quinta-feira, 20 de abril de 2017

O lado negro do Record Store Day

O Record Store Day faz 10 anos e já está cheio de vícios


Vem aí mais um Record Store Day. Para quem não conhece, o RSD é um evento anual que começou em 2007 nos EUA, entretanto difundido por todo o mundo e que acontece num Sábado de Abril com o objectivo de celebrar a cultura das lojas de discos independentes. Para tal, as editoras, em comunhão com os artistas, lançam uma série de discos especificamente para esta iniciativa. Estas prensagens são produzidas em quantidades limitadas, muitas delas exclusivas a determinados países, para serem vendidos nas pequenas lojas de rua ou, como nós chamamos, no comércio tradicional.

Antes de voltar ao RSD e porque esta crónica já vai demasiado solenizada e tudo é que demasiado polido me faz comichão, tenho que assumir que sou o maior fã de lojas de discos. Uma das minhas actividades preferidas, logo a seguir ao sexo e a festejar um golo do Benfica, é ir a lojas de discos. Ficar lá horas, mergulhar a fundo nas caixas e prateleiras de discos. Ir à procura de um álbum dos Tears For Fears e sair de lá com cinco discos diferentes do que queria. Quando viajo para o estrangeiro, a minha primeira prioridade não é procurar museus, restaurantes, ou miradouros, é ir a lojas de discos. Um dos meus sonhos é abrir uma loja de discos e se me saísse o Euromilhões (se eu jogasse), abria uma. Acho que já perceberam a ideia.

No papel, o Record Store Day parece o paraíso de qualquer aficionado do vinil como eu. O problema é que, chegado ao seu décimo aniversário, o RSD já não é nada do que se propôs inicialmente. Na realidade, parece-se mais com um pesadelo de frustração. A lista de lançamentos exclusivos do RSD é apetitosa, não há dúvida. Mas como pôr a mão num destes discos extremamente limitados? Em Portugal, é virtualmente impossível agarrar uma cópia dos discos mais procurados. Mesmo nos EUA, para onde é escoada a maior fatia do stock, as queixas de como é impossível encontrar os discos desejados são mais frequentes que o feedback de quem realmente os encontra. No fim, fica a frustração para a maior parte dos fãs, de mãos a abanar com notas, numa indústria que se queixa de falta de clientes. Estranho, não é?

E quando por algum milagre se encontra mesmo o disco, o melhor é proceder com cuidado a olhar para o preço porque o número pode provocar náuseas. As editoras ainda não chegaram à conclusão que os preços proibitivos pouco promovem a música e mais promovem aquela noção de que as editoras exploram os fãs e que só se podem queixar de si próprias pelo advento do download e do streaming.

Para onde vão estes discos, então? Vão para as mãos dos revendedores, "compradores profissionais" de raridades, que não querem os discos para usufruto próprio da música, mas sim para cobrar balúrdios aos fãs no eBay e no Discogs. São eles quem mais beneficia da raridade das prensagens e quem mais lucra com o Record Store Day, subvertendo todo o espírito da iniciativa.

A melhor chance de se apanhar um destes discos é mesmo a Amazon ou a Fnac, a quem são atribuídos stocks significativos dos lançamentos exclusivos do Record Store Day. Mas espera aí. Amazon e Fnac, lojas de discos independentes? Também não me parece que isto seja a melhor forma de hastear a bandeira do comércio tradicional.

Na prática, as lojas independentes beneficiam dos clientes que a marca do Record Store Day - sempre a crescer - atrai durante este dia. E se esses clientes não encontrarem o novo e exclusivo álbum ao vivo do David Bowie, "Cracked Actor" (que devia ter sido incluído na última e muito cara caixa "Who Can I Be Now?", mas esse é só mais um exemplo de como as editoras sodomizam a carteira dos fãs), então compram outra coisa qualquer, só para justificarem a viagem à loja. Será este muito provavelmente o meu caso. A propósito, não há aí nenhum "Cracked Actor" numa loja independente para este cronista? Prometo que será para usufruto próprio.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Easter eggs: os originais escondidos das músicas que todos conhecemos

Toda a gente sabe (ou devia saber) que "Knockin' On Heaven's Door" é um original de Bob Dylan, celebrizado décadas mais tarde pelos Guns N' Roses; mas quantos sabem que o hino Punk "I Fought The Law" não é um original dos The Clash?
Já nos aconteceu a todos. Apanhamos uma música avulsa numa rádio mais obscura e soa-nos familiar, mas não é bem a versão que conhecemos. "Olha, os The Who têm uma versão do "Behind Blue Eyes" dos Limp Bizkit!", pensamos incautos (não gozem, o Nu Metal estava na berra quando andava no Liceu e não havia smartphones na altura). Mas espera aí, então os The Who estão fazer um cover dos Limp Bizkit?! Depois googlamos o título (na altura só dava para fazer isso no PC de casa) e percebemos que afinal a canção já tem barbas.

O mesmo já me tinha acontecido uns anos antes quando dei conta que o meu tema preferido "dos" Nirvana era, afinal, do David Bowie. E como este caso, há inúmeros. Por exemplo, só há poucos meses percebi que "Got My Mind Set On You" não era um original de George Harrison (a primeira versão data de 1962) e, podem crer, eu sou um freak dos Beatles; daqueles que não hesitam em apontar o dedo a quem se atreve a dizer que o "Twist And Shout" "é dos Beatles".

Hoje é fácil discernir alguns dos casos mais óbvios como o "Knockin' On Heaven's Door", ou até o "The Man Who Sold The World". Com os smartphones, é tudo imediato e até podemos fazer de conta que "Ah, já sabia!". Been there. Mas até nesta era é possível ser surpreendido com a origem de alguns dos temas que conhecemos desde sempre. Não acreditam? Atentem na playlist em baixo, apropriadamente intitulada de "Easter Eggs" (lamento, foi o melhor que me lembrei de um artigo alusivo à Páscoa), com 50 originais de temas que tiveram sucesso mais tarde e/ou com outros artistas.



Pará lá dos casos mais óbvios desta lista, há também aqueles que nos podem deixar em choque. Como o de "I Fought The Law", um hino Punk dos The Clash que, afinal, não é deles. O tema foi gravado originalmente em 1960 pelos The Crickets, 17 anos antes (!!!) da versão olímpica dos The Clash. Antes dos Beatles, dos Stooges, ou de qualquer pessoa ter ouvido falar em Punk.
Também há "I Will Always Love You", celebrizado em todo o mundo pela versão tão-overplayed-que-dói que Whitney Houston gravou para a banda sonora do "The Bodyguard" em 1992, mas que já tinha sido um êxito Country nos Estados Unidos para a Dolly Parton, em 1973.
E que dizer de "Hound Dog" e "Blue Suede Shoes", dois ex-líbris de Elvis Presley que foram gravados em primeiro lugar por outros artistas? A versão original de "Hound Dog", composta pela lendária dupla Jerry Leiber e Mike Stoller, foi interpretada por Big Mama Thornton e acreditem, a mulher tem um vozeirão que nada fica atrás de Elvis.

Depois há os casos em que sabemos que estamos a ouvir um cover, mas não acertamos com o original. Exemplos? Muitos. Quando a Britney Spears apareceu a cantar o "I Love Rock N' Roll", quantos se apressaram a apontar a versão "original" de Joan Jett? Espertalhões. O verdadeiro original é dos The Arrows e data de 1975.
Também "Without You", mega-hit de Mariah Carey no início dos anos 90, é recorrentemente apontado como um original de Harry Nilsson (1971), cuja versão aparecia com frequência no Oceano Pacífico da RFM, na altura que esta rádio era audível. Na verdade, o tema é um original dos Badfinger e é daqueles que desafiam a audição, treinada por anos de "I can't liiiiiiiiiiive", que aqui é cortado para um único assertivo segundo.

Há ainda os casos das versões que foram gravadas e anos mais tarde regravadas pelo próprio artista numa versão diferente que, essa sim, teve sucesso. Por exemplo, sabiam que "Born In The U.S.A." de Bruce Springsteen começou como um tema sombrio nas sessões de "Nebraska"?

A lista dos 50 temas tem muitas surpresas, umas muito boas, outras nem por isso. Mas se os originais fossem bons, eram eles os conhecidos, não é? Como eu gosto de vos fazer a papinha toda, se quiserem ouvir as versões mais conhecidas, têm também uma playlist à maneira para o fazer. Toda ordenada da mesma maneira. Que maravilha.



segunda-feira, 3 de abril de 2017

As melhores de sempre do mês de Março

Março foi estranho. Mês de altos e baixos, começou com o entusiasmo da antecipação da Primavera deste ano, logo interrompido pela depressão do Inverno antecipado do ano que vem. Not cool. "Où Est le Soleil?", como perguntava o Paul McCartney no B-Side de "Flowers In The Dirt", disco de 1989 gravado com Elvis Costello que foi este mês lançado em formato Deluxe (e aí está a minha referência mandatória aos Beatles, logo no subtítulo)
Nesta fina linha entre o entusiasmo e a depressão das últimas semanas, valeu a enxurrada de música que nos chegou, com álbuns novos dos Real Estate, Sleaford Mods, Father John Misty, The Jesus And Mary Chain, Jarvis Cocker (dos Pulp) e muito mais pelo meio. Senhoras e senhores, bem-vindos a uma viagem pela já clássica playlist mensal da NiT, com as melhores de sempre... do mês passado.

Como o sol está aí outra vez e eu quero música para ouvir de janelas abertas e vento na cara, começamos a playlist de Março com as guitarras estridentes de "Wake Up" dos Circa Waves, banda de Liverpool que vem ganhando visibilidade com o seu segundo álbum "Different Creatures". Não sei ao certo ao que vêm estes rapazes, mas que vêm com toda a força, lá isso vêm.

Seguimos de janela aberta com os Temples (aqui não há Queen, Rafa, desculpa!), também eles no segundo álbum "Volcano". Estes, aposto, já dispensam apresentação. Os Temples continuam, e bem, na crista da nova onda de Psychedelia onde os Tame Impala são McNamaras e os Pond (que também têm tema novo) são um gajo qualquer bom mas nem de perto tão bom como o McNamara, mas cujo nome eu não sei porque não percebo puto de surf e já levei esta metáfora longe demais para a minha bagagem no assunto.

The New Pornographers já nos tinham brindado com uma grande malha em Janeiro — "White Ticket Attractions" — e continuaram este mês a mostrar o seu "Whiteout Conditions" que está quase a chegar, desta vez com o tema-título. Não consigo decidir qual a melhor amostra do novo álbum, mas garanto-vos: podem continuar de janela aberta a beber esse sol. E por falar em beber sol, vamos dar um passeio à praia com os já veteranos The Shins e este caloroso "Name For You", retirado do primeiro álbum da banda em 5 anos — "Heartworms". E já chega de sol, avancemos para algo mais obscuro.

É possível que nunca tenham ouvido falar nos Mount Eerie. Eu também não, até recentemente. Um pouco de contexto então: os Mount Eerie são o projecto musical do músico e produtor Phil Elverum, que contou com diversos colaboradores ao longo dos anos. Entre eles, a sua mulher Geneviève Castrée, que participou em quatro álbuns da banda do marido. Em Julho do ano passado, Geneviève morreu com um cancro no pâncreas, um ano depois do diagnóstico. Menos de um ano volvido, chega-nos um novo álbum dos Mount Eerie com o relato cronológico do processo de luto de Phil Elverum. E é brutal. Mas não é aquele brutal de quando saímos do cinema depois de uma reposição do "Blade Runner" e dizemos "ei, foi brutal!". Não. Isto é brutal no sentido bruto da palavra. É heartbreaking: "I don't want to learn anything from this, I love you".

A surpresa do mês esteve a cargo da banda extraconjugal de Damon Albarn — os Gorillaz — que anunciaram inesperadamente um álbum novo a abarrotar de convidados e desde logo mostraram três faixas novas. Uma delas é "We Got The Power" com Jehnny Beth das Savages e um convidado muito especial: Noel Gallagher. Esse mesmo. Enquanto esperávamos por novidades do mano mais novo (que deve estar a rebentar com o seu primeiro single a solo), Noel decidiu ao cortar aos bocados o que restava da Britpop, fazendo as pazes com o seu ex-arqui-inimigo. Mas pior que o rol de negligências de Noel (primeira parte dos U2, Noel? A sério?), pior que o esdrúxulo álbum novo do Jarvis Cocker dos Pulp (deve ser o Brexit que anda a deixar tudo maluco na ilha), é saber que a Britpop já merece honras de artigos na Pitchfork. Agora sim, a Britpop morreu. Viva a Britpop! I guess.

E quem disse que o Noel Gallagher não é um artista influente? Veja-se Father John Misty, que continua a promover o seu novo álbum à imagem de Noel, isto é, a insultar o Ed Sheeran: "I’m not doing what Ed Sheeran does. It’s not this cynical approach: ‘I know what these idiots will like.’". Tão bom. Insultos à parte, "Pure Comedy" era o lançamento mais esperado do mês e Josh Tillman não desiludiu. Uma das malhas é "Total Entertainment Forever", faixa onde saxofones canalizam a irresistível Pop americana dos anos 80 e onde desejos sexuais por Taylor Swift voltam a ser notícia.

Igualmente esperado era o novo dos Real Estate. "In Mind" tem a matriz de um álbum standard da banda de New Jersey, o que significa que não inventa a roda, mas também não envergonha. Os Real Estate seguem como aquela camisola velhinha que não dá muito estilo, mas aquece sempre. E se os Real Estate não foram especialmente inovativos, que dizer dos Sleaford Mods? Mais um ano, mais um álbum, a fazer jus à média insana de um álbum por ano que mantêm desde 2011. "English Tapas" é novo, mas de novo tem muito pouco. O normal, portanto. Não esperamos propriamente ópera do duo britânico. É apenas o novo capítulo de uma carreira tão "samey" que se pode caracterizar como um único longo e particionado álbum.

Tudo isto e muito mais na clássica Playlist NiT de Março, só com música lançada no último mês.

segunda-feira, 20 de março de 2017

O equívoco de Taylor Swift

O mundo adora a Taylor Swift, mas não precisa do Swifties.
Gosto da Taylor Swift. Não só pela evidência de que ela é, digamos, extremamente boa; mas porque para além disso, é também capaz de compor música Pop açucarada que cai extremamente bem no goto. Não tenho medo das palavras: "Shake It Off" é a melhor canção Pop desde os anos 90. A afirmação é discutível, admito, mas não andará longe da percepção global sobre um tema que materializa tudo aquilo que uma canção Pop deve ser. Mais: o álbum "1989" é um baú de pérolas Pop — embora nem sempre com arranjos de bom gosto, mas suponho que esse seja o preço a pagar pelo largo espectro de público que pretendia atingir — que a reinterpretação de Ryan Adams expôs a tão belo nu.



Mas a relevância de Taylor Swift não esbarra na música. Taylor é uma trendsetter. Normalmente quando a menina fala, o mundo escuta. Passando ao lado da polémica mal amanhada (e aparentemente forjada) com Kanye, onde ninguém ficou bem na fotografia, Taylor já mostrou várias vezes ser dona de uma personalidade forte, sem medo de arriscar, seguir sozinha e fazer frente aos dogmas da indústria musical. Ainda que nem sempre da melhor maneira. Caso em questão: a interminável batalha com o Spotify, que esta semana conheceu novos desenvolvimentos segundo o TMZ (se não conhecem, pensem num Correio da Manhã americano e rico).

Diz o TMZ que Taylor Swift está a planear uma plataforma própria com conteúdos audio exclusivos e non-downloadable (em streaming, portanto) — alegadamente baptizada com o nome de Swifties — para colmatar a sua ausência desde 2014 do nosso tão bem conhecido e amado Spotify (bem amado, menos quando metem anúncios de David Guetta no meio de um álbum dos Joy Division; os patifes sabem mesmo como convencer um gajo a assinar o Premium — pela tortura).

Taylor Swift tem a sua quota de razão nesta batalha. O Spotify é hoje uma ferramenta tão generalizada como o Facebook (quase, vá) e tem que rever a forma como valoriza o seu produto (o Lossless nunca mais vem?) e como compensa os artistas que lhes disponibilizam o seu catálogo — que é como quem diz, o seu trabalho — de mão beijada. Se bandas como os The Beatles (ou a própria Taylor Swift) podem alavancar o acordo que quiserem, já as bandas em ascensão são obrigadas a aceitar as migalhas que lhes atiram para os pés, cada vez mais fracos incentivos ao sonho do Rock N' Roll.

Percebo a intenção de Taylor Swift. Na prática, o Swifties pode ser um cruzamento entre a banca de merchandising da cantora, o Spotify e o Jornal do Benfica. O utilizador descarrega a aplicação e por uma determinada mensalidade tem acesso exclusivo à música de Taylor, enquanto ao mesmo tempo pode comprar as T-Shirts da nova colecção de merch e receber as últimas novidades da cantora (devidamente saneadas pela própria). Com isto, Taylor acha que será devidamente paga pela sua música, enquanto ao mesmo tempo isola as suas massas e as controla à sua maneira.

Poderá ser o Swifties um olhar para o futuro? Em vez de ter termos no telemóvel uma aplicação do Spotify, uma da Apple Music e outra do Tidal (e eu já acho que são demais), poderemos no futuro ter aplicações "The Beatles", "Taylor Swift" e "Tame Impala" e só nessa plataforma nos ser permitido ouvir a música desse artista? Não me parece. A tendência tem que ser para simplificar e não complicar mais. Para além de que não acredito no isolacionismo inerente a este tipo de acção, que impede a convivência da sua música em playlists com os seus pares.

Taylor Swift tem o dom de saber o que o público quer ouvir e mais importante que isso, o que o mundo quer dela. Por isso se mantém naquela fina linha entre a menina inocente e vulnerável que pinta nas suas músicas e a mulher firme e sabida que faz frente aos gigantes. Mas aqui não está a ver a pintura toda. O mundo não precisa do Swifties, nem de outra estratégia isolacionista que possa inventar a seguir. Taylor é a última rainha de uma linhagem que vem de Britney Spears e Madonna e deve preservar esse estatuto com aquilo que realmente interessa ao mundo: música e vídeos com pouca roupa.

domingo, 5 de março de 2017

Quando os U2 encontraram aquilo que procuravam — 30 anos de "The Joshua Tree"

"The Joshua Tree" faz 30 anos. Tempo de relembrar o álbum quintessencial dos U2.

Vivem-se tempos estranhos no mundo dos U2. Longe parecem ir os anos da aclamação global e das multidões a dormir ao relento numa BP para agarrar um bilhete. Da última vez que deram à costa, os U2 pareceram aquela tia que leva à festa de natal um vestido inusitadamente arrojado para a sua idade — quiseram ser punks ao colocarem o álbum "Songs Of Innocence" no iTunes de todos os utilizadores do mundo, mas acabaram queimados com a jogada. E para piorar tudo, ainda caíram no ridículo de pedir desculpa. Menos punk que isto era impossível. Mais noção precisava-se, Bono.

Talvez em resposta ao (despropositado) backlash global do caso iTunes, os U2 começaram finalmente a agir como uma banda da sua idade. Decidiram arrumar o álbum "Songs Of Experience" na gaveta (tal como tinham feito com "Songs Of Ascent", o "Zooropa" de "No Line On The Horizon") em detrimento de uma digressão nostálgica para comemorar os 30 anos de "The Joshua Tree". O aniversário do álbum é precisamente hoje, um dia em que, mais que nunca, é uncool falar nos U2. Mas como ignorar um álbum que mudou a vida de tanta gente? A minha mudou. Por isso fuck the uncool, vamos falar em "The Joshua Tree".

Há vários prismas por onde olhar para "The Joshua Tree", sendo o mais óbvio o seu sucesso: vendeu 25 milhões de cópias; é o álbum mais vendido dos U2 e um dos mais vendidos de sempre; ganhou o Grammy de Álbum do Ano e é presença habitual nas listas dos melhores álbuns para as principais publicações. Não admira por isso que este tenha sido o álbum que consagrou os U2 como 'a maior banda do planeta', um título que os próprios inventaram para si e que mantiveram durante mais alguns anos, mesmo quando (e principalmente quando) decidiram desmanchar tudo para refazer de novo (mas já estou a andar rápido de mais).

"The Joshua Tree" é o produto de maturação de uma década, foi a cristalização de um caminho que os U2 percorreram durante 10 anos e onde em breve se veriam encurralados (lá estou eu a andar depressa demais). É o quinto álbum da banda e contém todos os elementos com que foi polvilhando a sua discografia ao longo dos anos 80. Mal deixamos cair a agulha, somos submergidos pela solene introdução ambiente de "Where The Streets Have No Name", uma marca-de-água de Brian Eno, que estende a passadeira para a entrada da marca-de-água de The Edge (e dos U2) — "o riff" que ecoa ao infinito. Já tínhamos ouvido variações d'"o riff" em temas tão longínquos como "The Electric Co.", ou mais proximamente em "Pride (In The Name Of Love)"; mas é aqui que a imagem de marca da sonoridade dos U2 se cristaliza.

A introdução solene dá o mote para o traje polido e grandioso que os U2 pretendem dar ao álbum. Tudo em "The Joshua Tree" soa grande, grandioso, grandiloquente; é o gospel de "I Still Haven't Found What I'm Looking For", são os prantos de "With Or Without You", o sermão de "Mothers Of The Disappeared", a fúria de "Exit", a pregação (e a fúria) de "Bullet The Blue Sky". Aliás, os U2 construíram um séquito ao longo de toda a década de 80 (lembrem-se dos cartazes que enchiam o Wembley no Live Aid, dois anos antes) e passam "The Joshua Tree" a pregar às suas hostes. Bono aparece aqui como o pregador, completando assim a transformação do punk adolescente que apareceu em "Boy" 10 anos antes. A esponteinade de "Boy" foi aniquilada em favor de uma abordagem mais metódica e formulaica mas, e este é um grande "mas", com melhores canções. 30 anos volvidos, estas canções continuam um deleite para os ouvidos.

É a força das canções, o grande suporte de "The Joshua Tree". Elas constroem aquela que é, acima de tudo, uma carta de amor ao imaginário americano. É sobre isso que Bono prega. Note-se que tal não significa necessariamente uma carta de amor à América de então e muito menos à política de Reagan, como é bem notório em "Bullet The Blue Sky". É mais uma carta de amor aos desertos ("I'll show you a place high on a desert plain"), às cidades ("I have scaled these city walls, only to be with you") e ao sonho americano ("She is liberty and she comes to rescue me, hope, faith, her vanity"). E eis que chegámos à palavra-chave que melhor define o álbum: esperança. Esperança é o sentimento que conduz todo um álbum intenso em imagens (vide as chamas de "Bullet The Blue Sky") e intenso em sentimentos de quem vive nessas imagens. Numa altura que o mundo vive uma relação de amor-ódio com a América, o álbum ganha "The Joshua Tree" uma renovada relevância actual. 

Mas mais que a política, que pouco ou nada interessa para quem ouve música, é a forma como as canções de "The Joshua Tree" ainda ressoam no público o que mantém o álbum relevante. Não importa se Bono apoia o Pence ou critica o Trump, porque no fim do dia o que interessa é aquela noite em que dançámos agarradinhos ao som de "With Or Without You"; ou quando gritámos com um amigo a plenos pulmões, abraçados e já com os copos, que "as ruas não têm nome" enquanto fazíamos juras de amizade eterna; ou quando sozinhos ouvimos o Lado 2, de canções desconhecidas e "só nossas" e de repente deixámos de estar sozinhos. Momentos que marcam, memórias que ficam e que eternizam "The Joshua Tree".

O grande paradoxo de "The Joshua Tree" encerra no título de um dos seus três hits: "I Still Haven't Found What I'm Looking For". Porquê? Porque como diria o José Hermano Saraiva, foi aqui, foi exactamente aqui que os U2 encontraram aquilo que procuraram toda a sua carreira. E foi daqui que passaram os 10 anos seguintes a tentar fugir com "Achtung Baby", "Zooropa", "Pop" e "Passengers", depois de esgotarem a fórmula em "Rattle And Hum"; e foi aqui que tentaram desesperadamente voltar depois disso, com os mais melódicos "All That You Can't Leave Behind" e "How To Dismantle An Atomic Bomb". Por fim, este ano os U2 voltam sem medos às suas origens e voltam a levar o álbum quintessencial da sua discografia à estrada numa digressão que, para mal de nós, não passará por Portugal. Quem não tem com saudades de uma noite ao relento na BP?


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Os melhores de sempre... do mês de Fevereiro (de 2017)

Declaro Fevereiro como o mês da segunda vinda do Shoegaze
Um dia George Michael disse ao manager de Prince (na altura também o seu) que "o problema do Prince é que ele não se sabe editar". Tendo em conta que a minha lista do mês de Janeiro teve 15 temas e em Fevereiro, com 3 dias a menos, já levo 20 canções, temo padecer do mesmo problema que Prince. Mais música para vocês ouvirem.

Arrancamos a playlist de Fevereiro com um veterano que nos traz a grande malha do mês. Falo de Mark Lanegan (Queens Of The Stone Age, Mad Season e uma porradona de bandas e colaborações de nomeada) e "Nocturne", que marca o regresso do rocker de Seattle aos discos a solo. Curiosidade: a minha primeira review na NiT foi do álbum anterior de Lanegan — "Phantom Radio" —, em 2014. O tempo não pára e aqui estamos à espera do volume seguinte.

Seguimos com mais um comeback — este mais longínquo — dos Echobelly, que se preparam para lançar "Anarchy And Alchemy", o primeiro álbum desde 2004. Será interessante perceber se o resto do novo material da banda que conheceu sucesso nos mid-90s faz jus à primeira amostra. "Alchemy is your gift to me". Malha.

Por falar em regressos, 2017 tem sido o ano da "second coming" do Shoegaze. Depois da desintegração dos Oasis e respectiva réplica Beady Eye, Andy Bell ficou livre para se juntar à sua banda de sempre e maior pioneira do Shoegaze: os Ride. Eles estão de volta aos estúdios e os primeiros resultados já chegaram, sendo que a avaliar por "Home Is A Feeling", não há que enganar: temos assunto. Melhor ainda é o regresso dos Slowdive com este astronómico "Star Roving", uma das grande malhas do ano. E sim, eu sei que é de Janeiro, mas não apareceu na playlist do mês passado e não os podia deixar passar em claro.
Fechamos a sequência Shoegazista com os bem mais recentes Takashi Miyaki, um trio misterioso de Los Angeles que em tempos foi chamado de "Jesus And Mary Chain femininos" e tem um novo tema — "Girls On TV" — cujo vídeo foi realizado por James Franco (esse mesmo). A ter em atenção.
E por falar em The Jesus And Mary Chain, eles também têm tema novo — "Always Sad" — do novo álbum "Damage And Joy" que chega em Março, o primeiro desde 1998. Parece mentira, mas já lá vão quase 20 anos desde o último álbum do grupos escocês.

A próxima secção da playlist de Fevereiro leva-nos a terrenos menos sombrios. Primeiro com os Spoon, que continuam a mostrar o novo álbum aos poucos e aqui nos trazem uma pitada de Funk marroquino. Soa estranho? Pois soa. Mas em bom.
Por terrenos mais familiares viajam os Future Islands. "Ran" é o primeiro aperitivo do sucessor do superlativo "Singles" e é uma continuação directa, que é o mesmo que dizer que soa exactamente ao mesmo que ouvimos no álbum anterior.
Também a mostrar o seu novo álbum aos poucos está Father John Misty, que deixou mais uma do seu novo "Pure Comedy". Desta vez é a balada ao piano "Ballad Of The Dying Man", a melhor que já ouvi do novo álbum.

O álbum do mês é "Prisoner" de Ryan Adams, de onde foi retirado este superlativo "Breakdown". Este têm mesmo que ouvir.
Também damos um salto sanjuniperiano aos anos 80, com novas dos The Pretenders (com voz de Neil Tennant dos Pet Shop Boys!) e dos Depeche Mode (a darem na política).
Como de costume, fechamos a playlist com um som ambiente, desta feita a cargo dos Minor Victories. Ouçam tudo aqui:



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Ryan Adams - "Prisoner" (Review)

Mesmo a tempo da ressaca do Dia dos Namorados, o músico norte-americano lança um álbum sobre corações partidos, o primeiro desde "1989" - disco de covers de Taylor Swift - lançado em 2015. E é de audição obrigatória.

Quando fiz uma roadtrip costa-a-costa pelos EUA em 2011, planeei passagens por todos os locais-chave: NY, Chicago, Las Vegas, LA... Todos os clássicos. De todo o trajecto, do que é que eu gostei mais? Dos desvios. A minha viagem não vos interessa para nada, mas serve para explicar a discografia recente de Ryan Adams.

Ryan Adams deixou-nos a coçar a cabeça quando decidiu, também ele, fazer um desvio à sua carreira em 2015 e lançar um álbum de covers de Taylor Swift. O que quereria ele com aquilo? Ridicularizar Swift? Provar que consegue transformar água em vinho? Não e não. A versão de "1989" foi um triunfo tanto para ele como para Taylor Swift e quanto muito, foi o maior elogio que Taylor poderia receber ao seu talento como compositora. Mas e Ryan, o que sobrou para ele no meio disto tudo? Um desvio tão fora da estrada como "1989" teria que obrigar o seu GPS a recalcular o trajecto da sua discografia.

De certa forma, "Prisoner" é apenas uma continuação do caminho trilhado por Ryan Adams na sua versão de "1989". Faz todo o sentido, ou não tivesse o primeiro sido escrito enquanto o segundo era gravado. Confusos? Passo a explicar. As canções de "Prisoner" foram escritas na ressaca do divórcio de Ryan Adams com a actriz Mandy Moore. Na altura, em vez de se enclausurar para escrever e gravar esses temas, Ryan preferiu lidar com a separação através da desconstrução de "1989" que, tal como toda a música que Ryan escrevia na época, também é sobre amor perdido e corações partidos. Temas como "Breakdown" e "Haunted House" poderiam perfeitamente figurar no álbum de covers. Mas nem só de Taylor Swift vive "Prisoner", ou não fosse Ryan Adams o homem que tão depressa faz covers de "Wonderwall" como de "Shake It Off".

Nas faixas que conhecíamos de "Prisoner", Ryan Adams já havia canalizado influências de Hair Metal e AOR em "Do You Still Love Me?", da vertente mais Folk da Pop americana em "To Be Without You" e até de early Eagles em "Doomsday". No que faltava ouvir do álbum, Ryan alastra as suas influências a todo o espectro do Rock radiofónico americano dos anos 80. Os casos são inúmeros e as semelhanças são demasiado óbvias para passarem despercebidas.

"Shiver and Shake", por exemplo, decalca de tal forma a atmosfera de "I'm On Fire" de Bruce Springsteen, que o meu ouvido (tão treinado a Bruce) passa os 3 minutos à espera da entrada do Boss. Não entra Bruce, mas chega mais à frente, em "Tightrope", um solo de saxofone tenor tirado a papel químico do "seu" Clarence Clemons. É esta uma das valências de Ryan Adams: em vez de ostensivamente plagiar os seus heróis, Ryan emula o ambiente das suas músicas preferidas e cria um original que soa exactamente igual à sua referência.

O caso mais curioso aparece em "Anything I Say To You Now", mais especificamente naqueles acordes em eco no início do tema, que são uma imagem de marca de um artista com o nome muito parecido com Ryan Adams. Avinhem de quem estou a falar. Exactamente, Bryan Adams. A parte curiosa disto é que Ryan é perseguido pelo fantasma de Bryan nos seus concertos, desde que em 2002 um heckler o fez perder a paciência em Nashville quando gritou por "Summer Of '69". Foram anos de terapia em psicólogos, como o próprio Ryan contou ao New York Times, até que voltou à mesma venue em 2015 e tocou... "Summer Of '69". Este episódio resume muito bem o propósito de "Prisoner" - um álbum onde Ryan lida com os seus fantasmas.

"Prisoner" é um álbum pejado de canções de amor (e falta dele), obrigatório para quem vive as canções Pop como o Tom do "500 Days Of Summer"; é um dos melhores discos que (até ver) 2017 nos trouxe. Comparando com o output anterior de Ryan Adams, "Prisoner" é mais variado que "1989" e por isso também uma audição mais completa e satisfatória. Pena que as canções de Taylor Swift sejam, na globalidade, superiores. Mas a vida é assim mesmo, às vezes é nos desvios que encontramos o melhor da viagem.

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