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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Na guerra entre Neil Young e Spotify, quem é David e quem é Golias?

Em Novembro de 2018, Neil Young foi anunciado como headliner do festival British Summer Time, um evento anual no Hyde Park, em Londres, numa épica double bill com Bob Dylan a ter lugar no ano seguinte. Fãzíssimo de Neil Young, logo me apressei a comprar bilhete. Dias mais tarde, o impensável aconteceu — Neil Young fazia um ultimato ao festival por causa do patrocinador que lhe dava nome e que, em última instância, lhe estaria a pagar o seu próprio cachet — o Barclays. Acusando-os de financiar combustíveis fósseis, Neil escreveu uma carta aberta no seu site atirando: "Este patrocinador não serve para mim. Eu acredito na ciência. Preocupo-me com o ambiente e estou profundamente apreensivo com o futuro dos meus netos. Não há cedência possível". E Neil Young não cedeu.

O que se passou a seguir foi ainda mais impensável. Perante o ultimato de um artista contra os homens do dinheiro, a lógica ditava que a actuação de Neil iria ser cancelada. Só que não foi. Neil Young, alavancado apenas e somente pela sua música e pela sua teimosia, conseguiu forçar o festival BST a fazer cair o seu principal investidor no dia em que ia tocar.  Mas como, se todo o recinto estaria forrado a publicidade ao banco? Com a devida vontade, tudo é possível. No dia de Neil Young, todas as referências ao Barclays foram excluídas: todos os painéis foram tapados (alguns deles outdoors gigantes — incluindo o que estava no palco, que dizia Barclays Summer Time); todos os letreiros foram escondidos; até os terminais de pagamento tinham um autocolante branco, onde no visor aparecia Barclays. Foi das cenas mais bizarras que já vi na vida. O concerto? O Neil partiu tudo, claro.

Serve esta longa introdução para lembrar que a luta indefectível de Neil Young em nome daquilo em que acredita, seja na música, no ambiente, ou na ciência, está muito longe de ser nova. Sem medo, sempre irredutível, contra tudo e contra todos, por mais poderosos que sejam. E serve também para recordar que é perigoso subestimar a força de Neil Young. Sim, ele é "só" um músico de terceira idade com ideais florais dos anos 60. Mas é um músico com ideiais florais que não se verga, e que leva consigo milhares de fiéis que o ouvem, precisamente porque sabem que ele não aceita concessões. A força de Neil Young está assente na confiança, em décadas consecutivas de diálogo com a sua audiência através da música — palavras que ecoam entre gerações, "words between the lines of age". Conhecemos bem o Neil, sabemos que podemos confiar nele as chaves da nossa casa. 
 

Este poder de Neil Young, perene e assente na arte, não corre o perigo de desvalorizar 4 mil milhões de dólares em poucos dias. Que foi exactamente o que aconteceu às acções do Spotify, desde que Neil Young retirou a sua música da plataforma de streaming. Tem sido o assunto das últimas semanas. Tal como fizera com o BST em 2018, Neil Young accionou novo ultimato ao Spotify: ou parava de espalhar desinformação acerca das vacinas, ou a sua música seria retirada da plataforma com efeitos imediatos. O alvo era o super poderoso podcast do ex-comediante americano Joe Rogan — The Joe Rogan Experience. "Podem ter o Rogan, ou o Young. Ambos, não", rematou, em mais uma carta aberta no seu site. Quem achava que o Neil estava a fazer ameaças vãs estava, pois, redondamente enganado. Sem resposta por parte do Spotify, Neil retirou-lhes prontamente a sua discografia.

A resposta nas redes sociais tem sido curiosa. Vejo sucessivos ataques ao Neil Young, pela barulhenta minoria anti-ciência do costume, em nome de uma suposta liberdade de expressão, que o Spotify, e mais especificamente o Joe Rogan, devem ter para expressar os seus pontos de vista. Isto ao mesmo tempo que, no habitual bingo de coerência, mandam calar o Neil — uma vez que "é só um músico" — , mas por outro lado elevam o Eric Clapton a herói, porque tem a coragem de ir "contra o sistema". Bom. Em primeiro lugar, era só o que faltava que o Neil Young se calasse. É não saber nada sobre ele. E quanto ao "fruitcake" do Clapton (estou a citar o Brian May), que aparentemente está muito preocupado com os químicos injetados no seu corpo, recordo que este farol da ciência e da saúde consumia 16 mil dólares de heroína por semana (por semana!) nos anos 70. Na época, Neil Young cantava "The Needle And The Damage Done",  Eric fazia "Cocaine". Escolham bem os vossos heróis.

Mal ou bem, pelo menos o Eric Clapton é um herói da guitarra. O Joe Rogan, por seu turno, é herói de coisa nenhuma. Sei bem "quem" ele é, é fácil identificá-lo — Joe é o Gajo de Alfama do RAP, em versão "amaricana". A diferença do Joe Rogan para o nosso habitual frequentador da tasca lá da rua, é que em vez de debitar disparates para uma mesa de quatro, este tem um megafone que chega a mais de 11 milhões de pessoas em cada programa. Tendo uma audiência maior que os telejornais da BBC ou da CNN, é alguém com poder significativo, cuja desinformação tem custos directos na saúde pública. E por isso mesmo tem que ser devidamente contextualizado e, no limite, restrito. 

Nesta questão da liberdade de expressão, permitam-me que puxe pelos galões, para lembrar que sou, e sempre fui, contra qualquer tipo de censura. Já escrevi extensivamente na NiT sobre como todos os conteúdos devem ser abertos ao público, com o devido contexto e as devidas limitações. Da mesma forma que o Mein Kampf deve ser apresentado nas escolas, apenas aos meninos mais crescidos, como exemplo de como um discurso de ódio pode resultar no holocausto, o podcast de Joe Rogan tinha que ter um gatekeeper a avisar do conteúdo falacioso e fantasioso do mesmo. E não pensem que o Spotify defende a liberdade, ou não é capaz de remover conteúdo e que, inclusivamente, não o fez inúmeras vezes no passado, sempre que assim o entendeu. O ónus desta questão é precisamente que o Spotify reviu o conteúdo de Rogan e mesmo assim decidiu difundi-lo e promovê-lo.
 
Vamos ser claros. O Joe Rogan não é "um" conteúdo no Spotify, é "o" conteúdo de proa do Spotify. Para quem não sabe,  o Spotify investiu 100 milhões de dólares (!!!) em 2020, para ter os direitos exclusivos de emissão do podcast de Rogan. Não há nada de ingénuo na acção da plataforma em manter um Gajo de Alfama na proa do seu navio. Esta gente gera dinheiro. E foi por isso que, entre um ícone da música popular dos últimos 50 anos que tentava zelar pela saúde pública e um podcaster, o Spotify escolheu o último. A explicação é muito simples: o Spotify não é uma empresa de música, não quer saber de música para nada e muito menos dos chatos dos artistas que a produzem. O Spotify é uma empresa de tecnologia que quer fazer dinheiro. Ponto. A música foi apenas o veículo que usaram para chegar ao lucro e nem sempre (ou raramente) da forma mais ética.
 
O problema é que, como é hábito em quem toma decisões a olhar para folhas de Excel, os executivos do Spotify falharam em olhar para a floresta. Neil Young é uma árvore centenária. Se ele fala, as outras árvores ouvem. Foi por isso sem surpresa que vi artistas como Joni Mitchell, Graham Nash dos CSNY (David Crosby revelou que não tem controlo sobre o assunto, senão também o faria) e Nils Lofgren (guitarrista dos Crazy Horse e da E Street Band de Bruce Springsteen) a seguir-lhe os passos. Até James Blunt ameaçou voltar aos discos se medidas não fossem tomadas, algo que me assusta particularmente. Claro que a maioria dos músicos não os pode seguir para fora do Spotify,  uma vez que estão dependentes da plataforma; mas essa é outra conversa, não menos importante, relativa ao poder que deixámos que o Spotify assumisse e às royalties miseráveis que paga aos artistas. Talvez seja precisamente essa a discussão que devíamos estar a ter neste momento.
 
O Spotify comprou uma guerra contra um adversário que não pode tombar — a teimosia de Neil Young. Não preciso concordar com ele em tudo, para admirar a sua coragem e nutrir enorme respeito por um homem que não se verga em nome do que acredita. Nesta questão do Spotify, também eu tive, e tenho, as minhas reservas, uma vez que os principais prejudicados com esta acção são os seus fãs, como eu, que deixaram de poder ouvir a sua música a caminho do trabalho. Mas Neil também já tratou disso e ofereceu 4 meses de subscrição grátis na Amazon Music. E convenhamos, o Neil Young soa em melhor em vinil de qualquer forma . Guerra é guerra, e quem faz frente a Neil Young, tem que estar preparado para lidar com as consequências. O Barclays caiu do Hyde Park; depois dos 4 mil milhões de dólares perdidos na última semana, vamos ver até onde cai o Spotify. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Os 10 melhores álbuns de 2020

Os Working Men's Club


Chegámos aos últimos dias do ano mais estranho das nossas vidas, tempo para o habitual resumo discográfico do ano. Sem mais demoras, passemos então ao Top dos 10 melhores álbuns que ouvi em 2020 (na verdade são 11), numa selecção com discos para todos os estados de espírito, apropriada para o ano esquizofrénico que agora finda.


0. Neil Young – "Homegrown"

Neil Young lançou a confusão nas minhas listas anuais, ao tirar da gaveta um álbum gravado em 1974, que viu a luz do dia pela primeira vez em 2020. E que álbum. “Homegrown” era a peça que faltava para entender a trilogia Ditch (que afinal é uma quadrilogia) – a fase mais introspectiva e mais fascinante da carreira de Neil Young. Um disco sobre um amor perdido, fechado a sete chaves por ser demasiado pessoal e Neil querer, na altura, seguir em frente com a sua vida. Num ano em que o mundo se viu numa espiral destravada rumo ao abismo, Neil Young resolveu lembrar-nos daquilo que realmente interessa – o amor. Como olhar então para “Homegrown”? É demasiado ancorado a 1974 para ser um disco de 2020, mas grande parte do álbum é música “nova”, completamente desconhecida até este ano e de tal forma superlativa que tinha que ter um lugar nesta lista. Fica então com o número “zero” e serve de prefácio para a contagem dos álbuns lançados no último ano e gravados, enfim, mais recentemente.

Faixa essencial: “Separate Ways”


10. Destroyer – "Have We Met"

Sou fã dos Destroyer desde “Kaputt”, lançado em 2011 e um dos melhores discos da última década. Desde então, Dan Bejar tem tentado abordagens radicalmente diferentes em cada novo álbum, com resultados naturalmente dispersos. O anterior “ken” (2017) fora um trabalho mais de grupo e curiosamente, achei-o menos interessante que este “Have We Met”, que teve uma gestação solitária em duas fases distintas: primeiro, Bejar compôs tudo e gravou as demos sozinho em casa; depois, o baixista dos Destroyer, John Collins, produziu e aumentou as faixas no seu iPad e chamou o habitual guitarrista da banda, Nicolas Bragg, para acrescentar umas linhas de guitarra. Et voilá, um ano antes do ano do lockdown (o álbum foi lançado em Janeiro), os Destroyer fizeram um álbum em isolamento, sobre o isolamento. E o melhor desde “Kaputt”.

Faixa essencial: “Cue Synthesizer”


9. Perfume Genius – "Set My Heart On Fire Immediately"

Comecei a acompanhar o Perfume Genius (Michael Hadreas) em 2014, aquando do seu álbum “Too Bright” e desde então tem sido sempre a subir. "Set My Heart On Fire Immediately" não parece só o culminar de toda a sua discografia e temática anterior, é um cocktail esquizofrénico de influências, uma miríade de estilos que tornariam este parágrafo demasiado penoso de ler, se eu começasse aqui num name-dropping. Também penosa – ou catártica, depende do ponto de vista – é a audição do álbum do princípio ao fim, de uma vez só. Num disco de forma grandiosa, mas conteúdo introspectivo, a intensidade da voz, da lírica e da música, fazem de "Set My Heart On Fire Immediately" um verdadeiro desafio. Sonicamente, o álbum dispara para todas as direções, mas consegue manter um fio condutor etéreo e temático. Viajamos sobre as nuvens, na voz dorida de Hadreas, acompanhando a eterna luta contra a prisão do seu corpo, sempre com o amor como única forma de redenção. Melhor disco da carreira de Perfume Genius.

Faixa essencial: “Describe”


8. Fleet Foxes – "Shore"

Os Fleet Foxes deram as boas vindas ao Outono com o disco perfeito para a ocasião. “Shore” foi lançado exactamente às 13:31 de 22 de Setembro, para coincidir com o Equinócio de Outono – um capricho que soa, e é, muito millennial, mas que mapeia com precisão o posicionamento emocional deste álbum. Segundo Robin Pecknold – cantor, compositor e líder dos Fleet Foxes – é um disco que “celebra a vida diante da morte”. Filho dos fantasmas do lockdown (vamos ter muitos), “Shore” é sonicamente o disco perfeito para o fim de um dia terrível no trabalho, um bálsamo depois da dor. E o melhor álbum da discografia dos Fleet Foxes.

Faixa essencial: “Can I Believe You”


7. Baxter Dury – "The Night Chancers"

O filho de Ian Dury dos Blockheads (temo que Baxter nunca se livrará desta sombra) tem um dos discos mais cool do ano. Lançado antes das trevas do lockdown, "The Night Chancers" lembra-nos de um mundo livre de Covid, em que nem tudo se devia aos fantasmas do confinamento. A estética sónica do álbum leva-nos numa caminhada nocturna pelos bares de Oberkampf (ou do Cais do Sodré, depende do imaginário do ouvinte), enquanto Baxter vai expelindo a sua poesia perversa e libidinosa, sobre linhas de sintetizador que nos sugerem que o perigo se aproxima a qualquer instante, provavelmente sobre a forma de uma mulher. Não é ao acaso que as backing vocals  femininas são um acompanhamento constante ao longo do álbum, como se de vozes na mente de Baxter se tratassem. "The Night Chancers" é uma relíquia das nossas vidas pré-Covid e, sim, também o melhor disco da já longa carreira de Baxter Dury.

Faixa essencial: “I’m Not Your Dog”

 

6. Doves – "The Universal Want"

Parece um conto de fadas – o parente pobre da post-Britpop que já todos tinham esquecido regressa em 2020 para um dos álbuns do ano. “The Universal Want” surge do nada, 11 anos depois do último disco dos Doves e o mais incrível é que este álbum é melhor do que tudo o que precedeu a discografia da banda de Manchester. Carregado de melodias que abraçam o ouvido, riffs que arrepiam a espinha e paisagens sonoras que convidam a ficar, “The Universal Want” não veio reinventar a roda, mas trouxe 10 das melhores composições de 2020. O regresso do ano. 

Faixa essencial: “For Tomorrow”


5. Taylor Swift – "evermore"

Taylor Swift é a mais entusiasmante artista mainstream do momento e para quem ainda tinha dúvidas que a menina Taylor é a melhor compositora da última década, penso que 2020 veio pôr uma pedra sobre o assunto. Para mim, que já era fã da faceta Pop de Taylor, deixou de haver dúvidas acerca do sumo das cancões, quando Ryan Adams extraiu um dos melhores álbuns dos últimos 10 anos a partir dos temas de “1989”. Curiosamente, o caminho que Taylor trilhou desde então vai dar ao encontro dessa mesma sonoridade mais minimalista e é precisamente isso que ouvimos nos dois álbuns que lançou este ano. “folklore” e “evermore” são dois lados da mesma moeda e no futuro deverão ser olhados como um par (tal como “Use Your Illusion I” e “Use Your Illusion II” dos Guns N’ Roses), mas a visão da Taylor Swift é que são dois álbuns distintos e por isso, vou respeitá-la. Para ser justo, ambos os álbuns poderiam figurar nesta lista, mas como não queria repetir artistas, a escolha recaiu no melhor dos dois, que é o mais recente “evermore” – uma colecção pessoal com um tema para cada estado de alma. 

Faixa essencial: “champagne problems”


4. Ryan Adams – "Wednesdays"

A surpresa do ano. Depois de ter sido cancelado em 2019, Ryan Adams regressou este mês com o lançamento-surpresa do álbum "Wednesdays", disco que supostamente seria a segunda parte de uma trilogia programada para 2019 e agora projectada para 2021. "Wednesdays" é um disco que por vezes parece ter saído da fase Ditch de Neil Young, outras vezes passa pelo "Nebraska" de Bruce Springsteen e que tantas vezes evoca o sangue derramado pelo coração de Bob Dylan em "Blood On The Tracks". Se estão hesitantes em ouvir "Wednesdays" por causa do que Ryan Adams terá ou nao terá feito há 10 anos, o meu conselho é seguirem as palavras sábias de Steve Van Zandt - "Confiem na arte, nunca no artista". Gostam do álbum? Não tenham problemas em admitir. #metoo

Faixa essencial: “I'm Sorry And I Love You”


3. Bruce Springsteen – "Letter To You"

Quem diria que Bruce ainda tinha em si um grande álbum para a E Street Band? O maravilhoso "Western Stars" de 2019 mostrou-nos um Bruce envelhecido e confortável na sua pele de ancião, mas sucessivas desilusões em trabalhos com a E Street Band (desde "Magic" de 2007, que não havia um álbum que enchesse as medidas) adivinhavam um lento crepúsculo em da sua sonoridade mais clássica. Tudo isso foi mandado pela janela em 2020, quando Bruce resolveu regressar às origens e fazer um álbum “à anos 70”. Como? Foi à gaveta buscar um punhado de temas que escrevera quando tinha 18 anos. Bruce recuperou “Janey Needs A Shooter”, “Song For Orphans” e “If I Was The Priest”, regravou-os e conseguiu de forma incrível canalizar a energia e a urgência do Bruce adolescente, naquelas que foram para mim as melhores coisas que eu ouvi em 2020. Mas isto sou eu que sou um fã hardcore do Bruce Springsteen, com a perfeita noção de que qualquer coisa que ele faça vai sempre partir da pole position. Dividido em 3 lados, “Letter To You” perde gás no Lado B, prova que teria beneficiado de uma ligeira edição. De qualquer forma, é um disco inesperado de pulmão cheio, que mostra que Bruce ainda está aqui para as curvas.

Faixa essencial: “Janey Needs A Shooter”


2. Daniel Lopatin - "Uncut Gems: Original Motion Picture Soundtrack"

Não é todos os dias que chega um álbum que cria um universo próprio com a sua sonoridade. O exemplo máximo desta efeméride terá sido a banda sonora de “Blade Runner” de Vangelis que, tal como anunciava no filme, começou uma vida nova nas Off World Colonies. Mas se a banda sonora de “Blade Runner” nos atirou para um futuro distante (a partir de 1982) e um espaço infinito, a banda sonora de “Uncut Gems” vira para dentro, para o espaço não menos desconhecido, não menos enigmático e não menos infinito da nossa mente. Daniel Lopatin dá uso a sintetizadores que evocam gigantes do passado Tangerine Dream, Klaus Schulze (e Vangelis, claro) e pintores sónicos do presente, para criar uma paisagem cinemática lustrosa, perfeita para uma obra que vive da soma entre a imagem e o som e submerge o espectador num universo só seu. Lopatin que, curiosamente, usou nesta banda sonora o seu nome próprio, ao invés do seu alter-ego Oneohtrix Point Never, que lancou outro álbum este ano (“Magic Oneohtrix Point Never”), interessante a espaços, mas não tao convincente como “Uncut Gems”. O filme saiu nos últimos dias de 2019, tarde demais para figurar nas listas do ano passado, e é para mim o melhor que vi e ouvi este ano. Com “Letter To You” e o disco que se seguirá na contagem, a banda sonora de “Uncut Gems” forma um tríptico dos meus álbuns favoritos deste ano e honestamente, qualquer um poderia figurar no primeiro lugar.

Faixa essencial: “The Ballad Of Howie Bling”


1. Working Men's Club – "Working Men's Club"

A revelação do ano. Há doze meses, quem é que sabia quem eram os Working Men's Club? Pouca gente, imagino. O compositor e cantor da banda, Sydney Minsky-Sargeant, disse na altura que “o motivo pelo qual não há muitas bandas Rock em voga é porque toda a gente faz a mesma merda. Ninguém pode estar surpreendido que o Rock esteja a morrer”. Entretanto, Syd pôs mãos à obra e os Working Men's Club lançaram um dos melhores singles do ano ("Valleys"), um dos álbuns de estreia mais entusiasmantes do ano (o homónimo "Working Men's Club") e ainda deram o melhor concerto que vi durante a pandemia (no Oslo Hackney em Londres e sim, foi seguríssimo). O corolário terá sido o anúncio este mês como suporte dos New Order, no mega concerto em Heaton Park em 2021. Hoje ainda poucos são os que conhecem as letras de Syd, as linhas de baixo de Liam Ogburn e as pinceladas da guitarra de Mairead O’Connor (a banda mais promissora do norte de Inglaterra ainda nem sequer tem uma página na Wikipedia), mas prevejo que isso mude nos próximos meses, ou pelo menos quando a banda puder voltar à estrada para mostrar o seu primeiro álbum. "Working Men's Club" não é o disco de Rock típico. A fusão com a electrónica confere ao álbum um apelo underground, que funciona melhor debaixo de pouca luz e muitos decibéis. Os acenos ao passado são óbvios, mas nunca distractivos – o álbum começa com um ‘olá’ aos New Order e termina com um ‘adeus’ aos Stone Roses; pelo meio há aromas da pop lustrosa dos Human League, do neo-psicadelismo dos Tame Impala, e da esquizofrenia dos Joy Division, numa palete que tantas vezes parece ter levado o dedo de Martin Hannett (foi Ross Orton quem produziu o álbum). Todos estes acenos funcionam como um veículo e não como um fim em si mesmo. O Syd tem 18 anos e é provável que nem sequer conheça grande parte do reportório que enunciei atrás. Fazer-me lembrar deles é o melhor elogio que lhe posso prestar. Mal posso esperar pelo segundo álbum.

Faixa essencial: “John Cooper Clarke”


Epílogo

A escolha do Top 10 foi difícil, por isso fiquem com mais 9 sugestões (sem nenhuma ordem particular) e uma playlist no Spotify para acomodar tudo:

The Avalanches – We Will Always Love You

Creeper – Sex, Death & the Infinite Void

Fiona Apple – Fetch the Bolt Cutters

IDLES – Ultra Mono

Benjamim – Vias de Extinção

Declan McKenna – Zeros

Fontaines D.C. – A Hero's Death

Sufjan Stevens – The Ascension

Andy Bell – The View From Halfway Down

Run The Jewels - RTJ4

sexta-feira, 19 de junho de 2020

"Homegrown": Uma viagem com Neil Young ao fim da linha do amor


Neil Young tinha tudo. O sucesso de "Heart Of Gold" e do respetivo álbum "Harvest" catapultaram-no para o lugar que todos os artistas ambicionam quando começam na música. Mas com o sucesso, vieram os problemas e ficaram as perguntas. Sobre este período, Neil escreveu nas notas de "Decade", em 1977: "Heart Of Gold pôs-me no meio da estrada. Viajar ali rapidamente se tornou aborrecido, por isso dirigi-me para o fosso". O "fosso" foi um período de dois anos (1973/1974) em que Neil lidou com os fantasmas do sucesso ("Time Fades Away"), a morte dos amigos ("Tonight's The Night"), a alienação do Mundo à sua volta ("On The Beach") e, sabemos agora, o heartbreak ("Homegrown"). "Homegrown" é por isso o elo que faltava para melhor perceber a trilogia do fosso, que afinal é uma quadrilogia e ilustrar o período mais negro da vida de Neil Young, berço do seu espólio mais fascinante.

"Homegrown" é o primeiro álbum perdido de Neil Young. Depois deste, muitos outros se seguiriam (já lá vamos). Gravado em 1974 e inspirado pelo falhanço da relação com a atriz Carrie Snodgress, NY achou que as canções eram demasiado pessoais para serem partilhadas com o público. "Assustei-me ao ouvir o álbum", disse Neil. O disco foi para a gaveta e lá ficou desde 1974. Muitas destas músicas seriam regravadas e lançadas em álbuns subsequentes, espalhadas para esconder um todo demasiado introspectivo. "All you have is memories of happiness / Lingerin' on". Esta é a primeira vez que as podemos ouvir como originalmente foram estruturadas.

O timing é curioso. Enquanto o mundo está numa espiral destravada rumo ao abismo, Neil Young resolve tirar da gaveta um álbum sobre um amor perdido em 1974. Amor. Lembram-se? Amor em tempos de Covid parece uma relíquia do passado, perdida longe no tempo. Ou como profetizava o David Bowie no "Under Pressure", "love is such an old fashioned word" ("amor é uma palavra tão antiquada"). É um cliché de agora dizer-se que determinada coisa chegou na altura certa. Creio que é uma serendipidade à qual nos convencemos, para dar algum significado à nossa vazia existência eremítica em tempos de lockdown. Eu vou virar a moeda duas vezes e digo que "Homegrown" chega na altura certa porque chega na altura errada. Falar de amor numa altura que o mundo está numa guerra civil global, por estar mal resolvido com o seu passado, parece um exercício tão vazio como as nossas vidas em lockdown. Por isso é que eu amo o Neil Young. Por isso é que ele é genial. Porque mesmo sendo um activista agressivo, ele não se esquece do que realmente importa e do que de facto molda as nossas vidas - o amor. Mas divago.

O pedal steel no primeiro tema de "Homegrown" coloca-nos imediatamente nas paisagens bucólicas de "Harvest". Mas aqui não há prados verdes, nem canaviais a perder de vista. O que há é um coração partido, que vai sangrar durante 12 temas sobre heartbreak. "We go our separate ways / lookin' for better days". Neil Young diz que "Homegrown" é o elo que faltava entre "Harvest", "Comes A Time" e "Harvest Moon" - os álbuns mais melódicos da sua discografia. Eu digo que "Homegrown" é o "Harvest" no fosso. Neil Young leva-nos na sua viagem ao fim da linha do amor, por cartas nunca enviadas a Carrie Snodgress.

Para perceber de onde Neil vem quando chega a "Homegrown", temos que rebobinar um bocadinho. Depois do aclamado "Harvest", seguiu-se o abrasivo "Time Fades Away", um álbum ao vivo gravado na mega-digressão de "Harvest", em que o público apareceu aos milhares para ouvir os hits, mas que em vez disso, levou com músicas que nunca tinham ouvido antes, de uma banda onde ninguém suportava ninguém. "Um documento de quando estás perdido", disse Neil Young sobre "Times Fade Away".

Se "Time Fades Away" foi o despiste para o fosso, "Tonight's The Night" foi a catarse. Carregado de notas erradas e desafinações, o álbum é um exercício de perguntas e lamentações sobre a morte dos amigos Bruce Berry e Danny Whitten para a heroína. É um disco que procura a verdade da música na sua interpretação crua, ao primeiro take, ao invés do polimento de estúdio. Mas tal como aconteceria com "Homegrown", quando acabou de gravar o álbum, Neil Young achou que era demasiado pessoal e decidiu arquivá-lo e gravar o próximo. O próximo seria "On The Beach".

"On The Beach" é, digo eu, a obra-prima de Neil Young. Foi em "On the Beach" que Neil nos atirou um arpão ao coração, quando fez a si mesmo a pergunta: se eu tenho tudo o que sempre quis, porque é que não sou feliz? "Though my problems are meaningless, that don't make them go away." Nunca consegui encontrar a resposta.

As perguntas em "Homegrown" são menos filosóficas, mas não menos importantes. Porque é que o amor não resulta? ("Love Is A Rose") Como lidar com aquela pessoa que amámos e que já não conhecemos? ("Vacancy") Como é que se lida com a desilusão?  ("Star Of Betlehem") Por que trilhamos caminhos diferentes dos que amamos? ("Separate Ways") Fugir é a resposta? ("Mexico") Como é que se parte para um novo amor sem deixar o passado para trás? ("Try") Neil Young faz as perguntas, mas tal como em "On The Beach", não dá as respostas. Não as dá porque não as tem e porque também não é esse o objectivo. O corolário aqui é enfrentar as questões que evitamos para viver o dia-a-dia com o mínimo de sanidade mental. Mas Neil Young não é diferente e tal como nós, também ele evitou as questões que colocou a si mesmo e atirou o álbum para o fundo da gaveta. Como "Homegrown" era ainda mais pessoal, Neil decidiu então lançar "Tonight's The Night". "Homegrown" ficou para trás. Até agora.

Estará assim finalmente completa a discografia do fosso? Talvez não. Segundo uma lista de 29 (!) projectos que Neil Young partilhou no seu site, que ficaram na gaveta ao longo da sua carreira, ainda falta ouvir "Homefires", que supostamente vai incluir faixas como "Deep Forbidden Lake" (lançado mais tarde em "Decade"), ou as versões originais de "Hawaii" e "Give Me Strength", que ouvimos pela primeira vez na sua regravação para "Hitchiker" em 1976, álbum esse que, adivinhem, também ficou na gaveta até 2017. Não admira, pois, que a discografia de Neil Young pós-Harvest seja uma amálgama incoerente de álbuns que não fazem justiça à qualidade do trabalho que ele produzia. Todos os estes cancelamentos só mostram um artista que, na busca da verdade, procura, talvez até demais, a perfeição. Tanto na música como na vida.

Enquanto escrevo as linhas finais desta review, o carteiro toca-me à porta. É a minha cópia do "Homegrown" em vinil. Esta, o Neil Young já não pode cancelar.