segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O que raio se passou com os Coldplay?

Os Coldplay são hoje iguais a tudo o resto que passa na rádio.

Eu sei que hoje não é cool dizê-lo, mas houve um tempo em que eu era fã dos Coldplay. Eles são uma banda competente, sabem o que é uma melodia e o Chris Martin é um tipo afável, que sabe escrever uma canção. Então porque será que o novo ex-namorado de Jennifer Lawrence faz de tudo para que eu deteste a sua banda?

Recuemos 14 anos. Na viragem do milénio, o mais entusiasmante movimento musical das últimas duas décadas — o Britpop — estava já a dar as últimas, numa lenta decadência que teve início no advento das Girlsbands/Boysbands (Spice Girls, Backstreet Boys…) e que teve a estocada final no surgimento do Hip Hop comercial (com Eminem à cabeça) e na sua eventual fusão com o Rock — o Nu Metal (Limp Bizkit, Korn…).

Neste panorama desfavorável para as bandas melódicas do Reino Unido, apareceram os Coldplay, num último suspiro do Britpop. Contra a corrente, os Coldplay assumiram o topo das tabelas britânicas com o seu álbum de estreia “Parachutes”, destronando (curiosa e simbolicamente) Eminem. Parecia uma lufada de ar fresco que vinha animar os anos 00.


Avancemos novamente 14 anos e fica a pergunta: o que raio se passou com os Coldplay? Eu ouço estes últimos dois álbuns e nem quero acreditar que esta é a mesma banda que um dia me abanou com “Shiver”, ou mais recentemente com “Violet Hill”.

O que se passou? Passou-se que aos Coldplay não bastavam as melodias de “Parachutes”, a aclamação critica de “A Rush Of Blood To The Head”, as múltiplas platinas de “X&Y”, ou a excelência sónica de “Viva La Vida”. Os Coldplay queriam mais: queriam a omnipresença, a integração total na paisagem de cada momento, o domínio das tabelas independente à moda vigente. Qual o caminho mais fácil? Adoptando a sonoridade da moda vigente.

Eu não tenho nada contra bandas que gostam de estar nas tabelas, ainda há umas semanas elogiei aqui os U2 e os tomates que tiveram na promoção viral do seu novo álbum. Pelo menos os U2 (com quem os Coldplay são constantemente comparados) tentam molhar a sopa sempre que aparecem. Aos Coldplay, o melhor elogio que posso fazer neste momento, é que são inexoravelmente banais. E que talvez por isso, é que mesmo em tempo de acentuada crise na indústria discográfica, eles continuam a bater recordes de vendas.

Os Coldplay são hoje iguais a tudo o resto que passa na rádio. Em nome do apelo comercial, projectaram as suas melodias num ecrã IMAX com efeitos especiais de Avicii e Hardwell e contribuíram na mesma medida que estes para o enriquecimento musical das massas. Como perguntava no outro dia o Boinas: “desde quando é que passou a ser obrigatório que todas as rádios sejam a Orbital?”.

Esta semana Chris Martin lamentou-se que pediu a David Bowie para cantar um dos seus novos temas e que este recusou, por achar que não era um dos seus melhores trabalhos. Bowie deu-lhe o toque, falta saber se que Chris percebeu a mensagem. Querem saber o que raio se passou com os Coldplay? Perguntem ao David Bowie, ele explica.

(publicado originalmente a 15 de Dezembro de 2014)