segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

As 20 melhores baladas de sempre

Queria escolher as 10 melhores baladas de sempre para o Valentines, mas não me consegui conter e as 10 passaram a 20. No final, acabaram por ficar 21.
Canções de amor, quem as não tem? Desde a primeira namoradinha na escola, até às complicadas relações dos crescidos, são estas as canções que servem de banda sonora aos nossos amores e desamores. Para celebrar o Dia dos Namorados, comecei por tentar reunir as minhas 10 baladas preferidas numa playlist, mas o lote avolumou-se e à dificuldade de edição, o Top 10 passou a Top 20 (ou 21). Leiam, amem e ouçam a playlist no fim.



20. Blur – "Tender" (1999)
Começamos com a canção de amor que diz o mais importante que precisamos saber: "Love is the greatest thing that we have". E é isto, o amor é mesmo o melhor que temos.









19. Queen – "Too Much Love Will Kill You" (1994)
A canção de amor que conta o resto da história: o amor é o melhor que temos, mas como todas as drogas, servido em demasia, mata.
Somos as vítimas dos nossos próprios crimes.









18. Ornatos Violeta – "Ouvi Dizer" (1999)
"Ouvi dizer" que amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura...










17. Elvis Presley – "Can't Help Falling In Love" (1961)
... e mesmo assim, não conseguimos parar de ficar caidinhos de amor.










16. Julio Iglesias  "Hey!" (1980)
Impossível deixar de fora de uma lista de baladas o maior baladeiro latino (tanto na Europa, como na América Latina). Talvez os leitores abaixo dos 30 não tenham noção da magnitude do antigo guarda-redes do Real Madrid na música, mas só este álbum - "Hey!" - vendeu mais de 20 milhões de cópias e estima-se que as vendas totais do Julito só em álbuns rondem as 300 milhões de unidades. Acima disto, só Beatles, Michael Jackson e pouco mais.
Julio Iglesias, o homem que promete devolver o dinheiro dos bilhetes do seu espectáculo se os casais não fizerem amor de pé nessa noite. O maior.


15. Laura Pausini –  "La Solitudine" (1993)
Por falar em grandes baladas latinas (e eu tenho a perfeita noção que estou aqui a arriscar a vossa atenção), não posso olvidar a história da menina Laura que fica sem o seu namoradinho Marco que "se n'è andato e non ritorna più" e assim deixou a Laurinha sozinha entre os TPC de Inglês e Matemática. E eu não posso olvidar porque esta canção de amor para os mais pequenos foi também a banda sonora do meu primeiro amor, tinha eu 8 aninhos. Ai, a inocência.




14. Rui Veloso – "A Ilha" (1984)
Passando para amores mais adultos, Rui Veloso leva-nos ao mar com lua cheia, "a esse mar de ruas e cafés". N' "A Ilha", a inocência já foi atirada ao convés há muito e Rui prefere aludir a metáforas dos Descobrimentos para descrever essa navegação no desconhecido que é a relação com a mulher. Um tema sombrio e criminosamente negligenciado no reportório de Rui Veloso.







13. 10CC – "I'm Not In Love" (1975)

"Etéreo" e "celestial" são adjectivos demasiadas vezes atirados na música, nem sempre de forma legítima. Quando a Siri começar a responder com exemplos às nossas dúvidas de semântica, à pergunta "o que significa 'etéreo'", ela deverá responder com a faixa instrumental de "I'm Not In Love" dos 10CC.
A balada do amor em negação, para todos os que vão espiar o Facebook dos exs de hora em hora, mas que garantem que já não sentem nada.







12. Phil Collins – "How Can You Just Sit There? (Against All Odds)" (1981)
Nem sempre são precisas palavras para ficar tudo dito. Há um niilismo em "How Can You Just Sit There?" que se auto-completa e auto-explica, porque é do vazio que o tema trata. Não é preciso ouvir Phil Collins dizer que "there's just an empty space" porque é exactamente isso que se sente nesta gravação.
"How Can You Just Sit There?" é a versão arcaica de "Against All Odds" e foi firmada nas sessões de gravação de "Face Value" – o primeiro álbum a solo de Phil Collins. Como todas as suas composições da altura, foi escrita sobre o seu divórcio, quando Phil foi abandonado pela mulher e se viu sozinho, na fria e distante Vancouver, para lá dos bosques de Twin Peaks.

11. Duran Duran – "Save A Prayer" (1982)
Isto do amor também não é só miséria. "Save A Prayer" é uma balada para o amor combustível, despegado e fugaz, aquele que se vive numa noite de Verão em Saint-Tropez e ali fica para sempre, numa praia isolada da Riviera Francesa. Mas acho que já estou a ser demasiado específico.
"Save A Prayer" é uma das melhores baladas dos anos 80 e ascende a níveis estratosféricos quando a guitarra suja e angulosa de Andy Taylor rasga as texturas de Nick Rhodes e John Taylor, enquanto Simon Le Bon sustenta o "save it to the morning afteeeeeeeeeer", por volta dos 2:20.
"Some people call it a one-night-stand but we can call it paradise". Quem disse que o chavascal não pode ser romântico?


10. Pavement – "Spit On A Stranger" (1999)
Porque nem sempre os amores se podem resumir a um one-night-stand. Não foi ao acaso que "Spit On A Stranger" foi a canção escolhida para juntar Ted e Victoria no fim do empolgante episódio de "How I Met Your Mother" em que Ted tenta descobrir quem era a miúda perfeita que conhecera num casamento.
Uma canção de amor para os desencontrados tempos modernos: "Honey I'm a prize and you're a catch and we're a perfect match". Como dois estranhos amargurados.




9. Eagles – "I Can't Tell You Why" (1979)
Foi a banda sonora da primeira paixão que eu tive por uma miúda que não era da minha turma. Amores proibidos, quem nunca?










8. Jacques Brel – "Ne Me Quittes Pas" (1954)
Não me deixes, não me deixes, não me deixes... Se à quarta vez que Jacques Brel suspira "ne me quittes pas" lavado em lágrimas nesta performance (https://www.youtube.com/watch?v=q_bq5mStroM), a música não vos partir o coração, deviam ir ver isso a um cardiologista. Só espero que a miúda não tenha deixado o pobre Jacques.





7. The Beatles – "Here, There And Everywhere" (1966)
Uma lista de baladas não pode existir sem o maior baladeiro que o mundo já viu – Sir Paul McCartney. Se fosse eu a escolher, tinha-vos deixado com um tema do Paul a solo: "Monkberry Moon Delight" (que não parece uma canção de amor, mas é a amálgama metafórica perfeita da frivolidade de tudo na vida para além do amor), "Junk" (a melhor canção de amor sobre objectos) ou até o mais óbvio "Silly Love Songs"; mas como é Valentines, escolho esta porque é a preferida da minha namorada. E da Phoebe dos Friends, também.




6. The Beach Boys – "God Only Knows" (1966)
Não será preciso dissertar sobre a magnificência de "Pet Sounds". A literatura é extensa e se tiverem dúvidas, vejam o filme "Love And Mercy". Para lá do arsenal de instrumentos e harmonias que ouvimos no álbum, aquilo que mais me atrai em "God Only Knows" é a sua pureza feliz, ingénua e despreocupada, que nos faz acreditar que o amor da vida real pode ser tão fácil como o final de "Love Actually" (https://www.youtube.com/watch?v=_Dqnbi_IhXc). Se tudo fosse sempre assim tão simples.




5. David Bowie – ""Heroes"" (1976)
"The greatest love song of all time", diz a minha namorada. Ela é portuguesa, mas o nosso amor é global e por isso comunicamos em inglês from time to time.
(Nota: devem ter reparado nas duplas aspas, que indicam que o título original já leva um par de aspas e por isso a sua citação leva outro par. Não é romântico?)


4. Guns N' Roses – "November Rain" (1991)
Porque é verdade que é difícil manter as velas acesas debaixo da chuva de Novembro. "Novemeber Rain" é uma canção de amor sobre as tormentas das relações dos crescidos e a constante luta para as salvar.
Porque a melhor maneira de contar uma história de amor é com o Slash a fazer um solo de guitarra em cima de um piano. 






3. Derek & The Dominos – "Layla" (1970)


Falando em grandes histórias de amor. A lenda conta que Eric Clapton estava tão desesperadamente apaixonado por Pattie Boyd que, num dos encontros secretos que mantinha com a mulher de George Harrison, levou numa mão um leitor de cassetes e na outra um pacotinho de plástico. O leitor tinha uma cassete com a sua última composição: uma balada sobre um homem perdido de amores por uma miúda que não podia ter - "Layla". Eric tocou a fita e no fim, Pattie estava mortificada: "Todos vão saber que isto é sobre mim", agonizou.
Eric suplicou-lhe que deixasse o seu amigo (ou nem por isso) George e avisou que se não o fizesse, se iria afogar naquilo que tinha na outra mão. Mostrou-lhe o pacote de plástico: era heroína. "Não sejas parvo", disse Pattie; e foi-se embora para os braços de George. Mas Eric Clapton cumpriu com o que prometera e durante 3 anos desapareceu do mapa - não saiu de casa, não atendeu porta nem telefone, nem sequer os amigos lhe puseram a vista em cima. Por amor, apagou-se.
Uma balada para os amores impossíveis.

2. George Michael – "Careless Whisper" (1984)

A balada Pop perfeita. Desde aquela introdução de saxofone inconfundível, a estrutura, a lírica, até ao vídeo. Tudo no sítio certo. George Michael escreveu "Careless Whisper" (alegadamente) com Andrew Ridgeley em 1981, quando tinha apenas 17 anos. Nos anos que se seguiram, George assumiu um distanciamento relativamente ao tema, por considerar que na altura "não sabia nada sobre a vida". Não deixa de ser curioso que esta posição de George seja um gato de Schroedinger que consegue estar ao mesmo tempo totalmente certa e totalmente errada. De facto, aos 17 anos nem George nem ninguém sabe nada sobre a vida, mas é precisamente essa visão ingénua e pura do amor, a mais valiosa na esfera da música Pop e a mais certeira no coração do ouvinte de uma canção. O problema nem é nunca mais dançar; é nunca mais conseguirmos dançar da mesma forma que dançámos com ela. São estas nuances capazes de cristalizar um sentimento universal que definem a Pop genial. Tão simples, mas tão acurado.

1. Queen – "You Take My Breath Away" (1976)

Nesta fase avançada de evolução civilizacional, já deve ser unânime e axiomaticamente aceite que a melhor canção de amor alguma vez escrita é "You Take My Breath Away" dos Queen.
"You Take My Breath Away" é Freddie Mercury em todo o seu esplendor. Com excepção de um (majestoso) solo de guitarra de Brian May lá para o fim, aqui só há Freddie: ao piano e na voz; aliás, Freddie em todas as vozes: agudos, médios e graves, layers e layers de Freddie, é tudo dele. E há o silêncio, elemento fulcral neste tema. Sozinho, Freddie vê-se obrigado a um dueto com o silêncio, amiúde interrompido pela rede de harmonias que mostram um Freddie perdido, atormentado pelas vozes do seu subconsciente. "You Take My Breath Away" é sombrio; é a declaração de amor mais visceral e incondicional, quase ameaçadora; um amor como uma força bruta que lavra tudo à sua passagem e nem o próprio Freddie consegue deter.
Muito se fala em "Bohemian Rhapsody" como a grande obra-prima de Freddie Mercury e em termos de grandeza, é um ponto de vista difícil de refutar. Mas se olharmos atentamente, qual obra-prima de menor porte mas mais polida e refinada, é "You Take My Breath Away" o momento de maior beleza da carreira de Freddie. E por que não, de toda a História da música Pop.



0. The Stone Roses – "Waterfall" (1989)
A música da minha miúda. É especial e por isso não entra no Top 20. Eu sei que ela prefere o "She Bangs The Drums", mas para mim será sempre a minha waterfall.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Os melhores de sempre... do mês de Janeiro (de 2017)

Em Janeiro "está um frio de rachar", dizia o Rui Veloso. Para uns é o mês em que apetece menos sair à rua, para outros (para mim) é o mês em que não é preciso inventar desculpas para não sair à rua e assim ficar trancado em casa a ouvir música. E tanta foi a música que Janeiro de 2017 trouxe. Esta é alguma da melhor.

Comecemos por Ryan Adams. O artista que em 2015 surpreendeu o mundo com o melhor álbum com o nome "1989" de sempre tem um novo trabalho na manga. No fim do ano passado já nos tinha brindado com duas faixas prometedoras : "Do You Still Love Me?" com cheiro a Whitesnake e "To Be Without You" com aroma a Blind Melon. Agora mostrou-nos "Doomsday", que é mais early Eagles. O que têm umas coisas a ver com as outras? Muito pouco. Mas Ryan Adams tão depressa faz covers de "Wonderwall" como de "Shake It Off", por isso sabe-se lá o que vem a seguir.


Logo no dia 1 houve novo álbum de Brian Eno; o que normalmente é o mesmo que dizer que Brian Eno lançou um álbum de música ambiente com duas faixas de 25 minutos, divididas apenas pela comodidade de caberem em dois lados de um vinil. Desta vez, Brian abandonou os facilitismos e lançou um álbum com uma faixa de uma hora. Música de elevador à bruta.


The XX têm um novo álbum, mas se vocês têm um computador com acesso à internet, de certeza que já sabem disso. O álbum é mais variado que os anteriores e mostra a vontade de Jamie XX em fazer coisas novas (que já tinha mostrado no seu bem sucedido álbum a solo). "Replica" é a malha do novo "I See You".


Os Arcade Fire ainda mexem. Depois do exercício de masturbação épico-hipster em "Reflektor", os canadianos entram na política e canalizam o seu melhor Lennon-Yoko com "I Give You Power", uma faixa de matriz inusitadamente simples para os AF. Mudança de direcção ou um one off?



Também tivemos nova dos Spoon. "Hot Thoughts" é a primeira amostra do novo álbum com o mesmo nome e primeiro sinal de vida desde "They Want My Soul" de 2014. Esperemos que este álbum seja menos como "They Want My Soul" e mais como "Transference" de 2010.


Houve também a estreia a solo do baixista dos Tame Impala e antigo baterista dos Pond – Cameron Avery. Curiosamente com uma faixa estranhamente despida para quem é membro das duas bandas de proa do neo-psicadelismo. Violinos em vez de guitarras com distorção.


Por falar em Pond, a banda australiana tem novo álbum para este ano (sem Cameron) e a primeira faixa já aí está. O sintetizador reminiscente da banda sonora de um jogo da NES que abre "30000 Megatons" sinaliza de imediato que já estamos em terreno Dreamy Pop.



Tudo isto e mais a ouvir na playlist de Janeiro.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Os melhores concertos de 2016 em Portugal — Top 10

Porque os balanços só se fazem no fim, eis o meu Top 10 dos melhores concertos que vi em solo nacional durante 2016.

10. Pop Dell'Arte - 22 de Abril - Titanic Sur Mer, Lisboa


No meio da miríade de ocorrências do quotidiano, a memória humana tem tendência a guardar três tipos de eventos: os bons, os maus e os WTF?!. A noite em que vi os Pop Dell'Arte versão 1995 reunidos (excepção ao baixista Pedro Alvim, que morreu em 2015) para tocar na íntegra o álbum "Sex Symbol" — por ocasião da sua reedição em vinil — encaixa porventura na terceira categoria. Obrigando os sentidos a constantes readaptações, os Pop Dell'Arte começaram na electrónica jazzista de "All You Need Is Money", passaram pelo viciante "My Funny Anna Lana" (que não sai da cabeça durante dias a fio), mostraram o crooner João Peste em "Planet Lakroon" e abriram alas à guitarra facínora de JP Simões em "Zip Zap Woman". Noite para nunca esquecer.

9. Destroyer - 10 de Junho - Parque da Cidade, Porto (Primavera Sound)


10 de Junho foi um dia cheio. A segunda jornada do Primavera Sound teve Brian Wilson, PJ Harvey, Savages, Destroyer, Dinosaur Jr., Beach House... Não deu para ver tudo, mas deu para apanhar uma das bandas que tenho seguido mais de perto nos últimos anos: os Destroyer. A (enorme) banda de Dan Bejar encheu o Parque da Cidade do Porto com a sua cortina sonora, tão depressa num registo agressivo-depressivo a fazer lembrar New Order, como num registo eufórico-festivo a parecer a E Street Band. Bejar esteve igual a si próprio e, tal como fez no Music Box em 2012, despejou sucessivas latas de cerveja alternadas com copos de whiskey durante todo o concerto, ao mesmo tempo que despejava a alma em palco. Nunca falha, o Dan.

8. The Parkinsons - 28 de Novembro - Sabotage, Lisboa

Vou deixar as imagens falarem por si.






7. The Cure - 21 de Novembro - Meo Arena, Lisboa



Os concertos da Tour 2016 dos The Cure dividiram-se em dois tipos: os espectáculos com severo enfoque no álbum "Disintegration", que contaram com 7 a 8 temas do álbum (e que correspondem por si só 70 a 80 minutos de música) e os outros. Como fã agressivo do álbum de 1989, foi com muita pena que vi o concerto de Lisboa inserir-se no pacote dos "outros". O concerto foi muito bom e mereceu lugar nesta lista mas — mesmo admitindo que tenha havido um problema de gestão expectativas — it didn't live up to the hype.

6. Bryan Adams - 25 de Janeiro - Meo Arena, Lisboa


Já tinha visto Bryan Adams no Rock In Rio a abrir para Stevie Wonder e a deixar o cabeça de cartaz muito para trás. Foi por isso sem surpresa que vi Bryan dar mais um concerto imaculado no Meo Arena, onde desfilaram hits em barda e, para ser perfeito, só faltou mesmo o "Tonight". Ah e desta vez não tivemos um dueto "aleatório" com a Vanessa Silva.

5. Elton John - 11 de Dezembro - Meo Arena, Lisboa


O tio Elton nunca desilude. Com 69 anos e ainda mais de 100 concertos por ano, Elton John é o Mestre absoluto do espectáculo ao vivo. Foi uma maratona de quase três horas de concerto, onde Sir Elton discorreu êxitos, fan favourites, deep cuts, singalongs e ainda teve tempo para umas canções de Natal. De encher o coração.

4. AC/DC & Axl Rose - 7 de Maio - Passeio Marítimo de Algés


O evento de maior relevância internacional de 2016 em espaço português, a fazer corar o Websummit e a inauguração do hotel do Cristiano Ronaldo. Era o primeiro concerto dos AC/DC com Axl Rose e meio mundo adivinhava um cataclismo de proporções épicas. Eu não, que já previa que ia ser do caralho. E assim foi. Qual Rocky a treinar para o Ivan Drago, Axl passou uma semana a ensaiar na tundra de Xabregas (lembram-se como choveu naquela semana?) e quando chegou domingo, estava preparado. À espera dele em Algés, estava um batalhão de jornalistas estrangeiros maior que o destacado para o Tratado de Lisboa, a final do Euro 2004 e a chegada do Caniggia ao Benfica, todos a acotovelarem-se slimaniscamente para um lugar na primeira fila do desastre do século. Mas o universo tem destas coisas: quando o concerto começou, a chuva furiosa parou e Axl desabrochou para uma performance histórica que quem ali esteve jamais esquecerá. Quem queria sangue, foi para casa com a viola no sangue. A esta hora ainda deve ecoar no Passeio Marítimo de Algés o pull the triggaaaaaaaaaaaaaaa.

3. Brian Wilson - 10 de Junho - Parque da Cidade, Porto (Primavera Sound)


Por falar em performances históricas, Portugal teve em 2016 a honra de receber Brian Wilson a tocar “Pet Sounds”, o lendário álbum dos The Beach Boys. Trazer Brian Wilson a um festival estava longe de ser uma contratação óbvia. Basta olhar para o cartaz, onde não se vislumbra nenhum artista passível de aparecer nas sugestões do Spotify de quem ouve The Beach Boys; ou para resto da digressão cheia de "coliseus", salas sentadas onde "Pet Sounds" se podia ouvir com a merecida atenção. A organização foi corajosa e acertou.
Foi um concerto especial. Para ser cruelmente honesto, Brian apresentou-se com a voz audivelmente cansada, incapaz de atingir as alturas agudas de outros tempos. A vida não foi meiga com ele (vejam o "Love And Mercy" para terem uma ideia das tormentas que o homem passou) e depois de um ano de digressão exaustiva, Brian chegou ao Porto debilitado. Mas nem por isso fez uso de redes, playbacks, ou outros truques. Foi tudo "as is", nu, cru e ao vivo. O público respeitou-lhe a pureza e preferiu concentrar-se no que Brian trouxe de bom, que foi tudo o resto. Começando na música, claro está. Não será preciso dissertar sobre a magnificência de "Pet Sounds", bem representada na banda de doze elementos que Brian trouxe e no arsenal de instrumentos insano que mal cabia no palco principal do Primavera. Até porque o que me atrai em "Pet Sounds" é a sua ingenuidade feliz e despreocupada. Por trás da cortina sonora, temas como "Wouldn't It Be Nice" e "God Only Knows" primam pela sua universalidade, capaz de unir uma plateia heterogénea que terminou com surf — crowdsurf — numa tarde fria no Porto.

2. Iggy Pop - 15 de Julho - Meo Arena, Lisboa (Super Bock Super Rock)

Todos temos a nossa lista dos artistas que gostaríamos de ver. Uma "bucket list", como lhe chamam agora. Iggy fazia parte da minha lista — embora longe da posição de proa —como um dos poucos astros do Rock ainda vivos, numa lista onde hoje só cabem apenas nomes como Mick e Ozzy. Já não há muitos para ver, uns já nos deixaram, outros ficaram e murcharam e poucos valem o valor do bilhete que cobram. O SBSR agarrou um dos poucos que sobraram e se já esperava que fosse um dos pratos fortes do festival, mas acho que ninguém estava preparado para o que aconteceu naquela noite escaldante de Julho.
Iggy apresentou-se na sua indumentária habitual, isto é, sem indumentária (devido àquela condição clínica que não lhe permite vestir uma t-shirt). Ostentando as gloriosas pregas que apresenta no torso — cicatrizes de muitas batalhas travadas no passado —, deu um concerto com o pedal a fundo do princípio ao fim. Cerveja a voar, Iggy a cuspir, público a saltar, mosh, crowdsurfing, este é o meu povo e é disto que o meu povo gosta. É só Rock N’ Roll, mas nós gostamos.
P.S.: e eu dei um high-five ao Iggy!

1. Bruce Springsteen & The E Street Band - 19 de Maio - Parque da Bela Vista, Lisboa (Rock In Rio)



Vamos pôr as coisas desta forma: não é justo sequer por Bruce Springsteen ao lado dos anteriores desta lista. Não é justo para os restantes, que saem inevitavelmente a perder contra o Boss. Já começam a faltar palavras para descrever esta experiência quase metafísica que é viver um concerto do Bruce. E é impossível fugir aos superlativos. Melhor concerto de sempre em solo português? Bem, o melhor desde o último de Bruce, certamente que foi. Concerto do ano também.

0. David Gilmour - 7 de Julho - Anfiteatro Romano, Pompeia


Esqueçam o aparente pretensiosismo que acarreta a escolha de um espectáculo em Itália para fechar um Top 10 de concertos em solo nacional. Atentem na data do concerto. Devem ter reparado que  nesta lista não figura qualquer concerto do Alive. Provavelmente já me estavam a rogar pragas e a perguntar onde estão Radiohead, Tame Impala, Pixies, Robert Plant, Band Of Horses, ou Father John Misty. Acreditem, nada me move contra o festival e muito menos contra o cartaz deste ano (um dos melhores de sempre). Eu tinha bilhete e simplesmente não pude ir porque não podia perder a oportunidade de uma vida de ver o David Gilmour ao vivo nas ruínas de Pompeia. E quanto a este concerto só digo uma coisa: depois disto, sinto que já não há mais nada para ver.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Álbum original do ano 2016 - Top 10

Estamos naquela altura do ano. É o tempo dos Tops de tudo e por isso aqui fica o primeiro dos meus, na categoria de Álbum original do ano.

10. The Dear Hunter — "Act V: Hymns with the Devil in Confessional"

Longo e tortuoso foi o caminho que o Rock Progressivo percorreu desde que os King Crimson se aventuraram no "Court Of The Crimson King" em 1969. Já lá vão quase 50 anos, mas o género nunca se livrou do epíteto de música mais uncool do espectro do Rock. De facto, o Prog não é para todos os gostos e se hoje essa asserção é do conhecimento geral, pobres dos rapazes que tentavam impressionar as namoradas com o "Supper's Ready" ("tens mesmo que ouvir isto!"), para ao fim de 24 minutos olharem para o lado e se aperceberem que ela já lá não estava. Com sorte, tinha-se deixado dormir e não era do clorofórmio. Mas divago.
O Prog foi a forma dos meninos com formação clássica e gosto pelo Jazz se expressarem no meio do Rock nos anos 60 e desde então, como tudo o resto, evoluiu. Nos anos 80, com o deslocamento da juventude para o Metal e restantes subgéneros mais pesados, o Prog também se passou a manifestar no Metal Progressivo. Numa altura em que é o Indie que tem a maior amplitude mainstream no Rock, faz todo o sentido que surja uma espécie de "Indie Progressivo". Se conseguirem visualizar (e ouvir) esta amálgama difusa de Indie Rock, Prog, Folk Jazz, voilá, têm "Act V: Hymns with the Devil in Confessional" - o último álbum dos The Dear Hunter. "Act V" é, como o nome sugere, a quinta parte de uma história épica contada em 6 capítulos, aos quais correspondem 6 álbuns.
Como o Prog em geral, "Act V" não é para todos os gostos. Muita coisa se passa ao mesmo tempo e o mais provável é haver segmentos de maior agrado ("The Moon" / Awake") e outros nem tanto ("Mr. Usher"). Globalmente, é uma viagem (haverá maior lugar-comum para descrever um álbum Prog?) e uma audição progressivamente (lá está) enriquecedora. Não se esqueçam, porém, de proceder com cuidado quando mostrarem isto ao vosso mais-que-tudo. Se não fugiu a sete pés, agarrem-se a ela/ele, que é capaz de ser a/o tal.

9. Kaitlyn Aurelia Smith / Suzanne Ciani — "FRKWYS Vol. 13: Sunergy"

Desde que lançou o seu álbum de estreia - e grande obra-prima - "Seven Waves", em 1982, que Suzanne Ciani carrega o chapéu de mestre e pioneira da música electrónica. E com toda a razão. A sua colaboração com Kaitlyn Aurelia Smith (que este ano também lançou o excelente álbum "Ears" em nome próprio) mostra que, chegados a 2016, Suzanne continua sem mostrar medo de explorar territórios novos.
"Sunergy" é um trabalho mais experimental e menos melódico que o referido "Seven Waves", aproximando-se mais da Ambient Music que ouvimos em "Ears" de Kaitlyn. Mas é o cunho de Suzanne que equilibra os pratos da balança e nos entrega um dos mais gratificantes álbuns instrumentais de 2016. Mais seguirão.

8. Agnes Obel — "Citizen Of Glass"

Lembram-se da Enya? Música celta aguada e polida para pessoas que vão ao cinema ver filmes do James Cameron. Recordam-se? Imaginem que a Enya tinha sido possuída pelo Demo e se tinha tornado numa mulher densa, sombria e perturbada. À primeira nota, a música até parece ser semelhante, mas após um minuto, somos levados para uma visão lynchiana de um quarto escuro, uma mesa e uma cadeira de metal, com uma luz meia-fundida a piscar nervosamente. Qual Twisted Enya, "Citizen Of Glass" é um álbum introspectivo e pungente sobre a fragilidade humana e o fatalismo da exposição à sociedade. Um dos álbuns mais surpreendentes e interessantes deste ano.

7. Jóhann Jóhannsson — "Orphée"

Fui parar a Jóhann Jóhannsson por conta de uma notícia que me deixou terrivelmente abalado: a sequela de "Blade Runner" não vai ter a banda sonora de Vangelis e será entregue ao compositor islandês. "Blade Runner" sem Vangelis? Como? Por melhor que seja o filme, é o mesmo que tirar o Jonas ao Mitroglou - fica mais triste e menos eficaz. Em pânico, fui logo ouvir o álbum mais recente de Jóhann e o melhor que posso dizer é que fiquei (um bocadinho mais) descansado. Não porque a música de "Orphée" me recordasse a banda sonora mais-que-perfeita de "Blade Runner" (há até quem diga que é a melhor de sempre; eu, por exemplo), mas pelo menos lembrou-me outras grandes bandas sonoras. "The Drowned World", por exemplo, lembrou-me o tema principal de "Solaris", de outro Johann, esse Bach. 
Baseado na figura mitológica de Orfeu, "Orphée" é cinemático do princípio ao fim e mais um álbum instrumental nesta lista, o que reflecte o tipo de música que mais me atraiu este ano (ou não fosse o álbum que mais ouvi este ano, precisamente, a banda sonora do "Blade Runner").

6. Leonard Cohen — "You Want It Darker"

O primeiro dos álbuns-fúnebres desta lista. 2016 foi um ano madrasto para a música popular, perdemos Prince, Glenn Frey, Leon Russell, Greg Lake, David Bowie (já lá vamos) e Leonard Cohen. Os últimos dois parecem ter preparado a morte da sua cadeira de artista. "I'm ready, my Lord", anuncia Leonard no tema-título "You Want It Darker", uma das mais poderosas canções do ano. Poucos dias depois do lançamento do álbum, Leonard cumpriu a sua profecia.

5. Iggy Pop — "Post Pop Depression"

Uma das boas notícias que 2016 trouxe, logo em Janeiro, foi o anúncio da colaboração entre Iggy Pop e Josh Homme, num álbum que contava com Dean Fertita (também dos Queens Of the Stone Age) e Matt Helders, baterista dos Arctic Monkeys. Parecia uma colaboração escrita nas estrelas, com tudo para dar certo. Mas a verdade é que "Post Pop Depression" não é tão bom como o mundo desejava que fosse. O álbum produziu momentos de absoluto êxtase como "Break Into Your Heart", onde a voz de Iggy e a guitarra de Josh convergem na perfeição, como se tivessem sido feitos um para o outro. Aliás, a guitarra de Josh está tão alta na mistura que mais parece um dueto. "Gardenia" é mais um triunfo deste casamento, mas à medida que o álbum vai avançando, mais dá a sensação que o álbum podia ter sido muito melhor.

4. Kyle Dixon & Michael Stein — "Stranger Things OST, Vol. 1 & Vol. 2"

Kyle Dixon? Quem? Pois, também não sabia. Mas não interessa. O que interessa é que se trata do homem que criou a banda sonora de uma das melhores séries de 2016. "Stranger Things" é um hino à cultura dos anos 80 em toda a linha, mas o melhor da série é a sua banda sonora. Já nem falo da escolha musical mestra da série, que inclui nomes como Vangelis, Tangerine Dream, New Order, Television, Joy Division, The Smiths, The Clash, Moby, enfim, uma verdadeira constelação musical.
A acompanhar estes gigantes, temos uma banda sonora à medida, a fazer lembrar os sintetizadores dos próprios Vangelis e Tangerine Dream e que teve tanto sucesso que já foi lançada em dois volumes. "Kids", "Upside Down" e claro, o tema-título (ainda melhor na reinterpretação de Luke Million) são jóias tão apetitosas que apetecem agarrar, acariciar e estimar e que, à semelhança de outras bandas sonoras (já vos falei no "Blade Runner"?), elevam a música a um estatuto de independência da própria série para a qual foi criada.

3. David Bowie — "★"

O epílogo da obra de um dos mais completos artistas que já pisou o nosso planeta, tão superlativo que em tempos convenceu meio mundo que nem sequer era deste planeta. Até na morte, David Bowie deixou a sua marca artística: na Quinta lança o vídeo de "Lazarus" (onde o vemos no seu leito de morte), na Sexta - dia do seu aniversário - lança o álbum "★" (leia-se "Blackstar") e no Domingo, morre. A morte é o último acto, é parte do espectáculo.
"★" é um álbum denso, de audição difícil, que como todas as obras-primas recompensa audições repetidas. Mostra que David nunca perdeu o foco e puxou os limites até ao fim. "★" é um álbum sobre a vida, a morte e a fina linha que as separa. Mais sobre isso já a seguir.

2. Nick Cave & The Bad Seeds — "Skeleton Tree"

Admito que falo do que não sei (felizmente), mas imagino que pior do que lidar com a dor da própria morte iminente, só mesmo lidar com a dor da morte de um filho. Especialmente quando este ficou com tanto para viver. Materializar essa dor num disco foi a tarefa a que Nick Cave se propôs em "Skeleton Tree", depois de perder o filho de 15 anos numa queda de uma falésia em Brighton, durante uma trip de LSD. Era uma tarefa mastodôntica com tanto de coragem, como de insanidade. Insanidade, pelo que acarreta fazer um álbum sobre a morte de um filho; coragem, por expor desta maneira despida a sua própria desgraça.
"Skeleton Tree" é um álbum esmagador, niilista e desconfortavelmente pessoal. Ainda mais que o anterior número desta lista, é um trabalho de escuta difícil; é um murro no estômago e não é aconselhável ouvi-lo com muita frequência; segurar as lágrimas em "Jesus Alone" é, só por si, um desafio. Mas recompensa pela beleza e sinceridade e porque tem aquilo que, por princípio, eu mais estimo numa obra de arte: consegue mexer comigo e obrigar-me a reavaliar os meus dogmas.

1. Radiohead — "A Moon Shaped Pool"

Nas semanas após o seu lançamento, fiquei trancado dentro de "A Moon Shaped Pool". Com tanta informação a cair diariamente e tanta música para ouvir, não há muitos álbuns que em 2016 mereçam este tipo de honra. Logo a abrir, levamos com o superlativo "Burn The Witch" - o melhor tema dos Radiohead desde "Pyramid Song", ou sei lá, desde "Paranoid Android" - e chegam-me evocações de "Tomcats Screaming Outside" de Roland Orzabal. Tudo o que me lembra Roland, só pode ser bom. Viajando pela luz de "Daydreaming", pela solidão de "Decks Dark", até ao clássico que antes-de-ser-já-o-era "True Love Waits", os Radiohead não desarmam, naquele que é o mais completo, mais belo e mais satisfatório álbum de 2016. E, acreditem, fala-vos um descrente na religião Yorkiana.
"A Moon Shaped Pool" é um regresso a casa para os Radiohead. Depois de um álbum feio e opaco como "The King Of Limbs", é reconfortante saber que ainda há espaço para a luz (lembram-se do vídeo de "Daydreaming"?) e para a beleza nos Radiohead. Álbum do ano.

0. David Bowie — "The Gouster"

"The Gouster" foi gravado e posto na gaveta por David Bowie em 1974, por isso não qualifica para o Top 10 desta categoria. mas como foi finalmente tirado da gaveta e lançado em 2016, merece a distinção como número 0.

Fascinado pela América e cego pela sua música negra, em 1974 David Bowie resolveu fazer um golpe de harakiri à sua carreira: lançar um álbum de Soul. Classic Bowie, diremos hoje entre sorrisos, agora que conhecemos o espectro completo da sua obra. Na altura, o público ficou muito baralhado.
David agregou uma banda que pudesse tocar a música que queria ouvir (entre eles, um tal de Carlos Alomar), alugou um estúdio em Filadélfia em Agosto de 1974 e mergulhou a fundo na sua nova sonoridade. As primeiras tentativas das sessões Soul deram origem a "The Gouster" — "40 minutos de Funk glorioso", como lhe chamou Tony Visconti, o produtor de sempre de David. Funk glorioso não sei, mas Soul glorioso, certamente que temos às pazadas em "The Gouster"
O "álbum Soul" conheceu diversas iterações, com diferentes baptismos – "Dancin'", "One Damn Song", "Fascination", ou "Somebody Up There Likes Me" – mas Bowie continuava indeciso. Até que em Janeiro de 1975 apareceu em estúdio um outro tal de John Lennon que gravou com David dois temas: "Fame" e uma nova versão de "Across The Universe". Nascia assim "Young Americans".
Na iteração de "The Gouster", que aparece na caixa "Who Can I Be Now?" - lançada este ano -, o álbum abria com uma versão Funk de 7 minutos de "John I'm Only Dancing", que eu honestamente dispenso, mas depois arrancava para uma sequência gloriosa de Soul com dois temas que foram lamentavelmente suprimidos do álbum final: "It's Gonna Be Me" e "Who Can I Be Now?". Principalmente este último, que é um dos melhores de toda a carreira de Bowie e foi o tema que mais ouvi este ano.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

David Bowie desafiou os limites até ao fim

As últimas faixas gravadas nas sessões de "Blackstar" estão aqui. Será que valem a pena?


As últimas três faixas que faltavam ouvir das Blackstar Sessions chegaram. Dão pelo nome de "No Plan, "When I Met You" e"Killing A Little Time"e estão a partir de hoje disponíveis na banda sonora do musical off-Broadway de David Bowie."Killing A Little Time" é a mais fascinante e mind-bending das três canções e, como sempre acontece quando se fala de Bowie (principalmente na sua fase pós-milénio), é impossível de categorizar. Bowie atingiu um estado de tal aristocracia sónica desde a viragem do primeiro dígito do calendário, que parece controlar as ondas com uma batuta só dele. Para ser simplista, isto não se parece com nada que já ouvimos antes e no entanto, tem elementos de tudo um pouco.

Sabem quando abrimos várias janelas no Youtube e elas começam inadvertidamente a tocar ao mesmo tempo, criando um ruído indecifrável? Não raras vezes, "Killing A Little Time" parece-se exactamente com isso. Esqueçam os tempos do rock progressivo, em que se colavam sequencialmente vários temas com andamentos diferentes (Bowie fê-lo com mestria em "Station To Station") e assim se criava uma obra complexa. Tempos idos. Bowie inventou agora um novo método: a colagem simultânea. Há uma guitarra a tocar um riff metal à frente, temos um baterista lá atrás a fazer a cena dele, temos um Bowie a mandar versos fora dos lugares comuns, de vez em quando aparecem uns saxofones perdidos e ainda há um piano nervoso, a tocar ora à frente, ora atrás na mistura, como um balão que se esvazia caótico, enquanto embate nos quatro cantos da sala. Parecem três músicas diferentes a tocar ao mesmo tempo, às vezes de forma confusa, às vezes num casamento inesperadamente perfeito. Deixa-nos confusos, mas no fim, resulta. Como diz a inviolável sabedoria popular, primeiro estranha-se e depois entranha-se.

Ouvir "Killing A Little Time" recordou-me a sensação da primeira vez que ouvi "Blackstar", ainda antes da morte de Bowie. Estava no carro, a ouvir a Radar no regresso a casa e enquanto fazia a descida de Monsanto na A5, telefona-me o meu chefe, provavelmente estacionado poucos metros à frente ou atrás no mesmo engarrafamento: "Nuno, estás a ouvir isto?! O Bowie passou-se de vez!". Depois de largos minutos a processar o que acabara de ouvir, só pude concordar. É engraçado que "onde estava a primeira vez que ouvi Blackstar" pode ser o novo "onde estava quando os aviões embateram nas torres gémeas" dos melómanos (ou, para a geração mais velha, "onde estava no 25 de Abril"). Mas divago.

As outras duas faixas chamam-se "No Plan" e "When I Met You". "No Plan" é um óbvio out-take de "Blackstar", perfeitamente enquadrado na lírica, temática e sonoridade do álbum. "When I Met You" é bem mais interessante: perigoso e cortante, soa a algo saído de "Scary Monsters". Não é bem o mood de "Blackstar", mas é uma das melhores faixas das últimas sessões de gravação de Bowie e prova uma coisa: David Bowie desafiou os limites até ao fim. Só podemos imaginar até onde os poderia esticar ainda mais.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Nenhuma mulher pode amar um homem que ouve Phil Collins

Mas pode Phil voltar a amar-se a si mesmo?



O título da crónica é uma citação de "Sing Street", um dos meus filmes preferidos deste ano. Como fã de Phil Collins e dos Genesis, desmanchei-me a rir com esta fala do filme e adoptei-a como uma possível explicação para a minha própria turbulenta vida amorosa. Talvez o facto de amar o Phil Collins justifique o meu fado com o sexo oposto, não sei; mas sei que Phil deixou de se amar a ele própio há muito tempo, por não aguentar ser sujeito a décadas deste tipo de enxovalho. E que isso quase acabou com ele.

No dia em que foi anunciado o seu regresso aos espectáculos, a crónica que escrevi aqui em Janeiro sobre a necessária reapreciação do seu valor faz mais sentido que nunca. Independentemente do passado, sobra-me dizer mais umas coisas sobre o Phil e a sua nova digressão.

Vi a conferência de imprensa do anúncio da digressão em directo. Deu-me pena. Adoro o Phil. Para mim, o Phil é família; é como um tio não muito afastado que esteve sempre "ali". É difícil vê-lo tão fisicamente e animicamente acabado, um farrapo cheio de ressentimentos (confessou que reatou com a última mulher, mas que esta "não lhe devolveu o dinheiro que lhe tirou") e uma sombra do poço de vida que já foi.

Phil sempre teve muita dificuldade em lidar com a visão que o mundo tinha dele. Primeiro, quando o elevaram a superestrela depois de ter feito um álbum intimista e silencioso sobre o seu próprio divórcio. Depois, quando o atiraram para objecto de anedotas por ter continuado a fazer o que sempre fizera. Phil não conseguiu lidar com a dinâmica da opinião pública e como primeira defesa, isolou-se. Sem perceber que os Genesis eram a entidade que em última instância o protegia, enxotou-os após uma passagem triunfal por Knebworth em 1992 (sempre Knebworth como cemitério) e quando a Britpop estoirou, a sua imprensa só piorou. A defesa de Phil foi isolar-se ainda mais e avançar para uma reforma prematura, retirando-se da música agastado, surdo e sociologicamente queimado.

Quando voltou para casa para ser um pai a tempo inteiro, Phil foi recebido com o embate de um camião TIR. A mulher pediu-lhe o divórcio e com ela levou os filhos e o dinheiro. Phil ficou sozinho, agora sim, completamente isolado. Seguiram-se anos de depressão, alcoolismo solitário no sofá a olhar para a televisão e conversas com a linha de suicídio. Até Peter Gabriel teve que intervir na situação, para salvar o seu amigo Phil.

Eventualmente, Phil Collins começou a trepar lentamente para fora do buraco em 2014. A sua ex-mulher aceitou-o de volta (ficando com o dinheiro, como ele próprio sublinhou), Phil voltou a poder estar com os filhos e chegámos ao dia de hoje, em que ele anuncia uma digressão. Phil volta para um punhado de espectáculos a solo no Royal Albert Hall, em Colónia (terra santa para os Genesis, deuses eternos das Alemanhas) e em Paris.

Mas pela enésima vez, desde que despachou os Genesis em Knebworth, Phil volta a tomar a decisão errada, ignorando aquilo que realmente o protege: o chapéu-de-chuva dos Genesis.
O que Phil deveria ter feito era simples: telefonava aos seus (verdadeiros) amigos Mike Rutherford e Tony Banks, deixava-os tratar de tudo e limitava-se a sentar-se num banco à frente do palco, a cantar as músicas dos Genesis para gáudio de milhares de pessoas que desesperam para o ver (eu! eu! eu!) interpretar aquelas canções. Acontecesse o que acontecesse, Phil teria sempre o apoio de Tony, Mike e da máquina dos Genesis. Assim, volta à estrada por sua conta e risco, vulnerável a tudo o que lhe possa cair em cima.

Dito isto, toda a sorte do mundo para o Phil. Espero mesmo que ele derrote os seus fantasmas e que aprenda a voltar a amar-se a si mesmo. Aconteça o que acontecer, Phil, I will always love you. E cá estarei para defender o teu legado.