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domingo, 16 de junho de 2019

Era uma vez no Oeste — "Western Stars", o maravilhoso novo disco de Bruce Springsteen

Hoje à noite, as estrelas do Oeste vão brilhar outra vez

Que maravilhosa surpresa. Aos 69 anos, numa altura que já poucos esperavam, Bruce Springsteen volta a sacar de um clássico para o seu reportório e cimenta a sua posição como o melhor contador de histórias do último século. O Boss já nos acompanhou na fuga da raízes, já nos levou à orla da cidade e já nos conduziu pelo rio abaixo. Agora, em "Western Stars", Bruce senta-nos no banco do pendura da sua pick-up e dá-nos boleia rumo ao Oeste americano, com mais um set de histórias de vidas mundanas, embrulhadas num álbum rico, polido e cinemático.

"Western Stars" é o disco mais cinemático da discografia de Bruce Springsteen desde "Nebraska" de 1982. Mas se a paisagem de "Nebraska" era lúgubre, como um filme de Béla Tarr; as imagens evocadas por "Western Stars" são vibrantes, como um filme de Wes Anderson. Bruce descreveu este álbum como "a jewel box of a record" ("uma caixa de jóias de disco") e eu, que confesso, duvidei do entusiasmo do Boss, hoje confesso que não encontro melhor descrição para o seu décimo nono álbum de originais.

Há um pouco de toda a carreira de Bruce em "Western Stars": ouve-se a América de "The Rising" em "Tucson Train"; as histórias de "Tunnel Of Love" em "Western Stars" e "Moonlight Motel"; a atmosfera de "Devils And Dust" em "Drive Fast (The Stuntman)" e "Somewhere North of Nashville"; a inocência de "E Street Shuffle" em "Sleepy Joe's Cafe"; a riqueza de "Working On A Dream" em "There Goes My Miracle", "Sundown" e, na verdade, um pouco por todo o álbum. "Western Stars" é o sucessor natural do cânone sonhador de "Working On A Dream" (2009), o que faz todo o sentido, uma vez que este lote de canções remonta a esta altura.



"Western Stars" é lançado em 2019, mas a sua génese é antiga e o seu espírito ainda mais remoto. Segundo o que Bruce foi adiantando nas suas entrevistas ao longo dos anos, a ideia de um álbum de histórias do Oeste terá nascido antes do ano 2000, por alturas da Reunion Tour com a E Street Band. As gravações terão começado em 2010, depois da Working On A Dream Tour (2009) e das sessões de "The Promise" (2010), tendo o álbum sido sucessivamente posto na gaveta em detrimento de projectos (agora sabemos) inferiores, como "Wrecking Ball" (2012) e "High Hopes" (2014).

Bruce estava inseguro relativamente à reacção do seu público a "Western Stars" e com alguma razão, diga-se. A fanbase de Bruce é muito exigente, espera sempre que Bruce saque de um novo "Born To Run" e nunca fica satisfeito com menos que isso. Mas Bruce já não tem 20 anos e já não quer fugir da sua cidade natal (como contou em "Sprinsgteen On Broadway" (2018), agora vive a 10 minutos da casa onde nasceu). Por estes dias, ele quer pegar na sua pickup e contar as histórias das vidas perdidas que foi encontrando ao longo dos anos. E quer fazê-lo com a roupagem das canções da Pop sul-californiana do início dos anos 70, que despoletaram a sua imaginação quando ele era miúdo. É um álbum arriscado, que rompe com a estética clássica dos seus discos com a E Street Band, mas é ao mesmo tempo um álbum deliciosamente familiar. Bruce faz leves acenos ao seu passado, num álbum firmemente ancorado na eternidade. 

Os arranjos orquestrais são tão quentinhos e aconchegantes que só apetece abraçar a música. Mais que isso, estes arranjos opulentos conferem a "Western Stars" um estatuto de intemporalidade. O álbum foi lançado na sexta, mas após 5 audições, parece que estas canções estiveram sempre aqui. São canções que contam histórias de vida como a minha e vossa. São canções que, nestes tempos de divisão, chegam para nos juntar. São canções que, nestes tempos pesados, nos visam aliviar. Para todos nós que sentimos o peso do trabalho, das contas e de todos os problemas da vida, este álbum é um bálsamo que nos levanta o peso das costas.



Bruce usa a qualidade cinemática de "Western Stars" para desmistificar o mito cultural moribundo do sonho americano. No epílogo do álbum, o herói, incapaz de satisfazer as exigências do compromissos domésticos e da sociedade ("bills and kids and kids and bills"), entra na sua pickup e faz-se à estrada rumo à escuridão ("where nobody travels and nobody goes"), fechando assim o círculo de "Nebraska". Ele chama-nos à terra, com as suas histórias de heróis comuns com vidas partidas; e ao mesmo tempo, consegue pôr-nos a olhar para as estrelas.

Eu estou tão feliz com este álbum, que só me apetece abraçar o Bruce e assegurá-lo que está tudo bem; dizer-lhe que não há razão para inseguranças e que todos aqueles álbuns que ele tem na gaveta podem vir cá para fora. Depois de "Wrecking Ball" e "High Hopes", confesso que já temia que ele tivesse perdido a sua musa. Queria muito que este álbum fosse bom. Foi muito melhor do que eu esperava. Obrigado, Bruce.

P.S.: Este é apenas um dos projectos que Bruce Springtseen tem na calha para os próximos tempos. Bruce já revelou que tem pronto um lote de canções para gravar com a E Street Band e para lançar num álbum em 2020. Antes disso, ainda em este ano, a quadra natalícia deverá trazer-nos uma nova mega-caixa com gravações antigas, que vai suceder a "Tracks" de 1998. Este ano é também o 35º aniversário de "Born In The U.S.A." (1984) e o material que foi gravado nessas sessões é tanto, que vai certamente acontecer uma caixa expansiva do álbum, à semelhança do aconteceu com "Born to Run: 30th Anniversary Edition" (2005), "The Promise: The Darkness on the Edge of Town Story" (2010) e "The Ties That Bind: The River Collection" (2015). Se quiserem ter uma ideia do que ficou para trás nas sessões de "Born In The U.S.A" e do que poderia ser um segundo disco deste álbum, ouçam o podcast do London Calling — Murder Incorporated – O segundo disco de Born In The U.S.A..

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

"Prova um pouco disto, vai mostrar-te onde estás. Ou pelo menos vai ajudar-te a sentir"

Bruce Springsteen vem ao Rock In Rio 2016. Como foi da última vez?



Rejubilem. Bruce Springsteen voltará a Portugal em Maio, 4 anos depois do seu último concerto no Rock In Rio Lisboa e 2 anos depois do cameo em "Tumbling Dice" com os Stones. A reacção nas redes sociais foi forte e outra coisa não seria de esperar. Não há outro artista a quem eu já tenha visto tamanha devoção, como a Bruce Springsteen. As pessoas não amam só a música dele, as pessoas amam o homem; amam-no incondicionalmente e seguem-no para todo o lado, como se de uma religião se tratasse. São décadas disto. Eu falo à vontade do assunto, porque eu próprio sou um devoto (planeio vê-lo 3 vezes este ano: LA, Lisboa e Madrid). E Bruce retribui essa devoção ao vivo, despejando o depósito noite após noite.

Para quem nunca o viu ao vivo, para quem nunca "sentiu", toda esta divagação pode soar estranha e exagerada. "É só um gajo a cantar!", disse-me uma vez um radialista céptico. Negativo. É muito mais que isso. Mas só se compreende estando lá, não há volta a dar. Agora que ele vem "cá" outra vez, a melhor forma para lançar o novo concerto é recordar o que escrevi poucas horas depois do fim do último, ainda de sobremaneira afectado pelo êxtase e pela falta de sono. Aqui vai:

Nota prévia: Se não estão preparados para (mais) um texto cheio de superlativos e loas a Bruce Springsteen, devem abandonar desde já este espaço. Aqui sempre se adorou, adora-se e vai continuar a adorar-se o Boss.

Segunda nota prévia: Por volta das 21:30 de ontem, a meio do concerto dos James no Palco Mundo, Tim Booth deu o mote para o que se passaria umas horas mais tarde. No alto daquele ar pálido de ex-presidiário em tentativa de reinserção na sociedade, Tim contou uma história que terá marcado o fim da sua adolescência rebelde:

"I was a 16 years old punk rocker, all my role models were self destructive. I was into the Sex Pistols and Iggy Pop and a 100 other tortured artists who wished to come on stage and cut themselves for people's entertainment.
And then... when I was 17, a friend of mine bought me a ticket to see a concert in Birmingham. I didn't wanna go, because I didn't like the guy's music. And they dragged me along to this guy's concert and after the 3rd song, I was standing up with the biggest smile on my face. That was Bruce Springsteen & The E Street Band.
They showed me another kind of artist that doesn't have to burn himself out... That doesn't have to cut themself for people's entertainment. They showed me a new way of being onstage. So, it's a great pleasure to be here this evening, with you and with them.
We need more role models like Bruce Springsteen. I needed one."

Bruce Springsteen & The E Street Band ao vivo, como uma "life changing experience", onde é que eu já ouvi isto? É uma história cujos contornos são comuns a milhares de pessoas em todo o Mundo e que ontem foi partilhada por muitas mais. Depois do espectáculo sensaborão de Alvalade em 1993 com a Other Band (sim, a "outra" banda de Bruce foi mesmo baptizada desta forma imaginativa), havia uma clara onda descrente em relação ao Boss no nosso país. Até ontem. Ou melhor, até hoje, porque o Boss demorou a chegar e quando entrou no Palco Mundo do RiR, já passava das 0:00 de 4 de Junho de 2012.

Bruce demorou, mas quando chegou, não defraudou as expectativas e deu aquele que foi (para mim) o melhor (e mais longo?) concerto do festival. Foi mais que um concerto, foi uma experiência. Vou ter que escrever qualquer coisa sobre o que presenciei, mas não sei ao certo o quê, uma vez que ainda estou em êxtase pós-orgásmico. Por onde começar?
Foram 2 horas e meia de masturbação emocional colectiva. Um turbilhão de emoções. Milhares de vidas que nunca mais serão as mesmas. Porque a partir de ontem, para essas pessoas houve qualquer coisa "lá dentro" que mudou, uma paixão que acordou. Foi assim que aconteceu com Tim Booth na sua juventude, foi assim que aconteceu com o meu melhor amigo que, tal como Tim, também eu "arrastei" para o concerto de ontem. E tal como Tim, também ele deu por si com um sorriso idiota na cara ao fim do 3º tema. São muitos anos a arrancar sorrisos a carrancudos.

Desde as 2:30 de hoje, hora que arrancaram Bruce do palco com fogo-de-artifício, que a imprensa se rendeu e multiplicou loas ao Boss, elegendo a sua actuação como o ponto alto do Rock In Rio 2012. Mas não só. Hoje já li críticas que vão desde "o concerto do festival", passando pelo "concerto do ano", até ao "concerto da década”. Como disse ontem Bruce, após um "Twist And Shout" já com foguetes ao fundo: "You've just experienced the legendary E Street Band!". Ninguém se pode queixar que não foi avisado. Na introdução de "Spirit In The Night" (tema de onde é retirado o título desta crónica), Bruce revelou ao que vinha :
"The E Street Band has come thousands of miles, just to be here in Lisbon tonight. And we've come here on a mission!
We're gonna bring the power! We're gonna bring the glory! We're gonna bring the fun! We're gonna stimulate your sexual organs, with the power of Rock N' Roll!
Can you feel the spirit? Can you feel the spirit now?"



E assim foi. Depois de 3 dias consecutivos de Rock In Rio, hoje estou de rastos. Sem voz, com a garganta rebentada e já não sinto pernas, pés ou costas. Estou mais morto que vivo, mas estou feliz. Com o tal sorriso idiota na cara.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Bruce Springsteen: 40 anos de "Born To Run" — Um ensaio sobre o sofrimento

Quem mais nos poderia fazer reflectir sobre a importância de um estado de espírito do qual fugimos toda uma vida?


"Why do we suffer? I got the answer to that one: because we have to! What would life be?"
"Por que sofremos? Eu sei a resposta: porque temos que o fazer! Como é que seria a vida?"
É com esta reflexão sobre o sofrimento que Bruce Springsteen abre o filme "Wings For Wheels" — o premiado documentário que mostra o making of de "Born To Run", álbum que comemorou 40 anos na semana passada.

"Born To Run" foi o álbum que lançou Bruce Springsteenpara o estrelato em 1975, atirando-o para as capas das revistas Time e Newsweek na mesma semana. Mais importante que isso, foi a obra que definiu a carreira de Bruce, onde este introduziu os personagens que o seguiram nas décadas seguintes, personagens que deram asas à nossa imaginação e com as quais nos pudemos identificar tantas e tantas vezes. Como disse Jon Stewart aquando da condecoração de Bruce nos Prémios Kennedy:

"When you listen to Bruce’s music, you aren’t a loser. You are a character in an epic poem... about losers."
"Quando ouves a música do Bruce, não és um falhado. És um personagem num poema épico... sobre falhados."

Segundo Bruce Springsteen, "Born To Run" é um conjunto de histórias épicas que poderiam decorrer todas "numa interminável noite de Verão". São histórias que dançam à volta de uma motivação, de uma vontade: FUGIR. Há por todo o álbum um sentimento que uma jornada importante se aproxima, um momento que vai definir a nossa vida. O sentimento é de urgência, de fuga das raízes. É preciso fazer alguma coisa para mudar uma vida que não nos satisfaz e é preciso fazê-lo urgentemente. Querer ir embora daqui, sem saber ainda para onde. Na verdade, isso não importa, desde que seja para longe. Não há certezas, a não ser de que aqui, nesta vida, já não dá. Vamos fugir.

Mais cedo do que tarde, inevitavelmente percebemos que os problemas fogem connosco e nada corre como tínhamos planeado. É a vida. Somos obrigados a chocar com ela de frente e a música de Bruce Springsteen parece servir de manual para saber como fazê-lo. Ou pelo menos para perceber que não estamos sozinhos. Que alguém, há muitos anos, muito longe de nós e em circunstâncias diferentes, passou pelo mesmo. Bruce mostrou que o sofrimento é sentido por todos e é sentido da mesma forma. Com "Born To Run", Bruce Springsteen uniu pela primeira vez milhões de pessoas à volta de um sentimento, de uma vontade, de uma urgência, de um sofrimento. É essa a força, é essa a magia de Bruce Springsteen.

Quem mais nos poderia fazer reflectir sobre a importância de um estado de espírito do qual fugimos toda uma vida? O sofrimento. Porque ninguém sabe sofrer como Bruce Springsteen.


Artigo publicado originalmente
na revista online New In Town (NiT), 
Quinta-Feira, 3 de Setembro de 2015