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terça-feira, 8 de junho de 2021

David Gilmour vs Roger Waters: A guerra sem fim



Quase tão antigo como o conflito israelo-palestiniano, e tão ou mais interessante, é o conflito Waters-Gilmouriano. Duas estrelas que durante duas décadas colidiram numa supernova criativa e que agora parecem nao sair do buraco negro. As duas últimas semanas trouxeram muitas novidades, mas desta vez nem todas más. Aqui o tio Nuno, parte interessada neste conflito há mais de 30 anos, dá-vos o update do essencial.

Comecemos pelo fim. Ontem saiu uma entrevista à Rolling Stone do casal inseparável John/Yok..., errr desculpem, David/Polly, onde o tio David atira a matar sobre o tio Roger. Na parte mais escaldante da entrevista, a inevitável pergunta dos Pink Floyd, David não mostrou a sua habitual contenção:

RS: Is there anything going on with Pink Floyd on the archival front? There’s been talk of an Animals reissue in recent years.

Gilmour: Well, a very lovely Animals remix has been done, but someone has tried to force some liner notes on it that I haven’t approved and, um, someone is digging his heels and not allowing it to be released.

Samson: But you don’t have liner notes, do you?

Gilmour: No, we’ve never had liner notes.

Samson: Why are you suddenly having liner notes?

Gilmour: Because someone wants them, and they got a journalist to write some, and I didn’t approve them. And he’s just getting a bit shirty. You know how he is, poor boy.

Ora, esta entrevista e esta resposta em particular, explicam o que aconteceu na semana passada na barricada do tio Roger que, como sabemos, não é propriamente conhecido pela sua contenção. Num vídeo carregado de veneno, o Roger anunciou o lançamento da nova remistura do álbum Animals, bloqueada desde 2018 pelo conflito Waters-Gilmouriano, tudo graças àbonomia do próprio Roger, que ia ceder pela sua parte e anuir ao lançamento sem as liner notes escritas por Mark Blake (autor de "Pigs Might Fly: The Inside Story of Pink Floyd"), que contariam a história por trás da criação do álbum e que David se recusava a incluir nesta reissue. Algumas notas sobre isto:

Em primeiro lugar, o David está (quase) correcto em como, mal ou bem, os lançamentos dos Pink Floyd nunca tem liner notes. Curiosamente, a excepção que me recordo é a caixa "Shine On", que o próprio David lançou como projecto pessoal em 1992, quica para "legitimar" os seus Floyd ao lado dos classic Floyd, numa altura em que o assunto ainda era, e muito, discutido (hoje acho que não há discussão - os Floyd dos 80s e 90s são tão Floyd como os dos 70s). Retirando essa (curiosa) excepção, de facto, os lançamentos dos Floyd costumam deixar a música falar por si e deixar o "behind the scenes" envolto em mistério.

Depois, como é óbvio, a inclusão destas liner notes é mais do interesse do Roger do que do David, uma vez que o Roger é que foi o principal responsável pela criação e pelo conceito do álbum "Animals". Se David tivesse levado a sua ideia avante, o álbum "Wish You Were Here" teria sido formado por 3 longas composições: "Shine On You Crazy Diamond" no Lado A e "Raving And Drooling" e "You Gotta Be Crazy" no Lado B. Teria sido um álbum largamente instrumental mas, segundo Roger (e bem), sem um fio condutor. Com a composição conjunta do tema "Wish You Were Here", o disco ganhou uma nova direcção e o resto é história. Para "Animals", uma nova perspectiva Orwelliana recuperou "Raving And Drooling" de Roger como "Sheep" e "You Gotta Be Crazy" de David como "Dogs". A face política de então inspirou Roger para "Pigs (Three Different Ones)" (com a ajuda de um loop de Rick Wright e que nunca foi creditado) e estava assim feito o álbum mais sombrio dos Pink Floyd. Para Roger, ele compôs 4/5 do álbum. Para David, ele compôs metade, uma vez que "Dogs" compõem a quase totalidade do Lado A. Ambos têm razão à sua maneira, mas é impossível fazê-los concordar em quem fez mais ou em quem fez o que (o que, convenhamos, é um bocado triste quando pensamos que estes senhores já tem 80 anos). As liner notes de Mark Blake, mais elogiosas para o Roger, foram assim naturalmente vetadas pelo David. E assim chegámos a 3 anos de um conflito sem fim à vista. Até há semana passada.

O vídeo de Roger a anunciar a reedição de "Animals" apanhou toda a gente de surpresa, primeiro porque ninguém sabia por que este projecto estava bloqueado e segundo, porque não lhe cabe a ele fazer esse anúncio. Para todos os efeitos, o Roger saiu da banda em 1985, anunciando que os Pink Floyd eram uma "força esgotada". David tinha outras ideias e levou a bandeira dos Pink Floyd pelos anos 80 e 90, introduzindo a banda a novas gerações (eu incluído), provando que Roger estava errado. Entretanto, os Pink Floyd tornaram-se num million dollar business e Roger, responsável pela maioria da sua música, ficou de fora da esfera de decisões, por (má) decisão própria. Para o bem e para o mal, é assim que funciona. Chegados aos dias de hoje, temos o ridículo dos livros de Polly Samson a serem anunciados no site oficial dos Pink Floyd e os projectos de Roger Waters, (auto-denominado) génio criativo dos Pink Floyd, fora do site, fora do Facebook, fora de tudo. É ridículo, sim, mas o Roger só se pode culpar a ele próprio. Por mais que esbraceje e ataque o David, nada vai mudar nesse sentido.

Nesta guerra sem fim, o Roger foi suficientemente esperto ao antecipar os comentários da entrevista da Rolling Stone (certamente alguém o avisou do que aí vinha) e, com este vídeo, sair como o herói da situação para os fãs, e colocar o David entre a espada e a parede (e ao mesmo tempo lançar as famigeradas liner notes no seu site - o tio Roger não dá ponto sem nó - enquanto chamou David de "a jolly good guitarist and singer"). Depois da cedência de Roger, David está agora obrigado a lançar a remistura de "Animals", sob pena de sair como o vilão da história que age puramente por despeito e perder a imagem de "nice guy" que tem na audiência. E esta é a única boa notícia para nós, fãs dos Pink Floyd, que estamos para este conflito como os filhos de um casal divorciado que não se consegue entender. Do mal o menos, vamos mesmo ter a caixa de "Animals", com novas remisturas em Stereo e Surround e uma nova e mais recente imagem da magnífica Battersea Power Station, onde este que vos escreve trabalhou durante 2 anos como Lead Engineer de Temporary Works (a jóia da coroa da minha carreira profissional). Nesta altura, já não espero que os meus dois ídolos se entendam, mas como diz o David no fim da sua entrevista na Rolling Stone - "we live and we hope".

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Roger Waters em Lisboa — Um ataque bombástico aos sentidos

Bem-vindos à máquina — crónica da noite em que Roger nos submeteu à sua centrifugadora sensorial


Antes de falar no concerto de Roger Waters no Atlântico (eu sei, agora é Altice Arena, mas como não sei como se chamará daqui a um ano, fica Atlântico), deixem-me falar-vos primeiro do que significa para mim o Roger.

Vi o Roger pela primeira vez em 2002. Foi o meu primeiro grande concerto e a experiência marcou-me de tal forma que nunca mais quis outra coisa. Passei a minha vida em busca de voltar a agarrar aquele momento efémero de puro êxtase que só é possível obter num concerto, um bingo dos sentidos que nenhum outro evento na vida é capaz de dar. Voltei a apanhá-lo diversas vezes ao longo dos anos e foi no Atlântico que vi o maior espectáculo visual da minha vida, quando cumpri o sonho de ver ao vivo o show do The Wall em 2011.

Embora nunca tenha estado com o Roger pessoalmente, na minha mente a nossa relação é estreita. Foi ele quem me guiou durante a adolescência, trancado no bunker do meu quarto. Para além do meu Pai, nenhum homem me influenciou tanto e marcou tanto a minha vida como o Roger. É um herói, um ídolo. Amo-o. Amo-o com tanta força que o queria beijar na boca. E talvez por isso mesmo ainda bem que nunca tenhamos estado juntos.

Mas já chega de mim, vamos ao Roger. Como todas as mais interessantes personalidades da História da Humanidade (onde ele a seu tempo terá o seu espaço), o Roger é uma figura altamente polarizante. Basta escavar em qualquer caixa de comentários para percebermos que as opiniões se dividem em dois grandes campos: Roger é um génio e Roger é uma besta. E ambos poderão ter absoluta razão.

É compreensível a reacção aos seus anticorpos — a personalidade obnóxia, as opiniões vincadas sobre religião e o conflito entre Israel e Palestina, a forma como tratou o David Gilmour e fez implodir os Pink Floyd — não é fácil gostar de Roger Waters. Do outro lado está o seu incomensurável génio. É da cabeça dele que nascem os conceitos de álbuns maiores que a vida como "The Dark Side Of The Moon", "Animals" e "The Wall", obras de um génio louco e perturbado que não podem ser desligadas de uma personalidade irascível. Avé ao Deus David, cheio de graça, que sofreu pelos nossos pecados e aturou o Roger durante tanto tempo — o tempo suficiente para que pudéssemos desfrutar daquelas obras-primas que engrandecem as nossas vidas.

E é dessas obras que sai o núcleo duro da digressão que Roger trouxe a Lisboa. "Us + Them" (sendo "them" os "outros", todos aqueles que não têm a sua visão) serve de promoção ao seu (excelente) último álbum "Is This The Life We Really Want?", mas é dos clássicos que a maioria da audiência espera. E Roger já chegou a uma idade em que (finalmente) quer dar ao público o que o público quer. É um Roger diferente, este que veio a Lisboa. Mais calmo e meloso, com mais vontade de construir pontes em vez de as queimar. Claro que pelo meio destrói meia dúzia de figuras da política sem dó nem piedade (com Trump no olho do furacão), mas é assim o Roger que nós conhecemos e amamos.

Uma das derivas megalómanas de Roger é que foi ele quem inventou o espectáculo Rock. E se esta afirmação pode não ser totalmente consensual (deveria ser), já na questão de quem faz o maior, mais grandioso, mais meticulosamente calculado espectáculo Rock, aí não há espaço para dúvida — Roger é o mestre desta arte. E quem foi ao Atlântico pôde testemunhar isso na primeira pessoa.

Desde logo pela qualidade sónica do espectáculo. Se já assistiram a um concerto no Atlântico, sabem que a acústica da sala pende entre o mau e o aberrante, um problema de fundo que nunca foi resolvido desde a sua inauguração há vinte anos. Ninguém consegue pôr som em condições naquela sala. Ninguém, com uma única excepção: Roger Waters. Sempre. Entenda-se, os técnicos de som do Roger são tão experientes que conseguiriam pôr música em qualquer casa de banho do mundo. Para eles o Atlântico é só uma segunda-feira. O sistema quadrifónico do Roger enche o Atlântico com minúcia e mestria. Explosões, gritos e todo o tipo de efeitos sonoros atacam-nos por todos os lados, ao mesmo tempo que os instrumentos ouvem-se com claridade e separação. Uma maravilha para os sentidos.




Depois há a componente visual e se Roger é Messi no som, na imagem é Jonas e Cristiano Ronaldo e Eusébio e Pelé e Maradona e Poborsky, tudo ao mesmo tempo. Não há nada nem ninguém sequer minimamente comparável. O momento em que o cenário da Battersea Power Station baixa (não consigo fugir do meu local de trabalho) em "Dogs" vale por si só o preço do bilhete. Todos os que ali estiveram vão contar aos filhos e netos da magnificência daquele momento. O início do segundo set é, aliás, o ponto alto de todo o espectáculo, beneficiando do rico imaginário do álbum "Animals". Segue-se "Pigs (3 Different Ones)" e um porco insuflável gigante viaja pelo Atlântico com a mensagem "mantém-te humano", enquanto imagens de guerra são projectadas no cenário da Power Station. Mais uma maravilha para os sentidos.

Para quem ainda não tinha as pupilas cocainamente dilatadas, Roger dá uma última machadada nos sentidos desenhando o prisma da capa de "The Dark Side Of The Moon" sobre a plateia em "Eclipse". Se por esta altura não estão ainda em completo deslumbramento sensorial, então o melhor é irem ver isso a um cardiologista.


O espectáculo de Roger é uma centrifugadora sensorial. Ele trabalha cada um dos nossos sentidos e submete-os a uma lavagem tal que, no fim do programa, eles saem da máquina lavadinhos, prontos para enfrentarem o mundo cão e mau lá fora mais uma vez (como fazia na minha adolescência). Só quem foi ao Atlântico sabe, só quem foi é que viu, só quem foi sentiu. Entrámos no Atlântico com o peso dos nossos problemas, levámos uma tareia emocional lá dentro e saímos leves, limpos e a levitar.

O momento de maior beleza da noite é guardado para o encore. Sem os adereços dos temas dos Pink Floyd, Roger abre-nos o coração na lindíssima sequência "Wait For Her" / "Oceans Apart" / "Part Of Me Died" que fecha o seu último álbum. Revela-nos que está apaixonado, que finalmente encontrou o amor verdadeiro. E de repente aquela noite de explosões, prismas e porcos a voar ganha uma nova dimensão espiritual.

As comparações com David são inevitáveis. Apesar de tocarem a mesma música, os concertos de um e outro são experiências completamente diferentes. Do lado do David, a preocupação é quase exclusivamente pela música na sua vertente melódica, sendo a parte visual apenas um complemento. Um complemento muitíssimo bem executado, diga-se, como se pode atestar pelo magnífico "Live At Pompeii" do ano passado.

Do lado do Roger, a grande preocupação é mexer com as emoções da audiência. O espectáculo é um mastodonte audiovisual, sensorial e emocional sem paralelo, mas fica atrás do David na parte musical. Isto é particularmente perceptível em temas onde o solo de guitarra reina como "Comfortably Numb" e a falta de David se faz verdadeiramente sentir. E pensar que houve um dia que estas duas forças da natureza trabalhavam juntas.

Em suma, "Us + Them" visa fazer um ataque bombástico aos sentidos da audiência. O espectáculo é uma experiência tão emocionalmente pesada, que depois de três horas a chorar e a carpir mágoas imerso na musica e no espectáculo, saí do Atlântico exausto. Queria vê-lo dois dias seguidos, mas não fui capaz. Não me consegui submeter à mesma montanha russa emocional e passar por todo aquele ordálio mais uma vez.

P.S.: Montez, faz um favor à cultura portuguesa e contrata os técnicos de som do Roger Waters para resolverem a acústica do Atlântico. Eles fazem milagres.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A melhor música da primeira metade do ano

O crítico de música da NiT tem a playlist perfeita para o verão

Já dobrámos a primeira metade de 2017 e chegou a altura de rever a matéria dada com uma playlist mesmo a tempo da praia, da piscina, ou daqueles 'warm sunny days indoors' tão bons. Notem que isto não é bem a vossa clássica "Playlist de verão". Pelo menos não estou a ver ninguém a curtir Mount Eerie num sunset de copo de gin na mão. O espectro é mais largo que isso e o critério é absolutamente pessoal e parcial. Passemos então aos maiores destaques da playlist.

Álbum do ano: Ryan Adams — "Prisoner"

A playlist abre com "Doomsday", um tema retirado de "Prisoner" — o mais recente álbum de Ryan Adams e o que mais me encheu as medidas este ano. O Ryan tem dado muito que falar pelo tamanho da sua língua, numa série de ataques aos The Strokes no Twitter, que já não víamos desde que o Liam Gallagher se tornou um gajo calmo (até quando fala do irmão!). O próprio reconheceu isso mesmo e assinou o tweet da mesma forma que Liam fecha os seus escritos — "As you were". Adoro, adoro, adoro.

Infelizmente só se fala nas bocas de Ryan Adams e não no que realmente importa, que é o seu mais recente, superlativo e criminosamente ignorado trabalho "Prisoner". Este álbum mostra um Ryan na sua zona de conforto, que no seu caso é o mesmo que dizer —  a carpir mágoas com canções sobre relações falhadas e corações partidos. Continua a haver algo de irresistivelmente masoquista e metaromântico nesta vontade Louis-CKiana de Ryan se apaixonar sem medo da miséria do pós-heartbreak, ou até na ânsia da inspiração que essa miséria lhe pode dizer. E não é esse o sal da vida?

Mas não pensem o universo de "Prisoner" se esgota nos 12 temas que compõem o álbum. Semanas após o seu lançamento, Ryan lançou 17 (!!!) temas adicionais gravados nas sessões deste álbum. Se quiserem mergulhar mais a fundo nesta fase prolífica do músico americano, não deixem de ouvir a overwhelming compilação "Prisoner B-Sides".


Tema do ano: Radiohead — "Man Of War"

A segunda entrada da playlist é "Man Of War" dos Radiohead. Segundo a minha fiel fonte dos Radiohead, "Man Of War" foi o tema que a banda sugeriu à EoN  (produtora dos filmes do James Bond) quando foram abordados para escrever o tema de "Spectre". "Man Of War" foi escrito por alturas do "The Bends" como uma homenagem aos Bond themes, na expectativa de um dia os Radiohead serem chamados à prova (no documentário "Meeting People Is Easy", podemos ver a banda no estúdio a gravar o tema). A chamada não chegou tão cedo como esperavam e "Man Of War" ficou na gaveta durante 20 anos.

O telefone tocou finalmente em 2015, mas a EoN perversamente não aceitou "Man Of War" por ser um tema antigo. Como tal, os Radiohead gravaram "Spectre", que foi igualmente rejeitado por ser 'demasiado dark' e em última instância foi chamado Sam Smith, que acabaria por gravar o deveras underwhelming "Writing On The Wall".

Na verdade, talvez "Man Of War" fosse demasiado complexo para o retrato que a EoN quer fazer do James Bond nos seus filmes. Na visão original de Ian Fleming, James Bond é um assassino. Pura e simplesmente. É um homem com mais morte e menos swing que a série de filmes quer fazer crer. Mas acima de tudo, Bond é um homem. Um homem igual aos demais, com medos, desejos e anseios. A morte dos outros é a forma que Bond encontrou para compensar a sua própria morte interna. E é assim que os Radiohead se atrevem a caracterizá-lo no melhor tema de 2017... mas que foi gravado em 1997 (ou entre 1995 e 1997 para ser mais exacto) e agora viu finalmente a luz do dia na reedição de "OK Computer". Podem ler mais sobre "Man Of War" aqui.


Regresso do ano: Roger Waters — "Is This The Life We Really Want?"

O regresso mais surpreendente do ano tem que ser o de Roger Waters. Tanto pelo simples facto de ele acontecer, como (e principalmente) por ser algo que realmente vale a pena ouvir. Faz-me muita confusão ler as opiniões quase unanimemente complacentes e moderadas relativamente a "Is This The Life We Really Want?". Condescendentes, diria até. Parece que ouviram uma vez — se ouviram uma vez sequer — escreveram meia dúzia de banalidades e siga para bingo. Mas que é isto? Todas as reacções são possíveis, mas se há uma coisa que Roger Waters não provoca é indiferença. Esta condescendência constitui maior ofensa ao Roger do que se lhe dissessem na cara que o álbum é uma valente merda. Mas que nova moda é esta de não ter opinião para não magoar ninguém? Vamos agora todos pintar as nossas palavras de cinzento porquê? Para agradar aos outros? Citando o Roger, "fuck them!".

Vou ser directo: "Is This The Life We Really Want?" não é um álbum de digestão imediata. É uma audição extenuante, tal o negativismo que assola a música do princípio ao fim. É também um álbum fatalmente político; eu até costumo ser apologista que os meus artistas se mantenham longe da política, mas a verdade é que o "Animals" era político e não deixa de ser uma obra-prima por isso. Roger tem opiniões fortes e quer expressá-las; e ainda bem. Se ao menos o fizesse mais vezes.

Para lá da visão niilista da vida e do mundo, "Is This The Life We Really Want?" é também um exercício de introspecção implacável. Roger despe-se por completo, olha para dentro e escava a fundo em si mesmo. Sem medos. E desta vez, não é só a interminável saga do pai que morreu na guerra; é o Roger que morreu por dentro e quer falar sobre isso. Este é o álbum mais pessoal de toda a sua carreira. E se eu tivesse que apostar, diria que este álbum confessional só chegou agora, porque só agora é que Roger aprendeu a olhar para dentro e viu a besta que é.

Roger descreveu "Is This The Life We Really Want?" como um álbum "parte tapete mágico, parte discurso político, parte angústia". Belo resumo. Ouçam, mas tenham um copo de vinho à mão, de preferência. Sempre é uma anestesia para o vazio que vão sentir.

Para uma leitura mais aprofundada sobre "Is This The Life We Really Want?", podem ir aqui, aqui e aqui.

O que resta do ano: Foo Fighters, The War On Drugs e Liam Gallagher

A primeira metade de 2017 também nos deu muitas amostras do que podemos esperar para o que resto do ano. Muitos destes temas são singles de avanço dos respectivos álbuns que aí vêm e compõem também parte do melhor que já se ouviu este ano.

Começando pelos Foo Fighters, que deixaram água na boca com o novo "Run", tema que testaram no concerto do Alive com resposta positiva. No último álbum, Dave quis dar uma de Roger Waters e formular um elaborado conceito que cruzava uma série televisiva sobre a cultura musical de várias cidades, com um álbum em que cada tema era inspirado numa cidade e acompanhava o respectivo episódio. O conceito era ambicioso, a série foi excelente, o álbum nem por isso. "Run" parece ser um regresso dos Foos à boa forma, depois do sensaborão "Sonic Highways".

Os The War On Drugs vêm aí com "A Deeper Understanding", o tão aguardado sucessor do maravilhoso "Lost In the Dream" de 2014. E cada faixa parece ser melhor que a anterior. Este não engana.

Liam Gallagher está de volta e o seu álbum "As You Were" (que como já vimos parece estar a virar hashtag para qualquer post mais corrosivo) é ao mesmo tempo a maior expectativa e a maior incógnita deste ano. Apesar de ser um enorme fã do Liam, confesso que não esperava muito das suas canções (que nunca fogem muito à regra dos 'Liam standards'), mas cada faixa tem-me vindo a surpreender. Quem sabe e não teremos aqui uma revelação. Em qualquer dos casos, o que eu quero mesmo é o regresso dos Oasis. As you were.


A playlist

Sem mais demora, fiquem então com a playlist com os 25 temas que fizeram o melhor que ouvi na primeira metade de 2017 (na verdade são 26, mas quem está a contar?).

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Roger Waters está de volta e tem coisas para dizer

Roger Waters está de volta. Regozijemos.


Abram as garrafas de champanhe. Vinte e cinco anos depois do último álbum, o auto-proclamado "génio criativo dos Pink Floyd" está de volta com música nova. Porquê agora? Porque o tio Roger está furibundo com o mundo e como sempre que isso acontece, tem coisas para dizer. Muitas coisas. Como não lhe dão a devida atenção nas entrevistas, resolveu então dizer tudo da melhor forma que sabe: com música no meio do discurso (e não o contrário).

O caminho que levou Roger até aqui, ao qual eu gosto de chamar de "purificação de Waters" (deixem assentar esse trocadilho), começou no seu crescente domínio no espaço dos Pink Floyd, cristalizado nos auto-biográficos "The Wall" e "The Final Cut" e continuou na sua discografia a solo, onde a importância dada à música foi progressivamente substituída pela atenção à palavra. Sem o input de David Gilmour para ajustar uma melodia aos seus discursos, a música foi chutada para pano de fundo, cada vez mais elusiva, até ao seu aparente esgotamento em 1992. Desde aí, não se ouviu mais música de Roger (não estou a contar com o auto-indulgente "Ça Ira", uma ópera que só a ele interessava).

Mas Roger está mais velho e mais sábio e já percebeu que precisa de um input externo para musicar as suas intervenções. Por isso recorreu a Nigel Godrich - produtor dos Radiohead -, que o manteve focado a produzir um álbum que tivesse uma estrutura e sonoridade "à Waters". A primeira conquista de Nigel foi fazer Roger abandonar a ideia de uma radio-novela sobre um avô e a sua neta que investigavam por que tantas crianças morriam no Médio Oriente. Se acham este conceito insípido, lembrem-se que o primeiro álbum a solo de Roger ("The Pros And Cons Of Hitchicking") narra, em tempo real, um sonho de um homem entre as 04:30 e as 05:12; e que o segundo ("Radio K.A.O.S.") conta a história de um miúdo esquizofrénico que é possuído por ondas de rádio e ameaça provocar um holocausto nuclear. Louvado seja Nigel, portanto.

Eu disse música nova? Mais ou menos. A primeira amostra do novo álbum - "Is This The Life We Really Want?" - é o furioso "Smell The Roses", um tema que é basicamente um rip-off directo de "Have A Cigar", com algumas texturas de "Dogs" e de "Pigs (Three Different Ones)" lá pelo meio. É uma reciclagem do seu próprio material antigo com nova roupagem, mas e depois? É Roger Waters puro e duro. Nesta fase da sua vida, já não se preocupa em se reinventar, só quer expressar os seus pensamentos e ideais. De forma musicalmente derivativa, sim, mas os originais são dele e o conceito de "auto-plágio" não existe. Se eu tirar dinheiro da minha carteira, ninguém dirá que me estou a roubar.

"Is This The Life We Really Want?" foi gravado ao longo dos últimos 7 anos e será editado dia 2 de junho com o seguinte alinhamento:

1. "When We Were Young" (1:38)
2. "Déjà Vu" (4:27)
3. "The Last Refugee" (4:12)
4. "Picture That" (6:47)
5. "Broken Bones" (4:57)
6. "Is This The Life We Really Want?" (5:55)
7. "Bird In A Gale" (5:31)
8. "The Most Beautiful Girl" (6:09)
9. "Smell The Roses" (5:15)
10. "Wait For Her" (4:56)
11. "Oceans Apart" (1:07)
12. "Part Of Me Died" (3:12)

Algumas das faixas que já tinham sido confirmadas por Roger - "Crystal Clear Brooks", "Safe and Sound" e "Lay Down Jerusalem (If I Had Been God)" -, afinal não aparecem no álbum. Obra de Nigel, aposto. De facto, um tema que se chama "Lay Down Jerusalem (If I Had Been God)" não soa a nada que possa ser minimamente aprazível, para além de reforçar a fama egomaníaca de Roger. Esperemos que o novo álbum esteja (pelo menos) à altura deste agressivo "Smell The Roses". E não, não me importo com reciclagens.