sábado, 29 de dezembro de 2018

"Black Mirror: Bandersnatch" é um maravilhoso labirinto de loucura, alienação e morte

A Netflix guardou o melhor do ano para o fim. "Black Mirror: Bandersnatch" é mais um triunfo monumental da melhor série do século XXI e um aperitivo do que vem aí num futuro não muito distante no mundo do entretenimento.

E se? Quem nunca se perguntou a si mesmo o que é que aconteceria se tivesse feito as coisas de outra forma? E se tivesse tomado decisões diferentes em momentos-chave da sua vida? E as pequenas decisões? Em que é que elas influenciam a nossa vida? Penso se tivesse ido à casa de banho em Heathrow 5 minutos antes e não tivesse apanhado aquele gajo que espirrou em cima de mim, estaria há uma semana de cama? E se não tivesse ido para Londres há um ano, o que seria da minha vida agora? Por que tomamos estas decisões, por vezes tão estranhas e anticlimáticas, que viram a nossa vida do avesso? Nunca sentiram que não estão no controlo do que acontece na vossa vida?

São estas tiras que compõem o espectro filosófico de "Black Mirror: Bandersnatch" — o novo episódio de Black Mirror lançado ontem na Netflix. E este só dá mesmo para ver na Netflix, aqui não há outra saída. O enredo de "Bandersnatch" é um labirinto que o próprio telespectador resolve (e em partes participa directamente), tomando as decisões de vida de Stefan Butler, um jovem programador de videojogos que, coitado, está submetido à nossa vontade, assim na Terra como no Netflix. Se é que a fronteira entre ambos não está já demasiado difusa. Esta é também uma forma efectiva de combater a pirataria, uma vez que o espectador precisa da aplicação do Netflix para poder intervir nas decisões do Stefan. Não dá para simplesmente "sacar" o episódio. Isto disseram-me, atenção.

Um pouco de contexto. Stefan é filho único, órfão de mãe e isso é um fantasma que o persegue, como ao Pac-Man (hint!). A história segue-o na missão impossível de em poucos meses adaptar o livro "Bandersnatch" a um jogo de 48k. "Bandersnatch" é uma obra de Jerome F. Davies, um "génio" que enlouqueceu e decapitou a mulher, convencido que tinha perdido o controlo sobre as suas próprias acções. Já viram onde é que isto pode vir a dar.

"Bandersnatch" suga-nos para o seu próprio universo, com uma caracterização nada menos que sublime. A série passa-se em 1984 (hint!) na cidade de Londres e conta com com múltiplas referências à cultura de então e uma pesadíssima influência da música alternativa dos anos 80 (tentem decifrar na foto em cima). E começa aqui a minha história de amor com este episódio. Londres nos anos 80 é um cenário saído de um sonho. Um sonho pintado a cinzento (como é apanágio da cidade), principalmente para o pobre Stefan.

Não é por acaso que a brutalíssima (pun intended) Trellick Tower em Notting Hill serve de cenário para uma das cenas fundamentais do enredo. Odiada pela maioria dos transeuntes, que vêem nela uma besta na skyline londrina, a torre de arquitectura brutalista tem um fascínio sombrio ímpar, que atrai magneticamente o olhar e propulsiona a imaginação sobre as histórias de amores e terrores que ali se deselançam. Quando Stefan lá vai, à casa de Colin Ritman — um bem-sucedido designer de videojogos —, este desvenda-lhe os mistérios da vida e põe em causa a realidade conforme a conhecemos, num monólogo com a banda sonora cinemática dos Tangerine Dream ("Love On A Real Train") que ajuda a definir o espectro filosófico que referi há pouco:
As pessoas pensam que só há uma realidade, mas há imensas, como raízes. O que fazemos numa timeline afecta o que acontece nos outros caminhos. O tempo é uma construção. As pessoas pensam que não se pode voltar para trás e mudar as coisas, mas podem. É isso que são os deja vus — são convites para voltar atrás e fazer escolhas diferentes. Quando tomas uma decisão, pensas que és tu a fazê-lo, mas não. É uma entidade no lado de lá que está ligado ao nosso mundo que decide o que fazemos e nós só temos que seguir o que nos é imposto.
Wait, what? Vamos voltar ao início do labirinto.

São estas tiras que compõem o espectro filosófico de "Black Mirror: Bandersnatch" — o novo episódio de Black Mirror lançado ontem na Netflix. O enredo de "Bandersnatch" é um labirinto que o próprio telespectador resolve, tomando as decisões de vida do Stefan que, coitado, está submetido à nossa vontade. A primeira vez que se percorre o labirinto de "Bandersnatch" é como uma viagem de fascínio e descoberta. Mas como todos os labirintos, também Bandersnatch tem os seus becos sem saída. Quando nos decidimos a saltar da janela, somos convidados a voltar para trás. Outra vez. Mas não há problema, porque se nesta timeline fomos de vela, noutras teremos uma chance de fazer as coisas correrem bem. Ou será que teremos?

São estas tiras que compõem o espectro filosófico de "Black Mirror: Bandersnatch" — o novo episódio de Black Mirror lançado ontem na Netflix. O enredo de "Bandersnatch" é um labirinto que o próprio telespectador resolve e é quando se volta para trás e se procuram caminhos alternativos, que a cabeça começa a andar à roda. Só aí se percebe o verdadeiro espectro deste projecto e o que é que filosoficamente implica. O episódio deixa-nos fazer uma e outra e outra iteração e aí sim, podemos pôr à prova todos os "e se?" da vida do Stefan. Todas aquelas fantasias que alimentamos nas nossas vidas, o "Crtl+Z", apagar e fazer de novo, aqui tudo é possível. Estamos no controlo. Guiamos a vida do Stefan e todas as pequenas decisões que tomamos afectam o que acontece a seguir, criando uma árvore de possibilidades imensa. Tudo depende das nossas escolhas e o Stefan, coitado, está submetido à nossa vontade, assim na Terra como no Netflix. Se é que a fronteira entre ambos não está já demasiado difusa.

Numa das iterações, é-nos dada a hipótese de explicar ao Stefan que os estamos a controlar do futuro, numa plataforma interactiva chamada Netflix, para nosso próprio entretimento. Wait, what? A série goza consigo própria, num delicioso humor self-deprecating que nos deixa a cabeça a andar à roda. A nós e ao Stefan que, compreensivelmente, fica ainda mais confuso e o seu comportamento ainda mais desviante. Mas podemos sempre corrigir as coisas e tentar que o Stefan tenha melhor sorte em mais uma iteração. Se é que isso é possível.

Como terão percebido nos parágrafos em cima, a repetição é uma figura de estilo fundamental neste episódio de Black Mirror. É uma ferramenta eficaz para a sucção para o universo de "Bandersnatch". Eu, pelo menos, ainda não consegui sair de lá. E que maravilhoso é.

Como é costume em Black Mirror (e como tanto gostamos), os easter eggs estão um pouco por todo o lado no universo de "Bandersnatch". Logo no início do episódio, somos brindados com um outdoor grafitado com um símbolo que nos é familiar do episódio "White Bear", acompanhado pela inscrição "no future". As coisas já não parecem muito optimistas aqui (noutra iteração aparece um autocarro com a inscrição "new beginning"). O símbolo de White Bear vai aparecer um várias vezes ao longo do episódio e sempre que tal acontece, sabemos a priori que boa coisa daí não vem. Quando Stefan chega aos estúdios da Tuckersoft, dá de caras com o cartaz de "Metl Hedd", numa referência ao (melhor) episódio da quarta temporada. Colin está por sua vez a trabalhar em "Nohzdyve" numa referência ao primeiro episódio da terceira temporada. Quando Stefan está à porta do consultório, ouvimos o tema dos XTC "Making Plans for Nigel", numa dica para um dos finais que podemos ter em "Bandersnatch". E por falar em dicas, a melhor é dada no início pelos Frankie Goes To Hollywood: "relax, don't do it" (e só à segunda visualização é que nos apercebemos que o Pai tranca a porta de uma certa divisão da casa). Se ao menos o Stefan ouvisse os sinais.

Para mim, não há dúvidas: o melhor do ano ficou guardado para o fim. "Black Mirror: Bandersnatch" é mais um triunfo monumental da melhor série do século XXI e um aperitivo do que vem aí num futuro não muito distante. Como o Black Mirror sempre fez, aliás. A única questão é saber se "Bandersnatch" é o melhor episódio do ano, o melhor filme do ano, ou whatever the fuck it is, porque acho que não há ainda uma categoria para isto. Um maravilhoso mindfuck.

P.S.: Se como eu, não quiserem sair do maravilhoso universo de "Black Mirror: Bandersnatch", deixem-se submergir pela banda sonora deste episódio.

sábado, 24 de novembro de 2018

Nós somos os campeões — A lista definitiva dos melhores álbuns dos Queen

Uma vez que continuo a receber e-mails irados à custa da crítica ao poucochinho "Bohemian Rhapsody" e hoje faz 27 anos que o Rei Freddie nos deixou, tenho a desculpa perfeita para escrever mais uma vez sobre a minha banda favorita.

Com toda a atenção que é dada a Freddie Mercury, esquecemo-nos que os Queen eram de facto uma excelente banda, com excelente música e com uma matriz de choque com o establishment que é o exacto oposto do que o Dr Brian May nos quer vender hoje em dia. Uma banda com o repertório tão vasto e tão variado, que os fãs nunca vão concordar qual o melhor e o pior. Esta é a minha lista.

15. FLASH GORDON (1981)

"What's happenin', Flash?!"


É obviamente o álbum mais fraco dos Queen, dêem-se as voltas que se derem. Tem apenas uma canção terminada, com cabeça tronco e membros ("The Hero"), sendo que nem sequer foi o single do álbum. Esse foi "Flash" (ou "Flash's Theme" no disco), pouco mais que uma colagem de efeitos sonoros sobre uma linha de baixo de uma nota repetida apenas (e vá, com uma bridge pelo meio). Não deixa de ser uma colagem cool, mas é só isso mesmo, uma colagem. E foi um hit.
"Flash Gordon" é uma festa de sintetizadores e um disco brutalmente experimental; e contudo, os Queen têm todo o meu respeito pela coragem de lançarem este trabalho completamente anticlimático, logo a seguir a terem conquistado ambos os lados do Atlântico com o álbum "The Game".
Imaginem os tomates que são precisos para a maior banda do mundo da altura suceder o seu álbum mais bem recebido com isto. Maravilha. Só mesmo os Queen.

Faixas essenciais: "The Hero", "Flash's Theme" e vá, "Football Fight".


14. THE MIRACLE (1987)

"Goodbye, the party is over"


Na altura do seu lançamento, "The Miracle" foi visto com bons olhos pelos fãs dos Queen, que já ansiavam por algo mais próximo das suas origens Rock. O entusiasmo vinha de "I Want It All", um tema Rock straight-forward que prometia um álbum mais pesado, em consonância com o movimento Hair Metal que dominava as tabelas da altura. Nada mais falso.
Olhando para trás, "The Miracle" não conseguiu ser isso nem outra coisa nenhuma, a não ser música feita para agradar às massas, o que é exactamente o oposto daquilo que os Queen são (ou foram até 1982). "The Miracle" trouxe uns Queen normalizados, a tentarem entrar com toda a força na rádio mainstream da altura. E honra seja feita aos rapazes, isso foi conseguido com sucesso, uma vez que os singles (e os respectivos vídeos) são de facto terrivelmente atraentes.
"Breakthru" e o tema-título "The Miracle" são os pontos altos, "I Want It All" é o arquétipo do tema perfeito para a rádio, "Scandal" é uma jóia escondida e até "The Invisible Man" pode ser desculpável, se visto como um momento de Queen just wanna have fun. Já para coisas como "Party", "Khashoggi's Ship", "Rain Must Fall", ou "My Baby Does Me" é mais difícil encontrar desculpas (como é que "Too Much Love Will Kill You" e "My Life Has Been Saved" ficaram de fora?). Nem os singles disfarçam um álbum profundamente desinspirado. A festa tinha mesmo acabado para os Queen.

Faixas essenciais: "Breakthru", "The Miracle" e "Scandal".


13. THE WORKS (1984)

"It's software, it's hardware. It's heartbeat, it's time-share"


O álbum “Hot Space” gerou tensões tão grandes no seio dos Queen, que por pouco não separou a banda em definitivo. O público não quis nada com as experiências Gay Disco de Freddie Mercury e por isso os Queen em 1984 abriram o Windows no safety mode, com o lançamento de um álbum seguríssimo-mesmo-na-roupa-mais-delicada — "The Works". Nunca percebi muito bem o título do álbum, a não ser na perspectiva que este disco foi visto pelos Queen como mais um dia no escritório.
Os Queen estavam desesperados por reaver a sua audiência de volta e por isso estavam propositadamente a jogar pelo seguro. Nesta altura, a única coisa que ancorava os Queen à sua matriz ultrajante eram os vídeos, que compensavam o facto da banda se ter (finalmente) rendido à crítica e começar a produzir pop adulta by-the-numbers para agradar à MTV. Ironia das ironias, o single principal do álbum "Radio Ga Ga" fala precisamente disso mesmo.
Valeram os singles, impossíveis de não gostar, até porque são tão easy-listening, não é?

Faixas essenciais: "I Want To Break Free", "It's A Hard Life" e "Hammer To Fall".


12. JAZZ (1978)

"Only football gives us thrills, Rock 'n' Roll just pays the bills"


Os Queen passaram a década de 70 a ostentar nos seus álbuns o lema "No synths!", orgulhando-se de que todos os sons misteriosos ouvidos na sua música eram provenientes da guitarra de Brian May. Isto é tudo muito bonito, mas no fim do dia, acabava por ser uma limitação que os Queen se auto-infligiam. Sem razão nenhuma.
A verdade é que em 1978, as ideias dos Queen para um mundo perfeito sem sintetizadores já começavam a escassear. Nesta altura, o core business dos Queen já eram os concertos, onde a banda brilhava intensamente e o álbum "Jazz" foi demasiado-obviamente composto para ser tocado ao vivo para dezenas de milhares de pessoas. Isso já era óbvio no antecessor de 1977 ("News Of The World"), mas aqui já nem disfarçam ("Let Me Entertain You" é um bom exemplo). Parecia que os Queen estavam apenas numa de go through the motions, sem grande intenção de arriscar ou inventar coisas novas, como era a sua matriz de trabalho (excepção será o magrebino "Mustapha" e talvez "Dead On Time", a roçar o heavy metal).
Curiosamente, também aqui os Queen denunciam isto mesmo no tema "More Of That Jazz" ("what you're given is what you've been given a thousand times before"). Os Queen precisavam de se reinventar e ainda bem que o fizeram no álbum "The Game".

Faixas essenciais: "Mustapha", "Fat Bottomed Girls" e "More Of That Jazz".


11. Queen (1973)

"Mother Mercury, look what they've done to me"


O primeiro álbum dos Queen é aquilo que no atletismo se chama de "falsa partida". Há aqui muitas e dispersas influências (Led Zeppelin a mais óbvia) e boas ideias, algumas mais tarde desenvolvidas para algo superior ("Seven Seas Of Rhye") e outras felizmente abandonadas ("Jesus" era demasiado preachy para uma banda Rock).
Os Queen já arranham algumas malhas como "Doing Alright", "Liar" e "Son And Daughter", que iriam em breve desabrochar ao vivo. "Keep Yourself Alive" abre a discografia dos Queen com um riff glorioso, mas a canção não está ao nível.
Parecia ainda faltar alguma confiança aos Queen, mas como sabemos, a modéstia não é propriamente o forte do nosso Freddie e felizmente a sua visão grandiosa iria em breve dar asas à banda londrina.

Faixas essenciais: "Doing Alright", "Liar" e "Son And Daughter".


10. The Game (1980)

"Are you ready for this? Are you hanging on the edge of your seat?"


Os Queen entraram na década de 80 com uma explosão... de sintetizadores. Quebrando o dogma que levaram até ao álbum "Jazz", os Queen agarraram-se aos sintetizadores com toda a fome de quem estivera uma década à míngua e comportaram-se como aquele miúdo que recebe uma Nintendo 64 pelo Natal e durante três meses não sai do quarto (eu em 1998, portanto).
Ha quem diga que a partir daqui, os Queen deixaram de ser muito bons e passaram a ser apenas bons. Eu discordo, uma vez que os Queen continuaram a fazer boa música e se não era tão boa como o passado, não teve a ver com o uso de sintentizadores per se, mas sim com o mau uso dos mesmos, ou então o seu uso excessivo mascarar outras deficiências da banda, como algum desinteresse dos seus membros, depois de uma década exaustiva de ciclos álbum-tour-álbum-tour.
"The Game" foi no entanto um triunfo absoluto para os Queen, uma vez que foi o álbum que conquistou a América, nomeadamente com o single "Another One Bites The Dust". É o exemplo perfeito de como casar com bom gosto os velhos Queen, com o uso do novo brinquedo.

Faixas essenciais: "Dragon Attack", "Another One Bite's The Dust" e "Save Me".


9. NEWS OF THE WORLD (1977)

"You brought me fame and fortune and everything that goes with it. I thank you all"


Há um momento no filme "Bohemian Rhapsody" que define "News Of The World" – quando Brian May diz a Freddie Mercury (três anos mais tarde do que na realidade aconteceu) "quero escrever uma canção que o público possa cantar connosco". Temas como "We Will Rock You" e "We Are The Champions" são exercícios disto mesmo.
"News Of The World" é puro Arena Rock, mas nem por isso os Queen deixaram de ser ultrajantes. Prova disso é que as sugestões sexuais se estavam a tornar cada vez mais óbvias ("you gotta fight from the inside, attack from the rear"). Pena que "Get Down, Make Head" fosse à última hora alterado para "Get Down, Make Love".
Adoro "News Of The World" e dói-me deixá-lo aqui no número 9, mas notem que ter um álbum como este na nona posição não significa que seja fraco. Significa apenas que os Queen eram assim TÃO bons.

Faixas essenciais: "It's Late", "Spread Your Wings" e "My Melancholy Blues".


8. SHEER HEART ATTACK (1972)

"Baby you've been had"


Estava eu esta semana na Pretty Green em Carnaby Street e começa a tocar o "Brighton Rock" nas colunas. Os rapazes que trabalhavam na loja — deviam ter os seus 20 anos —perguntavam-se o que raio era aquilo. Eu intrometi-me orgulhoso — "Isto é Queen!" —, ao que um respondeu — "não sabia que os Queen faziam música pesada!". Ah pois. E eu terminei com "os Queen faziam de tudo e era tudo bom!". E se há testamento disso mesmo é "Sheer Heart Attack", um álbum mais simplista que o seu antecessor ("Queen II") e o seu sucessor ("A Night At The Opera") e que trocou uma abordagem menos complexa e grandiosa na composição por uma sonoridade mais pesada em temas como "Brighton Rock", "Tenement Funster", "Flick Of The Wrist" (que malha!) e "Stone Cold Crazy" (um cover habitual dos Metallica). Os Queen conquistaram as tabelas do UK e do Japão com este álbum e as coisas começaram finalmente a aquecer (como se pode atestar pela capa do álbum).

Faixas essenciais: "Brighton Rock", "Flick Of The Wrist" e "In The Lap Of The Gods... Revisited".


7. Hot Space (1982)

"I've got fire down below, I'm just a regular dynamo"


Baixem lá essas forquilhas, ó seus fãs dos Greatest Hits. Não, "Hot Space" não é propriamente um desfilar de hits como, por exemplo, "The Works". E ainda bem. Porque "Hot Space" é o álbum que define exactamente o que eram os Queen — uma banda sempre a puxar os limites, sem medo de correr riscos e mais que isso, com vontade de correr riscos; vontade de chocar, ser ultrajante. Em suma, o oposto daquilo que o filme "Bohemian Rhapsody" nos mostrou.
Tenho um tremendo, tremendo respeito pelos Queen por este álbum. Pese embora os próprios Brian e Roger ainda o odiarem, continua a ser um testamento de como os Queen não têm paralelo. Mas mais. É na verdade um dos álbuns que mais ouço.
Depois disto, os Queen avançaram para fazer música "melhor" (ninguém pode dizer que "I Want To Break Free" não é melhor que "Body Language", ou "Radio Ga Ga" pior que "Back Chat"), mas os Queen deixaram de ser o gajo da gabardine que vai para o parque mostrar as partes íntimas às velhotas e deixar todos os transeuntes em estado de choque.
Imaginem lá agora que o John Bonham nunca tinha morrido em 1980 e os Led Zeppelin tinham feito um álbum Gay Disco. What the fuck? Exacto. Nunca teriam a coragem de fazer um álbum desses. E por isso é que os Queen são melhores. Os melhores. De sempre. Word.

Faixas essenciais: "Staying Power" ao vivo (eu sei, eu sei, é batota) , "Cool Cat" e "Under Pressure".


6. I N N U E N D O (1991)

"My make-up may be flaking, but my smile still stays on"


Os Queen estavam convencidos que "Innuendo" iria ser o último álbum que Freddie Mercury poderia gravar, por isso sabiam que tinham que make this one count. Depois do tiro ao lado com "The Miracle", aqui não havia espaço para falhanços. Era o tudo ou nada. E por isso mesmo os Queen capricharam neste álbum extraordinário, com clássico atrás de clássico ("I'm Going Slightly Mad" é talvez a faixa mais britânica de sempre), exceptuando quando quiseram fazer a vontade ao Freddie e deixá-lo cantar um tema para a sua gata Delilah. E o tema que não resultou com a Montserrat Caballé ("All God's People") também era desnecessário. Fora isso, é uma saída triunfal para o arco discográfico dos Queen. Não é por acaso que "The Show Must Go On" é a última faixa do álbum. Freddie não sabia se ia sequer terminar "Innuendo", quanto mais gravar mais alguma coisa a seguir...

Faixas essenciais: "Innuendo", "I'm Going Slightly Mad" e "The Show Must Go On".


5. A Kind Of Magic (1986)

"Here we are. Born to be kings"


"A Kind of Magic" é um álbum puro 80s. E nem pensem que isto tem uma conotação negativa, uma vez que tem tudo o que foi de bom nos 80s e tudo na conta certa. A simbologia do álbum é deliciosa e a música é a mescla perfeita entre uma banda Rock dos anos 70 e os sintetizadores dos anos 80. Os Queen também conseguiram o feito de cruzar na perfeição um álbum de banda sonora com um álbum Rock. Continua a ser um testamento que os Queen podiam e sabiam fazer tudo e era tudo bom.

Faixas essenciais: "One Vision", "Who Wants To Live Forever" e "Gimme The Prize (Kurgan's Theme)".


4. MADE IN HEAVEN (1995)

"So quiet and peaceful (dreaming...); Tranquil and blissful"


Muito falei nesta crónica de "riscos"; que os Queen eram excepcionais porque não tinham medo de correr riscos e faziam-no com gosto e com vontade de desafiar o mundo, a crítica e os próprios fãs. Tudo verdade. Mas nessa perspectiva, que riscos é que os Queen correram no adult sounding "Made In Heaven"? Nenhuns. Excepto o risco que o seu vocalista pudesse morrer a qualquer momento. Isso é capaz de ser arriscado. E foi mesmo. Porque Freddie Mercury morreu mesmo a meio de "Made In Heaven".
Sabendo da situação periclitante de Freddie, os Queen mudaram-se de armas e bagagens para Montreux em 1991, onde ocuparam os Mountain Studios (onde mais tarde foi erguida uma estátua ao Rei, que serviu de capa para o álbum e ainda lá está nos dias de hoje), à espera que Freddie Mercury tivesse uns dias de melhoria e apanhasse um avião para mandar abaixo mais umas faixas vocais. As sessões foram por isso aquilo que (compreensivelmente) puderam fazer delas.
Neste período, Freddie gravou "You Don't Fool Me", "A Winter's Tale" e metade de "Mother Love". Aqui as coisas ficam um pouco difusas, uma vez que Brian May afirma que a última faixa que Freddie gravou foi "Mother Love" em Montreux, tendo que abandonar a sessão a meio e nunca voltado para a completar (e por isso é Brian quem canta o último verso). Esta é uma versão mais dramática e pro-Queen da História, apanágio do nosso astrofísico favorito.
A outra versão é do produtor David Richards, que disse que a última faixa vocal que Freddie gravou foi na verdade "A Winter's Tale", em Londres, a 11 de Novembro de 1991. A 10 dias de morrer, portanto.
Toda este elán faz com que "Made In Heaven" seja um álbum especial. É um álbum que prova que Freddie tinha, acima de tudo o resto, uma missão neste mundo — cantar. Fê-lo até ao fim contra tudo e contra todas as doenças, dores e um sofrimento inimaginável. E tudo para que nós, os seus fãs, quem o amava verdadeiramente sem pedir nada em troca, pudéssemos desfrutar de mais um miminho. E que miminho ele nos deixou. Obrigado, Freddie.

Faixas essenciais: "Two Much Love Will Kill You", "Mother Love" e "A Winter's Tale", duas faixas gravadas nos últimissimos dias do Rei.


3. A Night At The Opera (1975)

"So très charmant, my dear"


Já quase tudo foi dito sobre "A Night At The Opera", o álbum que tem como grande defeito não estar à altura do seu mamutiano single de avanço — "Bohemian Rhaposdy". Mas como tal seria possível?
Não pensem porém que "Bohemian Rhapsody" está sozinho neste disco pleno de charme e finesse.
A variedade é mesmo o grande forte do álbum, que abre com o tema mais agressivo da discografia dos Queen — "Death On Two Legs [Dedicated To..." (dedicado ao antigo manager da banda Norman Sheffield),  evoca o music hall nos muito British "Lazing On A Sunday Afternoon", "Seaside Rendezvouz" e "Good Company", deixa Roger fazer a sua declaração de amor aos automóveis em "I'm In Love With My Car" e claro, o épico de Mercury "The Prophet's Song", que só não é mais conhecido porque ficou sempre na sombra de Bo Rhap.

Faixas essenciais: "Death On Two Legs [Dedicated To...", "The Prophet's Song" e (obviamente) "Bohemian Rhapsody".

2. Queen II (1973)

"I reign with my left hand, I rule with my right; I'm lord of all darkness, I'm Queen of the night"


Já todos ouviram falar do "Chinese Democracy" dos Guns N' Roses — um álbum tão exageradamente produzido, que acabou por ficar na sua própria sombra. Ora, o que Axl Rose queria afinal fazer com "Chinese Democracy"? Simples. Queria fazer o seu próprio "Queen II". A diferença é que levou 11 anos a fazer o que os Queen demoraram 1 mês.
Há tanto que se passa em "Queen II", que é difícil acompanhar. É como aqueles filmes do David Lynch, que só à 4ª ou 5ª visualização é que percebemos que "Ahhh, então aquilo é uma guitarra!" (nesta fase pré-sintetizadores, era sempre).
"Queen II" é todos os superlativos ao mesmo tempo. Dividido num Side White de Brian May e Side Black de Freddie Mercury, o álbum tem um pouco de tudo e é "O" grande triunfo artístico da discografia dos Queen. Nunca mais os rapazes fizeram algo tão complexo. Bem, exceptuando obviamente aquele tema do "A Night At The Opera".

Faixas essenciais: "White Queen (As It Began)", "Ogre Battle" e "The March Of The Black Queen".


1. A Day At The Races (1976)

"I can dim the lights and sing you songs full of sad things"


"A Day At The Races" é o álbum mais accomplished da carreira dos Queen. Aqueles 20 minutos entre o gongo que abre "A Day At The Races" e o fim de "You And I" são o absoluto e indisputado pináculo da discografia dos Queen. "Tie Your Mother Down", "You Take My Breath Away", "Long Away", "The Millionaire Waltz" e "You And I". Não precisavam de fazer mais nada na carreira deles.
Vira-se o disco e o Lado B começa com o "Somebody To Love". Enough said.

Faixas essenciais: "Tie Your Mother Down", "You Take My Breath Away" e "The Millionaire Waltz"; Ah e "Teo Torriatte", claro. Esperem, e o "Somebody To Love"?

sábado, 27 de outubro de 2018

Is this just fantasy? — "Bohemian Rhapsody" foi exactamente o desastre olímpico que eu esperava

O cronista da NiT e fanático dos Queen foi à estreia mundial em Londres e traz a review do filme que chega para a semana a Portugal

"Bohemian Rhapsody" foi exactamente o desastre olímpico que eu esperava que fosse. O filme é uma espécie de versão Disney da história dos Queen: limpinho, lavadinho, uma visão higienizada de Freddie Mercury que se pode mostrar às crianças e imprimir em livros de colorir. Em Maio escrevi aqui que com os dados que estavam lançados, só podíamos temer o pior e as expectativas confirmaram-se. O Dr. Brian May é um homem de muitos talentos — um dos mais inventivos, melódicos e singulares guitarristas da história da música; um astrofísico brilhante; um protector felino do seu legado — mas infelizmente, a produção de filmes não é um desses talentos. Foi exactamente por isso que Sacha Baron Cohen abandonou o projecto, quando percebeu que o instinto protector de Brian não iria permitir o filme ganhar as asas que merecia.

Antes de mais, deixem-me desmontar um mito que se criou quando começaram a sair as primeiras fotos e os primeiros trailers do filme: Rami Malek não é um bom Freddie Mercury. Ele imita-lhe os movimentos, sim, mas não conseguiu capturá-lo. Para se ser Freddie, não basta imitar-lhe as poses; não basta arranjar um treinador de movimentos para copiar exactamente como Freddie se movia do Ponto A para o Ponto B. Não chega. Para se ser Freddie, é preciso entender Freddie. É preciso fazer os mesmos movimentos, mas com a mesma força, a mesma confiança e a mesma autoridade. É preciso perceber que este era um homem extremamente inseguro que, quando lhe davam um microfone para a mão, era o Rei do Mundo e não tinha dúvidas disso (e não estou a ser metafórico).

Atente-se por exemplo na célebre performance do Live Aid: reparem como Freddie comanda uma audiência de 80 mil pessoas no Wembley e 2 mil milhões de pessoas em casa como se de um exército se tratasse; como ele ordena o público a segui-lo — "I like it, SING IT AGAIN!" — e todos o fazem com um sorriso nos lábios, como quem está a carpir mágoas numa experiência metasensorial. Não se sente nada deste poder em Rami Malek. Tudo é mecânico, forçado e sem vida, como se estivesse a reproduzir uma coreografia num musical. Há muito pouco de Freddie em Rami. Lamento, mas meter uma dentadura não chega.

Em defesa de Rami Malek, devo dizer que a tarefa que tinha entre mãos era extraordinariamente difícil. Mas temo que na preparação do filme, ele nunca tenha percebido isso. Eu entendo que Rami não tenha tempo para perder em tamanha dedicação. Afinal, há mais filmes e séries para gravar. E não há problema nenhum com isso, entenda-se. Rami Malek é um bom actor, mas não é o actor que Freddie precisava. É muito poucochinho. Era preciso estudar, ver horas, dias, semanas, meses de vídeos de concertos, entrevistas e filmagens do "boring Freddie" para se perceber a extrema riqueza, profundidade e complexidade deste homem tão brilhante e perturbado. Era preciso tempo e dedicação. Era o papel de uma vida. Era preciso um method actor. Como por exemplo, se bem se lembram, Sacha Baron Cohen.

Dito isto, a performance de Rami Malek está longe de ser o pior de "Bohemian Rhapsody". É apenas aquilo que salta mais à vista para um fã dos Queen mais atento. Isso e as inúmeras imprecisões históricas, que vão muito para além do moustachegate de que falei na semana passada (os Queen a  gravarem "We Will Rock You" com Freddie Mercury de bigode). A banda sonora já tinha dado a dica, com um alinhamento cronologicamente todo trocado, mas que é exactamente aquilo que vemos no verdadeiro caos factual que é "Bohemian Rhapsody".

As coisas começam logo mal quando vemos os Queen numa digressão americana em 1974-1975 ao som de "Fat Bottomed Girls", escrito em 1978 (altura em que Freddie já tinha cabelo curto e se vestia em cabedal integral). Mais à frente, vemos Freddie a explicar a Mary Austin que "Love Of My Life" foi escrito para ela, enquanto lhe mostra imagens (reais) de um concerto no Rio de Janeiro que na realidade ocorreu 10 anos mais tarde (1985), mas com Freddie a utilizar um stage costume de 1976. No filme, "We Will Rock You" (1977) é composto em 1980 e "Another One Bites The Dust" (1980) é escrito em 1982 para terminar uma discussão do grupo na gravação do álbum "Hot Space". Para quem conhece a história dos Queen, tudo isto é no mínimo bizarro.

Daqui para a frente, a História como-realmente-aconteceu é completamente deitada pela janela fora. O caos é total, com o filme a contar uma narrativa dos Queen nos anos 80 que simplesmente não aconteceu, muitas vezes através de cenas parodicamente dramatizadas, que mais parecem saídas de uma telenovela mexicana. E tudo culmina no bizarro dia do Live Aid em que, no mesmo dia, Freddie consegue encontrar o homem que tinha tomado o seu coração 5 anos antes (Jim Hutton), leva-o a tomar chá a casa dos pais, reconcilia-se com Mary Austin e ainda faz o Live Aid. Há dias que têm 5 anos, de facto.

Mas não pensem que o pior do filme é esta embrulhada temporal. O filme trata a maiorias dos episódios da História dos Queen pela rama, preocupando-se em demasia em enunciar o maior número de factos, sem lhes dar o devido contexto. Porque é que as coisas aconteceram como aconteceram? Não interessa, é preciso andar mais uns anos, que o filme não pode ser muito longo. E isto reflecte-se na profundidade das próprias personagens. Na verdade, à excepção de Freddie, Mary Austin e Paul Prenter (o grande vilão da história), nenhum dos personagens do filme têm personalidade própria. Todos se limitam a deixar-se levar mecanicamente de episódio em episódio, como se fossem props do filme, para relatar vagamente e em ordem caótica factos que se passaram na história dos Queen.

Dos personagens, sabemos que o Brian é um astrofísico, que o Roger gosta de gajas e que o John não tem interesse nenhum. E sabemos disto porque o Freddie o diz numa das muitas cenas interrompidas por "momentos informativos" em que se sente o evidente toque do Dr. Brian May, que quer deixar bem claro quem-disse-o-quê e assim esclarecer a audiência sobre quem estava do lado certo da história (entenda-se: Brian e Roger estavam certos, contra Freddie e John).

"Bohemian Rhapsody" vale por ser uma (sempre pertinente) celebração dos Queen. Nem tudo é mau. Em primeiro lugar, a música. Aqui, não havia que enganar. A utilização de gravações originais dos Queen no filme foi uma decisão acertada e se aqueles ensaios para o Live Aid são gravações genuínas do Freddie a desafinar e a perder a voz, então tiro o meu chapéu ao Dr. Brian May, porque temos ali um tesouro.

O ponto alto do filme é a composição do tema "Bohemian Rhapsody" nos Rockfield Studios (uma quinta no Sul de Gales) . Aqui sim, é deixado o espaço e o tempo suficiente para a acção respirar e o filme se desenrolar. É precioso ver o método criativo de Freddie a compor a letra da canção, numa altura que se apercebia da sua sexualidade. É maravilhoso ver o Freddie obsessivo a puxar a voz de Roger Taylor aos limites para só mais um Galileo. É magnífico ver Freddie picar Brian para melhorar o seu solo de guitarra: "Está bom, mas agora toca como se a canção fosse tua!". É uma cena que vale o preço do bilhete do filme. Essa e o impressionante CGI que recriou o (entretanto demolido) Estádio do Wembley para a cena do Live Aid. O filme utiliza o áudio original dos Queen no Live Aid e se a performance de Rami Malek é demasiado mecânica, toda a caracterização que rodeia a cena é absolutamente irrepreensível.

A escolha dos restantes actores também foi na generalidade feliz. O actor que faz de Brian May é mais parecido com o Brian May que o próprio Brian May. O actor de John Deacon também é inacreditavelmente igual. Já para Roger Taylor, não conseguiram encontrar um actor que ficasse tão bem vestido de mulher como o Roger (não era fácil). Bob Geldof também está brilhantemente representado, assim como Jim Hutton e Bono Vox, que faz uma aparição relâmpago no início do filme no backstage do Live Aid. Se a preocupação com a caracterização foi evidente, que dizer do guarda-roupa, que é simplesmente fenomenal. Todos os fatos de Freddie estão lá e toda a gente parece saída da década de 70 e 80. Quando não está tudo trocado, claro.

Tenho que vos confessar: é muito difícil para mim escrever uma review de "Bohemian Rhapsody" nestes termos. Durante toda a carreira dos Queen, eles sempre foram arrasados pela crítica, que nunca compreendeu o apelo marginal da banda. Hoje, parece que sou eu que estou a tomar esse lugar. Mas não é assim. Há poucas coisas que eu ame tanto na vida como os Queen (a minha família e pouco mais). Mas por isso mesmo tenho a certeza que os Queen mereciam mais que este filme tão pobrezinho. O último desejo de Freddie ao seu manager Jim "Miami" Beach foi "Faz o que quiseres com a minha música; só nunca me faças parecer aborrecido". "Bohemian Rhapsody" não faz propriamente Freddie parecer aborrecido, mas fá-lo parecer infinitamente menos interessante do que realmente foi. É pena.

A história dos Queen merece de facto ser contada. O problema é que é demasiado ultrajante para ser contada num filme para crianças. Que é exactamente o que "Bohemian Rhapsody" é: uma introdução aos Queen para crianças, um "Queen for dummies", visualmente acurado, mas sem nenhuma profundidade. Ou então sou eu que sou demasiado exigente com a banda que me fez apaixonar pela música.

P.S.: Se quiserem saber a verdadeira História dos Queen, como ela aconteceu, na correcta ordem cronológica e com o foco naquilo que realmente interessa — a música — então é ouvirem o especial "Queen: A Concert Through Time And Space" na NiTfm, com a primeira parte dedicada aos anos 70 e a segunda parte dedicada aos anos 80. Tudo livre de qualquer higienização e brutalmente honesto.

domingo, 7 de outubro de 2018

John Lennon — Um Herói, um Vilão, ou o que é que isso interessa?

Reflexão sobre heróis e vilões na semana da reedição do álbum "Imagine"  


"Ou morres como um herói, ou vives tempo suficiente para te veres transformado num vilão", já dizia Harvey Dent, o ficcional-mas-tão-real-personagem da série Batman, prevendo inadvertidamente a sua transformação de herói como chefe da polícia de Gotham City para o vilão Two-Face. John Lennon morreu cedo e ficou assim gravado na história como um herói. Ainda bem para a sua memória. Tivesse ele vivido até aos tempos da devassa da vida privada e julgamento público sumário pela brigada de novos puritanos dos dias hoje, e as coisas seriam bem diferentes.

Vem esta reflexão a propósito da reedição do álbum mais popular da carreira a solo de John nesta semana. "Imagine" foi lançado em 1971, sucedendo ao catártico "Plastic Ono Band" do ano anterior e congrega mais um lote de temas viscerais e confessionais. Um álbum à John, portanto.
"Imagine" contém o maior número de faixas reconhecíveis pelo grande público: "Jealous Guy", popularizado pelos Roxy Music em 1981; "Oh Yoko!", que aparece no filme "Rushmore", de Wes Anderson (1998); e obviamente, o tema-título "Imagine", que aparece em todo o santo lado desde o seu lançamento em 1971, tornando-se na canção mais conhecida (e overplayed) dos catálogos dos Beatles a solo.

Mas a beleza de "Imagine" (o álbum) vai muito para além dos três temas de maior nomeada. O tema mais bonito do álbum é o confessional "How", onde John despeja todas as suas inseguranças: "How can I have feeling when I don't know if it's a feeling?" / "How can I give love when love is something I ain't never had?". Lindo, lindo, lindo. E isto com o background da finíssima produção wall-of-sound de Phil Spector, que no ano anterior já tinha ornamentado o melhor álbum de sempre dos Beatles a solo — falo obviamente do majestoso "All Things Must Pass", de George.

https://www.youtube.com/watch?v=Li7xH_E9w58

Mas há mais.

Falta-me falar do melhor de tudo. Em 1971, John Lennon e Paul McCartney viviam em guerra, fruto da amargura post-break-up dos Beatles. Depois de ver o primeiro álbum de Paul — "McCartney", de 1970 — ser arrasado pela crítica, John aproveitou o momento menos feliz que Paul vivia para dizer que sentia pena dele e que este andava perdido sem os Beatles. A resposta de Paul veio no tema de abertura do seu álbum seguinte — "Ram", de 1971 —, "Too Many People", onde Paul refere que há demasiada gente preocupada com o que os outros andam a fazer e a dizer-nos o que temos que fazer das nossas vidas, numa referência quase óbvia ao activismo agressivo de John e Yoko. Foi um ataque da parte de Paul, é certo, mas também foi um ataque "à Paul", uma palmada quase inofensiva. Mas John não estava para palmadinhas. 

Como seria de esperar, John subiria de tom e logo a seguir gravaria "How Do You Sleep?", provavelmente o maior "vai-te foder" jamais gravado em fita. "How do You Sleep?" apareceria no álbum "Imagine", onde na contracapa John imita a capa de "Ram", com a diferença de que, em vez de agarrar nos cornos de uma ovelha como Paul (numa referência à vida bucólica e familiar que vivia na altura), John agarra nas orelhas de um porco.

"How do You Sleep?" é de uma selvajaria sem paralelo. John descarrega toda a sua ira em cima de Paul e cada linha é uma entrada a pés juntos, com referências específicas a assuntos mal resolvidos e ataques pessoais do mais alto nível de ressabiamento: "Those freaks was right when they said you was dead" (referência à teoria da conspiração que Paul tinha morrido em 1966) / "The only thing you done was Yesterday" (referência ao single dos Beatles) / "And since you've gone you're just Another Day" (referência ao single mais recente de Paul à data). Quem toca guitarra no tema é George, esse mesmo, que na altura também em conflito com o Paul. Ringo também estava no estúdio, mas não quis gravar "How Do You Sleep?", tendo até gritado "That's enough, John", antes de se ir embora frustrado com o ponto a que as relações entre os velhos amigos tinham chegado.


Adoro o Paul e a verdade é que a História provaria que era ele quem estava certo na maioria dos diferendos com John (caso do manager Alan Klein, que também contribuiu para a letra deste tema), mas a verdade é que "How do You Sleep?" confirma a teoria que John estava no seu melhor quando estava no seu pior. John podia não estar certo, mas as emoções que ele deixa gravadas em fita são verdadeiras. São puras, cruas, sem filtro. São a verdade para ele, naquele momento. E é precisamente isso que faz dele um dos maiores artistas da música popular da História. Não importa se ele está correcto. Não importa se ele é um herói, ou um vilão, ou ambos. Importa apenas que ele foi verdadeiro consigo e com a sua arte e por isso o que ele deixou gravado foi a (sua) verdade.

Anos mais tarde, John confessou que se arrependera da canção, não pela canção em si, mas porque era tão directamente sobre o Paul, o que acabou por desviar a atenção do tema em si, que é um excelente tema. Para mim,  é "só" o melhor da discografia a solo de John.

Os discos a solo de John são como que actas de sessões de terapia psicanalítica. Talvez por isso sejam tão inconsistentes e talvez por isso a sua carreira a solo seja tão ignorada. Ninguém quer olhar para John como ele é, preferimos manter a imagem estereotipada de um puto rebelde, de um excêntrico a lutar pela paz numa cama com uma chinesa, ou de um mártir que caiu aos pés de um louco. Mas John é muitíssimo mais complexo que isso. John está longe de ser perfeito, mas não é por isso que não o devemos amar por aquilo que ele é. Quem de nós é perfeito, anyway? Que direito temos de julgar quem se deu todo à sua arte e fez tudo o que podia para mudar o mundo que odiava onde vivia? É na complexidade de John que reside a sua beleza. E é por ela e pela sua honestidade que não consigo parar de amar John.

sábado, 29 de setembro de 2018

Andróide paranóico na Piccadilly Line

Quando a vida é demasiado parecida com um videoclip dos Radiohead.
Fitter, happier and more productive. A pig, in a cage, on antibiotics.

Há algo de condenatório em andar numa linha de metro sem rede de telemóvel. Não sei se é por ainda utilizar o número português e estar em permanente roaming, mas pareço ser o único na carruagem obrigado a ter que olhar para as pessoas à minha volta.

Nem sempre é assim. A caminho do trabalho, todos os dias apanho a District Line, a qual cruza Chelsea, o Tâmisa e Putney à superfície, por isso não preciso de prestar atenção a quem me rodeia. Mas a caminho de Camden para ver o Nick Mason dos Pink Floyd, fui obrigado a apanhar a Piccadilly Line e sem hipótese de habeas corpus do meu "eu" virtual, tenho que me fixar na realidade e tomar consciência de quem está à minha frente. Que seca.

Para agravar as coisas, não tenho acesso ao Spotify, nem à playlist temática que tinha preparado para aquecimento para o concerto. Vou entrar na venue a frio! Tenho por isso que me cingir as músicas gravadas no telefone. Shuffle com isto. A primeira que me aparece — "Exit Music (For A Film)", do majestoso "OK Computer", álbum que descreve a queda da nossa sociedade.

Levanto a cabeça e quando olho à minha volta, mal consigo acreditar na perfeição da minha vista para a banda sonora que tenho nos ouvidos. De pé, encostado ao fundo da carruagem, olho para dezenas de pessoas encafuadas em poucos metros quadrados, cada uma delas sozinha, dentro do seu mundo, a ouvir a sua playlist temática com um olhar vazio de morte, a mirar o nada ao fundo. Todas elas com os seus fones, trancadas na sua bolha, oblívias à presença das outras. Que momento perfeito. Parece que estou dentro de um vídeo dos Radiohead. Estou de fora, a olhar para dentro e o melhor de tudo, pareço ser o único a constatar a presença dos outros. Wait. Mas não estou eu próprio trancado na minha bolha? A ouvir Radiohead enquanto escrevo furiosamente este texto? Hum.

Em Piccadilly entra na carruagem um homem com uma deformação horrenda na cara. Em nome de Freddie, que raio é aquilo? Até me deu uma tontura a olhar para o gajo. Isto de estar consciente dos outros é uma ideia terrível. O que vale é que mudo de linha já a seguir, em Leicester Square.

À saída do metro, alguém me toca no ombro. Que nojo, alguém me tocou! Quem é que se atreve a rebentar a minha bolha e invadir o meu espaço? Viro-me para trás e era o senhor da batata na cara. Eu tinha deixado cair o meu cachecol e já lá ia, mesmo à Tarzan, para os 8 graus do Outono londrino, sujeito a agravar a minha constipação. Sorri para o senhor e agradeci-lhe o gesto. Começou a tocar outra vez "Exit Music (For A Film)".

sábado, 22 de setembro de 2018

The Beatles Super Deluxe — O maior álbum de sempre vai ficar ainda maior

Vem aí a tão esperada reedição do White Album. Se ouvirem gritos, sou eu a berrar de felicidade a partir de Londres.

Em 1968, os Beatles já não eram os quatro rapazes de Liverpool unha com carne retratados no filme "A Hard Day's Night". Os rapazes tinham-se tornado homens; casado e descasado; ido à Índia numa viagem de auto-descoberta e meditação transcendental; e no meio de tudo isto, feito muitas drogas. Sem a figura paternal de Brian Epstein como elo de ligação dos rapazes, as tensões entre os Beatles escalaram e por altura da gravação do álbum que iria suceder a "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", já eram por demais evidentes, levando mesmo ao abandono de Ringo e George no meio do processo. A presença constante de Yoko Ono era por demais intrusiva para os restantes Beatles, especialmente para Paul, que decidiu ocupar outra sala nos estúdios de Abbey Road para gravar as suas composições. O crescente fosso escavado entre os Beatles mostrava que eles já não eram uma unidade, mas sim quatro personalidades radicalmente diferentes, juntos apenas pela força da máquina da maior banda do mundo. A tensão foi quase palpável na música que se seguiu. Corre nela um vibe sinistro e ameaçador, de canções entregues com fúria e intensidade; um vibe inquietante de quatro homens que mal conseguiam estar na mesma sala ao mesmo tempo.

O resultado deste fosso entre os Beatles e das tensões entre os quatro foi uma explosão criativa nunca antes vista na Pop e possivelmente nunca vista depois, pelo menos com esta bitola de qualidade. Uma vez que cada Beatle estava concentrado nas suas próprias influências (British Hall, Rock 'n' Roll, Country, Folk, Avant Garde, Heavy Metal, you fucking name it), a junção das quatro partes gerou um cardápio que ilustra a importância dos Beatles em toda a música Pop e Rock feita desde então. Esqueçam as colectâneas, esqueçam o Álbum Vermelho, esqueçam o Álbum Azul. Se quiserem saber porque os Beatles foram mesmo importantes, então o que têm ouvir é o Álbum Branco, um autêntico catálogo com quase tudo o que se pode fazer no Rock. As compilações podem mostrar por que os Beatles foram grandes, mas não mostram o porquê de terem sido os mais importantes.

"The Beatles", mais conhecido por White Album, é um monumento. É o castelo de pedra que senta em cima do monte majestoso que é a discografia da banda. É um castelo construído em pedra maciça, pesada, materializada por 30 canções. Trinta temas que mostram o bom, o mau e o feio dos Beatles. "The Beatles" é o maior álbum de sempre e o maior álbum de sempre vai ficar ainda maior. Passemos então ao que interessa.

O anúncio ainda não é oficial, mas lembrem-se, leram aqui primeiro. A reedição do White Album vai trazer duas novíssimas remisturas do álbum em Stereo e em Surround, ambas produzidas por Giles Martin — filho de George Martin, produtor dos álbuns originais dos Beatles. Ambas as remisturas, mais a mistura Mono original, vão aparecer na caixa Super Deluxe do White Album, que para além disto ainda oferece um CD das demos gravadas em Maio de 1968, na casa de George em Esher (pequena cidade em Surrey, onde este que vos escreve hoje trabalha) e mais 3 CDs de gravações das sessões do White Album em Abbey Road. Entre estas gravações, vamos poder ouvir uma primeira versão de "Let It Be", dois anos antes do seu lançamento em 1970. A minha cabeça está a andar à roda.

A reedição do White Album será feita em 5 formatos diferentes:
  • 2CD: 2018 Stereo Mix
  • 2LP: 2018 Stereo Mix
  • 3CD: 2018 Stereo Mix + Esher Demos
  • Vinyl Box — 4LP: 2018 Stereo Mix + Esher Demos
  • Super Deluxe — 6CD + Blu-Ray:  2018 Stereo Mix (2CD) + Esher Demos (1CD) + White Album Sessions (3CD) + 2018 Surround Mix & Original Mono Mix (Blu-Ray)


A negrito está o essencial desta campanha de reedições (e o que virá fatalmente cá para casa). Vamos então saber o que de novo traz a Super Deluxe.

CD 3: Esher Demos
  • "Back in the U.S.S.R."
  • "Dear Prudence"
  • "Glass Onion"
  • "Ob-La-Di, Ob-La-Da"
  • "The Continuing Story of Bungalow Bill"
  • "While My Guitar Gently Weeps"
  • "Happiness is a Warm Gun"
  • "I’m so tired"
  • "Blackbird"
  • "Piggies"
  • "Rocky Raccoon"
  • "Julia"
  • "Yer Blues"
  • "Mother Nature’s Son"
  • "Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey"
  • "Sexy Sadie"
  • "Revolution"
  • "Honey Pie"
  • "Cry Baby Cry"
  • "Sour Milk Sea" (não incluído no álbum final, gravado mais tarde por Jackie Lomax)
  • "Junk" (não incluído no álbum final, gravado mais tarde por Paul para o seu álbum de estreia a solo "McCartney")
  • "Child of Nature" (não incluído no álbum final, rescrito e regravado por John para o seu álbum "Imagine", como o bem conhecido "Jealous Guy")
  • "Circles" (não incluído no álbum final, regravado por George para o seu álbum "Gone Troppo" em 1982)
  • "Mean Mr. Mustard "(não incluído no álbum final, regravado como parte do medley que fecha o álbum "Abbey Road")
  • "Polythene Pam" (não incluído no álbum final, regravado como parte do medley que fecha o álbum "Abbey Road")
  • "Not Guilty" (não incluído no álbum final, regravado por George para o seu álbum homónimo de 1979 e mais tarde incluído na compilação "Anthology 3")
  • "What’s the New Mary Jane " (não incluído no álbum final e apenas incluído na compilação "Anthology 3")

CDs 4, 5 & 6: Sessions

Não é ainda conhecido alinhamento dos 3 discos (três discos!!!) de sessões do White Album, mas sabemos que são 50 temas (cinquenta temas!), todos remisturados a partir da fitas originais (4 pistas e 8 pistas), que vão aparecer por ordem cronológica de gravação e que estará incluída uma versão de 12 minutos de "Helter Skelter" e uma versão nunca ouvida de "Let It Be", dois anos antes do seu lançamento. O belíssimo outtake de "Can You Take Me Back?" (cujo excerto aparece no fim de "Cry Baby Cry") também estará presente.

Blu-ray Audio:

Blu-Ray com conteúdo exclusivamente audio (é pena, uma vez que há horas de fitas de vídeo desta altura), e que inclui quatro versões do álbum:
  • 2018 Stereo Mix — High-resolution PCM;
  • 2018 Surround Mix — DTS-HD Master Audio 5.1;
  • 2018 Surround Mix — Dolby True HD 5.1;
  • Original Mono Mix — 2018 Direct Transfer.

Ouvem os gritos? Sim, sou eu. Deixo-vos então com o primeiro aperitivo da Super Deluxe do White Album — um excerto de 5 segundos de "Can You Take Me Back?".







domingo, 2 de setembro de 2018

O que mais falta acontecer aos U2?

Os U2 precisam de repensar a banda. E o tempo é agora.


É difícil não sentir pena do que está a acontecer aos U2. Os últimos anos têm sido um pesadelo para a banda irlandesa, que parece ter entrado numa espiral derrotista de onde não consegue sair.

Já devem ter visto as notícias — Bono perdeu a voz ontem à noite em Berlim, naquele que foi apenas o segundo (!) concerto da digressão europeia. Se os U2 estivessem na fase final de uma longa digressão, até se podia compreender. Mas o Bono acabou de regressar das suas férias no Mónaco (onde esteve com o Noel Gallagher), por isso deveria ter a voz em boas condições. Não se entende. Tudo de mau parece acontecer aos irlandeses.

https://www.youtube.com/watch?v=A6rTFFbN7E8

É doloroso ver o Bono a sofrer ao longo da canção, a cantar como quem carrega uma cruz na sua via sacra. Para dizer a verdade, olhando para o vídeo, ninguém parece estar muito contente. O que se passa com os U2? Desde aquele infame episódio do lançamento de "Songs Of Innocence" que a banda parece andar deprimida e esquizofrénica, entre o medo de cair na irrelevância e o medo de perder os seus fãs mais conservadores, ainda ancorados à sonoridade de “The Electric Co.”.

O último álbum sofre gravemente com esta esquizofrenia. É uma lástima que não é carne, nem é peixe. Não é aquele throwback definitivo aos early days como foi "All That You Can't Leave Behind" e também não é aquele corte com o passado como foram"Achtung Baby", (o injustiçado) "Pop" e o mais recente (e também injustiçado) "No Line On The Horizon". Em vez disso, tenta agradar à franja mais nova com uma sonoridade beige que se confunde com o que passa na rádio generalista (e que não tem nada a ver com os U2), mas sem nunca sair muito da zona de conforto. A única coisa boa de "Songs Of Experience" foi fazer-me chegar à conclusão que o "Songs of Innocence" não tinha sido assim tão mau. O pior álbum da história dos U2. Está na hora de mudar esta onda. E o tempo é agora.

Já se passaram quase 10 anos de "No Line On The Horizon". É tempo de os U2 voltarem a esticar os limites da sua sonoridade, mas com algo verdadeiramente anguloso e perigoso. Algo que respeite a tradição inconformada dos U2. Está na hora de os U2 voltarem a ser felizes. Ou isso, ou de arrumarem definitivamente as botas. Esta depressão de piloto automático é que já chega. Já nem sequer tem piada bater nos U2.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Sabia que estavam à minha espera — Adeus, Aretha

No céu, Aretha Franklin vai ter muitos fãs à sua espera. Freddie Mercury e George Michael já devem estar em pulgas.

Já os estou a ver em pulgas à porta do céu. "A Aretha vem aí, a Aretha vem aí!", exclama o George, visivelmente entusiasmado. Mal ouviu a notícia, foi logo buscar os Ray-Ban Aviator e o casaco de cabedal que queimou no vídeo do "Freedom '90" (no céu, os casacos de cabedal também ressuscitam) para receber a rainha com a pompa do vídeo de "I Knew You Were Waiting (For Me)".

"Rainha?! Quem é que me chamou?", intervém Freddie, a chegar ao portão do céu enquanto termina a ponta de um cigarro.

"Não és tu, Freddie! É "a" rainha! Ela vem aí!", responde o George a ajeitar nervosamente a cabeleira loira (no céu, o George Michael adoptou o look do "Faith").

"Como assim a rainha? A Aretha?! A Aretha morreu? Poor darling", suspira o Freddie, ao mesmo tempo que atira a beata para o chão, ateando mais um foco de ignição na Serra de Monchique. "Aquela voz... Quem me dera cantar como ela! Sabias que ela é a minha cantora favorita?"

"Também a minha! É a melhor de sempre!", sorri o George. "Quando ela chegar, vou recebê-la como no vídeo "I Knew You Were Waiting"!".

"Ah, então por isso é que estás assim vestido!", desmancha-se a rir o Freddie, deixando sair a sua dentuça toda cá para fora (no céu ainda se recusa a fazer a qualquer intervenção cirúrgica que lhe possa afectar a projecção da voz). "Nada disso, darling. Vamos os três fazer um trio. E vai ser uma lenda nos céus!".



Confesso. Não sou a pessoa mais qualificada para falar sobre Aretha Franklin. O Soul não é a minha praia e o meu tema preferido que a Aretha cantou é o "I Knew You Were Waiting (For Me)", um dueto com o George Michael. Conheco-a através do George e do Freddie Mercury. Sei da forma que falavam dela. Sei que era a cantora favorita de sempre dos meus cantores favoritos de sempre.

Vejam os olhos do Freddie e do George brilhar quando falam dela. Quando ouvimos o Freddie Mercury suspirar que o sonho dele era cantar como a Aretha, nem é preciso dizer mais nada. Na prática, a Aretha está para o Freddie e para o George, na mesma medida em que eles estão para mim; é a deusa dos meus deuses. E isso chega-me para saber da sua importância e lhe deixar toda a minha reverência e R-E-S-P-E-C-T.

Gosto de pensar que ela foi ter com eles e que eles estão em êxtase por verem o seu maior ídolo. E que vão gravar um tema a três que vai conquistar e que nós só poderemos ouvir quando nos juntarmos a eles. Até lá fiquemos com a música terrena da Aretha.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Monumental, a vida do espantalho tarkovskiano dos Godspeed You! Black Emperor

A banda canadiana de Post Rock levou o espectáculo 'Monumental' ao Barbican

Quando Andrei Tarkovsky ganhou reconhecimento como filmmaker nos anos 70, começaram a aparecer nas salas de cinema os espectadores que não iam bem para ver o filme, mas sim para o evento social que era ver um filme do Tarkovsky. Com a consciência que o efeito viral passa depressa  (mesmo à escala dos anos 70), esta tendência irritou Tarkovsky de sobremaneira, que queria que os seus filmes fossem vistos pelo "seu" público, aquele que ele tinha construído de forma paulatina e consistente ao longo da sua carreira.

O efeito viral foi especialmente relevante quando saiu "Solaris" em 1972, o filme que fora promovido pelo regime soviético como a resposta a Kubrick. Era o "2001 Odisseia no Espaço" soviético e um evento nacional. Tarkovsky plantou então aquilo que eu chamo de espantalho tarkovskianoa cena da auto-estrada. No início do filme, uma cena mostra em tempo real a viagem do psicólogo Kris Kelvin, num plano doloroso de 5 minutos que desafia a paciência dos espectadores e que em última instância espantou para para fora da sala aqueles que não estavam lá para ver o filme.


https://www.youtube.com/watch?v=rswYl7RLRNE

O universo dos Godspeed You! Black Emperor está repleto de espantalhos tarkovskianos. Estes visam espantar os curiosos e em última instância atrair apenas quem está disposto a dar um pouco de si mesmo e sofrer pela arte que recebe. Atentem, por exemplo, no primeiro álbum "F# A# oo", lançado em 1997. Começamos logo pelo nome — dar um nome impronunciável logo ao primeiro álbum é um exemplo proverbial de um espantalho tarkovskiano. Depois há a duração das canções, todas com uma duração superior a 17 minutos. Parece algo terrivelmente inacessível. Mas não, não passa de um espantalho. Na verdade, se prestarem a devida atenção à música, percebem que afinal são apenas uma sequência temática de pequenos crescendos que podem ser separados e até ter uma vida independente. Bandas sonoras para filmes que ninguém fez. Mais importante que tudo, são peças acessíveis a toda a gente que tenha alguma paciência para se deixar tomar pela música.

Vem esta reflexão a propósito do espectáculo "Monumental", que deu vida a algumas destas pequenas peças dos Godspeed You! Black Emperor, com a ajuda da companhia de dança canadiana The Holy Body Tattoo, num espectáculo que eu melhor posso baptizar como um bailado pós-apocalíptico. O repertório concentrou-se no primeiro álbum, mas também incorporou alguma música mais recente dos álbuns "Asunder, Sweet and Other Distress" e "Luciferian Towers".

Mas afinal o que é isto do bailado pós apocalíptico? Passo a explicar. "Monumental" é um espectáculo multi sensorial que retrata a distopia para onde definha a nossa sociedade e está estruturado em três dimensões, representadas no palco por três níveis sucessivos:

  • Lá atrás, no pano de fundo, são projectadas imagens e frases de Jenny Holzer, que dão o contexto de desumanização da nossa sociedade: "Some days you wake us and immediately start to worry. Nothing in particular is wrong, it's just the suspicion that forces are aligning quietly and there will be trouble"
  • À frente do pano, no fim do palco, os Godspeed You! Black Emperor enchem a sala com o seu som cru e monolítico. 
  • Na frente do palco, em primeiro plano, os dançarinos actuam em extensão da música, numa coreografia que amplia a realidade projectada na tela e aumenta o volume dos sentimentos da audiência.

Os textos de Jenny Holzer fundem-se na perfeição com a dança e a música dos Godspeed. Quase a chegar ao clímax do espectáculo, os actores entram numa espiral de destruição e loucura, enquanto na tela são projectadas frases sobre como a sociedade nos puxa aos limites:
"By your response to danger, it is easy to tell how you have lived and what has been done to you: you show the rage that's within you, whether you want to stay alive, whether you think you deserve to and whether you believe it's any good to act."
Um a um, os dançarinos começam a cair em palco.

Depois de duas horas intensas do definhar da civilização à frente dos nossos olhos, o espectáculo atinge o clímax com o apocalipse — todas as luzes da sala vão abaixo e restam apenas algumas lanternas dos poucos sobreviventes em palco. Toca a obra-prima dos Godspeed — "The Dead Flag Blues". Quando os oceanos secarem, os céus se pintarem de vermelho com as chamas do que está em terra e as bandeiras se deitarem mortas no topo dos mastros, qual é a música que vai tocar? Esta:


https://www.youtube.com/watch?v=XVekJTmtwqM

"The sky was beautiful on fire, all twisted metal stretching upwards"

P.S.: Um dos desafios para fazer o episódio do London Calling de há umas semanas (apropriadamente intitulado "The Flags Are All Dead") foi precisamente desmontar esta estrutura aparentemente complexa e apresentar algumas secções da música dos Godspeed You! Black Emperor em separado, de modo a mostrar que elas têm vida própria e são de facto acessíveis a todos. Para melhor perceber os Godspeed, "The Flags Are All Dead" é de audição obrigatória.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Uma tarde no parque com os tios Clapton e Zucchero

O Slowhand foi ao Hyde Park, mas esqueceu-se dos hits em casa

Com a Princesa Diana e Príncipe Carlos na audiência da Wembley Arena, Eric Clapton tocou em 1987 no concerto de beneficiência Prince's Trust, onde fez parte da banda residente e cantou o seu single da época "Behind The Mask". Foi este o meu primeiro contacto com Eric, bem como como toda com a constelação que figurava em palco naquela noite: Phil Collins na bateria, Elton John no piano, Bryan Adams na guitarra, Ray Cooper na percussão, Mark King no baixo e uma certa dupla que tocou no fim da noite - introduzida por Elton como "dois homens sem os quais nenhum de nós estaria aqui hoje" - nem mais nem menos George Harrison e Ringo Starr, que eu mais tarde aprenderia que faziam parte de uma banda chamada Beatles.



Este concerto estava numa cassete em double feature com o "Live At Wembley" dos Queen, por isso sempre que rebobinava a cassete (those were times!) para ver o Freddie Mercury, levava outra vez com Eric e companhia. Estes eram os dias do imaginário infinito de uma criança, quando todo o universo está ao nosso alcance. Cresci com este grupo de músicos que via diariamente, por isso era como se fossem da minha família. Sentia uma proximidade inusitada com eles, como se daquele tio que mora ao fundo da rua se tratasse.

Os anos passaram e eu fui apanhando cada um dos meus tios em concertos; com excepção do George e do Ringo, só me faltava ver o Eric. Foi por isso com justificado entusiasmo que fui ao Hyde Park no passado domingo para ver o tio Eric, num evento completamente esgotado.

A setlist foi carregada de números de Blues e demasiado leve nos (muitos) êxitos e malhas que Eric Clapton acumulou ao longo da sua longa carreira. Nada contra o Blues, obviamente; mas quando se está perante 60 mil pessoas cheias de calor e sedentas de animação, não é o melhor programa de festas. Até o clássico "Layla" foi reduzido à sua versão acústica, celebrizada no álbum "Unplugged" de 1992. Foi aliás apenas neste set acústico que Eric sacou de hits como "Tears In Heaven". Clapton tocou:

01. Somebody's Knockin'
02. Key To The Highway
03. Hoochie Coochie Man
04. Got To Get Better In A Little While
05. Driftin‘
06. Nobody Knows You When You're Down And Out
07. Layla
08. Tears In Heaven
09. Lay Down Sally (com Marcy Levy)
10. The Core (com Marcy Levy)
11. Wonderful Tonight
12. Crossroads
13. LIttle Queen Of Spades
14. Cocaine
15. High Time We Went (com Carlos Santana)

Valeu a aparição de Santana no encore para o classico "High Time We Went".

No polo oposto esteve Zucchero, a grande surpresa da tarde. A fechar o palco secundário, o italiano mostrou como se trata uma audiência debaixo de 30 graus centígrados: com hits em barda. "Il Volo", "Misrere", "Baila", "Senza Una Dona", foi um vê se te avias neste set de all-in de Zucchero. No meio de uma audiência pejada de emigrantes italianos, foi a loucura total. Sai do palco secundário de coração cheio. Convenhamos que era difícil Eric igualar aquele nível de adrenalina.



Eric esteve em grande forma na guitarra. Foi um alívio para quem o viu no ano passado numa cadeira de rodas no LAX. Os relatos de que estava acabado foram largamente exagerados. Mas se a sua técnica continua apurada, já a escolha do repertório não foi a mais feliz para uma tarde de enorme calor no parque. Foi pena. Ainda assim, fiquei feliz de ver o tio Eric a divertir-se, ainda que ele tenha sido provavelmente o único a fazê-lo.

Clapton levou uma vida singular, uma que eu ao mesmo tempo invejo e (tento) evitar, de tanto drama que carrega. Toda a novela da vida de Eric Clapton no London Calling desta semana na NiTfm, num programa (apropriadamente baptizado de "Clapton is God") que não podem de maneira nenhuma perder.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A noite de coroação de Liam Gallagher, eterna Rock 'n' Roll Star

Crónica da noite em que renovei os votos de amor eterno pelo nosso miúdo

"Liam is the angriest man you'll ever meet. He's like a man with a fork in a world of soup." — Há dez anos era assim que Noel Gallagher descrevia o seu mano mais novo. Mas se o Noel privasse com o "nosso miúdo" ("RKid" — uma alcunha carinhosa mancuniana) nos dias de hoje, duvido que o pintasse da mesma maneira. Muita coisa aconteceu na última década e Liam é hoje um homem diferente. Quer dizer, Liam Gallagher continua a ser o Liam Gallagher. Continua a emanar aquele poder, paixão e pureza sem paralelo, sempre que inclina a cabeça para trás e se posiciona estático por baixo do microfone, a puxar por aquela voz meia Lennoniana, meia Lydoniana, numa imagem que nos tranca o olhar e nos faz sonhar com vidas melhores do que a que vivemos. Isso está igual. Mas Liam está diferente, também.

A diferença, diria, está na gratidão. Liam esteve dois anos no charco. Perdeu o amor da sua vida (os Oasis), perdeu o seu outro grande amor (Nicole Appleton) e pior, perdeu o amor próprio. Aquela auto-confiança "up in the sky" que injectou em milhões de miúdos (em mim, por exemplo) a quem convenceu que podiam ser tudo o que quisessem na puta da vida, que podiam concretizar os seus sonhos e que podiam ser Rock 'n' Roll stars se assim o sonhassem, essa arrogância desvaneceu-se. Lembro-me de o tentar animar no Twitter, dizendo-lhe que o mundo precisava dele e que estávamos todos cheios de saudades.



Liam foi ao inferno e voltou. E nesse processo de recauchutagem espiritual, percebeu que não fazia sentido estar tão zangado com o mundo; que devia estar grato pela vida que levou e por tudo o que conseguiu; que devia estar grato pelos que o amavam e que não são assim tão poucos. E decidiu espetar o seu coração uma última vez no mastro e hasteá-lo bem alto, num disco com o nome de "As You Were", onde confessou que "for what it's worth I'm sorry for the hurt, I'll be the first to say I made my own mistakes".

"As You Were" foi um mega-sucesso. O álbum foi lançado há quase um ano e ainda hoje figura nas tabelas, mas o sucesso não veio de borla. Liam foi obrigado a começar do zero e durante dois anos correu todas as capelinhas a espalhar a boa-nova: estava de volta e queria reclamar de volta o que era dele. O trono de maior Rock 'n' Roll star.

Depois de percorrer uma longa via sacra, a hora da redenção chegou. Foi na sexta-feira passada, num concerto esgotadíssimo no Finsbury Park, onde foi coroado perante os seus fiéis (que se apresentaram nas dezenas de milhar) como eterna Rock 'n' Roll Star.



Liam estava nas nuvens. Sabia da importância deste concerto e preparou-se devidamente para o evento. A voz estava impecável e para juntar à sua banda habitual, Liam trouxe trompetes e violoncelos para "Whatever" e "Wonderwall" e também trouxe Bonehead, um lad de Manchester com quem fundou os Oasis e que eu imagino que tenha vindo de autocarro do Norte numa viagem do tipo Trainspotting, porque o avião é muito caro e a vida em Manchester é dura.

O público também percebeu a solenidade do evento. Mas da forma britânica que tem de o fazer. Com cânticos de "football's coming home" entre temas, mosh pits em que o tronco nu é mandatory e gajos todos nus a fazerem crowdsurfing. Eu próprio só não o fiz porque não podia perder as chaves de casa. De facto, era difícil conter o entusiasmo.

Não é segredo para ninguém que me costume ler, a minha adoração pelo nosso miúdo. Depois de o ter visto triunfar Finsbury Park, de me ter enchido o coração de poder, paixão e pureza, tal como quando eu tinha 15 anos, os meus votos de amor eterno foram renovados. Que saudades que eu tinha do nosso miúdo.

Liam agradeceu o apoio do público por ter comprado o seu disco e ainda acrescentou que "if you got yourself into some shit and you had a record coming out, I would go out and buy it too, you know?". Não duvido Ao contrário da percepção de muitos, Liam tem um coração enorme. Impossível não amar o nosso miúdo.

Para celebrar a noite de glória de Liam Gallagher, não podem deixar de ouvir o episódio desta semana de London Calling, apropriadamente baptizado de "Mad Fer It".