terça-feira, 18 de outubro de 2016

Nenhuma mulher pode amar um homem que ouve Phil Collins

Mas pode Phil voltar a amar-se a si mesmo?



O título da crónica é uma citação de "Sing Street", um dos meus filmes preferidos deste ano. Como fã de Phil Collins e dos Genesis, desmanchei-me a rir com esta fala do filme e adoptei-a como uma possível explicação para a minha própria turbulenta vida amorosa. Talvez o facto de amar o Phil Collins justifique o meu fado com o sexo oposto, não sei; mas sei que Phil deixou de se amar a ele própio há muito tempo, por não aguentar ser sujeito a décadas deste tipo de enxovalho. E que isso quase acabou com ele.

No dia em que foi anunciado o seu regresso aos espectáculos, a crónica que escrevi aqui em Janeiro sobre a necessária reapreciação do seu valor faz mais sentido que nunca. Independentemente do passado, sobra-me dizer mais umas coisas sobre o Phil e a sua nova digressão.

Vi a conferência de imprensa do anúncio da digressão em directo. Deu-me pena. Adoro o Phil. Para mim, o Phil é família; é como um tio não muito afastado que esteve sempre "ali". É difícil vê-lo tão fisicamente e animicamente acabado, um farrapo cheio de ressentimentos (confessou que reatou com a última mulher, mas que esta "não lhe devolveu o dinheiro que lhe tirou") e uma sombra do poço de vida que já foi.

Phil sempre teve muita dificuldade em lidar com a visão que o mundo tinha dele. Primeiro, quando o elevaram a superestrela depois de ter feito um álbum intimista e silencioso sobre o seu próprio divórcio. Depois, quando o atiraram para objecto de anedotas por ter continuado a fazer o que sempre fizera. Phil não conseguiu lidar com a dinâmica da opinião pública e como primeira defesa, isolou-se. Sem perceber que os Genesis eram a entidade que em última instância o protegia, enxotou-os após uma passagem triunfal por Knebworth em 1992 (sempre Knebworth como cemitério) e quando a Britpop estoirou, a sua imprensa só piorou. A defesa de Phil foi isolar-se ainda mais e avançar para uma reforma prematura, retirando-se da música agastado, surdo e sociologicamente queimado.

Quando voltou para casa para ser um pai a tempo inteiro, Phil foi recebido com o embate de um camião TIR. A mulher pediu-lhe o divórcio e com ela levou os filhos e o dinheiro. Phil ficou sozinho, agora sim, completamente isolado. Seguiram-se anos de depressão, alcoolismo solitário no sofá a olhar para a televisão e conversas com a linha de suicídio. Até Peter Gabriel teve que intervir na situação, para salvar o seu amigo Phil.

Eventualmente, Phil Collins começou a trepar lentamente para fora do buraco em 2014. A sua ex-mulher aceitou-o de volta (ficando com o dinheiro, como ele próprio sublinhou), Phil voltou a poder estar com os filhos e chegámos ao dia de hoje, em que ele anuncia uma digressão. Phil volta para um punhado de espectáculos a solo no Royal Albert Hall, em Colónia (terra santa para os Genesis, deuses eternos das Alemanhas) e em Paris.

Mas pela enésima vez, desde que despachou os Genesis em Knebworth, Phil volta a tomar a decisão errada, ignorando aquilo que realmente o protege: o chapéu-de-chuva dos Genesis.
O que Phil deveria ter feito era simples: telefonava aos seus (verdadeiros) amigos Mike Rutherford e Tony Banks, deixava-os tratar de tudo e limitava-se a sentar-se num banco à frente do palco, a cantar as músicas dos Genesis para gáudio de milhares de pessoas que desesperam para o ver (eu! eu! eu!) interpretar aquelas canções. Acontecesse o que acontecesse, Phil teria sempre o apoio de Tony, Mike e da máquina dos Genesis. Assim, volta à estrada por sua conta e risco, vulnerável a tudo o que lhe possa cair em cima.

Dito isto, toda a sorte do mundo para o Phil. Espero mesmo que ele derrote os seus fantasmas e que aprenda a voltar a amar-se a si mesmo. Aconteça o que acontecer, Phil, I will always love you. E cá estarei para defender o teu legado.


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