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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

A crucificação de ouvir Coldplay

Continua a via sacra dos fãs de "Parachutes"

Tal como Jesus Cristo se sacrificou pelos vossos pecados, também eu ouvi as novas músicas dos Coldplay. Tudo para vos trazer aqui esta review. Não sei, só posso imaginar o quão dolorosa foi a crucificação, mas ouvir as músicas novas dos Coldplay também me fez sentir um mártir. Será que valeu a pena o sacrifício?

Perguntam vocês por que raio eu me dou ainda ao trabalho. Pois, é que os Coldplay eram, há aproximadamente 20 anos, quando ainda andava no liceu (estou mesmo a ficar velho), a minha grande aposta para a melhor banda da nova década que se avizinhava. Tal afirmação arriscada baseava-se na excelência de "Parachutes", um álbum a abarrotar de sentimentos e melodias, que provou que se pode fazer Rock 'n' Roll no sótão, sem incomodar os vizinhos. Os Coldplay criaram uma obra perene, ao mesmo tempo emocionalmente densa, sublinhando as tensões da pós-adolescência, mas suficientemente simples na forma, de modo a chegar às grande massas. Preguei durante anos a chegada da banda que ia salvar o Rock no mainstream. Fui enganado. Andei eu a defendê-los no liceu para depois me fazerem isto.

Nos anos seguintes vi os Coldplay desintegrarem a sua sonoridade num bafio de IMAX balofo e insuportável. Ainda me dou ao trabalho de os ouvir porque ainda espero que dali saia uma brisa de brilhantismo. (Quase) sempre em vão. Na verdade, o álbum "Viva la Vida or Death and All His Friends" (2008) capitalizou a colaboração com Brian Eno para trazer algo de refrescante em parte do disco, caso do multi-parte "Yes". A outra parte ("Viva La Vida" à cabeça) já adivinhava o descalabro que aí vinha. O álbum "Mylo Xyloto" é um atentado aos ouvidos de quem um dia ouviu "Parachutes". A não ser que gaguejem. Nesse caso, "Paradise" será útil numa noite de karaoke.

O hype desta feita era promissor. O novo álbum "Everyday Life" foi anunciado (de forma extremamente cool, diga-se) nas secções de classificados de vários jornais um pouco por todo o mundo, incluindo um jornal do Norte de Gales onde o guitarrista Jonny Buckland trabalhou nas férias enquanto miúdo (ainda tenho um soft spot pelos Coldplay). O press release prometia uma sonoridade experimental e um novo capítulo no arco discográfico da banda britânica, na forma de um álbum duplo conceptual, dividido nos discos "Sunrise" e "Sunset". Julgando pelas primeiras amostras, a mim, soa-me à mesma merda dos últimos dez anos. Até uma música doce e potencialmente tocante como o tema-título "Everyday Life" tem que levar com aquele perfume EDM nauseante que soterrou os Coldplay da última década. O mesmo bafio que torna a audição de qualquer música da banda num martírio que devia estar previsto como um dos sacramentos de penitência para a absolvição dos pecados.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O que raio se passou com os Coldplay?

Os Coldplay são hoje iguais a tudo o resto que passa na rádio.

Eu sei que hoje não é cool dizê-lo, mas houve um tempo em que eu era fã dos Coldplay. Eles são uma banda competente, sabem o que é uma melodia e o Chris Martin é um tipo afável, que sabe escrever uma canção. Então porque será que o novo ex-namorado de Jennifer Lawrence faz de tudo para que eu deteste a sua banda?

Recuemos 14 anos. Na viragem do milénio, o mais entusiasmante movimento musical das últimas duas décadas — o Britpop — estava já a dar as últimas, numa lenta decadência que teve início no advento das Girlsbands/Boysbands (Spice Girls, Backstreet Boys…) e que teve a estocada final no surgimento do Hip Hop comercial (com Eminem à cabeça) e na sua eventual fusão com o Rock — o Nu Metal (Limp Bizkit, Korn…).

Neste panorama desfavorável para as bandas melódicas do Reino Unido, apareceram os Coldplay, num último suspiro do Britpop. Contra a corrente, os Coldplay assumiram o topo das tabelas britânicas com o seu álbum de estreia “Parachutes”, destronando (curiosa e simbolicamente) Eminem. Parecia uma lufada de ar fresco que vinha animar os anos 00.


Avancemos novamente 14 anos e fica a pergunta: o que raio se passou com os Coldplay? Eu ouço estes últimos dois álbuns e nem quero acreditar que esta é a mesma banda que um dia me abanou com “Shiver”, ou mais recentemente com “Violet Hill”.

O que se passou? Passou-se que aos Coldplay não bastavam as melodias de “Parachutes”, a aclamação critica de “A Rush Of Blood To The Head”, as múltiplas platinas de “X&Y”, ou a excelência sónica de “Viva La Vida”. Os Coldplay queriam mais: queriam a omnipresença, a integração total na paisagem de cada momento, o domínio das tabelas independente à moda vigente. Qual o caminho mais fácil? Adoptando a sonoridade da moda vigente.

Eu não tenho nada contra bandas que gostam de estar nas tabelas, ainda há umas semanas elogiei aqui os U2 e os tomates que tiveram na promoção viral do seu novo álbum. Pelo menos os U2 (com quem os Coldplay são constantemente comparados) tentam molhar a sopa sempre que aparecem. Aos Coldplay, o melhor elogio que posso fazer neste momento, é que são inexoravelmente banais. E que talvez por isso, é que mesmo em tempo de acentuada crise na indústria discográfica, eles continuam a bater recordes de vendas.

Os Coldplay são hoje iguais a tudo o resto que passa na rádio. Em nome do apelo comercial, projectaram as suas melodias num ecrã IMAX com efeitos especiais de Avicii e Hardwell e contribuíram na mesma medida que estes para o enriquecimento musical das massas. Como perguntava no outro dia o Boinas: “desde quando é que passou a ser obrigatório que todas as rádios sejam a Orbital?”.

Esta semana Chris Martin lamentou-se que pediu a David Bowie para cantar um dos seus novos temas e que este recusou, por achar que não era um dos seus melhores trabalhos. Bowie deu-lhe o toque, falta saber se que Chris percebeu a mensagem. Querem saber o que raio se passou com os Coldplay? Perguntem ao David Bowie, ele explica.

(publicado originalmente a 15 de Dezembro de 2014)