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terça-feira, 27 de abril de 2021

Ryan Adams, o culpado de todos os pecados de décadas de "má conduta sexual"

Ryan Adams caiu em desgraça em 2019 quando, em pleno auge do movimento #metoo, o New York Times fez uma reportagem com testemunhos de ex-namoradas que não tinham grandes coisas a dizer sobre ele. A reportagem dava também conta de trocas de mensagens com raparigas menores, que o FBI prontamente se encarregou de investigar. Esta última acusação, gravíssima, acabaria por não dar em nada, uma vez que ficou provado que a rapariga mentiu sucessivamente sobre a sua idade. Já os relatos das ex-namoradas, aparentemente mais prosaicos, ditaram o fim da carreira de Ryan Adams; não porque ele tenha cometido algum crime, mas sim porque terá sido prevaricador de, cito, "má conduta sexual". O tribunal? A imprensa musical.

Ryan tentou retratar-se, mas o artigo do NYT causou um terramoto nas redes sociais tao grande, que obrigou o artista americano a cancelar a tourné que tinha planeada para a Europa (eu tinha bilhete para o Royal Albert Hall), bem como o lançamento da trilogia de álbuns que estava prevista para esse ano e que à data começava com "Big Colors", seguido de "Wednesdays" e por fim, "Chris". Nenhum deles viu a luz do dia em 2019.

Desde então, Ryan Adams tentou reatar a sua carreira, sem sucesso. No ano passado, o leak do álbum "Wednesdays" precipitou o lançamento online do segundo disco da trilogia que tinha programado. Porém, nenhum órgão da imprensa mainstream arriscou sequer fazer uma review do álbum. O disco foi completamente ignorado pela mesma imprensa que o queimou e o tornou o réu de todos os crimes alguma vez cometidos no mundo da música. Mesmo que aparentemente ele não tenha cometido nenhum.

Ryan Adams foi o mártir perfeito. Um músico suficientemente conhecido e criticamente laureado para que a imprensa musical o pudesse dizimar e com isso hastear a bandeira do #metoo contra os homens brancos e poderosos; mas não tão conhecido e influente que colocasse em risco a própria imprensa, que não quer ter uma horde de milhões de fãs dos Beatles, dos Stones, ou dos Red Hot furiosos à sua porta. Ajudou também que a maioria dos fãs do Ryan Adams fossem hipsters com demasiada self-awareness social, com medo de sequer questionar os quês e porquês do linchamento que se estava a fazer ao músico. Ai de alguém que arriscasse sair em defesa da música de Ryan Adams. Sim, porque no fim do dia, é de música que estamos a falar.

Atentem, depois de ler a história do New York Times e fazendo fé que é verdade (o que não sabemos ao certo), eu também não iria aconselhar uma amiga minha a sair com o Ryan Adams. Nem teria grande interesse em incluir alguém tao insuportavelmente queixinhas e miserável no meu grupo de amigos (e o mesmo diria da Phoebe Bridgers, mas nem vou entrar por aí). Mas não é de avaliações pessoais que se trata, pois não? Estamos a falar de música. Se é boa (e "Wednesdays" é pelo menos metade excelente) ou má. Podemos julgar para um lado ou para o outro, não podemos é fingir que não existe.

Notem que também não estou a dizer que os órgãos de comunicação social devem ter a obrigação de escrever sobre a música de Ryan Adams. Se querem ignorar por princípios morais, ok, eu aceito. Mas essa é uma espada muito pesada que mais cedo do que tarde se vai virar contra os próprios. É que se Ryan Adams está fora para estes guerreiros sociais, então não é aceitável escrever sobre nomes como: John Lennon (por bater na mulher), Lou Reed (idem), George Harrison (por ser mulherengo), Eric Clapton (idem), David Bowie (mais um réu de má conduta sexual), Iggy Pop (idem), Keith Richards (idem), Mick Jagger, Marvin Gaye, Elvis PresleyAnthony KiedisSteven TylerJimmy Page (todos por se envolverem com raparigas menores). Se não escreverem sobre nenhum destes, nem sobre todos os músicos que alguma vez foram acusados por alguma mulher de "má conduta sexual" (#believeher, nunca esquecer), vão ter a vida muitíssimo dificultada, mas respeito. De outra forma, estão a incorrer numa terrível hipocrisia.

Ou então façam uso da vossa liberdade para falar na música do Ryan Adams, dizendo tudo o que vos vai na alma, chamando-o de porco se quiserem, mas reconhecendo a sua existência, como fazem com os outros. Passado o turbilhão do #metoo, Ryan Adams foi praticamente o único que no mundo da música pagou por todos os pecados de décadas de, citando, "más condutas sexuais". Todos sabemos o que aconteceu com nomes bem mais sonantes do que ele. 

Voltando ao que interessa, à música, Ryan Adams prepara-se para lançar aquele que supostamente seria o primeiro volume da sua trilogia programa para 2019 - "Big Colors". Esta semana já pudemos ouvir uma amostra - "Do Not Disturb" -, um slow burner que é muito mais entusiasmante que o primeiro tema deste disco que conhecemos em 2019 - "Fuck The Rain" (que entretanto desapareceu de todas as plataformas online). Fico ansiosamente à espera de mais novidades de "Big Colors", especialmente depois de ter ficado rendido a "Wednesdays" no ano passado. Se estão hesitantes em ouvir a música de Ryan Adams por causa do que ele terá ou não terá feito há 10 anos, o meu conselho é seguirem as palavras sábias de Steve Van Zandt - "Confiem na arte, nunca no artista". Gostam do álbum? Não tenham problemas em admitir. #metoo

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Os 10 melhores álbuns de 2020

Os Working Men's Club


Chegámos aos últimos dias do ano mais estranho das nossas vidas, tempo para o habitual resumo discográfico do ano. Sem mais demoras, passemos então ao Top dos 10 melhores álbuns que ouvi em 2020 (na verdade são 11), numa selecção com discos para todos os estados de espírito, apropriada para o ano esquizofrénico que agora finda.


0. Neil Young – "Homegrown"

Neil Young lançou a confusão nas minhas listas anuais, ao tirar da gaveta um álbum gravado em 1974, que viu a luz do dia pela primeira vez em 2020. E que álbum. “Homegrown” era a peça que faltava para entender a trilogia Ditch (que afinal é uma quadrilogia) – a fase mais introspectiva e mais fascinante da carreira de Neil Young. Um disco sobre um amor perdido, fechado a sete chaves por ser demasiado pessoal e Neil querer, na altura, seguir em frente com a sua vida. Num ano em que o mundo se viu numa espiral destravada rumo ao abismo, Neil Young resolveu lembrar-nos daquilo que realmente interessa – o amor. Como olhar então para “Homegrown”? É demasiado ancorado a 1974 para ser um disco de 2020, mas grande parte do álbum é música “nova”, completamente desconhecida até este ano e de tal forma superlativa que tinha que ter um lugar nesta lista. Fica então com o número “zero” e serve de prefácio para a contagem dos álbuns lançados no último ano e gravados, enfim, mais recentemente.

Faixa essencial: “Separate Ways”


10. Destroyer – "Have We Met"

Sou fã dos Destroyer desde “Kaputt”, lançado em 2011 e um dos melhores discos da última década. Desde então, Dan Bejar tem tentado abordagens radicalmente diferentes em cada novo álbum, com resultados naturalmente dispersos. O anterior “ken” (2017) fora um trabalho mais de grupo e curiosamente, achei-o menos interessante que este “Have We Met”, que teve uma gestação solitária em duas fases distintas: primeiro, Bejar compôs tudo e gravou as demos sozinho em casa; depois, o baixista dos Destroyer, John Collins, produziu e aumentou as faixas no seu iPad e chamou o habitual guitarrista da banda, Nicolas Bragg, para acrescentar umas linhas de guitarra. Et voilá, um ano antes do ano do lockdown (o álbum foi lançado em Janeiro), os Destroyer fizeram um álbum em isolamento, sobre o isolamento. E o melhor desde “Kaputt”.

Faixa essencial: “Cue Synthesizer”


9. Perfume Genius – "Set My Heart On Fire Immediately"

Comecei a acompanhar o Perfume Genius (Michael Hadreas) em 2014, aquando do seu álbum “Too Bright” e desde então tem sido sempre a subir. "Set My Heart On Fire Immediately" não parece só o culminar de toda a sua discografia e temática anterior, é um cocktail esquizofrénico de influências, uma miríade de estilos que tornariam este parágrafo demasiado penoso de ler, se eu começasse aqui num name-dropping. Também penosa – ou catártica, depende do ponto de vista – é a audição do álbum do princípio ao fim, de uma vez só. Num disco de forma grandiosa, mas conteúdo introspectivo, a intensidade da voz, da lírica e da música, fazem de "Set My Heart On Fire Immediately" um verdadeiro desafio. Sonicamente, o álbum dispara para todas as direções, mas consegue manter um fio condutor etéreo e temático. Viajamos sobre as nuvens, na voz dorida de Hadreas, acompanhando a eterna luta contra a prisão do seu corpo, sempre com o amor como única forma de redenção. Melhor disco da carreira de Perfume Genius.

Faixa essencial: “Describe”


8. Fleet Foxes – "Shore"

Os Fleet Foxes deram as boas vindas ao Outono com o disco perfeito para a ocasião. “Shore” foi lançado exactamente às 13:31 de 22 de Setembro, para coincidir com o Equinócio de Outono – um capricho que soa, e é, muito millennial, mas que mapeia com precisão o posicionamento emocional deste álbum. Segundo Robin Pecknold – cantor, compositor e líder dos Fleet Foxes – é um disco que “celebra a vida diante da morte”. Filho dos fantasmas do lockdown (vamos ter muitos), “Shore” é sonicamente o disco perfeito para o fim de um dia terrível no trabalho, um bálsamo depois da dor. E o melhor álbum da discografia dos Fleet Foxes.

Faixa essencial: “Can I Believe You”


7. Baxter Dury – "The Night Chancers"

O filho de Ian Dury dos Blockheads (temo que Baxter nunca se livrará desta sombra) tem um dos discos mais cool do ano. Lançado antes das trevas do lockdown, "The Night Chancers" lembra-nos de um mundo livre de Covid, em que nem tudo se devia aos fantasmas do confinamento. A estética sónica do álbum leva-nos numa caminhada nocturna pelos bares de Oberkampf (ou do Cais do Sodré, depende do imaginário do ouvinte), enquanto Baxter vai expelindo a sua poesia perversa e libidinosa, sobre linhas de sintetizador que nos sugerem que o perigo se aproxima a qualquer instante, provavelmente sobre a forma de uma mulher. Não é ao acaso que as backing vocals  femininas são um acompanhamento constante ao longo do álbum, como se de vozes na mente de Baxter se tratassem. "The Night Chancers" é uma relíquia das nossas vidas pré-Covid e, sim, também o melhor disco da já longa carreira de Baxter Dury.

Faixa essencial: “I’m Not Your Dog”

 

6. Doves – "The Universal Want"

Parece um conto de fadas – o parente pobre da post-Britpop que já todos tinham esquecido regressa em 2020 para um dos álbuns do ano. “The Universal Want” surge do nada, 11 anos depois do último disco dos Doves e o mais incrível é que este álbum é melhor do que tudo o que precedeu a discografia da banda de Manchester. Carregado de melodias que abraçam o ouvido, riffs que arrepiam a espinha e paisagens sonoras que convidam a ficar, “The Universal Want” não veio reinventar a roda, mas trouxe 10 das melhores composições de 2020. O regresso do ano. 

Faixa essencial: “For Tomorrow”


5. Taylor Swift – "evermore"

Taylor Swift é a mais entusiasmante artista mainstream do momento e para quem ainda tinha dúvidas que a menina Taylor é a melhor compositora da última década, penso que 2020 veio pôr uma pedra sobre o assunto. Para mim, que já era fã da faceta Pop de Taylor, deixou de haver dúvidas acerca do sumo das cancões, quando Ryan Adams extraiu um dos melhores álbuns dos últimos 10 anos a partir dos temas de “1989”. Curiosamente, o caminho que Taylor trilhou desde então vai dar ao encontro dessa mesma sonoridade mais minimalista e é precisamente isso que ouvimos nos dois álbuns que lançou este ano. “folklore” e “evermore” são dois lados da mesma moeda e no futuro deverão ser olhados como um par (tal como “Use Your Illusion I” e “Use Your Illusion II” dos Guns N’ Roses), mas a visão da Taylor Swift é que são dois álbuns distintos e por isso, vou respeitá-la. Para ser justo, ambos os álbuns poderiam figurar nesta lista, mas como não queria repetir artistas, a escolha recaiu no melhor dos dois, que é o mais recente “evermore” – uma colecção pessoal com um tema para cada estado de alma. 

Faixa essencial: “champagne problems”


4. Ryan Adams – "Wednesdays"

A surpresa do ano. Depois de ter sido cancelado em 2019, Ryan Adams regressou este mês com o lançamento-surpresa do álbum "Wednesdays", disco que supostamente seria a segunda parte de uma trilogia programada para 2019 e agora projectada para 2021. "Wednesdays" é um disco que por vezes parece ter saído da fase Ditch de Neil Young, outras vezes passa pelo "Nebraska" de Bruce Springsteen e que tantas vezes evoca o sangue derramado pelo coração de Bob Dylan em "Blood On The Tracks". Se estão hesitantes em ouvir "Wednesdays" por causa do que Ryan Adams terá ou nao terá feito há 10 anos, o meu conselho é seguirem as palavras sábias de Steve Van Zandt - "Confiem na arte, nunca no artista". Gostam do álbum? Não tenham problemas em admitir. #metoo

Faixa essencial: “I'm Sorry And I Love You”


3. Bruce Springsteen – "Letter To You"

Quem diria que Bruce ainda tinha em si um grande álbum para a E Street Band? O maravilhoso "Western Stars" de 2019 mostrou-nos um Bruce envelhecido e confortável na sua pele de ancião, mas sucessivas desilusões em trabalhos com a E Street Band (desde "Magic" de 2007, que não havia um álbum que enchesse as medidas) adivinhavam um lento crepúsculo em da sua sonoridade mais clássica. Tudo isso foi mandado pela janela em 2020, quando Bruce resolveu regressar às origens e fazer um álbum “à anos 70”. Como? Foi à gaveta buscar um punhado de temas que escrevera quando tinha 18 anos. Bruce recuperou “Janey Needs A Shooter”, “Song For Orphans” e “If I Was The Priest”, regravou-os e conseguiu de forma incrível canalizar a energia e a urgência do Bruce adolescente, naquelas que foram para mim as melhores coisas que eu ouvi em 2020. Mas isto sou eu que sou um fã hardcore do Bruce Springsteen, com a perfeita noção de que qualquer coisa que ele faça vai sempre partir da pole position. Dividido em 3 lados, “Letter To You” perde gás no Lado B, prova que teria beneficiado de uma ligeira edição. De qualquer forma, é um disco inesperado de pulmão cheio, que mostra que Bruce ainda está aqui para as curvas.

Faixa essencial: “Janey Needs A Shooter”


2. Daniel Lopatin - "Uncut Gems: Original Motion Picture Soundtrack"

Não é todos os dias que chega um álbum que cria um universo próprio com a sua sonoridade. O exemplo máximo desta efeméride terá sido a banda sonora de “Blade Runner” de Vangelis que, tal como anunciava no filme, começou uma vida nova nas Off World Colonies. Mas se a banda sonora de “Blade Runner” nos atirou para um futuro distante (a partir de 1982) e um espaço infinito, a banda sonora de “Uncut Gems” vira para dentro, para o espaço não menos desconhecido, não menos enigmático e não menos infinito da nossa mente. Daniel Lopatin dá uso a sintetizadores que evocam gigantes do passado Tangerine Dream, Klaus Schulze (e Vangelis, claro) e pintores sónicos do presente, para criar uma paisagem cinemática lustrosa, perfeita para uma obra que vive da soma entre a imagem e o som e submerge o espectador num universo só seu. Lopatin que, curiosamente, usou nesta banda sonora o seu nome próprio, ao invés do seu alter-ego Oneohtrix Point Never, que lancou outro álbum este ano (“Magic Oneohtrix Point Never”), interessante a espaços, mas não tao convincente como “Uncut Gems”. O filme saiu nos últimos dias de 2019, tarde demais para figurar nas listas do ano passado, e é para mim o melhor que vi e ouvi este ano. Com “Letter To You” e o disco que se seguirá na contagem, a banda sonora de “Uncut Gems” forma um tríptico dos meus álbuns favoritos deste ano e honestamente, qualquer um poderia figurar no primeiro lugar.

Faixa essencial: “The Ballad Of Howie Bling”


1. Working Men's Club – "Working Men's Club"

A revelação do ano. Há doze meses, quem é que sabia quem eram os Working Men's Club? Pouca gente, imagino. O compositor e cantor da banda, Sydney Minsky-Sargeant, disse na altura que “o motivo pelo qual não há muitas bandas Rock em voga é porque toda a gente faz a mesma merda. Ninguém pode estar surpreendido que o Rock esteja a morrer”. Entretanto, Syd pôs mãos à obra e os Working Men's Club lançaram um dos melhores singles do ano ("Valleys"), um dos álbuns de estreia mais entusiasmantes do ano (o homónimo "Working Men's Club") e ainda deram o melhor concerto que vi durante a pandemia (no Oslo Hackney em Londres e sim, foi seguríssimo). O corolário terá sido o anúncio este mês como suporte dos New Order, no mega concerto em Heaton Park em 2021. Hoje ainda poucos são os que conhecem as letras de Syd, as linhas de baixo de Liam Ogburn e as pinceladas da guitarra de Mairead O’Connor (a banda mais promissora do norte de Inglaterra ainda nem sequer tem uma página na Wikipedia), mas prevejo que isso mude nos próximos meses, ou pelo menos quando a banda puder voltar à estrada para mostrar o seu primeiro álbum. "Working Men's Club" não é o disco de Rock típico. A fusão com a electrónica confere ao álbum um apelo underground, que funciona melhor debaixo de pouca luz e muitos decibéis. Os acenos ao passado são óbvios, mas nunca distractivos – o álbum começa com um ‘olá’ aos New Order e termina com um ‘adeus’ aos Stone Roses; pelo meio há aromas da pop lustrosa dos Human League, do neo-psicadelismo dos Tame Impala, e da esquizofrenia dos Joy Division, numa palete que tantas vezes parece ter levado o dedo de Martin Hannett (foi Ross Orton quem produziu o álbum). Todos estes acenos funcionam como um veículo e não como um fim em si mesmo. O Syd tem 18 anos e é provável que nem sequer conheça grande parte do reportório que enunciei atrás. Fazer-me lembrar deles é o melhor elogio que lhe posso prestar. Mal posso esperar pelo segundo álbum.

Faixa essencial: “John Cooper Clarke”


Epílogo

A escolha do Top 10 foi difícil, por isso fiquem com mais 9 sugestões (sem nenhuma ordem particular) e uma playlist no Spotify para acomodar tudo:

The Avalanches – We Will Always Love You

Creeper – Sex, Death & the Infinite Void

Fiona Apple – Fetch the Bolt Cutters

IDLES – Ultra Mono

Benjamim – Vias de Extinção

Declan McKenna – Zeros

Fontaines D.C. – A Hero's Death

Sufjan Stevens – The Ascension

Andy Bell – The View From Halfway Down

Run The Jewels - RTJ4

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A melhor música da primeira metade do ano

O crítico de música da NiT tem a playlist perfeita para o verão

Já dobrámos a primeira metade de 2017 e chegou a altura de rever a matéria dada com uma playlist mesmo a tempo da praia, da piscina, ou daqueles 'warm sunny days indoors' tão bons. Notem que isto não é bem a vossa clássica "Playlist de verão". Pelo menos não estou a ver ninguém a curtir Mount Eerie num sunset de copo de gin na mão. O espectro é mais largo que isso e o critério é absolutamente pessoal e parcial. Passemos então aos maiores destaques da playlist.

Álbum do ano: Ryan Adams — "Prisoner"

A playlist abre com "Doomsday", um tema retirado de "Prisoner" — o mais recente álbum de Ryan Adams e o que mais me encheu as medidas este ano. O Ryan tem dado muito que falar pelo tamanho da sua língua, numa série de ataques aos The Strokes no Twitter, que já não víamos desde que o Liam Gallagher se tornou um gajo calmo (até quando fala do irmão!). O próprio reconheceu isso mesmo e assinou o tweet da mesma forma que Liam fecha os seus escritos — "As you were". Adoro, adoro, adoro.

Infelizmente só se fala nas bocas de Ryan Adams e não no que realmente importa, que é o seu mais recente, superlativo e criminosamente ignorado trabalho "Prisoner". Este álbum mostra um Ryan na sua zona de conforto, que no seu caso é o mesmo que dizer —  a carpir mágoas com canções sobre relações falhadas e corações partidos. Continua a haver algo de irresistivelmente masoquista e metaromântico nesta vontade Louis-CKiana de Ryan se apaixonar sem medo da miséria do pós-heartbreak, ou até na ânsia da inspiração que essa miséria lhe pode dizer. E não é esse o sal da vida?

Mas não pensem o universo de "Prisoner" se esgota nos 12 temas que compõem o álbum. Semanas após o seu lançamento, Ryan lançou 17 (!!!) temas adicionais gravados nas sessões deste álbum. Se quiserem mergulhar mais a fundo nesta fase prolífica do músico americano, não deixem de ouvir a overwhelming compilação "Prisoner B-Sides".


Tema do ano: Radiohead — "Man Of War"

A segunda entrada da playlist é "Man Of War" dos Radiohead. Segundo a minha fiel fonte dos Radiohead, "Man Of War" foi o tema que a banda sugeriu à EoN  (produtora dos filmes do James Bond) quando foram abordados para escrever o tema de "Spectre". "Man Of War" foi escrito por alturas do "The Bends" como uma homenagem aos Bond themes, na expectativa de um dia os Radiohead serem chamados à prova (no documentário "Meeting People Is Easy", podemos ver a banda no estúdio a gravar o tema). A chamada não chegou tão cedo como esperavam e "Man Of War" ficou na gaveta durante 20 anos.

O telefone tocou finalmente em 2015, mas a EoN perversamente não aceitou "Man Of War" por ser um tema antigo. Como tal, os Radiohead gravaram "Spectre", que foi igualmente rejeitado por ser 'demasiado dark' e em última instância foi chamado Sam Smith, que acabaria por gravar o deveras underwhelming "Writing On The Wall".

Na verdade, talvez "Man Of War" fosse demasiado complexo para o retrato que a EoN quer fazer do James Bond nos seus filmes. Na visão original de Ian Fleming, James Bond é um assassino. Pura e simplesmente. É um homem com mais morte e menos swing que a série de filmes quer fazer crer. Mas acima de tudo, Bond é um homem. Um homem igual aos demais, com medos, desejos e anseios. A morte dos outros é a forma que Bond encontrou para compensar a sua própria morte interna. E é assim que os Radiohead se atrevem a caracterizá-lo no melhor tema de 2017... mas que foi gravado em 1997 (ou entre 1995 e 1997 para ser mais exacto) e agora viu finalmente a luz do dia na reedição de "OK Computer". Podem ler mais sobre "Man Of War" aqui.


Regresso do ano: Roger Waters — "Is This The Life We Really Want?"

O regresso mais surpreendente do ano tem que ser o de Roger Waters. Tanto pelo simples facto de ele acontecer, como (e principalmente) por ser algo que realmente vale a pena ouvir. Faz-me muita confusão ler as opiniões quase unanimemente complacentes e moderadas relativamente a "Is This The Life We Really Want?". Condescendentes, diria até. Parece que ouviram uma vez — se ouviram uma vez sequer — escreveram meia dúzia de banalidades e siga para bingo. Mas que é isto? Todas as reacções são possíveis, mas se há uma coisa que Roger Waters não provoca é indiferença. Esta condescendência constitui maior ofensa ao Roger do que se lhe dissessem na cara que o álbum é uma valente merda. Mas que nova moda é esta de não ter opinião para não magoar ninguém? Vamos agora todos pintar as nossas palavras de cinzento porquê? Para agradar aos outros? Citando o Roger, "fuck them!".

Vou ser directo: "Is This The Life We Really Want?" não é um álbum de digestão imediata. É uma audição extenuante, tal o negativismo que assola a música do princípio ao fim. É também um álbum fatalmente político; eu até costumo ser apologista que os meus artistas se mantenham longe da política, mas a verdade é que o "Animals" era político e não deixa de ser uma obra-prima por isso. Roger tem opiniões fortes e quer expressá-las; e ainda bem. Se ao menos o fizesse mais vezes.

Para lá da visão niilista da vida e do mundo, "Is This The Life We Really Want?" é também um exercício de introspecção implacável. Roger despe-se por completo, olha para dentro e escava a fundo em si mesmo. Sem medos. E desta vez, não é só a interminável saga do pai que morreu na guerra; é o Roger que morreu por dentro e quer falar sobre isso. Este é o álbum mais pessoal de toda a sua carreira. E se eu tivesse que apostar, diria que este álbum confessional só chegou agora, porque só agora é que Roger aprendeu a olhar para dentro e viu a besta que é.

Roger descreveu "Is This The Life We Really Want?" como um álbum "parte tapete mágico, parte discurso político, parte angústia". Belo resumo. Ouçam, mas tenham um copo de vinho à mão, de preferência. Sempre é uma anestesia para o vazio que vão sentir.

Para uma leitura mais aprofundada sobre "Is This The Life We Really Want?", podem ir aqui, aqui e aqui.

O que resta do ano: Foo Fighters, The War On Drugs e Liam Gallagher

A primeira metade de 2017 também nos deu muitas amostras do que podemos esperar para o que resto do ano. Muitos destes temas são singles de avanço dos respectivos álbuns que aí vêm e compõem também parte do melhor que já se ouviu este ano.

Começando pelos Foo Fighters, que deixaram água na boca com o novo "Run", tema que testaram no concerto do Alive com resposta positiva. No último álbum, Dave quis dar uma de Roger Waters e formular um elaborado conceito que cruzava uma série televisiva sobre a cultura musical de várias cidades, com um álbum em que cada tema era inspirado numa cidade e acompanhava o respectivo episódio. O conceito era ambicioso, a série foi excelente, o álbum nem por isso. "Run" parece ser um regresso dos Foos à boa forma, depois do sensaborão "Sonic Highways".

Os The War On Drugs vêm aí com "A Deeper Understanding", o tão aguardado sucessor do maravilhoso "Lost In the Dream" de 2014. E cada faixa parece ser melhor que a anterior. Este não engana.

Liam Gallagher está de volta e o seu álbum "As You Were" (que como já vimos parece estar a virar hashtag para qualquer post mais corrosivo) é ao mesmo tempo a maior expectativa e a maior incógnita deste ano. Apesar de ser um enorme fã do Liam, confesso que não esperava muito das suas canções (que nunca fogem muito à regra dos 'Liam standards'), mas cada faixa tem-me vindo a surpreender. Quem sabe e não teremos aqui uma revelação. Em qualquer dos casos, o que eu quero mesmo é o regresso dos Oasis. As you were.


A playlist

Sem mais demora, fiquem então com a playlist com os 25 temas que fizeram o melhor que ouvi na primeira metade de 2017 (na verdade são 26, mas quem está a contar?).

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Na noite do The Weeknd, foi Ryan Adams quem reinou

O primeiro dia dos NOS Alive também contou com a pujança dos Royal Blood


O primeiro dia do NOS Alive 2017 provou por que todos os anos vemos o festival ganhar tracção internacional. A organização está cada vez melhor e, tirando a cegada que é a saída do recinto (invista num passadiço pedonal, Sr. Covões), o maior defeito está nalgumas escolhas perversas que obrigam o público a fazer. Mas esse é o preço de apresentar um cartaz muito forte. Vamos então ao resumo dos principais concertos do primeiro dia. Começando pelo fim.

The Weeknd (Palco NOS | 00:50)

Abel Tesfaye —  mais conhecido como The Weeknd —  era um dos nomes mais esperados do festival e basta olhar à volta para perceber que é o artista que mais gente trouxe ao primeiro dia do NOS Alive. Quem já ouviu a sua música (e como escapar a isso?), percebe que Abel sabe bem o que é uma música Pop e, mais importante que isso, sabe como criá-la. A expectativa era alta e a hora proibitiva do início do concerto (00:50 num dia de semana?) não demoveu os seus fiéis, que ocuparam uma boa parte do recinto em frente ao Palco NOS.

The Weeknd diz que ouve Michael Jackson antes dos concertos e essa inspiração ouve-se na sua música. Talvez seja por isso que o melhor The Weeknd apareça quando explora as pistas de dança. Como logo no início em "Star Boy", ou na imparável sequência "Secrets" / "Can't Feel My Face" / "I Feel It Coming"  lá mais para o fim, que foi facilmente o ponto alto de ontem no palco principal. Tenho um carinho especial por "Secrets", que cruza dois dos meus temas preferidos dos anos 80 — "Pale Shelter" dos Tears For Fears e "Talking In Your Sleep" dos The Romantics (se não conhecem, não deixem de espreitar) — e resulta num empadão Pop delicioso que revela arte na produção e muito, muito bom gosto.

É isto que acontece quando The Weeknd toma atenção à melodia  e foi esse talento que lhe valeu a fama de segunda vaga do Michael Jackson. Sem surpresa, foram também esses os melhores momentos do concerto de ontem. Pena que ele demasiadas vezes pareça mais apostado em ser a segunda vaga de Kanye West. Vamos então aos senãos.

O problema com The Weeknd ao vivo é o mesmo mal de que sofrem os seus discos. Estão (propositadamente) carregados de baixo que assoberbam todo o pavilhão auricular, supostamente para a música "bombar" mais. Só que isso arruína por completo quem quer ouvir a música e não está no Urban Beach. A melodia fica tão diluída no dilúvio dos baixos, que a determinado ponto torna toda a experiência penosa. O concerto de ontem teve demasiados momentos destes e não tinha que ser assim. A mudança de paradigma na audiência foi perceptível quando entrou a já referida sequência "Secrets" / "Can't Feel My Face" / "I Feel It Coming", com muito menor proeminência de baixo. Pena ele ter voltado para o fecho com "The Hills".

Agora que atingiu o estatuto de super-estrela, esperar-se-ia que Abel tentasse proteger as suas criações do tratamento sónico obnóxio a que são sujeitas. Mas é "assim" que está estabelecido agora, não é? Pois, é pena.


Royal Blood (Palco Heineken | 00:00)


Enquanto não chegam os Foo Fighters, os roqueiros que marcaram presença no NOS Alive congregaram-se ontem à meia-noite no Palco Heineken para ver Royal Blood. Mas antes de contar o que se passou no concerto, permitam-me um desabafo. Os Royal Blood são o perfeito espelho do ponto a que chegou a música Rock em 2017; ou melhor, do que é permitido ser uma banda Rock para ter algum airplay em 2017. Não que haja alguma coisa de mal com o duo de Brighton, atenção. Mas fico algo confuso quando os parecem vender como os novos Led Zeppelin. Revela mais sobre o estado do mainstream actual do que da própria banda, que não culpa nenhuma disso. 

Como qualquer roqueiro, ouço-os com toda a facilidade e esse é que é o problema. Eles são tem genéricos, tão 'clean' e tão consensuais, que fica difícil estabelecer uma relação de afecto mais intensa. Na época do politicamente correcto, os rapazes inofensivos dos Royal Blood são os heróis moderados perfeitos. É que, já sabemos, agora os músicos não podem dizer nada que seja minimamente ofensivo, não podem ter atitude e, god forbid, alguma densidade. Pela minha parte, preciso de mais alguma profundidade ou. pelo menos. mais alguma tesão (e sim, esta é a palavra) do que a insipidez de um "Figure It Out"; embora reconheça alguma melhoria do primeiro para o segundo álbum (nomeadamente no "How Did We Get Do Dark?", que não foi tocado ontem). O problema não é não haver bandas Rock em 2017. É não haver bandas Rock que me compelem a criar uma religião sobre eles. Mas divago.

Dito tudo isto, meu amigos rockers que me lêem, o concerto de ontem no Heineken foi uma bomba. Puro Rock 'n' Roll. E não, não há aqui qualquer contradição. Ao vivo, a história é bem diferente. Não é por acaso que o concerto Rock ganhou fama de experiência transcendental.

Em primeiro lugar, tiro o chapéu à organização que teve olho em pôr o duo de Brighton na tenda Heineken, não caindo na tentação de pôr a banda a abrir para o The Weeknd no palco principal, misturando públicos diferentes e diluindo a sua pujança naquele espaço aberto. Na tenda, os Royal Blood puderam concentrar todo o seu músculo num espaço exíguo e, em comunhão com o público, criar um ambiente selvagem e ensurdecedor, daqueles que enchem o coração a qualquer roqueiro.

Enquanto os riffs rijos do baixo de Ben Thatcher ocupavam a tenda, Mike Kerr carregava na bateria com toda a força, castigando os pratos como se de uma terapia se tratasse. E quando chegou "Figure It Out" — esse mesmo que eu diminuí no início do texto —, foi o delírio. À frente do palco, o caos do mosh e cá atrás, o regresso do fenómeno das cavalitas, bonito espectáculo para ver nos ecrãs, menos para os desgraçados que estão directamente atrás.

No fim do concerto, Ben e Mike foram para o meio do público e despediram-se em crowd-surfing: "never in my life I've seen at the same place and at the same time so many beautiful people. Thank you so much!", até que a produção lhes cortou o som, porque por eles, já não saíam dali. Mesmo presumindo que Mike diz isso a todas (as audiências), eu fiquei a gostar mais dos Royal Blood. Vejam só a diferença que um concerto pode fazer. A vontade de formar a religião é que nem por isso.


Ryan Adams (Palco Heineken | 22:00)


Deixei o melhor para o fim. Eram 22:00 quando entrou na tenda Heineken o melhor músico que actuou ontem no Alive. É um cenário um pouco estranho, ver Ryan Adams aparentemente perdido no meio do cartaz, para quem traz na bagagem um dos melhores álbuns do ano (e não sou só eu que o digo). Mais estranho ainda é ver a organização impor a escolha perversa entre Ryan na Heineken e The xx no palco principal. Como se houvessem dúvidas.

Ryan Adams entrou logo a abrir com "Do You Still Love Me?", o primeiro single do seu novo álbum "Prisoner", que poderia também ser dos Whitesnake. "Do you still love me, babe?!" canta Ryan, num grito terapêutico que de imediato o liga emocionalmente com o público. É esse elo emocional que é trabalhado ao longo de quase hora e meia. Seguidamente avança para os clássicos "To Be Young (Is To Be Sad, Is To Be High)" do álbum "Heartbreaker" e "Gimme Something Good" do seu álbum homónimo de 2014, outro callback ao Hair Metal dos anos 80. Já estamos todos ligados.

O set de Ryan faz um resumo de toda a sua carreira, incluindo os álbuns com os The Cardinals, pecando só por mostrar muito pouco do seu superlativo novo álbum. Outro senão é a completa ausência de temas de "1989"; embora soubesse à partida que Ryan não costuma tocar esse álbum, não deixei de ficar um pouco desapontado. Faltaram também "Come Pick Me Up" e o seu famoso cover de "Wonderwall". Talvez Ryan tivesse ouvido acerca dos incêndios que castigaram Portugal no último mês e tivesse medo de pegar fogo à tenda Heineken com o tema dos Oasis.

Como artista multifacetado que é, Ryan quis dar um espectáculo a mostrar todos os seus registos. Assim, para além dos momentos de maior vapor, houve também espaço a temas de beleza tranquila como "When The Stars Go Blue" e refrões a capella (lamentavelmente interrompidos pelo ruído vindo do palco principal) e solos de guitarra de 5 minutos em "Peaceful Valley".

As canções que Ryan vai entregando sucessivamente em intensidade catártica são praticamente mono-temáticas. A sua música nasce à custa de um sem número de marteladas no coração e de um consequente abuso de substâncias proibidas (que também afectaram a sua fisionomia) que lhe trazem inspiração. Mas há algo de irresistivelmente masoquista e metaromântico nesta vontade Louis-CKiana que ouvimos na música de Ryan Adams, de se apaixonar sem medo da miséria do pós-heartbreak. Estou, aliás, cada vez mais perto de o proclamar o melhor escritor de canções de break-up desde Bruce Springsteen.

O espaço é perfeito para ouvir esta música acolhedora de Ryan Adams. Minha querida Heineken. Ryan não tem o baixo do Urban, mas não precisa de nada disso. Traz as melodias e os sentimentos nas suas canções. Porque "música não é fogo-de-artifício, música é sentimento", lembram-se? Ontem parecia até que havia uma Team Heineken, já que o baterista do Ryan Adams envergava uma t-shirt dos Royal Blood, que iriam actuar a seguir. Por falar em t-shirts, viram a do baixista, que dizia "THE SMITH" com o grafismo dos The Smiths e a cara do... Robert Smith? O elo emocional da banda com o público foi apertando e Ryan Adams (que vestia uma t-shirt da sua própria banda) despediu-se do público com um emocionado "This place fucking rules, you rule!". Não, Ryan. Tu é que reinas no nosso coração. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Ryan Adams - "Prisoner" (Review)

Mesmo a tempo da ressaca do Dia dos Namorados, o músico norte-americano lança um álbum sobre corações partidos, o primeiro desde "1989" - disco de covers de Taylor Swift - lançado em 2015. E é de audição obrigatória.

Quando fiz uma roadtrip costa-a-costa pelos EUA em 2011, planeei passagens por todos os locais-chave: NY, Chicago, Las Vegas, LA... Todos os clássicos. De todo o trajecto, do que é que eu gostei mais? Dos desvios. A minha viagem não vos interessa para nada, mas serve para explicar a discografia recente de Ryan Adams.

Ryan Adams deixou-nos a coçar a cabeça quando decidiu, também ele, fazer um desvio à sua carreira em 2015 e lançar um álbum de covers de Taylor Swift. O que quereria ele com aquilo? Ridicularizar Swift? Provar que consegue transformar água em vinho? Não e não. A versão de "1989" foi um triunfo tanto para ele como para Taylor Swift e quanto muito, foi o maior elogio que Taylor poderia receber ao seu talento como compositora. Mas e Ryan, o que sobrou para ele no meio disto tudo? Um desvio tão fora da estrada como "1989" teria que obrigar o seu GPS a recalcular o trajecto da sua discografia.

De certa forma, "Prisoner" é apenas uma continuação do caminho trilhado por Ryan Adams na sua versão de "1989". Faz todo o sentido, ou não tivesse o primeiro sido escrito enquanto o segundo era gravado. Confusos? Passo a explicar. As canções de "Prisoner" foram escritas na ressaca do divórcio de Ryan Adams com a actriz Mandy Moore. Na altura, em vez de se enclausurar para escrever e gravar esses temas, Ryan preferiu lidar com a separação através da desconstrução de "1989" que, tal como toda a música que Ryan escrevia na época, também é sobre amor perdido e corações partidos. Temas como "Breakdown" e "Haunted House" poderiam perfeitamente figurar no álbum de covers. Mas nem só de Taylor Swift vive "Prisoner", ou não fosse Ryan Adams o homem que tão depressa faz covers de "Wonderwall" como de "Shake It Off".

Nas faixas que conhecíamos de "Prisoner", Ryan Adams já havia canalizado influências de Hair Metal e AOR em "Do You Still Love Me?", da vertente mais Folk da Pop americana em "To Be Without You" e até de early Eagles em "Doomsday". No que faltava ouvir do álbum, Ryan alastra as suas influências a todo o espectro do Rock radiofónico americano dos anos 80. Os casos são inúmeros e as semelhanças são demasiado óbvias para passarem despercebidas.

"Shiver and Shake", por exemplo, decalca de tal forma a atmosfera de "I'm On Fire" de Bruce Springsteen, que o meu ouvido (tão treinado a Bruce) passa os 3 minutos à espera da entrada do Boss. Não entra Bruce, mas chega mais à frente, em "Tightrope", um solo de saxofone tenor tirado a papel químico do "seu" Clarence Clemons. É esta uma das valências de Ryan Adams: em vez de ostensivamente plagiar os seus heróis, Ryan emula o ambiente das suas músicas preferidas e cria um original que soa exactamente igual à sua referência.

O caso mais curioso aparece em "Anything I Say To You Now", mais especificamente naqueles acordes em eco no início do tema, que são uma imagem de marca de um artista com o nome muito parecido com Ryan Adams. Avinhem de quem estou a falar. Exactamente, Bryan Adams. A parte curiosa disto é que Ryan é perseguido pelo fantasma de Bryan nos seus concertos, desde que em 2002 um heckler o fez perder a paciência em Nashville quando gritou por "Summer Of '69". Foram anos de terapia em psicólogos, como o próprio Ryan contou ao New York Times, até que voltou à mesma venue em 2015 e tocou... "Summer Of '69". Este episódio resume muito bem o propósito de "Prisoner" - um álbum onde Ryan lida com os seus fantasmas.

"Prisoner" é um álbum pejado de canções de amor (e falta dele), obrigatório para quem vive as canções Pop como o Tom do "500 Days Of Summer"; é um dos melhores discos que (até ver) 2017 nos trouxe. Comparando com o output anterior de Ryan Adams, "Prisoner" é mais variado que "1989" e por isso também uma audição mais completa e satisfatória. Pena que as canções de Taylor Swift sejam, na globalidade, superiores. Mas a vida é assim mesmo, às vezes é nos desvios que encontramos o melhor da viagem.

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