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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Ryan Adams - "Prisoner" (Review)

Mesmo a tempo da ressaca do Dia dos Namorados, o músico norte-americano lança um álbum sobre corações partidos, o primeiro desde "1989" - disco de covers de Taylor Swift - lançado em 2015. E é de audição obrigatória.

Quando fiz uma roadtrip costa-a-costa pelos EUA em 2011, planeei passagens por todos os locais-chave: NY, Chicago, Las Vegas, LA... Todos os clássicos. De todo o trajecto, do que é que eu gostei mais? Dos desvios. A minha viagem não vos interessa para nada, mas serve para explicar a discografia recente de Ryan Adams.

Ryan Adams deixou-nos a coçar a cabeça quando decidiu, também ele, fazer um desvio à sua carreira em 2015 e lançar um álbum de covers de Taylor Swift. O que quereria ele com aquilo? Ridicularizar Swift? Provar que consegue transformar água em vinho? Não e não. A versão de "1989" foi um triunfo tanto para ele como para Taylor Swift e quanto muito, foi o maior elogio que Taylor poderia receber ao seu talento como compositora. Mas e Ryan, o que sobrou para ele no meio disto tudo? Um desvio tão fora da estrada como "1989" teria que obrigar o seu GPS a recalcular o trajecto da sua discografia.

De certa forma, "Prisoner" é apenas uma continuação do caminho trilhado por Ryan Adams na sua versão de "1989". Faz todo o sentido, ou não tivesse o primeiro sido escrito enquanto o segundo era gravado. Confusos? Passo a explicar. As canções de "Prisoner" foram escritas na ressaca do divórcio de Ryan Adams com a actriz Mandy Moore. Na altura, em vez de se enclausurar para escrever e gravar esses temas, Ryan preferiu lidar com a separação através da desconstrução de "1989" que, tal como toda a música que Ryan escrevia na época, também é sobre amor perdido e corações partidos. Temas como "Breakdown" e "Haunted House" poderiam perfeitamente figurar no álbum de covers. Mas nem só de Taylor Swift vive "Prisoner", ou não fosse Ryan Adams o homem que tão depressa faz covers de "Wonderwall" como de "Shake It Off".

Nas faixas que conhecíamos de "Prisoner", Ryan Adams já havia canalizado influências de Hair Metal e AOR em "Do You Still Love Me?", da vertente mais Folk da Pop americana em "To Be Without You" e até de early Eagles em "Doomsday". No que faltava ouvir do álbum, Ryan alastra as suas influências a todo o espectro do Rock radiofónico americano dos anos 80. Os casos são inúmeros e as semelhanças são demasiado óbvias para passarem despercebidas.

"Shiver and Shake", por exemplo, decalca de tal forma a atmosfera de "I'm On Fire" de Bruce Springsteen, que o meu ouvido (tão treinado a Bruce) passa os 3 minutos à espera da entrada do Boss. Não entra Bruce, mas chega mais à frente, em "Tightrope", um solo de saxofone tenor tirado a papel químico do "seu" Clarence Clemons. É esta uma das valências de Ryan Adams: em vez de ostensivamente plagiar os seus heróis, Ryan emula o ambiente das suas músicas preferidas e cria um original que soa exactamente igual à sua referência.

O caso mais curioso aparece em "Anything I Say To You Now", mais especificamente naqueles acordes em eco no início do tema, que são uma imagem de marca de um artista com o nome muito parecido com Ryan Adams. Avinhem de quem estou a falar. Exactamente, Bryan Adams. A parte curiosa disto é que Ryan é perseguido pelo fantasma de Bryan nos seus concertos, desde que em 2002 um heckler o fez perder a paciência em Nashville quando gritou por "Summer Of '69". Foram anos de terapia em psicólogos, como o próprio Ryan contou ao New York Times, até que voltou à mesma venue em 2015 e tocou... "Summer Of '69". Este episódio resume muito bem o propósito de "Prisoner" - um álbum onde Ryan lida com os seus fantasmas.

"Prisoner" é um álbum pejado de canções de amor (e falta dele), obrigatório para quem vive as canções Pop como o Tom do "500 Days Of Summer"; é um dos melhores discos que (até ver) 2017 nos trouxe. Comparando com o output anterior de Ryan Adams, "Prisoner" é mais variado que "1989" e por isso também uma audição mais completa e satisfatória. Pena que as canções de Taylor Swift sejam, na globalidade, superiores. Mas a vida é assim mesmo, às vezes é nos desvios que encontramos o melhor da viagem.

81%

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Os melhores de 2015 — Os álbuns do ano

Mais um dia de Dezembro, mais uma lista dos melhores do ano. Nada de novo, não fosse esta lista elaborada com um algoritmo preciso e original, com um único e simples critério: o tempo de escuta. Por outras palavras, os álbuns mais bem classificados na minha lista de fim de ano são os que mais ouvi, os que tocaram compulsivamente durante dias e semanas a fio, no meu carro, na minha sala e no meu gabinete. Se têm algum problema com isso, o melhor é fecharem o separador e correrem para os braços da Pitchfork. Mas como vocês adoram listas e eu adoro listas e melhor que a lista que tem os álbuns que ouvimos, só mesmo a lista que tem os álbuns que não ouvimos, aqui estão as minhas escolhas para os melhores álbuns de 2015.

Top 10

10 — Hooton Tennis Club — "Highest Point In Cliff Town"
O álbum de estreia dos Hooton Tennis Club é implacavelmente 90s e daí colhe de tudo um pouco, desde a Britpop fina dos Blur, até ao underground americano dos Pavement. Mas foram os toques mancunicanos de Stone Roses e Oasis em "I'm Not Going Roses Again" que me conquistaram. As referências às minhas referências são tantas, que fica difícil não gostar do primeiro álbum da banda de Liverpool.

9 — Vangoffey — "Take Off Your Jacket & Get Into It"
O baterista dos Supergrass foi a solo, bateu em várias portas e sacou um punhado de pérolas. No superlativo "The Race Of Life" parece um Basement Jaxx melódico e no single "Trials Of The Modern Man" parece The Kinks teleportados para os 90s. Álbum sólido e leve no ouvido.

8 — Courtney Barnett — "Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit"
Se Liam Gallagher tivesse uma filha australiana (em 1987, duvido que ele tivesse sequer saído de Manchester), imagino-a como a Courtney Barnett: decidida, desbocada e estilosa, a destilar bazófia na voz. Ah e com o talento do tio Noel para a escrita. "Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit" é transversalmente considerado um dos álbuns do ano e desta feita, estou totalmente com a crítica. Ouçam à confiança.

7 — The Decemberists — "What a Terrible World, What a Beautiful World"
Ao mesmo tempo que liberta um aroma de grandiosidade intemporal levitada por órgãos, violinos e trompetes, "What a Terrible World, What a Beautiful World" poderia servir como banda sonora de uma sitcom americana dos late 90; ou pode ser apenas a banda sonora de uma tarde de limpezas em casa. São várias as layers de consumo deste álbum, que tanto serve de música de fundo, como de objecto de análise académica. Foi dos primeiro álbuns originais que ouvi este ano e ficou comigo até ao fim.

6 — Kurt Vile — "B'lieve I'm Goin Down..."
"B'lieve I'm Goin Down..." é o trabalho de um artista já com a maturidade para fazer um "Nebraska" e safar-se com isso. Confessional, minimalista e vulnerável, este é um álbum de histórias que poderiam ser contadas no decorrer de uma noite no deserto, só com o barulho de fundo da fogueira. Um deleite.

5 — Blur — "The Magic Whip"
O aclamado regresso dos Blur aterrou com estrondo em 2015 e trouxe-nos logo em Janeiro o single do ano — "Go Out". Por vezes os melhores álbuns resultam de um fugaz alinhamento de estrelas, mas se os dias em Hong Kong foram produtivos, "The Magic Whip" precisava de mais algumas semanas daquela explosão criativa que só acontece quando os quatro blurs se juntam, para ser aquilo que merecia. Valeu-nos um dos concertos do ano no SBSR.

4 — Tame Impala — "Currents"
O novo trabalho dos Tame Impala era o álbum Indie mais esperado do ano, com a curiosidade acrescida de vir rotulado como "mais electrónico" que o anterior. "Medo", pensei. O resultado acabou por ser nem especialmente radical como se temia, nem especialmente brilhante. A virtude de "Currents" é que quando é bom, é mesmo muito, muito bom. "Let It Happen" e "The Less I Know The Better" são dois dos melhores temas de 2015. E aquela capa? Quase que ganhavam, de caras, o título de melhor artwork do ano. Não fosse Peter Saville meter-se ao barulho...

3 — David Gilmour — "Rattle That Lock"
David Gilmour sabe da beleza e "Rattle That Lock" recupera o quê de belo dos Pink Floyd em temas como "5 A.M.", "Faces Of Stone" e "In Any Tongue", corrigindo ainda o inexplicável medo dos solos de guitarra que afectou os álbuns de Rock na última década e meia. Os problemas de "Rattle That Lock" são a ausência de Richard Wright — cimento que ligava toda a brita dos Floyd — e aquele tema Jazz, onde David arrisca a ser confundido como uma segunda vaga de Leonard Cohen. Espero que o próximo álbum não demore mais 9 anos.

2 — New Order — "Music Complete"
A grande surpresa do ano. Na ressaca da saída tormentosa de um membro-chave como Peter Hook (o meu preferido), foi contra todas as expectativas (incluindo as minhas) que os New Order fixeram "somente" um dos melhores álbuns dançáveis dos últimos anos, "somente" o melhor da banda desde "Technique" de 1989. Mas há mais. "Tutti Frutti" (com La Roux na voz) é "somente" o melhor tema dançável do ano e a capa é "somente" a melhor artwork do ano, trazida com o selo de qualidade de Peter Saville. Melhor regresso era difícil.

1 — Noel Gallagher — "Chasing Yesterday"
O que há para enganar em "Chasing Yesterday"? O Chefe entregou mais 10 canções com o seu selo de qualidade e embarcou numa digressão onde o apanhei por três vezes. Não admira que tenha sido o álbum que mais ouvi em 2015. Noel reuniu em "Chasing Yesterday" temas que poderiam ter sido Lados B dos Oasis no início dos 00s (alguns remontam a essa altura) e acreditem, isto é o maior elogio que lhe poderia fazer. O floydiano "Riverman" e o zero7iano "The Right Stuff" destacam-se, mas o melhor está guardado (mais uma vez) para os Lados B, desta vez do single de "Ballad Of The Mighty I": "Revolution Song" — uma versão uptempo de "Solve My Mystery" — tema gravado nas sessões do malfadado "Standing On The Shoulder Of Giants", metido na gaveta desde então e que viu finalmente a luz do dia. Que o Chefe esteja connosco por muitos mais anos.

Menções honrosas

Quase, quase a entrar no Top 10 estiveram "Carrie & Lowell" de Sufjan Stevens (não quis fazer a vontade ao meu colega Paulo), "Elsewhere" de Moullinex (melhor álbum português), "Teens Of Style" dos Car Seat Headrest (este foi mesmo por um triz), "In Colour" de Jamie XX (um dos mais inventivos de 2015) e, permitam-me a batota, "The Ties That Bind", o álbum perdido que Bruce Springsteen devia ter lançado em 1979 (devia mesmo) e só lançou este ano na caixa de celebração de "The River". Pensando nisto, até podia ter feito um Top 15. Mas não há 15 mandamentos, pois não?

Outras menções honrosas são devidas à cover de "Save A Prayer" pelos Eagles Of Death Metal (já era fã da versão dos Duran Duran antes de... vocês sabem), aos imparáveis Sleaford Mods (adoro aquele sotaque), aos Pretty Vicious a rebentarem em Glastonbury (atenção que estes miúdos não têm medo de solos de guitarra), ao épico dos Titus Andronicus (que semearam o caos no Mexefest), ao regresso dos Destroyer (se fecharem os olhos em "Dream Lover", vêem a E Street Band), a mais um mind-fucking long-play dos Godspeed You! Black Emperor e ao que já ouvimos da bomba que está quase a chegar de David Bowie ("Blackstar" é de doidos e "Lazarus" é de chorar por mais).
Sem necessariamente respeitar a ordem em cima, fiquem com a playlist do melhor de 2015:

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Vodafone Mexefest 2015: as noites do bizarro e do fascinante

A história do último festival da temporada festivaleira

E eis que chegamos à derradeira paragem da temporada festivaleira de 2015. E que viagem foi esta, que nos deu concertos eternos de Tame Impala, Blur (e Chromeo, já agora) e que a mim deu um pé partido em The Prodigy. Como acontece desde 2011, para último ficou reservado o GP Suzuka dos festivais portugueses — o Vodafone Mexefest. O Mexefest é o festival que dá prioridade a bandas mais obscuras e afastadas do circuito mainstream, umas porque ainda não chegaram lá, outras porque a sua imagem não pode ser vendida a muita gente (Peaches, estou a falar de ti). É esta mistura heterogénea de bandas, aliada a uma distribuição caótica de horários e a uma alocação única de salas que faz do Mexefest um saco de gatos que tem tanto de bizarro, como de fascinante e até empolgante.
Empolgante porque permite que cada espectador possa produzir o seu próprio festival (boa ideia, a da app). Este é o meu Mexefest.

A primeira noite começa com um concerto no âmbito do surreal. Sozinho em palco, apenas com um técnico de som escondido lá atrás, La Priest é um one-man-band que produz uma malha sonora psicadélica que enche o Tivoli e hipnotiza uma audiência que rejeita o conforto das suas cadeiras em favor de passos de dança furiosos. Eu ainda não tinha bebido nada e talvez por isso não tivesse curtido o concerto como devia. E eu até gostei muito de "Inji", o álbum que La Priest trazia na bagagem.

Desço a avenida rumo ao Coliseu (o Mexefest é mesmo isto — uma correria desenfreada entre salas) onde dentro de poucos minutos entrariam os Chairlift — uma das bandas que mais ouvira nas últimas semanas. Que desilusão. A banda não consegue conquistar o público com o seu Synthpop tricotado e o volume envergonhado que sai dos altifalantes. De tal forma que se ouve mais ruído do público a conversar que a própria banda em palco... isto durante a música. Nunca tinha presenciado nada desta escala. Entre temas, o ruído é ensurdecedor e obriga a banda a explicar-se: "estamos a tocar material novo". Os Chairlift despedem-se com "Ch-ching" e eu nem sequer ouço o meu "Amonanesia".. Baah que desilusão. Tantas expectativas goradas.

Hora de Bully na EPAL. A banda punk de Nashville toca numa sala minúscula, à pinha. São as condições perfeitas para a música que trazem. Agora sim, temos concerto. O set é curto, conciso e demolidor. É o primeiro mosh da noite, o meu primeiro desde o pé partido e a primeira sensação de libertação que o festival me oferece. Daquelas sensações que só a música nos dá.

Quando uma multidão já fazia fila desde o Coliseu ao Ateneu para ver a cena hipster do momento, eu fico pelo Ateneu para ver a banda que fez um dos álbuns do ano — Titus Andronicus. Nada contra Benjamin Clementine, mas as contingências das sobreposições horárias do Mexefest assim o ditam. Surpreendentemente, o gimnodesportivo do Ateneu está muito bem composto. O público nas filas da frente é facilmente reconhecível — basicamente os mesmos de Bully — só rockers, muitos deles pertencentes à doutrina beto-urbano-punk, que cruza o cabelinho à agro-beto da Golegã, barba urbana e iPod com a discografia de Sex Pistols. Cuidado, que isto é malta que vem para o mosh com as noções dos treinos do rugby do Técnico. O concerto tem volume nos limites, cervejas a voar, mosh agressivo e Rock N' Roll. A loucura. "Fired Up" arranca a maior reacção do público. "Escreve lá na NiT que o som está uma merda!!!", gritam-me aos ouvidos. De facto. Tenho pena de não conseguir ouvir a banda em condições, mas o som que vem da mesa de mistura tornava impossível distinguir o que quer que fosse.

A poucos minutos do fim de Titus Andronicus, não resisto e vou espreitar o que se passa no Coliseu com Benjamin Clementine (I had to know what the hype was all about). Tenho que me meter à socapa num dos camarotes para conseguir ver alguma coisa. Concerto à pinha, como eu nunca vira o Coliseu. Ainda chego a tempo dos últimos temas, com direito a encore com solo de bateria. Do que vi (correndo o risco de ser injusto por julgar uma parte do concerto pelo seu todo), pareceu-me uma sala demasiado grande e histérica para a música intimista de Benjamin, que lutava sozinho contra os urros de quem queria chamar a si o centro das atenções. É pena. Ficará para ver noutro dia, noutras condições mais adequadas.

Fim do primeiro dia.

O segundo dia começa com Ariel Pink no Coliseu. Wow, quem é que falou em bizarro? Munido com um álbum interessante "pom pom" e um bass-drum capaz de deslocar as fundações do Coliseu, o americano parece apostado em mexer com o sistema sensorial do público, mas não pelas melhores razões. As baixas frequências estão tão proeminentes que se torna praticamente insuportável estar ali, já para não falar na impossibilidade em perceber o que sai da boca dele.

Saio do Coliseu a uma hora do início de Peaches e já a fila para o Tanque chega ao Politeama. Era o concerto que eu mais esperava de todo o festival e pelos vistos o meu entusiasmo é partilhado com muita gente (talvez merecesse uma sala maior). Chego ainda a tempo de ver a Teresa "Da Chick", acompanhada por Mike El Nite e Moullinex, dar um concerto pleno de energia, mandando os "filhos e os pais para casa" com o vibrante "You Make Me Feel (Mighty Real)" de Sylvester James.

Depois... Depois chega Peaches. E que dizer acerca do concerto de Peaches? Palavras serão sempre curtas para descrever este concerto. É algo que vai para além da minha palete sensorial conhecida: há a visão, a audição, o tacto, o paladar, o olfacto... e o concerto de Peaches. O cenário é a Peaches, a Peaches e uma mesa de DJ (e uma participação especial da Da Chick). A música é um Electro-punk que eu melhor descreveria como uma versão hardcore dos Human League, depois de serem tomados de assalto pela miúda que entretanto virou punk. O público é o mais andrógino onde já estive, a fazer jus à canção dos Blur: girls who are boys, boys who are girls, boys who do boys, boys who do girls, girls who do girls. Aqui não interessa quem és ou de quem gostas, estamos todos unidos pela música.
Peaches dá um concerto libertador de preconceitos, com o velocímetro dos excessos a bater no vermelho: andou em crowdsurfing pelo público, ergueu duas bonecas insufláveis, despejou duas garrafas de champagne nas filas da frente e no fim esfregou duas toalhas nas suas partes íntimas frontais e traseiras, atirando-as para gáudio de alguns sortudos na audiência. "Talk To Me" e "Boys Wanna Be Her" são dois highlights do festival. Para quem esteve no Tanque e viu o que eu vi (quem chegou em cima da hora, ou não entrou, ou não viu nada), é fácil eleger o concerto do Mexefest 2015: Peaches, obviamente.

Depois disto, qualquer coisa seria aborrecida. Mas Patrick Watson esticou a corda. Tal como na noite anterior com Benjamin, Coliseu à pinha. Tento invadir novamente um camarote, mas desta vez sou apanhado pela segurança e enviado para o piso de cima. Lá em baixo, a mesma romaria de ontem. Na música de Patrick, em que os silêncios são tão importantes como as notas, o ruído da conversa chega a ser insuportável e na plateia são muitos os "sshhhh" de quem não aguenta mais a conversa do lado. Eu, que vinha do concerto de Peaches com os sentidos a bater no máximo, não aguentei o tédio. Noutro dia, quem sabe, noutras condições.

O balanço do Mexefest 2015 posiciona-o firme como um one-of-a-kind no nosso calendário festivaleiro. Não haveria outra maneira de juntar Titus Andronicus, Benjamin Clementine, Peaches e Patrick Watson, todos no mesmo evento. A NiT esteve no festival a convite do Grupo Turim Hotels, parceiro do Vodafone Mexefest.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Crítica: One Direction - "Made In The A.M." | Música para montagens de fotos

"Made In The A.M." não vai ganhar novos fãs aos One Direction, mas também não vai desapontar os antigos




De quando em vez, ocorre na nossa vida um evento que, sem nos apercebermos, a define para sempre. Um dos eventos que definiu a minha relação com a música deu-se no Natal de 1997, quando o meu tio Jorge ofereceu um cheque-disco (para quem não sabe, um voucher para comprar um CD) a mim e ao meu primo João Pedro. Dias mais tarde, fui com o João à loja de discos de Castelo Branco e ele fez com o cheque-disco o que um miúdo de 12 anos faz: comprou o disco da moda. Enquanto ele levou para casa o álbum "Backstreet's Back" dos Backstreet Boys, eu fiquei intrigado com a capa de um disco sentado na prateleira dos clássicos e trouxe comigo um tal de "A Day At The Races" dos Queen. Mas não fiquei convencido. Como todos os miúdos, também eu queria ser o mais fixe da turma e fui por isso a casa do meu primo ouvir o que tinha perdido. A hora que se seguiu deixou-me para sempre descansado com a minha decisão. Quando a NiT me lançou o desafio de ouvir o novo disco dos One Direction "Made In The A.M.", cruzei-me com o meu passado e foi como se voltasse para aquela hora na casa do meu primo.

Antes de avançar, devo dizer que nada me move contra os rapazes dos One Direction, nem contra as boys-bands em geral (sou fã acérrimo dos Wham!). As boys-bands vêm desde a Motown e nos últimos 50 anos houve umas melhores e outras piores. Mas qualquer coisa se passou em meados da década de 90 e as boys-bands deixaram de ser formadas por músicos com boa imagem, para passarem a ser um conjunto de miúdos com boa imagem que sabem dançar e, nalguns casos, também sabem cantar. A palavra-chave "músicos" foi à vida. Os One Direction inserem-se nesta nova fase: são fulanos a cantar e dançar música composta por sicranos e interpretada por beltranos. Eles são o que são e não pretendem ser mais que isso mesmo, esse não é o meu problema com eles. O meu problema com eles é mesmo a música.

O novo álbum "Made In The A.M." nem começa mal: "Hey Angel" é um tema catchy que quase não sofre do síndrome da Pop ultra-processada que agora infecta as estações de rádio. É um indicador positivo, mas imediatamente negado quando chegam "Drag Me Down" e "Perfect", os singles de promoção do álbum. Se é para a rádio, tem que ser igual a tudo o que lá passa, pois claro. Mas o pior chega em "End Of The Day", um tema que é tão genérico, tão medíocre, tão igual-a-tudo, tão cruzado entre Coldplays, Aviciis, Mumfords e outros Sons, que é doloroso chegar ao fim. Mas calma Nuno, que ainda só estamos na quinta faixa.

"If I Could Fly" vem a seguir e é uma balada ao piano, com violinos no clímax. Genérico? Claro, mas nada de ofensivo. Menos quando corrigem o tom do voz com o autotune. Eles no mínimo deveriam saber cantar, não é? "Long Way Down" é mais uma balada, esta ao estilo de "Drops of Jupiter" dos Train. "Never Enough" é S Club 7 com refrão Muse. "Walking In The Wind" é Jack Johnson e Sheppard no sunset de Tróia. E assim se sucedem as genericidades, tema a tema, até ao fim do álbum. "Made In The A.M." não vai ganhar novos fãs aos One Direction, mas também não vai desapontar os antigos. É Pop ultra-polida, destinada às bandas sonoras de montagens de fotos em férias para publicar no Facebook. Não é mau, não é ofensivo, é só desesperadamente genérico; mas serve bem o seu propósito. Tudo plástico, tudo pela rama, profundidade inexistente. Eis mais um álbum dos One Direction.