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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Tears For Fears em Brighton — A crónica de uma jornada frenética

Muito mais que uma crónica de um concerto, uma carta de amor aos Tears For Fears


Esta é muito mais do que uma mera crónica de um concerto. É a crónica de uma jornada frenética entre Londres, Brighton e Esher, que envolveu um concerto dos Tears For Fears nas grades, inundações, ameaças de morte, posters assinados, setlists, palhetas, cartazes, sorrisos trocados com o Roland Orzabal e o Curt Smith e o bónus deste falar comigo no microfone DURANTE O CONCERTO (desculpem o caps lock, é a emoção ainda). E tudo isto enquanto o trabalho e a vida quotidiana decorriam normalmente. Longos dias duram cem anos. Esta jornada durará uma vida. Esta é a crónica de como uma banda pode marcar uma vida. É uma carta de amor aos Tears For Fears.


1. The Bible Of Dreams — O sonho de uma vida

Um dos sonhos de toda a minha vida adulta sempre foi ver os Tears For Fears ao vivo. Na minha adolescência, a banda de Bath representou o papel de psicólogo. Foi a música deles que me ensinou que não havia mal nenhum em expressar as minhas emoções (para mal dos meus pecados, segundo a minha mãe). Desde esse tempo que os TFF foram a banda mais constante em toda a minha vida, até mais que os "gigantes" Queen e Pink Floyd, que eu normalmente aponto como as minhas bandas favoritas, mas que têm uma presença muito mais sazonal no meu quotidiano, quando comparados com os TFF.

Ao longo dos anos, esperei pacientemente que viessem a Portugal. Todas as Primaveras cruzava os dedos para que o Covões, a Roberta, ou o Montez se lembrassem deles e os trouxessem aos seus festivais. Antes do tempo do Facebook, passava os dias a fazer refresh na página da Blitz, sempre em pulgas pelas novas confirmações para os festivais. Mas nunca eram os Tears For Fears. Ou eles não vinham à Europa, ou se vinham, escapavam invariavelmente ao nosso circuito.

Em 2005, numa altura em que andava no Técnico e mal tinha dinheiro para ir à Costa, projectei uma viagem a Londres para ir ver os TFF ao Hammersmith Odeon. As minhas poupanças de 200€ riram-se. Não fui. Acabei por com esse dinheiro ir a Madrid ver o (na altura ultra-entusiasmante) regresso dos "Queen" com o Paul Rodgers, numa épica viagem de autocarro que ainda está por contar.


Em 2016, a viver um ponto baixo na minha vida e farto de esperar que os TFF viessem até mim, decidi ir eu até eles. Projectei então uma viagem-relâmpago aos Estados Unidos, para os ir ver ao histórico Red Rocks, no Colorado (digam-me lá se o cartaz não é uma maravilha). Mas não era uma aventura barata e mesmo já com mais alguns trocos na carteira, as minhas poupanças voltaram a rir-se. E eu voltei a não ir. Acabei por (num orçamento bem mais simpático) ir a Londres carpir mágoas com o David Gilmour no Royal Albert Hall (história aqui), naquele que ainda é, até à data, o seu último concerto em nome próprio. Mas faltavam sempre os Tears For Fears.

Foi por isso sem pensar duas vezes que, quando no Outono de 2017 os Tears For Fears marcaram uma data para o lendário Royal Albert Hall (notem esta tendência, sempre os mesmos lugares a aparecerem ciclicamente), eu marquei bilhete e viagem de Lisboa. Foi uma noite gloriosa, inesquecível, perfeita, a melhor de sempre; todos os superlativos se aplicam (e foram na altura documentados aqui na NiT). Curiosamente, essa noite marcou também o fim de um ciclo, uma vez que acabou por ser a minha última viagem de turismo a Londres, antes de me mudar definitivamente para cá.



Há um ano surgiu uma oportunidade, daquelas que imediatamente percebemos que só aparecem uma vez na vida. Numa noite de insónias, fui ver como estavam os bilhetes para a digressão de 2019 dos Tears For Fears. Esta digressão era para ter acontecido há um ano (e eu não tinha bilhete), mas entretanto a mulher do Roland Orzabal morreu de cancro e atirou-o para uma depressão que impossibilitou o lançamento do novo álbum dos TFF e fez adiar a digressão um ano. Com esse adiamento, muitos pediram a devolução do dinheiro e com isso libertaram alguns lugares de luxo. Lugares como o que me apareceu NA PRIMEIRA FILA em Brighton (lá estou eu com o Caps Lock) e parecia caído dos céus, mesmo no meu colo. Nem queria acreditar. Depois de agradecer ao Freddie, ao George e meus restantes anjinhos, marquei o lugar sem mais pestanejar. E sem pensar que o concerto era em Brighton, numa segunda-feira.


2. The Working Hour — Um dia de trabalho pouco normal

Tinha tudo programado ao pormenor. Saía de Londres de manhãzinha e ia para Esher trabalhar como habitualmente. Às 4:00, se o dia corresse excepcionalmente bem e não houvesse problemas para resolver na obra da Battersea Power Station, agarrava nas coisas e punha-me no comboio a caminho de Brighton. Com o tempo bem contado, estava lá à hora da abertura de portas.

Não se comecem já a rir. É que eu tinha mesmo que lá estar à hora de abertura de portas. Isto porque normalmente o Roland e o Curt assinavam uns 25 posters da tour e só os primeiros a chegar à venue é que os agarravam. Nada podia falhar, com o risco de não passar um dos testemunhos desta apertada corrida de estafetas e ir tudo por água abaixo. E por falar em água. Estava o dia a correr dentro da normalidade possível de uma segunda-feira, quando à uma da tarde ligam-me da Foxtons (a agência onde aluguei a minha casa em Londres) e dizem-me que estava a cair água no apartamento do vizinho de baixo. Isto significava que podia haver uma inundação em minha casa. Fucking hell. Era mesmo o dia indicado para acontecer uma tragédia destas.

Minha gente. Há uma coisa que precisam de saber sobre mim. Sou um gajo muitíssimo zeloso com os seus pertences. E obsessivo-compulsivo quando se trata da sua colecção de discos de vinil. Quando trouxe para Londres toda a minha colecção de mil discos (hoje já são 2 mil), foi na certeza de que eles comigo é que estavam bem. Pensar que um maldito cano roto qualquer tinha arruinado anos de trabalho e de paixão, deixou-me num estado de pânico e corrosão interior que é difícil explicar aqui. Descrevi a situação ao meu chefe como a catástrofe que de facto era. E ele, que já me conhece o suficiente para saber da importância dos meus discos, liberou-me, "mas só depois de fazeres as tuas timesheets!", diz. Estes ingleses e as putas das regras. Feita a tarefa, pus-me a caminho de casa temendo o pior.

Chegado a casa, não havia sinais de água no chão. Alívio. O cano roto estava a verter no apartamento de baixo, mas o meu estava aparentemente salvo. Pelo menos ate aos meus vizinhos de cima — um casal germânico-coreano muito brincalhão — voltarem às suas brincadeiras de sábado à noite na banheira. Mas adiante.

Agora era hora de voltar a pôr o plano inicial nos carris. Pijama na mala e siga para Victoria, para apanhar o comboio rumo a Sul. À saída de Victoria Station uma das minhas imagens preferidas de Londres: a Battersea Power Station vista por trás do parque de comboios de Pimlico, antes da Grosvenor Bridge. Todas as dificuldades pareciam ter ficado para trás. Agora era só smooth sailing.



3. I Believe — Antes do concerto

Cheguei a Brighton debaixo do clássico tempo britânico — os showers. Como o próprio nome indica, levei um banho a caminho da venue e por isso cheguei ao Brighton Centre todo ensopadinho. Mas mesmo a tempo do que eu queria. Fui um dos primeiros a entrar e pude assim ter o merch stand só para mim e sim, os posters assinados estavam lá. Mas bolas, 50£?! Ainda por cima eram só 15, por isso tinha que decidir rapidamente. Enfim, isto um dia não são dias. Para além do tão desejado poster assinado, trouxe ainda umas meias do Seeds Of Love que são a minha nova paixão.



Estava então na hora de programar o próximo passo. Uma vez que tinha bilhete para a fila da frente, pensei em levar, pela primeira vez, um cartaz para um concerto. Mas o que é que eu podia pedir aos rapazes? A primeira coisa que me passou pela cabeça foi pedir para tocarem o meu tema preferido de sempre dos Tears For Fears — o ferocíssimo "Raoul And The Kings Of Spain". Mas isso tinha dois senãos: em primeiro lugar, conheço a banda e sei que não era por eu pedir o tema que eles o iam tocar, não estando ensaiado; e depois é um tema da iteração Roland-a-solo dos TFF e eu sabia que ia ter o Curt mesmo à minha frente. Então decidi-me pela second-best-thing:


Sim, é como leram – queria cantar o verso do "Shout". Para quem não se lembra, é aquela parte: "in violent times, you shouldn't have to sell your soul". Teoricamente, o meu plano tinha tudo para dar certo. Sabia que era o último tema do set e sabia que o Roland costumava emprestar o microfone à audiência para cantar o refrão. Quando fui vê-los ao Royal Albert Hall em 2017, vi o Roland deixar um tipo cantar parte do verso e, pasmem-se, ele não sabia a letra. Mas eu sabia e ia mostrá-lo ao Roland, "I Believe". Siga para a sala principal do Brighton Centre.

Antes do prato forte da noite, Allison Moyet a abrir. E que bela surpresa. Entre os hits dos Yazoo e da sua carreira a solo, a ex-vocalista do duo synthpop (que formou com o hitmaker Vince Clarke, quando este saiu dos Depeche Mode) foi uma revelação.
Olhando à minha volta, apercebo-me que sou um alien ali dentro. Não só sou o único estrangeiro na sala, também sou o único abaixo dos 35.Altura também para pôr alguma coisa no estômago, que tinha passado o dia todo só com uma torradinha às 8 da manhã. Sai então duas pints, que os Tears For Fears estão mesmo a chegar.


4. Head Over Heels — O concerto de uma vida I

Já discorri vezes sem conta neste espaço sobre a excelência dos Tears For Fears. Mas para quem ainda não leu o memorando, aqui vai mais uma vez: os Tears For Fears foram a melhor banda dos anos 80. Period. Onde os The Smiths têm o "Hatful of Hollow", os TFF têm o "The Hurting"; onde os The Cure têm o "Disintegration", os TFF têm o "The Seeds Of Love"; onde os U2 têm o "The Joshua Tree", os TFF têm o "Songs From The Big Chair". São a banda mais completa de todas as que saíram desta década.

O maior elogio que se pode fazer aos TFF é que são uma banda que envelheceu bem. São uma banda que teve sucesso nos anos 80, mas a sua palete sonora é muito mais larga que essa década. O arco discográfico dos Tears For Fears é nada menos que perfeito (também porque os rapazes tiveram sempre o dom de perceber quando parar). Cada álbum é uma ilha independente, que vive por si própria e só está ligada às demais por meras questões de linguagem. É o próprio Roland que confessa que "para construir algo de novo é preciso destruir primeiro o que existe; para criar, é preciso matar". A discografia dos TFF é tão perfeita que só apetece abraçar e dormir agarradinho a ela, para depois de manhã pedir em casamento. Mas para quê complicar uma relação que já é tão perfeita?

Daqui resulta que o espólio dos Tears For Fears não é muito extenso (especialmente para uma banda que nasceu há quase 40 anos), mas clinicamente preciso. Qualquer iteração do seu repertório daria uma setlist sólida. Quando esta é construída à volta dos hits da banda, não há como falhar. O set foi por isso uma cavalgada de hit after hit, com uns deep cuts preciosos lá pelo meio. Os êxitos são tantos, que os Tears For Fears se deram ao luxo de começar com "Everybody Wants To Rule The World", tão somente o tema com mais scrobbles no Spotify.

Segue-se o apaixonante "Secret World", um tema de significado muito especial, onde os rapazes mostram a simbiose que ilustra porque é que a magia dos Tears For Fears precisa da presença de ambos. Não tirei muitos vídeos nesta noite, uma vez que estava a tentar absorver ao máximo o que se passava à minha frente. Mas mostro-vos o meu vídeo preferido de Brighton, com os rapazes em perfeita harmonia em "Secret World":



A discussão da importância das partes nos Tears For Fears é antiga. Há uma grande facção de fãs que considera que Roland, sozinho, é os Tears For Fears. E é fácil perceber porquê. Roland é o génio esquecido dos anos 80. A sua imagem não era tão icónica como Morrissey, não era tão dark como Robert Smith e (definitivamente) não era tão atractiva como a de Simon Le Bon. Roland sempre foi o protótipo do anticool. Mas isso nunca me importou. Nunca foi esse o seu apelo. Há um magnetismo animal indizível em Roland Orzabal, um dos personagens mais densos e enigmáticos da música.

Nos Tears For Fears, Roland era quase tudo. Era ele quem escrevia a maior parte da música, cantava a maior parte das canções e no entanto, quando chegava a hora de escolher os singles, eles eram invariavelmente para o Curt. Porque a verdade é que era Curt quem vendia os Tears For Fears.

Um dia o Andrew Ridgeley dos Wham! (olha quem) disse que os Tears For Fears eram "all about Curt". E de facto era o Curt quem figurava nas capas da Bravo; era o Curt quem aparecia nas festas com o Morrissey; era o Curt quem era amigo do Phil Collins (e que o levou para ser atormentado pelo Roland nas sessões do álbum "The Seeds Of Love"). Mesmo não sendo a fonte da música, era mesmo tudo acerca do Curt Smith. (Nota, não subestimem o senhor Andrew Ridgeley; ele pode ter pouco ou nenhum talento musical, mas é um milionário que fez fortuna à custa de uma carreira na música... sem ter talento musical).

Curt esteve impecabilíssimo e aqueles que dizem que não faz falta aos Tears For Fears precisam de ver com os próprios olhos a performance de temas como o épico "Badman's Song". Como é hábito, o clássico de 10 minutos foi o ponto alto do show. Eis os rapazes numa jam em "Badman's Song":



O Andrew Ridgeley tinha razão. Há de facto alguma coisa de especial acerca do Curt Smith. Tem um ar simultaneamente afável e impecabilíssimo, que o tornam numa máquina inabalável de coolness. É ele o aileron dos Tears For Fears. Tê-lo ali ao pé de mim, à distância de um braço, a mandar aquela linha de baixo pulsante do "Broken" e ainda por cima a fazer eye contact comigo a cada dois minutos, (suspiro), deixava-me derretido como se fosse uma fã adolescente a olhar para a capa da Bravo. Nem parecia real.


5. Memories Fade — O concerto de uma vida II

Memórias voltaram de uma noite em 2011, quando numa (outra) jornada épica, cruzei o deserto do Nevada em tempo recorde, só para apanhar o Curt Smith ao vivo em Los Angeles, numa sala que levava no máximo umas 50 pessoas. No fim conversámos durante imenso tempo, sobre como ele não sabia se os Tears For Fears iam voltar a gravar, sobre como ele adorava Portugal e sobre como ele era apaixonado pelo futebol de Cristiano Ronaldo. Descobri aí que o Curt era um adepto fervoroso do Manchester United e estava "Head Over Heels" para que o José Mourinho assumisse o comando da sua equipa do coração. "Careful what you wish for", já fiz o ditado inglês. Anos mais tarde, o seu "Advice" iria cumprir-se, mas "I Believe" que depois de um "Year Of The Knife" em Manchester, tudo se transformou num "The Hurting". Esta só os fãs é que perceberam. Adiante.

E por falar no "The Hurting", na introdução de "Mad World", o Curt perguntou ao público quem é que era fã dos TFF desde essa altura. 1983, portanto. E eu, que estava ali mesmo ao pé dele, respondi-lhe que ainda nem sequer tinha nascido. Eu quero aqui relembrar que estava na primeira fila. Não sei se já tinha dito. Aliás, antes de começar o concerto, eu tinha-me levantado da primeira fila para me encostar às grades, não fosse algum chico-esperto tapar-me o campo visual. Mas voltando ao Curt, ele ouviu e respondeu NO MICROFONE "there is someone here who is very excited about not being born yet then. God, I'm old." Fucking hell. Talk about contact with your idols.

Claro que o contacto que eu estava mesmo desejoso era que me deixassem cantar um bocadinho do "Shout". Sabia que o Roland tinha deixado a audiência cantar em todos os concertos até então, por isso não havia razão nenhuma para que o meu plano não desse certo. Só que alguma coisa tinha acontecido no encore break. A banda estava a ter alguns problemas técnicos. Nada que fosse perceptível de onde eu estava a ouvir, a não ser quando os rapazes trocaram inadvertidamente de microfones em "Mad World" e as backing vocals do Roland ficaram por cima da lead vocal do Curt, algo que pareceu divertir muito o Roland.



Roland esteve visivelmente martelado durante todo o concerto. E segundo as informações que me chegam dos grupos do Facebook, tem sido assim a digressão toda. É difícil perceber o que passará na sua cabeça depois da morte da sua mulher. Roland revelou ao Evening Standard que bateu no fundo no ano passado e que demorou muito tempo a sair do buraco. A sua transformação desde o show do Royal Albert Hall é evidente. Roland está mais velho, mais bruto, mais animal. Mas com a mesma dor e potência de sempre na voz. Espero que tenha carpido as mágoas em canções que possamos ouvir no futuro. Como esta —"Please Be Happy" —, que partilhou em Julho de 2017, quando a sua mulher morreu e que quase ninguém ouviu.

O processo de recuperação de Roland fez adiar a digressão no ano passado e não se sabe que mais dano terá trazido aos Tears For Fears. O novo álbum — "Tipping Point" — foi anunciado pela banda em 2013, mas já estamos em 2019 e não há sinal que o seu lançamento esteja próximo. Julgando pelo novo merchandising, a artwork deve ser esta — será que o nome do álbum mudou para "Dancing Gramophone"?! —, mas tudo o resto é desconhecido.

Nunca acaba o drama nos TFF. Recordo que a digressão esteve mais uma vez em perigo há um mês, quando Curt Smith começou a publicar mensagens crípticas no Twitter, dando a entender que tinha abandonado os Tears For Fears. Isso acabou por ser confirmado (certamente não inadvertidamente, que o Roland é um tipo muito inteligente) numa entrevista há poucas semanas, quando confessou isso mesmo ao Irish Examiner.


Esta digressão acabou por não trazer muitas novidades, para desespero dos fãs (o meu desespero é que continuam sem tocar o "Raoul", mas isso sou eu). A grande novidade da digressão surgiria em, adivinhem, Brighton. Foi a primeira performance de "Suffer The Children" desde 1983. Os fóruns entraram em histeria, bem mais que os presentes, diga-se. Eu adorei. Mas já sabem, estava mais em pulgas para o encore.


6. Shout — O encore

Azar dos azares. À entrada para o encore, a banda não parecia muito contente. O Curt chegou, agarrou no microfone e enquanto falava das "fucking technical issues" que a banda tivera com os microfones, Roland foi para a outra ponta do palco. Algo não estava a correr bem.

Eu sabia que o "Shout" ia fechar o encore, por isso saquei finalmente do meu cartaz: "PLEASE LET ME SING THE VERSE OF SHOUT". O Curt viu, riu-se para mim e avisou Roland — "Hey, looks like someone here wants to sing the verse of "Shout"!". Mas depois o Curt olhou para mim e lembrou — "but we're not going to do "Shout" now". E de facto não iam. Mas já vão perceber.

Mas nisto, o Roland, que estava do outro lado do palco de costas para o Curt (e para mim), oblívio ao que se estava a passar, não percebeu e deu ordens ao teclista para começar o drum loop de "Shout". E daí acelerou para a versão mais rápida de "Shout" desta digressão. Pela primeira e única vez, Roland não foi ao público e por isso, paciência, o meu desejo não foi satisfeito. Só quando já se estava a despedir, Roland apercebeu-se do cartaz e riu-se para mim. Hey, já é alguma coisa. E sim, eu sei, este parece o relato de uma fã adolescente. Não é, mas acho que já perceberam que é como se fosse.

Depois da saída da banda do palco, tempo para pedir uns goodies aos roadies da banda. Fui o primeiro a pedir a setlist (ai não!) ao roadie do Roland e depois de me ignorar algumas vezes, lá me deu a que estava no microfone do Curt. Atentem no encore que estava previsto.


Vêem? O Curt tinha razão — a setlist mostrava que a banda ia fazer o seu clássico cover do "Creep" e só depois, para terminar, o "Shout". Enfim, nabice minha que não puxei o cartaz mais cedo. Repararam naquela palheta ali no meio da setlist? Ah pois. Não contente com a setlist, fiquei mais uns minutos a fazer a cabeça do pobre roadie para me dar a palheta do Roland. E acreditem, eu consigo ser muito chato nestas coisas. Ele lá cedeu e quando eu a vejo, não contenho o riso. CLARO que o Roland ia tocar com uma palheta com a sua própria cara. Só podia ser dele. Mais narcisista que isto, é impossível. Não era à toa que o Curt o chamava de Sun King.

Com a mala cheia de presentes e um sorriso rasgadíssimo na cara, saí do Brighton Centre a levitar, com a sensação de ter tido uma experiência extra-corporal. Ter ali o Roland e o Curt a tocar ao pé de mim, não pareceu real. Ainda não parece real, quando penso nisso. Valeu tudo a pena. E chegava assim ao fim uma jornada épica de emoções fortes. Pensava eu.

Nada mais falso.


7. Swords And Knives — Depois do concerto

Eu queria mesmo poder chamar a este capítulo de "Goodnight Song", um tema reconfortante do álbum "Elemental", perfeito para ouvir à hora da caminha. Mas a minha experiência na dormida em Brighton foi mais de "Swords And Knives".

Antes de mais, deixem-me explicar-vos (e defender) o meu raciocínio. Já tinha gasto imenso dinheiro no bilhete para o concerto (primeira fila de um concerto como os Tears For Fears aqui no UK não é brincadeira); mais a viagem de comboio, que é outra machadada neste país; mais a batelada do poster assinado. A viagem já estava muito cara. Ora, como sabia que tinha que apanhar o comboio para Esher muito cedo no dia seguinte, ia ficar só com umas 4 a 5 horas para dormir. Não valia a pena marcar um quarto e gastar mais uma torrente de dinheiro. Solução? Uma cama num hostel. Bela ideia.

As coisas no hostel não começaram bem. As fotografias mostravam um quarto para 4 pessoas, mas afinal a minha reserva era para uma camarata de 6 pessoas. Enfim, siga que eu tenho sono. Chegado ao quarto, escuro total. E aquele cheiro a metro sem ar condicionado parado no meio de um túnel a 40 graus. Para ver onde metia os pés, liguei a lanterna do telemóvel e percebo que todos os beliches estavam ocupados, menos o andar de cima de um deles. Era a minha cama.

Quando me aproximo, sai do andar de baixo um "Vinnie Jones" furibundo na minha direcção (vou reproduzir em inglês) — "YOU FUCKING FUCK! It's 11:30! Do you think this is thr time to enter the room and slam the fucking door? You woke me up!". Das outras camas, nem um pio. Eu, obviamente intimidado pelo formato 16 por 9, ecrã PAL-PLUS do meu interlocutor, digo – "I didn't slam the door, it just closed automatically".

Mas ele não ficou muito contente com a minha resposta ou, diria eu, sequer com o facto de eu lhe ter ousado a responder. E daí avança mais um passo e encosta o nariz dele ao meu, qual jogador da bola, e atira — "I'M GONNA FUCKING KILL YOU! You're saying that wasn't a slam?! Maybe you wanna show me a slam now, do you? Do you wanna slam the door on my face, you fucking fuck?".

Bem, that escalated quickly. Neste momento, como devem compreender, só o facto de eu ter mantido a minha roupa interior intacta e as minhas pernas hirtas, já foi uma vitória. Ainda arrisquei ir lavar os dentes para a casa de banho (mais barulho para deleite do nosso amigo "Vinnie Jones"), mas quando voltei e o ouvi a praguejar entredentes numa língua que eu já nem sequer conseguia decifrar, aí percebi que tinha que bater em retirada. É que eu ia dormir mesmo por cima do "Vinnie Jones". Ou melhor, não ia dormir, porque seria impossível dormir naquelas condições. Agarrei na trouxa e fui à recepção explicar o sucedido.

Resultado? Deram-me um quarto só para mim. In your face, "Vinnie Jones". E ainda me prometeram que o iam banir para sempre da cadeia de hostels. Ainda bem que eu ia sair do hotel às 5 da manhã, caso contrário ainda me arriscava a que o meu amigo "Vinnie" me chegasse a roupa ao pêlo. Mas também convenhamos que quando um gajo se arrisca a pagar 17£ por uma noite em Brighton, levar nos cornos deve ser mesmo das melhores coisas que podem acontecer.

E tudo isto foi só uma segunda-feira.


8. Break It Down Again — O dia seguinte

Quando cheguei à estação de Brighton, ainda faltavam 20 minutos para o meu comboio. Era o primeiro de três comboios que me iriam levar até Esher (onde trabalho), em mais uma corrida de estafetas onde qualquer falha resultaria num desastre de proporções épicas (ok, era só chegar atrasado ao trabalho, mas os ingleses são muito picuinhas com isto das horas). Fui buscar um daqueles grandes cafés, adequado para o longo dia que aí vinha.

Ao anúncio da plataforma, 5 minutos antes da partida, segui em direcção ao comboio, mas fui interceptado por um revisor — "Show me your ticket, please". Lá mostrei. "I'm sorry Sir. This is not a valid ticket. This is only for off-peak trains". Oi? Off-peak trains? Ó amigo, isto são 5 da manhã. Ok, já são quase 6, mas 6 da manhã é hora de ponta? "Yes, you must go to the Travel Centre and pay the excess". Mas nisto já só faltavam 3 minutos para a largada do comboio. Esta realização fez-me entornar o café em cima de mim. Corri enquanto tentava limpar o leite com café do casaco. O excesso de um bilhete de 35£ eram "só" 21£. Até corei. Mais uma corrida e consegui apanhar o comboio ao sinal do pipipi das portas. A primeira etapa estava safa.

A primeira passagem de testemunho era em East Croydon e havia apenas 4 minutos de diferença entre a chegada de um e a partida do outro. E como não poderia deixar de ser, o comboio de Brighton atrasou-se... 4 minutos. Saí esbaforido do comboio e entre subir escadas, correr e descer escadas, devo ter feito um recorde de 20 segundos e 3 pessoas atropeladas. Mais uma vez depois do pipipi, lancei-me para dentro de uma carruagem cheia de East-Croydonianos que não acharam muita piada à brincadeira.

A segunda passagem de testemunho foi em Clapham Junction e aí sim, já foi tudo smooth sailing. Quer dizer, foi tranquilo porque não apanhei nenhum pica, porque na verdade só paguei o excesso do off-peak e não o excesso para a ligação até Esher. Era o fim de 24 horas loucas, das quais ainda estou agora a recuperar.

À hora que termino de escrever este texto, já passaram 5 dias desde o concerto e olhando para trás, tudo foi tão rápido que a sensação é que foi tudo um sonho. Um sonho bom. Daqueles de que não apetece acordar e quando o maldito despertador toca, metemos o snooze para tentar voltar. Não pareceu e continua sem parecer real. E tal como no concerto de 2017, voltei a sentir que tudo passou demasiado rápido. É o mistério do tempo, que faz os bons momentos parecerem tão curtos e depois os estica na memória para toda a eternidade.


9. Mother's Talk — P.S.:

Esta semana a minha mãe ligou-me com más notícias. Depois de ouvir o London Calling desta semana — o meu programa de rádio na NiTfm (se não conhecem, you're missing out!) —, disse-me: "Expões-te demasiado! Toda aquela conversa que a música mudou a tua vida e não sei quê. Expões-te em demasia!" Ó Mãe, a culpa é do Roland e do Curt. Fala com eles.

Por falar no London Calling, não deixem de seguir a página no Facebook e claro, ouçam o programa desta semana "Shows From the Big Chair", dedicado aos Tears For Fears. Uma vez que não tive tempo para preparar o programa nos moldes habituais, o programa é o primeiro de sempre a ser gravado integralmente de improviso.

A ideia era contar a história épica das 24 horas de Brighton e intercalá-la com algumas das melhores performances ao vivo dos Tears For Fears. Mas tal como sempre acontece quando começo a contar as minhas histórias (perguntem às minhas estagiárias), acabei por me entusiasmar e ter que interromper o programa quando já batia praticamente a hora e meia. O programa tem performances em 1983 no programa de John Peel para a BBC, em 1985 no Massey Hall, em Toronto e em 1996 no Shepperd's Bush, aqui em Londres. Absolutamente imperdível.

10. Benfica — 0. Nacional


Perdoem-me, mas tinha que fazer menção a isto.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

A glória das manhãs que veio de Manchester

What's the story? Morning glory.


Quando comecei a trabalhar em Londres, uma das coisas que mais estranhei foi a atitude dos ingleses para com as manhãs de trabalho. Todos os dias, quando chegava ao escritório de manhã e dizia um alto "Good mo'nin'" em inglês amourinhado, o meu chefe perguntava-me não-retoricamente "How are you doing?". Percebi que não era retórico, uma vez que ele ficava sempre a olhar para mim fixamente à espera de uma resposta. Hã? Mas o que é que ele tem a ver com isso? Eu chego ao trabalho para trabalhar e ele confronta-me com perguntas pessoais? Que lhe vou dizer? Que estou deprimido porque o fim-de-semana acabou? Porque o Benfica vai atrás no campeonato? Não podia, obviamente.

E então eu respondia-lhe com um "Ok". O "Ok" menos miserável que me era possível, tendo em conta que eram 7:55 da manhã de uma terça-feira sem sol e sem perspectivas de ele aparecer durante o resto do dia. Mas depois eu devolvia-lhe a pergunta — "How about you?" — e ele retorquia com um contundente: "Spectacular!". Wait, what? E eu ficava de rastos.

A verdade é que nós, em Portugal, estamos mal habituados. Vemos o sol todos os dias e damo-lo como garantido. Não lhe damos a importância devida. Mesmo com o sol radioso lá fora, damo-nos ao luxo de ir para o trabalho deprimidos. Passar o dia de trombas. Até porque "é trabalho" — dizemos nós —, é suposto estarmos deprimidos. Certo? Errado. Para os ingleses, não.

O facto de eles normalmente não terem sol faz com que tenham que se alimentar de outra coisa qualquer — uma força ou energia interior qualquer (perdoem-me, não sou bom a fazer de Gustavo Santos) —, que lhes faça enfrentar a jornada de trabalho com alegria e pujança. É algo que nos é estranho, uma vez que nós, portugueses, nos alimentamos do sol e da vitamina D e da cor e da luz e quando não as temos, caímos em depressão. Os ingleses, não. Eles conseguem sair do buraco de alguma forma e ainda ter os rins para dar a volta e criar música que alimenta, inspira e salva as vidas dos habitantes do Sul da Europa. Como a minha.

Por isso comecei a pensar que, uma vez que estou aqui e tenho que viver no mesmo clima dos ingleses — e obviamente, como bom português que sou, também odeio os dias cinzentos —, tenho agora que adoptar uma postura diferente para com as manhãs de trabalho. E daí voltei-me para a minha inspiração de sempre — a música de Manchester. Não esquecer que Manchester é uma cidade ainda mais escura, fria e austera que Londres. E que mesmo assim é um bastião de uma cultura de afirmação, cor e positivismo sem paralelo. Se alguém tem o segredo, são eles. E pensei: como é que o Ian Brown dos Stone Roses responderia à pergunta "How are you doing?", de manhã, num dia de chuva, à entrada do trabalho?




"GLORIOUS!", diz o Ian Brown. Para falar verdade, antes já os Oasis tinham feito uma canção sobre isso. Estava encontrada a minha musa. Mais uma vez, a música de Manchester a tomar conta na minha vida. Ela que me salvou mais vezes do que eu posso contar e me influenciou em toda a linha, desde a maneira de vestir, até à maneira de andar e até agora, à maneira de como respondo de manhã à pergunta "How are you doing?""Glorious!", digo sempre. Agora são os gregos e os espanhóis, europeus do sul e haters de cinzento como nós, que ficam baralhados. Ninguém sabe de onde vem aquela Morning Glory e muito menos imaginam que vem da cinzenta Manchester.



P.S.: Vem esta reflexão a propósito do episódio desta semana do London Calling — " …E ao sexto dia, Deus criou MANchester" — a minha carta de amor a Manchester, onde discorri sobre o absolutamente inigualável espólio musical da cidade: Buzzcocks, The Fall, Joy Division, A Certain Ratio, The Durutti Column, New Order, The Smiths, James, The Stone Roses, Electronic, Inspiral Carpets, The Charlatans, Happy Mondays, Oasis, The Verve, uff... Um programa a não perder.

P.P.S.: Sim, há um outro significado para "morning glory", mas o trabalho no campo da engenharia não é assim tão entusiasmante.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

The Libertines em Londres — Um concerto de beneficência que descambou numa festa maradoniana

A crónica de uma noite de Rock 'n' Roll pelas razões correctas

Sempre fui fã de concertos de beneficência. Paira nestas noites um sentido de comunhão e urgência que as torna especiais e tantas vezes nos proporciona momentos icónicos que marcam de forma indelével a cultura popular. A tradição do Rock neste tipo de eventos é rica e antiga: começando no longínquo Concert For Bangladesh (primeira actuação a solo de George e logo a tocar temas dos Beatles com Eric Clapton), passando pelo famoso Live Aid (quando os Queen tomaram de assalto o Wembley e as duas mil milhões de pessoas a assistir em casa) e o seu irmão mais novo Live 8 (quando os Pink Floyd enterraram o machado por uma noite), pelos concertos do Prince's Trust nos anos 80 (George Harrison e Ringo Starr finalmente reunidos) e pelo Tributo ao Freddie Mercury que despertou o mundo para a SIDA (Axl e Elton abraçados, George Michael a tomar os Queen de assalto, infelizmente só por uma noite), até ao mais recente One Love de Manchester (Chris Martin a fazer as pazes com um Liam Gallagher munido de uma magnífica parca laranja). A lista de páginas históricas desenhadas nestes concertos é infindável.

Há um momento, porém, que define para mim estes concertos — quando Paul McCartney entra em palco no Hyde Park para fechar o Live 8 e diz ao público: "You came for the right reason. You wanna rock.". Porque depois de pagar o seu bilhete e fazer a sua contribuição, é exactamente para isso que o público lá está.

Foi nesse espírito que eu fui ao concerto Hoping For Palestine no Roundhouse, em Camden, norte de Londres. O dinheiro da bilhética revertia para as crianças da Palestina, pelo que sabia que algum bem ia sair dali. Mas a partir do momento em que estava lá dentro, o que eu queria mesmo era Rock N' Roll. O problema é que nem todos os artistas da noite receberam o memorando. Mas já lá vamos.

Comecemos como o Memento, pelo fim — The Libertines. Que concertão. Uma noite sem dormir à custa destes gajos. Não que o concerto tivesse acabado a hora tardia, que em Londres a partir das 23h não há barulho para ninguém (eles ainda estenderam a coisa por mais 10 minutos); mas quem é que consegue dormir depois de uma noite destas, com o corpo carregado de adrenalina? É por isso que os concertos a meio da semana (neste caso numa segunda-feira!) são sempre um desastre fisiológico que desregula por completo todo o equilíbrio de uma pessoa. Mas voltemos ao concerto.

Quem quer que ache que o Rock N' Roll está morto, precisa de ver The Libertines ao vivo. Urgentemente. A banda londrina está melhor que nunca e deu um espectáculo que viverá para sempre na memória de quem foi ao Roundhouse. Bem, na verdade não deu um, mas sim dois espectáculos. Passo a explicar.

Carl Barat fazia anos e como tal, a noite teve dois concertos diferentes: o primeiro, antes de Pete Doherty lhe cantar os parabéns e os dois irem para trás dos palco por 5 longos minutos (enquanto o baterista e o baixista improvisavam em palco); o segundo, quando voltaram do backstage a fungar e a coçar o nariz (não estou a metaforizar) e mais pareciam dois bêbados num karaoke. E pasmem-se, ambos os concertos foram maravilhosos.

A primeira parte do espectáculo mostrou uma banda bem ensaiada, feliz e plena de positivismo. Especialmente o Pete Doherty, que apareceu com o seu melhor aspecto desde desde 1998. Tem obviamente andado a comer a sopinha em casa.


Num set de apenas uma hora, não havia espaço para grandes aperitivos e por isso os Libertines foram direitos ao "Heart Of The Matter". "Fame And Fortune", "What Katie Did", "Can't Stand Me Now", os hits foram saindo uns atrás dos outros, numa torrente que enchia a sala de sorrisos e o chão de cerveja. A sério, com a pint a 5 libras, quem é que no seu perfeito juízo vai lançar o copo cheio no ar sempre que entra um refrão? Só mesmo estes ingleses.

Em cima do palco, tudo corria de forma inusitadamente sóbria. Talvez descontente com tal efeméride, Pete Doherty revela que era o aniversário de Carl Barat e é aqui que as coisas descambam. Doherty despe o blazer e mostra a camisola da Argentina em tempos usada por Maradona, ao mesmo tempo que começa a cantar os parabéns a Barat. Depois, enfim, foram os dois maradoniar para trás do palco. Mas como julgar? A ocasião merecia um festejo à antiga.
Quando voltaram, começaram a tocar os acordes de "Golden Brown" dos Stranglers e aí deixaram-me baralhado acerca da escolha da actividade atrás do palco. Branca ou castanha? Cheira-me a branca. Bem, não literalmente, que eu estava quietinho cá atrás.

A segunda parte do concerto foi um belíssimo descarrilamento de puro Rock 'n' Roll. "Gunga Din", "Time For Heroes", os hits continuaram a sair, mas agora aos tombos como nos "Good Old Days", um espelho perfeito dos dois frontmen em palco. Dois bêbados num karaoke, zero fucks given. Como não adorar?

O concerto terminou com Pete Doherty a lançar a sua própria guitarra para o público (microfones já tinham sido uns quantos) para desespero do seu guitar tech que, coitado, teve com certeza o pior serão de todos os que foram ao Roundhouse. A guitarra, essa, por pouco não me acertou na cabeça, distraído que estava aos pulos no meio do mosh pit. Ora fiquem aí com o vídeo do momento, cortesia da própria banda (atentem no roadie).



Antes do prato principal servido pelos Libertines, a noite teve uma série de aperitivos de nomeada: Patti Smith a abrir, Thurston Moore, Frankie Boyle e até Eric Cantona a declamar poemas entre sets. Cantona foi curto, directo e brilhante, mas os restantes deixaram muito a desejar. O memorando de que a audiência estava ali para se divertir deve ter sido dobrado em quatro e utilizado para fazer linhas no camarim dos Libertines, porque de certeza que mais ninguém o leu.


O set de Thurston Moore, voz e guitarra dos Sonic Youth, consistiu num cover integral do primeiro lado de "Metal Machine Music", acompanhado por um tipo num fato-macaco branco e aprumado a fazer dança contemporânea. Excelente combo para um concerto de beneficência. Mas a grande decepção da noite foi mesmo Frankie Boyle. O comediante, um dos melhores do mundo a fazer stand up comedy, preferiu a leitura sóbria às piadas, desperdiçando uma chance crucial para mostrar que todóos os momentos têm espaço para o humor. Que pena.

No início da noite, Patti Smith brilhou intensamente em "Pissing In A River", pondo toda a audiência madrugadora em sentido com o seu poderosíssimo vozeirão. Só foi pena ter ocupado o seu já curtíssimo tempo de palco com longos discursos activistas. Patti queria dar o enquadramento da ocasião à audiência, mas não percebeu que o público já estava no Roundhouse pelas razões correctas — para se divertir, ao mesmo tempo que ajudava. Os Libertines sabem como se faz.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

shame ao vivo no Electric Ballroom — Sangue, suor e decibéis

A cura para a depressão da banda de Brixton é uma barragem de suor e decibéis

À hora que escrevo isto, os meus ouvidos ainda tilintam com a barragem de decibéis a que fui sujeito na última noite. São 6 da manhã e no comboio matutino, só eu e os zombies do costume a caminho de mais um dia de trabalho. A diferença é que hoje não me sinto um dos zombies; ainda estou ligado à corrente, na ressaca de um dos concertos mais viscerais a que assisti nos últimos anos. Sinto-me vivo. Dói-me o corpo todo, não sei se do mosh pit, se das poucas horas de sono. Mas como é que alguém pode dormir depois de uma injecção de adrenalina daquelas?

Os shame (assim, com minúscula) ao vivo no Electric Ballroom, em Camden. O concerto de uma das bandas punk mais entusiasmantes dos últimos anos foi o primeiro com a cobertura NiT em Londres. How about that?

Sangue, suor e decibéis. Há muito tempo que num concerto não sentia o perigo que tudo podia acontecer. E se os decibéis foram muitos — tantos, que ainda ouço um infinito "piiiiiiii" enquanto vos escrevo —, ainda mais foi o suor. A sério. Londres, amo-te, mas por favor, vai tomar banho, que isto não se aguenta quando começa a fazer calor. Tenho dificuldades em descrever o fedor da torrente de transpiração que inundava o Electric Ballroom. Os U2 podem prometer uma experiência de realidade aumentada, mas acreditem, nada vos desperta tanto os sentidos como uma barragem de transpiração. Fica a ideia para o Bono.

O que é mais curioso é que terá sido exactamente este pivete esmagador que me fez sentir mais vivo. De uma forma perversa, foi isso que distinguiu esta noite como uma experiência visceral e libertadora. Como se de sexo selvagem se tratasse. Senti-me mais perto da verdade, num nirvana sensorial de Rock 'n' Roll. Se é que isto vos faz algum sentido.

No Electric Ballroom sentia-se a electricidade de um momento especial. Em palco, a banda exultava em como esta era um grande noite, "apesar" de estarem em North London, dando conta da rivalidade bairrista em Brixton. No mosh pit (onde temo que fosse um dos mais velhos), fervia uma revolta contra coisa nenhuma que fazia levantar aquela tromba de transpiração. Na tenda de merchandise, a crew dos shame — composta por amigos da banda — comentava que este era o maior concerto de sempre do grupo. Um longo caminho tinha sido percorrido desde os bares em Brixton.

A noite terminou com gritos gameofthronianos de "shame! shame! shame!" e quem esteve no Electric Ballroom naquela noite levou para casa uma cura para a depressão. Eu ainda trouxe comigo o vinil cor-de-rosa de "Songs of Praise" — o álbum de estreia dos shame e um dos discos do ano.

"I'd rather be fucked than sad and that's a start", dizem os shame no seu maior hit "One Rizla" (sendo que isto hoje é medido em scrobbles no Spotify), numa frase que pode resumir muito sumariamente o propósito da banda de Brixton. Revolta. Num mundo onde a depressão parece assolar meio mundo e onde os sinais de alarme só agora começam a ser ouvidos pela sociedade, até faz sentido gritar que é melhor ser fodido do que estar triste. Lá fora é uma merda e sim, nada de bom nos espera. Mas melhor isso que não fazer nada. Pode ser uma revolta contra coisa nenhuma, mas não deixa de ser um abanão contra a letargia do quotidiano.