domingo, 30 de junho de 2019

Lena D'Água está volta com um lote de canções de macramé

"Desalmadamente", o regresso triunfal da nossa menina

Uma das maiores revelações deste ano vem de uma artista cuja carreira discográfica começou há 40 anos. Parece estranho, eu categorizar como revelação alguém que tem mais anos de música do que eu de vida. Mas o novo disco de Lena D'Água é muito mais do que uma mera nota de rodapé nos lançamentos da semana. É o regresso triunfal de um ícone da cultura portuguesa, que adoptámos nos anos 80 como a nossa menina e depois largámos à sua sorte. Ela está de volta, melhor que nunca.

Filha do mais elegante levantador de taças da História, foi em 1979 que, ainda sob o nome de Maria Helena Águas, lançou o seu primeiro álbum de música infantil "Qual É Coisa Qual É Ela?". Dona de uma voz de menina e uma carinha angelical, a Maria Helena passou a Lena d'Água e na década de 80 conquistou as tabelas e os corações dos portugueses. Teve uma carreira ultra-prolífica naqueles 10 anos, tanto a solo, como na Salada de Frutas e na Banda Atlântida e assim se tornou numa das estrelas Pop que mais brilhou no nosso país. Depois, veio "a porcaria da droga" e a nossa menina perdeu-se. E nós esquecemo-nos dela.

Fast-forward para 2019 e a Lena está de volta com "Desalmadamente" — o seu primeiro álbum a solo de originais desde "Tu Aqui" de 1989. E como eu disse no início, é uma revelação. "Desalmadamente" é um disco sonhador e quase autobiográfico. "Quase" porque, na verdade, foi escrito por Pedro da Silva Martins dos Deolinda. Pedro tricotou um lote de canções de macramé, especificamente para a nossa menina, com um carinho que é audível nestas gravações. Há que tirar o chapéu ao grupo de músicos que ajudaram a Lena a ser um furacão outra vez — Francisca Cortesão, António Vasconcelos Dias, Mariana Ricardo, Benjamim e Sérgio Nascimento. Num disco de influências diversas no espaço e no tempo, eles foram várias bandas diferentes, mudando a bússola da máquina do tempo consoante o que a canção pedia.




São vários os destaques do álbum. Começo pelo mais óbvio, o single de avanço "Grande Festa". Todos os superlativos se aplicam. Num tema que parece retirado das sessões de "Parklife" dos Blur, eu ia jurar que ouvia o Graham Coxon na guitarra. Mas pelos vistos não. É a Francisca e o António. E aquele órgão delicioso que conduz o tema, esse é do Benjamim. Música produzida em 2019, mas de aroma intemporal.

E por falar em intemporalidade, que dizer do tema de abertura "Opá", com uma introdução de embalar que evoca o início de carreira da Lena, num dos temas mais fortes do álbum. A história da sua vida é espelhada em "Queda Para Voar": "Cheguei, subi para o palco e caí no chão e aplaudiram a minha canção". Impossível não sorrir à ironia deste tema. "Minutos" é outro dos meus grandes favoritos, um tema que junta uma linha de órgão que parece levantada do "Closer" dos Joy Division a um solo de saxofone urbano dos Destroyer. Junta-se a voz delicada da Lena e todo este tricot resulta numa manta de luxo.

Que revelação, é este "Desalmadamente". Ao fim de 6 meses, é difícil encontrar na Pop de 2019, nacional ou internacional, algo que sequer se aproxime remotamente de algo como a "Grande Festa". Para quem teve que se submeter recentemente ao novo álbum da Madonna, voltar a ouvir a "Grande Festa" significa perceber com toda a clareza de que lado é que se encontra a verdade. Para mim, é até ver o tema Pop do ano. De longe.

domingo, 23 de junho de 2019

Madonna contra Bruce Springsteen — A grande batalha nas tabelas da última semana

The Queen vs. The Boss — A batalha que colocou os fãs da Madonna contra Bruce Springsteen

Talvez não se tenham apercebido, mas na última semana deu-se uma das maiores batalhas das tabelas dos últimos anos — Madonna contra Bruce, The Queen vs. The Boss. Normalmente as editoras têm o cuidado de evitar que lançamentos de artistas que almejem o primeiro lugar da tabela coincidam na mesma semana. Mas desta vez calhou que ao mesmo tempo, na sexta passada, Madonna decidiu lançar o seu luso-perfumado (mas pouco) "Madame X" e Bruce Springsteen tirou da gaveta o seu álbum perdido "Western Stars". Os dias que se seguiram viram uma batalha feroz nas trincheiras.

Ambos os álbuns foram recebidos com alguma surpresa. "Western Stars" foi uma obra-prima inesperada — um disco que Bruce foi guardando desde 2011, inseguro sobre a reacção do seu público, mas que acabou por ser aclamado pela crítica e pela maioria dos fãs. Já dissertei extensivamente sobre "Western Stars" na crónica da semana passada.

Já "Madame X" foi o típico álbum "late period" da Madonna — um disco que colecciona as "novas tendências" dos últimos 5 anos, numa tentativa desesperada da Rainha da Pop em se manter relevante e em coleccionar mais uns hits. A Madonna, concedo-lhe o feito de se ter conseguido manter relevante ao longo de quatro décadas numa cena tão fugaz como a música Pop (e por isso ainda lhe é concedida tanta atenção, bem como planos de estacionamento especiais pela EMEL). O problema é que esta fugacidade em 2019 é exponenciada pela velocidade com que as ondas vão e vêm. No passado, Madonna foi-se rodeando dos produtores da moda, conhecedores do que fervia por entre a audiência teen, para lhe darem a receita dos hits que sempre perseguiu. Hoje em dia, com as mudanças na paisagem cultural a serem conduzidas por fenómenos virais, o espaço de uma artista com o peso da Madonna é ainda mais limitado. Imagino que ela esteja à espreita do que as filhas estão a ouvir e sendo a Madonna, pode ligar ao produtor de uma determinada faixa e pagar-lhe o voo para estarem a gravar no dia seguinte. Mas com o tempo que demora a manejar uma estrutura pesada como a do lançamento de um álbum novo da Madonna, quando ele chega às ruas, já a tendência mudou uma série de vezes. No caso de "Madame X", o resultado é uma almálgama de sonoridades desconexas que não soam nem particularmente actuais, nem particularmente passadas, mas que acima de tudo, não soam particularmente harmoniosas. E qual é a ideia do uso profuso de adereços vocais como o vocoder? A Madonna é reconhecida primeiramente pela sua voz. Sou particularmente adverso a temas onde canta como se estivesse a mastigar uma sandes de presunto ("God Control"). Mas divago.

Os lançamentos dos discos foram muito diferentes. Bruce apresentou "Western Stars" timidamente, quase como que envergonhado do que poderiam dizer dele. Não houve nenhum anúncio de uma digressão a solo ou com a E Street Band para promover o álbum. Pior que isso, Bruce anunciou de forma apologética a intenção de lançar um álbum e ir para a estrada com a sua banda para o ano que vem, ainda antes do lançamento de "Western Stars", como se este álbum fosse algo de somenos. Já Madonna apareceu no Festival da Eurovisão e a juntar à sua máquina publicitária, ainda anunciou a Madame X Tour, com 48 datas nos Estados Unidos e 31 datas na Europa (incluindo 6 no nosso Coliseu dos Recreios e 15 aqui no London Palladium). E foi aqui que ela sacou do seu Ás de trunfo — o ticket bundling — isto é, todos os bilhete vendidos (pelo menos nos EUA e no UK) incluíam uma cópia do seu novo álbum "Madame X". Isto significa que a venda de cada bilhete conta como a venda de uma disco.

As digressões sempre foram utilizadas com o objectivo final de promover um disco novo. Mas nesta era em que os artistas ganham mais com as digressões do que com os álbuns, a ordem dos factores reverteu-se. A verdade é que o "ticket bundling" não é original, nem exclusivo de Madonna. O truque já tem alguns anos e é utilizado com frequência pelos artistas de maior nomeada, de modo a facilitar o caminho para o primeiro lugar das tabelas. Mas não faz muito sentido. Grande parte do público quer ir ao concerto para ouvir os hits antigos e não quer saber do último álbum para nada; esses vão ficar com um disco que nunca vão ouvir. Já os verdadeiros fãs do artista, aqueles que não podem esperar, esses já têm o álbum de qualquer forma e vão agora ficar com duas cópias do mesmo disco. Por outro lado, dá também uma vantagem virtual (e injusta) nas tabelas.

Foi precisamente assim que "Madame X" começou a última semana. Com um avanço enorme sobre todos os outros. Só que quando os álbuns chegaram ao juízes que realmente decidem o andamento das tabelas — o público — a maré começou a virar. O hype do novo álbum da Madonna deu-lhe a liderança automática no iTunes e na Amazon na sexta-feira de manhã, mas a meio do dia, já era Bruce quem liderava.

E foi aí que começámos a assistir a cenas incríveis nas trincheiras desta batalha, algo que passou aparentemente despercebido aos mass media, mas que eu não via desde a famosa batalha entre os Oasis e os Blur nos mid-90s. Na tentativa de salvar a sua rainha, os fãs da Madonna começaram a acorrer às plataformas virtuais de venda, desde o iTunes até à Amazon, para deixar reviews de 1 estrela a "Western Stars" com o grito de guerra: "Buy Madame X". Alguma noção é precisa, caros fãs da Madonna.


Foi assim toda a semana. Bruce a recuperar paulatinamente da desvantagem inicial até à liderança em quase todos os mercados. Vejamos então a posição final de "Madame X" e "Western Stars" nas tabelas cujo resultado já é conhecido:

  • Reino Unido: Bruce #1; Madonna #2
  • Irlanda: Bruce #1; Madonna #8
  • Escócia: Bruce #1; Madonna #4
  • Itália: Bruce #1; Madonna #2
  • Alemanha: Bruce #1; Madonna #5
  • Holanda: Bruce #1; Madonna #2
  • Bélgica (Valónia): Madonna #2; Bruce #3
  • Bélgica (Flandres): Bruce #1; Madonna #2
  • Finlândia: Bruce #3; Madonna #7
  • Suécia: Bruce #3; Madonna #10
  • Noruega: Bruce #1; Madonna #6
  • Austrália: Bruce #1; Madonna #2
  • Nova Zelândia: Bruce #1; Madonna #5
Como podemos ver, as tabelas até agora dão a vitória a Bruce Springsteen em quase toda a linha. Faltam ainda alguns resultados importantes, como o de França (Madonna tem 10 datas no Grand Rex, em Paris), o de Portugal (que Madonna deve ganhar facilmente) e claro, o dos Estados Unidos. As primeiras notícias dão conta de uma vitória tangencial de Madonna em casa, por apenas 25 mil cópias. O que na prática significa que Madonna não vendeu mais álbuns, mas com a ajuda dos bilhetes e do "ticket bundling", pode agora dizer que o seu álbum foi número 1 nos EUA. Uma vitória pírrica, portanto.

Há várias reflexões a fazer aqui. Em primeiro lugar, o facto de estarmos a falar numa batalha entre dois artistas que tiveram o seu auge comercial há 35 anos significa que nos faltam ícones hoje para despoletar o mesmo nível de paixão; aquela cegueira que faça fãs irem insultar o álbum de outro artista só para defender a sua dama. E mais que isso, este truque do "ticket bundling", que é mais um sinal de aviso que os miúdos não estão a comprar discos. Ainda há poucas semanas tivemos o Ed Sheeran a esgotar a Luz por duas noites e a regressar ao topo das tabelas em Portugal com um álbum que lançou há dois anos. É ele quem carrega a tocha de saber o que fazer nos dias de hoje e levar os miúdos a comprarem discos outra vez. Mas se é no Ed Sheeran que depositamos todas as nossas esperanças, então estamos condenados.

domingo, 16 de junho de 2019

Era uma vez no Oeste — "Western Stars", o maravilhoso novo disco de Bruce Springsteen

Hoje à noite, as estrelas do Oeste vão brilhar outra vez

Que maravilhosa surpresa. Aos 69 anos, numa altura que já poucos esperavam, Bruce Springsteen volta a sacar de um clássico para o seu reportório e cimenta a sua posição como o melhor contador de histórias do último século. O Boss já nos acompanhou na fuga da raízes, já nos levou à orla da cidade e já nos conduziu pelo rio abaixo. Agora, em "Western Stars", Bruce senta-nos no banco do pendura da sua pick-up e dá-nos boleia rumo ao Oeste americano, com mais um set de histórias de vidas mundanas, embrulhadas num álbum rico, polido e cinemático.

"Western Stars" é o disco mais cinemático da discografia de Bruce Springsteen desde "Nebraska" de 1982. Mas se a paisagem de "Nebraska" era lúgubre, como um filme de Béla Tarr; as imagens evocadas por "Western Stars" são vibrantes, como um filme de Wes Anderson. Bruce descreveu este álbum como "a jewel box of a record" ("uma caixa de jóias de disco") e eu, que confesso, duvidei do entusiasmo do Boss, hoje confesso que não encontro melhor descrição para o seu décimo nono álbum de originais.

Há um pouco de toda a carreira de Bruce em "Western Stars": ouve-se a América de "The Rising" em "Tucson Train"; as histórias de "Tunnel Of Love" em "Western Stars" e "Moonlight Motel"; a atmosfera de "Devils And Dust" em "Drive Fast (The Stuntman)" e "Somewhere North of Nashville"; a inocência de "E Street Shuffle" em "Sleepy Joe's Cafe"; a riqueza de "Working On A Dream" em "There Goes My Miracle", "Sundown" e, na verdade, um pouco por todo o álbum. "Western Stars" é o sucessor natural do cânone sonhador de "Working On A Dream" (2009), o que faz todo o sentido, uma vez que este lote de canções remonta a esta altura.



"Western Stars" é lançado em 2019, mas a sua génese é antiga e o seu espírito ainda mais remoto. Segundo o que Bruce foi adiantando nas suas entrevistas ao longo dos anos, a ideia de um álbum de histórias do Oeste terá nascido antes do ano 2000, por alturas da Reunion Tour com a E Street Band. As gravações terão começado em 2010, depois da Working On A Dream Tour (2009) e das sessões de "The Promise" (2010), tendo o álbum sido sucessivamente posto na gaveta em detrimento de projectos (agora sabemos) inferiores, como "Wrecking Ball" (2012) e "High Hopes" (2014).

Bruce estava inseguro relativamente à reacção do seu público a "Western Stars" e com alguma razão, diga-se. A fanbase de Bruce é muito exigente, espera sempre que Bruce saque de um novo "Born To Run" e nunca fica satisfeito com menos que isso. Mas Bruce já não tem 20 anos e já não quer fugir da sua cidade natal (como contou em "Sprinsgteen On Broadway" (2018), agora vive a 10 minutos da casa onde nasceu). Por estes dias, ele quer pegar na sua pickup e contar as histórias das vidas perdidas que foi encontrando ao longo dos anos. E quer fazê-lo com a roupagem das canções da Pop sul-californiana do início dos anos 70, que despoletaram a sua imaginação quando ele era miúdo. É um álbum arriscado, que rompe com a estética clássica dos seus discos com a E Street Band, mas é ao mesmo tempo um álbum deliciosamente familiar. Bruce faz leves acenos ao seu passado, num álbum firmemente ancorado na eternidade. 

Os arranjos orquestrais são tão quentinhos e aconchegantes que só apetece abraçar a música. Mais que isso, estes arranjos opulentos conferem a "Western Stars" um estatuto de intemporalidade. O álbum foi lançado na sexta, mas após 5 audições, parece que estas canções estiveram sempre aqui. São canções que contam histórias de vida como a minha e vossa. São canções que, nestes tempos de divisão, chegam para nos juntar. São canções que, nestes tempos pesados, nos visam aliviar. Para todos nós que sentimos o peso do trabalho, das contas e de todos os problemas da vida, este álbum é um bálsamo que nos levanta o peso das costas.



Bruce usa a qualidade cinemática de "Western Stars" para desmistificar o mito cultural moribundo do sonho americano. No epílogo do álbum, o herói, incapaz de satisfazer as exigências do compromissos domésticos e da sociedade ("bills and kids and kids and bills"), entra na sua pickup e faz-se à estrada rumo à escuridão ("where nobody travels and nobody goes"), fechando assim o círculo de "Nebraska". Ele chama-nos à terra, com as suas histórias de heróis comuns com vidas partidas; e ao mesmo tempo, consegue pôr-nos a olhar para as estrelas.

Eu estou tão feliz com este álbum, que só me apetece abraçar o Bruce e assegurá-lo que está tudo bem; dizer-lhe que não há razão para inseguranças e que todos aqueles álbuns que ele tem na gaveta podem vir cá para fora. Depois de "Wrecking Ball" e "High Hopes", confesso que já temia que ele tivesse perdido a sua musa. Queria muito que este álbum fosse bom. Foi muito melhor do que eu esperava. Obrigado, Bruce.

P.S.: Este é apenas um dos projectos que Bruce Springtseen tem na calha para os próximos tempos. Bruce já revelou que tem pronto um lote de canções para gravar com a E Street Band e para lançar num álbum em 2020. Antes disso, ainda em este ano, a quadra natalícia deverá trazer-nos uma nova mega-caixa com gravações antigas, que vai suceder a "Tracks" de 1998. Este ano é também o 35º aniversário de "Born In The U.S.A." (1984) e o material que foi gravado nessas sessões é tanto, que vai certamente acontecer uma caixa expansiva do álbum, à semelhança do aconteceu com "Born to Run: 30th Anniversary Edition" (2005), "The Promise: The Darkness on the Edge of Town Story" (2010) e "The Ties That Bind: The River Collection" (2015). Se quiserem ter uma ideia do que ficou para trás nas sessões de "Born In The U.S.A" e do que poderia ser um segundo disco deste álbum, ouçam o podcast do London Calling — Murder Incorporated – O segundo disco de Born In The U.S.A..

terça-feira, 4 de junho de 2019

"Rocketman", o filme que é tudo aquilo que "Bohemian Rhapsody" não conseguiu ser

O musical mais esperado do ano visto à lupa por um fã do Elton... e dos Queen


"I don't live my life in black and white!", atira Elton John à sua mãe, numa das cenas-chave de "Rocketman" que define o tratado do filme e de toda a vida de Elton. E que também resume a diferença fundamental entre "Rocketman" e "Bohemian Rhapsody".
Saídos do berço do mesmo realizador — Dexter Fletcher — com menos de um ano de diferença, as comparações entre "Rocketman" e "Bohemian Rhapsody" são inevitáveis. Começando logo pela base do enredo que, se substituirmos Freddie por Elton e Bernie Taupin pelos restantes Queen, é inusitadamente similar. Nada que eu não estivesse à espera, diga-se (não fiquei muito longe na minha aposta para o plot) — Fletcher encontrou uma fórmula ganhadora e não mexeu. Mas as semelhanças com "Bohemian Rhapsody" não vão muito além da superfície. Se escavarmos mais um pouco, percebemos que há muito mais profundidade em "Rocketman".

Disse logo que confiava muito mais em Elton John para contar a sua história, do que em Brian May para contar a história dos Queen, e o Captain Fantastic não me desapontou. Brian é demasiado cuidadoso com o seu "legado". A porra do legado — essa dimensão fantasiosa onde tudo é limpinho e lavadinho; os bons são muito muito bonzinhos; os maus são uns grandes grandes mauzões; e tudo é preto ou branco. Não há nuances, não há tons de cinzento. Mas para quem tinha dúvidas, Elton afirma cabalmente – "eu não vivo a minha vida a preto e branco". Assim também eram os Queen, pelo menos até 1982.

A preocupação da defesa do legado de Elton John nunca se pôs verdadeiramente, uma vez que ele fez a sua carreira vivendo precisamente do factor choque. Basta olha para os fatos que Elton desde cedo adoptou para a sua persona de palco (retratados na perfeição no filme); ou pensar nos escândalos constantes que enchiam os tablóides nos anos 70 e 80 (também mencionados no filme). Elton nunca foi de se resguardar e "Rocketman" mostra que toda esta sede de exposição pode ser rastreada até aos pais. Elton viveu uma infância contraída de afecto e isso deixou-lhe marcas que o feriram para toda a vida, mas que também criaram este monstro de palco extrovertido e extravagante, que mais não é que uma busca para compensar défices de atenção do passado. Elton põe o dedo em todas estas feridas ao longo de "Rocketman" n um filme onde tem a coragem de expor o seu passado sem medos, mas onde também toma algumas liberdades para fazer alguns ajustes de contas. Lá chegaremos.

Antes de mais, tenho que deixar aqui um aviso — eu odeio musicais. Admito que isso possa estar relacionado com alguma ansiedade social da minha parte, mas sinto-me sempre desconfortável quando vejo uma cena dramática transformar-se numa performance coreografada da Broadway. Regra geral, parece-me desnecessário e violador da acção e do ritmo do filme. Mas isto sou eu, que não costumo ter vontade de desatar a cantar quando estou a meio de uma discussão acesa. Por outro lado, este é um filme sobre o Elton John, o personagem mais campy e ultrajante da história da música. Se há um filme onde este tipo de violação pode ser permitida, é o filme sobre um homem a quem sempre tudo foi permitido. Com uma nuance acrescida — Elton conseguiu safar-se com uma carreira plena de transgressões, polémicas e outfits escandalosos, sem nunca deixar de ser family friendly. Talvez porque nunca deixou de lado aquele sorriso de miúdo que lhe é tão característico. E isto terá muito a ver com a tal infância que não lhe sorriu.

O sorriso ubíquo de Elton é peça central em "Rocketman". Ele é sublinhado noutra das cenas-chave do filme quando, antes de entrar em palco no Royal Albert Hall, Elton liga à mãe para lhe revelar que é "Homossexual! Bicha! Paneleiro!" e ela o avisa que escolheu uma vida em que nunca vai ser amado "devidamente" (imagino que ela tenha usado mesmo a palavra "properly", ipsis verbis, uma vez que é repetida no fim do filme, mas em retaliação). Como se não bastasse, Elton leva um murro do homem que amava — o seu empresário, John Reid (já lá vamos) — e ainda discute com o seu melhor amigo de sempre — o adorável Bernie Taupin (já lá vamos também) —, a quem grita "escreve as letras e eu tomo conta do resto!". Mesmo com a sua vida a desabar, Elton nunca deixa de ser Elton e como tal, vestiu um dos seus fatos extravagantes, rasgou o sorriso e entrou no Royal Albert Hall para mais um concerto de levantar o tecto. Como disse uma vez Herman, Elton é o maior profissionalão da história da música.



Todos os filmes precisam de um vilão e em "Rocketman", cabe a John Reid esse papel. Reid é superiormente interpretado por Richard Madden (o Robb Stark, de "Game Of Thrones") e passa aqui por um empresário frio e ninfomaníaco, que seduz e depois trai Elton, sem nunca ser capaz de o amar. A realidade é um pouco mais complexa que isso. Se viram "Bohemian Rhapsody", recordar-se-ão que o mesmo John Reid (aí interpretado por Aidan Gillen, o Littlefinger de "Game Of Thrones", go figure!) é quem leva os Queen ao estrelato e depois é despedido num mal entendido com Paul Prenter (numa das muitas estupidificações que percorrem todo o filme). Na realidade, John Reid viveu com Elton 5 anos, entre 1970 e 1975, numa relação que, digamos assim, foi o mais estável que uma relação pode ser quando uma das partes é o Elton John. Eles separaram-se de facto em 1975, data que bate certo com o filme, quando Elton confessa ter começado a comportar-se como uma besta. Mas a verdade é que Elton e Reid mantiveram-se inseparáveis profissionalmente até 1998 quando, aí sim, John Reid traiu Elton, mas no campo financeiro. "Rocketman" faz um ajuste de contas com o antigo manager de Elton e para tal, reajusta os factos a favor do protagonista.  Note-se que Reid foi inclusive o padrinho de Elton no seu casamento de fachada com Renate Blauel em 1984 — casamento esse que no filme parece ter lugar algures entre 1979 e 1980, na ressaca do seu absoluto nadir discográfico (o álbum "Victim Of Love"),  numa das várias "afinações temporais" do filme.

Por falar em afinações temporais, quem é que acreditou que Elton entrou no concerto que mudou o rumo da sua carreira, sem conhecer a sua própria banda? Espero que ninguém. Como é óbvio, Elton já conhecia e tocava com o baterista Nigel Olsson e o baixista Dee Murray há vários meses e quando entraram no Troubador, já tocavam de olhos fechados. Elton ainda não tinha um guitarrista na altura, sendo que Davey Johnstone só ingressou na banda em 1972. Tanto Davey, como Nigel, ainda hoje fazem parte da Elton John Band (Dee morreu em 1992). Os membros da banda de Elton são meros figurantes no filme.

Outra daquelas afinações que fazem comichão a um fã é ver Elton apresentar "Daniel", "I Guess That’s Why They Call It the Blues" e "Sad Songs Say So Much" a Dick James em 1967, quando estes temas só iriam ser gravados em 1972, 1982 e 1983, respectivamente. Se era para mostrar baladas da altura, por que não "Skyline Pigeon", "Sixty Years On", ou "Border Song"? É daquelas coisas perfeitamente desnecessárias. E se quisermos ser mesmo minuciosos, é preciso apontar que "Crocodile Rock" não podia ser tocado no histórico concerto do Troubador em 1970, uma vez que só foi gravado em 1972.




A razão destes ajustes temporais é, na verdade, muito simples — Elton quis cingir-se aos êxitos em "Rocketman", uma vez que o principal objectivo do filme é mostrar as jóias do seu reportório para cativar a audiência mais nova. Eu teria preferido que ele fosse historicamente acurado, mas consigo viver com estes ajustes, desde que a densidade dos personagens compense. E se compensou.

Taron Egerton é fenomenal como Elton. Ao contrário de Rami Malek, o seu treino de Elton não se limitou a uma dentadura e uma coreografia. Começando logo pelo facto que Taron cantou, ele mesmo, as músicas de Elton; e não envergonhou ninguém. Mas mais importante ainda, Egerton mergulhou a fundo na personalidade de Elton, captou-lhe as nuances e conseguiu assim despejar no espectador o tremendo sofrimento por que Elton passou nos seus anos de desgraça, na segunda metade dos anos 70 e primeira dos 80. Neste período, Elton lidou com a exaustão, depressão, solidão e alienação (ouçam esta playlist para mais sobre o assunto). O filme não foge a nada disto

A cena do reencontro com o Pai é tão pessoal que a sua visualização se torna um exercício penoso. Para quem, como eu, tem um sentido familiar muito forte, ver o pai de Elton agarrar nos seus novos filhos, quando tudo o que Elton queria era um abraço do Pai é devastador. Ver a cara do Elton, quero dizer, do Taron, a olhar para aquela cena tira qualquer um do sério. Só esta cena faz valer o filme. Os manos do Elton têm uma opinião diferente acerca do que aconteceu, mas que importa? Foi assim que Elton se sentiu e este é o filme de Elton.

Mas nem todos foram maus com o pobre Elton. Todos os heróis têm um sidekick e o de Elton é o seu amigo de sempre, Bernie Taupin. Todos os que temos a sorte de ter um amigo a sério, sabemos reconhecer o valor a Bernie. Bernie tem em "Rocketman" o seu momento de glória, o reconhecimento de uma lenda que sempre viveu na sombra de Elton, mas sem quem Elton não teria existido. A relação entre os dois sempre foi muito especial. Apesar de terem um processo criativo sempre totalmente separado — com Bernie a escrever as letras sozinho e Elton, depois, a criar a música a partir das emoções que os poemas de Bernie lhe evocam —, a verdade é que Elton serviu de musa de Bernie por inúmeras vezes ao longo dos anos. Bernie escrevia sobre o ordálio que via Elton passar e por isso mesmo tantas das suas canções parecem autobiográficas, apesar de não serem escritas por ele. É o caso de "Idol", um tema que resume a vida e a carreira de Elton, especialmente do seu período negro e que escandalosamente não figura no filme. Ou então "Ego", que ilustra como nenhum outro a relação criativa entre ambos — um tema acusatório que Bernie escreveu aquando da sua separação com Elton e que Elton gravou e lançou em single (!) antes de embarcar nos seus projectos extra-Bernie. Pena não termos ouvido isto no filme. Mas claro está, a prioridade eram os hits.

O filme termina com uma maravilhosa semi-reconstituição do fantástico videoclip de "I'm Still Standing" (um dos meu favoritos de sempre) que, como eu previ aqui há meses, fecha o filme como a grande reviravolta na carreira de Elton (que o foi, de facto), em 1982.


https://www.youtube.com/watch?v=ZHwVBirqD2s

Continuo a odiar musicais, mas "Rocketman" é o melhor musical que eu já vi. E é tudo aquilo que "Bohemian Rhapsody" não conseguiu ser — honesto, infame e explícito. Elton quer contar a sua história, mas fá-lo à sua maneira — sem filtros. Com sexo homossexual e cocaína em barda, Elton não deixa nada por dizer, nem nada para mostrar. E continua sem se importar muito se acham isso mal.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Canção do Mar

Vamos embarcar numa crónica cheia de fado, saudade e mar.


"Tem mil anos uma história de viver a navegar". A voar sobre o Canal da Mancha, depois de quatro penosos meses debaixo do céu cinzento de Londres, ponho uma playlist no Spotify intitulada "Saudades de casa". Saudade, essa coisa tão portuguesa. Toca "Sete Mares" dos Sétima Legião. Sigo para o sul, olho pela janela e vejo o azul infinito de um mar que, embora esteja a milhares de milhas do meu país, me faz imediatamente sentir em casa. Mas porquê?

Porque sou português. E nós, portugueses, temos uma ligação metasensorial com o mar. Algo que só nós percebemos. É uma relação que está ancorada na nossa História, na nossa mitologia, na nossa cultura, na nossa educação e quiçá, na nossa genética.

Aprendemos na escola todos os fascínios do mar. Na História, passamos anos a ouvir sobre as aventuras dos navegadores portugueses — a nossa maior figura mitológica. Na Língua Portuguesa, estudamos a obra-prima de Sophia — "A Menina do Mar" — uma história tão bonita, comovente e multidimensional, que só anos mais tarde lhe percebi o alcance (Sophia que, atenção, faria 100 anos no próximo 6 de Novembro). Na rua, ouvimos os ditados – "há mar e mar, há ir e voltar". Adoptamos os verbos náuticos como estilística — vamos "embarcar" na nova aventura. Todos estes pequenos apontamentos do nosso quotidiano levam-nos ao mar. Esta relação de proximidade não tem paralelo com muitos povos no mundo. É uma ligação inexorável que ao mesmo tempo se configura como uma benção e uma maldição.

Uma benção, porque o mar nos cura tudo. O mar tem o condão de nos recarregar baterias. Qualquer coisa serve: basta almoçar a ver o mar e a cheirar a maresia; ou passar uma tarde de reflexão a olhar para o mar e a beber uma e outra imperial; se o tempo convidar, descer ao areal e dar um mergulho; basta até estar a 10 mil metros de altitude a ver o oceano infinito. Qualquer mar que nos entre pelos sentidos adentro cura-nos todas as maleitas. Eu, por exemplo, sofro imenso com alergias e quando estou ao pé do mar, nada me toca.

Por outro lado, a nossa ligação com o mar é também uma prisão. Nós precisamos do mar. E murchamos quando estamos longe dele. Vivendo no cinzento opaco de Londres, sei bem do que falo. Já vi uma colega minha, portuguesa, criada na Ericeira, regressar a Portugal porque já não aguentava mais viver longe da praia. Não voltou por amor. Voltou pelo mar. O cinzento dá cabo de nós.

Não é por acaso que o mar é a musa mais antiga da história do nosso país. Desde "Os Lusíadas" que assim é. O mar sempre fascinou os portugueses e sempre olhámos para ele em busca de inspiração. Foi nele que encontrámos as nossas maiores glórias e enfrentámos os nossos maiores terrores. Quando todos tinham medo do mar, nós agarramos em meia dúzia de tábuas, metemos 200 Maneis lá dentro e fomos procurar a nossa verdade no mar.

A mitologia do mar estendeu-se até à nossa música. Há duas semanas dediquei um programa do London Calling na NiTfm — "Canções do Mar", ouçam aqui — que congregava uma série de canções da música portuguesa sobre aquela que é a nossa musa mais antiga. Houve bandas que dedicaram quase toda a sua discografia a esta musa (Sétima Legião) e até houve bandas que se baptizaram em sua honra (Heróis do Mar). De todas as nossas canções do mar, há uma porém, que se destaca — a "Canção do Mar".

Passei toda a minha infância a ouvir a "Canção do Mar" na voz da Dulce Pontes, sem nunca perceber do que falava a música. Ou pelo menos sem nunca me ter conectado com a música. Até agora. Só agora, que estou do lado de fora a olhar com saudade, é que percebi quem é o locutor que nos chama:  "Vem saber se o mar terá razão / Vem cá ver, bailar no meu coração" — é Portugal.

É Portugal que fala ao português e o convida para ir procurar a verdade ao mar. Obviamente que esta é uma perspectiva totalmente parcial de quem está longe, cheio de saudades de casa e à distância reconfigura a sua própria cultura. Para mim, faz todo o sentido. Faz sentido tanto na mitologia que ancora o povo português ao mar ao longo da História, como nas histórias actuais, muitas que conheço pessoalmente, de saudade imensa do mar, de quem se vê longe dele. A minha, por exemplo.

Numa altura em que nos dizem que devemos ter vergonha da nossa História e querem que nos sintamos culpados do que aconteceu há 500 anos, urge celebrar o lado mais bonito da ligação de um povo com o mar. Um povo destemido que não teve medo do desconhecido ou, como diria Camões, "Que da Ocidental praia Lusitana / Por mares nunca dantes navegados / Passaram ainda além da Taprobana". Estes versos podem parecer distantes no tempo, mas caracterizam a diáspora de um povo de emigrantes tão bem naquela altura como hoje. Foi preciso ir para Londres e vir cá ver, para perceber que o mar tinha mesmo razão.

terça-feira, 2 de abril de 2019

"Rocketman": Eu acho que vai ser um bom, bom filme

O que podemos esperar do filme sobre a vida e carreira de Elton John


Está quase a chegar "Rocketman", o filme sobre a vida e carreira de Elton John. Os trailers já andam aí e deixam muitas indicações positivas. A história do Captain Fantastic tem um potencial cinemático gigante, ou não fosse uma das histórias mais selvagens saídas dos loucos anos 70. Espero que esse potencial seja aproveitado.

A expectativa geral é que "Rocketman" seja o "Bohemian Rhapsody" de 2019, pelo menos no que ao sucesso diz respeito. E de facto, há muitos paralelismos entre os dois filmes. Começando logo pelo realizador — Dexter Fletcher foi o mesmo que assinou "Bohemian Rhapsody", embora tenha substituído Bryan Singer (afastado devido a acusações de pedofilia) já no fim do projecto. Curiosamente, também em "Rocketman", Fletcher aparece para terminar o trabalho de um outro realizador – Michael Gracey, que saiu há um ano do filme. Como é óbvio, o sucesso de "Bohemian Rhapsody" leva a que a equipa de Elton tenha esperanças que o mesmo frenesim possa ser replicado para "Rocketman". Eu, pela minha parte, espero que seja muito melhor. Neste momento, do que já sabemos do filme, há bons e maus indicadores. E os maus são precisamente aqueles que o aproximam de "Bohemian Rhapsody".

Embora a presença de Fletcher no comando do projecto não augure grande coisa, eu mantenho-me positivo para "Rocketman". Espero que seja um filme bem diferente. Confio em Elton John para contar a história como ela foi, suja, sem filtros, nem disneyficações. Confio mais nele do que, por exemplo, no nosso astrofísico favorito, o Dr Brian May – que, como sabemos, gosta de tudo muito limpinho. Um bom presságio disto mesmo é saber à partida que o filme será R-Rated "devido a cenas de sexo e drogas" e por isso deverá chegar às nossas televisões com bolinha vermelha. Se é para contar a história, é para contar história com os detalhes sórdidos. Vamos a isso.

Por outro lado, o filme está a ser publicitado como "uma fantasia baseada numa histórica verídica". Isto é uma jogada brilhante de Elton (e aqui sublinho que Elton John é um homem muito, muito inteligente) que lhe dá liberdade automática para mexer com os factos a seu bel-prazer na estrutura do filme, trocando eventos cronologicamente, sem que mais tarde corra o risco de ser chamado à atenção pelos fãs (como eu), sempre atentos aos detalhes históricos. Não que ele precise de mexer muito, uma vez que a história real de Elton desenrolou-se como se de um drama do fantástico se tratasse. Outra maneira de ver este disclaimer é a total isenção de responsabilidade no que quer que seja retratado no filme. Isto é, Elton não tem que dar explicações sobre aqueles detalhes sórdidos que aparecerão, uma vez que podem, eventualmente, fazer parte da fantasia. Boa. Elton já avisou que o filme não será um biopic, por isso pode sempre dizer que o que vimos no ecrã não corresponde necessariamente ao que acontece.

Outro bom presságio é a escolha do actor. Taron Egerton é um fã de facto de Elton John e é ele quem vai cantar as canções. E que vozeirão tem ele. Como fã de pequeno, Ergeton estudou a música, estudou os trejeitos e estudou a persona de Elton desde sempre. É como se tivesse preparado o papel toda a uma vida. Será assim muito mais natural transportar o verdadeiro Elton para o ecrã. Não só aquele que vemos no palco, mas também aquele que vemos por trás das cortinas. Veremos como ele se dá. Isto obviamente em oposição a Rami Malek, que estudou Freddie durante uns meses e acabou por fazer uma representação de um meme com a profundidade de um fontanário, tendo ganho o Oscar à custa do trabalho de um dentista.

Quanto à história (escrita por Lee Hall), "Rocketman" deverá seguir as mesma linhas gerais de "Bohemian Rhapsody". Tal como Bo Rhap, também começa com o anti-herói. Se Freddie era o emigrante que transportava bagagem em Heathrow, o pequeno Elton era o miúdo baixinho, gordinho e menos popular da escola. Depois, segue-se a transformação física e subida ao estrelato, seguida da queda e no fim, o renascimento e o triunfo. É esta a fórmula, mais evento trocado, menos evento trocado.

Há um ano adivinhei o plot do "Bohemian Rhapsody", por isso aqui vai a minha aposta (com um misto de wishful thinking) para o que eu espero do filme mais esperado de 2019. Espero que não se importem que eu ponha em palavras.

Acto 1: "Your Song"

Tudo começa em Pinner, Watford, no norte de Londres. Reginald Dwight é um miúdo baixinho e gordinho dos subúrbios. Devido à sua compleição física e enorme timidez, Reggie está longe de ser o rapaz mais popular da escola, revelando muitas dificuldades em comunicar com os outros. É apenas quando recebe um piano pelo Natal, que o pequeno Reggie encontra o seu veículo de comunicação.
Reggie rapidamente desenvolve a sua aptidão no piano e com isso dá entrada na Royal Academy Of Music, onde se revela um prodígio. À boleia do seu talento, Reggie começa a receber convites para trabalhar como session musician, tocando nos discos dos outros. Mas o seu grande desejo era fazer a sua própria música. Só que quando tenta voar sozinho, Elton dá de caras com um pequeno problema — a música era um meio onde a aparência importava e ele não tinha o sex appeal para competir com as outras estrelas que despontavam na altura.
E é aqui que nasce Elton John. Um rapaz com um enorme talento para o piano e um desejo secreto de atenção, muda o nome e tenta uma carreira a solo contra todas as expectativas que a sua figura apostava. Só precisava de alguém que o ajudasse a escrever as letras. Nisto, aparece o também jovem Bernie Taupin. Bernie e Reggie desenvolvem uma dinâmica sui generis. Trabalhando em separado, Bernie entregava as letras a Reggie e este compunha a música.
Vemos Elton a ter um momento de epifania na composição de "Your Song", um tema que muda para sempre o curso da sua vida.

Música Incidental: "Border Song" / "Skyline Pigeon"


Acto 2: "Take Me To The Pilot" (Live)

A carreira de Elton tem uma falsa partida no UK e por isso faz as malas para os Estados Unidos, onde tenta a sua sorte na cena up-and-coming da West Coast. Apesar de ser um quiet boy at heart, Elton reinventa-se para o público e constrói um personagem extravagante para apresentar ao público. A pouco e pouco, Elton começa a ganhar notoriedade e a construir uma reputação de animal de palco, com actuações vibrantes em bares de nomeada como o Troubador.
Vemos Elton a ser introduzido por Neil Diamond, numa noite de breakthrough que lhe vale excelentes críticas nos jornais. Contra todas as expectativas, Elton conquista os Estados Unidos.

Música Incidental: "Burn Down The Mission" (Live)


Acto 3: "Rocket Man"

Elton regressa ao UK e é recebido como um herói, onde muitos pensam que é um artista americano, num efeito bumerangue devido a ter tido sucesso primeiramente no US.
Devido à sua aparência extravagante e ao boom do Glam Rock que acontecia na altura no UK, Elton é conotado como um artista Glam Rock e por isso colocado na mesma prateleira que David Bowie, Queen e T. Rex. Pese embora Elton não se enquadre no mesmo paradigma, nem musicalmente, nem fisicamente. Os britânicos estavam confusos, mas isso não fazia diferença para o ambicioso Elton, que deste elan do Glam saca o êxito "Rocket Man". Elton estava preparado para lidar com o sucesso.

Música Incidental: "Tiny Dancer" 


Acto 4: "Bennie And The Jets (Live)"

A carreira de Elton entra num ritmo frenético. Devido a um contracto discográfico insano, Elton lança dois álbuns por ano, todos os anos, com sucessivos ciclos de estúdio-promoção-estúdio-promoção que se prolongam pelos anos 70. Mesmo neste ritmo louco, Elton produz uma sequência de álbuns avassaladora — "Honky Château", "Don't Shoot Me I'm Only The Piano Player", "Goodbye Yellow Brick Road", "Caribou", "Captain Fantastic and the Brown Old Dirt Cowboy" e "Rock Of The Westies". Todos são atingem o Número 1 nas tabelas americanas, estabelecendo um recorde que (penso eu) se mantém até hoje. Todos terão menções céleres no filme, entre imagens de Elton a receber prémios de discos de ouro e platina, a divertir-se com as celebridades da altura e a actuar para estádios repletos nos Estados Unidos.
Vemos Elton a subir para o piano no Shea Stadium em Nova Iorque e no Dodger Stadium em Los Angeles ao som de "Bennie And The Jets", em cenas de CGI reminescentes do Live Aid do "Bohemian Rhapsody".
Elton tem no histórico Hollywood Bowl em Los Angeles o pináculo da sua carreira, actuando numa venue onde os Beatles tinham sido a única banda rock a tocar antes. Elton é introduzido por Linda Lovelace com pombas brancas a saírem de 5 pianos com as letras E L T O N . Elton John está no topo do mundo. A sua fome não tem limites.

Música Incidental: "Goodbye Yellow Brick Road"  / "Crocodile Rock" (Hollywood Bowl)


Acto 5: "Someone Saved My Life Tonight"

Fast-Forward para os mid 70s e vemos Elton a viver uma vida de luxo e luxúria. Mas ao mesmo tempo que o vemos a fazer um dueto com Kiki Dee que conquista o mundo ("Don't Go Breaking My Heart"), Elton sente-se cada vez mais vazio e mais sozinho. É aqui introduzido o elemento da homossexualidade de Elton.
Vemos Elton em festas opulentas na sua casa, rodeado de sorrisos. A casa está cheia, mas ele está vazio, infeliz e fechado no armário da sua homossexualidade. Para tapar o vazio na sua vida, Elton afoga-se nas drogas. Numa esprial destrutiva, Elton tenta o suicídio várias vezes, mas é salvo pelo manager John Reid (esse mesmo, o manager que salvou os Queen depois de os conhecer naquela cena em Hammersmith no "Bohemian Rhapsody", que é neste momento uma masterclass em mau cinema). Reid também é homossexual e encoraja Elton a experimentar livremente na sua sexualidade. Elton abraça a experimentação, mas sem poder exprimir-se publicamente, continua a sentir-se reprimido e cada vez mais sozinho.

Música Incidental:  "Better Off Dead" / "Don't Go Breaking My Heart"


Acto 6: "Idol"

Estamos em 1976 e Elton começa a sofrer de burnout devido ao ritmo arrasador que a sua carreira tomou na década de 70, o que vai compensando com mais e mais droga. Depois de uma digressão americana que o deixa de rastos, Elton grava o duplo álbum "Blue Moves" – um disco muito mais dark que reflecte o estado de espírito da dupla Elton / Taupin, a precisar desesperadamente de um descanso. O álbum é um falhanço que obriga Elton a questionar a sua carreira e o seu estilo de vida.
Vemos Elton sozinho e deprimido, a pensar na vida, ao som de "Idol", um tema do álbum "Blue Moves" que conta a história que eu presumo que seja a base do enredo do filme.
Elton isola-se do mundo e depois de algum tempo recluso, em 1977 Elton John marca um concerto para a Wembley Arena, onde anuncia a sua retirada da música. Numa tentativa de quebrar com os vícios do passado, Elton rompe com a sua banda e com o seu companheiro de sempre da composição Bernie Taupin. O resultado é pior: Elton isola-se cada vez mais e sente-se cada vez mais sozinho.

Música Incidental: "Sorry Seems To Be The Hardest Word" / "Tonight"


Acto 7: "Ego"

Elton tenta sair do buraco e experimenta regressar aos discos, mas desta vez sem a sua equipa de sempre. O álbum "A Single Man" é o primeiro a ser gravado sem a presença da Elton John Band (Nigel Olsson na bateria, Davey Johnstone na guitarra, Ray Cooper na percussão e Dee Murray no baixo), nem a colaboração de Bernie Taupin nas letras.
Espero que seja dado tempo suficiente a esta fase para percebermos quem é Elton e quais os problemas por que passou. É preciso escavar um pouco mais a fundo na sua discografia, naqueles anos negros do fim dos anos 70 e início dos anos 80, para o perceber completamente. Esta fase é caracterizada na perfeição pelo single "Ego", uma canção amarga que Bernie escreveu para Elton e sobre Elton, antes de este correr com ele. Se ao longo dos anos, as letras de Bernie pareciam espelhar o que ele via em Elton, nada parece tão evidente como a crítica em "Ego", que obriga Elton a confessar os seus pecados na primeira pessoa. Elton percebe que Bernie lhe deu uma canção que o acusa de um ego desmesurado, mas numa decisão bizarra e muito, muito british, decide gravar o tema na mesma e até lançá-lo em single — é precisamente a última música da colaboração Bernie / Elton, antes da sua separação. O problema veio a seguir.
O álbum "A Single Man" é um falhanço comercial e o seguinte – "Victim Of Love" – ridiculariza Elton e deixa-o completamente descredibilizado como artista. Agora não é só o homem que vive dias difíceis, também a carreira do artista bateu no fundo.

Música Incidental: "Strangers" / "I Cry At Night"


Último Acto: "I'm Still Standing"

A entrada nos 80s são tempos de enorme infelicidade para Elton John. Elton continua a sentir-se sozinho e numa tentativa desesperada de sair do buraco, decide casar-se com a sua Engenheira de Som (isto só acontece em 1984 e aqui ainda estamos em 1983, mas hey, fantasia e tal). Apesar de gostar dela como amiga, Elton não lhe pode dar o que ela quer e a ao vê-la infeliz, é tomado por sentimentos de culpa e remorsos. Elton está perdido e mais uma vez afoga-se na droga e na bebida.
A salvação de Elton vem dos seus velhos amigos. Bernie Taupin e a Elton John Band regressam em força para o álbum "Too Low For Zero" e voltam a conquistar o mundo com o single "I'm Still Standing". Elton John está de volta!
Embalado pelo sucesso de "I'm Still Standing" e um sentimento de renascimento, Elton assume finalmente a sua homossexualidade, recupera a sua credibilidade como artista e todos são felizes para sempre.

Música Incidental: "I Guess That's Why They Call It The Blues"



FIM

Créditos: "Song For Guy"

Os créditos rolam ao som de "Song For Guy", enquanto vemos uma sequência de imagens com efemérides da carreira de Elton nas décadas seguintes, incluindo o triunfo monumental da banda sonora do "Rei Leão", os recordes da regravação de "Candle In The Wind" aquando da morte da Princesa Diana e os milhões de álbuns vendidos até ao anúncio da sua retirada no ano passado, com a digressão final "Farewell Yellow Brick Road".


P.S. : Na semana passada o London Calling na NiTfm foi dedicado a "Rocketman", por isso se quiserem ouvir a história com a minha narração intercalada com as músicas da banda sonora, é só seguir este link.

P.P.S. : Se forem mais de Spotify, têm a banda sonora completa aqui. Enjoy.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Tears For Fears em Brighton — A crónica de uma jornada frenética

Muito mais que uma crónica de um concerto, uma carta de amor aos Tears For Fears


Esta é muito mais do que uma mera crónica de um concerto. É a crónica de uma jornada frenética entre Londres, Brighton e Esher, que envolveu um concerto dos Tears For Fears nas grades, inundações, ameaças de morte, posters assinados, setlists, palhetas, cartazes, sorrisos trocados com o Roland Orzabal e o Curt Smith e o bónus deste falar comigo no microfone DURANTE O CONCERTO (desculpem o caps lock, é a emoção ainda). E tudo isto enquanto o trabalho e a vida quotidiana decorriam normalmente. Longos dias duram cem anos. Esta jornada durará uma vida. Esta é a crónica de como uma banda pode marcar uma vida. É uma carta de amor aos Tears For Fears.


1. The Bible Of Dreams — O sonho de uma vida

Um dos sonhos de toda a minha vida adulta sempre foi ver os Tears For Fears ao vivo. Na minha adolescência, a banda de Bath representou o papel de psicólogo. Foi a música deles que me ensinou que não havia mal nenhum em expressar as minhas emoções (para mal dos meus pecados, segundo a minha mãe). Desde esse tempo que os TFF foram a banda mais constante em toda a minha vida, até mais que os "gigantes" Queen e Pink Floyd, que eu normalmente aponto como as minhas bandas favoritas, mas que têm uma presença muito mais sazonal no meu quotidiano, quando comparados com os TFF.

Ao longo dos anos, esperei pacientemente que viessem a Portugal. Todas as Primaveras cruzava os dedos para que o Covões, a Roberta, ou o Montez se lembrassem deles e os trouxessem aos seus festivais. Antes do tempo do Facebook, passava os dias a fazer refresh na página da Blitz, sempre em pulgas pelas novas confirmações para os festivais. Mas nunca eram os Tears For Fears. Ou eles não vinham à Europa, ou se vinham, escapavam invariavelmente ao nosso circuito.

Em 2005, numa altura em que andava no Técnico e mal tinha dinheiro para ir à Costa, projectei uma viagem a Londres para ir ver os TFF ao Hammersmith Odeon. As minhas poupanças de 200€ riram-se. Não fui. Acabei por com esse dinheiro ir a Madrid ver o (na altura ultra-entusiasmante) regresso dos "Queen" com o Paul Rodgers, numa épica viagem de autocarro que ainda está por contar.


Em 2016, a viver um ponto baixo na minha vida e farto de esperar que os TFF viessem até mim, decidi ir eu até eles. Projectei então uma viagem-relâmpago aos Estados Unidos, para os ir ver ao histórico Red Rocks, no Colorado (digam-me lá se o cartaz não é uma maravilha). Mas não era uma aventura barata e mesmo já com mais alguns trocos na carteira, as minhas poupanças voltaram a rir-se. E eu voltei a não ir. Acabei por (num orçamento bem mais simpático) ir a Londres carpir mágoas com o David Gilmour no Royal Albert Hall (história aqui), naquele que ainda é, até à data, o seu último concerto em nome próprio. Mas faltavam sempre os Tears For Fears.

Foi por isso sem pensar duas vezes que, quando no Outono de 2017 os Tears For Fears marcaram uma data para o lendário Royal Albert Hall (notem esta tendência, sempre os mesmos lugares a aparecerem ciclicamente), eu marquei bilhete e viagem de Lisboa. Foi uma noite gloriosa, inesquecível, perfeita, a melhor de sempre; todos os superlativos se aplicam (e foram na altura documentados aqui na NiT). Curiosamente, essa noite marcou também o fim de um ciclo, uma vez que acabou por ser a minha última viagem de turismo a Londres, antes de me mudar definitivamente para cá.



Há um ano surgiu uma oportunidade, daquelas que imediatamente percebemos que só aparecem uma vez na vida. Numa noite de insónias, fui ver como estavam os bilhetes para a digressão de 2019 dos Tears For Fears. Esta digressão era para ter acontecido há um ano (e eu não tinha bilhete), mas entretanto a mulher do Roland Orzabal morreu de cancro e atirou-o para uma depressão que impossibilitou o lançamento do novo álbum dos TFF e fez adiar a digressão um ano. Com esse adiamento, muitos pediram a devolução do dinheiro e com isso libertaram alguns lugares de luxo. Lugares como o que me apareceu NA PRIMEIRA FILA em Brighton (lá estou eu com o Caps Lock) e parecia caído dos céus, mesmo no meu colo. Nem queria acreditar. Depois de agradecer ao Freddie, ao George e meus restantes anjinhos, marquei o lugar sem mais pestanejar. E sem pensar que o concerto era em Brighton, numa segunda-feira.


2. The Working Hour — Um dia de trabalho pouco normal

Tinha tudo programado ao pormenor. Saía de Londres de manhãzinha e ia para Esher trabalhar como habitualmente. Às 4:00, se o dia corresse excepcionalmente bem e não houvesse problemas para resolver na obra da Battersea Power Station, agarrava nas coisas e punha-me no comboio a caminho de Brighton. Com o tempo bem contado, estava lá à hora da abertura de portas.

Não se comecem já a rir. É que eu tinha mesmo que lá estar à hora de abertura de portas. Isto porque normalmente o Roland e o Curt assinavam uns 25 posters da tour e só os primeiros a chegar à venue é que os agarravam. Nada podia falhar, com o risco de não passar um dos testemunhos desta apertada corrida de estafetas e ir tudo por água abaixo. E por falar em água. Estava o dia a correr dentro da normalidade possível de uma segunda-feira, quando à uma da tarde ligam-me da Foxtons (a agência onde aluguei a minha casa em Londres) e dizem-me que estava a cair água no apartamento do vizinho de baixo. Isto significava que podia haver uma inundação em minha casa. Fucking hell. Era mesmo o dia indicado para acontecer uma tragédia destas.

Minha gente. Há uma coisa que precisam de saber sobre mim. Sou um gajo muitíssimo zeloso com os seus pertences. E obsessivo-compulsivo quando se trata da sua colecção de discos de vinil. Quando trouxe para Londres toda a minha colecção de mil discos (hoje já são 2 mil), foi na certeza de que eles comigo é que estavam bem. Pensar que um maldito cano roto qualquer tinha arruinado anos de trabalho e de paixão, deixou-me num estado de pânico e corrosão interior que é difícil explicar aqui. Descrevi a situação ao meu chefe como a catástrofe que de facto era. E ele, que já me conhece o suficiente para saber da importância dos meus discos, liberou-me, "mas só depois de fazeres as tuas timesheets!", diz. Estes ingleses e as putas das regras. Feita a tarefa, pus-me a caminho de casa temendo o pior.

Chegado a casa, não havia sinais de água no chão. Alívio. O cano roto estava a verter no apartamento de baixo, mas o meu estava aparentemente salvo. Pelo menos ate aos meus vizinhos de cima — um casal germânico-coreano muito brincalhão — voltarem às suas brincadeiras de sábado à noite na banheira. Mas adiante.

Agora era hora de voltar a pôr o plano inicial nos carris. Pijama na mala e siga para Victoria, para apanhar o comboio rumo a Sul. À saída de Victoria Station uma das minhas imagens preferidas de Londres: a Battersea Power Station vista por trás do parque de comboios de Pimlico, antes da Grosvenor Bridge. Todas as dificuldades pareciam ter ficado para trás. Agora era só smooth sailing.



3. I Believe — Antes do concerto

Cheguei a Brighton debaixo do clássico tempo britânico — os showers. Como o próprio nome indica, levei um banho a caminho da venue e por isso cheguei ao Brighton Centre todo ensopadinho. Mas mesmo a tempo do que eu queria. Fui um dos primeiros a entrar e pude assim ter o merch stand só para mim e sim, os posters assinados estavam lá. Mas bolas, 50£?! Ainda por cima eram só 15, por isso tinha que decidir rapidamente. Enfim, isto um dia não são dias. Para além do tão desejado poster assinado, trouxe ainda umas meias do Seeds Of Love que são a minha nova paixão.



Estava então na hora de programar o próximo passo. Uma vez que tinha bilhete para a fila da frente, pensei em levar, pela primeira vez, um cartaz para um concerto. Mas o que é que eu podia pedir aos rapazes? A primeira coisa que me passou pela cabeça foi pedir para tocarem o meu tema preferido de sempre dos Tears For Fears — o ferocíssimo "Raoul And The Kings Of Spain". Mas isso tinha dois senãos: em primeiro lugar, conheço a banda e sei que não era por eu pedir o tema que eles o iam tocar, não estando ensaiado; e depois é um tema da iteração Roland-a-solo dos TFF e eu sabia que ia ter o Curt mesmo à minha frente. Então decidi-me pela second-best-thing:


Sim, é como leram – queria cantar o verso do "Shout". Para quem não se lembra, é aquela parte: "in violent times, you shouldn't have to sell your soul". Teoricamente, o meu plano tinha tudo para dar certo. Sabia que era o último tema do set e sabia que o Roland costumava emprestar o microfone à audiência para cantar o refrão. Quando fui vê-los ao Royal Albert Hall em 2017, vi o Roland deixar um tipo cantar parte do verso e, pasmem-se, ele não sabia a letra. Mas eu sabia e ia mostrá-lo ao Roland, "I Believe". Siga para a sala principal do Brighton Centre.

Antes do prato forte da noite, Allison Moyet a abrir. E que bela surpresa. Entre os hits dos Yazoo e da sua carreira a solo, a ex-vocalista do duo synthpop (que formou com o hitmaker Vince Clarke, quando este saiu dos Depeche Mode) foi uma revelação.
Olhando à minha volta, apercebo-me que sou um alien ali dentro. Não só sou o único estrangeiro na sala, também sou o único abaixo dos 35.Altura também para pôr alguma coisa no estômago, que tinha passado o dia todo só com uma torradinha às 8 da manhã. Sai então duas pints, que os Tears For Fears estão mesmo a chegar.


4. Head Over Heels — O concerto de uma vida I

Já discorri vezes sem conta neste espaço sobre a excelência dos Tears For Fears. Mas para quem ainda não leu o memorando, aqui vai mais uma vez: os Tears For Fears foram a melhor banda dos anos 80. Period. Onde os The Smiths têm o "Hatful of Hollow", os TFF têm o "The Hurting"; onde os The Cure têm o "Disintegration", os TFF têm o "The Seeds Of Love"; onde os U2 têm o "The Joshua Tree", os TFF têm o "Songs From The Big Chair". São a banda mais completa de todas as que saíram desta década.

O maior elogio que se pode fazer aos TFF é que são uma banda que envelheceu bem. São uma banda que teve sucesso nos anos 80, mas a sua palete sonora é muito mais larga que essa década. O arco discográfico dos Tears For Fears é nada menos que perfeito (também porque os rapazes tiveram sempre o dom de perceber quando parar). Cada álbum é uma ilha independente, que vive por si própria e só está ligada às demais por meras questões de linguagem. É o próprio Roland que confessa que "para construir algo de novo é preciso destruir primeiro o que existe; para criar, é preciso matar". A discografia dos TFF é tão perfeita que só apetece abraçar e dormir agarradinho a ela, para depois de manhã pedir em casamento. Mas para quê complicar uma relação que já é tão perfeita?

Daqui resulta que o espólio dos Tears For Fears não é muito extenso (especialmente para uma banda que nasceu há quase 40 anos), mas clinicamente preciso. Qualquer iteração do seu repertório daria uma setlist sólida. Quando esta é construída à volta dos hits da banda, não há como falhar. O set foi por isso uma cavalgada de hit after hit, com uns deep cuts preciosos lá pelo meio. Os êxitos são tantos, que os Tears For Fears se deram ao luxo de começar com "Everybody Wants To Rule The World", tão somente o tema com mais scrobbles no Spotify.

Segue-se o apaixonante "Secret World", um tema de significado muito especial, onde os rapazes mostram a simbiose que ilustra porque é que a magia dos Tears For Fears precisa da presença de ambos. Não tirei muitos vídeos nesta noite, uma vez que estava a tentar absorver ao máximo o que se passava à minha frente. Mas mostro-vos o meu vídeo preferido de Brighton, com os rapazes em perfeita harmonia em "Secret World":



A discussão da importância das partes nos Tears For Fears é antiga. Há uma grande facção de fãs que considera que Roland, sozinho, é os Tears For Fears. E é fácil perceber porquê. Roland é o génio esquecido dos anos 80. A sua imagem não era tão icónica como Morrissey, não era tão dark como Robert Smith e (definitivamente) não era tão atractiva como a de Simon Le Bon. Roland sempre foi o protótipo do anticool. Mas isso nunca me importou. Nunca foi esse o seu apelo. Há um magnetismo animal indizível em Roland Orzabal, um dos personagens mais densos e enigmáticos da música.

Nos Tears For Fears, Roland era quase tudo. Era ele quem escrevia a maior parte da música, cantava a maior parte das canções e no entanto, quando chegava a hora de escolher os singles, eles eram invariavelmente para o Curt. Porque a verdade é que era Curt quem vendia os Tears For Fears.

Um dia o Andrew Ridgeley dos Wham! (olha quem) disse que os Tears For Fears eram "all about Curt". E de facto era o Curt quem figurava nas capas da Bravo; era o Curt quem aparecia nas festas com o Morrissey; era o Curt quem era amigo do Phil Collins (e que o levou para ser atormentado pelo Roland nas sessões do álbum "The Seeds Of Love"). Mesmo não sendo a fonte da música, era mesmo tudo acerca do Curt Smith. (Nota, não subestimem o senhor Andrew Ridgeley; ele pode ter pouco ou nenhum talento musical, mas é um milionário que fez fortuna à custa de uma carreira na música... sem ter talento musical).

Curt esteve impecabilíssimo e aqueles que dizem que não faz falta aos Tears For Fears precisam de ver com os próprios olhos a performance de temas como o épico "Badman's Song". Como é hábito, o clássico de 10 minutos foi o ponto alto do show. Eis os rapazes numa jam em "Badman's Song":



O Andrew Ridgeley tinha razão. Há de facto alguma coisa de especial acerca do Curt Smith. Tem um ar simultaneamente afável e impecabilíssimo, que o tornam numa máquina inabalável de coolness. É ele o aileron dos Tears For Fears. Tê-lo ali ao pé de mim, à distância de um braço, a mandar aquela linha de baixo pulsante do "Broken" e ainda por cima a fazer eye contact comigo a cada dois minutos, (suspiro), deixava-me derretido como se fosse uma fã adolescente a olhar para a capa da Bravo. Nem parecia real.


5. Memories Fade — O concerto de uma vida II

Memórias voltaram de uma noite em 2011, quando numa (outra) jornada épica, cruzei o deserto do Nevada em tempo recorde, só para apanhar o Curt Smith ao vivo em Los Angeles, numa sala que levava no máximo umas 50 pessoas. No fim conversámos durante imenso tempo, sobre como ele não sabia se os Tears For Fears iam voltar a gravar, sobre como ele adorava Portugal e sobre como ele era apaixonado pelo futebol de Cristiano Ronaldo. Descobri aí que o Curt era um adepto fervoroso do Manchester United e estava "Head Over Heels" para que o José Mourinho assumisse o comando da sua equipa do coração. "Careful what you wish for", já fiz o ditado inglês. Anos mais tarde, o seu "Advice" iria cumprir-se, mas "I Believe" que depois de um "Year Of The Knife" em Manchester, tudo se transformou num "The Hurting". Esta só os fãs é que perceberam. Adiante.

E por falar no "The Hurting", na introdução de "Mad World", o Curt perguntou ao público quem é que era fã dos TFF desde essa altura. 1983, portanto. E eu, que estava ali mesmo ao pé dele, respondi-lhe que ainda nem sequer tinha nascido. Eu quero aqui relembrar que estava na primeira fila. Não sei se já tinha dito. Aliás, antes de começar o concerto, eu tinha-me levantado da primeira fila para me encostar às grades, não fosse algum chico-esperto tapar-me o campo visual. Mas voltando ao Curt, ele ouviu e respondeu NO MICROFONE "there is someone here who is very excited about not being born yet then. God, I'm old." Fucking hell. Talk about contact with your idols.

Claro que o contacto que eu estava mesmo desejoso era que me deixassem cantar um bocadinho do "Shout". Sabia que o Roland tinha deixado a audiência cantar em todos os concertos até então, por isso não havia razão nenhuma para que o meu plano não desse certo. Só que alguma coisa tinha acontecido no encore break. A banda estava a ter alguns problemas técnicos. Nada que fosse perceptível de onde eu estava a ouvir, a não ser quando os rapazes trocaram inadvertidamente de microfones em "Mad World" e as backing vocals do Roland ficaram por cima da lead vocal do Curt, algo que pareceu divertir muito o Roland.



Roland esteve visivelmente martelado durante todo o concerto. E segundo as informações que me chegam dos grupos do Facebook, tem sido assim a digressão toda. É difícil perceber o que passará na sua cabeça depois da morte da sua mulher. Roland revelou ao Evening Standard que bateu no fundo no ano passado e que demorou muito tempo a sair do buraco. A sua transformação desde o show do Royal Albert Hall é evidente. Roland está mais velho, mais bruto, mais animal. Mas com a mesma dor e potência de sempre na voz. Espero que tenha carpido as mágoas em canções que possamos ouvir no futuro. Como esta —"Please Be Happy" —, que partilhou em Julho de 2017, quando a sua mulher morreu e que quase ninguém ouviu.

O processo de recuperação de Roland fez adiar a digressão no ano passado e não se sabe que mais dano terá trazido aos Tears For Fears. O novo álbum — "Tipping Point" — foi anunciado pela banda em 2013, mas já estamos em 2019 e não há sinal que o seu lançamento esteja próximo. Julgando pelo novo merchandising, a artwork deve ser esta — será que o nome do álbum mudou para "Dancing Gramophone"?! —, mas tudo o resto é desconhecido.

Nunca acaba o drama nos TFF. Recordo que a digressão esteve mais uma vez em perigo há um mês, quando Curt Smith começou a publicar mensagens crípticas no Twitter, dando a entender que tinha abandonado os Tears For Fears. Isso acabou por ser confirmado (certamente não inadvertidamente, que o Roland é um tipo muito inteligente) numa entrevista há poucas semanas, quando confessou isso mesmo ao Irish Examiner.


Esta digressão acabou por não trazer muitas novidades, para desespero dos fãs (o meu desespero é que continuam sem tocar o "Raoul", mas isso sou eu). A grande novidade da digressão surgiria em, adivinhem, Brighton. Foi a primeira performance de "Suffer The Children" desde 1983. Os fóruns entraram em histeria, bem mais que os presentes, diga-se. Eu adorei. Mas já sabem, estava mais em pulgas para o encore.


6. Shout — O encore

Azar dos azares. À entrada para o encore, a banda não parecia muito contente. O Curt chegou, agarrou no microfone e enquanto falava das "fucking technical issues" que a banda tivera com os microfones, Roland foi para a outra ponta do palco. Algo não estava a correr bem.

Eu sabia que o "Shout" ia fechar o encore, por isso saquei finalmente do meu cartaz: "PLEASE LET ME SING THE VERSE OF SHOUT". O Curt viu, riu-se para mim e avisou Roland — "Hey, looks like someone here wants to sing the verse of "Shout"!". Mas depois o Curt olhou para mim e lembrou — "but we're not going to do "Shout" now". E de facto não iam. Mas já vão perceber.

Mas nisto, o Roland, que estava do outro lado do palco de costas para o Curt (e para mim), oblívio ao que se estava a passar, não percebeu e deu ordens ao teclista para começar o drum loop de "Shout". E daí acelerou para a versão mais rápida de "Shout" desta digressão. Pela primeira e única vez, Roland não foi ao público e por isso, paciência, o meu desejo não foi satisfeito. Só quando já se estava a despedir, Roland apercebeu-se do cartaz e riu-se para mim. Hey, já é alguma coisa. E sim, eu sei, este parece o relato de uma fã adolescente. Não é, mas acho que já perceberam que é como se fosse.

Depois da saída da banda do palco, tempo para pedir uns goodies aos roadies da banda. Fui o primeiro a pedir a setlist (ai não!) ao roadie do Roland e depois de me ignorar algumas vezes, lá me deu a que estava no microfone do Curt. Atentem no encore que estava previsto.


Vêem? O Curt tinha razão — a setlist mostrava que a banda ia fazer o seu clássico cover do "Creep" e só depois, para terminar, o "Shout". Enfim, nabice minha que não puxei o cartaz mais cedo. Repararam naquela palheta ali no meio da setlist? Ah pois. Não contente com a setlist, fiquei mais uns minutos a fazer a cabeça do pobre roadie para me dar a palheta do Roland. E acreditem, eu consigo ser muito chato nestas coisas. Ele lá cedeu e quando eu a vejo, não contenho o riso. CLARO que o Roland ia tocar com uma palheta com a sua própria cara. Só podia ser dele. Mais narcisista que isto, é impossível. Não era à toa que o Curt o chamava de Sun King.

Com a mala cheia de presentes e um sorriso rasgadíssimo na cara, saí do Brighton Centre a levitar, com a sensação de ter tido uma experiência extra-corporal. Ter ali o Roland e o Curt a tocar ao pé de mim, não pareceu real. Ainda não parece real, quando penso nisso. Valeu tudo a pena. E chegava assim ao fim uma jornada épica de emoções fortes. Pensava eu.

Nada mais falso.


7. Swords And Knives — Depois do concerto

Eu queria mesmo poder chamar a este capítulo de "Goodnight Song", um tema reconfortante do álbum "Elemental", perfeito para ouvir à hora da caminha. Mas a minha experiência na dormida em Brighton foi mais de "Swords And Knives".

Antes de mais, deixem-me explicar-vos (e defender) o meu raciocínio. Já tinha gasto imenso dinheiro no bilhete para o concerto (primeira fila de um concerto como os Tears For Fears aqui no UK não é brincadeira); mais a viagem de comboio, que é outra machadada neste país; mais a batelada do poster assinado. A viagem já estava muito cara. Ora, como sabia que tinha que apanhar o comboio para Esher muito cedo no dia seguinte, ia ficar só com umas 4 a 5 horas para dormir. Não valia a pena marcar um quarto e gastar mais uma torrente de dinheiro. Solução? Uma cama num hostel. Bela ideia.

As coisas no hostel não começaram bem. As fotografias mostravam um quarto para 4 pessoas, mas afinal a minha reserva era para uma camarata de 6 pessoas. Enfim, siga que eu tenho sono. Chegado ao quarto, escuro total. E aquele cheiro a metro sem ar condicionado parado no meio de um túnel a 40 graus. Para ver onde metia os pés, liguei a lanterna do telemóvel e percebo que todos os beliches estavam ocupados, menos o andar de cima de um deles. Era a minha cama.

Quando me aproximo, sai do andar de baixo um "Vinnie Jones" furibundo na minha direcção (vou reproduzir em inglês) — "YOU FUCKING FUCK! It's 11:30! Do you think this is thr time to enter the room and slam the fucking door? You woke me up!". Das outras camas, nem um pio. Eu, obviamente intimidado pelo formato 16 por 9, ecrã PAL-PLUS do meu interlocutor, digo – "I didn't slam the door, it just closed automatically".

Mas ele não ficou muito contente com a minha resposta ou, diria eu, sequer com o facto de eu lhe ter ousado a responder. E daí avança mais um passo e encosta o nariz dele ao meu, qual jogador da bola, e atira — "I'M GONNA FUCKING KILL YOU! You're saying that wasn't a slam?! Maybe you wanna show me a slam now, do you? Do you wanna slam the door on my face, you fucking fuck?".

Bem, that escalated quickly. Neste momento, como devem compreender, só o facto de eu ter mantido a minha roupa interior intacta e as minhas pernas hirtas, já foi uma vitória. Ainda arrisquei ir lavar os dentes para a casa de banho (mais barulho para deleite do nosso amigo "Vinnie Jones"), mas quando voltei e o ouvi a praguejar entredentes numa língua que eu já nem sequer conseguia decifrar, aí percebi que tinha que bater em retirada. É que eu ia dormir mesmo por cima do "Vinnie Jones". Ou melhor, não ia dormir, porque seria impossível dormir naquelas condições. Agarrei na trouxa e fui à recepção explicar o sucedido.

Resultado? Deram-me um quarto só para mim. In your face, "Vinnie Jones". E ainda me prometeram que o iam banir para sempre da cadeia de hostels. Ainda bem que eu ia sair do hotel às 5 da manhã, caso contrário ainda me arriscava a que o meu amigo "Vinnie" me chegasse a roupa ao pêlo. Mas também convenhamos que quando um gajo se arrisca a pagar 17£ por uma noite em Brighton, levar nos cornos deve ser mesmo das melhores coisas que podem acontecer.

E tudo isto foi só uma segunda-feira.


8. Break It Down Again — O dia seguinte

Quando cheguei à estação de Brighton, ainda faltavam 20 minutos para o meu comboio. Era o primeiro de três comboios que me iriam levar até Esher (onde trabalho), em mais uma corrida de estafetas onde qualquer falha resultaria num desastre de proporções épicas (ok, era só chegar atrasado ao trabalho, mas os ingleses são muito picuinhas com isto das horas). Fui buscar um daqueles grandes cafés, adequado para o longo dia que aí vinha.

Ao anúncio da plataforma, 5 minutos antes da partida, segui em direcção ao comboio, mas fui interceptado por um revisor — "Show me your ticket, please". Lá mostrei. "I'm sorry Sir. This is not a valid ticket. This is only for off-peak trains". Oi? Off-peak trains? Ó amigo, isto são 5 da manhã. Ok, já são quase 6, mas 6 da manhã é hora de ponta? "Yes, you must go to the Travel Centre and pay the excess". Mas nisto já só faltavam 3 minutos para a largada do comboio. Esta realização fez-me entornar o café em cima de mim. Corri enquanto tentava limpar o leite com café do casaco. O excesso de um bilhete de 35£ eram "só" 21£. Até corei. Mais uma corrida e consegui apanhar o comboio ao sinal do pipipi das portas. A primeira etapa estava safa.

A primeira passagem de testemunho era em East Croydon e havia apenas 4 minutos de diferença entre a chegada de um e a partida do outro. E como não poderia deixar de ser, o comboio de Brighton atrasou-se... 4 minutos. Saí esbaforido do comboio e entre subir escadas, correr e descer escadas, devo ter feito um recorde de 20 segundos e 3 pessoas atropeladas. Mais uma vez depois do pipipi, lancei-me para dentro de uma carruagem cheia de East-Croydonianos que não acharam muita piada à brincadeira.

A segunda passagem de testemunho foi em Clapham Junction e aí sim, já foi tudo smooth sailing. Quer dizer, foi tranquilo porque não apanhei nenhum pica, porque na verdade só paguei o excesso do off-peak e não o excesso para a ligação até Esher. Era o fim de 24 horas loucas, das quais ainda estou agora a recuperar.

À hora que termino de escrever este texto, já passaram 5 dias desde o concerto e olhando para trás, tudo foi tão rápido que a sensação é que foi tudo um sonho. Um sonho bom. Daqueles de que não apetece acordar e quando o maldito despertador toca, metemos o snooze para tentar voltar. Não pareceu e continua sem parecer real. E tal como no concerto de 2017, voltei a sentir que tudo passou demasiado rápido. É o mistério do tempo, que faz os bons momentos parecerem tão curtos e depois os estica na memória para toda a eternidade.


9. Mother's Talk — P.S.:

Esta semana a minha mãe ligou-me com más notícias. Depois de ouvir o London Calling desta semana — o meu programa de rádio na NiTfm (se não conhecem, you're missing out!) —, disse-me: "Expões-te demasiado! Toda aquela conversa que a música mudou a tua vida e não sei quê. Expões-te em demasia!" Ó Mãe, a culpa é do Roland e do Curt. Fala com eles.

Por falar no London Calling, não deixem de seguir a página no Facebook e claro, ouçam o programa desta semana "Shows From the Big Chair", dedicado aos Tears For Fears. Uma vez que não tive tempo para preparar o programa nos moldes habituais, o programa é o primeiro de sempre a ser gravado integralmente de improviso.

A ideia era contar a história épica das 24 horas de Brighton e intercalá-la com algumas das melhores performances ao vivo dos Tears For Fears. Mas tal como sempre acontece quando começo a contar as minhas histórias (perguntem às minhas estagiárias), acabei por me entusiasmar e ter que interromper o programa quando já batia praticamente a hora e meia. O programa tem performances em 1983 no programa de John Peel para a BBC, em 1985 no Massey Hall, em Toronto e em 1996 no Shepperd's Bush, aqui em Londres. Absolutamente imperdível.

10. Benfica — 0. Nacional


Perdoem-me, mas tinha que fazer menção a isto.