sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

O melhor e o pior de sempre do Rock In Rio Lisboa

Quem foram os Freddie Mercurys e os Adam Lamberts nos 16 anos de Rock In Rio Lisboa

“Se a vida começasse agora e o mundo fosse nosso outra vez”

Há 17 anos, Roberta Medina aterrou em Lisboa com um sonho. O sonho era organizar em Portugal um Rock In Rio, um dos maiores icónicos festivais de música do mundo. Era uma nova vida que começavam para Roberta, que tinha como objectivo conquistar o mundo outra vez. Ela encontrou muitos percalços pelo caminho, mas não restam dúvidas que o sonho do Rock In Rio Lisboa foi concretizado.

Para Portugal, foi uma revolução. Tudo mudou no que a festivais diz respeito. A chegada do Rock In Rio levantou a bitola e obrigou a que a concorrência tivesse que se adaptar para sobreviver. O Rock In Rio provou que era possível trazer para Portugal nomes como Paul McCartney, algo iniminaginável no passado. Até nas pequenas coisas, o festival marcou a diferença. Por exemplo, provou que era possível ter casas de banho dignas num festival de música. Obrigado por tudo, Roberta.

Na antecâmara da décima edição do Rock In Rio Lisboa (nona, se descontarmos a mini-edição do ano passado), vamos fazer um resumo do que a Roberta nos trouxe na últimas duas décadas, começando pelo melhor e deixando o pior para o fim. Vamos também identificar quem é que foram os Freddie Mercurys e os Adam Lamberts de cada edição do Rock In Rio Lisboa. Comecemos então com o crème de la crème.

1. 2004

O grande triunfo de Roberta Medina. A primeira edição continua imbatível. Roberta quis impressionar os portugueses e não teve mãos a medir para conseguir para o "melhor festival do mundo", um cartaz do outro mundo. Começando pelo quase-milagre de ressuscitar uma banda que na altura estava morta — os Guns N’ Roses (que acabaram por cancelar e ser — bem — substituídos pelos Foo Fighters). Houve um histórico dia de Metal que marcou a reconciliação dos Metallica com o público português e foi o primeiro de uma série de concertos anuais na década que se seguiu. O dia Pop teve a sua princesa — Britney Spears; o lendário Peter Gabriel apareceu apareceu dentro de uma bola saltitona.
O corolário chegou no último dia, o qual teve um rodízio que juntou Sting, Alicia Keys, Alejandro Sanz, Ivete (pois claro), Luis Represas e Pedro Abrunhosa (ufa) a, atentem, 110 mil pessoas. Foi uma maratona que terminou às 4 da manhã e só porque alguém da Câmara de Lisboa ameaçou desligar a ficha. E não, não me esqueci, o Rock in Rio teve Paul McCartney num "Dia Zero" só para ele. Paul. McCartney. Um Beatle! No Rock In Rio. 'Nuff said.
Freddie Mercury: Paul McCartney, obviamente. Mas atenção ao show dos Metallica.
Adam Lambert: Black Eyed Peas. O que é que foi aquilo?

2. 2012

E à quinta edição, finalmente Bruce Springsteen. Aleluia. Aleluia. O Senhor seja louvado, as nossas preces foram ouvidas. O maior showman do planeta veio a Lisboa converter os infiéis à sua religião e mudou as vidas das 80 mil pessoas que entraram naquele dia no Parque da Bela Vista, sem saber o que as esperava. Vadios como nós, nascemos para correr.
E calma, que não foi tudo. Importa referir que esta edição viu a (merecida) redenção do maior saco de pancada da crítica dos 10 anos anteriores — os Limp Bizkit. O Parque da Bela Vista já estava à pinha a umas inauditas 5 da tarde, para se deixar enrolar (!) nos hits dos Bizkit. E isto foi só o início de um dia "Revenge Of The 90s" encabeçado pelos Smashing Pumpkins, que também teve Offspring e Linkin Park. Ah, o regresso ao pátio do liceu. Onde é que estão os Skunk Anansie e os Guano Apes?
O primeiro dia teve os obrigatórios Metallica a tocar o Black Álbum na íntegra e o dia de Stevie Wonder teve Bryan Adams a roubar-lhe os holofotes com uma performance olímpica. A Ivete desta feita apareceu no dia de Lenny Kravitz porque, como sabemos, a raiz quadrada de “Fly Away” é o “Arerê” .
Freddie Mercury: Bruce Springsteen. Ou não fosse Freddie o nome do meio do Bruce. True story.
Adam Lambert: Maroon 5. Provavelmente o maior embuste que se auto-intitula "banda Rock".

3. 2006

A segunda edição viu Roberta ter a árdua tarefa de igualar as expectativas do primeiro ano. O bonito sonho chamado Pink Floyd foi desfeito, uma vez que Roger Waters não conseguiu convencer o David Gilmour, na ressaca do glorioso comeback no Live 8. Foi então o Roger pregar sozinho o "The Dark Side Of The Moon" na íntegra para o Mundo, com paragem na Bela Vista.
Os Red Hot Chili Peppers incendiaram o festival com o então novíssimo "Stadium Arcadium", naquela que seria a despedida de John Frusciante dos palcos (voltaria à banda no ano passado).
O dia Pop teve a então mega estrela Shakira, que apareceu no jornal da noite da SIC a falar português para deleite do público. Ah e a Roberta lá conseguiu finalmente trazer os Guns N’ Roses. Não foram bem os Guns N’ Roses, mas pelo menos o Tio Axl veio em grande forma.
Freddie Mercury: Roger Waters. Ou como ele próprio se intitula — "o génio criativo dos Pink Floyd" e "o inventor do espectáculo Rock". Ganda Roger.
Adam Lambert: Sting. Foi o patriarca das 110 mil pessoas em 2004 e regressou na edição seguinte para um dos concertos mais mortos que eu já assisti. E isto na escala Sting, o que não é de somenos.

4. 2008

À falta de headliners gigantes como nas primeiras edições, a Roberta optou por fazer um cartaz sólido, a parar em todos os apeadeiros. Linkin Park, Offspring e Muse juntos? Ok, aceita-se. Mas Lenny Kravitz, Ivete e Amy Winehouse? Oi? Tokio Hotel e Rod Stewart? Tirando a laca, não estou a ver a relação. Mas a ideia terá sido precisamente essa. Maior espectro, mais gente.
2008 viu o regresso dos Metallica depois do triunfo de 2004 e eles não desiludiram. Contudo, o grande vencedor do festival e um dos melhores concertos da história do Rock In Rio, foi sem dúvida o espectáculo electrizante dos Bon Jovi. Não sei como é que o concerto não foi interrompido pelo Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, uma vez que a banda das docas de New Jersey pegou fogo ao Parque da Bela Vista.
Freddie Mercury: Bon Jovi. Que show electrizante!
Adam Lambert: Amy Winehouse. Coitada. Se virem o documentário Amy, percebem.

5. 2016

2016 foi uma edição de contrastes. Foi aqui que o Palco Mundo passou a ter 3 bandas por dia. Um insulto à data, para quem estava habituado a ver 4, 5, ou até 6. Mas isso até poderá fazer algum sentido, dirão, se em vez da quantidade se apostar na qualidade. E foi esse o caso em parte desta edição.
O pontapé de saída foi dado por Bruce Springsteen, num desfile triunfal de êxitos depois do sucesso de 2012 e de uma participação especial no set dos Stones em 2014. Os Queen+ Adam Lambert vieram ao segundo dia e pudemos replicar aquele momento histórico no Rio em 1985, com dezenas de milhar de pessoas a cantar Love Of My Life, mas desta feita sem Freddie e com um cantor de cabaret a assassinar a música dos Queen. O que vale é que eu perdoo tudo ao Dr. Brian May.
O segundo fim‑de‑semana foi uma casa de horrores. Começou com o abandono do palco pelos Korn - o nome forte do dia de Metal -, por dificuldades técnicas. Depois de 3 quebras de energia no palco, a banda americana fartou-se da organização e foi-se embora.
Tivemos também Ivete duas vezes, devido ao cancelamento da Ariana Grande no último dia (ultrapassando assim o número de performances de Ivete no Rock In Rio relativamente ao número de edições do Rock In Rio). O festival fechou com uma visão distópica do futuro, com a música “ao vivo” a sair de uma pen e Avicii no palco a desenhar rectângulos com as mãos, a ser o headliner do festival. Assustador.
Freddie Mercury: Bruce Springsteen, pois claro. Avé Boss.
Adam Lambert: Curiosamente, o Adam Lambert de 2016 não foi o Adam Lambert. Nada foi, nem nada podia ser, tão mau como o Avicii.

6. 2014

A edição em que a Roberta queimou o orçamento todo nos Rolling Stones e depois só restou dinheiro para trazer a Ivete e o dançarino gordo dos Take That. Estou a brincar, o Robbie não era grande dançarino. Mas deu um dos melhores concertos desta edição.
2014 foi também a edição dos grandes insultos. Começando pela comunidade hipster, que se sentiu unamimemente insultada por ser obrigada a ir ao "festival das farturas" (estou a citá-los) ver os Arcade Fire. E continuando comigo, que me senti insultado por ver os Queens Of The Stone Age em topo de forma a tocarem 80 minutos, para dar mais tempo ao cabeça de cartaz desse dia... Steve Aoki. Era um bolo nas trombas.
Freddie Mercury: The Rolling Stones. Com participação especial de Bruce Springsteen!
Adam Lambert: Steve Aoki. Não dá. Menos, Roberta. Muito menos. Isto não é o Tomorrowland.

7. 2010

Foi à quarta edição que as coisas começaram a ficar mais tremidas. O número de bandas no palco mundo ficou estabelecido nas 4 e a repetição no cartaz começou a ser uma constante. Shakira e Ivete repetiram o par de 2006 e Muse repetiram 2008, mas agora como headliner. No lado positivo, Elton John foi à Bela Vista corrigir uns mal entendidos e o dia de Metal teve Motörhead e Megadeth "back to back", num dos melhores cartazes "pesados" de sempre do Rock In Rio.
Freddie Mercury: Elton John. Uma lição de como se faz.
Adam Lambert: Muse. Bocejo.

8. 2019

Uma edição curta, comemorativa dos 15 anos do festival. Teve Massena com uma orquestra, teve a inevitável Ivete e teve um concertão de James na Torre de Belém, com um Tim Booth praticamente afónico a dar tudo o que tinha e muito do que não tinha. Teve a desculpa de ser curto e de ser de borla. Considerei isto uma redenção do fiasco de 2018 e espero que 2020 mostre melhoras.
Freddie Mercury: James.
Adam Lambert: A gripe do Tim Booth.

9. 2018

Um cartaz praticamente insultuoso com 3 bandas por dia no Palco Mundo e uma selecção que parece ter sido feita numa tarde. Onde noutros anos pontificaram Bruce Springsteen e Paul McCartney, houve Muse e The Killers. É curto. A Pop ficou bem servida com Bruno Mars e Katy Perry, mas o festival chama-se Rock In Rio. Se é para isto, Roberta, mais vale estares quieta.
Freddie Mercury: Oi?
Adam Lambert: Não sei. Não fui. Caguei


















• 28/05
◦ Paul McCartney
• 29/05
◦ Peter Gabriel
◦ Ben Harper
◦ Jet
◦ Gilberto Gil
◦ Rui Veloso
◦ Nuno Norte
• 30/05
◦ Foo Fighters
◦ Evanescence
◦ Seether
◦ Kings of Leon
◦ Charlie Brown Jr.
◦ Xutos & Pontapés
• 4/06
◦ Metallica
◦ Incubus
◦ Slipknot
◦ Sepultura
◦ Moonspell

• 5/06
◦ Britney Spears
◦ Black Eyed Peas
◦ Daniela Mercury
◦ Sugababes
◦ João Pedro Pais
◦ Nuno Norte
• 6/6
◦ Sting
◦ Alicia Keys
◦ Pedro Abrunhosa
◦ Alejandro Sanz
◦ Ivete Sangalo
◦ Luís Represas


Rock in Rio Lisboa 2
Edit
The second edition of Rock in Rio Lisboa was held in 2006, on 26/27 May and 2/3/4 June.
• 05/27 Friday
◦ Shakira
◦ Jamiroquai
◦ Ivete Sangalo
◦ D'ZRT
• 05/28 Saturday
◦ Guns N' Roses
◦ The Darkness
◦ Xutos e Pontapés
◦ Pitty
• 06/02 Friday
◦ Roger Waters
◦ Carlos Santana
◦ Rui Veloso
◦ Jota Quest
• 06/03 Saturday
◦ Red Hot Chili Peppers
◦ Da Weasel
◦ Kasabian
◦ Orishas
• 06/04 Sunday
GNR
◦ Sting
◦ Anastacia
◦ Corinne Bailey Rae
◦ Marcelo D2


Rock in Rio Lisboa III
Edit
May 30
• Paulo Gonzo
• Ivete Sangalo
• Amy Winehouse
• Lenny Kravitz (and Daniel R.)
May 31
• Skank
• Alanis Morissette
• Alejandro Sanz
• Bon Jovi
June 1
• Docemania
• Just Girls
• 4 Taste
• Xutos & Pontapés
• Tokio Hotel
• Joss Stone
• Rod Stewart
June 5
• Metallica
• Machine Head
• Apocalyptica
• Moonspell
June 6
• Linkin Park
• The Offspring
• Muse
• Kaiser Chiefs
• Orishas

Rock in Rio Lisboa IV[17]
May 21 / 82.000
• Shakira
• John Mayer
• Ivete Sangalo
• Mariza
May 22 / 45.000
• Elton John
• Trovante
• Leona Lewis
• 2 MANY DJS LIVE
• João Pedro Pais
May 27 / 85.000
• Muse
• Snow Patrol
• Xutos & Pontapés
• Fonzie (replaced Sum 41)
• Sum 41 (canceled)
May 29 / 95.000
• Miley Cyrus
• McFly
• D'ZRT
• Amy Macdonald
May 30 / 38.000
• Rammstein
• Motörhead
• Megadeth
• Soulfly


Rock in Rio Lisboa V[17][19]
• 5/25 Friday
◦ Palco Mundo: Metallica, Evanescence, Mastodon, Sepultura, Tambours Du Bronx
◦ Palco Sunset: Kreator + Andreas Kisser, Mão Morta + Pedro Laginha, Ramp + Teratron
◦ Eletrónica Heineken: Chase and Status, DJ Set & Rage, Dr Lectroluv, Life is a Loop, Leo Janeiro, Tha lovely Bastards (Mad Mac and Nuno Lopes), Bis Boys Please, MC Johnny Def
◦ Rock Street:
• 5/26 Saturday
◦ Palco Mundo: Linkin Park, Smashing Pumpkins, The Offspring, Limp Bizkit
◦ Palco Sunset: Xutos & Titãs, Mafalda Veiga & Marcelo Jeneci, Rita Redshoes & Moreno Veloso
◦ Eletrónica Heineken: Azari & III, The Magician, Punks Jump Up, The Discotexas Band, Pedro Quintão, Mirror People (Rui Maia/X Wife), MC Johnny Def
◦ Rock Street:
• 6/1 Friday
◦ Palco Mundo: Lenny Kravitz, Maroon 5, Ivete Sangalo, Expensive Soul
◦ Palco Sunset: Boss Ac & Zé Ricardo + Paula Lima, Orelha Negra + Hyldon + Kassin, Black Mamba & Tiago Betencourt
◦ Eletrónica Heineken: Jamie Jones, Maceo Plex, Dyed Soundorom, Kings of Swingers (Renato Rathier + Mau Mau), Magazino, José Belo + Zé Salvador, MC Johnny Def
◦ Rock Street:
• 6/2 Saturday
◦ Palco Mundo: Stevie Wonder, Bryan Adams, Joss Stone, The Gift
◦ Palco Sunset: Luis Represas & Joao Gil & Jorge Palma, Amor Electro & Moska, Ana Free + The Monomes
◦ Eletrónica Heineken: Masters at Work (Louie Vega + Kenny Dope Gonzales), The Martinez Brothers, JohnWaynes Live DJ, Miguel Rendeiro, DJ Poppy, MC Johnny Def
◦ Rock Street:
• 6/3 Sunday
◦ Palco Mundo: Bruce Springsteen & The E Street Band, Xutos & Pontapés, James, Kaiser Chiefs
◦ Palco Sunset: Rui Veloso + Erasmo Carlos, David Fonseca + Convidado, Carminho + Convidado
◦ Eletrónica Heineken: DJ Harvey, DJ Vibe, Dop Live, DJ Dixon, Stereo Addiction, Mc Johnny Def
◦ Rock Street:


Rock in Rio Lisboa (2014)
Edit
Rock in Rio Lisboa VI[23]
World Stage
May 25 (Sunday)
May 29 (Thursday)
May 30 (Friday)
May 31 (Saturday)
June 1 (Sunday)
Ivete Sangalo
00:00
Robbie Williams
22:00
Paloma Faith
20:30
Boss AC & Aurea
19:00

The Rolling Stones
23:45
Gary Clark, Jr.
22:00
Xutos & Pontapés
20:30
Rui Veloso with Lenine & Angélique Kidjo
19:00

Steve Aoki
00:30
Linkin Park
22:30
Queens of the Stone Age
20:45
Capital Inicial
19:00

Arcade Fire
23:55
Lorde
22:00
Ed Sheeran
20:30
tribute to António Variações
19:00

Justin Timberlake
23:45
Jessie J
22:00
Mac Miller
20:15
João Pedro Pais & Jorge Palma
18:45
Kika
17:30

Rock in Rio Lisboa (2016)
Edit
Rock in Rio Lisboa VII[23]
World Stage
May 19 (Thursday)
May 20 (Friday)
May 27 (Friday)
May 28 (Saturday)
May 29 (Sunday)
Bruce Springsteen
23:45
Xutos & Pontapés
22:00
Stereophonics
20:30
Rock in Rio - the Musical
19:00
Queen + Adam Lambert
23:45
Mika
22:00
Fergie
20:30
Rock in Rio - The Musical
19:00
Hollywood Vampires
23:45
Korn
22:00
Rival Sons
20:30
Rock in Rio - The Musical
19:00
Maroon 5
23:45
Ivete Sangalo
22:00
D.A.M.A & Gabriel, o Pensador
20:30
Rock in Rio the Musical
19:00
Avicii
22:45
Ivete Sangalo (replaced Ariana Grande)
21:00
Ariana Grande (cancelled)
21:00
Charlie Puth
19:30
Rock in Rio - O Musical
18:00

Rock in Rio Lisboa (2018)
Edit
Rock in Rio Lisboa VIII[24]
World Stage
June 23 (Saturday)
June 24 (Sunday)
June 29 (Friday)
June 30 (Saturday)
Muse
Bastille
Haim
Diogo Piçarra

Bruno Mars
Demi Lovato
Anitta
Agir

The Killers
The Chemical Brothers
Xutos & Pontapés
James

Katy Perry
Jessie J
Ivete Sangalo
Hailee Steinfeld
June 24 sold out almost three months prior to the festival.[25]

domingo, 19 de janeiro de 2020

NOS Alive ataca a Pop e Rock In Rio volta ao Rock

Quando, no ano passado, o NOS Alive anunciou os nomes de Taylor Swift e Billie Eilish como cabeças do seu cartaz para 2020, as redes sociais do festival explodiram em ira pela alegada rockinriozação do Alive. Percebe-se porquê. Na última década, o Alive explorou a viragem à Pop do Rock in Rio, à EDM do Sudoeste e ao Hip Hop do Super Bock Super Rock, para se cimentar como o melhor cartaz de Rock em Portugal. A única concorrência vinha de Paredes de Coura, mas esse era demasiado pequeno, demasiado longe e demasiado hipster para fazer mossa à máquina trituradora do Alive. No Rock, o Alive era Rei e Senhor.

Contudo, para 2020, o Alive quer mais.

Aparentemente, não foi suficiente ter sugado todo o sumo do Rock ao Rock In Rio, transformando-o numa punchline recorrente de piadas sobre a mercantilização dos festivais e acusações de um Rock In Rio sem Rock, nem Rio. Para 2020, o Alive quer também atacar os alvos Pop, tradicionalmente destinados ao Parque da Bela Vista; e fá-lo num ano em que o autodenominado "maior festival de música do mundo" regressa a Lisboa. Taylor Swift parecia um casamento perfeito com aquela slot historicamente destinada à Britney Spears, Shakira, ou Adriana Grande, mas em vez disso, vai para a slot onde dantes estiveram Arctic Monkeys, Pearl Jam, ou Radiohead. Eu gosto da Taylor Swift, mas não deixa de ser uma evolução bizarra.

Como se não bastasse este ataque à Pop, o Alive apresenta também para a sua edição de 2020 um trunfo do Hip Hop habitualmente apresentado pelo Super Bock Super Rock — Kendrick Lamar. A resposta do SBSR foi A$AP Rocky, mas sente-se que é como quem responde uns Ocean Colour Scene, a uns Oasis. Não é bem o mesmo campeonato. A não ser que venha daí um Kanye West para o Meco, o festival vai ficar claramente a perder.

Com esta aparente viragem à Pop e ao Hip Hop do Alive, o público mais antigo e mais fiel do festival sentiu-se traído. Era óbvio que isto iria acontecer e foi com certeza discutido na organização do festival. Mas tentando ser o mais objectivo possível, o que é que isso lhes interessa? Muito pouco. A verdade é que eles vão atrás do dinheiro. Não há outra maneira de dizer isto e nem é dito em tom jocoso. É um facto. O Alive cresceu a olhos vistos na última década e passou de uma alternativa ao Rock In Rio, ao mais consagrado festival de Portugal. Ganharam o público, penetraram o mainstream e ali se querem estabilizar, uma vez que é no mainstream que estão os sponsors e daí é que vem o dinheiro a sério. E a forma de se perpetuar no mainstream é, teoricamente, seguir os passos do Rock In Rio e conquistar o público da Pop, mais disposto a deixar a nota. "Follow the money", já dizem os americanos.

Mas será que, na prática, esta é mesmo a melhor opção para garantir o sucesso do festival? Não tenho a certeza. Esta viragem tem muitos riscos, começando pelo facto do público da Pop ser extremamente volátil e, ao contrário dos fiéis do Rock, vai-se embora com a mesma facilidade que vem. Mas o Alive está apostado em domar a arte do mainstream sem incorrer no pecado da vulgarização em que se deixou cair o Rock In Rio. Para isso, dá também "uma na ferradura" e vai buscar o mais alternativo Kendrick Lamar. Falta ainda anunciar um headliner e eu aposto que a Everything Is New guardou para o fim um crowd-pleaser o Rock. Os Pearl Jam são uma possibilidade, mas eles estão em Londres nesse fim-de-semana. Aguardemos.

Todos sabemos da parceria do Alive com o Mad Cool e de como os festivais partilharam os cartazes nos últimos anos, muitas vezes apenas trocando os dias. Portanto esta mudança foi concertada, ou pelo menos acordada entre ambas as partes. Falta saber se quem ditou esta viragem foram os portugueses, se os espanhóis. Os primeiros números não são os mais animadores para o Alive. Num ano normal, por esta altura já os passes estariam todos esgotados e os grupos de trocas de bilhetes no Facebook já andariam a ferver com preços ultra-inflacionados. Até ver, anda tudo muito calmo para os lados de Algés.

Ao contrário da Bela Vista.

Nem tudo são más notícias para os roqueiros portugueses. A viragem à Pop no Alive abre o flanco para o regresso do Rock... ao Rock In Rio. Esta semana, o festival de Roberta Medina anunciou o nome de Liam Gallagher (obrigado, Roberta!) para o mesmo dia que Foo Fighters e The National, num cartaz épico, reminiscente das gloriosas edições dos Anos 00. A reacção do público foi imediata e logo no dia a seguir, esgotaram os bilhetes do Continente e os vouchers alocados ao dia do mancuniano, o que fez estalar a polémica nas sociais. Uma polémica das que se querem quando se organiza um festival. — quando toda a gente quer bilhetes e não há. Parece fácil, não é? Resta-nos esperar que o Rock In Rio perceba as dicas do mercado e anuncie nomes que se coadunem com a grandeza do festival e a vontade do público para o resto do cartaz. Bruce Springsteen, pretty please.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Gimme Californication - Venha daí esse novo álbum dos Red Hot Chili Peppers

John Frusciante está de volta aos Red Hot. Coisas boas que Vinte Vinte nos traz. 

Os loucos Anos 20 chegaram em força. Depois da fantástica notícia do regresso de John Frusciante aos Red Hot Chili Peppers em Dezembro passado, Chad Smith aumentou as expectativas, quando confirmou à Rolling Stone que os Red Hot estão a gravar um novo álbum com o seu novo-velho-eterno guitarrista. Significa isto que não será apenas uma reunião "à Guns N' Roses" para rechear a conta bancária, os Red Hot regressam com música nova. Exultem. É uma excelente notícia para começar a década que nos vai subtrair quase todas as lendas do passado. Os nossos ídolos dos anos 60 e 70 vão desaparecer e daqui a 10 anos, só restará o Keith Richards para contar aos poucos que sobreviverão ao apocalipse nuclear que se avizinha. É reconfortante por isso ter os Red Hot de volta à sua máxima força.

Frusciante regressa à banda de onde nunca deveria ter saído. Com ele, os Red Hot eram a banda completa. Cada elemento trazia ao grupo uma palete de influências diferente: Anthony Kiedis, o vocalista, trazia a batida do Hip Hop; Flea, o baixista, trazia o ritmo do Funk; Chad Smith, o baterista, trazia a mão pesada do Rock dos Sabbath e dos Zeppelin; John Frusciante, o guitarrista, trazia o sentido melódico de Elton John e os sons bizarros do Prog e do Psicadélico. Juntos, formaram uma força imparável que tomou os anos 90 em duas fases distintas: no início, com o fervoroso "Blood Sugar Sex Magik" (1991) e no fim, com o épico "Californication" (1999).

Este último foi a banda sonora do meu Liceu. Foi o disco mais tocado na rádio da Associação de Estudantes e o CD mais traficado no auge das cópias (lembram-se?). "Californication" foi ubíquo e unânime - o ponto de ligação entre os quatro cantos do pátio do Liceu. Foi o álbum que conseguiu unir as meninas da Pop aos fãs de Nu Metal (que estava na berra na altura); que conseguiu juntar os defensores da Britpop (como eu), com os que gostavam de Hip Hop. Basicamente, ligaram públicos diferentes da mesma maneira que a banda ligava elementos de influências distintas. O seu impacto foi imenso.

Importa lembrar que "Californication" foi também o álbum que marcou o regresso de John Frusciante aos Red Hot, depois de um interregno na banda entre 1992 e 1998, período em que foi lançado "One Hot Minute" com Dave Navarro na guitarra. Querem ver onde quero chegar, não querem? John foi para as sessões de "Californication" a fervilhar de ideias, apostado em fazer o melhor álbum de sempre dos Red Hot. Vinte anos depois, em 2020, a história repete-se. Repetir-se-á o sucesso? Aguardemos. Até lá, vou esfregando as mãos de entusiasmo. Os reis do Liceu estão de volta. E como rezam as eternas palavras de Keidis: "Come on everybody, time to deliver”. Ou então “ding dang dong dong ding dang dong dong ding dang”.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

A crucificação de ouvir Coldplay

Continua a via sacra dos fãs de "Parachutes"

Tal como Jesus Cristo se sacrificou pelos vossos pecados, também eu ouvi as novas músicas dos Coldplay. Tudo para vos trazer aqui esta review. Não sei, só posso imaginar o quão dolorosa foi a crucificação, mas ouvir as músicas novas dos Coldplay também me fez sentir um mártir. Será que valeu a pena o sacrifício?

Perguntam vocês por que raio eu me dou ainda ao trabalho. Pois, é que os Coldplay eram, há aproximadamente 20 anos, quando ainda andava no liceu (estou mesmo a ficar velho), a minha grande aposta para a melhor banda da nova década que se avizinhava. Tal afirmação arriscada baseava-se na excelência de "Parachutes", um álbum a abarrotar de sentimentos e melodias, que provou que se pode fazer Rock 'n' Roll no sótão, sem incomodar os vizinhos. Os Coldplay criaram uma obra perene, ao mesmo tempo emocionalmente densa, sublinhando as tensões da pós-adolescência, mas suficientemente simples na forma, de modo a chegar às grande massas. Preguei durante anos a chegada da banda que ia salvar o Rock no mainstream. Fui enganado. Andei eu a defendê-los no liceu para depois me fazerem isto.

Nos anos seguintes vi os Coldplay desintegrarem a sua sonoridade num bafio de IMAX balofo e insuportável. Ainda me dou ao trabalho de os ouvir porque ainda espero que dali saia uma brisa de brilhantismo. (Quase) sempre em vão. Na verdade, o álbum "Viva la Vida or Death and All His Friends" (2008) capitalizou a colaboração com Brian Eno para trazer algo de refrescante em parte do disco, caso do multi-parte "Yes". A outra parte ("Viva La Vida" à cabeça) já adivinhava o descalabro que aí vinha. O álbum "Mylo Xyloto" é um atentado aos ouvidos de quem um dia ouviu "Parachutes". A não ser que gaguejem. Nesse caso, "Paradise" será útil numa noite de karaoke.

O hype desta feita era promissor. O novo álbum "Everyday Life" foi anunciado (de forma extremamente cool, diga-se) nas secções de classificados de vários jornais um pouco por todo o mundo, incluindo um jornal do Norte de Gales onde o guitarrista Jonny Buckland trabalhou nas férias enquanto miúdo (ainda tenho um soft spot pelos Coldplay). O press release prometia uma sonoridade experimental e um novo capítulo no arco discográfico da banda britânica, na forma de um álbum duplo conceptual, dividido nos discos "Sunrise" e "Sunset". Julgando pelas primeiras amostras, a mim, soa-me à mesma merda dos últimos dez anos. Até uma música doce e potencialmente tocante como o tema-título "Everyday Life" tem que levar com aquele perfume EDM nauseante que soterrou os Coldplay da última década. O mesmo bafio que torna a audição de qualquer música da banda num martírio que devia estar previsto como um dos sacramentos de penitência para a absolvição dos pecados.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Freddie Mercury, o grande fingidor

A vida e a música do eterno vocalista dos Queen, na semana da reedição da sua discografia a solo

Em Novembro de 1986, com os Queen ainda a recuperar de uma mega-digressão que enchera Knebworth, Wembley (duas vezes) e mais de 20 estádios por toda a Europa, Freddie Mercury dava entrada nos estúdios Townhouse, em Londres, para gravar um cover. Parecia ser mais uma bizarra decisão na errática carreira a solo de Freddie. Mas para mim, a escolha de "The Great Pretender", originalmente gravado pelos The Platters em 1965, foi tudo menos um acto aleatório. Freddie começou aqui uma série de mensagens subliminares para os seus fãs, preparando-os para o que aí vinha. O que ele queria dizer, a quem estivesse com atenção, é que era ele o grande fingidor. Ele sim era o "The Great Pretender". Ninguém o levou a sério.

Freddie era um homem frágil. Vendo-o em cima do palco, ninguém diria. Ali, ele usava a máscara de macho dominante, uma força da natureza que aliava uma voz divina a uma presença em palco nunca vista antes ou depois. Ali, ele podia fingir. Mas fora das luzes e dos decibéis, onde não podia fugir à realidade, Freddie era extremamente inseguro. O seu alter-ego artístico era a bolha que o distanciava dos demais e o protegia do mundo lá fora, mas ao mesmo tempo era a prisão que o sufocava. Freddie aparentava ter muito amor à sua volta, mas sentia-se terrivelmente solitário, lamentando não ter ninguém que o compreendesse: "People have a hard time to accept me as a normal person. I'd like to share my life with someone, but nobody wants to share their life with me. The more I open up, the more I get hurt. I'm riddled with scars and I just don't want it anymore."

Freddie tinha criado uma projecção monstruosa de si mesmo que se tornara impenetrável, mesmo na sua vida pessoal. O seu alter-ego alienava toda a gente do seu verdadeiro "eu" — um homem por um lado era extremamente intenso, perigosamente volátil e de temperamento difícil, mas que no seu downtime era, segundo o próprio, apenas "aborrecido". No fim de contas, era apenas um homem à procura de aceitação. E não somos todos? Como diria o David Bowie, "apenas um mortal com o potencial de um super-homem". A única forma de Freddie fugir a este novelo que atara com a sua própria imagem era, claro está, fingindo. Através da sua música.

Não é por acaso que a música de Freddie Mercury aborda tantas vezes o tópico da solidão. E se nos Queen ele tinha algum freio, talvez devido à sua timidez ou à protecção da sua máscara ("It's A Hard Life", ou "My Melancholy Blues" são raros exemplos), quando chegou a altura de gravar o seu primeiro álbum a solo em 1983 — "Mr. Bad Guy" —, Freddie foi a todo gás para dentro da sua mente: "Living On My Own" é auto-explicativo; "Man Made Paradise" pinta o cenário da sua vida — "History repeats itself, I seem to be all by myself again"; "Mr. Bad Guy" e "My Love Is Dangerous" são um auto-retrato de um vilão — "everyone's afraid of me" / "step carefully"; "Love Me Like There's No Tomorrow" fecha o álbum confessionalmente — "God knows I learnt to play the lonely man, I've never felt so alone in all my life". É tudo extremamente pessoal. Quase incomodamente pessoal.

Por outro lado, de uma forma perversa, os temas de "Mr. Bad Guy" aliam estas letras extremamente sombrias, profundas e pessoais, a música tentativamente Gay Disco, feita com sintetizadores low budget que parecem ter vindo do Toys R Us e a uma produção barata, indigna de um disco com a assinatura do mesmo homem que em tempos escreveu "Bohemian Rhapsody". Deve ter sido estarrecedor para quem foi comprar o álbum a solo de Freddie em 1985 e se deparou com isto. É quase como que Freddie não quisesse que o público dos Queen ouvisse o seu álbum; como se ele a meio ficasse tímido ou inseguro com a forma como se estava a expor e decidisse sabotar intencionalmente o seu próprio disco. Até o título do álbum, que esteve até à ultima hora para se chamar "Made In Heaven", foi violentado. Parece ridículo, eu sei. Mas como explicar que as faixas vocais de Freddie, que deveriam ser o pano frontal da sua musica A SOLO, foram colocadas debaixo de um papel vegetal, como se Freddie estivesse a cantar na sala ao lado?

Mas tudo isto era Freddie. Uma soma de contradições explosiva e por demais fascinante. É por isto que "Mr. Bad Guy" é um álbum tão importante para perceber quem era o verdadeiro Freddie Mercury. O outro lado de "Don't Stop Me Know" é este. Nesta altura faltava-lhe o Dr. Brian May para lhe pôr o freio e Freddie deixou-se descarrilar.

Não é por isso difícil perceber que "Mr. Bad Guy" seja o patinho feio da discografia de Freddie Mercury (juntamente com "Hot Space" dos Queen, mas esse ainda foi calibrado pelo nosso astrofísico favorito). No filme "Bohemian Rhapsody", o álbum é demonizado como o disco terrível que separou os Queen. Desde o seu lançamento original em 1985, "Mr. Bad Guy" nunca mais foi revisitado. Até agora.

Uma vez que os Queen, os verdadeiros, foram votados ao esquecimento pelo Dr. Brian May e pelo Sr. Roger Taylor, demasiado ocupados a viver o sonho Americano com um cantor de cabaret nas asas do filme, abriu-se a janela natalícia para um lançamento de Freddie Mercury a solo. E Jim Beach, manager dos Queen, aproveitou para revelar a muito adiada remistura de "Mr. Bad Guy". E em boa hora o fez. Numa altura em que a imagem de Freddie é progressivamente saneada, nada melhor que recordar que para além do Bom, Freddie também tinha o Mau e o Vilão. E que era nestas linhas turvas que se desenhava a personagem mais apaixonante da História da música.

Para além da nova remistura de "Mr. Bad Guy", chegou também uma reedição da versão 2012 de "Barcelona", quando foi totalmente regravado com uma orquestra real, substituindo os sintetizadores do álbum original. E para fechar a quadra dedicada a Freddie, veio também a nova compilação "Never Boring", cujo nome foi retirado do famoso pedido que Freddie fez a Jim Beach, quando o nomeou como o seu executor testamentário e representante legal nos Queen: "Do whatever you want with my music, just never make me boring". Foi um pedido que nem sempre foi satisfeito, mas certamente que tal não foi por falta de vontade do "Miami" Beach.

Os três discos foram lançados na sexta-feira e eu passei o fim de semana a ouvir estas reedições, a reconectar-me com a discografia a solo do Freddie e a relembrar-me de como o amo. A nova remistura de "Mr. Bad Guy" é absolutamente essencial. Pela primeira vez, não parece que Freddie está a cantar noutra sala. Os sintetizadores baratos continuam lá, como sempre feios que dói, mas a composição de Freddie continua intocável e beneficia agora de uma produção mais afinada, que faz o álbum ganhar uma nova vida. Estou há 4 dias a ouvir isto num loop compulsivo.

Também a colectânea "Never Boring" traz novas remisturas das faixas avulsas de Freddie, caso de "The Great Pretender". Este é o caso de um tema que não precisava de uma remistura, mas a nova versão vale por fazer sobressair outros detalhes que antes estavam escondidos. Já a regravação de "Barcelona" datada de 2012 é exactamente isso. Datada de 2012. A gravação original, provavelmente a gravação mais próxima do divino de toda a História da música, essa é intemporal.

Freddie era o grande fingidor, mas fingia menos nos seus discos a solo. Era ali que ele deixava escapar tudo o que não conseguia dizer nos muito mais expostos discos dos Queen. É ali que podemos perceber que grande parte da grandeza deste homem vem da sua própria escuridão. E é por isso que todos estes 3 discos são documentos essenciais para a compreensão do verdadeiro Freddie Mercury. Se pelo menos o tivéssemos ouvido.

P.S.: Se não conhecem a fundo os trabalhos a solo de Freddie Mercury, aconselho-vos vivamente ouvirem esta playlist:

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Springsteen e eu

Como a música de Bruce Springsteen salvou a minha vida

Hoje faz anos um dos meus heróis. Não usa capa, não tem uma banda desenhada, mas salva vidas. Vidas como a minha. Bruce Springsteen é muito mais do que um mero herói. Os heróis têm uma vida finita e perfeita. Vivem durante um filme, um livro, uma música. Bruce é real, com todas as imperfeições que tal encerra e que constroem um personagem muito mais complexo. Um personagem que vai viver para sempre, ou pelo menos muitos anos para além da sua vida. Pelo menos e certamente enquanto eu viver e puder contar a história do meu herói.

Sabem aquele ditado que diz que nunca devem conhecer os vossos heróis? Não se aplica a Bruce Springsteen. Quando tive a honra de conhecer o meu herói numa tórrida tarde de Verão em 2014, depois de 8 horas e meia debaixo do sol à espera dele, Bruce foi tudo aquilo que eu imaginei e mais ainda que um herói pudesse ser. Quando lhe pedi para tirar uma foto comigo, ele acenou com a cabeça - o aceno mais cool que vi em toda a minha vida -, pôs-me a mão nas costas e perguntou com aquela voz deliciosamente rouca: "Ok, man, ok... Where do I look?". Eu apontei para a Cristina, que tinha o meu telemóvel e que, coitada, tremia que nem varas verdes e chorava baba e ranho. Pudera. Ela tinha acabado de dar um beijo ao Bruce e ainda estava a suster aquele nirvana. Agora tinha a tarefa hercúlea de capturar um momento chave da minha vida com uma foto. Eu e o Bruce ficámos em contraluz, mas isso acabou por dar um efeito mais etéreo à fotografia, como que se a objectiva tivesse ficado encadeada por aquele momento.


Depois saímos do hotel e no meio do banho de multidão à porta, ainda tive tempo de lhe dar o meu primeiro "Darkness In The Edge Of Town" para ele assinar. O momento ficou capturado noutra foto, onde os meus olhos brilham intensamente, a olhar o meu herói assinar o disco com que ele salvara a minha vida nos anos transactos. Com os olhos lavados em lágrimas de alegria e alívio, voltei para o carro e senti que se tinha fechado um ciclo na minha vida. Outro disco se seguiria. Outro álbum onde Bruce contaria a sua história e onde eu pudesse ler ali a minha. E assim aconteceu.

O ciclo de "Darkness" começara em Dezembro de 2008, com o meu choque frontal com a realidade da vida adulta. Ao mesmo tempo que acabava o curso no Técnico e começava uma vida rotineira de trabalho, terminava a relação mais sólida e duradoura da minha vida, a qual durou os 5 anos de faculdade. Tinham sido os meus anos "Born To Run" — o álbum onde o Bruce estampou todos os seus, e meus, sonhos de juventude. Quando nada parece impossível e o mundo parece estar ali, de braços abertos, à nossa espera. E parecia estar mesmo.

https://www.youtube.com/watch?v=nGqjav-KbDU&t=45s

Em 1975, Bruce Springsteen cometeu a incrível proeza de ser capa das revistas Time e Newsweek na mesma semana. Mas não era só a América que estava aos seus pés. A digressão de promoção de "Born To Run" teve uma passagem triunfal pelo Hammersmith Odeon em Londres, mais tarde documentada num superlativo álbum ao vivo, num concerto promovido com o outdoor "Finally London is ready for Bruce Springsteen & The E Street Band". Nada parecia impossível e a expectativa do mundo era grande, para conhecer o que Bruce tinha na manga para o álbum seguinte.

Mas Bruce prosseguia numa interminável digressão onde entravam e saíam temas novos sem aparente critério e álbum novo, nem vê-lo. O problema era um contrato que Bruce assinara com o seu antigo manager Mike Appel, que estipulava que Bruce recebesse uma ínfima parte dos direitos das suas músicas. Reza a lenda que Bruce assinou este contrato num parque de estacionamento em New Jersey, sem sequer o ler. Na prática, isto significava que a única fonte de rendimento de Bruce Springsteen vinha das suas performances ao vivo, o que o obrigava a andar indefinidamente na estrada para pagar as suas contas. Foi o choque frontal de Bruce Springsteen com a realidade da vida adulta. Desse choque, nasceu um disco — "Darkness On The Edge Of Town".

Nos meses que se seguiram ao meu choque com a realidade, vivi na agonia de quem está perdido e à procura de respostas sobre as grandes questões da vida. Como tantas outras vezes, o universo enviou-me um disco para me dar respostas. Nesse período, descobri "Darkness In The Edge Of Town". Tudo o que eu precisava de ouvir naquele momento estava condensado ali. Bruce tinha a chave, todas as respostas que eu procurava. E as respostas são que não há respostas. Os mistérios permanecem por resolver e acumulam-se numa bagagem que temos carregar e com a qual temos de viver. Essa é a chave. Saber viver com toda a bagagem e continuar nesta maravilhosa viagem.

No trailer para o filme de "Western Stars", que será lançado no próximo mês, Bruce faz um resumo da sua viagem com a própria bagagem: "Life's mysteries remain and deepen. It's answers unresolved. So you walk on through the dark, because that's where the next morning is". Nesta viagem pela escuridão que todos temos que fazer, eu encontrei a minha lanterna — a música de Bruce Springsteen.

P.S.: Se não conhecem a música do Boss, fiquem com uma playlist de Bruce Springsteen para iniciantes:

https://open.spotify.com/playlist/5li6KXJtNsDOXnYFzqxQOS?si=wZYIQyqTSVWg8WMtzF4JIQ&fbclid=IwAR0QtHsr2QX_rRwX9C7mCwaGhSLB6EERdwrLquacPbCrotdyi2hCDsp12nU

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A substância dos New Order

Atenção Paredes de Coura, vem aí uma das melhores bandas de sempre.
(atentem nas calças do Peter Hook)

Não tenho visto muito alarido sobre isto, mas caso não saibam, hoje toca em Portugal uma das melhores, mais inventivas e mais importantes bandas de sempre. Num dos acontecimentos musicais do ano, os New Order actuam mais logo em Paredes de Coura e reforçam a posição do festival como o melhor cartaz deste ano. De muito longe.

Da tragédia da morte de Ian Curtis, nasceu uma das bandas que definiu a cena alternativa dos anos 80. A importância dos New Order não é de somenos. A banda de Manchester representa tudo aquilo que deve significar o Rock 'n' Roll. Isto embora eles estejam longe de ser uma banda Rock tradicional. O que é que eles fazem? Fuck knows. Se forem à Wikipédia, talvez lá diga que é música electrónica, mas se perguntarem ao Peter Hook (que já não está na banda), ele dir-vos-á que no seu auge os New Order eram uma banda de punks. Na verdade, não há nenhuma caixa onde os New Order possam caber. Nunca nenhuma banda desrespeitou tanto e tão consistentemente todas as regras da música como os New Order. E haverá coisa mais Rock 'n' Roll que isso?

Não há qualquer estrutura reconhecível na sua música da primeira metade dos anos 80. Não raras vezes ouvimos os instrumentos fora de tom, já para não falar nas vozes de Bernard Sumner e Peter Hook, que quando se viram desafogadas do dilúvio da produção de Martin Hannett, tiveram carta branca para navegar – e muitas vezes afundar – em mares de desafinação. Depois veio John Robie, o produtor que colaborou com a banda nas sessões de gravação para a banda sonora do filme "Pretty In Pink". Segundo Hooky conta na sua auto-biografia "Substance", Robie matou os New Order quando proferiu as 8 palavras fatais: "Barney, you know you're out of tune, right?". Sabia lá ele.

Até então, os New Order não tinham (nem queriam) ninguém para lhes dizer o que fazer e como fazer, por isso não sabiam se estavam a fazer bem ou mal. E numa discussão mais filosófica, será que sequer existe isso de "fazer mal" na música? Uma coisa é certa - os New Order eram completamente originais. A partir daí, Summer quis começar a trabalhar segundo as regras e isso para Hooky terminou o espírito livre da banda e a sensação que tudo podia acontecer. Mas houve tanto que aconteceu. Nem a metodologia de Barney livrou a banda de algumas das mais bizarras histórias da música. Se virem o filme "24 Hour Party People", podem ter uma ideia.

A banda vivia sob uma gestão caótica, que eu melhor vos posso descrever como de "maços de notas no bolso das calças ". Das calças de Rob Gretton (manager da banda), entenda-se. Tinha tudo para dar buraco e obviamente que deu. Ainda assim, os New Order davam de comer a muita gente. Foram eles que alimentaram a gestão errática da Hacienda (discoteca que detinham em Manchester) e da Factory Records (que impulsionou toda a cena musical de Manchester). Se há um exemplo vivo de um grupo de mecenas, são os New Order com certeza.

Os discos dos New Order eram verdadeiras obras de arte. A banda não olhava a meios para obter um produto de excelência, atendendo às mais excêntricas ideias do designer Peter Saville, o que levou a que chegassem a perder dinheiro com a venda dos seus próprios discos. Foi o caso do 12" single (conhecido em Portugal como maxi-single) de "Blue Monday", que tinha a forma de uma disquete de 8 polegadas (que se usava nos anos 80), e como tal custava mais 1£ a produzir do que o preço de venda ao público. O problema é que o disco vendeu 1 Milhão de cópias e tornou-se o 12" single mais vendido de sempre, recorde que mantém ate hoje. Resultado: 1 milhão de libras de prejuízo para os New Order. E zero fucks given.

Mas não pensem que os New Order ficaram por aqui no rol de decisões incríveis de autofagia financeira. Nem por sombras. Na ressaca do sucesso retumbante de "Blue Monday" em Março de 1983, o qual catapultou a banda para a estratosfera da música alternativa e das pistas de dança, a expectativa era grande para o álbum que se seguia. Só que quando "Power, Corruption And Lies" chegou às lojas em Maio, não tinha o tema que todos queriam ouvir. "Blue Monday"? Nem vê-lo. A inclusão do hit no álbum iria garantir à partida a venda de milhões de cópias. Mas os New Order não seguiam regras nenhumas e com esta revienga trocaram as voltas aos fãs-paraquedistas, que só queriam ouvir o single. Andar na música para fazer dinheiro? Isso é para os outros. Ao invés de privilegiar a parte comercial, os New Order pugnavam por fazer algo honesto, com que se identificassem e com que se pudessem divertir. São uma das bandas mais anti-sistema de sempre.

Não sei se a eloquência destas linhas deixou transparecer, mas os New Order são uma das bandas que eu mais amo e que mais impacto tiveram na minha vida. Foi desde a noite em que eu ouvi um tema hipnotizante no piso de baixo do velhinho Roterdão no Cais do Sodré, muitas luas atrás, e fui perguntar ao DJ que raio era aquilo. Ele olhou-me em choque e respondeu que era o "Everything's Gone Green" dos New Order, uma versão exclusiva à Bélgica. Fiquei fascinado. Na altura conhecia o "Blue Monday" e julgava-os o parente pobre dos Joy Division. O que eu me rio agora quando penso na minha ingenuidade de então. A conselho de um colega de trabalho, comprei uma compilação chamada "Substance 1987" e ali mergulhei durante meses a fio. Foi a banda sonora da minha vida nos meses que se seguiram.

Adorava estar hoje em Paredes de Coura para ver uma das minhas bandas preferidas. O único senão é que vai faltar Peter Hook no palco. Tenho muita pena do que aconteceu com os New Order e o Hooky. A batalha jurídica foi feia e indigna para quem passou tantos anos e tantas desventuras com a sua banda. Ele merecia mais que este desfecho. O Peter Hook é um dos meus ídolos de sempre e autor do melhor livro de Rock 'n' Roll de sempre (o já mencionado "Substance"). A forma como ele se expõe é de uma crueza e honestidade admiráveis. Hooky conta a sua verdade da atribulada História dos New Order (algo que, só por si, já tem suficiente interesse dramático), mas a maravilha é que o faz sem qualquer problema em revelar abertamente sentimentos de ressabiamento, escárnio, ou até inveja. É tudo genuíno e às claras. Hooky não tem medo em se expor completamente e com isso mostra aquilo que significa verdadeiramente o Rock 'n' Roll. Ao contrário do que a maioria pensa, ser Rock 'n' Roll não é ser cool a tempo inteiro. É ser o que quer que se queira ser a tempo inteiro e estar-se bem a cagar para o que os outros pensam ou dizem. Se pelo menos fôssemos todos mais Hooky.

É difícil imaginar os New Order sem o Peter Hook, mas a verdade é que eles se saíram lindamente com o último "Music Complete" (2015), um disco insanamente bom para o descendente arco discográfico da banda. Se forem a caminho de Coura, dêem um abraço por mim a malta de Salford. E façam também um pirete o Barney por aquilo que fez ao Hooky.

P.S.: Para celebrar a vinda dos New Order a Portugal, o London Calling desta semana faz um breve resumo com o melhor do melhor da discografia caótica da banda. Para ouvir aqui no aquecimento do concerto desta noite.

P.P.S.: Disse em cima que os discos dos New Order nos anos 80 eram verdadeiras obras de arte. Por isso desde cedo comecei a coleccionar os 12" singles e hoje aproveito para vos mostrar o espólio de que muito me orgulho.
Tudo o que vêem são prensagens originais da Factory UK, exceptuando o "Everything's Gone Green" e o "Murder", que foram originalmente lançados na Bélgica e que portanto têm aqui as primeiras prensagens da Factory Benelux. O mesmo se aplica ao EP "1981-1982", que serviu para introduzir os New Order nos EUA, aquando da sua (muito atribulada) primeira tourné americana e que está aqui também na sua primeira prensagem da Factory US. Ainda faltam uns quantos, vejam lá se identificam quais. Eis a legenda da foto, de cima para baixo e da esquerda para a direita:

• Ceremony / In A Lonely Place (Factory UK - FAC 33/12) - Mar 1981
• Ceremony / In A Lonely Place [Re-Release] (Factory UK - FAC 33/12) - Sep 1981
• Everything's Gone Green / Mesh (Cries And Whispers) (Factory Benelux - FBNL 8) - Dec 1981
• Temptation / Hurt (Factory UK - FAC 63) - May 1982
• 1981-1982 [EP] (Factory US - FACTUS 8) - 1982

• Blue Monday / The Beach (Factory UK - FAC 73) - 7 Mar 1983
• Thieves Like Us / Lonesome Tonight (Factory UK - FAC 103) - Apr 1984
• Murder / Thieves Like Us (Instrumental) (Factory Benelux - FBN 22) - May 1984
• Sub-Culture / Dub-Vulture (Factory UK - FAC 133) - Nov 1985

• The Perfect Kiss / The Kiss Of Death, Perfect Pit (Factory UK - FAC 103) - May 1985
• Shellshock / Shellcock (Factory UK - FAC 143) - Mar 1986
• State Of The Nation / Shame Of The Nation (Factory UK - FAC 151) - Sep 1986
• Bizarre Love Triangle / Bizarre Dub Triangle (Factory UK - FAC 163) - Nov 1986

• True Faith / 1963 (Factory UK - FAC 183) - Jul 1987
• Touched By The Hand Of God / Touched By The Hand Of Dub (Factory UK - FAC 193) - Dec 1987
• World In Motion... / The B-Side (Facto ry UK - FAC 293) - May 1990
• Substance 1987 [2LP] (Factory UK - FAC 200) - Aug 1987.