quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Apocalipse, Soul e Cocaína - Bowie vai para a América



Na sequência da fabulosa caixa "Five Years (1969 – 1973)" (que eu tenho lá em casa em formato vinil), que compreendia os primeiros anos da carreira de David Bowie e o seu período Ziggy, chega agora o volume seguinte: "Who Can I Be Now? (1974 – 1976)". Antes de mais, louvo a intenção do campo de Bowie, que assim pode organizar a caótica e difusa discografia de David Bowie e com isso, pode também encher os bolsos uma vez mais com a obra que o alien mais terráqueo nos deixou.

Incluídos nesta nova caixa, estão os álbuns do período de charneira de David Bowie, que fazem a ponte entre a fase Glam Rock de Ziggy ao período de fusão electrónica de Berlim: "Diamond Dogs", "Young Americans" e "Station To Station". E é aqui reside o grande senão deste set. Em virtude de consistência temática, isto é, para não cortar a meio nenhuma das diferentes fases da carreira de Bowie, "Who Can I Be Now" contém apenas três álbuns originais, contra os seis de "Five Years". É muito pouco "value for money". "Mas não têm ambas o mesmo número de discos?", perguntar-me-ão. Ter, têm, mas estes estão espalhados por "David Live" (duas misturas: 3LP + 2LP), "Live At Nassau Colisseum" (2LP), uma versão alternativa de "Station To Station" e, como já devem saber se chegaram até aqui, "The Gouster".

"The Gouster" foi promovido como um álbum "novo", não editado, uma jóia perdia de David Bowie e como o grande atractivo de "Who Can I Be Now". Calma. "The Gouster" tem o seu interesse, já lá vamos, mas não é mais que uma versão arcaica do que viria a ser "Young Americans".

Poderão estar a pensar que este período de Bowie entre Londres e Berlim, retratado nesta caixa, é de somenos. Nada disso. Na verdade, o "período americano" deu origem a uma das suas obras-primas, o superlativo e em doses iguais perigoso e maravilhoso "Station To Station". Não tenho aqui espaço para falar muito de STS (ide aqui), a não ser que é um dos álbuns da minha vida e se não é da vossa, é porque ainda não o ouviram muito bem.

Estes foram os anos que viram David Bowie a fascinar-se pela América e a injectá-la alarvemente na sua música. No apocalíptico "Diamond Dogs", inicialmente pensado para uma produção teatral de "1984" de Orwell (a utilização dos direitos foi recusada), ainda cheiramos Ziggy em "Rebel Rebel", mas o aroma ao Soul de Filadélfia já começa a dominar lá mais para o Lado B. Pessoalmente, não é o meu álbum preferido de Bowie (há tanto por onde escolher), mas atentem na intensidade da sequência "Sweet Thing" / "Candidate" / "Sweet Thing (Reprise)". É um dos pontos altos da sua discografia.

Fascinado pela América e cego na sua obsessão pela música Soul desta altura, David resolve fazer um golpe de harakiri à sua carreira: lançar um álbum de Soul. "Classic Bowie", dizemos hoje entre sorrisos. Na altura, o público deve ter ficado baralhado. David agregou uma banda que pudesse tocar a música que queria ouvir (entre eles, um tal de Carlos Alomar), alugou um estúdio em Filadélfia em Agosto de 1974 e mergulhou a fundo na sua nova sonoridade. As primeiras tentativas das sessões Soul deram origem a "The Gouster" - "40 minutos de funk glorioso", como lhe chamou Tony Visconti, o produtor de sempre de David. O "álbum Soul" conheceu diversas iterações, com diferentes baptismos - "Dancin'", "One Damn Song", "Fascination", ou "Somebody Up There Likes Me" - mas ainda não era "isto" que Bowie queria. Até que em Janeiro de 1975 apareceu em estúdio um tal de John Lennon e gravou com David dois temas: "Fame" e uma nova versão de "Across The Universe". Nascia assim "Young Americans".

No fim do ano, Bowie mudou de Costa e foi para Los Angeles, onde se afundou na coca. Do buraco, saiu "Station To Station". Daí, foi curar-se para Berlim. O resto saberemos na próxima caixa.

domingo, 11 de setembro de 2016

Nick Cave — Em nome do Pai

Nick Cave conversa com a morte, com Deus e com o filho que perdeu no ano passado


Não estou qualificado para falar sobre o que é para um Pai, a dor de perder um filho. Não sei, nem tenho intenção de saber o que é, só imagino que seja o pior dos pesadelos. Materializar essa dor num disco foi a tarefa a que Nick Cave se propôs, depois da morte do seu filho de 15 anos, que caiu de uma falésia em Brighton após ter experimentado LSD pela primeira vez. Era uma tarefa mastodôntica com tanto de coragem, como de insanidade. Insanidade, pelo que acarreta fazer um álbum sobre a morte de um filho; coragem, por expor desta maneira despida a sua própria desgraça.

Quando ouvi a primeira amostra do álbum — "Jesus Alone" — na semana passada, fiquei esmagado. Debaixo de uma cortina negra de sintentizadores a puxar os limites dos graves, intercalados por gemidos de quem roga por salvação, Nick leva-nos directamente para o penhasco onde a tragédia aconteceu. Num niilismo agressivo e assustador,  Nick lamenta-se que a sua fé em Deus de nada lhe valeu, como quem se apercebe da sua condição solitária no Universo. A tristeza, escuridão e aridez de "Jesus Alone" pinta uma tundra desoladora. Mas se a motivação daquela canção era óbvia, esperava que Nick desse tréguas ao ouvinte no resto do álbum. Enganei-me.

"Skeleton Tree" agarra-nos pelo pescoço e ao longo dos 40 minutos da duração do álbum, não nos dá descanso. Nesta árvore de esqueletos, somos arrastados numa viagem até ao último ramo do luto de Nick Cave, onde o ouvimos conversar com a morte, com Deus e com o filho. Aqui, a dor é tão real ("nothing really matters when the one you love is gone"— "I Need You"), tão gráfica ("in the bathroom mirror I see me vomit in the sink" — "Magneto"), tão visceral ("all the things we love, we lose" — "Anthrocene"), que chega a ser palpável nos sulcos do disco. É um álbum pesado, sombrio e agressivamente pessoal, de escuta difícil. Mas é tão bonito.

Nick Cave é um dos grandes compositores do nosso tempo (recordem o brilhante "Push The Sky Away" de 2013) e parece aprimorar a sua arte com a idade e — para mal dele — com o seu próprio sofrimento. A desgraça de Nick Cave é a nossa sorte, por conseguir canalizar o seu luto de Pai em música e nos abençoar com um álbum destes — um confessionário onde pôde libertar os seus próprios traumas. Espero que, pelo menos, a música lhe tenha servido de terapia. Um abraço, Nick.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O que veio primeiro? A música ou a miséria?

A banda sonora que engrandece as nossas vidas

A pergunta é feita por John Cusack no filme "High Fidelity" e tem muito que se lhe diga. Dono de uma loja de discos e de uma vasta colecção de vinil organizada autobiograficamente, John Cusack representa uma visão acabada do melómano-coleccionador, romântico-obsessivo, apaixonado pelo sexo oposto e pela música em partes iguais e complementares. Tão bem que o compreendo.

É pertinente, a sua reflexão melómano-existencialista. Será que ouvimos música porque nos sentimos miseráveis, ou sentimo-nos miseráveis porque ouvimos música? Preocupamo-nos tanto com a exposição das crianças ao sexo e à violência (pelo menos teoricamente; na prática, basta ligar a televisão para perceber que é uma treta, não é CMTV?), mas ninguém reflecte sobre a permanente exposição a música sobre rejeição, dor e miséria. Quando usamos a música para lidar com o que nos atormenta, será que nos cura da dor, ou prolonga o nosso sofrimento? Parece uma charada reminiscente do ovo e da galinha, mas — se quisermos aplicar a sabedoria popular — eu diria que é mais um caso de pescadinha de rabo na boca.

Se não fosse a música, os psicólogos e os psiquiatras teriam muito mais trabalho

Não há paciência para ouvir o "Happy" do Pharrel, depois de uma segunda-feira de trânsito caótico e chefe insuportável, à espera de uma mensagem dela que nunca chega. À saída do trabalho, toca o telemóvel — uma mensagem! "Hoje não dá", diz. "Happy"? Tenho lá paciência para alegrias. "It's laughter I disdain", dizia muito bem o Paul Simon. O que apetece mesmo é chegar a casa, chutar os sapatos à porta e pôr The Smiths, preferencialmente um tema ermo do "Hatful Of Hollow", só para calcar mais o estado de espírito e curtir a depressão. É um ciclo vicioso: quanto mais em baixo estou, mais down é a música que quero ouvir.
E se estiver mesmo na merda, então só lá vou com algo violentamente niilista dos Godspeed You! Black Emperor, a pintar um cenário apocalíptico onde as bandeiras estão todas mortas no cimo das hastes. Não me tira do buraco, mas é a terapia que tenho à mão. Se não fosse a música, os psicólogos e os psiquiatras teriam muito mais trabalho.

Então e se o dia correr bem? Sexta-feira soalheira, almoço com ela na praia e o trabalho todo feito. Nesse caso, sim, já apetece pôr uns Duran Duran e abrir a janela do carro para curtir um ventinho na cara. Ou puxar de uns Deep Purple e carregar no acelerador na auto-estrada. Ou o melhor talvez seja ir buscar aquela mixtape dos Radiohead e recordar como eram bons os tempos gloriosos da depressão.

Moral da história? Não interessa quem veio primeiro, se a música, se a miséria. A música, como a vida, é o que quisermos dela. Mas a soma de ambas resulta numa vivência intensa e cinemática que nos esconde e protege do marasmo da realidade. E é sempre melhor ter música, que não ter. Porque todos os filmes ficam engrandecidos com uma banda sonora, mesmo se esse filme for a nossa vida mundana.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Roland Orzabal, o génio esquecido da música Pop

A história do ícone dos anos 80 que nunca o foi

"Quem?", soltarão os mais incautos. Quando pensamos em ícones da cena alternativa dos anos 80, falamos em Morrissey, Robert Smith e Ian Curtis, mas nunca em Roland Orzabal. Muitos não reconhecem sequer o nome de um dos mais subvalorizados músicos da década. Quem ouve a M80 ou frequenta o Plateau, saberá quem são os Tears For Fears, mas talvez seja preciso cantar "Shout, shout, let it all out" para que todos saibam de quem estou a falar. Mas desenganem-se, não é em "Shout" que reside a genialidade de Roland Orzabal; quanto muito, é aí que a percepção do seu virtuosismo no ofício esbarra.

Não atiro facilmente a palavra 'génio' para uma discussão. Não há muitos. Quando se diz que o novo álbum do Kanye West é 'genial', não só se comete um abuso de linguagem, como também se diminui a magnitude do adjectivo. Roland Orzabal não é um génio porque escreveu umas musiquinhas que foram líderes das tabelas em ambos os lados do Atlântico, nem porque já vendeu 30 milhões de álbuns, nem porque gastou mais dinheiro a gravar um álbum do que qualquer outro artista do seu tempo. É-o porque domina a arte da música Pop como catarse, porque sabe burilar pequenas jóias de 4 minutos que condensam emoções e libertam traumas. É-o porque fê-lo consistentemente (embora com largos períodos de interregno, a proactividade não é o seu forte), em estilos diferentes e durante um período de 3 décadas. Pena que ninguém a tenha ouvido (parte dela, pelo menos).

Por ocasião do seu aniversário que ninguém festejou, façamos uma resenha histórica.

Roland foi o principal compositor dos Tears For Fears, banda que formou em Bath com Curt Smith, corria 1981. Curt era a face alegre da banda, a voz açucarada que adocicava a música amarga de Roland. Duas personalidades diferentes, unidas pelas relações traumáticas que tiveram com os respectivos progenitores. Muitos medos e muitas lágrimas. O nome da banda é, aliás, para ser levado à letra — foi retirado de "Prisoners of Pain", livro de Arthur Janov, autor de "The Primal Scream" e responsável pela terapia primal que defendia a substituição dos medos pelas lágrimas. E foi essa premissa que sempre alimentou a música dos Tears For Fears.

"Shout" e "Everybody Wants To Rule The World" foram os temas que atiraram os Tears For Fears para a estratosfera da Pop em 1985 e ainda hoje são habitués nas rádios generalistas. O problema é que são também os menires que tapam a vista do restante trabalho da banda de Bath, largamente ignorado devido à presunção de serem uns meros two-hit-wonders. Longe disso.
O arco discográfico da banda de Bath não é extenso, mas é rico e preciso. Não há uma única maçã podre na caixa. Os anos 80 viram três álbuns, cada um radicalmente diferente do anterior: "The Hurting", "Songs From The Big Chair" e "The Seeds Of Love".

"The Hurting" — o álbum de estreia — é sombrio, introspectivo e minimalista, firmemente indexado na estética sonora da New Wave. Qual "OK Computer", não há álbum tão maravilhosamente depressivo como este. "Mad World", "Pale Shelter" e "Change" foram êxitos, mas longe do sucesso dos seus pares com sentido estético visual mais apurado (como os Duran Duran). Mas como um álbum tão depressivo e desconfortavelmente pessoal poderia ambicionar o sucesso mainstream? Essas ambições estariam guardadas para o segundo álbum.

Em "Songs From The Big The Chair", o campo sonoro expandiu-se e com ele, expandiu-se o público: ambos saíram da cave e foram para os estádios. Os conflitos internos deram lugar aos conflitos com a sociedade e com o sexo oposto e o público pôde finalmente identificar-se com os traumas de Roland ("these are the things I can do without"). Os sucessos vieram em barda: "Shout", "Everybody Wants To Rule The World" e "Head Over Heels".

Mas Roland é um pirómano da vida: sempre que consegue construir qualquer coisa, tem que destruir tudo logo a seguir para fazer de novo. Nunca nada é suficiente ou suficientemente bom. "Para criar, tenho que destruir", diz. E quando todos (público e editora) esperavam uma continuação da fórmula de sucesso de "Songs", Roland gastou 3 anos, 4 produtores, 9 estúdios e 1 milhão de libras para fazer um novo álbum (números absolutamente inauditos na época). Assim nasceu "The Seeds Of Love", um álbum de produção épica e meticulosa e beleza extraordinária, fruto da obsessão de Roland com o detalhe, em busca de um perfeccionismo que só parecia existir na sua mente.

A personalidade obsessiva de Roland atirou Curt para fora dos Tears For Fears e deixou-o a solo na década de 90, onde nos deu dois álbuns criminosamente ignorados: "Elemental" e "Raoul And The Kings Of Spain". Principalmente "Raoul", onde Roland volta a mergulhar em águas profundas dos seus conflitos, desta vez com a família e a religião ("Can we ever hope to seek asylum from the bounds of fate and family?"). Sozinho, sem o açúcar de Curt, ficou a amargura. Roland reflecte sobre a importância da família, explora as relações como campos de batalha, confessa adultério e promete redenção, tudo no mesmo álbum.

Nos anos 00, Roland lançou "Tomcats Screaming Outside" — o seu primeiro (e único) trabalho a solo, inspirado no álbum Drum and Bass de David Bowie, "Outside". Só que o álbum teve o azar de ser lançado no dia 11 de Setembro de 2001 (esse mesmo) e como tal passou completamente despercebido. Depois vieram as pazes com Curt Smith fizeram e um álbum com título a condizer: "Everybody Loves A Happy Ending". Pegando no ponto que deixaram em "Seeds", sob forte influência de Paul McCartney ("because McCartney is, of course, the new Lennon", diz Roland) e das paisagens de "Sgt. Pepper", "Happy Ending" é de longe o álbum mais colorido da banda. À boa maneira dos Tears For Fears, todo o álbum é um exercício de catarse. Foi da dor que saíram todos os álbuns da banda — da infância ("The Hurting"), da procura do sucesso ("Songs"), da sua destruição ("Seeds"), da separação ("Elemental") e do casamento ("Raoul") — mas desta feita, da dor resultou um arco-íris.

Curt e Roland voltaram a gravar e esperam-se novidades para breve. Da minha parte, confesso-me particularmente expectante por este novo desafio do nosso herói. Roland é um recluso e nunca se sabe muito dele, mas julgando pelos posts espirituosos que vai fazendo no Twitter, este será o primeiro álbum que fará enquanto goza de paz de espírito. Não me levem a mal, adoro-o, mas sabendo que foi da dor que surgiu toda a sua arte, que será do novo álbum dos Tears For Fears com um Roland feliz? Ou será que Roland Orzabal é como todos nós e a sua vida nas redes sociais é muito melhor do que a sua vida na realidade? O novo álbum dar-nos-á essa resposta.

Se quiserem conhecer melhor o Roland e os Tears For Fears, não deixem de checar a playlist.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Plágio, inspiração ou ganância? - O Rock N' Roll em julgamento

Quando Led Zeppelin, Pharrell Williams e The Verve vão ao palco do tribunal

Muito pouco se tem passado no mundo da música. Com a queda dos bad boys que entretinham o nosso quotidiano mundano (temos que ser politicamente correctos, não é?) e com a míngua de novas "bandas-marca" que vendem t-shirts e enchem estádios, a indústria sofre e isso reflecte-se tanto na tão falada queda de vendas, como na falta de assunto nas publicações musicais. Têm seguido o feed da NME e da Rolling Stone? Pois. Notícias requentadas e histórias sobre cinema e séries para encher o mural. Se até o Cid foi obrigado a pedir desculpas - e a chorar - por causa de uma brincadeira, numa das cenas mais indecorosas por que já vi passar uma estrela Rock, vai ficar muito difícil a sobrevivência destas publicações.

Não alheio ao assunto da falta de assunto está a nova moda dos processos por plágio. Uma das (poucas) notícias deste Verão foi o processo movido aos Led Zeppelin pelos Spirit, por alegadamente terem copiado a introdução acústica de "Stairway To Heaven" (de 1970), a partir do instrumental "Taurus" de 1968. Os Led Zeppelin abriram para os Spirit na sua primeira digressão americana e isso deixou sempre Randy California (vocalista e guitarrista dos Spirit e autor de "Taurus") com a convicção que Stairway era dele e melindrado por não lhe ter sido dado o crédito, "nem sequer um telefonema de agradecimento". Randy morreu em 1997 e agora foi a família, em posse dos direitos de autor do falecido guitarrista, quem processou à banda britânica.

O julgamento já terminou e absolveu os Led Zeppelin das acusações de plágio. E ainda bem. Ainda bem, porque os Led Zeppelin não copiaram os Spirit? Claro que copiaram! Mas o gamanço faz parte do Rock N' Roll. Que seria do Rock N' Roll sem o "empréstimo" (para lhe dar um nome mais leve) de melodias? Quantas progressões de acordes são possíveis? É um número finito. Quantas vezes as mesmas progressões harmónicas foram repetidas e copiadas? É um número infinito. Porque é que de todos os "empréstimos", foi o "Stairway To Heaven" que foi a tribunal? Porque é aqui que está o dinheiro.  Que maneira mais fácil de fazer dinheiro do que mover um processo contra uma mega-banda por causa de uma mega-canção? E é isto.

"Stairway To Heaven" é muito mais que "só" uma canção, é uma marca em si mesma. Na verdade, o historial de "empréstimos" dos Zeppelin é muitíssimo mais vasto e com casos bem mais evidentes que Stairway. Mesmo relativamente a "Stairway To Heaven", outros se poderiam queixar. Dêem uma passagem pelos links para ouvirem alguns casos pelos vossos ouvidos e tirarem as vossa conclusões.
A questão que importa colocar não é se os Zeppelin roubaram ou não esta ou aquela parte de músicas deste ou daquele artista para criarem a sua própria obra. A verdadeira questão é: e depois? Vamos agora limitar a música num sistema finito e fechado, sem lugar à inspiração por parte de terceiros? Já nem vou falar na subjectividade que acarreta tal apreciação. Se toda a gente for processar toda a gente, para além de se abrir um novelo sem fim, acaba-se com a música Rock de vez.

A sentença no caso Led Zeppelin é por isso justa e esperada. Inesperada, foi a sentença no caso de plágio movido a Pharrell Williams pela família de Marvin Gaye por causa de "Blurred Lines", onde Pharrell foi considerado culpado e obrigado a pagar milhões aos filhos de Marvin. Integridade artística? O tanas. Tal como no caso dos Zeppelin, foi a família - e não o próprio artista - a mover o processo. E porquê? Dinheiro, claro está. Muito. É que "Blurred Lines" foi "só" a canção mais tocada de 2013, tornando-se um dos singles mais vendidos de sempre, com quase 15 milhões de cópias. O problema é que este caso abriu um precedente gravíssimo, que felizmente não foi respeitado no julgamento "Stairway To Heaven".

Outro precedente já aberto foi o vergonhoso processo dos Rolling Stones contra os The Verve nos anos 90, devido a "Bitter Sweet Symphony". Tudo por causa de um sample de uma versão de "The Last Time" cuja utilização, imagine-se, eles próprios tinham autorizado, pese embora o arranjo tenha sido escrito por outro músico. Quando Symphony se tornou um fenómeno de popularidade em todo o mundo durante 1997 e 1998, a editora dos Stones mudou de ideias e achou que Richard Ashcroft havia, afinal, "abusado" no uso do sample que, ironicamente, nem sequer faz parte da versão original de "The Last Time". A editora processou-o pelos créditos do tema e ganhou. Todo o dinheiro ganho com "Bitter Sweet Symphony", retroactivos incluídos, vai agora para as contas dos Stones. Como se todo o dinheiro do mundo não fosse já suficiente para Mick e Keith. Pura ganância.

Quem não se lembra do "Anzol" dos Rádio Macau e da sua inusitada semelhança com "Just Like Heaven" dos The Cure, lançada uns meses antes? (offtopic: o quão badass é a Xana neste vídeo e 1988?) Estão a ver o Robert Smith a processar o Flak pelos direitos do "Anzol" e respectivos lucros das vendas dos Rádio Macau? Pois.

terça-feira, 26 de julho de 2016

David Gilmour em Pompeia: depois disto, não há mais nada para ver

Qualquer superlativo encontrado neste texto é pura realidade


Foi como um sonho. Um sonho bom. Um daqueles sonhos de onde não queremos acordar e quando o maldito despertador toca, metemos o snooze para tentar voltar ao ponto onde ficámos, nem que seja só por mais 5 minutos.

Podia dizer que "não há palavras para descrever" este sonho, mas como essa expressão é normalmente seguida de um longo discurso descritivo, vou poupar-vos a contradições retóricas. Há muito para dizer. Começo por vos confessar uma heresia: não costumo falar com Deus. Isso deve-se a vários factos que se sucederam ao longo da minha vida, entre os quais aquele penálti assinalado a um mergulho do Jardel, que me levou a concluir que Deus - a existir - estava a fazer um péssimo trabalho ao pactuar com injustiças daquele calibre. Hoje reconheço que talvez tenha sido injusto, uma vez que Deus naquela altura estaria mais preocupado a preparar os concertos no Royal Festival Hall.

O cenário em Pompeia exigia que eu voltasse a fazer contacto com Ele: eu estava à espera em pé há mais de 7 horas, debaixo de uma sauna de 35 graus e já tinha transpirado uma garrafa de água de litro e meio; no delírio do momento da abertura de portas, com o meu coração a mil e os carabinieri a ameaçarem quem corresse para o Anfiteatro das ruínas de Pompeia, eu falei com Ele e pedi-Lhe (falando a Sua língua) "please, please, please, let me get what I want this time" (presumo que Deus goste dos The Smiths). Queria ficar na fila da frente; queria ser, por uma vez na vida, um dos maluquinhos das grades.

O sonho tornou-se realidade.

David Gilmour ao vivo em Pompeia, visto da fila da frente. Como é que foi? Vou ser directo: foi o melhor dos melhores de todos os tempos, a milhas de distância do segundo classificado. Se me leram mais que uma vez, saberão da minha tendência para o superlativo, principalmente quando se trata de música. Mas acreditem, isto é diferente. Lembram-se das estórias de Paris e de Pula? Das melhores noites da minha vida e o camandro? Esqueçam. Foi tudo pulverizado por esta noite.

Foi tudo perfeito: a música, o espaço, o espectáculo de luz, lasers e fogo de artifício e claro, o spot frontal. Mas o toque de génio só chegou quando aconteceu o impensável: o David irritou-se. Tudo porque um grupo à frente gritava insistentemente por "Echoes", mesmo sabendo à partida que o épico de "Meddle" não iria ser tocado. David perdeu as estribeiras e deu um raspanete à audiência: "O Rick [teclista dos Pink Floyd] está morto, não vou tocar mais o "Echoes"". E por momentos ficou um ambiente esquisito.
Depois, aconteceu magia. Como mostra a História, é quando se zanga que Gilmour está no seu melhor. Outrora instigado pelas tensões com Roger Waters, ali pelo seu próprio público, David vingou-se na sua guitarra, golpeando-a a cada acorde em performances épicas de "Sorrow" e "Comfortably Numb".

Faltava o melhor da noite.

Depois do habitual ritual de despedida de David (chama a banda, fazem uma vénia conjunta e saem), este regressou sozinho para a frente do palco e, talvez apercebendo-se da importância do momento (foi o primeiro espectáculo com público desde que as ruínas foram desenterradas), David fez o que nunca o vira fazer: bateu palmas a um público que só pecou pelo entusiasmo a roçar no fanatismo.
Foi aqui que também eu tive o "meu" momento. Aos meus gritos histéricos de "I LOVE YOU, DAVID! I LOVE YOU, DAVID! I LOVE YOU, DAVID!", enquanto vestia um sorriso a tocar nas orelhas e gesticulava o lançamento do meu coração na sua direcção, ele deixou-se rir e fez uma vénia dizendo "thank you". Obrigado eu, David. Obrigado eu. Que tempo glorioso para se estar vivo.

Vamos pôr as coisas nestes termos: depois disto, sinto que já não há mais nada para ver.

(OK, entretanto já fui ao SBSR mas um que é um gajo há de fazer? Passar fome porque comeu o melhor bife do mundo?)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

A noite escaldante de Iggy Pop

Ao segundo dia, o Super Bock Super Rock 2016 ferveu


Se a primeira jornada do Super Bock Super Rock 2016 tinha sido um pouco morna, a segunda noite do festival alinhou o diapasão com a temperatura que se fazia sentir junto ao Tejo — foi escaldante.
O Palco Super Bock começou com os Bloc Party, num concerto ainda a meio gás. Foi um início tépido com as bancadas despidas e uma plateia que não passava da mesa de som, onde só as filas da frente pareciam aderir. A reviravolta no marcador deu-se em "Banquet", o hit balsâmico de que todos estavam à espera para soltar voz e braços no ar. O entusiasmo manteve-se na recta final do concerto com "Helicopter" e "Ratchet" e, como na tropa, fica a sensação que só no fim é que o púbico ficou preparado para receber a banda de Kele Okereke.

Para o que ninguém estava preparado, era para o que viria a seguir. Em 2016, já não há muitas lendas do Rock para ver. Uns já nos deixaram, outros ficaram e murcharam, poucos valem o valor do bilhete que cobram. A organização do SBSR agarrou um dos poucos que sobram e esperava que fosse um dos pratos fortes do festival. Mas com certeza que não estava à espera do que se passou ontem.
Apresentando-se na sua indumentária habitual, ou seja, sem indumentária (devido àquela condição clínica que não lhe permite vestir uma t-shirt), Iggy Pop chegou e logo carregou a fundo no pedal com dois clássicos dos Stooges — "No Fun" e "I Wanna Be Your Dog". Cerveja a voar, Iggy a cuspir, público a saltar, mosh, crowdsurfing, este é o meu povo e é disto que o meu povo gosta. É só Rock N' Roll, mas nós gostamos.
Por esta altura, já o Meo Arena estava muito e bem composto. E quem disse que o Rock é coisa de homens? A plateia estava cheia de roqueiras giras e roqueiras giras são como as crianças: são o melhor do mundo.
Visivelmente injectado pela vibração que o público lhe retribuía, Iggy continuou prego a fundo numa auto-estrada insana de setlist, a passar por "The Passenger", "Lust for Life", "Sixteen" (todos do álbum "Lust For Life"), "1969" dos Stooges, ou "Sister Midnight" do (maravilhoso) "The Idiot", prólogo da trilogia de Berlim de David Bowie. Mas o ponto alto da noite estava guardado para o tema seguinte.  Iggy deixou o aviso: "I can't slow down, I'm not like you, I'm a real wild one". Quem olha para ele, um homem de 69 anos que levou uma vida a alta velocidade e que ainda aparenta ter mais gás que qualquer um de nós, percebe que ele não está a mentir. Está nos olhos dele e acima de tudo, está nas gloriosas pregas que apresenta no torso, cicatrizes de muitas batalhas travadas no passado. Depois do aviso, rebentou "Real Wild Child" e rebentou o motim no público. Pés no ar, mosh intenso — o meu primeiro desde que parti o pé em The Prodigy no Alive do ano passado (desta vez só rebentei os ténis) — e muita transpiração. A loucura total. O próprio Iggy mostrou-se surpreendido com a reacção e antes de acalmar os ânimos com o drum loop de "Nightclubbing" (mais uma malha de "The Idiot") disse e passo a citar: "fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuckin' motherfuckers!". Tudo dito.
Iggy fechou o concerto com "Search And Destroy" dos Stooges e a casa voltou a ir abaixo (e eu dei um high-five ao Iggy!). Que Rei. Depois da saída da banda, Iggy ainda ficou no palco uns bons minutos a adorar o seu reino, em poses triunfais de quem percebeu ter feito uma coisa maravilhosa ali, naquele momento, em comunhão com o seu povo. Olhando à minha volta, todos pareciam contagiados por um sorriso idiota de quem também tinha percebido a importância daquele momento. Que concerto. Que noite. É para viver estes momentos que um gajo vive. Ao segundo dia, o Super Bock Super Rock 2016 a escaldar.

O Palco Super Bock fechou o segundo dia com os Massive Attack, acompanhados pelos Young Fathers. A banda de Bristol trouxe a Lisboa um espectáculo irrepreensível, hipnotizante, de longe o melhor a nível visual no SBSR e ainda conseguiu a proeza de pôr o Meo Arena a soar bem. Foi um espectáculo de 2016 para 2016: à mesma hora que acontecia um golpe militar na Turquia, já as projecções davam conta do sucedido no palco.
Foi um concerto dado para as bancadas (cheias), com os êxitos (poucos) guardados para o fim: "Safe From Harm" e "Unfinished Sympathy", docinhos para alegrar as hostes que só entraram em apoteose quando apareceu nos ecrãs que Portugal é Campeão Europeu. Foi bom, mas um anti-clímax para o que se viveu umas horas antes. Mas depois da descarga de adrenalina em Iggy Pop, o que se podia esperar?