música, pelas bandas e pelas suas histórias. É tornando a música mais livre. No fim, os artistas serão sempre pagos, seja pelas vendas, seja pelos concertos. O que é preciso é deixar as pessoas apaixonarem-se pela música. As pessoas fazem as coisas mais incríveis por amor. Até comprar discos. Uma porrada deles.

Eu percebo que o coleccionismo não sirva para toda a gente. Essas pessoas têm alternativas legais nos serviços de streaming como o Spotify, o Tidal, ou o Apple Music. Também é por aqui que se pode combater o download de uma forma não agressiva, criando novos hábitos nos ouvintes. Os serviços de streaming não chegam para mim (e por isso precisarei sempre dos formatos físicos), mas são uma boa ideia que combina o conceito de "rádio personalizada", com a comodidade e claro, a legalidade. Mas é uma ideia que precisa de séria revisão. Não tanto pelos grandes artistas, porque bandas como os Pink Floyd ou os Beatles têm um bom leverage negocial e têm também (muitas) vendas físicas garantidas (o último álbum dos Pink Floyd até cometeu a proeza de bater os One Direction e o Tony Carreira). Já as bandas em ascensão, essas são obrigadas a aceitar o acordo que lhes é posto em cima da mesa, por mais miserável que seja. E há quem se queixe, mesmo artistas estabelecidos como a Taylor Swift, que deixou o Spotify no ano passado.

No fim de contas, as editoras e os executivos continuam a receber mais que os artistas e isso é o que está errado. Eu entendo o lado das editoras e estou solidário com a sua existência, na medida em que promovem e distribuem o trabalho dos artistas. Mas o seu modelo de negócio ficou preso nos anos 90, quando as pessoas ouviam o "How You Remind Me" na rádio e iam a correr comprar o álbum dos Nickelback. Isso já acabou. E convenhamos que também não é justo enganar assim as pessoas. É um modelo de negócio ainda carregado de intermediários e comissionistas inúteis que, francamente, é ofensivo para com os artistas e os consumidores. As editoras precisam de perceber que são os artistas quem deve receber a maior parte do bolo e entender que quem quer comprar, quer um produto de qualidade, com bela artwork e tudo a que tem direito. Não é para fazerem como no último álbum dos Queens Of The Stone Age, quando fui vilipendiado sem dó nem piedade.

Na questão dos downloads, há aqui um enorme paralelismo com o cenário de há 30, 40 anos. Vou falar do caso que me é mais próximo: o meu Pai, que foi quem me passou esta paixão pela música. Há 40 anos, não havia lojas de discos na Beira. Mas havia um amigo que de vez em quando trazia uns LPs de Lisboa. Chamemos a esse amigo "Pirate Bay". Os LPs desse amigo serviam para centenas, milhares de pessoas; eles eram gravados para cassetes, que por sua vez eram gravadas para cassetes e assim sucessivamente, até à vigésima geração. Quando chegavam à Pampilhosa da Serra, a guitarra dos Black Sabbath atingia níveis de distorção que nem o Tony Iommi conseguia emular com os seus pedais. E mesmo com a proliferação das cassetes pela Beira Baixa, pasmem-se, os Sabbath fizeram uma carreira.

É verdade que os círculos de afectação na partilha de uma torrent são maiores e a qualidade também é melhor (embora seja no mínimo puxado afirmar que o mp3 é um recurso de qualidade). Mas ainda assim, há dinheiro envolvido. Sempre que se compra um disco rígido, ou um CD/DVD virgem, já se paga uma taxa de autor. É para isto que ela serve. É pouco? É. Mas é mais do que o zero que recebiam com as cassetes.

Tal como nos anos 60, 70, 80 e 90, haverá sempre melómanos como eu para comprar música, seja em formato físico, em download digital (como no iTunes), ou no novo formato telepático que há de vir. Mas para venderem mais, as editoras têm que baixar o preço dos discos, que é inadequado. Como? Redefinam-se. Cortem nos intermediários. Antecipem-se à pirataria, disponibilizem o álbum para download gratuito em mp3 e deixem o consumidor ouvi-lo dez vezes, depois fixem um preço justo para ele continuar a ouvi-lo em FLAC, ou noutro formato de qualidade. E os serviços de streaming, se querem ser a alternativa, também têm que aceitar menor parte do bolo e pagar melhor aos artistas. Isto é válido principalmente para o Spotify, que segundo um estudo do Nextshark (vejam em baixo o gráfico completo com a divisão detalhada de lucros em todos os formatos) paga 5 vezes menos que o Tidal. O Youtube paga ainda menos que o Spotify, o que me deixa sem saber para que serve afinal toda aquela publicidade irritante antes dos vídeos.



Poderia também advogar que se as editoras estão em dificuldades, é porque apostam na música errada, segura, formatada, desinteressante. Mas isso é outra discussão. Ou talvez seja a outra face do mesmo problema.
Pela minha parte, apenas faço votos que se um dia formos todos presos por fazer downloads de música, espero que pelo menos nos separem por género musical. É o mínimo.


Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Segunda-Feira, 27 de Julho de 2015

sábado, 18 de julho de 2015

Super Bock Super Rock — Dia 2: Savages abanaram o festival, Blur mandaram tudo abaixo

Noite magnifica em que o rock voltou à cidade. Pena que a swaguização tenha vindo atrás.



O segundo dia do Super Bock Super Rock começa com as Savages no Palco EDP, sob a pala do Pavilhão de Portugal e uma grande expectativa. A banda post-punk londrina traz ainda o seu primeiro álbum a Lisboa, mas já lhe acrescenta alguns temas novos. Actuam ao pôr-do-sol para uma plateia ainda pouco composta, mas elas precisam da escuridão da noite. O cenário muda rapidamente, assim que as miúdas enchem o espaço de decibéis e a noite cai no Parque das Nações.

As Savages são exactamente o oposto daquilo que nos disseram que uma banda feminina devia ser: não há imagem nas Savages. Não sabemos se elas são bonitas ou não. Elas estão sempre em contraluz, vestidas de preto. Não se vêem imagens da banda no ecrã, não se vê uma cara, nada. São uma banda anónima. À distância que estou (sentado cá atrás na zona de mobilidade reduzida), podiam ser uma banda de aliens e eu não dava pela diferença. Mas elas não precisam de ser meninas bonitas. Isso não interessa. Elas vieram aqui para despejar Rock N' Roll e é exactamente isso que estão a fazer. Who said girls can't rock? Quem? Bem, talvez eu próprio o tenha dito... Mas retiro o que disse. All hail the Savages.

O Palco EDP tem a sua maior enchente do dia pouco depois, para Bombay Bicycle Club. A banda Indie Folk britânica, que fechou o histórico Earls Court no ano passado (com a ajuda de David Gilmour dos Pink Floyd), traz também muita expectativa e muita gente de propósito para os ver. Mas quem entra em palco depois das Savages fica com uma bitola difícil de bater e os Bombay não estiveram à altura da tarefa. E não foi por causa do volume. O baixo dos Bombay estava tão potente, que me pôr a olhar para a pala do Pavilhão de Portugal. Mas isso era o Engenheiro em mim a preocupar-se demais.

Olho lá para a frente no Palco EDP e vejo a mesma aberração que notara no dia anterior na MEO Arena: a zona VIP. Que é isto? Para quem não sabe, a zona VIP é uma área exageradamente grande situada em frente ao palco, ocupando quase metade do espaço, que é roubado aos fãs das bandas que foram para as grades às 5 da tarde, alimentados a sandes e muito pouca água (porque uma ida à casa de banho deita tudo a perder). Que provincianismo é este? Será que as Kakás e as Tetés precisam mesmo de uma zona dedicada à frente do palco, só para entrarem quando o Noel toca o "Whatever", ou outro êxito "que dá na RFM" passa no palco? O próprio Noel tinha mandado a bicada no dia anterior — "Did you all came from the bar?!" — , quando foi obrigado a actuar para uma MEO Arena com uma enorme clareira logo ali à frente, porque os senhores VIP estavam mais preocupados a escolher a marca do gin, do que com a música que vinha do palco. O rock voltou à cidade e isso é fixe, mas a swaguização não precisa de vir atrás, obrigado.


Divido o meu tempo entre Bombay no EDP e dEUS no Palco Super Bock. Corro com a velocidade que as canadianas me permitem para a MEO Arena e ainda apanho metade do concerto. A banda belga traz o seu Indie Rock pujante e cumpre em palco, com o solo estendido de "Instant Street" a entrar directamente para o panteão dos momentos do festival. A plateia está já bem composta na MEO Arena, mas a banda dos anos 90 não parece convencer o público, que já está à espera da banda que fecha a noite no palco principal.

Os Blur chegam a palco sorridentes e entram a abrir com o novo single "Go Out" — e que single, "o melhor do ano" segundo o inimigo nº 1 da banda Liam Gallagher — e partem tudo com o clássico "There's No Other Way", do seu álbum de estreia "Leisure". De 1991, imaginem. Em 2015, ainda soa a Pop fresquinha, acabadinha de sair do gelo. Damon vem com a corda toda e salta para o meio do público em "Lonesome Street". Que monstro, que animal de palco. Damon salta e canta como se estivesse a cantar os temas pela primeira vez. Eu amo este homem.

Os Blur têm tudo aquilo que uma banda de palco principal deve ter e ainda lhe injectam a imprevisibilidade dos fora-de-série. O SBSR acertou na mouche no alinhamento do palco principal deste ano, o melhor de todos os festivais (no palco principal). Mas estragam tudo com a escolha do espaço, com a acústica de uma casa de banho de estação de serviço. Damon vai buscar a guitarra acústica para um tema mais soft como "Coffee & TV" e o som abominável do Atlântico dá logo sinal de si. Que salganhada se ouve no pavilhão.

O volume volta a aumentar e a casa vem abaixo pela primeira vez com "Beetlebum". Levantam-se uns malucos na bancada a fazer air guitar, naquele solo final que se parece estender até à eternidade. Talvez um desses maluquinhos até tenha sido eu. O ritmo do concerto abranda com o novo — mas excelente — "Thought I Was A Spaceman". O recente "The Magic Whip" tem algumas grandes malhas e esta é seguramente uma delas.Termina "Tender" e vejo alguma desilusão na banda. Eles estão à espera que o público cante até ao infinito o refrão "Oh my baby, oh my baby, oh why, oh my", como sempre acontece nos seus concertos. Mas o público não viu os vídeos no Youtube e não corresponde. Que pena.

Talvez porque sente que ainda precisa de ganhar o público, Damon chama um fã para fazer a parte de Phil Daniels em "Parklife". É o momento da noite. Mas o fã está tão entusiasmado, que se limita a abraçar Damon e a correr atrás dele, esquecendo-se de fazer a sua parte. Mas isso não importa, Damon conseguiu o que queria. Se dúvidas houvesse, agora o público mora na sua mão e já ninguém se senta na MEO Arena. Os êxitos continuam a sair em catadupa e a casa vem abaixo em "Song 2", com a mosh a ficar agreste em frente ao palco. Apetece-me deixar as canadianas e saltar lá para o meio. Maldito pé estragado.

O encore traz mais três momentos inolvidáveis: "Girls & Boys", para testar a memória e a dicção do público ("girls who want boys who like boys to be girls who do boys like they're girls who do girls like they're boys" — não é fácil); "For Tomorrow", para os fãs mais fiéis do brilhante "Modern Life Is Rubbish"; "The Universal", para toda a gente. Foi um final perfeito, para uma noite de emoções fortes.

Concerto da noite? Naaaa. Concerto do festival? É pouco. Blur foi o concerto do ano em Portugal. Bombástico, arrebatador, estrondoso. Veio tudo abaixo com Blur. Que noite magnífica.

Os Blur tocaram:
"Go Out"
"There's No Other Way"
"Lonesome Street"
"Badhead"
"Coffee & TV"
"Out of Time"
"Beetlebum"
"Thought I Was a Spaceman"
"Trimm Trabb"
"He Thought of Cars"
"End of a Century"
"Tender"
"Trouble in the Message Centre"
"Parklife"
"Ong Ong"
"Song 2"
"To the End"
"This Is A Low" 
Encore:
"Stereotypes"
"Girls & Boys"
"For Tomorrow"
"The Universal"