quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A substância dos New Order

Atenção Paredes de Coura, vem aí uma das melhores bandas de sempre.
(atentem nas calças do Peter Hook)

Não tenho visto muito alarido sobre isto, mas caso não saibam, hoje toca em Portugal uma das melhores, mais inventivas e mais importantes bandas de sempre. Num dos acontecimentos musicais do ano, os New Order actuam mais logo em Paredes de Coura e reforçam a posição do festival como o melhor cartaz deste ano. De muito longe.

Da tragédia da morte de Ian Curtis, nasceu uma das bandas que definiu a cena alternativa dos anos 80. A importância dos New Order não é de somenos. A banda de Manchester representa tudo aquilo que deve significar o Rock 'n' Roll. Isto embora eles estejam longe de ser uma banda Rock tradicional. O que é que eles fazem? Fuck knows. Se forem à Wikipédia, talvez lá diga que é música electrónica, mas se perguntarem ao Peter Hook (que já não está na banda), ele dir-vos-á que no seu auge os New Order eram uma banda de punks. Na verdade, não há nenhuma caixa onde os New Order possam caber. Nunca nenhuma banda desrespeitou tanto e tão consistentemente todas as regras da música como os New Order. E haverá coisa mais Rock 'n' Roll que isso?

Não há qualquer estrutura reconhecível na sua música da primeira metade dos anos 80. Não raras vezes ouvimos os instrumentos fora de tom, já para não falar nas vozes de Bernard Sumner e Peter Hook, que quando se viram desafogadas do dilúvio da produção de Martin Hannett, tiveram carta branca para navegar – e muitas vezes afundar – em mares de desafinação. Depois veio John Robie, o produtor que colaborou com a banda nas sessões de gravação para a banda sonora do filme "Pretty In Pink". Segundo Hooky conta na sua auto-biografia "Substance", Robie matou os New Order quando proferiu as 8 palavras fatais: "Barney, you know you're out of tune, right?". Sabia lá ele.

Até então, os New Order não tinham (nem queriam) ninguém para lhes dizer o que fazer e como fazer, por isso não sabiam se estavam a fazer bem ou mal. E numa discussão mais filosófica, será que sequer existe isso de "fazer mal" na música? Uma coisa é certa - os New Order eram completamente originais. A partir daí, Summer quis começar a trabalhar segundo as regras e isso para Hooky terminou o espírito livre da banda e a sensação que tudo podia acontecer. Mas houve tanto que aconteceu. Nem a metodologia de Barney livrou a banda de algumas das mais bizarras histórias da música. Se virem o filme "24 Hour Party People", podem ter uma ideia.

A banda vivia sob uma gestão caótica, que eu melhor vos posso descrever como de "maços de notas no bolso das calças ". Das calças de Rob Gretton (manager da banda), entenda-se. Tinha tudo para dar buraco e obviamente que deu. Ainda assim, os New Order davam de comer a muita gente. Foram eles que alimentaram a gestão errática da Hacienda (discoteca que detinham em Manchester) e da Factory Records (que impulsionou toda a cena musical de Manchester). Se há um exemplo vivo de um grupo de mecenas, são os New Order com certeza.

Os discos dos New Order eram verdadeiras obras de arte. A banda não olhava a meios para obter um produto de excelência, atendendo às mais excêntricas ideias do designer Peter Saville, o que levou a que chegassem a perder dinheiro com a venda dos seus próprios discos. Foi o caso do 12" single (conhecido em Portugal como maxi-single) de "Blue Monday", que tinha a forma de uma disquete de 8 polegadas (que se usava nos anos 80), e como tal custava mais 1£ a produzir do que o preço de venda ao público. O problema é que o disco vendeu 1 Milhão de cópias e tornou-se o 12" single mais vendido de sempre, recorde que mantém ate hoje. Resultado: 1 milhão de libras de prejuízo para os New Order. E zero fucks given.

Mas não pensem que os New Order ficaram por aqui no rol de decisões incríveis de autofagia financeira. Nem por sombras. Na ressaca do sucesso retumbante de "Blue Monday" em Março de 1983, o qual catapultou a banda para a estratosfera da música alternativa e das pistas de dança, a expectativa era grande para o álbum que se seguia. Só que quando "Power, Corruption And Lies" chegou às lojas em Maio, não tinha o tema que todos queriam ouvir. "Blue Monday"? Nem vê-lo. A inclusão do hit no álbum iria garantir à partida a venda de milhões de cópias. Mas os New Order não seguiam regras nenhumas e com esta revienga trocaram as voltas aos fãs-paraquedistas, que só queriam ouvir o single. Andar na música para fazer dinheiro? Isso é para os outros. Ao invés de privilegiar a parte comercial, os New Order pugnavam por fazer algo honesto, com que se identificassem e com que se pudessem divertir. São uma das bandas mais anti-sistema de sempre.

Não sei se a eloquência destas linhas deixou transparecer, mas os New Order são uma das bandas que eu mais amo e que mais impacto tiveram na minha vida. Foi desde a noite em que eu ouvi um tema hipnotizante no piso de baixo do velhinho Roterdão no Cais do Sodré, muitas luas atrás, e fui perguntar ao DJ que raio era aquilo. Ele olhou-me em choque e respondeu que era o "Everything's Gone Green" dos New Order, uma versão exclusiva à Bélgica. Fiquei fascinado. Na altura conhecia o "Blue Monday" e julgava-os o parente pobre dos Joy Division. O que eu me rio agora quando penso na minha ingenuidade de então. A conselho de um colega de trabalho, comprei uma compilação chamada "Substance 1987" e ali mergulhei durante meses a fio. Foi a banda sonora da minha vida nos meses que se seguiram.

Adorava estar hoje em Paredes de Coura para ver uma das minhas bandas preferidas. O único senão é que vai faltar Peter Hook no palco. Tenho muita pena do que aconteceu com os New Order e o Hooky. A batalha jurídica foi feia e indigna para quem passou tantos anos e tantas desventuras com a sua banda. Ele merecia mais que este desfecho. O Peter Hook é um dos meus ídolos de sempre e autor do melhor livro de Rock 'n' Roll de sempre (o já mencionado "Substance"). A forma como ele se expõe é de uma crueza e honestidade admiráveis. Hooky conta a sua verdade da atribulada História dos New Order (algo que, só por si, já tem suficiente interesse dramático), mas a maravilha é que o faz sem qualquer problema em revelar abertamente sentimentos de ressabiamento, escárnio, ou até inveja. É tudo genuíno e às claras. Hooky não tem medo em se expor completamente e com isso mostra aquilo que significa verdadeiramente o Rock 'n' Roll. Ao contrário do que a maioria pensa, ser Rock 'n' Roll não é ser cool a tempo inteiro. É ser o que quer que se queira ser a tempo inteiro e estar-se bem a cagar para o que os outros pensam ou dizem. Se pelo menos fôssemos todos mais Hooky.

É difícil imaginar os New Order sem o Peter Hook, mas a verdade é que eles se saíram lindamente com o último "Music Complete" (2015), um disco insanamente bom para o descendente arco discográfico da banda. Se forem a caminho de Coura, dêem um abraço por mim a malta de Salford. E façam também um pirete o Barney por aquilo que fez ao Hooky.

P.S.: Para celebrar a vinda dos New Order a Portugal, o London Calling desta semana faz um breve resumo com o melhor do melhor da discografia caótica da banda. Para ouvir aqui no aquecimento do concerto desta noite.

P.P.S.: Disse em cima que os discos dos New Order nos anos 80 eram verdadeiras obras de arte. Por isso desde cedo comecei a coleccionar os 12" singles e hoje aproveito para vos mostrar o espólio de que muito me orgulho.
Tudo o que vêem são prensagens originais da Factory UK, exceptuando o "Everything's Gone Green" e o "Murder", que foram originalmente lançados na Bélgica e que portanto têm aqui as primeiras prensagens da Factory Benelux. O mesmo se aplica ao EP "1981-1982", que serviu para introduzir os New Order nos EUA, aquando da sua (muito atribulada) primeira tourné americana e que está aqui também na sua primeira prensagem da Factory US. Ainda faltam uns quantos, vejam lá se identificam quais. Eis a legenda da foto, de cima para baixo e da esquerda para a direita:

• Ceremony / In A Lonely Place (Factory UK - FAC 33/12) - Mar 1981
• Ceremony / In A Lonely Place [Re-Release] (Factory UK - FAC 33/12) - Sep 1981
• Everything's Gone Green / Mesh (Cries And Whispers) (Factory Benelux - FBNL 8) - Dec 1981
• Temptation / Hurt (Factory UK - FAC 63) - May 1982
• 1981-1982 [EP] (Factory US - FACTUS 8) - 1982

• Blue Monday / The Beach (Factory UK - FAC 73) - 7 Mar 1983
• Thieves Like Us / Lonesome Tonight (Factory UK - FAC 103) - Apr 1984
• Murder / Thieves Like Us (Instrumental) (Factory Benelux - FBN 22) - May 1984
• Sub-Culture / Dub-Vulture (Factory UK - FAC 133) - Nov 1985

• The Perfect Kiss / The Kiss Of Death, Perfect Pit (Factory UK - FAC 103) - May 1985
• Shellshock / Shellcock (Factory UK - FAC 143) - Mar 1986
• State Of The Nation / Shame Of The Nation (Factory UK - FAC 151) - Sep 1986
• Bizarre Love Triangle / Bizarre Dub Triangle (Factory UK - FAC 163) - Nov 1986

• True Faith / 1963 (Factory UK - FAC 183) - Jul 1987
• Touched By The Hand Of God / Touched By The Hand Of Dub (Factory UK - FAC 193) - Dec 1987
• World In Motion... / The B-Side (Facto ry UK - FAC 293) - May 1990
• Substance 1987 [2LP] (Factory UK - FAC 200) - Aug 1987.


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

IDLES, o som de um Reino (Des)Unido

Por que os IDLES são a banda Rock mais importante do Reino Unido na actualidade


Esta sexta-feira viu o lançamento do novo single de 7 polegadas dos IDLES (escrito assim, tudo em maiúsculas) "Mercedes Marxist". À boa maneira antiga, o single traz um B-Side no lado inverso, o igualmente tempestuoso "I Dream Guillotine". Ambas as faixas foram gravadas nas mesmas sessões de estúdio do aclamado "Joy As An Act Of Resistance", aquele que foi considerado aqui como o melhor álbum de 2018. Happy days, como diz o meu chefe.

"Mercedes Marxist" já havia sido disponibilizado no Spotify a 7 de Maio e na altura fiquei a pensar como é que um riff hipnotizante como este tinha ficado de fora do álbum. Segundo Joe Talbot (vocalista dos IDLES), o tema não entrou em "Joy," uma vez que foi uma das primeiras composições após "Brutalism" (o álbum de estreia da banda, lançado em 2017), numa altura que ele se sentia inútil e miserável com a vida que levava. Faltava ao tema o toque de redenção do material que veio a seguir e como tal foi omitido do álbum. Ainda bem que Talbot mudou de ideias e deixou "Mercedes Marxist" ver a luz do dia.

Mas se já conhecíamos o Lado A desde Maio, só agora pudemos ouvir "I Dream Guillotine". E foi ao ouvir a nova faixa no meu commute de sexta-feira de manhã, que me apercebi que nunca tinha escrito sobre os IDLES aqui na NiT. E o crime que isso encerrava. Tempo por isso de falar naquela que é a melhor banda Punk da actualidade.

Corrijo. Dizer que os IDLES são a melhor banda Punk da actualidade será um eufemismo para aquilo que os rapazes de Bristol representam. Os IDLES são a banda Rock mais importante do Reino Unido, e são maiores que este momento. Em primeiro lugar, porque romperam com o marasmo em que vive a cena Rock up-and-coming. Depois, porque voltaram a trazer o Punk ao mainstream (vejam aqui "Danny Nedelko" ao vivo no programa do Jools Holland na BBC) e isso não é de somenos. Lembro que a última vaga Punk que chegou ao grande público foi há 20 anos e tinha como timoneiro bandas que juntavam no seu nome substantivos e algarismos aleatoriamente. Mas a distância que vai dos Blink 182 e dos Sum 41 aos IDLES é incomensurável. Os IDLES são reais e falam de problemas reais. 5 homens dos council estates, cheios de cicatrizes da vida.

A banda de Bristol foi a revelação de 2018 para o grande público, mas para quem andava atento, foi apenas uma confirmação. Eu já levava a lição estudada de "Brutalism", desde que li uma review deliciosamente exagerada, onde o crítico descrevia o disco como a soma de "Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols", "It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back" (Public Enemy), "Fresh Fruit For Rotting Vegetables" (Dead Kennedys) e "Bad Brains", tudo ao mesmo tempo. Embora a descrição fosse desavergonhadamente hiperbólica, foi o suficiente para me gerar curiosidade para ouvir o álbum.

Tratei por isso de arranjar bilhete para o primeiro concerto da digressão do novo álbum que, por sorte e acaso, aconteceu em Kingston, a meia hora de Esher, onde eu trabalho. Foi um daqueles acasos da vida que me apanhou no sítio certo no momento certo. O concerto era na véspera do lançamento de "Joy As An Act Of Resistance" e foi por isso a primeiríssima vez que tocaram os temas do novo disco. Começou as 22:30 e terminou à meia noite, hora do lançamento oficial. Fui por isso um dos primeiros a ouvir temas como "Never Fight A Man With A Perm" (belo conselho) e logo ali percebi a magnitude do que aí vinha. Mas confesso, nem eu estava à espera de tão efusiva recepção por parte do grande público, de uma banda Punk tão in-your-face como os IDLES. Mas talvez seja precisamente isto que precisamos neste momento – uma barragem visceral de emoções e decibéis.

"Joy As Act Of Resistance" caiu no ano passado como um menir gigantesco neste Reino Des(Unido) pelo o Brexit. Os IDLES trouxeram um género novo para o mainstream, que eu só consigo classificar como Art-Punk-Catártico. É Punk, é arte e é catarse. Tudo nos IDLES tem uma razão de ser. A entrega pode ser barulhenta, mas há tanto para explorar na sua música. A mensagem é a mais actual, mais premente e mais convincente que qualquer banda tem para nos dar neste momento: crítica política e social, a varrer todos os assuntos da actualidade, desde o nacionalismo, a emigração, a masculinidade tóxica, a parentalidade moderna e o absurdo confronto sexual que tem separado homens e mulheres. Tudo sem medo, mas com aquele toque de humor witty britânico. Já à musica, ela ora é dotada de uma produção luxuosa ("June"), ora de uma estrutura complexa ("Colossus"), consoante a canção o peça. Os riffs são hipnotizantes ("I'm Scum"), os refrões são monolíticos ("Never Fight A Man With A Perm") e por vezes até tem um certo charme a piscar o olho às rádios ("Danny Nedelko"). É malha atrás de malha.

Sem surpresa, "Mercedes Marxist" e "I Dream Guillotine"são uma continuação natural da sonoridade do álbum que abanou o Reino Unido no ano passado. Que é como quem diz, são mais uma descarga da imensa barragem emocional que os IDLES parecem ter em pleno armazenamento, pronta para para mais uma torrente.