segunda-feira, 12 de abril de 2021

God Save The Queen: Segui a Rainha e levei a vacina da Astrazeneca em Londres

A história de paixão do cronista da NiT pelo Reino Unido, agora consumada com a vacina da Covid-19

Toda a vida cresci fascinado com o Reino Unido. Muito à custa da música, a minha história de amor com o UK começou cedo, de tal forma que quando tive a primeira aula de inglês aos 6 anos, a minha motivação era levar o livrete do Greatest Hits dos Queen à professora, para me traduzir títulos como "Bohemian Rhapsody" e "Headlong" (estávamos nos early 90s e não havia internet) que, hoje sei, nem ela sabia como explicar. A paixão nunca esmoreceu com os anos e quando comecei a ganhar dinheiro para viajar, ir a Londres estava no topo da minha lista de destinos. Repeti a viagem vezes sem conta, em média três vezes por ano, sempre com o pretexto de ver concertos. Em 2018, consumei o meu amor por este país e mudei-me para Londres. A cidade deu-me tantas coisas boas, que a minha estadia aqui só fez com que o amor antigo crescesse ainda mais. Esta semana, fiquei ainda mais enamorado, quando levei a primeira dose da vacina contra a Covid-19, algo impensável se ainda estivesse em Portugal.

Longe de mim alguma vez advogar em favor do Brexit, mas num mundo onde só se foca o negativo, permitam-me realçar o lado positivo — se há uma coisa em que os Brits saíram à frente de toda a Europa, foi no programa de vacinação contra a Covid-19, que tem sido um estrondoso sucesso no Reino Unido e que, na prática, só foi possível devido ao Brexit. E isto são factos: o Reino Unido é de longe o país com maior taxa de vacinação da Europa e o 5º país no mundo inteiro, apenas atrás das Seychelles, Israel, Butão e Maldivas (Portugal é o 27º). Nesta altura, 47% da população já recebeu pelo menos uma dose da vacina. Esta semana, foi a minha vez. 

É verdade que, em condições normais, alguém da minha idade (35 anos) não seria ainda vacinado, mas a minha asma alguma vez haveria de ser útil para alguma coisa e agora foi a hora. Imagino que a vossa próxima questão seja relativamente à origem da vacina. Sim, foi a da AstraZeneca. Como toda a gente que lê notícias, também eu fiquei com as minhas reservas quando soube que era esta a vacina que ia levar, tal a avalanche de informação a dar conta dos seus riscos e o pânico que a mesma gera, mesmo sabendo que são inferiores aos da pílula anticoncepcional. Quando entrei na sala onde ia levar a vacina, dei a conhecer as minhas preocupações às senhoras da pica, que rapidamente, e de forma extremamente britânica, afundaram as minhas questões:

Nuno: "So I’m taking the unpopular vaccine, eh?"
("Então quer dizer que vou levar a vacina impopular, não é?")

Senhoras da pica: "What do you mean unpopular? I’d say it’s very popular. THE QUEEN took this vaccine. If it’s good for the Queen, it surely is good enough for you!"
("Como assim impopular? Eu diria que é muito popular. A RAINHA (Queen) levou esta vacina. Se é boa para a Rainha, é boa para si de certeza!")

Nuno: "Oh is it the Queen vaccine? Then let’s have it! I’m a massive fan."
("Ah é a vacina da Rainha? (trocadilho com a "vacina dos Queen"). Então venha ela. Sou grande fã.")

E pronto, já levei a minha primeira pica e estou muito contente e agradecido ao Reino Unido por (mais) oportunidade que me atiraram. Cada vez gosto mais deste país.

Hoje, 12 de Abril, o país prepara-se para reabrir e o regresso à normalidade está já aí ao virar da esquina. Normalidade, que é como quem diz para mim, concertos. Já tenho uma série deles em vista para o final do ano e depois da segunda dose em Junho, vou com certeza pôr a hipótese de, pelo menos, ir a uns festivais de Verão ao ar livre. Até lá, vou continuar na minha rotina de usar duas máscaras no metro todos os dias e tomar banho de álcool-gel sempre que toco nalguma coisa. Mas pelo menos sei que o pesadelo está quase a acabar, graças ao Reino Unido. God save the Queen.

segunda-feira, 29 de março de 2021

A pandemia do streaming e o formato físico como salvação da indústria musical

Adoro o streaming. Adoro saber que posso, em qualquer altura e em qualquer lado, apenas com uma ligação à internet, pôr a tocar "aquela" música que eu preciso de ouvir naquele exacto momento. Adoro ter os novos lançamentos no Spotify à mão e ouvir tudo no commute para o trabalho (quando havia commute) às sextas-feiras de manhã. Ou se estiver tão ansioso que mal posso esperar, ouvir tudo logo à meia-noite, qual Pai Natal a chegar em noite de consoada. Adoro chegar ao fim do mês e ver as estatísticas do que ouvi nas últimas semanas e depois passar tudo para um Excel onde tenho todos os registos musicais da minha vida. Adoro tanto esta funcionalidade, que chego ao ponto de pôr a tocar durante a noite as músicas que ouvi em vinil no dia anterior (em casa só ouço discos de vinil), de modo a contabilizar os formatos físicos para as estatísticas. Adoro tudo isto. Mas o Spotify tem um grande problema — está a matar a indústria musical.

Atentem nos números: o CEO e co-fundador do Spotify, o sueco Daniel Ek, tem uma fortuna avaliada em 2.8 mil milhões de dólares; o co-fundador dos Beatles, o britânico Paul McCartney, tem uma fortuna avaliada em 1.2 mil milhões de dólares. Sim, leram bem. O CEO do Spotify tem mais do dobro do dinheiro que o Paul, sem nunca ter escrito uma canção. E ambos fizeram fortuna à custa de música. Alguma coisa não está bem aqui.

Não se trata de uma apologia ao comunismo, mas se o dono de uma plataforma de música se serve do produto dos artistas para fazer fortuna e esses artistas não vêem nada do bolo, este torna-se um modelo de negócio insustentável. Quase todos os gigantes já se pronunciaram contra a ganância do Spotify, desde os Radiohead aos Tool, passando pela Taylor Swift, Neil Young e Beck, todos já tentaram agir contra a plataforma de streaming. Todos caíram.

Veja-se a Taylor Swift, tão somente uma das maiores trendsetters e influencers do mundo, que andou em guerra com o Spotify durante vários anos e planeou em 2017 uma plataforma com conteúdos próprios para fazer face à sua ausência no mundo do streaming. Acabou por vacilar e disponibilizar toda a sua discografia no Spotify.

Também Neil Young perdeu a guerra contra os suecos. Durante anos, impediu a partilha da sua música no Spotify e chegou a criar o seu próprio leitor de media (o Pono), o qual oferecia música com resolução muito mais elevada. Acabou por ceder no final de 2016. Mas a sua investida contra o Spotify vai mais além. Neil acredita que o Spotify nos está a matar o cérebro, com música de má qualidade e fraca resolução. E acrescenta: "quando ouvimos música verdadeira, perdemo-nos nela porque tem o som de Deus. O Spotify não soa a Deus, ninguém pensa isso. Soa a uma ventoinha eléctrica, comprada uma loja de electrodomésticos". Claro que Neil é o purista dos puristas, mas ele tem a sua quota de razão. Ninguém discute que o vinil soa melhor que o Spotify, mas a verdade é que eu não posso ouvir os meus discos a caminho do trabalho. O streaming veio para ficar e não há mal nenhum nisso.

Independentemente da bonomia do vinil, a transição para o streaming é evidente, pelo que terão que ser essas plataformas — que vieram, em parte, substituir o papel das editoras — a compensar devidamente os artistas pela sua música e a investir neles, tal como as editoras faziam. Isto implica uma negociação complexa, da qual estamos ainda muito longe. A não ser, claro, que estejamos a falar de "marcas" já estabelecidas, com poder de alavancagem suficiente para negociar. Foi o caso dos Beatles, que por causa disto mesmo, entraram no Spotify muito tarde, só no final de 2015. Já os artistas em ascensão são obrigados a aceitar as migalhas que lhes atiram para os pés, tendo como única vantagem no Spotify a disponibilização (livre) do seu trabalho, como forma de promoção. Se esta promoção é mais ou menos efectiva é outra discussão — pertinente — que tem a ver com algoritmos e que deixarei para outro texto.

 
Esta dependência do streaming foi agudizada pela crise da pandemia do último ano. Até 2020, as bandas compensavam a queda das vendas físicas com a facturação da bilhética e a venda de merchandising. Sem a possibilidade de ir para estrada e levar a sua música ao público, esta alternativa esfumou-se e deixou em crise profunda uma indústria que já estava em agonia. O que resta às bandas neste momento são as vendas físicas pelos seus websites, tanto de discos, como de merchandising. Porque lá está, com o streaming, não podem contar. Pensem que comprar uma t-shirt equivale a aproximadamente 5 mil streams. Eu, que ouço música compulsivamente e faço em média 2 mil streams por mês, precisava de quase 3 meses a ouvir a mesma banda para pagar uma t-shirt.

Adoro o Spotify, mas a plataforma tem um problema fatal, de não pagar o que é justo aos artistas. Sendo hoje uma ferramenta tão poderosa, tem que rever a forma como valoriza o seu produto — adicionando a opção para áudio de alta resolução (prevista para o fim do ano) e, acima de tudo,  recompensando os artistas que lhes disponibilizam o seu trabalho de mão beijada.

Até que esse acordo seja alcançado, resta-nos a nós, fãs, pugnar pela sobrevivência da "nossa" música e, dentro das nossas possibilidades, ajudar os artistas que estiveram lá para nós, com a sua música, quando nós precisámos. E isso neste momento só é possível com o regresso aos formatos físicos, os únicos capazes de fechar o elo de ligação entre o artista e o ouvinte, agora mais do que nunca. Mas isso digo eu, que adoro o streaming, adoro os formatos físicos, e não vivo sem um nem o outro. Sei que estou precavido para o apocalipse nuclear que se avizinha. O apocalipse vai apagar todos os dados de todas as clouds e discos externos no planeta, eliminando toda a música das plataformas de streaming. Restarão os discos de vinil, os CDs e as cassetes. Como podem ver pela foto em cima, estou descansado.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Pablo Hasél e o direito a ofender

Olhando para o caso do rapper catalão, urge discutir a liberdade de expressão em Portugal


 Acho que não se está a dar a devida importância ao caso da prisão do rapper Pablo Hasél. Não me refiro necessariamente a manifestações de apoio ao catalão (as quais diria que têm sido tímidas em Portugal), mas sim à discussão aberta e aprofundada sobre um tema que nos diz respeito a todos – o direito a ofender. A liberdade de expressão ainda é um assunto tabu, o qual temos medo de abordar uma vez que no nosso país, já diz o povo, “o respeitinho é muito bonito”. Gostamos sempre de guardar as devidas distâncias sociais. Ora, existe o direito a ofender? A resposta não é simples. O caso de Hasél é interessante e não deveria ser uma questão de nicho, exclusiva de uma centena de nomes do espetáculo que fizeram uma petição online. A petição de solidariedade a Pablo Hasél (assinada por 4.5 mil pessoas) é um exercício demasiado unidimensional para um assunto tão complexo. Defende o texto que “os únicos crimes de Pablo Hasél (…) foram a denúncia da flagrante corrupção de uma monarquia cada vez menos legitimada democraticamente” e atira que “numa democracia, os artistas não são condenados a nove meses de prisão (…) por cantar e por escrever”. O problema é que podem. Podem em Espanha e podem até em Portugal. Mas já lá vamos.

Antes de mais, o contexto – Pablo Hasél, rapper catalão, foi condenado a nove meses de prisão efectiva por crimes de “ofensa à coroa” e “apologia do terrorismo”, devido ao que escreveu nas suas músicas e na sua conta de Twitter. Sim, os tweets foram a julgamento. Parece pueril, mas foi precisamente isto que aconteceu. Segundo o Guardian, a ofensa à coroa valeu-lhe uma elevada multa e a apologia do terrorismo, a pena de prisão efectiva. Como eu gosto de saber exactamente do que estamos a falar, fui à procura das famigeradas rimas que atiraram Pablo para a prisão. Créditos ao El Mundo pela antologia (fica aqui o link, onde também podem encontrar os tweets pelos quais ele foi julgado) e ao Google Translate pelas traduções do Catalão, depois adaptadas por mim (estou aberto a correcções):

  • "¡Merece que explote el coche de Patxi López!" – "O carro de Patxi López devia explodir!"
  • "No me da pena tu tiro en la nuca, pepero. Me da pena el que muere en una patera. No me da pena tu tiro en la nuca, socialisto" – "Não me importo que leves um tiro na nuca, pepero [membro do PP]. Sinto muito por quem morre numa patera [barcaça de emigrantes ilegais]. Não tenho pena de levares um tiro na nuca, socialista."
  • "Que alguien clave un piolet en la cabeza de José Bono" – "Que alguém enfie um machado na cabeça de José Bono."
  • "Pena de muerte ya a las Infantas patéticas, por gastarse nuestra pasta en operaciones de estética" – "Pena de morte já para as infantas patéticas, por gastarem o nosso dinheiro em operações de cosmética."
  • "En mi escuela pública había violencia y no era etarra sino de retratos de la monarquía encima de la pizarra" – "Na minha escola pública havia violência e não era da ETA, mas sim de retratos da monarquia no quadro."
  • "Prefiero grapos que guapos. Mi hermano entra en la sede del PP gritando ¡Gora ETA! A mí no me venden el cuento de quiénes son los malos, sólo pienso en matarlos" – "Prefiro grapos a meninos bonitos. O meu irmão entra na sede do PP e grita “Gora ETA!”. Eles não me vendem a história de quem são os bandidos, só penso em matá-los."
  • "Merece también un navajazo en el abdomen y colgarlo en una plaza" – "Merece também uma facada no abdómen e ser pendurado numa praça."
  • "Que li fotin una bomba, que revienten sus sesos y que sus cenizas las pongan en la puerta de la Paeria" – "Que lhe atirem uma bomba, expludam os seus miolos e coloquem as suas cinzas na porta da Paeria”

Então o que é que temos aqui? Rimas desagradáveis? Check. Conteúdo ofensivo? Check. Ofensas à família real? Check. Referências abonatórias a terroristas? Check. Ameaças concretas à integridade física de alguém? Não me parece. Razão para prender um homem? De maneira nenhuma. Mas isso digo eu. Já a lei espanhola diz outra coisa.

Em Espanha, ofender a coroa é crime. É uma daquelas regalias centenárias da monarquia, um regime que, não se achando suficientemente ancorado no século XIX devido ao nepotismo, consegue superar-se com uma lei tão retrógrada que desafia a segunda emenda americana relativa às armas. A somar a isso, o passado traumático com a ETA ditou que a lei espanhola fizesse da humilhação de vítimas de terrorismo – um conceito tão perigosamente subjectivo –, uma apologia ao terrorismo e como tal, um crime punível com pena de prisão. Para o juíz que dissecou as letras das músicas e os tweets de Pablo Hasél, foi Checkmate.

Agora que já vimos que a liberdade de expressão está seriamente comprometida em Espanha, vamos ao caso português. Pedir a intervenção do Estado Português, como faz a petição referida em cima, quando a justiça do nosso país é ainda mais useira e vezeira neste tipo de sentenças, é risível. O Código Penal prevê um Capítulo inteiro de regime jurídico de crimes contra a honra, entre os artigos 180º e 189º, compreendendo as figuras de Difamação, Injúria e Calúnia. A somar, temos a cereja no topo do bolo que é o artigo 328º, que diz que "quem injuriar o Presidente da República (…) é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de multa". Um artigo que o inenarrável Cavaco adorava. Ou seja, andamos a aqui a maldizer a justiça espanhola e nós temos uma lei que é em tudo equivalente. A grande diferença entre Portugal e Espanha? É que os rappers daqui, pelo menos os que têm mais visibilidade, têm mais decoro. Mas mesmo esses são “capazes” (pun intended) de levar por tabela. Basta nos lembrarmos da estúpida polémica do videoclipe do Valete para o tema “BFF”.

Não tenho formação em Direito para vos explicar ao certo a abrangência legal das figuras jurídicas que elenquei em cima, mas elas estão no Código Penal para serem aplicadas e são-no com bastante frequência. Prova disso é que o Estado Português é um dos recordistas europeus no número de condenações por violação da liberdade de expressão no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH). Confusos? Eu explico. Enquanto o Código Penal português tem, como já vimos, um capítulo inteiro dedicado à defesa da honra individual, o TEDH toma esse direito como secundário em virtude da liberdade de expressão. Por isso sucede que muitos do que são condenados por estes crimes em Portugal recorrem para o tribunal europeu, que neste enquadramento jurídico anula as sentenças nacionais e obriga o Estado a indemnizar o condenado.

Portanto, temos aqui um caso interessante, em que a Europa evoluiu em direcção à liberdade de expressão, em contraciclo relativamente a alguns dos seus países membros, que por sua vez são obrigados a pagar somas substanciais a quem é condenado por crimes desta índole. E não sairemos disto enquanto os países se adaptarem. Ou em alternativa, saírem da União como o Reino Unido, e assim verem os seus tribunais soberanos novamente. Recordo que este foi um dos argumentos de quem defendia o Brexit. Se Portugal está no pelotão da frente da lista das indemnizações compensatórias, podemos concluir que temos também um longo caminho em direcção à liberdade de expressão.

E é por isso que, mais do que defender Pablo Hasél, me interessa fomentar esta discussão. Se chegaram até aqui, perceberam que a questão de fundo sobre a liberdade de expressão, mais do que de opinião, é de legislação, que me parece demasiado ancorada em conceitos de séculos passados. É urgente discutir este assunto à luz do século XXI e é urgente mudar a lei. A interpretação da lei é vaga, mas só deve limitar a nossa liberdade de expressão na estrita necessidade de defender valores inalienáveis. A violência que temos assistido nas ruas espanholas não devia estar associada a esta causa, uma vez que isso é, e deve continuar a ser, crime. Mas temo que os protestos nas ruas serão porventura a única maneira de chamar a atenção do país para esta discussão. “O respeitinho é muito bonito”, sim, mas a sociedade deveria ter mecanismos próprios – começando pela educação, que não me canso de referir ser o maior pilar da sociedade –, para se regular contra imbecis, sem ser preciso metê-los na cadeia por delito de opinião.

Bem sei que Hasél não é santinho nenhum. Para além da condenação por injúria à coroa, o rapper também levou uma sentença de dois anos e meia por ameaçar matar um homem num bar e outra de seis meses por atacar um jornalista em 2016. Relativamente a isto, não há nada a dizer. Não posso gritar “Libertem Pablo Hasél” ao som do “Soltem os Prisioneiros” dos Delfins, porque ele vai ter sempre que cumprir pena por estes crimes. Mas os nove meses de pena que levou por músicas que escreveu e tweets que publicou são absolutamente abomináveis para o senso comum e para a justiça também o deveriam ser. É nisto que assino o meu nome em defesa de Pablo Hasél. Pablo não levou estes nove meses por algo que fez; levou pelo que escreveu, cantou e tweetou. E se olham para as letras com nojo (o que é legítimo), convido-vos a olharem para o vosso histórico nas redes sociais; podem ter uma surpresa. Dir-me-ão que, ao defender Hasél, estou a dar voz a um imbecil. Ainda por cima a um imbecil que faz má música. Talvez. Mas que eu saiba, a imbecilidade não é crime. E a música má também não. Nada na música de Pablo Hasél me move em sua defesa, a não ser o seu direito em fazê-la. Esse, sim, é inalienável.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Pink Floyd: 48 anos do lado escuro da lua

"Everything under the sun is tune, but the sun is eclipsed by the moon"

“Sou louco há um caralhão de anos.” Começa assim o álbum mais consagrado dos Pink Floyd e provavelmente a marca mais conhecida da História do Rock, que faz hoje 48 anos de loucura. E o que é que eu posso escrever que ainda não foi dito sobre este disco que mudou tudo? Quem me conhece sabe que sou dado ao uso de superlativos e talvez seja essa a razão pela qual nunca tenha escrito nada sobre o “The Dark Side Of The Moon”. É que não há disco mais publicamente superlativado que este. Vejo-o como um filho mimado, que já tem atenção suficiente de toda a gente e que, como tal, não precisa das minhas loas em público. O que não quer dizer que não o faca em privado. Fui ver à minha base de dados do Discogs e tenho 17 cópias deste álbum em casa. Sim, leram bem, dezassete. E isto sem contar que a caixa Immersion tem 8 versões diferentes lá dentro (original, remix, surround, quadraphonic, ao vivo, demo, etc), ou que o álbum é reproduzido na íntegra no disco ao vivo “p·u·l·s·e”, do qual conto com 5 versões diferentes. Sou fã, já perceberam a ideia. Portanto, se nunca escrevi sobre o “Dark Side”, sendo alguém naturalmente de fácil superlativo, é porque temo entrar em tilt, ao procurar na língua portuguesa termos superlativíssimos (eu não disse?) para este álbum. Vou fazer aqui o melhor que posso.

Dizem os mais cépticos que a música não pode mudar o mundo. Mas como não, se a música muda a vida de tanta gente? A minha foi abanada várias vezes, em capítulos diferentes da minha existência, por discos que aterraram no meu mundo, sempre na hora certa. O primeiro terá sido “The Dark Side Of The Moon”. Em Castelo Branco, somos introduzidos ao álcool muito cedo. E cedo aprendi que era com grau de alcoolémia que melhor se apreciavam os Pink Floyd. Mas não foi assim que os comecei a ouvir, na tenra idade dos zero, quando o meu Pai tocava o “Dark Side”, ainda estava eu na barriga da minha Mãe. Talvez tenha sido por isso que fiquei com esta loucura. Ou então foi por causa daquele concerto de Veneza em 1989, com o palco na água e o público em gôndolas, que o meu Pai gravou em VHS (“numa noite de trovoada”, contará ele) e que eu via de olhos dilatados e imaginação no espaço, sempre que havia visitas lá em casa. Ou então foi por causa da chegada a casa daquele mágico CD do “The Division Bell” em 1994, que o meu Pai tocava todos os Domingos de manhã e que ficou tão ancorado no meu cérebro, que ainda hoje não passa uma semana em que não o ouça. Não foi, portanto, com o álcool que eu fui introduzido ao “Dark Side”. O disco já existia na minha vida. Mas quando eu tinha 15 anos e achava que já sabia tudo do Mundo (e na verdade sabia tão pouco), ouvi o “Dark Side” às escuras, catalisado por meia dúzia de médias e de repente, tudo fez sentido. Foi a primeira vez que eu “percebi” o Roger Waters e desde então que quando ele fala, eu ouço. Achei que ficara avisado para as armadilhas do Mundo que o tio Roger tão brilhantemente apontava. E olhem para mim hoje, 20 anos depois, a cair fatalmente em cada uma delas. 

Depois de ver o lado escuro da lua, nunca mais me calei com os Floyd. Fui para o Liceu contar a todos sobre a minha descoberta, mas sem grande sorte. Olhavam para mim como se eu estivesse a falar sobre uma seita esquisita e em defesa deles, era provavelmente com o mesmo ar de demência que eu me expressava. Com as miúdas então, nem vale a pena falar. O “Dark Side” não fazia muitos amigos. Até que numa festa de aniversário bastante “regada” (“vamos beber sumo”, dizia à minha Mãe), apanhei uma conversa de um grupo mais velho que estava a falar, imaginem, dos Pink Floyd. Wow. Afinal esta gente existe! As pupilas dos meus olhos dilataram imediatamente e finalmente pude jogar o meu futebol. Foi nessa conversa que ouvi uma interpretação do “On The Run” que, não sendo necessariamente verdade, é tao perfeita que nunca sequer pus em causa. A história reza assim: o tema tem um loop de sintetizador que evoca alguém a correr (o tema chama-se “On The Run”!); ouvem-se passos ofegantes, de alguém certamente atrasado para qualquer coisa; segue-se o anúncio de um aeroporto – “Tenham a vossa bagagem e passaporte prontos para os voos para Roma, Cairo e Lagos” – ah, ele está atrasado para o seu voo de férias; o indivíduo corre loucamente em direcção às portas do avião, na sua cabeça está o seu destino de sonho, a fuga do marasmo do seu quotidiano; ouve-se um riso insano – “Vivo para hoje, vou-me embora amanhã. Sou assim.”; a corrida continua, as portas já estão próximas; quando finalmente chega à porta de embarque, o avião já está a levantar; frustrado, fica ofegante a ver o seu sonho fugir; e eis que, depois de levantar, o avião que perdera por um triz explode diante dos seus olhos. Tau! “Manda vir mais uma rodada de médias!”, disse o João Francisco. Afinal, às vezes o sonho pode ser o nosso maior pesadelo. E às vezes é uma bênção quando não conseguimos o que queremos. Já todos passámos por isto.

Por isso é que “The Dark Side Of The Moon” é tão universal – porque nos diz respeito a todos. Porque as armadilhas dos sonhos, do tempo, do dinheiro, do nomadismo, do conflito e, em última instância, da morte, são comuns a todos nós. Somos consumidos pelo que temos, pelo que queremos e pelo que perdemos. Nascemos, trabalhamos e morremos. Qual o sentido da vida? Faz sentido ter medo da morte? Vivemos para alimentar as nossas próprias prisões – a carreira, a prestação do carro e da casa e as pressões do status quo. Por isso é que o “Dark Side” – um ensaio sobre a loucura e o stress induzido pela vida na nossa sociedade ocidental – faz ainda mais sentido hoje do que fazia nos anos 70. Não há discos perfeitos. Mas o mais perfeito de todos os discos é “The Dark Side Of The Moon”. Acho que não há maior ou melhor superlativo que este.

Fiquem em baixo com a performance ao vivo em Wembley do álbum na íntegra (uma das versões incluídas na caixa referida em cima). “Vemo-nos no lado escuro da lua”.

 “O lado escuro da lua não existe, na verdade é tudo escuro.”

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Is there life on Mars? - 10 temas para ouvir em Marte

Na sequência da aterragem do rover Perseverance, o cronista da NiT sugere 10 temas para ouvir em Marte.


“Há vida em Marte?” – perguntou David Bowie no enigmático “Life On Mars?”. O tema de 1971 não era literalmente sobre a existência de vida no planeta Marte, mas a sua ubiquidade valeu-lhe a honra de ser a banda sonora do fecho da transmissão da aterragem do rover Perseverance no planeta vermelho, que teve lugar na semana passada. Não consigo pensar em melhor escolha. Neste momento histórico para a humanidade, é um prémio justíssimo para “o homem que caiu na Terra” e que passou toda a sua carreira a cantar sobre o espaço.

Em homenagem à missão espacial Mars 2020, ficam aqui 10 temas para ouvir em Marte, numa playlist cuidadosamente curada e ordenada, que começa no século XIX e tenta não repetir artistas (o que é manifestamente difícil no caso de David Bowie). 

 

Richard Strauss – “Also Sprach Zarathustra – Sunrise” (1896)

Escrita por Richard Strauss no século XIX para musicar a obra filosófica de Nietzsche sobre o eterno retorno, a introdução de “Also Sprach Zarathustra”, também conhecida como “nascer do sol”, ganhou fama como banda sonora dos títulos de “2001: Odisseia No Espaço”. É também a perfeita introdução para a nossa playlist para ouvir em Marte.

 

Pink Floyd – "Astronomy Dominé" (1967)

Depois de Bowie, a escolha mais óbvia para sonorizar uma missão espacial teriam que ser os Floyd. Os tempos de Cambridge e cogumelos catalisaram uma visão psicadélica que abriu os horizontes do Rock ‘n’ Roll ao infinito do espaço. Ainda não foi dada a devida reverência ao pioneiro “The Piper At The Gates Of Dawn”, um álbum que permitiu ao mundo levantar voo para a estratosfera, sem ser preciso passar pelo Cabo Canaveral. Depois, infelizmente, Syd levantou voo vezes a mais, até que ficou por lá. É pena.

 

The Beatles – “Across The Universe” (1969)

Muito aprenderam os rapazes de Liverpool nos clubes das caves de Londres, onde tocavam bandas psicadélicas como a referida em cima. “Across The Universe” é um hino do espaço à John Lennon, na medida em que é, na realidade, um tema introspetivo que usa o espaço sideral como metáfora para o espaço mental. Olhar para dentro, a olhar para fora. Clássico John.

 

Elton John – “Rocket Man (I Think It’s Going To Be A Long Long Time)” (1972)

Por falar em clássicos, aposto que já esperavam a inclusão de “Rocket Man” nesta lista. Eu sou um mega-fã do Elton que, segundo a minha base de dados do Discogs, conto com uns modestos 135 discos do Captain Fantastic na minha coleção. E choque, não sou fã do “Rocket Man”. Nunca fui. Será da sobre-exposição? Talvez. Mas nunca consegui perceber o encanto. A verdade é que os últimos anos viram Elton a ser cada vez mais associado a este tema e ao conceito de homem do espaço. “Rocket Man” foi o título do seu biopic e é, de longe, o seu tema mais tocado no Spotify, com mais de 500 milhões de streams. Mal sabe esta gente que Elton tem um universo (pun intended) de música por descobrir. Como dizem os ingleses, a fruta mais baixa na árvore é a mais fácil de colher.

 

David Bowie – “Moonage Daydream” (1972)

Ora bem, por onde começar? Desde “Space Oddity” (1969), passando por “Life On Mars?” (1971), “Starman” (1972), “Moonage Daydream” (1972), “Loving The Alien” (1984), “Hallo Spaceboy” (1995) e isto só na ponta língua, David Bowie passou a carreira a cantar sobre os mistérios do espaço e da vida alienígena. Ele próprio era, acreditavam muitos americanos do Midwest nos anos 70, um perigoso alienígena enviado para desviar os seus filhos. Tudo começou com "Space Oddity" e essa seria a escolha mais óbvia, mas eu sou atraído pelo som da guitarra do Mick Ronson como os nossos heróis eram atraídos pelo pó de giz, por isso vai o “Moonage Daydream”. E lamento, vamos ter que ficar aqui no que toca a Bowie.

 

Lou Reed – “Satellite Of Love” (1972)

...ou não. Voltamos a ter Bowie, mas desta vez num papel secundário merecedor de um Oscar. “pom pom pom” – as backing vocals em “Satellite Of Love” são tao notáveis como a própria lírica de Lou Reed, que profetiza a chegada do Homem a Marte, seguida da terraplanagem para parques de estacionamento (“Satellite is gone way up to Mars / Soon it will be filled with parking cars”). E aquele último minuto, em que Bowie grita simultaneamente “SATELITE” e “AUUUUUU” em pistas diferentes, é dos momentos mais deliciosos da História do Rock.

 

Oasis – “D’Yer Wanna Be A Spaceman?” (1994)

O Noel Gallagher quando baixa a guarda é capaz de escrever melhor do que qualquer um dos grandes. “D’Yer Wanna Be A Spaceman?” canaliza os The Kinks, num tema naive sobre a perda da inocência e o crescimento que nos faz desistir dos nossos sonhos de astronauta, para nos entregarmos de livre vontade às prisões do trabalho e dos empréstimos ao banco. Podia e devia ter tido outra exposição, mas por razões que só Noel saberá, ficou escondido como Lado B do single do muito inferior “Shakermaker” em 1994.

 

Beach House – “Space Song” (2015)

Depois de ganharem notoriedade com o brilhante “Bloom” em 2012, os Beach House estabeleceram-se como uma das bandas mais consistentes da última década com “Depression Cherry (2015). Depois veio o advento do Spotify e o fenómeno das músicas “que se parecem muito com muitas outras” e que, como tal, aparecem nas faixas sugeridas pela plataforma quando acabamos de ouvir a nossa playlist. Foi assim que eu redescobri “Space Song”, anos depois de a ter criminosamente ignorado ao ouvir o álbum e foi assim que o tema disparou para 135 milhões de streams, quase o dobro do segundo tema mais popular da banda (“Myth”) e o quádruplo do terceiro (“Master Of None”).

 

Beck – “Stratosphere” (2019)

Por falar em temas criminosamente ignorados, sinto que depois de ser laureado pelo genial “Morning Phase” (2014) e criticado pelo desapontante “Colors” (2017), Beck não recebeu elogios suficientes pelo retorno à grande forma em “Hyperspace”. “Stratosphere”, em particular, tem tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, e mesmo assim consegue encaixar tudo numa medida perfeita de sintetizadores etéreos, eco e silêncio. Um dos meus temas preferidos dos últimos anos. 

 

Brian Eno – “An Ending (Ascent)” (1983)

Ao curar esta playlist, tive o cuidado de não recorrer a compositores eletrónicos, uma vez que seria demasiado fácil ir buscar Brian Eno, Vangelis, Tangerine Dream, Aphex Twin e atirar-vos 10 peças longas de ambient music sobre o espaço. E aí, meus amigos, é que iam ver o que era divagar nestas caixas de comentário. Dito isto, se começámos com uma introdução instrumental eufórica, faz sentido terminar com uma downer piece do mestre Eno, directamente saía da sua obra-prima “Apollo”, de 1983.

 

Faixa bónus: Klaus Schulze – “Velvet Voyage” (1977)

Acabei de dizer que não queria recorrer a compositores eletrónicos e aqui está mais um. Mais do que qualquer dos outros temas nesta lista, “Velvet Voyage” é uma viagem em si mesmo. Um tema desafiante de quase 30 minutos, que é melhor ouvido numa nave espacial ou, como faria o Syd, debaixo de substâncias que nos atirem para o espaço sideral sem passar pelo Cabo Canaveral. Para a próxima faço isto em verso.

 

Faixa bónus #2: David Bowie – “Life On Mars?” (1971)

Fechamos a playlist da mesma maneira que a NASA terminou a sua emissão – “Há vida em Marte?”.

 



terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Bruce Springsteen: Nascido nos Estados Unidos da Hipocrisia

O shot que tramou Bruce Sprinsgteen e tirou o anúncio da Jeep do ar.


Não há concertos para falar e talvez por isso o assunto da semana no mundo da música foi a detenção de Bruce Springsteen Novembro passado, um caso que, como fã do Bruce, não posso esconder que me incomodou. Vamos lá então falar do elefante na sala. O Bruce foi apanhado pela polícia com álcool no sangue, mais precisamente 0.02 g/l. E não, o zero não está mal posto. A história é que ele foi intercetado por um fã a pedir um autógrafo e uma foto, e esse fã ofereceu-lhe um shot de um licor que ele fizera. O Bruce, como Boss que é, sorriu e anuiu a todos os pedidos, como sempre faz. Eu sei, porque já aconteceu comigo.

Esta cena foi testemunhada por um carro da polícia que estava no local e que seguiu imediatamente no encalce da mota onde seguia Bruce. Mandaram-no parar, et voilá, acusou 0.02 g/l. Embora o limite de álcool no sangue no estado de New Jersey seja 0.08 g/l (recordo que em Portugal são 0.5 g/l, sendo que só é crime a partir dos 1.2 g/l), os senhores da polícia federal decidiram deter o Bruce Springsteen, alegando que, apesar do nível negligível de álcool do sangue, ele não estava em condições de seguir para casa. Ficaram, pois, com uma história para contar e com uma pequena vingança contra o tema “American Skin (41 Shots)” (um tema tão medíocre que nem precisava de retaliação), onde Bruce condenou a brutalidade da polícia que baleou 41 vezes um negro em NY, sem que este estivesse armado. A diferença aqui é que o Bruce deu 1 shot e os polícias 41.

Ora, eu não quero de maneira nenhuma advogar a condução embriagada, mas sou de Castelo Branco, por isso sei quando é que alguém pode estar em condições de “levar o carro”. Sei que se todos os condutores de Castelo Branco fossem detidos ao marcarem 0.02 g/l, a área da zona industrial da cidade não seria suficiente para alojar os calabouços de um estabelecimento prisional construído só para o efeito. Sei também que se este hábito vigorasse em Portugal, eu já teria sido preso mais vezes que o Vale e Azevedo. Este caso, para mim, tresanda a perseguição pessoal. Compreendo que a polícia tenha ido atrás de um homem que viram beber um shot, mas detê-lo quando perceberam que estava muito abaixo do limite legal é um abuso de poder inaceitável. Não interessa se sou eu, se é o Bruce, se é o Vilarinho. A intenção da polícia (não de toda, só daqueles idiotas) neste processo é óbvia – atacar o Bruce Springsteen.

Coincidência ou não, e eu inclino-me mais para a segunda, este caso vem a público poucos dias depois de Bruce protagonizar um anúncio para a Jeep (podem ver aqui), onde apela ao encontro dos americanos num espaço comum, mostrando uma capela no Kansas situada exatamente no meio da estrada 48 dos EUA. Um anúncio é político, sim, mas apela ao entendimento, uma ideia que hoje em dia parece radical e que nitidamente aborreceu muita gente. Mal passou no Super Bowl, gerou-se uma incrível onda de críticas contra o anúncio e contra o próprio Bruce, muito à conta de republicanos que nunca perceberam a ironia de "Born In The U.S.A.". Quando este caso de nano-alcoolismo foi revelado, foi como gasolina para as mãos desta gente, que não tardou em crucificar Bruce na fogueira, do alto do seu pedestal moral americano. Resultado? A Jeep resolveu retirar o anúncio do ar, com medo de represálias dos moralistas. Se há coisa para a qual não tenho paciência nenhuma são falsos moralistas ávidos do cancelamento de todos à sua volta e que, invariavelmente, são os primeiros a morrer pela própria espada. Os Estados Unidos da Hipocrisia estão cheios destes insuportáveis falsos moralistas (Portugal também os tem, mas esses são apanhados antes de sequer saírem de casa). Quanto aos que tentaram apanhar o Bruce, daqui não levam nada. #IstandWithBruce

Estou contigo, Bruce. Deixa esses moralistas hipócritas dos EUA e vem mas é para Portugal. E traz a garrafa, que a gente bebe também. 

 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Libertem a Britney Spears

O novo documentário do New York Times revela um caso chocante que roça a escravatura

Acabo de assistir, chocado, ao novo documentário do New York Times "Framing Britney Spears", que detalha o caso da tutela das finanças e da vida pessoal de Britney Spears pelo seu pai. Sim, leram bem. Britney Spears, mulher adulta de 40 anos, está sob controlo total do pai desde 2008. Isto significa não só o controlo da sua conta bancária, como também dos contratos que assina (isto é, o pai é que diz quando e onde é que ela vai à televisão, lança álbuns, ou dá concertos), e até de quem vê, quando vê e com quem contacta. Controlo total. Tudo isto para, alegadamente, "proteger" a Britney.

Imagino que para muitos de vocês, fãs da Britney que estão a ler, nada disto seja novidade. Afinal, a custódia já existe desde 2008. Confesso que esse foi provavelmente o ano em que eu lhe perdi o rasto, muito porque foi quando ela deixou de aparecer nos tablóides. No ano anterior, todos os dias havia um escândalo novo: ora porque conduzia com o filho ao colo, ora porque era apanhada a sair de limousines sem roupa interior, ora porque destruía carros dos paparazzi, ora porque rapava o cabelo, tudo servia para bater na Britney. Nisto, ninguém se perguntou porque é que ela estava a cair naquela espiral destrutiva em frente às câmaras. Ninguém pensou que, talvez, o melhor fosse apenas deixar a Britney em paz — como disse o rapaz naquele vídeo viral de 2007.

O annus horribilis de 2007 valeu-lhe a perda da custódia dos seus dois filhos com Kevin Federline e mais tarde a perda da liberdade pessoal e financeira para o seu pai, numa altura em que enfrentava evidentes problemas psicológicos. A figura da tutela foi accionada, algo que deveria ser um último recurso para pessoas em fim de vida e em perda das suas capacidades mentais. Em 2008, perante o estado em que Britney se encontrava na altura, admito que a tutela poder-se-ia justificar episodicamente, para evitar burlões que se aproveitassem do seu estado débil e para preservar a sua imagem pública. Estender isto para além de um estrito número de circunstâncias, parece-me impossível de justificar.

Como então explicar que Britney Spears tenha passado os seus trintas sob o controlo total do pai? A resposta é triste, mas óbvia: dinheiro. Britney dá de comer a muita gente e financia as vidas principescas de todos os membros da sua família que, surpresa, não se opõem à tutela, embora o próprio irmão já tenha reconhecido que sabe que Britney se sente prisioneira. A tutela tornou-se num negócio muito lucrativo para todos os envolvidos, até para a própria Britney, que agora está "protegida de si mesma", e assim pode explorar todo o potencial da marca do seu nome para fazer dinheiro. Mas quererá Britney esta vida "segura", em prejuízo da sua liberdade? Parece-me óbvio que não. Não admira que os últimos temas que me lembro dela ("Toxic", "Gimme More") remontem ao seu período livre.

A liberdade para fazer disparates é um direito inalienável que nos assiste. Sem ele, não somos mais do que escravos. Podem pintar a situação como entenderem, podem pô-la num chalé na praia, ou num quarto no Four Seasons, a Britney não deixará de ser uma escrava num chalé. A família nega que Britney não tem liberdade, uma vez que, dizem eles, pode viajar (mas tem que pedir autorização) e, que sorte, não está trancada num quarto. Agora pensem, se isto é a vossa noção de liberdade. Quando se recusou a fazer uma residência em Las Vegas em 2018, Britney foi internada num hospital psiquiátrico. A justificação oficial é que ela queria estar com a família, embora não fossem conhecidos mais hóspedes da família Spears naquelas instalações.

Quando soube deste caso e do documentário que ia sair este fim-de-semana (disponível do FX e Hulu), fiquei atónito — como é que os Estados Unidos da América, terra da liberdade, permite uma coisa destas? Um caso a roçar a escravatura em pleno século XXI e em frente a toda a gente? Todo este caso é de uma surrealidade indizível. Olhando de fora, mais parece um filme distópico do tipo "Blade Runner" em que a Britney é um genóide programado para nos entreter (como a Pris, interpretada pela Daryl Hannah). Britney tornou-se na personagem de um dos seus vídeos, quando representava uma estrela Pop prisioneira da sua própria imagem (notem que eu tinha 14 anos em 1999, por isso conheço os vídeos todos da Britney da época).

Soube agora também, que em 2019 nasceu o movimento #FreeBritney a partir dos fãs, que visa o término da tutela de Britney, tendo em conta que as circunstâncias de 2008 já foram há muito ultrapassadas. Britney tentou rever a situação em tribunal, mas foi negada pelo juiz, num julgamento ridículo em que ela estava a pagar o seu advogado, o advogado da tutela, e claro, a própria tutela. Como a própria advogada da tutela admite no documentário, ela está metida num imbróglio legal do qual dificilmente vai sair.

A questão que levanto neste texto é quem afinal desencadeou este processo, em que uma mulher saudável entra num tenebroso meltdown em público, que a leva à destruição da sua vida pessoal e da sua saúde mental e mais tarde à perda da sua liberdade. A resposta, para mim, é óbvia: os paparazzi. Não imagino o que é ter um batalhão de fotógrafos a guardarem-me 24 horas por dia, a fotografarem-me à janela, quando  vou à varanda, quando vou ao supermercado, quando simplesmente não estou com paciência para ninguém. Eu tinha partido mais carros que a Britney, de certeza. E se a imprensa destruiu a vida de Britney, agora deve reparar os estragos e ajudá-la a recuperar a sua liberdade. Está por isso na hora de gritar, nas palavras imortais do Miguel Ângelo, "soltem os prisioneiros". Libertem a Britney.