quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Nunca conheçam os vossos heróis. Excepto se o vosso herói for o Brian May

Já ouviram aquele ditado que diz para nunca conhecerem os vossos heróis? Felizmente nem sempre é assim. Há um mês participei num daqueles concursos que assinamos e nunca mais nos lembramos, porque sabemos que é praticamente impossível ganhar - “habilita-te a ir a uma sessão de Q&A (perguntas e respostas) com o Brian May”, anunciava o site dos Queen. Right. Como se fosse possível. Só que na semana passada o impossível aconteceu e eu fui contactado pela editora para estar com mais 20 pessoas. Nem queria acreditar.

Depois de uma noite mal dormida, acordei com o coração aos pulos. Chegara o dia. As instruções da editora eram precisas - era obrigatório apresentar o Covid pass do NHS com as duas vacinas e mesmo assim nenhum contacto com o Brian seria permitido devido à pandemia. Entende-se. O homem já não vai para novo e precisa de se proteger. À chegada ao Regent Street Cinema, uma nova restrição - para além do NHS pass, todos os convidados eram obrigados a fazer um teste rápido à porta. Mas se não era possível contacto, qual o problema? A resposta viria mais tarde.

A sessão tem início com o Brian a lembrar que viu ali os The Who por volta de 1966. The Who em 1966? Fixe. Mas fixe mesmo é o Brian May mesmo ali à minha frente. Começamos por ver os vídeos originais dos três singles do seu álbum de estreia a solo, lançado em 1992 e reeditado agora para chegar à nova geração de fãs que Brian tem abraçado no instagram desde o advento do filme sobre os Queen. Os vídeos de “Driven By You”, “Resurrection” e “Too Much Love Will Kill You” (a versão original de Brian, entenda-se) foram polidos, o áudio remasterizado e parecem e soam gloriosos em volume máximo na sala de cinema. Qualquer destes temas é nível Queen.

Brian regressa para introduzir o novíssimo vídeo para o tema-título de “Back To The Light”. É para isso que estamos aqui. Bem, pelo menos oficialmente (eu estou pelo Brian, mas já la vamos). O vídeo é uma mistura perfeita entre o velho e o novo Brian. Ele viaja no tempo para se encontrar com o seu eu de 46 anos e tocar guitarra na sua própria banda de 1993. Vemos o Brian pujante de cabelo escuro e forte, a liderar a sua banda no centro do palco, e ao lado o Brian de cabelo grisalho e fininho, contente por, como ele refere, “voltar a ser apenas o guitarrista”. O novo vídeo usa imagens do vídeo “Live At Brixton Academy” (que segundo Brian será lançado mais à frente nesta campanha de reedições), gravado em 1993, e mistura com imagens recentes filmadas no Hammersmith Odeon (hoje Apollo), sala mítica para os Queen.

https://www.youtube.com/watch?v=Zvmp8YhEgQk

O vídeo termina e Brian volta a subir a palco visivelmente orgulhoso com o trabalho de Simon Lupton na realização. É ele quem vai conduzir a sessão de perguntas que se seguirá. Brian refere que terá sido o primeiro a fazer um exercício deste género, uma vez que ninguém é tão velho para fazer isto. Cientista e Rock ‘n’ Roll Star, confessa-se apaixonado por filmes de time travel (somos dois) e que se tivesse oportunidade, avisaria o Doc de “Regresso ao Futuro” para voltar para trás - “We fucked up!”, diz Brian com os olhos esbugalhados, na sua melhor melhor imitação de Doc.

Tempo de responder a algumas questões da sala, diz Simon Lupton - “Quem é que tem perguntas?”. Antes de ele terminar a questão, já eu estou de braço no ar, pois claro, mortinho por interagir com o meu herói. Passam-me o microfone e neste momento, os nervos que carrego desde manhã suspendem-me num estado zen. Dirijo-me directamente ao Brian May: “antes de mais, obrigado por esta oportunidade e parabéns pelo novo vídeo”. Repito em traços gerais a impressão que descrevi atrás nesta crónica, em como o vídeo é bem sucedido em misturar o velho com o novo e a passar a mensagem pretendida. O Brian agradece e responde “what’s your name, sir?” Sim, o Brian May quer saber o nome. “Sou o Nuno Bento, sou português e coleciono todos os seus trabalhos, tanto oficiais, como não oficiais”. Arranco uma gargalhada ao Brian (isto está mesmo a acontecer?) e assim ganho crédito par falar mais um bocadinho com ele: “Brian, o meu álbum favorito é o “A Day At Races”, onde eu acho que os Queen atingiram o seu pináculo, especialmente no Lado A, que eu considero ser o crowning achievement da discografia dos Queen, o qual soma na medida perfeita todos os elementos que fizeram os Queen extraordinários. Contudo, raramente vejo o Brian falar neste disco. Como é que se sente acerca deste álbum hoje em dia?” 

O Brian parece surpreendido com esta referência: “eu vejo esse disco como o irmão gémeo do “A Night At The Opera”, foi de facto o disco onde levámos ao limite a nossa criatividade num estilo mais barroco e eloquente. Depois achámos que esgotámos essa vertente e regressámos a um estilo mais simples no “News Of The World”. Eu insisto: “concordo que o “Opera” e o “Races” são gémeos, mas a atenção vai sempre toda para o primeiro. Será que podemos esperar uma edição expandida para o “A Day At The Races”, como já tivemos para o “A Night At The Opera”?” Brian olha para mim pensativo e responde: “quem sabe?”. É o fim da minha intervenção e registo a minha pulsação em níveis taquicárdicos.

Nas perguntas seguintes, Brian esclarece que não está a pensar em voltar aos palcos em nome próprio - “eu nunca quis deixar de ser o guitarrista dos Queen. É só isso que eu quero ser”, confessa. Eu, que sempre fui contra a colaboração com o Adam Lambert e apologista que o Brian May e o Roger Taylor deviam ir para a estrada “sozinhos” (isto é, sem vocalistas adicionais, a partilhar as responsabilidades do microfone), engoli em seco. O Brian adianta que pode fazer uma aparição “algures” na digressão a solo do Roger que se avizinha. Eu vou vê-lo a Shepherd’s Bush no próximo mês, a walking distance de onde o Brian mora, por isso espero ver os Queen, sem o “+”, nessa noite. Agora que penso nisso, o John também mora a poucas estações de metro. Hum…

No fim da sessão, quando todos esperavam pela saída imediata do Brian (não podia haver contacto, lembram-se?), ele puxou a cadeira para a frente do palco e chamou a si os seus fãs. Ficaram assim explicados os testes obrigatórios à entrada. Depois de quase 2 anos fechado em casa, o Brian estava evidentemente com saudades dos seus fiéis. Cheguei-me à frente com o meu “A Day At The Races” (eu ia preparado para qualquer eventualidade) e o Brian recebeu-me com o maior sorriso e a maior simpatia “obrigado por vires Nuno, gostei mesmo da tua pergunta”. Obrigado eu, Brian! Obrigado eu. 

Assinou o meu disco e, não sei porquê, terá achado que a caneta lhe fugiu e que o autógrafo não saiu bem. Olhou desapontado para a assinatura e pediu-me desculpa - “estou destreinado”, suspirou. Ri-me com uma lágrima já a sair e assegurei-lhe que estava perfeito assim mesmo, não podia ter saído melhor. Pedi só uma foto para a posteridade. O Brian puxou-me pelo ombro na sua direcção e eu fiz um sorriso estúpido para a câmara como se tivesse 15 anos. E naquele momento tinha. 


O Brian foi simpático, afável, atencioso e muito mais do que eu alguma vez poderia esperar. Já diz o povo: nunca devem conhecer os vossos heróis, excepto se o vosso herói for o Brian May.


terça-feira, 7 de setembro de 2021

ABBA de volta como hologramas — É este o futuro que queremos?

E eis que chegámos oficialmente ao futuro. Quarenta anos depois da mais acrimoniosa das separações, que envolveu um drama mexicano de traições, divórcios e corações partidos, os ABBA estão de volta com um novo álbum e uma nova digressão. Mas quem for ver um concerto dos ABBA em 2022, não vai ver propriamente os ABBA e muito menos ao vivo. O que a audiência vai ver é um espectáculo de realidade virtual, com hologramas do que eram os ABBA em 1974. Como devem imaginar, isto levanta um sem número de questões e ironias, por isso vamos por partes. Comecemos pela nova música.

Se há um elemento que confere validade a todo este projecto distópico de fusão do novo com o "não-tão-novo" (estou a citar a expressão espirituosa do site) é que, tal como nos bons velhos tempos, esta digressão é apoiada em música nova. Vem aí um novo álbum dos ABBA, "Voyage", a ser lançado em Novembro, exactamente 40 anos depois de "The Visitors" em 1981. E com este anúncio vieram dois aperitivos do novo disco: "I Still Have Faith In You" e "Don’t Shut Me Down". Fiquei parcialmente impressionado. Já explico porquê.

A maioria dos álbuns de reunião de grupos de nomeada são uma desilusão, uma vez que falham em recapturar a magia que levou ao sucesso noutros tempos. Os artistas mudam, a música muda, as técnicas de gravação mudam, o mundo muda, e invariavelmente temos álbuns que são orientados para as bases de fãs antigas, vendem tudo o que têm para vender nas primeiras semanas (muitas vezes atingindo o topo das tabelas) e depois desaparecem do mapa para nunca mais serem ouvidos. É possível que seja isso que aconteça com "Voyage", contudo, mérito seja dado aos ABBA, os temas que ouvimos são competentes no seu propósito de somar o número máximo de elementos clássicos do quarteto sueco. Os compositores, Bjorn e Benny, provam que sabem e ainda dominam a fórmula dos ABBA. Com excepção das vozes das meninas que, naturalmente, envelheceram, a música consegue capturar o âmago dos anos 70. É esse o maior feito dos novos temas dos ABBA. 

"I Still Have Faith In You" foi escolhido como o tema de avanço devido ao conteúdo lírico, obviamente auto-referencial, mas é o elo mais fraco deste lote. Admito que nunca tive paciência para as baladas dos ABBA e talvez por isso não consiga tirar nada deste tema, mas o facto é que, 5 dias depois de desvendado, está no primeiro lugar das músicas em alta no Youtube com 14 milhões de visualizações. O cínico em mim diz que é um sucesso fundado em nostalgia, mas é mais que isso. É a fórmula resolvente dos ABBA em acção.

 "Don't Shut Me Down" é o tema mais upbeat deste par e francamente superior. Os elementos reconhecíveis dos ABBA também estão aqui, mas resultam melhor num contexto dançável. Especialmente quando a melodia despoleta uma reacção familiar no cérebro, programado para sentir conforto quando reconhece padrões antigos. "Somos suecos e fazemos música que não vos sai da cabeça", deveria ler-se no cartão de visita do grupo.

Como a última frase deve ter deixado escapar,  quem vos escreve não é propriamente um fã dos ABBA. Mas nem eu consigo escapar ao charme dos "a-has" de "Voulez-Vous", das notas impossíveis de "Dancing Queen", ou da linha de sintetizador de "Gimme! Gimme! Gimme!". Estas canções estão cravadas na cultura popular e no imaginário de quem quer que se cruzou com elas. É impossível escapar aos ABBA, porque eles são assim tão bons. Goste-se ou não. Para além do seu espólio, deixaram o dedo firme em todo o género que conhecemos como música Pop, desde Madonna, a Max Martin, ou Lady Gaga. Se andarmos as referências para trás, vamos invariavelmente dar aos ABBA. 

Por outro lado, esta bitola de excelência Pop torna a vida das novas canções inevitavelmente mais difícil. E se eu não posso rebater um "Thank You For The Music" (adaptado para português pelo Chuva de Estrelas e readaptado mais tarde por estudantes universitários), não consigo ouvir os hooks inatacáveis nas novas canções. São competentes, sim, mas carecem aquele magnetismo característico dos ABBA. Esperemos pelo resto do disco para um juízo final deste regresso. Para já, levam um nada desprestigiante B-.

A outra parte do anúncio deste comeback refere-se à já referida digressão holográfica da banda sueca. Ora, isto não é de somenos. Já se fala nos hologramas há muitos anos, normalmente com o propósito mórbido de levar ao palco artistas defuntos (Amy Winehouse, Whitney Houston, Tupac, etc), mas penso que será a primeira vez que músicos vivos preferem enviar em digressão hologramas, em vez de levarem a sua música ao seu próprio público. O grupo nem sequer gravou faixas vocais novas para a digressão — o que vamos ouvir são gravações dos anos 70, cantadas por hologramas dos ABBA dos anos 70. É um episódio digno de um livro de Philip K. Dick. E isto levanta, obviamente, uma série de questões. É isto que nós queremos para o futuro da música? Será que a oferta da música dos nossos dias é tão calamitosa que nos obriga a ir buscar jovens a 1974? Será o próximo passo a criação de andróides, réplicas dos ABBA, que vão andar em digressão? Não nos estamos a aproximar demasiado do Blade Runner e de outras distopias da ficção científica? São questões pertinentes e sem resposta imediata. A substituição de humanos por tecnologia é uma temática complexa, que merece a nossa reflexão. Temos que falar também dos deep fakes musicais, como o bot que "escreveu" uma música de Nirvana, mas isso fica para outra crónica.

Se estivéssemos a falar de outro tipo de banda, digamos, por exemplo, os Arcade Fire, poderíamos alegar que este projecto estaria mergulhado em ironia pós-moderna — em como a nossa sociedade está obcecada com a juventude —, e que este seria um "statement" para ridicularizar isto mesmo. Mas são os ABBA, historicamente kitschy e grau zero de ironia. São a maior instituição Pop global e what you see is what you get. E o que temos é um passo firme em direcção ao futuro que quisemos ter, ancorado na nostalgia dos ases do passado e higienizado com a certeza de uma banda que cumpre todas regras do bom comportamento e do distanciamento social, uma vez que nem sequer está lá. Cabe-nos a nós decidir se este é mesmo o futuro que queremos.

terça-feira, 22 de junho de 2021

O génio resiliente de Noel Gallagher


Noel Gallagher atingiu esta semana o décimo segundo nº 1 na tabela de álbuns do Reino Unido com o lançamento da compilação "Back The Way We Came", que reúne os melhores temas (segundo ele) da sua carreira a solo. Este é o quarto no.1 da sua discografia a solo (em quatro álbuns), depois de oito com os Oasis (em oito álbuns), aos quais se somam nove singles que também atingiram o topo das tabelas. Números impressionantes que, ainda assim, deixam Noel longe de reunir consensos. Não que ele os queira, ou sequer os procure — Noel adora antagonizar a sua própria audiência — mas é notável que depois de três décadas a disparar hits, melodias e letras que aumentaram a realidade das nossas vidas, Noel ainda seja olhado de soslaio pela franja mais hipster do público que, pura e simplesmente, não o percebe. Não é assim tão difícil.

As canções de Noel Gallagher personificam tudo aquilo que a música pop deve ser — durante quatro minutos e meio, transformam a nossa vida mundana numa aventura épica, onde o amor vence e os sonhos são realidade. "In my mind my dreams are real" ("Rock 'n' Roll Star") é a linha que define toda a magia da escrita de Noel. Um rapaz do council estate que recusou o seu destino, votado a uma vida esquecida na classe média-baixa mancuniana, e aprendeu a olhar para as estrelas enquanto ouvia a música dos Beatles, Stone Roses, Sex Pistols e The Smiths, trancado no quarto, para se esconder de um pai bêbado e violento. Quantos de nós não passámos horas infinitas trancados no quarto a ouvir música, cada um com as suas razões? Eu sei que passei. A diferença é que o Noel teve a coragem, e o talento, de pegar na guitarra e começar a escrever as suas próprias viagens ao céu. Conduzido por uma melancolia e uma ânsia de sair muito inglesas, o Noel veio anunciar que há mais para além do que nos querem dar. Que não estamos presos ao nosso destino. Que num mundo onde nos querem pôr constantemente no nosso lugar, baixinhos e inofensivos, podemos ser o que quisermos ser. Que num mundo onde todos nos dizem para olhar para o chão, devemos apontar ao céu. Que num mundo obcecado com a morte, podemos viver para sempre. 

Para quem vem de baixo, para quem tem a ânsia de chegar mais alto, ou simplesmente para os sonhadores — todos aqueles que vivem a vida a olhar para as estrelas —, estas canções ressoam, batem forte como um exorcismo, um bálsamo que nos leva deste "mundo grande e mau" (para citar outro génio da Britpop). Não é suposto serem uma afirmação intelectual, são apenas o reflexo das nossas ansiedades, a verdade que procurávamos e que nos liga uns aos outros. É por isso que, 25 anos depois, milhões de pessoas ainda cantam em plenos pulmões estas canções em bares, parques, arenas, estádios e comboios um pouco por todo o mundo, enquanto abraçam um qualquer desconhecido ao seu lado. Porque o apelo da sua música é transversal. É esse o génio resiliente de Noel Gallagher — um génio que cruza gerações, continentes e estratos sociais.

Sei perfeitamente que é daqui que vem grande parte da resistência aos Gallaghers. Por muito que se glorifiquem histórias da ascensão social do underdog, quando elas acontecem na realidade, quem está em cima não gosta dos trepadores que ali chegam e quem está em baixo não gosta dos que saem de lá. Basta olhar para o caso do Ronaldo, que mesmo depois de tantos anos de conquistas, de se afirmar como um génio que será lembrado durante décadas, para muitos nunca passará de um azeiteiro pé rapado dos confins Madeira. A ascensão dos Gallaghers significa o triunfo dos bárbaros, dos iletrados, da classe operária. A classe intelectual nunca os perdoará. Mas que importa isso para os sonhadores? Rigorosamente nada.

Se leram até aqui, já perceberam que a música do Noel teve uma grande influência na minha vida. Foi ele que ensinou um miúdo que cresceu trancado num quarto em Castelo Branco a olhar para o céu, apontar ao Sol e querer sempre mais. Lembro-me como se fosse ontem de estar naquele quarto — o meu Pai chamava-lhe "o bunker" —, a voar com a música dos Oasis, tal como o Noel fizera anos antes com os seus heróis. "In my mind my dreams are real", e foram mesmo. Noel não é Morrissey, mas a sua lírica é tão ou mais efectiva.

Atentemos no imaginário de “Slide Away”, provavelmente a obra-prima do espólio de Noel Gallagher. “Slide Away” é uma canção de amor, mas não é uma canção de amor qualquer. Em vez do prosaico “quero ficar contigo para sempre”, Noel pede para "ser aquele que brilha contigo" (“Let me be the one who shines with you”), porque juntos, nós voamos (“Together we fly”) e juntos, vamos apontar ao Sol (“we’ll find a way of chasing the sun”). Querem lírica mais gloriosamente romântica que isto? Curiosamente, a música de Noel é praticamente assexuada (Noel Gallagher não é, definitivamente, o George Michael), em vez disso remete-nos para uma dimensão amorosa platónica, estratosférica, onde um beijo nunca é “só” um beijo — é um desejo pintado num céu de veludo. E a Supernova de Champagne, bem, isso talvez seja de facto uma metáfora sexual.

O Noel de hoje já não tem nada a ver com o rapaz do "Definitely Maybe", que ansiava por uma vida melhor fora do council estate. Mas Noel continua a olhar para as estrelas. Os últimos 10 anos deram-nos preciosidades como “A Simple Game Of Genius”, “Alone On The Rope”, “Revolution Song”, “Let The Lord Shine A Light On Me”, ou “Rattling Rose”, curiosamente, ou muito provavelmente não, todas elas fora do alegado best of que Noel lançou na semana passada. Noel adora antagonizar e confundir a sua audiência, Há coisas que nunca mudam. Esqueçam por isso a nova colectânea e ouçam antes esta playlist de Lados B da sua carreira a solo, que é muito mais interessante.

terça-feira, 8 de junho de 2021

David Gilmour vs Roger Waters: A guerra sem fim



Quase tão antigo como o conflito israelo-palestiniano, e tão ou mais interessante, é o conflito Waters-Gilmouriano. Duas estrelas que durante duas décadas colidiram numa supernova criativa e que agora parecem nao sair do buraco negro. As duas últimas semanas trouxeram muitas novidades, mas desta vez nem todas más. Aqui o tio Nuno, parte interessada neste conflito há mais de 30 anos, dá-vos o update do essencial.

Comecemos pelo fim. Ontem saiu uma entrevista à Rolling Stone do casal inseparável John/Yok..., errr desculpem, David/Polly, onde o tio David atira a matar sobre o tio Roger. Na parte mais escaldante da entrevista, a inevitável pergunta dos Pink Floyd, David não mostrou a sua habitual contenção:

RS: Is there anything going on with Pink Floyd on the archival front? There’s been talk of an Animals reissue in recent years.

Gilmour: Well, a very lovely Animals remix has been done, but someone has tried to force some liner notes on it that I haven’t approved and, um, someone is digging his heels and not allowing it to be released.

Samson: But you don’t have liner notes, do you?

Gilmour: No, we’ve never had liner notes.

Samson: Why are you suddenly having liner notes?

Gilmour: Because someone wants them, and they got a journalist to write some, and I didn’t approve them. And he’s just getting a bit shirty. You know how he is, poor boy.

Ora, esta entrevista e esta resposta em particular, explicam o que aconteceu na semana passada na barricada do tio Roger que, como sabemos, não é propriamente conhecido pela sua contenção. Num vídeo carregado de veneno, o Roger anunciou o lançamento da nova remistura do álbum Animals, bloqueada desde 2018 pelo conflito Waters-Gilmouriano, tudo graças àbonomia do próprio Roger, que ia ceder pela sua parte e anuir ao lançamento sem as liner notes escritas por Mark Blake (autor de "Pigs Might Fly: The Inside Story of Pink Floyd"), que contariam a história por trás da criação do álbum e que David se recusava a incluir nesta reissue. Algumas notas sobre isto:

Em primeiro lugar, o David está (quase) correcto em como, mal ou bem, os lançamentos dos Pink Floyd nunca tem liner notes. Curiosamente, a excepção que me recordo é a caixa "Shine On", que o próprio David lançou como projecto pessoal em 1992, quica para "legitimar" os seus Floyd ao lado dos classic Floyd, numa altura em que o assunto ainda era, e muito, discutido (hoje acho que não há discussão - os Floyd dos 80s e 90s são tão Floyd como os dos 70s). Retirando essa (curiosa) excepção, de facto, os lançamentos dos Floyd costumam deixar a música falar por si e deixar o "behind the scenes" envolto em mistério.

Depois, como é óbvio, a inclusão destas liner notes é mais do interesse do Roger do que do David, uma vez que o Roger é que foi o principal responsável pela criação e pelo conceito do álbum "Animals". Se David tivesse levado a sua ideia avante, o álbum "Wish You Were Here" teria sido formado por 3 longas composições: "Shine On You Crazy Diamond" no Lado A e "Raving And Drooling" e "You Gotta Be Crazy" no Lado B. Teria sido um álbum largamente instrumental mas, segundo Roger (e bem), sem um fio condutor. Com a composição conjunta do tema "Wish You Were Here", o disco ganhou uma nova direcção e o resto é história. Para "Animals", uma nova perspectiva Orwelliana recuperou "Raving And Drooling" de Roger como "Sheep" e "You Gotta Be Crazy" de David como "Dogs". A face política de então inspirou Roger para "Pigs (Three Different Ones)" (com a ajuda de um loop de Rick Wright e que nunca foi creditado) e estava assim feito o álbum mais sombrio dos Pink Floyd. Para Roger, ele compôs 4/5 do álbum. Para David, ele compôs metade, uma vez que "Dogs" compõem a quase totalidade do Lado A. Ambos têm razão à sua maneira, mas é impossível fazê-los concordar em quem fez mais ou em quem fez o que (o que, convenhamos, é um bocado triste quando pensamos que estes senhores já tem 80 anos). As liner notes de Mark Blake, mais elogiosas para o Roger, foram assim naturalmente vetadas pelo David. E assim chegámos a 3 anos de um conflito sem fim à vista. Até há semana passada.

O vídeo de Roger a anunciar a reedição de "Animals" apanhou toda a gente de surpresa, primeiro porque ninguém sabia por que este projecto estava bloqueado e segundo, porque não lhe cabe a ele fazer esse anúncio. Para todos os efeitos, o Roger saiu da banda em 1985, anunciando que os Pink Floyd eram uma "força esgotada". David tinha outras ideias e levou a bandeira dos Pink Floyd pelos anos 80 e 90, introduzindo a banda a novas gerações (eu incluído), provando que Roger estava errado. Entretanto, os Pink Floyd tornaram-se num million dollar business e Roger, responsável pela maioria da sua música, ficou de fora da esfera de decisões, por (má) decisão própria. Para o bem e para o mal, é assim que funciona. Chegados aos dias de hoje, temos o ridículo dos livros de Polly Samson a serem anunciados no site oficial dos Pink Floyd e os projectos de Roger Waters, (auto-denominado) génio criativo dos Pink Floyd, fora do site, fora do Facebook, fora de tudo. É ridículo, sim, mas o Roger só se pode culpar a ele próprio. Por mais que esbraceje e ataque o David, nada vai mudar nesse sentido.

Nesta guerra sem fim, o Roger foi suficientemente esperto ao antecipar os comentários da entrevista da Rolling Stone (certamente alguém o avisou do que aí vinha) e, com este vídeo, sair como o herói da situação para os fãs, e colocar o David entre a espada e a parede (e ao mesmo tempo lançar as famigeradas liner notes no seu site - o tio Roger não dá ponto sem nó - enquanto chamou David de "a jolly good guitarist and singer"). Depois da cedência de Roger, David está agora obrigado a lançar a remistura de "Animals", sob pena de sair como o vilão da história que age puramente por despeito e perder a imagem de "nice guy" que tem na audiência. E esta é a única boa notícia para nós, fãs dos Pink Floyd, que estamos para este conflito como os filhos de um casal divorciado que não se consegue entender. Do mal o menos, vamos mesmo ter a caixa de "Animals", com novas remisturas em Stereo e Surround e uma nova e mais recente imagem da magnífica Battersea Power Station, onde este que vos escreve trabalhou durante 2 anos como Lead Engineer de Temporary Works (a jóia da coroa da minha carreira profissional). Nesta altura, já não espero que os meus dois ídolos se entendam, mas como diz o David no fim da sua entrevista na Rolling Stone - "we live and we hope".

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Desfolhada Portuguesa: as dez melhores canções portuguesas da Eurovisão

O cronista da NiT lista as melhores canções que Portugal levou à Eurovisão


Estamos em semana de Festival da Eurovisão e hoje Portugal joga o acesso à final de Sábado. Antes de torcer pelos Black Mamba na semi-final de hoje, recordemos algumas das melhores entradas portuguesas do passado, na contagem das minhas 10 canções favoritas que representaram Portugal na Eurovisão. Escusado será dizer que é uma lista pessoal e inevitavelmente influenciada pela minha infância, quando seguia o festival mais de perto. Acho que nunca recuperei da desilusão de ver Rui Bandeira (grande cabelo, ó Rui) afundar na Eurovisão de 1999, a que se seguiram anos negros de fracas prestações e canções esquecíveis, até àquela noite mágica de 2017 em Kiev. Sem mais demoras, vamos ao top 10.

10. Da Vinci — "Conquistador" (1989)


Tendo nascido em Novembro de 1985, no festival de 1989 tinha apenas 3 anos, mas por algum motivo (haverá com certeza uma explicação para isto), todas as minhas memórias mais remotas estão ligadas a música e o primeiro tema que eu tive noção de sair do Festival da Canção foi o "Conquistador" dos Da Vinci. No infantário, foi um hit que martelou a sala ad nauseam, mesmo que na altura ninguém ali soubesse bem do que se tratava. Estávamos no infantário, pois claro. Hoje em dia, um tema inofensivo como o "Conquistador" seria impossível de chegar à televisão. Já estou a imaginar os gritos de "colonialistas", "imperialistas", "racistas" e outras parvoíces que seriam atirados aos Da Vinci. Ah os 80s. Quando nos podíamos divertir com coisas mundanas.

9. Paulo de Carvalho — "E Depois Do Adeus" (1974)


A canção que ficará para sempre ligada à revolução de 25 de Abril de 1974, por ter sido a primeira senha que na noite de 24 deu sinal 'as tropas para estarem a postos para o que aí vinha. "E Depois Do Adeus" não tinha nada a ver com política e por isso mesmo foi o tema escolhido, para não evitar suspeitas. Paulo de Carvalho ficou eternizado naquela noite, depois de uma prestação modesta no Festival da Eurovisão de Brighton, poucas semanas antes da revolução.

8. Dina — "Amor D'Água Fresca" (1992)


Continuamos com as minhas memórias do Jardim Escola (aqui "já" tinha 6 anos), desta vez para um tema de apelo transversal. Amor e frutas, o que há para não gostar? Olhando hoje para trás, "Amor D'Água Fresca" era um peso demasiado leve para a Eurovisão e a Dina, tendo um dom raro para a melodia (raio da música do CDS que nunca sai da cabeça), nao tinha propriamente aquele look de Pop Star necessário para triunfar contra as estampas da Hungria e da Lituânia. É pena, a música era muito boa.

7. Dulce Pontes — "Lusitana Paixão" (1991)


Depois dos Da Vinci em 1989, voltámos a puxar pelo sentimento tuga com a Dulce Pontes em 1991. No prelúdio de uma carreira fenomenal, a Dulce levou a Roma a "Lusitana Paixão", uma ode ao fado, MAS (wink, wink) tinha mais de Stevie Wonder do que de Amália. Não que isso seja mau e a prova é que a Europa gostou e a Dulce teve uma excelente prestação. Bem, pelo menos para o contexto português, que na Eurovisão é de fuga 'a despromoção.

6. Salvador Sobral — "Amar Pelos Dois" (2017)



Mas na Eurovisão, como na bola, de vez em quando aparece um tomba gigantes e até o Sporting ganha o campeonato e Portugal ganha o Festival da Eurovisão. Em 2017, Portugal apareceu em Kiev com um tema que era a antítese de toda a foleirada que a Eurovisão representava e o impensável aconteceu - ganhámos. E não só ganhámos, como ganhámos com a canção menos eurovisionável possível. Na altura muito se escreveu em como a vitória de Salvador Sobral com o belíssimo "Amar Pelos Dois" representava uma mudança de paradigma na música e na Eurovisão. Certo. No ano seguinte, com o festival em Lisboa, ganhou a pior canção que me lembro de ouvir na Eurovisão. O que é que mudou desde então? Nada. Salvador foi um alien na Eurovisão e isso não é necessariamente mau. O alien é nosso.

5. Carlos Paião — "Play-Back" (1981)


Em pleno auge dos sintetizadores, Carlos Paião levou a Synth-Pop portuguesa à Eurovisão, com uma crítica à música plástica e aos cantores sem voz que começavam a proliferar na altura. O tema era brilhante e certeiro, mas a Europa não percebeu e "Play-Back" nao foi além do 18º lugar. Os anos seguintes iriam provar que a carapuça serviu 'a Eurovisão e o Carlos estava certo. Grande Carlos, grande talento.

4. Sara Tavares — "Chamar A Música" (1994)


A Sara foi a Dublin com 16 aninhos para mostrar um vozeirão à Europa e que pena que nao foi além do 8º lugar. Foi uma boa classificação para Portugal, eu sei, mas "Chamar a músicá" apanhou-me na fase de maior euforia com a Eurovisão e a canção era tão boa que estava convencido que íamos ganhar. Uma pena.

3. José Cid — "Um Grande, Grande Amor" (1980)


"Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye / Amore, amour, meine Liebe, love of my life". Se há canção da Eurovisão que entrou para o cânone da cultura popular portuguesa, foi esta ode ao amor emigrante do José Cid. O Zé levou à Holanda um penteado que iria definir os agrobetos ribatejanos durante décadas (conheci uns quantos tirados a papel químico) e uma música para ganhar. Diria até que em toda a história do Festival da Canção, não consigo pensar em tema mais eurovisionável que "Um Grande, Grande Amor". Ok, o título é capaz de ser fatela (já não usava esta palavra há uns 15 anos), mas a canção preenche todos requisitos. Começando pela letra, europeia e acessível. Justificando as comparações, José Cid nunca soou tanto com Elton John como neste tema (aliás, em 1980, Cid soava mais a Elton que o próprio Captain Fantastic e é bastante discutível quem era melhor). José Cid igualou na altura Carlos Mendes na melhor classificação de sempre para Portugal (ficámos em 7º), mas soube a pouco. O Zé merecia mais. 

2. Simone de Oliveira — "Desfolhada Portuguesa" (1969)


Simone, o furacão português, foi a Madrid em Março de 1969 para trazer o caneco da Eurovisão. A aposta era forte, mas fundada. A "Desfolhada Portuguesa" era um tema poderoso e viciante, que se afigurava como um dos principais favoritos à vitória daquele ano. Portugal parou para ver Simone de Oliveira fazer uma interpretação sísmica e atingir... Um inenarrável 15º e penúltimo lugar. "Portugal venceu com o penúltimo lugar", denunciou na altura a revista Flama. A Europa deve ter corado de vergonha quando deu 4 pontos a Simone de Oliveira. Bem, a Europa não sei, mas os espanhóis coraram de certeza, porque correram para o camarim dela para imediatamente lhe pedir desculpas pelo vexame. Vexame deles, claro, que a Simone esteve fantástica. "Sigo cantando", atirou ela, do alto de quem sabe que fez a sua parte. É a rainha do festival da Eurovisão e qualquer lista com as melhores músicas tem que ter a Simone no topo. Bem, a minha não tem, mas já vão perceber porquê.

1. Anabela — "A Cidade (Até Ser Dia)" (1993)


A Anabela foi o meu primeiro grande crush de criança, tinha eu 7 aninhos (ela tinha 16, por isso hey, não é assim TÃO esquisito). Talvez pela minha paixoneta de infância, eu seja tao parcial relativamente à perfeição de "A Cidade (Até Ser Dia)". Para mim, a canção que a Anabela levou à Irlanda continua a ser a melhor que Portugal teve na Eurovisão. É tudo perfeito. Desde o charme urbano das trompetes a anunciar o refrão, passando pelo crescendo vocal até uma nota impossível no refrão ("cidadeeeeee" — na atabalhoada versão das semi-finais do Festival da Canção ela ainda não a arriscava), até à entrada triunfal das backing vocals que complementam na perfeição a voz angelical da Anabela. Já passaram quase 30 anos e ainda me apaixono por ela sempre que recordo o vídeo no Youtube. Se isto não é o poder de uma canção, não sei o que é.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Criptomoeda? Não, discos de vinil

Já terão ouvido os vossos pais e os vossos avós dizer que comprar ouro é o melhor investimento. Não é arriscado como criptomoeda, acções em bolsa, ou fundos de investimento e dá um retorno seguro. Muito bem, mas qual é a piada? A não ser que sejam fãs de numismática, nenhuma. E mesmo se forem, o nível de divertimento é seriamente discutível. Já os discos de vinil? Horas de diversão a comprar e a ouvir e um retorno absurdamente elevado. É plástico envolto numa capa de cartão, certo, mas se souberem "investir", isto é, se souberem o que comprar, o vinil deixa a criptomoeda de rastos. Como? Aqui o tio Nuno explica.

A lógica de mercado dos discos de vinil tem as suas nuances, mas na base, é relativamente fácil de entender — o preço é função directa da raridade do disco e da sua procura. Os discos lançados nos anos 90 e anos 00 (décadas "mortas" do vinil) tiveram prensagens limitadas, pelo que os preços destes discos é invariavelmente alto, mesmo que a procura não seja muito grande. Se a procura for grande, então o preço explode. Um exemplo simples é a discografia dos Radiohead nos 90s. Partindo do princípio que os Radiohead são uma banda muito popular, incluindo nos dias de hoje (12.6 milhões de ouvintes mensais no Spotify), as prensagens originais dos seus álbuns serão sempre caras; tendo sido lançados nos 90s, esse preço dispara; e nos álbuns mais consagrados, o preço é ainda mais obsceno. Senão vejamos: o preço médio da primeira prensagem britânica do "Pablo Honey" — álbum raro, mas pouco popular — são na ordem dos 100€ (dados do Discogs); já as primeira prensagens do "The Bends" e "Ok Computer" (o mais popular, mas também o mais comum) andam à volta dos 200€ — o dobro do "Pablo Honey". Qualquer um destes discos, se o encontrarem "in the wild" (que é como quem diz, perdido numa loja de discos) por um preço razoável abaixo dos 100€, é sempre de compra imediata. O investimento é de retorno garantido.

Aconteceu-me exactamente isto neste fim-de-semana, quando andava no meu record shop tour em Londres. No mesmo dia, em lojas diferentes, vi o "Smile Sessions" dos Beach Boys e o "Singles Collection" do David Bowie, ambos por 50£. Comprei os dois sem pestanejar. Quando cheguei a casa, pus o "Smile Sessions" no eBay pelo triplo do preço e dois dias depois estava vendido. Não o pus à venda, mas se fosse para o eBay, fazia o dobro facilmente. Limpinho, limpinho.

As nuances deste mercado são a chave para saber onde investir. Qualquer edição limitada é à partida um bom investimento, uma vez que quando ficar fora de circulação, o preço automaticamente duplica. E nisto dos discos, nunca há desvalorização. Se o preço por alguma razão duplicar, é aí que fica estabelecido para sempre. A não ser que haja uma reedição e aí quebra um pouco, pelo menos até essa reedição sair de circulação. Depois volta ao mesmo preço, ou a um preço superior.

É preciso também ter em atenção os fenómenos que causam os picos de subida. Já vimos que a saída de circulação (o disco ficar out-of-print) é um deles. A morte do artista é o mais óbvio de todos, sendo o caso mais flagrante a morte de David Bowie, que fez disparar os preços de toda a sua discografia. A prensagem original (e única até hoje) do "Older" do George Michael já andava a precos proibitivos, na ordem dos 100€ a 200€ antes da sua morte. Hoje, o preco médio no Discogs é de 650€. Sim, leram bem. 650€ por um disco de vinil. Falem-me lá agora da valorização da Bitcoin.

Recentemente, temos também o caso da separação dos Daft Punk, que criou um pico de procura absurdo no Discogs, o maior da história da banda. Temos também o caso dos Queen, em que o filme "Bohemian Rhapsody" fez disparar o custo de todos os discos para o dobro. E mesmo se não considerarmos estes picos, a valorização é sempre uma constante, especialmente para os discos mais antigos, cada vez mais difíceis de encontrar em boas condições.

Sou um coleccionador e não um negociante de discos, mas quando vejo uma oportunidade de negócio, não resisto a meter a mão. No ano passado vi uma caixa "The Rolling In Stones in Mono" selada por 300£; pus no eBay a 900£ e em três meses estava vendida pelo preço que estabeleci. Ouro? Não, plástico. Muito mais fixe, tem o bónus de dar música e não estão dependentes da volatilidade dos mercados, das políticas do governo, ou de declarações incendiárias do Elon Musk que vos fazem perder tudo. A vossa colecção de música, para além de cool as fuck, está sempre a valorizar. A música nunca perde valor.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Ryan Adams, o culpado de todos os pecados de décadas de "má conduta sexual"

Ryan Adams caiu em desgraça em 2019 quando, em pleno auge do movimento #metoo, o New York Times fez uma reportagem com testemunhos de ex-namoradas que não tinham grandes coisas a dizer sobre ele. A reportagem dava também conta de trocas de mensagens com raparigas menores, que o FBI prontamente se encarregou de investigar. Esta última acusação, gravíssima, acabaria por não dar em nada, uma vez que ficou provado que a rapariga mentiu sucessivamente sobre a sua idade. Já os relatos das ex-namoradas, aparentemente mais prosaicos, ditaram o fim da carreira de Ryan Adams; não porque ele tenha cometido algum crime, mas sim porque terá sido prevaricador de, cito, "má conduta sexual". O tribunal? A imprensa musical.

Ryan tentou retratar-se, mas o artigo do NYT causou um terramoto nas redes sociais tao grande, que obrigou o artista americano a cancelar a tourné que tinha planeada para a Europa (eu tinha bilhete para o Royal Albert Hall), bem como o lançamento da trilogia de álbuns que estava prevista para esse ano e que à data começava com "Big Colors", seguido de "Wednesdays" e por fim, "Chris". Nenhum deles viu a luz do dia em 2019.

Desde então, Ryan Adams tentou reatar a sua carreira, sem sucesso. No ano passado, o leak do álbum "Wednesdays" precipitou o lançamento online do segundo disco da trilogia que tinha programado. Porém, nenhum órgão da imprensa mainstream arriscou sequer fazer uma review do álbum. O disco foi completamente ignorado pela mesma imprensa que o queimou e o tornou o réu de todos os crimes alguma vez cometidos no mundo da música. Mesmo que aparentemente ele não tenha cometido nenhum.

Ryan Adams foi o mártir perfeito. Um músico suficientemente conhecido e criticamente laureado para que a imprensa musical o pudesse dizimar e com isso hastear a bandeira do #metoo contra os homens brancos e poderosos; mas não tão conhecido e influente que colocasse em risco a própria imprensa, que não quer ter uma horde de milhões de fãs dos Beatles, dos Stones, ou dos Red Hot furiosos à sua porta. Ajudou também que a maioria dos fãs do Ryan Adams fossem hipsters com demasiada self-awareness social, com medo de sequer questionar os quês e porquês do linchamento que se estava a fazer ao músico. Ai de alguém que arriscasse sair em defesa da música de Ryan Adams. Sim, porque no fim do dia, é de música que estamos a falar.

Atentem, depois de ler a história do New York Times e fazendo fé que é verdade (o que não sabemos ao certo), eu também não iria aconselhar uma amiga minha a sair com o Ryan Adams. Nem teria grande interesse em incluir alguém tao insuportavelmente queixinhas e miserável no meu grupo de amigos (e o mesmo diria da Phoebe Bridgers, mas nem vou entrar por aí). Mas não é de avaliações pessoais que se trata, pois não? Estamos a falar de música. Se é boa (e "Wednesdays" é pelo menos metade excelente) ou má. Podemos julgar para um lado ou para o outro, não podemos é fingir que não existe.

Notem que também não estou a dizer que os órgãos de comunicação social devem ter a obrigação de escrever sobre a música de Ryan Adams. Se querem ignorar por princípios morais, ok, eu aceito. Mas essa é uma espada muito pesada que mais cedo do que tarde se vai virar contra os próprios. É que se Ryan Adams está fora para estes guerreiros sociais, então não é aceitável escrever sobre nomes como: John Lennon (por bater na mulher), Lou Reed (idem), George Harrison (por ser mulherengo), Eric Clapton (idem), David Bowie (mais um réu de má conduta sexual), Iggy Pop (idem), Keith Richards (idem), Mick Jagger, Marvin Gaye, Elvis Presley, Anthony Kiedis, Steven Tyler, Jimmy Page (todos por se envolverem com raparigas menores). Se não escreverem sobre nenhum destes, nem sobre todos os músicos que alguma vez foram acusados por alguma mulher de "má conduta sexual" (#believeher, nunca esquecer), vão ter a vida muitíssimo dificultada, mas respeito. De outra forma, estão a incorrer numa terrível hipocrisia.

Ou então façam uso da vossa liberdade para falar na música do Ryan Adams, dizendo tudo o que vos vai na alma, chamando-o de porco se quiserem, mas reconhecendo a sua existência, como fazem com os outros. Passado o turbilhão do #metoo, Ryan Adams foi praticamente o único que no mundo da música pagou por todos os pecados de décadas de, citando, "más condutas sexuais". Todos sabemos o que aconteceu com nomes bem mais sonantes do que ele. 

Voltando ao que interessa, à música, Ryan Adams prepara-se para lançar aquele que supostamente seria o primeiro volume da sua trilogia programa para 2019 - "Big Colors". Esta semana já pudemos ouvir uma amostra - "Do Not Disturb" -, um slow burner que é muito mais entusiasmante que o primeiro tema deste disco que conhecemos em 2019 - "Fuck The Rain" (que entretanto desapareceu de todas as plataformas online). Fico ansiosamente à espera de mais novidades de "Big Colors", especialmente depois de ter ficado rendido a "Wednesdays" no ano passado. Se estão hesitantes em ouvir a música de Ryan Adams por causa do que ele terá ou não terá feito há 10 anos, o meu conselho é seguirem as palavras sábias de Steve Van Zandt - "Confiem na arte, nunca no artista". Gostam do álbum? Não tenham problemas em admitir. #metoo