quarta-feira, 9 de maio de 2018

Apetite por dinheiro - Quando as edições de luxo caem no ridículo

Os Guns N' Roses passaram de Apetite por Destruição para apetite por dinheiro na reedição de "Appetite For Destruction"

Vem aí a reedição de "Appetite For Destruction", o primeiro álbum dos Guns N' Roses e muito mais que o melhor álbum da banda de Hollywood, um fortíssimo candidato para melhor álbum Rock de sempre. "Ei, lá está este gajo com os exageros do costume", já vos estou a ouvir. Nada disso, meus amigos. Todos os superlativos são parcos para traçar "Apetite For Destruction" como a besta destrutiva sem paralelo que é. Aqui não há Hakuna Matata para ninguém. Isto é o manual de sobrevivência para a selva urbana. Appetite entra a matar com "Welcome To the Jungle" e fixa à cabeça uma bitola altíssima de onde não mais sai. E daí advém o único senão do disco: é que é, de facto, um álbum cansativo.

Desde que se ouvem os primeiros acordes em eco de Slash e rebenta o grito maníaco de Axl, que "Appetite For Destruction" nos agarra pelo pescoço e nos sujeita a uma tareia emocional de tal ordem, que quando chegamos ao fim de "Paradise City", já estamos fisicamente de rastos. O problema é que ao contrário dos concertos dos Guns, aqui ainda só vamos a meio do álbum! Hora, pois, de levantar a agulha, mudar o disco de lado e levar com mais uma torrente visceral de riffs sujos, solos maiores que a vida e gemidos de orgasmos (sim, é "isso" mesmo que ouvem em "Rocket Queen"). O resto do álbum é passado num estado de transe, como um cavalo que continua a levar pauladas quando já morto no chão.

Quando os oceanos secarem, o céu ficar vermelho e o apocalipse das máquinas se bater sobre nós (como bem ilustrado na capa original censurada em 1987 e obviamente censurada neste mundo de coninhas de 2018), algures num gira-discos ainda tocará "Appetite For Destruction" e aí sim, será dado o cenário perfeito para se ouvir o melhor e mais mau álbum Rock de sempre.



Mas voltemos à Terra.

Somado a tudo o que exponho em cima, está o facto de "Appetite For Destruction" ser, a nível pessoal, um dos álbuns da minha vida. Um disco que nos meus dezoito anos revolucionou a maneira como me vestia, como me expressava e como me relacionava com o mundo. O sol brilha quando ouço Appetite. Até em Londres. Por isso imaginam o entusiasmo com que fui tomado quando ouvi o anúncio da reedição deste álbum. E a desilusão que se seguiu. Pior que desilusão, um sentimento de traição, a roçar a ofensa. Os Guns passaram de apetite por destruição para apetite por dinheiro.

Atenção. Notem que este não é um artigo a acusar os Guns de quererem ganhar dinheiro — quem faz uma obra-prima daquelas, tem direito a todo o dinheiro do banco. Muito menos é um artigo sobre como as edições de luxo são a nova forma de extorsão das editoras — eu ADORO ser extorquido com edições de luxo dos meus álbuns preferidos e estou sempre preparado para largar grandes quantias pela música que eu amo. E nem sequer é um artigo de revolta pelo preço da edição "Locked N' Loaded" , uma caixa surreal que custa a módica quantia de 1000 euros — o colecionador obsessivo que há em mim (e que vence invariavelmente o bom-senso) quer sempre a opção mais alta e em condições normais, eu iria acabar por vergar à caixa de luxo. Mas não me posso sentir estúpido. Se querem o meu dinheiro, têm que me dar conteúdo. É só disso que se trata.


https://www.youtube.com/watch?v=CpVrCQv3m7c

Como alguém que compra praticamente todas as edições de luxo das suas bandas preferidas — e acreditem, são muitas — por mais extravagantes e caras que sejam e que tem uma casa que parece um museu da secção de boxed sets da Fnac (se a loja já existisse nos anos 70), acho que tenho alguma autoridade na matéria.
Mais que isso, para alguém que sabe um pouco do que foi a história fascinante e improvável (quase do campo da fantasia) daquela que era à data a banda mais perigosa do mundo, não posso deixar de me senti traído pela minha banda preferida dos meus anos de faculdade.

"If you got the money, honey, we got your disease"

A magia que acontecia quando aqueles 5 ex-delinquentes (agora milionários) começavam a gravar é inapelável. Aconteceu naquele tempo (1985-1987), naquele lugar (Hollywood), naquele clima (a ferver) e com os AppetiteFive (Axl, Slash, Izzy, Duff, Steven). Tudo o que eles fizeram é documento histórico e deve ser tratado como tal. Não me importo (mesmo) de inchar com os 1000 euros, mas para isso têm que me dar tudo na caixa. TUDO. Mas já lá vamos.

Para começar, é absolutamente ofensivo deixar de fora da caixa a gravação original de "Don't Cry", uma das melhores de sempre dos Guns, que só ficou de fora de "Appetite For Destruction" porque — e estou a citar o Axl — já havia uma balada no álbum ("Sweet Child O' Mine"). A decisão, se tinha que ser feita entre os dois, foi a correcta. Mas que explicação é há para ficar de fora outra vez? Guardar para a caixa dos "Use Your Illusion"? Não faz sentido. 1985 é 1985 e 1991 é 1991. Anos diferentes, gravações diferentes. As versões dos Illusions são boas, mas o cheiro a látex já lá não está. Ouçam a gravação original dos Mystic Studios em 1985 (em baixo) e digam-me se não sentem o cheiro a sexo, suor e látex a sair pelas colunas.


https://www.youtube.com/watch?v=JPS2NQyz7Js

Depois há a (tão aplaudida) decisão de deixar de fora "One In A Million", ao mesmo tempo que inclui os restantes temas de "G N' R Lies". O tema é ofensivo, sim. É de mau gosto, é. Mas porra, e depois? Se existe, se foi escrito nos anos de Appetite na casa de West Arkeen, gravado nesta altura e representa um determinado tempo, então porquê ficar de fora da caixa? Está tudo tranquilo com o facto de começarmos a apagar a história?

Mas o pior é a quantidade de lixo que está presente na caixa e que só serve para encarecer o preço. Caveiras? Bandanas? Posters? Mas isto é uma caixa para miúdos de 16 anos ou para miúdos que tiveram 16 anos há 30? E quem é que com 16 anos tem mesadas de 1000 euros?

O potencial para esta caixa era enorme. A ainda existirem, não há qualquer razão para as sessões de gravação dos AppetiteFive não aparecerem aqui na sua totalidade. E já nem estou a contar com os home demos de West Arkeen (por exemplo) que existem, andam por aí em circulação, mas não têm aquela magia dos AppetiteFive. Sem contar com documentos ao vivo (completamente ausentes da caixa, salvo uns B-Sides), era assim que devia ser a edição "Locked N' Loaded":

CD 1 + LP 1-2 (45rpm): Appetite For Destruction
1. Welcome To The Jungle
2. It's So Easy
3. Nightrain
4. Out Ta Get Me
5. Mr. Brownstone
6. Paradise City
7. My Michelle
8. Think About You
9. Sweet Child O' Mine
10. You're Crazy
11. Anything Goes
12. Rocket Queen

CD 2 + LP 3-4: B-Sides N’ EPs
Live ?!*@ Like a Suicide
1. Reckless Life
2. Nice Boys
3. Move To The City
4. Mama Kin
Live From The Jungle
5. Shadow Of Your Love (Live)
6. It’s So Easy (Live at The Marquee 28 June 1987)
7. Knockin’ On Heaven’s Door (Live at The Marquee 28 June 1987)
8. Whole Lotta Rosie (Live at The Marquee 28 June 1987)
Sweet Child O' Mine 7"
9. Sweet Child O' Mine (Edit/Remix)
Welcome To The Jungle 12"
10. You’re Crazy (Acoustic Version)
G N' R Lies
11. Patience
12. Used To Love Her
13. You’re Crazy
14. One In A Million
Patience 12"
15. Interview With W. Axl Rose

CD 3 + LP 5-6: Appetite Sessions Part 1
Mystic Studios (August 1985)
1. Welcome to the Jungle (5:00)
2. Anything Goes (5:11)
3. Don’t Cry (4:42)
4. Back Off Bitch (4:57)
5. Heartbreak Hotel
Sound City (June 2-4, 1986) Part 1
6. Nightrain (4:54)
7. Rocket Queen take 1 (6:13)
8. Out Ta Get Me (4:02)
9. Think About You (3:54)
10. My Michelle (4:23)
11. You’re Crazy (3:24)
12. Paradise City (5:40)
13. Move to the City take 1 (3:15)
14. Jumpin’ Jack Flash (3:26)
15. Shadow of Your Love (2:43)
16. November Rain piano (9:44)
(77 min)

CD 4 + LP 7-8: Appetite Sessions Part 2
Sound City (June 2-4, 1986) Part 2
1. Welcome to the Jungle (4:59)
2. Don’t Cry (5:19)
3. Nice Boys (2:59)
4. Back Off Bitch (4:41)
5. Anything Goes (4:33)
6. Rocket Queen take 2 (6:07)
7. Reckless Life (2:47)
8. Move to the City take 2
9. Mama Kin (3:29)
10. Heartbreak Hotel (4:41)
11. November Rain acoustic (4:54)
12. Ain’t Goin’ Down No More (instrumental) (3:33)
13. Jumpin’ Jack Flash acoustic (3:53)
14. Move to the City acoustic (3:48)
15. Untitled song in progress
16. You’re Crazy acoustic
17. The Plague
18. Cornshucker Stomp
19. New Work Tune
(78 min)

CD 5 + LP 9: Appetite Sessions Part 3
Pasha Studios (August 1986)
1. Sweet Child O’ Mine (6:29)
2. Nightrain (5:14)
3. Jumpin’ Jack Flash (3:31)
4. You’re Crazy (3:35)
5. Reckless Life (3:11)
6. Heartbreak Hotel (4:15)
7. Shadow of Your Love (2:59)
8. Welcome to the Jungle (4:59)
9. Don't Cry (5:25)
10. Mr. Brownstone (4:13)
11. Move to the City [clean Live Like a Suicide] (3:27)
12. Mama Kin [clean Live Like a Suicide] (3:41)
13. Nice Boys [clean Live Like a Suicide] (?:??)

CD 6 + LP 10-11: Appetite Sessions Part 4
Rumbo Studios, Take One Studio & Can Am Studio (Fall 1986 | Producer: Mike Clink)
1. Welcome to the Jungle
2. It’s So Easy
3. Nightrain
4. Out Ta Get Me
5. Mr. Brownstone
6. Paradise City
7. My Michelle
8. Think About You
9. Sweet Child O’ Mine
10. You’re Crazy
11. Anything Goes
12. Rocket Queen
Rumbo Studios (1988)
13. Patience (5:56)
14. One in a Million (6:32)
15. You’re Crazy (4:26)
16. Used To Love Her (1:30)
17. Cornshucker (4:20)

Mas calma, que não é tudo. Se a caixa dos Queen com a discografia completa em 15 LPs me custou 400 euros e a caixa "The Early Years" dos Pink Floyd com 27 discos foi 450€, com 11 LPs e 6 CDs ainda estamos muito longe da relação ideal "value for money". Uma vez que as faixas exclusivas aos singles já estão nos discos "B-Sides N' EPs", os 12" que aparecem na caixa tornam-se também redundantes, pelo que não precisamos deles. Falta-nos, obviamente, material ao vivo. Para justificar o preço, tem que ser muito e em boa qualidade. No mínimo, deveríamos ter :

  • CD e LP com concerto completo do Marquee em 1987 (parcialmente lançado em lados B e no EP japonês conhecido como Live In The Jungle);
  • Blu-Ray e LP com concerto completo do Ritz em 1988;
  • Blu-Ray com documentário com entrevistas novas com os AppetiteFive, a Adriana dos gemidos de "Rocket Queen", David Geffen, etc;
  • Blu-Ray com as melhores versões possíveis dos históricos concertos do Roxy, Troubador e Music Machine;
  • Blu-Ray com remistura em surround e álbum em HD (este está na caixa!!!). 

E aí sim, levavam-me os 1000 euros. Desta forma, desculpem lá, mas não vai dar. Simplesmente não consigo justificar a mim mesmo gastar tanto dinheiro por tão pouco. Claro que nem tudo é mau nesta edição. Temos as sessões de "Sound City", ainda que incompletas, e daí já ouvimos o fortíssimo "Shadow Of Your Love", onde podemos imediatamente sentir a importância de Steven Adler na sonoridade da banda — um baterista que dança a tocar. Mas é insuficiente. Por muito que eu ame o "Appetite For Destruction", vou ter que boicotar esta reedição. Tem que ser dado algum tipo de sinal às editoras para que, se nos quiserem extorquir, tenham que incutir valor no seu produto.


https://www.youtube.com/watch?v=aHUmy5PvPjQ

Quem é que estou a enganar? Às tantas não vou de férias este ano. Ou então vendo um rim.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Todas as cores de um Beige Boy — Noel Gallagher ao vivo em Wembley

Noel Gallagher apresentou o seu último álbum em Londres com um concerto colorido e arrojado.

Indiferente ao epíteto de "Beige Boy" que o irmão mais novo lhe colocou, ou talvez até a desafiar essa noção que se tornou um homem insípido com a idade, o sucesso e o status, Noel Gallagher regressou a Wembley munido de um dos light-shows mais impressionantes a que já assisti — a rivalizar com os mestres David Gilmour e Roger Waters — e deu um concerto pleno de cor e personalidade. Já sabia que ia ser bom (é o Noel!), mas não sabia que ia ser TÃO bom. Uma agradável surpresa.

É de facto preciso coragem para descartar o espólio de uma vida de canções (que estão a ser devidamente capitalizadas pelo irmão), em detrimento de um álbum novo muitos furos abaixo da bitola a que o Noel nos habituou. Por esta altura, mesmo imbuído na sua soberba, até o próprio Noel já se terá percebido que este não é o seu melhor trabalho, mas nem por isso deixou de tocar o álbum quase na íntegra (deixando de fora o melhor tema — "The Man Who Built The Moon"). Para o Noel, é este o álbum que temos, é este o álbum que vai e ponto final. Respect por isso.

O preço a pagar é ver os seus espectáculos — outrora instantaneamente esgotados — com dificuldades para encher salas de 10 mil pessoas, enquanto o irmão vende 40 mil bilhetes em minutos para o Finsbury Park. No Wembley Arena porém, não parecia caber mais ninguém. Por entre uns idiotas com t-shirts do Liam — e eu que me dei ao trabalho de ir a casa trocar a parka que tinha vestida por um bomber jacket igual ao do Noel! — havia uma plateia ávida pela música do Noel. Os fiéis.

Depois de uma hora de álbum novo, o Noel lá resolveu dar uns bombons à audiência. O primeiro tema dos Oasis surgiu já na segunda metade do set, mas logo do álbum mais pobre da banda — "Heathen Chemistry". Noel manteve-se sempre em gincana pelo material mais conhecido do grande público e mais à frente tivemos canções de "Don't Believe The Truth" e do meu preferido (mas tão odiado) "Standing On The Shoulder Of Giants". De "Definitely Maybe", só houve um B-side e de "(What's The Story) Morning Glory?", só os obrigatórios "Wonderwall" e "Don't Look Back In Anger".

Mas se era para sermos radicais, eu também me livrava destas duas maçadas e substituía por temas escritos no período criativo dourado de 1998 e 1999 que serviu para alimentar os Oasis e o Noel durante 10 anos. Vamos embora Noel, "Solve My Mystery" e "Idler's Dream", em vez de "Wonderwall" e "Don't Look Back In Anger".

O entusiasmo retraído era tal, que a audiência cantou até as partes de piano de "Wonderwall", num dos momentos de maior euforia colectiva da noite. Para além destes, os mais óbvios, as grandes reacções da noite saldaram-se por insanos mosh pits em "Ballad Of The Mighty I" (grande tema, mas wtf?!) e "Go Let It Out" (perfeitamente justificado, foi o ponto alto do concerto e também eu lá mergulhei) e por singalongs em "If I Had A Gun" (aquele primeiro álbum a solo é uma delicia do princípio ao fim) e "Dead In The Water", que foi aliás o único tema novo a ter uma recepção semelhante aos clássicos.

O que me leva também à conclusão óbvia que, se dúvidas ainda houvesse, as canções do álbum novo não foram adoptadas pelo público. Nem mesmo pelo público do Noel, que é lesto a devorar e a decorar as suas letras. Esta já é a quarta vez que vejo o Noel a solo em Londres e é a primeira que vejo uma audiência a morrer. Mesmo em temas novos, o público do Noel nunca desarma. Basta observar a reacção eufórica que teve "In The Heat Of The Moment" — single do álbum anterior — para perceber que nem só de Oasis vivem os fãs do Noel.

O forte do Noel sempre foram os refrões contagiantes — simples e virais, impossíveis de tirar da cabeça. Ninguém nos últimos 25 anos escreveu tantos e tão orelhudos refrões como ele. Neste capítulo, Noel faz jus à sua alcunha, é ele o Chefe. Se agora decide anular o seu forte e começar a focar apenas nos grooves, deixa de ser o melhor e passa a ser apenas bom. E conhecendo-o como o conheço, o Noel não é menino para se contentar com isso. Muito menos quando vê o irmão passear o seu sucesso (com as canções dele) à sua frente. Esperemos pois pelo álbum de redenção, pleno de refrões contagiantes, e pela digressão de consagração, que deverão estar já aí ao virar da esquina. Para já, se quiserem ver um Noel diferente de tudo o que nos mostrou até hoje (eventualmente até demais), é aproveitar e apanhar a digressão de "Who Built The World?" enquanto é tempo.








quarta-feira, 25 de abril de 2018

shame ao vivo no Electric Ballroom — Sangue, suor e decibéis

A cura para a depressão da banda de Brixton é uma barragem de suor e decibéis

À hora que escrevo isto, os meus ouvidos ainda tilintam com a barragem de decibéis a que fui sujeito na última noite. São 6 da manhã e no comboio matutino, só eu e os zombies do costume a caminho de mais um dia de trabalho. A diferença é que hoje não me sinto um dos zombies; ainda estou ligado à corrente, na ressaca de um dos concertos mais viscerais a que assisti nos últimos anos. Sinto-me vivo. Dói-me o corpo todo, não sei se do mosh pit, se das poucas horas de sono. Mas como é que alguém pode dormir depois de uma injecção de adrenalina daquelas?

Os shame (assim, com minúscula) ao vivo no Electric Ballroom, em Camden. O concerto de uma das bandas punk mais entusiasmantes dos últimos anos foi o primeiro com a cobertura NiT em Londres. How about that?

Sangue, suor e decibéis. Há muito tempo que num concerto não sentia o perigo que tudo podia acontecer. E se os decibéis foram muitos — tantos, que ainda ouço um infinito "piiiiiiii" enquanto vos escrevo —, ainda mais foi o suor. A sério. Londres, amo-te, mas por favor, vai tomar banho, que isto não se aguenta quando começa a fazer calor. Tenho dificuldades em descrever o fedor da torrente de transpiração que inundava o Electric Ballroom. Os U2 podem prometer uma experiência de realidade aumentada, mas acreditem, nada vos desperta tanto os sentidos como uma barragem de transpiração. Fica a ideia para o Bono.

O que é mais curioso é que terá sido exactamente este pivete esmagador que me fez sentir mais vivo. De uma forma perversa, foi isso que distinguiu esta noite como uma experiência visceral e libertadora. Como se de sexo selvagem se tratasse. Senti-me mais perto da verdade, num nirvana sensorial de Rock 'n' Roll. Se é que isto vos faz algum sentido.

No Electric Ballroom sentia-se a electricidade de um momento especial. Em palco, a banda exultava em como esta era um grande noite, "apesar" de estarem em North London, dando conta da rivalidade bairrista em Brixton. No mosh pit (onde temo que fosse um dos mais velhos), fervia uma revolta contra coisa nenhuma que fazia levantar aquela tromba de transpiração. Na tenda de merchandise, a crew dos shame — composta por amigos da banda — comentava que este era o maior concerto de sempre do grupo. Um longo caminho tinha sido percorrido desde os bares em Brixton.

A noite terminou com gritos gameofthronianos de "shame! shame! shame!" e quem esteve no Electric Ballroom naquela noite levou para casa uma cura para a depressão. Eu ainda trouxe comigo o vinil cor-de-rosa de "Songs of Praise" — o álbum de estreia dos shame e um dos discos do ano.

"I'd rather be fucked than sad and that's a start", dizem os shame no seu maior hit "One Rizla" (sendo que isto hoje é medido em scrobbles no Spotify), numa frase que pode resumir muito sumariamente o propósito da banda de Brixton. Revolta. Num mundo onde a depressão parece assolar meio mundo e onde os sinais de alarme só agora começam a ser ouvidos pela sociedade, até faz sentido gritar que é melhor ser fodido do que estar triste. Lá fora é uma merda e sim, nada de bom nos espera. Mas melhor isso que não fazer nada. Pode ser uma revolta contra coisa nenhuma, mas não deixa de ser um abanão contra a letargia do quotidiano.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Os melhores casamentos entre anúncios e canções pop

Como filho dos anos 80, passei metade da minha infância a olhar para a televisão e metade dessa metade a ver a publicidade dos intervalos

Há anúncios e anúncios. A maioria ladra e nós passamos sem prestar atenção, tão habituamos já estamos em ser bombardeados com publicidade em todo o lado e a tempo inteiro. No meio da torrente, aparece sempre um ou outro que nos agarra, às vezes pela imagem, às vezes pelo som. Quando as duas dimensões sucedem, acontece arte; e como todas as obras de arte, também os anúncios se tornam imortais. 

A lista de hoje compila algumas das obras de arte do marketing das últimas décadas, as quais conseguiram a proeza de acertar numa canção pop que ao mesmo tempo cola no ouvido e casa na perfeição com o conceito do anúncio. São a prova que a escolha da banda sonora pode ditar o sucesso de uma campanha publicitária.

Note-se que não qualificam para esta lista canções escritas especificamente para os anúncios. Não esperem por isso ver aqui o spot do "diga bom dia com Mokambo", o "papa-a-papa" da Cerelac, nem "um Bongo, o bom sabor da selva". Considerem-se avisados.


10. Elvis Presley vs JXL  "A Little Less Conversation" — Nike (2002)



A Nike tem uma longa história de forte investimento em publicidade e nos anos 90 não havia quem lhes fizesse sombra no campo do marketing televisivo. Quem não se lembra de anúncios épicos como o jogo do bem contra o mal, que Cantona resolveu depois de levantar a gola e dizer "au revoir"? Ou das tropelias da selecção brasileira no aeroporto, quando o Ronaldo-fenómeno dominava o mundo? Em 2002, por vésperas do Mundial na Coreia e no Japão, surgiu outro anúncio para a História: o torneio da jaula no navio. Desta vez a Nike apostou na escolha de um tema high-profile para acompanhar o anúncio, utilizando uma remistura recente de "A Little Less Conversation". O tema não só assentou que nem uma luva na acção do spot publicitário, como deu ainda uma nova vida a Elvis Presley, introduzindo-o a uma nova geração de ouvintes. O sucesso seria capitalizado com o lançamento da compilação "Elv1s: 30 No. 1 Hits" em Setembro desse ano, a qual chegaria ao primeiro lugar das tabelas um pouco por todo o mundo.


9. Jet  "Are You Gonna Be My Girl" — Apple iPod (2003)



O spot multi-cromático do Apple iPod de 2003 é certamente um dos anúncios visualmente mais singulares dos últimos 20 anos. Prova disso são as inúmeras paródias a que foi sujeito desde então, sendo a minha preferida a de Conan O'Brien em 2016, aquando do lançamento dos wireless pods. O anúncio deu a conhecer ao mundo os Jet, utilizando o seu enérgico primeiro single "Are You Gonna Be My Girl" e catapultando a banda para um sucesso astronómico que eles não foram capazes de suster. Naturalmente, diga-se. A banda não tinha canções para isso e também não voltaram a ter a ajuda de uma grande marca.


8. David Bowie  "Absolute Beginners" — Meo Fibra (2016)

Chegámos então às operadoras de telecomunicações, talvez os maiores investidores em publicidade das décadas mais recentes. Os Gato Fedorento protagonizaram os anúncios da marca desde a sua criação em 2007 (quando substituiu a TMN), primeiro em ensemble e depois apenas com o Ricardo Araújo Pereira — o elemento que de facto vendia o produto — como cara da marca. A Meo nunca quis ficar a perder, e em 2015 o RAP foi trocado pelo Cristiano Ronaldo e em 2016, saiu o Ronaldo para entrar David Bowie. Não o David em pessoa, que morrera no início do ano mas o seu "Absolute Beginners", escolha que capitalizou o renovado interesse popular em Bowie na ressaca da sua morte. Embora eu seja um fã de sempre, passei a odiar "Absolute Beginners" quando fui obrigado a ouvi-lo durante 5 horas seguidas numa linha de espera do maravilhoso serviço ao cliente da Meo.


7. Lenny Kravitz  "Are You Gonna Go My Way" — L' Oreal Studio Line (1998)



Um dos melhores riffs da História do Rock promove gloriosamente qualquer produto. Mesmo que o spot publicitário do produto não utilize exactamente esse riff para não pagar direitos de autor. Confusos? Foi o que a L'Óreal fez ao Lenny Kravitz. A marca não obteve licença para utilizar a versão original de "Are You Gonna Go My Way" e não contente com isso, certamente obstinada em utilizar o riff monstro, em vez de optarem por outra canção, fizeram uma imitação barata que, por muito estranho que possa parecer (e que mostra que a nossa mente trabalha de forma sui generis) é imediatamente reconhecível e associável a "Are You Gonna Go My Way". Em vez de pagar os devidos direitos ao Lenny, a L'Óreal gastou o dinheiro todo na Kate Moss a dizer "porque eu mereço".
O caso de Lenny Kravitz não é original, mas é impressionante porque mostra que o riff que escreveu para "Are You Gonna Go My Way?" é uma marca em si mesma e uma marca tão forte que a L'Óreal não precisou de o usar para vender o produto, ou sequer para passar a ideia que o queria utilizar. O anúncio vai ao limite de emular até o videoclipe da música, plano por plano.
No ano passado, a Volkswagen lá abriu os cordões à bolsa e resolveu pagar ao Lenny para poder usar a música como deve ser no adorável anúncio ao Golf:



6. The Dandy Wahrols  "Bohemian Like You"— Vodafone (2001)



Mais uma operadora. A colaboração entre a Vodafone e The Dandy Warhols é o exemplo acabado de uma simbiose perfeita. A banda saltou do desconhecimento para os ouvidos de todo o mundo (lembro que o anúncio não foi apenas transmitido em Portugal) e a marca teve o seu melhor anúncio de sempre, especialmente importante por marcar a transição entre o fim da Telecel e a chegada da Vodafone, ganhando também uma imagem revigorada junto da franja mais jovem, devido à associação a uma banda indie.


5. Queen  "Innuendo" — Ballantine's (1999)



"You can be anything you want to be". Quando o melhor que um whiskey tem é o seu anúncio televisivo, está tudo dito sobre a bebida. Ou quase. O Ballantine's pode não ser o melhor whiskey do mercado (e estou a ser imensamente eufemístico), mas saber reconhecer as suas próprias debilidades é um atributo valiosíssimo e por isso há que tirar o chapéu à marca pelo investimento num anúncio que tornou o seu produto tão ou mais conhecido que a maioria dos seus concorrentes e que elevou uma bebida sofrível a uma marca instantaneamente associada a selos de qualidade indiscutível como a voz de Freddie Mercury e a guitarra de Steve Howe. A isto chama-se marketing genial.


4. Ella Fitzgerald & Louis Armstrong – "Cheek to Cheek"  Adágio (2002)


As pessoas que comem iogurte em anúncios têm sempre muito mais prazer do que é socialmente aceitável numa situação daquelas. Nunca consegui perceber onde vão buscar aquele entusiasmo, mas a associação ao tema "Cheek To Cheek" de Ella Fitzgerald sucede precisamente em ilustrar a extensão na hipérbole da sensualidade de um iogurte. "Heaven, I'm in heaven!". Malta, é só iogurte.


3. Queen  "Don't Stop Me Now" — NOS (2014)



O uso copioso de "Don't Stop Me Now" em publicidade um por todo o mundo deu vida nova à canção, transformando um minor hit de um álbum esquecido dos Queen ("Jazz") naquele que será provavelmente o tema mais conhecido dos Queen na geração mais nova, superando monstros como "Bohemian Rhapsody", "We Will Rock You", ou "We Are The Champions" (e obviamente o já referido "Innuendo").
Em Portugal, tivemos o impossível-de-escapar anúncio da NOS em 2014. O conceito do anúncio é engraçado. Uma miúda está sozinha em casa numa noite de verão a cantarolar o "Don't Stop Me Now" com voz de quem está a praticar o coito, forma como toda a gente canta quando está sozinha em casa. Entretanto, liga o tablet à internet. Mas atenção, que não é uma internet qualquer, é o superior serviço de internet da NOS. Que é tão bom que projecta a miúda para uma realidade aumentada que a coloca na Avenida da Liberdade já na manhã seguinte, no deserto, em Londres à tarde, no faroeste, no meio de um bombardeamento e em Londres outra vez, para correr até à fila da frente do Estádio de Wembley naquela noite mágica de Sábado, 12 de Julho de 1986 em que ali tocaram os Queen e assim — já estou a chegar ao fim da frase — ver o Freddie Mercury cantar o "Don't Stop Me Now" mesmo à frente dela. Grande serviço de internet, sim senhor. Só há um problema. É que isto NUNCA ACONTECEU! (calma que vou só ali soprar a minha bomba asmática). Não sei que raio de pesquisa fizeram os senhores da agência de publicidade, mas os Queen não tocaram o "Don't Stop Me Now" no Wembley, anulando por completo todo o propósito do conceito do anúncio. Um erro histórico do tamanho do Wembley, que até dá que pensar que o serviço de internet talvez não seja assim tão espectacular.


2. Etta James  "I Just Want To Make Love To You" — Coca-Cola Light (1994)



"São quatro e meia! São quatro e meia!! São quatro e meia!!! É a hora Coca-Cola Light!". Há anúncios que vendem produtos e há anúncios que mudam a cultura popular. Talvez o maior exemplo disso nesta lista seja o anúncio de 1994 da Coca-Cola Light. Já lá vão mais de duas décadas desde a sua transmissão, mas toda a gente acima dos 30 ainda sabe qual é a hora Coca-Cola Light — a hora em que um trolha com os abdominais do Ronaldo arruinava a produtividade de um escritório cheio de mulheres, que interrompiam em massa o que quer que estivessem a fazer, para o ver tirar a camisola e abrir uma garrafa de refrigerante (será que hoje o neo-feminismo permitia isto?).
Como os melhores anúncios, o conceito é muito simples; mas é a certeira escolha musical que fica na memória e faz o anúncio. A música de Etta James (desde então associada ao striptease), a hora das quatro e meia (em Espanha, onze e meia) e o rapaz em tronco nu são três figuras para sempre indissociáveis da marca. E tudo conseguido em menos de 30 segundos, que mudaram para sempre a cultura popular.


1. Johnny Nash  "I Can See Clearly Now" — Nescafé (1988)



De uma forma ou de outra, todos os anúncios nesta lista mudaram a percepção que o público tinha de uma determinada canção. Uma boa ideia, executada com mestria, faz com que o anúncio tome para si a música e ela para sempre fique associada à respectiva marca. O spot da Coca-Cola Light, por exemplo, não só conseguiu isso como ainda moldou a cultura popular à boleia da escolha certeira da banda sonora. Mas o anúncio icónico da Nescafé levou as coisas um degrau acima.
"I can see clearly now, the rain has gone", "It's gonna be a bright, bright, sunshiny day" são palavras musicadas que imediatamente associamos a café. Tudo por causa do anúncio do nascer do sol da Nescafé. O casamento perfeito entre uma marca de café, o tema quente e calmante de Johnny Nash e a ideia de um Carocha estacionado numa arriba ao nascer do sol, com o café aquecido numa resistência ligada ao isqueiro do automóvel. É uma injecção de tranquilidade que mexe com o espectador. Há anúncios e anúncios, mas qual é o anuncio com poder para mudar o curso do dia de quem o vê?

Não posso deixar de fazer também uma menção honrosa à sequela deste anúncio. A Nescafé repetiu a façanha em 1990 com o em nada inferior (mas menos icónico) anúncio da loja de discos na praia, com "I Got You (I Feel Good)" de James Brown a sair da jukebox iluminada ao mesmo tempo do café. Tive que juntar estes dois no primeiro lugar, senão arriscava-me de correr a lista a anúncios da Nescafé.



Fiquem também com a clássica playlist que reúne todas as canções desta lista:


quarta-feira, 11 de abril de 2018

Os assassinatos de Londres e o disparate da culpabilização da música

Aproveitem, que não é todos os dias que me podem ver a defender o hip hop.

Não percebo o hip hop. Se já me leram mais que uma vez, estão fartos de saber isto. Mas ao fim de 4 anos a escrever na NiT, havia de chegar o dia em que vinha aqui defender a causa do hip hop. Esse dia é hoje.

A razão para tal despropósito é a renovada insistência na deriva sociológica que associa a música — qualquer que ela seja — à violência. Em causa estão artigos no Guardian e Sunday Times e até estudos académicos que fazem uma ligação directa entre o hip hop — na sua vertente Drill (subgénero proveniente do sul de Chicago) — e a crescente onda de assassinatos que tem assolado Londres nas últimas semanas e que fez a cidade ultrapassar Nova Iorque em número de mortos.

Este tipo de retórica tem barbas. Lembro que há 50 anos faziam-se queimadas de discos dos Beatles (isso sim, uma heresia), porque a banda de Liverpool representava a vinda do Anti-Cristo. Uns anos mais tarde, surgiu nas comunidades mais conservadoras a ameaça de um extraterrestre chamado David Bowie que vinha de outro planeta para alienar a juventude. Os Black Sabbath, todos sabemos, eram satânicos. O próprio Ozzy Osbourne teve que ir a tribunal defender-se da responsabilização pelo suicídio de um adolescente que ouvia "Suicide Solution" quando disparou sobre si mesmo. Os Led Zeppelin fizeram um pacto com o diabo e tinham mensagens subliminares satânicas na sua música quando ouvida ao contrário (neste campo, a minha preferida continua a ser a genial mensagem subliminar de "Another One Bites The Dust" que, ouvido ao contrário, afirma que "It's fun to smoke marijuana" — true story). E claro, depois temos o Marilyn Manson, que foi o verdadeiro culpado — ele e não o acesso facilitado a armas nos EUA — do massacre de Columbine.

A associação de música à violência é o tipo de silogismo habitualmente traçado por quem nunca andou de metro para lá da Zona 2, a não ser para ir a Wimbledon ver ténis ou a Heathrow apanhar um avião. O Guardian, em particular, sempre tão preocupado em defender causas cosmopolitas e inclusivas, acaba por não perceber que só contribui para sectarizar ainda mais uma sociedade já dividida pela distribuição heterogénea de recursos. Para não falar que mostram perceber muito pouco do assunto, quando se equivocam na escolha da foto para o artigo (vejam a deliciosa nota no fim do texto).

Este é por isso o tipo de retórica utilizada por quem não entende o que é a música, o que significa e a sua importância social. Honestamente, só posso sentir pena destas pessoas. Temo que não estará ao alcance de todos a capacidade de abrir o coração à música e usufruir da torrente de emoções que ela inflige. É tão bom. Para eles, o mundo será um local bem mais cinzento. Para os outros, para nós, a música é um veículo de emoções. Tenha a forma que tiver, é histórica e axiomaticamente um factor de união. Mesmo que essa união seja feita num gueto. Ao comungar uma canção, o gueto vai partilhar sentimentos, vai humanizar-se. A tendência é sempre positiva.

Colocando em risco os que me rodeiam, também eu fui ouvir o Chief Keef e o Abra Cadabra, figuras de proa desse tão ameaçador Drill. Concedo que é tudo muito mau e confesso que não tive paciência para aturar muito mais do que 10 minutos daquilo. Mas não foi por isso que senti vontade de assassinar alguém. Não mais do que, por exemplo, quando sou submetido à audiência da banda-sonora do "Titanic" com a voz da Céline Dion. Não vamos banir a Céline por isso, pois não?

No ano passado, já aqui tinha falado no perigoso precedente que se abria ao estar a censurar música com livre critério, na altura com o argumento que tinha relações supremacistas. Ontem eles, hoje estes, amanhã não se sabe quem. E daí relembro que, tirando alguns tímpanos, a música nunca matou ninguém. Pode moldar erradamente cabeças mais incautas, é verdade, mas esse é um problema de educação. E é por isso que a culpabilização da música nos assassinatos de Londres é também (e principalmente?) uma manobra de diversão para desviar a atenção do verdadeiro problema.

A causa desta onda de crimes não tem nada a ver com a má música que se faz nos guetos, tem a ver com a pobreza e o défice educativo e cultural que ali existe, consequência directa dos cortes na educação, do desemprego e do emprego precário. Os autores destes crimes são quem vive nestas condições e se ouvem este tipo de música, isso representa uma relação causa-efeito tão directa como se comessem Chocapic ao pequeno-almoço. Censurar música por ser ouvida por criminosos seria como acabar com o Sporting porque o presidente é um pirómano. É preciso saber separar.

A própria qualidade medíocre da música é, também ela, uma consequência directa deste défice cultural. Não se pode atirar moedas de 10 cêntimos, chamar-lhes investimento, e depois esperar Beethoven ou Pink Floyd. Talvez aquela música seja um "crime" em si mesma, mas isso é outra história. Não é o Drill quem provoca os assassinatos e nada justifica a censura. Se querem combater a erosão cultural, então dêem condições aos miúdos para ter uma boa vida. Verão que também eles vão querer fazer música melhor. Até lá, aqui estarei para defender todas as formas de música que forem atacadas pelo lápis azul, venham de onde vierem.

domingo, 8 de abril de 2018

"Tunnel Of Love", um álbum de amores impossíveis

Um olhar sobre o álbum mais negligenciado da discografia de Bruce Springsteen

"Bobby said he'd pull out, Bobby stayed in / Janey had a baby, wasn't any sin / They were set to marry on a summer day / Bobby got scared and he ran away".
Contos de fadas? Onde é que isso já vai. A história que Bruce Springsteen traz em "Spare Parts" não é edificante, não vem em contos de fadas e muito menos espera um final feliz. Mas é uma história da vida real e é apenas uma de muitas narrativas de desolação que assolam o álbum "Tunnel Of Love". Mas deixem-me enquadrar-vos primeiro.

Bruce anunciou esta semana o lançamento em vinil da segunda vaga da sua discografia, a qual compreende o período em que foi efectivamente um artista a solo, isto é, sem o suporte da sua E Street Band a tempo inteiro. Entre o fim da digressão de "Born In The U.S.A." e o reatamento definitivo em 1999, a E Street Band só se juntou na Tunnel Of Love Express Tour (de onde saiu o "Chimes of Freedom", EP também incluído nesta caixa) e na breve reunião de 1995 para o lançamento da colectânea "Greatest Hits", que deu também lugar ao filme e correspondente EP "Blood Brothers" (aqui pela primeira vez em vinil).

Foi um período de 10 anos de música mais introspectiva e menos acessível, globalmente menos inspirada, mas nem por isso desprovida de interesse. Principalmente quando falamos do primeiro disco desta vaga — o tormentoso "Tunnel Of Love", um lote de canções que Bruce achou demasiado pessoal para serem levadas à E Street Band.

"Tunnel Of Love" é a jóia mais negligenciada da discografia de Bruce Springsteen, muito por culpa das expectativas de quem esperava um segundo volume de "Born In The U.S.A.". O que até vem a calhar, uma vez que é de expectativas goradas que o álbum trata. Aqui não há cavaleiros brancos, nem princesas em castelos. Há, sim, personagens reais, homens e mulheres mutilados pela vida, readaptados a ciclos sucessivos de frustrações e desencontros. É um álbum de amores impossíveis.



Se a lírica é brutalmente honesta, a sonoridade do disco representa uma viragem em cotovelo do que se ouvira em "Born In The U.S.A.". O início cru, acappella, revela à cabeça que o sucesso do seu álbum blockbuster lhe trouxe tudo, menos aquilo que Bruce realmente queria:
"I got the fortunes of heaven in diamonds and gold / I got all the riches, baby, any man ever knew / But the only thing I ain't got, honey, I... ain't got you"
"Tunnel Of Love" foi gravado em pleno processo de separação de Bruce. E isso ouve-se. Olhando para o nome, poder-se-á afirmar que é um álbum sobre amor. E é, de certa forma. Mas não no sentido romântico da palavra; não na mesma medida que, por exemplo, "The Ties That Bind", disco que escrevera 8 anos antes (e que ficou na gaveta em detrimento do mais amplo "The River"). "The Ties That Bind" era sobre o compromisso, sobre a responsabilidade de escolher uma pessoa para viver para sempre. Mas 'para sempre' é muito tempo e nesta altura, Bruce já viveu o suficiente para perceber que não há contos de fadas.

Dez anos antes, ele já fora o sonhador em "Born To Run" e já tinha embatido contra a realidade do mundo em "Darkness Of The Edge Of Town". Mas estas eram ainda as ilusões e desilusões de um jovem a quem faltava viver a vida. Os anos 80 deitaram Bruce, firme, de cabeça no chão e resultaram no desmoronamento do seu casamento e na escrita de discos sombrios como "Nebraska" e boa parte de "Born In The U.S.A." (vão lá ouvir com atenção as letras do tema-título e de "Dancing In The Dark", por exemplo). Chegados a 1987, onde antes havia compromisso, agora há traição. Onde havia inocência, agora há cinismo. Onde havia um casamento, agora há um divórcio.
"So tell me who I see when I look in your eyes? / Is that you, baby, or just a brilliant disguise?"


Como a toda discografia de Bruce, é preciso chegar a um determinado capítulo da nossa vida para fazer match com a vida de Bruce e perceber devidamente a música. No caso de "Tunnel Of Love", se nos estamos a relacionar com as canções, é sinal que as coisas nesse momento não estão a correr muito bem. A mim, já serviu de banda sonora para uma discussão de breakup que durou cinco horas. Cinco horas. Deu para ouvir o álbum todo mais de 6 vezes (sim, eu fui lá virar o disco 12 vezes).

Os mais cépticos do Boss (Brucépticos?) dirão que "Tunnel Of Love" foi uma tentativa de abarcar o mercado do Adult Contemporary. Mas a música que ouvimos aqui, por muito 'Oceano Pacífico' que possa soar, é tão somente o espelho do estado de alma de Bruce em 1987. Indiferente aos milhões que "Born In The U.S.A." lhe ofereceu (até porque o sucesso profissional não lhe deu trouxe felicidade a casa), Bruce continuou a escrever canções sobre o homem comum, com as quais todos nos podemos relacionar. Ryan Adams disse esta semana que este é um álbum que vos vai salvar a vida umas quantas vezes. A minha já salvou.

"Tunnel Of Love" é um álbum de amores impossíveis mas nem por isso traz uma perspectiva niilista ao amor, terminando com uma nota de esperança em "Valentine's Day": "So hold me close honey, say you're forever mine / And tell me you'll be my lonely valentine". Como diz em "Spare Parts", somos todos uma amálgama de peças avulsas que luta por manter o mundo a andar à roda. E foi isso que Bruce fez.

Enquanto gravava "Tunnel Of Love", Bruce aproximou-se da cantora que fazia backing vocals na E Street Band e cuja presença se sente um pouco por todo o álbum. Ele e Patti Scialfa acabaram por se juntar pouco depois e estão juntos até hoje. Não foi bem 'felizes para sempre' — 'para sempre' é muito tempo —, mas até ver, foram 31 anos. Um amor possível, portanto. Não será isto um conto de fadas?

P.S.: O título da crónica foi roubado ao novo livro da Inês Meneses, radialista do "Fala Com Ela" na Radar, "PBX" com Pedro Mexia e "O Amor é…" com Júlio Machado Vaz. Todos programas de audição recomendada.

quinta-feira, 29 de março de 2018

É Xutos, pá! — Os Xutos & Pontapés como linha de apoio ao emigrante

Como os Xutos & Pontapés entraram na minha vida aos 32 anos

Foi num daqueles constrangedores Encontros de Quadros onde pessoas que trabalham juntas durante o dia são atiradas para um ambiente anacrónico de copos à noite, sem que ninguém saiba ao certo até onde pode ir. Eram umas 4 da manhã e já pouca gente restava na discoteca da cave do Hotel do Vimeiro — local clássico destas reuniões da empresa —, quando um colega de outro sector, com quem nunca tinha conversado para além da prosaica troca de bons-dias, veio até mim com voz ébria, mas decidida: "Oh Bento! Tu que percebes de música, vai lá dizer ao DJ para meter música a sério!". (independentemente de termos falado ou não, todos na empresa sabiam de duas coisas sobre mim: que era doido por música e... pelo Benfica). Eu, que também já ia com uma bela pedalada, mas ainda umas cinco imperiais atrás do camisola amarela à minha frente, deixei-me rir e perguntei cinicamente: "mas o que é isso de 'música a sério?'". O meu colega inclinou-se para trás e meio desequilibrado da bebedeira, ergueu os braços em cruz e gritou: "É Xutos, pááá!!!". Como bom snob musical que à época só ouvia New Order, The Smiths e restante onda oitentista mancuniana, sorri de escárnio e corri aos meus colegas de sector para contar o insólito episódio. Nasceu ali uma inside joke que durou anos, durante os quais nos referimos aos Xutos & Pontapés de forma trocista como "É Xutos, pá!".

É clichê dizer-se que só se dá o devido valor às coisas quando as perdemos. E é um clichê dizer-se isto porque é absolutamente verdade. Viver fora do país ensina muita coisa e se ser emigrante não me deu (ainda!) para gostar de fado, permitiu-me em contrapartida perceber a verdadeira magnitude dos Xutos. E que o meu colega tinha razão.

Não é que eu tivesse falta de know-how de Xutos. Os êxitos, obviamente que os conhecia a todos. E como não? Eles são parte do património intelectual de Portugal, é impossível não os saber de cor. Mais, os Xutos são das bandas que vi ao vivo mais vezes — 6 no total, só atrás do David Gilmour com 8 vezes. O primeiro concerto que fui ver sem o meu Pai, foi Xutos em Lloret Del Mar (quer dizer, 'ver' é como quem diz; mas garantem-me que estive lá e tenho uma t-shirt para o provar). E no entanto, com tantos Xutos na minha vida, faltava-me ainda OUVIR os Xutos & Pontapés; faltava-me prestar atenção ao que têm para dizer, principalmente quando eles tinham tanto para dizer, em álbuns como "Cerco" de 1985 (o primeiro da formação clássica da banda) e "Circo de Feras" de 1987. Álbuns que moldam uma vida. Como estão a moldar a minha agora.

Tenho a firme convicção que a música nos chega apenas quando estamos preparados para ela. Toda a música nos chega no tempo certo, porque mesmo que chegue antes, não importa, não a vamos ouvir devidamente. A entrada da música dos Xutos & Pontapés em forma de torrente nesta fase da minha vida comprova esta teoria, ou não fosse o reportório da banda de Almada uma verdadeira linha de apoio ao emigrante.

É estranho que nenhum dos Xutos tenha, de facto, emigrado. Porque está lá tudo. Há as referências óbvias, como "as saudades que eu já tinha da minha alegre casinha", mas isso soa-me emocionalmente vápido — como a maioria do alinhamento do álbum "88"; não sei se por sobre-produção, se por sobre-reprodução — , quando comparado com a crueza bruta e honesta das canções de "Cerco". É aqui que o meu coração encalha, nos amores perdidos de "Conta-me Histórias", ou nas vidas perdidas de "Homem do Leme" (não se deixem enganar, procurem a versão original, incluída no álbum; é essa que querem ouvir) — "Sozinho na noite, um barco ruma, para onde vai? / Uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder".

Mas há muito mais de onde esta veio. "Contentores", de "Circo de Feras", é uma mina de referências à mudança de vida: "Carga pronta e metida nos contentores, adeus aos meus amores que me vou p'ra outro mundo / Mudaram todas as cores, rugem baixinho os motores e numa força invencível, deixo a cidade natal / É uma escolha que se faz, o passado foi lá atrás" — é a fuga para outro lugar, longe das raízes, sem olhar para trás. "Vida Malvada", do mesmo álbum, segue-lhe o rasto: "Adeus às praias cheias de gente e um beijo p'ra quem fica". Mas o maior catalisador motivacional (e obra-prima maior dos Xutos?) tem que ser o eufórico, revoltado e até provocatório "N'América": "Eu vou ter que sair, eu vou ter que partir / Finalmente vais ver, o que é que eu iria ser, o que é que eu iria ter... n' Américaaa". Sublime retrato do estado de espírito de quem muda de vida.



É aquela rara e preciosa sensação Springsteeniana que estão a falar comigo; que alguém, um dia, tomou notas e escreveu música sobre a minha vida. Não importa o seu significado original, porque eu tomei estas canções para mim. São minhas, agora. São sobre o meu commute diário, sobre os dramas e alegrias da minha vida em Londres, ou simplesmente a banda sonora enquanto corro desalmado para o metro, para tentar vencer o mau hábito de chegar atrasado.

"E quando as nuvens partirem, o céu azul ficará / E quando as trevas se abrirem, vais ver o sol brilhará" ("Não Sou O Único") é bálsamo para os ouvidos de quem está numa terra onde nunca se vê o sol. E no entanto, tal como em "Vida Malvada", ando de "óculos escuros a torto e a direito" (já me perguntaram se tenho algum problema), porque a ouvir Xutos, na minha cabeça o sol brilha. Bem, pensando melhor, talvez tudo isto seja um exercício de olhar para trás. Mas como não? Portugal continua a ser a minha casa. E os Xutos aproximam-me da minha casinha.



P.S.: Apesar de ter passado estes anos todos a gozar com o "É Xutos, pá!", a verdade é que fui lá mesmo pedir Xutos como o meu colega pediu. O DJ pôs a "Casinha" e foi uma maravilha.

P.P.S.: Dizem que só damos valor ao que não temos e só elogiamos quem já cá não está (o que é verdade, como vimos em cima). Pois bem, vou por isso aproveitar para me antecipar ao guião e deixar a minha homenagem ao meu Xuto preferido — o João Cabeleira. Sem desprimor para os outros Xutos, o Cabeleira tem algo que os separa dos demais. É mais sujo. É mais perigoso. É mais repugnante. E digo isto no melhor dos sentidos. O ar hardcore tem correspondência com o som que sai da sua guitarra, a esborratar continuamente a pintura de fino toque da secção rítmica composta pelo Tim, Kalú e Zé Pedro. Citando a minha mãe quando me quer chamar de javardola, é "uns a limpar por um lado e outros a sujar pelo outro". É isso que o João Cabeleira faz às canções dos Xutos & Pontapés. E ainda bem, que é assim que eu gosto dos meus Xutos — quanto mais sujos, melhor.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Os budas dos subúrbios

Nos subúrbios de Londres ferve Rock 'n' Roll que anseia sair

Quinta-Feira, seis da tarde. À porta de uma pequena loja de discos nos subúrbios de Londres, para lá da Zona 9, forma-se uma fila a perder de vista. O motivo? Tocava uma banda que ia ali apresentar o seu álbum de estreia. Sim, leram bem. Nenhum álbum lançado e já aquele frenesim. Mas quem? Perguntei à menina do balcão da loja — The Magic Gang, responde ela (ler com acentos nos aas — "mágic gáng"), seguríssima da resposta. Eu aceno afirmativamente, como quem diz com o queixo "muito bem, gosto muito". Nunca ouvi falar. Fuck me, que vergonha. O que é que eu estou a fazer neste fim de mundo suburbano, anyway? O amor ao Rock 'n' Roll tem coisas incríveis. Saio para a rua e vejo que a fila já dá a volta ao quarteirão. Quem é que veio ao concerto? Sendo uma banda rock, a audiência é obviamente mais velha; homens e mulheres acima dos 40 anos, munidos de casacos de cabedal espojados, a cheirar a mofo, comprados quando o Kurt Cobain ainda era vivo. Só que não.

Na verdade, a fila é constituída quase exclusivamente por miúdos abaixo dos 18 anos, que devem ter corrido para a loja ao toque de saída da Community School lá do sítio. É uma fila extensa, jovem e muito barulhenta. Principalmente a franja feminina, que a páginas tantas rebenta em histeria quando o guitarrista — denunciado pelo instrumento a tiracolo — se aproxima para falar com uma das meninas. "See you later!", diz ele em voz alta, exponenciando o entusiasmo daquele grupo juvenil. Eu? Fico à distância, a observar aquela intensa interação sociológica — um coito platónico, até porque a idade das meninas não dava para maluqueiras maiores. No alto dos meus 32 anos, devo ser o mais velho naquele passeio, já estou contando com a própria banda (o mais velho é Kristian Smith, com 25). Adoro tudo o que se está a passar à minha volta. A electricidade no ar é evidente, quase tão evidente como o frio obsceno que a corrente polar trouxe a Londres. Mas naquela fila nos subúrbios londrinos, o Rock 'n' Roll aquece o coração das adolescentes. Ali não se sente o frio. E que bonito é ver aquele amor genuíno pela música.

Quem disse que o Rock está morto? Ele vive e borbulha por aí, nas pequenas lojas de música nos subúrbios das metrópoles. E a julgar pela amostra aqui, há fome de Rock na juventude. Hajam bandas com ganas para nos satisfazer a gula e juntar-se-á a fome à vontade de comer. Eu é que já estou velho para estas andanças, mas isso é outra conversa. Não, não fui ao concerto. O que é que foi? Antes de julgarem, atentem nos números: 32 anos; 0 graus centígrados; 7 da tarde; a pé desde as 5 da manhã. A matemática fala por si — era hora de ir para casa, que o jantar não se faz sozinho e nem só de Rock eu me alimento. Até porque ainda me esperava hora e meia de caminho no regresso ao centro de Londres. Meti-me no autocarro, liguei o Spotify e lá fui eu ouvir os The Magic Gang pelo caminho.

O veredicto dos rapazes de Brighton? São uma banda de pop melódica (que hoje vai fatalmente para a vala comum do Indie Rock) de audição fácil e um inusitado arrojo para dar posição frontal às guitarras. São solos curtos e esporádicos, é certo, mas para quem quer ser ouvido na rádio nos dias que correm, é um sinal de coragem. O melhor tema da banda, "All That I Want Is You", demonstra isto mesmo. Em baixo está a versão original, incluída no EP de 2016, sendo que o tema foi-me  regravado para o álbum de estreia, homónimo, lançado esta semana.



O grande problema dos The Magic Gang? São muito lavadinhos e têm um ar demasiado amigável para o meu gosto. Será preciso maior audácia para que uma banda Rock volte a conquistar o mundo. Essa banda não será com certeza os The Magic Gang. Mas hey, a música é boa e haverá sempre espaço para bandas de bons rapazes.

P.S.: Para quem não é um book buff (ou um Bowie buff), o titulo da crónica e uma referência ao romance de Hanif Kureishi, sobre um adolescente desesperado por abandonar os subúrbios do Sul de Londres.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Definitivamente talvez

"I can't tell you the way I feel, because the way I feel is all so new to me", ou os altos e baixos da vida de um novo Londoner.



Dia 1 — 5:00

O que é que eu fui fazer à minha vida?

Eu tinha tudo. Uma vida tranquila, uma casa na praia, um emprego estável, carro pago ao banco, tudo. O que me terá então passado pela cabeça, para mandar tudo ao ar e ir para Londres correr atrás de uma fantasia? O que raio fui eu fazer à minha vida?!

Era só este pensamento que me martelava em loop enquanto me olhava ao espelho àquela hora - às 5 da porra da manhã, hora obscena a que estou obrigado a me levantar para fazer o commute diário para o trabalho. Mas isto são horas para alguém que não sofra de incontinência "já" estar de pé? Se ainda fosse "ainda"... Logo eu, um noctívago, dorminhoco inato, que tantas vezes me levantei às 9:00 em dias de semana, depois de vencer o despertador pelo cansaço de tanto tocar. Logo eu, um atrasadista por excelência, que nunca cheguei a horas a coisa nenhuma, nem sequer a entrevistas de empregos onde fiquei (incluindo este). Logo eu, que sempre desconfiei de pessoas que chegam a horas. Logo eu, que sempre olhei para quem acorda com a pica toda (morning fucking people) como um sinal desviante de sociopatia. Logo eu, que sou este somatório de indigências sociológicas, fui meter-me na terra conhecida mundialmente pela pontualidade.

Àquela hora estranha para um ser humano estar acordado, depois de uma noite dormida em blocos de hora-e-meia, só me ecoavam na cabeça as palavras da minha avó de 95 anos (parece-me importante sublinhar a longevidade da senhora), que me ligara na noite anterior em prantos, a perguntar "meu filho, o que foste fazer à tua vida?!". Sei lá, Vó. Sei lá.

Como em todos os outros precipícios da minha vida, sempre o mesmo arnês na hora da queda. A música. Nas colunas tocava "Definitely Maybe" dos Oasis. O álbum que me me salvou a vida quando tinha 15 anos, veio outra vez em meu socorro e estava ali a segurar-me a mão. Firme. Não deixa cair.
"There we were, now here we are; all this confusion, nothing's the same to me" / "I can't tell you the way I feel, because the way I feel is all so new to me", cantava Liam Gallagher em "Columbia", alinhando versos com o que eu sentia naquela manhã. Da cabeça confusa de um adolescente para a de um adulto não menos confuso, foi um pequeno salto. Levantei a cabeça, penteei o cabelo à Londoner e saí de casa a sentir-me "Supersonic".


Dia 1 — 8:06

Quando cheguei ao trabalho, tinha uma surpresa à espera. Não, não era a carta de despedimento por ter chegado atrasado OUTRA VEZ, logo no meu primeiro dia. Não. Já me tinham dado trabalho. Que era nem mais nem menos que parte do projecto de reabilitação da Battersea Power Station. A BATTERSEA POWER STATION! Para quem não sabe, é a central termoeléctrica na margem sul do Tamisa que aparece na capa do álbum "Animals" dos Pink Floyd e que eu só não classifico taxativamente como a capa mais fixe de sempre, porque os Pink Floyd têm outras artworks que também são as mais fixes de sempre. E sim, eu tenho a perfeita noção que tenho um problema com a exclusividade do conceito de "melhor de sempre". Já me disseram.


Mas isto? Isto é a Battersea Power Station! Aqui não há dúvidas, é mesmo o meu edifício preferido de sempre! Aquele que eu desenhava no caderno quando tinha 12 anos. É o meu sonho. Não, corrijo, nem nos meus sonhos me vi a trabalhar aqui. É um sinal! Só pode ser um sinal que estou no sítio certo, que fiz a escolha certa, que tudo estava escrito e destinado! Agora não é só "in my mind my dreams are real" ("Rock 'n' Roll Star"). Agora é aqui mesmo em carne, osso, betão e estrutura metálica. Tudo aconteceu por uma razão, todas as estradas vieram dar aqui.


Dia 1 — 18:16

Saí da estação de Earls Court, atravessei a estrada e fiz aqueles 100 metros até minha casa em lágrimas. Não sei se por tristeza, se por alegria. Estava assustado com todas as mudanças, mas ollhava à minha volta e via uma beleza idílica, parecia um filme. Finalmente cumpriu-se Londres. "These could be the best days of our lives, but I don't think we've been living very wise" ("Digsy's Dinner"). Naquele momento, tive a certeza que tomara a decisão correcta. Tudo parecia fazer sentido.

Entro em casa e percebo que não havia aquecimento. A senhoria não queria saber disso nem dos outros problemas da casa. E logo percebi que afinal nada era perfeito. Meu Freddie, o que raio fui fazer à minha vida? Intercalo agora períodos de êxtase indescritível com arrependimentos madalénicos. É difícil explicar a montanha-russa emocional onde viajo por estes dias. É muita coisa a acontecer ao mesmo tempo e sinto que a minha cabeça vai explodir. O meu sonho londrino está definitivamente a ser um desastre. Ou talvez o sonho seja mesmo assim. Talvez se fosse de outra forma não seria tão bom. Talvez tenha tomado mesmo a decisão certa em vir atrás da minha fantasia. Fuck knows. Definitivamente talvez.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O homem de Londres

A história do melhor tema de James Bond que nunca o foi.

Um dos maiores elogios que recebi em toda a minha vida foi de uma paixão que durou apenas 3 dias em Londres. Há amores que são assim — só existem numa determinada janela de espaço e tempo. Passadas as portas da Martini na Portela, o turbilhão desvaneceu tão rapidamente como aparecera; mas naquelas 72 horas, parecia que não havia mais nada do mundo. Era toda a música no mundo, todas as cores e todos os sonhos ao mesmo tempo, condensados numa só tempestade adamastora que lavrava tudo à sua passagem.

Encostados ao muro junto ao rio, a olhar para a Tower Bridge depois de um beijo apaixonado, ela virou-se para mim com um olhar encantado e disse-me que o que mais a impressionava em mim é que eu parecia não ter medo de nada. Sem perceber a tragédia do verdadeiro alcance das suas palavras, sorri e por um momento, senti-me o James Bond.

Toda a minha vida fantasiei com duas coisas: ser uma estrela de Rock n Roll e o James Bond. Por isso senti as palavras dela foram como um enorme elogio, mas nem por isso tirei quaisquer dividendos deste destemor. A verdade é que o medo não é mais que uma consequência das experiências negativas. É um sinal de inteligência emocional. Esta minha estúpida falta de medo deve-se ao facto de ter sido abençoado com a maldição de não aprender com as experiências anteriores e por isso não ter medo de cair nos mesmos erros uma e outra vez. Talvez por isso tenha sempre sentido esta atracção irresistível pelo perigo e pelo erro iminente. E como tal, não tenho medo de nada.



Man-o-war is very melodramatic. Too melodramatic. When we started out, it was just a homage to Bond themes really. I like it. It's pretty much the opposite to everything we're writing."

Os Radiohead escreveram "Man Of War" nos anos 90, por alturas do álbum "The Bends", como uma homenagem aos Bond themes, na expectativa de um dia a EoN (produtora dos filmes do James Bond) ligar à banda com o convite — no documentário "Meeting People Is Easy", podemos ver a banda em estúdio a gravar o tema. O telefone nunca tocou e "Man Of War" ficou na gaveta durante 20 anos, até ao ano passado, quando finalmente viu a luz do dia na reedição de "OK Computer".

A chamada da EoN chegaria finalmente em 2015 e, mel para os Radiohead, eles tinham exactamente o que a EoN. Só que perversamente, a EoN não quis "Man Of War", por ser um tema antigo. Como tal, os Radiohead gravaram "Spectre", o qual foi igualmente rejeitado por ser demasiado sombrio. Em última instância foi chamado Sam Smith, que acabaria por editar o deveras underwhelming "Writing On The Wall", tema competente mas desprovido de alma.

Na verdade, "Man Of War" talvez fosse demasiado complexo para o retrato que a EON quer fazer do James Bond nos seus filmes. Na visão original de Ian Fleming, James Bond é um assassino. Plain and simple. É um homem com mais morte e menos swing que a série de filmes quer fazer crer. Mas acima de tudo, é um homem. Um homem igual aos outros, com medos, desejos e anseios. A morte dos outros é a forma que Bond encontrou para compensar a sua própria morte interior. E é assim que os Radiohead se atrevem a caracterizá-lo.

"Drunken confessions and hijacked affairs just make you more alone"

O que mais me fascina na personagem do James Bond é o que estará por trás do homem infalível que vemos no ecrã. Nas cenas nunca mostradas, quando a câmara desliga e a missão está descomprometida, de certeza que detrás de todas aquelas conquistas há um homem que bebe uns copos a mais e conta os seus segredos a pessoas que conhece há tempo de menos para os saberem; que pega no carro bezano e conduz sem medo pelas curvas de Monte Carlo, em busca de respostas para os seus tormentos; que vai para Londres em busca das cores e encontra cinzento; que anseia pelo momento em que chega a miúda que lhe diz "és a minha Rock 'n' Roll Star".

"Man Of War" retrata este herói solitário e perturbado, um homem sozinho que vive com o peso d'"a missão" nos seus ombros. É o melhor tema de James Bond que nunca o foi. A recusa da EoN faz com que "Man Of War" deixe de ser necessariamente sobre Bond e passe a ser sobre quem quer que viva oblívio do medo e do perigo que espreita a cada esquina. Até finalmente perceber que Londres não tem finais felizes.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Estamos vivos — Uma reflexão sobre o Rock em 2018

O labirinto que cerca o Rock e a procura de uma saída

O Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell em trabalho e rocker a tempo inteiro, mexeu com as águas esta semana. Bastou-lhe despejar a alma numas linhas de um jornal para que, neste mundo beije e insípido onde o politicamente correcto reina e todos temem ter uma opinião, ele fosse imediatamente notícia. Não estranho. Numa crónica publicada no Jornal de Leiria, o Fernando discorre sobre os cronistas de Lisboa "de todo o peido que a Madonna dá", que dão o Rock como "uma coisa ultrapassada, para gente “fatela” e “burra”". Ora, eu também sou um cronista de Lisboa e embora não me sinta um dos visados (ou não fosse um fellow rocker a tempo inteiro), o tema é por demais pertinente para me passar ao lado. Até porque se o assunto é Rock 'n' Roll (e a sua tão propalada morte), então é comigo também.

Concordo com o Fernando em grande parte do texto. Adorei a metáfora da família do Rock "sentada à mesa, a comer com as mãos, a beber da garrafa e a abanar a cabeça". Retrata bem essa maravilhosa maluqueira que é o Rock, que nos mantém indefectíveis mesmo quando partimos quatro dedos de um pé num moshpit no Alive, ou mesmo quando levamos um pontapé nas partes baixas num concerto dos Metallica — ambas comigo, sim. São ossos do ofício. É o prazer em quebrar as regras, um escape das nossas vidas mundanas. E é essa visão de família que sinto quando olho para o tio Axl a ajudar o tio Angus a repor o carvão no comboio dos AC/DC, para que este continue a rolar infinitamente por essa linha fora.

Relativamente à morte do Rock 'n' Roll, desde os anos 60 que ela é declarada semanalmente e no entanto ele continua aí. O Rock é dado como moribundo nas publicações, mas vemo-lo de boa saúde na venda de bilhetes para espectáculos — veja-se a loucura na procura para o Alive, para os Metallica e para os U2. É dado como fora de moda, mas a venda de t-shirts (até nas lojas mais mainstream) mostram que o Rock é que tem ainda as marcas mais cool do mercado. Por isso não se deixem levar pelas notícias — o Rock está bem vivo. O que não significa que o panorama seja só de rosas. Ignorar o complexo labirinto onde o Rock está colocado é contribuir para a sua marginalização. O que também não significa que seja um mau prenúncio. Mas vamos por partes.

O labirinto onde o Rock está metido é complexo. Por um lado, há um claro défice de investimento nas bandas Rock, tanto monetário por parte das editoras, como social por parte dos media. Sem o dinheiro nem a projecção de outros tempos, as bandas vêem-se com menos recursos e menos tempo para criar as obras grandiosas do passado. Os tempos dos adiantamentos de milhões para a gravação de um álbum já lá vão e isso, inevitavelmente, vai reflectir-se na qualidade do material. Porque por cada "Chinese Democracy" há um "A Night At The Opera" ou um "The Seeds Of Love".

Por outro lado, se esse investimento megalómano porventura existir (pela própria banda, por exemplo), o lucro com as vendas em formatos físicos não vai justificar a despesa. Os tempos mudaram e com as novas formas de ouvir música e a migração para as plataformas de streaming, o investimento na criação da música Rock — mais caro que a EDM ou que o Hip Hop, onde basta um laptop para "fazer" música — deixou de compensar. As bandas veêm-se encurraladas neste ciclo vicioso do qual é complicado sair. A solução que encontraram para recuperar rendimentos foram longas digressões após longas digressões, interrompidas por um "novo álbum", muitas vezes apenas como pretexto para ir novamente para a estrada. E por isso chegamos a este ponto curioso — perverso, até — em que numa altura que se ouve cada vez mais música, os artistas passem cada vez mais por dificuldades. O reavivamento do mercado do vinil e a aposta nos (meus tão amados) boxed sets veio equilibrar um pouco as coisas e a aposta na valorização da música é um dos caminhos, mas os puristas e os coleccionadores não deixam de ser apenas um nicho do mercado.

Antes que venham com a questão da pirataria, esqueçam. Ela sempre existiu e está aqui desmistificada. Porque não é a restringir a audição e a perseguir os ouvintes que os miúdos se vão apaixonar pela música, pelas bandas e pelas suas histórias, O que é preciso é deixar as pessoas apaixonarem-se pela música. As pessoas fazem as coisas mais incríveis por amor. Até comprar discos. Uma porrada deles.

Independentemente das vendas físicas, a transição para o streaming é evidente, pelo que terão que ser essas plataformas — que vieram, em parte, substituir o papel das "editoras" — a compensar melhor os artistas pela sua música e até a investir neles; mas isso implica uma negociação complexa, da qual estamos ainda muito longe. A não ser, claro, que estejamos a falar de "marcas" já estabelecidas, com poder de alavancagem suficiente para negociar. Foi o caso dos Beatles, que por causa disto mesmo, só recentemente entraram no Spotify. E aqui reside outra questão importante na marginalização do Rock — a falta de "marcas" novas.

Se pensarmos em cada banda (ou artista) como uma "marca", em que marcas é que os novos investidores preferem apostar? Se virmos as bandas novas axiomaticamente como marcas de risco e as bandas mais antigas e já estabelecidas como marcas seguras, a resposta é fácil. A falta de "marcas" novas acaba por ser o grande problema dos media, nomeadamente das publicações musicais, problema esse do qual são ao mesmo tempo réus e vítimas. Vítimas, porque não são eles os principais culpados do que está a acontecer, sendo apenas um peão (um cavalo, vá) nesse grande tabuleiro de xadrez; réus, porque não fazem nada para mudar o estado das coisas e deixam simplesmente a coisa andar, até finalmente afundarem elas mesmas — casos da NME, Rolling Stone e, obviamente, da Blitz.

Depois há a questão da projecção social. Com a falta de promoção por parte das editoras, as bandas são obrigadas a auto-promover-se. Mas o mundo está hoje pejado de um falso e pútrido puritanismo que disseca todas as opiniões (ou meros desabafos nas redes sociais), confunde a criação com o criador e tritura quem se atreve a pensar pela sua cabeça. Não é por isso fácil ser-se um jovem rocker com ideias fortes e vontade de transcender as regras. Se estas fugirem do status quo, um bocadinho que seja, cai uma shitstorm sobre ele e lá se vai o seu trabalho. Nem para os velhos a coisa está fácil. Perguntem ao Cid, humilhado por causa de uma piada; ou ao Reininho, indignadamente expulso de um programa da RTP. Ser um homem livre é algo que se paga e em Portugal paga-se a dobrar.

Com o panorama mirrado em "estrelas" beije e com pouco brilho, fica difícil vender revistas. Principalmente quando elas estão demasiado preocupadas em encaixar nos "novos tempos", ou então com medo de apostar em alguém com um discurso mais anguloso, não vá o alvo ser apontado para eles também. É de facto, um ciclo vicioso.

Há também o argumento que tudo está feito. Que o Rock está esgotado e só estamos a repetir os ases do passado. Isto é historicamente falso. Desde a sua invenção que o Rock teve a capacidade de se reinventar sempre —Prog, Punk, Metal, Grunge, Britpop, Indie e por aí fora. Há sempre espaço mais uma mutação. E porquê? Porque o Rock está sempre aí em quem o ama e olhem à vossa volta — somos muitos. Enquanto houver rockers, haverá Rock. E aqui recupero o argumento do início, que esta marginalização do Rock não tem de ser forçosamente um mau prenúncio. Porque todas as grandes explosões, todos os grandes movimentos do passado, começaram assim. Debaixo do radar. A mensagem continua a mesma do célebre concerto do Liceu D. Pedro V em Maio de 1979, onde os Xutos & Pontapés fizeram a sua segunda actuação ao vivoEstamos vivos. Pela minha parte, enquanto eu viver e me for dado espaço para difundir o Rock, nestas linhas ele viverá.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Toda a verdade sobre as lojas de discos em Lisboa

Guia completo com tudo o que precisam saber sobre onde ir e de onde fugir.

As notícias dizem que o mercado do vinil está em contínua subida, mas se falarem com os vendedores independentes vão ouvi-los defender que não é bem assim; ou pelo menos que não vêem uma fatia significativa do bolo desse tão badalado crescimento. É pena. Com as Amazons e as Fnacs cada vez mais poderosas e lucrativas e a crise ainda a tilintar na cabeça dos consumidores, não sobra muito para os verdadeiros carregadores do ceptro da cultura do vinil — as lojas de discos. E porque precisamos cuidar das coisas boas que ainda temos, é tempo de vos dar a conhecer quais as lojas que devem visitar em Lisboa (e referir aquelas com que não devem perder o vosso tempo). Mas antes disso, um pouco de contexto.

Sou um melómano inveterado e coleccionador obsessivo. Desde que esvaziei o meu primeiro mealheiro para comprar o "Greatest Hits I&II" dos Queen aos 8 anos, acumulei muita experiência em lojas de discos. Quando viajo não vou a museus, vou a lojas de discos. Em Lisboa, no fim-de-semana, em vez de ir à praia, vou a lojas de discos. Percebem a ideia. Foram muitos anos e muitos milhares de euros gastos a comprar discos todas as semanas, rua-acima, escadas-abaixo, crate-para-a-frente, prateleira-para-trás, eCooltra-para-aqui, metro-para-ali. A lista que vos trago representa o meu legado e esteve 10 anos in-the-making. 

Não sei se já repararam, mas levo isto muito a sério. Record shopping é o meu hobby, o meu yoga, a minha amante. Tal não significa que seja uma actividade solitária — só eu e os discos. Pelo contrário. Record shopping a dois é ainda melhor e não há nada como partilhar a paixão pela música com alguém especial. Chamem-lhe ménage a trois — um chavascal com o amor e a música. Mas hey, divago.

Em suma, record shopping é muito mais do que apenas "comprar discos". É uma experiência multi-sensorial (visão, olfacto e, obviamente, audição) que só pode ser devidamente cultivada a explorar as crates (caixas de discos) de uma lojinha perdida num qualquer recanto da cidade, enquanto se discute o estado e a história da música e do mundo com o senhor atrás do balcão. E é tão bom viver numa cidade como Lisboa, lugar privilegiado para record shopping. Com lojas para todos os gostos, escolha aqui não falta. Sem mais, sigamos então para a lista definitiva com tudo o que precisam de saber sobre as lojas de discos em Lisboa. São 20 lojas, devidamente organizadas por ordem de preferência. Boas descobertas.


Sound Club Vinyl Store
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 24,
1200-273 Lisboa

Uma arca do tesouro. Não se deixem enganar pelo pequeno tamanho da loja, porque se a área é diminuta, a densidade de discos é insana. Como todas as melhores lojas de discos do mundo (e acreditem, já fui a algumas), também a Sound Club é um caos. Um caos com personalidade própria e pérolas inesperadas em cada esquina e cada caixa. No fundo, a loja apenas reflecte a imagem do dono, vivendo consoante o mood do Alexandre Barbosa, um artista em nome próprio, record seller de dia e DJ à noite.
Ser atendido por ele é sempre uma experiência diferente. Se o apanharem num dia bom, podem desmarcar os planos que tiverem porque não vão sair da loja tão cedo, perdidos em conversas filosóficas sobre o mercado do vinil (o Alexandre defende que a subida é uma ilusão) e estórias e lendas e dossiers sobre a noite lisboeta (que ninguém conhece tão bem como ele). E podem também desmarcar o jantar, porque vão sair de lá de sacos cheios e o orçamento só vai dar para uma lasanha do Pingo Doce.
A primeira vez que fui à Sound Club, há mais de 10 anos (ainda estava no Largo da Trindade), questionei o Alexandre acerca da organização caótica da sua loja. A resposta ensinou-me aquele que é o verdadeiro espírito do record shoppinga beleza está na descoberta. Estar a procura de Beatles e levar Creedence. Querer o "Sgt. Pepper", levar o "Magical Mystery Tour" e descobrir que é ainda melhor. E é isto mesmo. É possível que a Sound Club não tenha o disco que procuram, mas tem de certeza o disco que precisam.


Carbono
R. Telhal 6B,
1150-323 Lisboa

Selecção riquíssima, porventura a maior de Lisboa. É impossível explorar a Carbono numa só visita, até porque há vários níveis de investigação, os quais podem ser identificados altimetricamente: nas caixas em cima, mais fáceis de analisar, estão os discos mais caros, seleccionados de acordo com a procura do público; nas crates do chão está tudo o resto, muitas vezes discos repetidos em igual ou melhor estado do que há em cima, mas marcados 5€ a 10€ abaixo. É a mergulhar nas crates que se descobrem as verdadeiras pechinchas. O pior é que os discos estão dispostos de forma aleatória e por isso vão ter mesmo que aguentar essas costas, com longas horas de cócoras.
O downside da Carbono é que é uma loja geralmente overpriced (embora haja lá muitas surpresas, se for bem investigada) e não dão muito espaço a descontos, mesmo com quantidades grandes. O upside é que se estão à procura de um disco, é muito provável que ele esteja na Carbono. Paragem obrigatória.


Discolecção
Calçada do Duque 53-A, 
1200-156 Lisboa

A loja do Sr Vítor Nunes é o David Lynch das lojas de discos em Lisboa. Fascinante, mas elusiva, charmosa, mas fugida. Adorava ir lá mais vezes, bastava que para isso ela estivesse aberta. Parece fácil, não é? Antes fosse, mas eu tenho mais dificuldade em encontrar a porta da Discolecção aberta do que o Dale Cooper tem em encontrar o portal para o Black Lodge. Às vezes penso que vivemos em fusos horários antípodas, tal é a taxa de nariz na porta que eu tenho na loja.
Lá dentro, a selecção discográfica é relativamente pequena, mas gloriosa e totalmente imprevista. Prensagens que nunca viram, discos que nem sabiam que existiam, é o que podem esperar aqui. E tudo fairly priced. Nunca se sabe que maravilha ou raridade se vai apanhar, mas é garantido que o Sr. Vítor consegue sempre sacar umas surpresas no seu espólio. Afinal, já são 20 anos disto.


Tabatô Records (Crew Hassan)
R. Andrade 8A, 
1170-014 Lisboa

Uma revelação. Não se deixem enganar pela inexistência de prateleiras com discos quando entram na loja, porque na verdade a Tabatô Records faz parte da Crew Hassan, que é um restaurante/bar/cooperativa-cultural/fuck-knows-what-else e para chegarem à parte que interessa, têm que entrar, cruzar o bar e descer as escadas até à cave. Ainda não estão convencidos pelo aspecto hippie? Calma. Cheguem-se às prateleiras e comecem a passar os discos enquanto o vosso queixo desce de estupefacção.
O core pode ser o Reggae e a música africana, mas a Tabatô tem “só” a melhor selecção de música portuguesa de toda a cidade. E mais ainda. Discos raros, álbuns impossíveis de encontrar num estado em que não pareça que foram lavrados por um tractor, é uma pérola atrás da outra. Os preços estão um pouco puxados para cima, mas os discos estão muito bem seleccionados e já sabem, a qualidade paga-se. Mas não se assustem, falem com o Bastien, que o rapaz é uma simpatia. Levem um porradão de discos e ele faz-vos uma atenção.
A loja é um filão escondido numa zona up-and-coming no coração de Lisboa e é de visita obrigatória. 


Glam-O-Rama
R. Viriato 12, 
1050-010 Lisboa

Selecção mais virada para o metal e música pesada. Se essa for a vossa praia, não sei o que é que ainda estão a fazer a ler isto, já deviam estar a caminho. A loja do Luís Lamelas é tão obviamente um produto da sua paixão que é impossível sair de lá sem nos apaixonarmos por ela também. O Luís é de uma amabilidade e disponibilidade impagáveis e se lhe pedirem ajuda, ele vai fazer das tripas coração para vos encontrar o disco que desejam. Ou então fazer de Spotify humano e sugerir algo que não conhecem, mas que ele de alguma maneira adivinhou que iam gostar (e não falha). Ou então apenas discorrer (quilo)gramas de sabedoria sobre a cena punk lisboeta dos anos 80. Tudo enquanto mergulham nas crates recheadas de bons discos a preços baixos. Atenção àquelas crates do chão, peçam-lhe o banquinho e percam ali uns minutos, que vale a pena. Visita essencial para collectors, obrigatória para metalheads.


Zero à Direita
R. Almeida Garrett 162A,
2785-338 São Domingos de Rana

Não é bem em Lisboa, não é bem uma loja de discos, não é bem uma loja sequer, mas vale a pena a viagem a São Domingos de Rana para conhecer o Vítor Aguiar e explorar o seu magnífico espólio discográfico e de áudio high-end. O negócio dele é feito maioritarmente pelo Discogs, o que é melhor em comodidade, mas isto de comprar discos sem contacto humano e visual não é a mesma coisa. A selecção é variada e a qualquer momento podem dar de caras com aquela irresistível prensagem japonesa que até há um minuto não sabiam que tinham que ter, mas agora não conseguem deixar para trás. É sempre um prazer fazer uma visita ao Vítor, tão voluntarioso que nada custa saírem de lá sócios dele.


Vinyl Gourmet
R. Lourenço Marques 4, 4º Dto, 
2685-326 Prior Velho

Também fora de Lisboa, também loja online e também com um showroom para visitas atempadamente agendadas. A selecção da Vinyl Gourmet é diferente das outras todas nesta lista, uma vez que é estritamente virada para audiófilos. A qualidade sónica é a palavra de ordem aqui. O Sérgio presta-vos um serviço premium a todos os níveis, desde a escolha da prensagem do álbum que procuram (sempre a melhor do mercado, desde que não esteja out-of-print), passando pelo embalamento do disco, até à sua manutenção ao longo do tempo. Caro, como é óbvio. Mas já sabem, a qualidade paga-se sempre e aqui não é excepção.


Magic Bus
Av da Liberdade 9, loja 6
1250-139 Lisboa

Mini-loja escondida numa pequena área comercial na Avenida da Liberdade (lado oposto ao Hard Rock), com uma selecção pequena mas cirúrgica de tudo um pouco. Recomendo vivamente uma visita porque encontram sempre uma ou outra pérola.
Recordo a primeira vez que lá fui (ainda a loja estava na Calçada do Duque — atenção que a informação do Google não está actualizada) e o senhor me deixou mexer na caixa de singles dos The Smiths da sua própria colecção (nem estava para venda) enquanto suava nervosa e compulsivamente, provavelmente a ver a sua vida a andar para trás. No fim, passou com distinção o teste da paciência com o cliente. Podem também encontrá-lo nas feiras do LXFactory aos fins-de-semana.


Largo (Books & Records Megastore)
Largo do Intendente Pina Manique 18, 
1150-041 Lisboa

Outra loja elusiva. Encontro o senhor dos discos mais vezes nas feiras de vinil do Park e na feira da ladra, que na sua loja do Largo do Intendente. A loja deixou recentemente de ter também livros, dedicando-se a partir de agora somente à música. E ainda bem, que o senhor dos livros não transpirava simpatia (ao contrário do senhor dos discos, que é impecável). A selecção discográfica é bastante interessante, com a maioria dos discos em excelente estado e a preços razoáveis. Tem também uma parede deliciosa, forrada a bandas sonoras.


Mau Génio
Estr. de Benfica 731A. Centro Comercial Nevada, Loja 9,
1500-089 Lisboa

No Centro Comercial Nevada, bem no coração de Benfica, a Mau Génio fica um pouco fora de mão para quem vive no centro de Lisboa, mas a viagem vale muito a pena. Isto porque o Nevada é um dos últimos sobreviventes dos centros comerciais pequenos dos anos 80 e é por isso também uma viagem até à infância, principalmente para quem, como eu, sente saudades daquelas lojas maravilhosamente claustrofóbicas. Não estou a brincar. Estou farto do design minimalista das Apple Stores, o que eu gosto mesmo é de ter a vista ocupada com tanta coisa, que põe a minha cabeça a andar à roda. Mais que uma loja de discos — dos quais tem uma selecção muitíssimo interessante, também disponível online —, o core da Mau Génio é a quantidade babilónica de CDs e DVDs que enchem a loja (literalmente) até ao tecto. Uma vista impressionante.


Groovie Records
Rua de São Paulo, 252
1200-399 Lisboa

Fuck knows. Adorava ir à loja e dizer-vos como é (o feedback que tenho é bom), mas já perdi a conta ao número de eCooltras que aluguei para dar invariavelmente com o nariz na porta. O que me vale é que a viagem nunca é perdida, porque tenho ali ao lado a Tabacaria para beber um daqueles morteiros picantes e dar gás para a viagem de volta de eCooltra. De táxi, queria dizer. Depois volto para casa de táxi. É isso.
Adenda: Consegui finalmente encontrar a loja aberta e vale muito a pena a visita. A selecção é variada e tem particular foco no Garage Rock. A loja tem a sua própria label e promove artistas em ascensão com edições cuidadosamente curadas. O atendimento também é impecável.


T'N'T
R. de Campolide 54C, 
1070-037 Lisboa

TNT é nome de explosivo e de um tema dos AC/DC, mas o baptismo da loja vem dos nomes do Tó e da Ticha, casal de roqueiros e donos da loja de discos mais Rock N' Roll de Lisboa. Fora do circuito do Bairro Alto, e mais parecida com uma loja de bairro, a visita ao T'N'T vale pela conversa com a Ticha, que nos enche com a sua simpatia e as suas estórias com olhos a brilhar de quando conheceu os seus ídolos. A paixão pelo Rock N' Roll bate forte aqui.


Vinil Experience
Rua do Loreto 65, 
1200-471 Lisboa

Sabes que estás numa loja de discos quando o dono parece o Neil Young. A Vinil Experience é uma pequena loja no primeiro andar da Rua do Loreto, melhor encontrada pro quem desce a Rua da Atalaia. Loja mais virada para o Prog e Rock psicadélico, tem uma invejável vitrine com boxed sets e várias salas com oferta para todos os gostos. As selecção de caixas é única em Lisboa e de esvaziar a carteira ou chorar por vê-la cheia.


Flur
Avenida Infante D. Henrique, Armazém B4 Cais da Pedra - Santa Apolónia, 
1900 Lisboa

Loja eclética em Santa Apolónia, ao pé do Lux.  Ideal para uma visita depois de um bom almoço num dos restaurantes no Cais da Pedra, a Flur é mais virada para a música electrónica, mas tem um pouco de tudo nas prateleiras. Muito procurada pelos DJs puristas que só passam vinil. Se quiserem saber o que anda a passar nos bares, é fazer-lhes uma visita.


Peekaboo Records
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 35,
1200-273 Lisboa

Loja no terceiro piso do Espaço Chiado gerida pelo DJ Trol2000 (Rodrigo Alves), é focada no Disco e Soul, mas tem uma selecção muito interessante de música ambiental e experimental, com discos que não é habitual encontrar noutros locais.


Discoteca Lisboa
Rua dos Fanqueiros 166, 
1100-232 Lisboa

Loja com uma selecção eclética e imprevista, mas mais virada para a música folk portuguesa para alimentar a procura dos turistas que povoam a área. Se explorarem as crates, vão encontrar algumas belas surpresas.


Carpet & Snares Records
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 28,
1200-273 Lisboa

A Carpet & Snares é local de passagem sempre que vou a caminho a caminho da Sound Club. Não tenho nada a apontar à loja, mas como é virada para a música electrónica (dubstep, house, techno) e essa não é a minha praia, nunca a explorei. Se gostarem do estilo, dêem lá uma saltada e avaliem vocês mesmos.


Amor Records
Tv. do Marquês de Sampaio 14, 
1200-109 Lisboa

A loja é recente e nunca lá fui espreitar para ver como é. Culpa minha, neste caso. O projecto é uma aventura de 3 imigrantes brasileiros apaixonados pela música e só pela paixão, merecem uma visita. Já comuniquei com eles por mensagem e sempre foram prestáveis.


Pretérito Perfeito
R. Sampaio Bruno 39, 
1350-149 Lisboa

Mais um punhado de viagens de eCooltra perdidas. Meu, atende-me lá a campainha, que eu quero gastar aí umas notas.


Louie Louie
Esc. do Sto. Espírito da Pedreira 3,
1200-290 Lisboa

Uma tourist trap. Selecção paupérrima e overpriced, mas pior que tudo é o atendimento abominável. De uma antipatia e agressividade inenarráveis, representa a completa antítese da experiência desanuviadora que é record shopping. Se querem espairecer e gastar o vosso dinheirinho, há muitos locais para o fazer, mas este não é definitivamente um deles. De fugir.