segunda-feira, 18 de julho de 2016

A noite escaldante de Iggy Pop

Ao segundo dia, o Super Bock Super Rock 2016 ferveu


Se a primeira jornada do Super Bock Super Rock 2016 tinha sido um pouco morna, a segunda noite do festival alinhou o diapasão com a temperatura que se fazia sentir junto ao Tejo — foi escaldante.
O Palco Super Bock começou com os Bloc Party, num concerto ainda a meio gás. Foi um início tépido com as bancadas despidas e uma plateia que não passava da mesa de som, onde só as filas da frente pareciam aderir. A reviravolta no marcador deu-se em "Banquet", o hit balsâmico de que todos estavam à espera para soltar voz e braços no ar. O entusiasmo manteve-se na recta final do concerto com "Helicopter" e "Ratchet" e, como na tropa, fica a sensação que só no fim é que o púbico ficou preparado para receber a banda de Kele Okereke.

Para o que ninguém estava preparado, era para o que viria a seguir. Em 2016, já não há muitas lendas do Rock para ver. Uns já nos deixaram, outros ficaram e murcharam, poucos valem o valor do bilhete que cobram. A organização do SBSR agarrou um dos poucos que sobram e esperava que fosse um dos pratos fortes do festival. Mas com certeza que não estava à espera do que se passou ontem.
Apresentando-se na sua indumentária habitual, ou seja, sem indumentária (devido àquela condição clínica que não lhe permite vestir uma t-shirt), Iggy Pop chegou e logo carregou a fundo no pedal com dois clássicos dos Stooges — "No Fun" e "I Wanna Be Your Dog". Cerveja a voar, Iggy a cuspir, público a saltar, mosh, crowdsurfing, este é o meu povo e é disto que o meu povo gosta. É só Rock N' Roll, mas nós gostamos.
Por esta altura, já o Meo Arena estava muito e bem composto. E quem disse que o Rock é coisa de homens? A plateia estava cheia de roqueiras giras e roqueiras giras são como as crianças: são o melhor do mundo.
Visivelmente injectado pela vibração que o público lhe retribuía, Iggy continuou prego a fundo numa auto-estrada insana de setlist, a passar por "The Passenger", "Lust for Life", "Sixteen" (todos do álbum "Lust For Life"), "1969" dos Stooges, ou "Sister Midnight" do (maravilhoso) "The Idiot", prólogo da trilogia de Berlim de David Bowie. Mas o ponto alto da noite estava guardado para o tema seguinte.  Iggy deixou o aviso: "I can't slow down, I'm not like you, I'm a real wild one". Quem olha para ele, um homem de 69 anos que levou uma vida a alta velocidade e que ainda aparenta ter mais gás que qualquer um de nós, percebe que ele não está a mentir. Está nos olhos dele e acima de tudo, está nas gloriosas pregas que apresenta no torso, cicatrizes de muitas batalhas travadas no passado. Depois do aviso, rebentou "Real Wild Child" e rebentou o motim no público. Pés no ar, mosh intenso — o meu primeiro desde que parti o pé em The Prodigy no Alive do ano passado (desta vez só rebentei os ténis) — e muita transpiração. A loucura total. O próprio Iggy mostrou-se surpreendido com a reacção e antes de acalmar os ânimos com o drum loop de "Nightclubbing" (mais uma malha de "The Idiot") disse e passo a citar: "fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuckin' motherfuckers!". Tudo dito.
Iggy fechou o concerto com "Search And Destroy" dos Stooges e a casa voltou a ir abaixo (e eu dei um high-five ao Iggy!). Que Rei. Depois da saída da banda, Iggy ainda ficou no palco uns bons minutos a adorar o seu reino, em poses triunfais de quem percebeu ter feito uma coisa maravilhosa ali, naquele momento, em comunhão com o seu povo. Olhando à minha volta, todos pareciam contagiados por um sorriso idiota de quem também tinha percebido a importância daquele momento. Que concerto. Que noite. É para viver estes momentos que um gajo vive. Ao segundo dia, o Super Bock Super Rock 2016 a escaldar.

O Palco Super Bock fechou o segundo dia com os Massive Attack, acompanhados pelos Young Fathers. A banda de Bristol trouxe a Lisboa um espectáculo irrepreensível, hipnotizante, de longe o melhor a nível visual no SBSR e ainda conseguiu a proeza de pôr o Meo Arena a soar bem. Foi um espectáculo de 2016 para 2016: à mesma hora que acontecia um golpe militar na Turquia, já as projecções davam conta do sucedido no palco.
Foi um concerto dado para as bancadas (cheias), com os êxitos (poucos) guardados para o fim: "Safe From Harm" e "Unfinished Sympathy", docinhos para alegrar as hostes que só entraram em apoteose quando apareceu nos ecrãs que Portugal é Campeão Europeu. Foi bom, mas um anti-clímax para o que se viveu umas horas antes. Mas depois da descarga de adrenalina em Iggy Pop, o que se podia esperar?

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Concertos mornos em noite abrasadora junto ao Tejo

Os destaques do primeiro dia do Super Bock Super Rock 2016 foram The National e... Éder

O Super Bock Super Rock apresentou-se em 2016 com algumas novidades e na maioria dos casos, para melhor. O local é o mesmo, mas a organização preocupou-se – e bem – em limar várias arestas do ano passado. Em primeiro lugar, desapareceu aquela obscena zona VIP que ocupava uma faixa gigantesca do lado esquerdo do palco (e que só era ocupada quando o artista tirava um hit da mala). Depois, trouxeram aqueles copos cool que não só diminuem exponencialmente o lixo, como são também boas recordações para levar para casa (quem é que não prefere beber cerveja de um copo com o nome do Iggy Pop?). Sim, é um hassle ter que andar com o copo na mão toda a noite, mas enfim, não se pode ter tudo. Agora, a música.

A contrastar com a brasa que se fazia sentir junto ao Tejo, a primeira noite do festival foi apenas morna. A minha começou com Kurt Vile no Palco EDP. Com dois álbuns superlativos na bagagem ("Wakin on a Pretty Daze" de 2013 e "b'lieve I'm goin down..." de 2015) e uma carreira que já conta com 10 anos e uma passagem pelos The War On Drugs (que fundou com Adam Granduciel), Kurt Vile chegava a Lisboa com a fasquia muito alta e a responsabilidade de abrir as hostes. Mas apesar das minhas expectativas, Kurt não correspondeu. Talvez por causa do espaço aberto, talvez por causa da luz natural que ainda raiava, talvez por causa do público que ainda estava enferrujado na madrugada do festival. Não sei. Mas Kurt só conseguiu conquistar a audiência quando sacou de "Pretty Pimpin", o primeiro momento de apoteose do SBSR 2016 (consta que a apoteose foi tal, que houve meninas em topless, mas como eu estava concentrado no palco, pics or it didn't happen). No resto, enquanto Vile vagueava entre o Neil Young caótico e o Bruce Springsteen poético (com direito a um cover personalizado de "Downbound Train"), o público não aderiu. Pena. Espero vê-lo cá mais vezes.

Seguiu-se The National no Meo Arena, outrora Pavilhão Atlântico e por estes dias, Palco Super Bock. À chegada, um cenário deprimente: meia casa. A plateia em pé não passava a mesa de som, apesar do Balcão 1 estar composto (com o avançar do concerto, a metade traseira da arena também se foi salpicando). Mas é como diz o povo: "poucos mas bons". Quem lá esteve, vibrou à grande; bateu palmas, cantou as músicas de trás para a frente e de tal forma, que em partes o público ouvia-se em maior volume que o próprio Matt Berninger. Impressionante. No fim, Matt retribuiu com um crowdsurfing, um carinho para a poderíssima fanbase portuguesa dos The National. É evidente que a banda joga em casa em Portugal e não admira por isso que eles voltem todos os anos.
Para mim, foram uma revelação. Confesso que durante anos não dei a devida atenção aos The National e nem consigo explicar porquê, tanto que tinha as orelhas as escaldar de ouvir amigos clamarem a sua excelência. Talvez tenha sido isso, achava exagerado o culto. Ontem converti-me.
Agora, a parte chata: na parte final, com os êxitos vieram os telemóveis para cima. Malta, já estamos em 2016 e o êxtase das câmaras nos telemóveis já devia ter amainado. Quantas vezes é preciso dizer e em quantas formas é preciso escrever para que baixem a porra dos telemóveis. Uma foto, ok. Um vídeo de 30 segundos para o insta, ninguém leva a mal. Musicas inteiras, pá, não.

Voltando ao EDP para Jamie XX, vê-se o palco muito bem composto. O público, digo. No palco só está mesmo Jamie, num DJ Set glorificado que, faça-se justiça, arrancou muito entusiasmo do público (então era aqui que eles estavam!). Não foi propriamente um Avicii, até porque a música que saía das colunas era incomparavelmente melhor (o álbum "In Colour" foi um dos melhores do ano passado), mas não sei se podemos classificar aquilo de música "ao vivo". A escolha musical de Jamie andou entre o piso de cima e o piso de baixo do Lux. Nos melhores momentos, esteve no piso de cima, como em "Loud Places", com a voz dos The XX, Romy Madley Croft.
À saída, cantou-se a plenos pulmões e com afinação apurada que "foi o Éder que os fodeu". Mais do que a música e à falta de concertos lendários, foi ainda a ressaca da vitória da Selecção no Europeu que trouxe a euforia ao Parque das Nações, numa noite gloriosamente abrasadora.

A fechar a noite, os Disclosure no Meo Arena, agora transformado em discoteca: casa cheia na plateia em pé e bancadas despidas. Estava lá eu que, mesmo com o House castigador que saía das colunas, ouvia cristalinamente um ruído de conversa vindo de toda a plateia a sobrepôr-se à música. Como quem estava lá em baixo, também eu só queria conversar e por isso fui para o bar terminar a minha noite.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Adeus, David Gilmour

As horas angustiantes que antecedem o regresso a Pompeia

No último ano ano vi o David Gilmour ao vivo por 5 vezes em 3 países diferentes: Pula, Verona, Florença e duas vezes em Hollywood. A sexta - e última - será hoje, daqui a poucas horas: no grande anfiteatro das ruínas de Pompeia, um local sagrado. Mas já lá vamos.Escrevo ainda em Roma, deitado no piso de cima de um beliche periclitante, num quarto que chora com o fedor de 10 pessoas amontoadas a padecer de hidrofobia. Mas como condenar os hidrófobos, quando a casa de banho parece ter mais vida selvagem que o Amazonas?
Tenho que me levantar daqui a um par de horas para levar um carro alugado até ao sopé do Vesúvio, mas não consigo dormir. Não é o cheiro a cavalo, é o cavalo do meu coração que bate a galope, com tanto de excitação, como de nervosismo.

Já ando nisto há semanas. Ver os Pink Floyd sempre foi o meu sonho (o outro é ver os Queen com o Freddie Mercury; eu sei, não sou meigo a pedir), mas como os Floyd já lá vão e sem o Rick já não voltam, ver o David Gilmour ao vivo é a next best thing. Fui um dos sortudos que em 2006 pôde vê-lo com Richard, numa mini-digressão por salas intimistas para promover o álbum "On An Island".
Numa altura em que era estudante, aproveitava o Verão para ganhar uns trocos, normalmente para torrar em música. Juntei as poupanças de um ano e fui a Paris, onde vi o David no Grand Rex - um pequeno teatro com menos de 500 pessoas - e ouvi "Echoes", "High Hopes" e "Wot's Uh The Deal". Foi a melhor noite da minha vida.


Como a vida não é mais que esta incessante perseguição de um momento mágico, quando David anunciou nova digressão no ano passado, tratei de marcar o maior número de concertos que pude: Pula foi mágico como Paris, só faltou Richard; Verona foi o caos e em Florença, terceiro concerto em 4 dias, ver David já era quase corriqueiro; este ano fui duas vezes ao Hollywood Bowl (sempre desejara ali ver um concerto) e foi fantástico, mas aquela magia de Paris e Pula nunca mais voltou.
Por isso decidi que esta será a última vez que vou ver o David Gilmour. E que melhor maneira de terminar, se não no sítio onde tudo começou?

Foi aos 16 anos, quando fui de Castelo Branco a Lisboa, para ver o Benfica. Não ia a Lisboa muitas vezes, era um acontecimento para mim. Já na altura, fazia uns biscates no Verão para juntar dinheiro e comprar os CDs que queria durante o ano, mas naquele dia vinha com os bolsos lisos. Tive que convencer o meu Pai a oferecer-me o DVD com o filme "Pink Floyd Live At Pompeii". Afinal, fora ele quem me tinha introduzido aos Pink Floyd, expondo-me sucessivamente à gravação ("em noite de trovoada", diria agora o meu Pai) do concerto no Canal Grande, em Veneza, tinha eu apenas 3 anos. O meu Pai anuiu ao meu discurso e eu lá trouxe o DVD. Mal eu sabia que o filme iria para sempre mudar a minha vida.
Durante meses, vivi obcecado com o filme. Perturbou-me. Deu-me pesadelos. Para a mente susceptível de um rapaz de 16 anos da Beira que não conhecia muito do mundo, aquilo era a coisa mais cool que já vira na vida.

Não se trata apenas de ter aberto a porta da minha vida aos Pink Floyd e de me ter tornado um fã tão fanático, capaz de despender um salário para ver um dos membros da banda (e faltar a um edição recheadíssima do Alive). É muito mais que isso.
O "Live At Pompeii" abriu a minha mente a diferentes tipos de música e de arte, no geral. Tornou-me menos empírico e mais criativo. Ensinou-me a aceitar o que é estranho, esquisito e inóspito. Ensinou-me a ver a beleza no que à primeira parece feio. Ensinou-me a gostar mais do áspero do que o polido. Ensinou-me a ver virtude na diferença. Em suma, mudou a minha forma de ver o mundo.
Acima de tudo, fez-me sentir que era aceitável ser diferente, pensar fora da caixa, não querer ser do rebanho. Se eu hoje sou quem sou, muito se deve à weirdness daquele filme.
Por tudo isto, faz todo o sentido terminar ali. É como se toda a minha vida confluísse neste dia, neste lugar sagrado onde tudo começou. É um ciclo que se fecha.

Isto é tudo muito poético, mas a verdade é que agora estou numa pilha de nervos. Como em todas as grandes aventuras, esta também envolve perigo. Chegarei a tempo? Chegarei à frente junto às grades? Fuck knows.
Compreendam a minha ansiedade. Nunca me casei, nunca tive filhos, nunca vi o Benfica na final da Champions. Este é possivelmente o dia mais importante da minha vida - o dia da minha despedida do David.

Bem, pensando melhor, tudo começou quando o meu Pai me submeteu ao visionamento do concerto de Veneza em 1989. Quem sabe se o David não volta ao Canal Grande? Tinha que voltar a despedir-me dele, parece-me.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

"Há quem lhe chame um one night stand, mas nós podemos chamar-lhe o paraíso" - O sucesso meteórico dos Duran Duran

Recordar a Pop deliciosa dos Duran Duran

No que à imagem diz respeito, podemos dividir a cena musical do Reino Unido na primeira metade dos anos 80 em três campos principais: os dinossauros, naturalmente ancorados às décadas anteriores e com tentativas embaraçosas de ligação ao estilo vigente (Queen, Pink Floyd, Genesis); as bandas de rock alternativo, filhos do punk e dos sintetizadores a emergir em caves de zonas urbanas deprimidas, mais preocupados em preservar um certo glamour intelectual do que em seguir o guarda-roupa dos 80s (The Smiths, Joy Division, Tears For Fears); e as bandas Pop perfeitamente enquadradas no fashion style da década, ostensivamente explorando a sua imagem na promoção da sua música (Wham!, Duran Duran, Frankie Goes To Hollywood). Esta divisão não remete necessariamente o último campo para um plano secundário, como provam os Wham! (link) e os seus maiores concorrentes, os não menos superlativos Duran Duran.

Juntamente com os Wham!, os Duran Duran foram a banda da moda da primeira metade dos anos 80 e tal como a banda de George Michael, gozaram de um sucesso meteórico. Revelando uma profunda percepção da época que viviam, Simon Le Bon, Nick Rhodes, John Taylor, Andy Taylor e Roger Taylor (curiosamente não há aqui familiares) perceberam que para atingir o patamar cimeiro da atenção mediática, não lhes bastava a música, tinham também que pensar a sua imagem. Inicialmente rotulados com o movimento New Romantic, os Duran Duran desenvolveram um estilo próprio, elegante e refinado, tanto na roupa como na música, sem nunca abdicar das cores garridas e da extravagância que os ancora a uma década que os próprios ajudaram a definir. Plenos de vaidade, ostensividade e pretensiosismo, os Duran Duran comportavam-se como realeza Pop e durante meia década, foram tratados como tal.

O quinteto de Birmingham fazia furor entre as meninas que hoje vivem os quarentas e enchia as capas das Bravos e revistas semelhantes, matéria prima para os milhares de recortes que povoavam os cadernos da escola. A loucura era tal, que chegaram a ser apelidados de "Fab Five", em alusão a um sucesso só comparável aos Beatles, vinte anos antes. Reconheça-se porém que "os novos Beatles" estão para o Reino Unido como "o novo Eusébio" no Benfica: é um epíteto fácil que diz mais sobre a vontade de replicar o passado, do que da realidade do presente.

Se a preocupação com a imagem juntava os Wham! e os Duran Duran no mesmo campo, musicalmente eram animais muito diferentes. Pegando na linha que os Roxy Music começaram a traçar 10 anos antes, os Duran Duran apanharam o comboio da New Wave, fundindo Punk e Electronica e incorporando os sintetizadores de Nick Rhodes e os riffs de Andy Taylor em estruturas rígidas de canções Pop.

As canções invadiram as tabelas, as rádios e as televisões, com o "novo" formato videoclip que então ganhava força. A MTV dava os seus primeiros passos e os vídeos cinemáticos dos Duran Duran eram como manteiga em pão quente para o canal televisivo.
Foi uma relação simbiótica que começou com o ousadíssimo vídeo de "Girls On Film", que mostrava imagens tão sugestivas como lutas na lama de meninas em topless. Os Duran Duran queriam publicidade e o resultado não podia ter sido melhor: apesar do conteúdo explícito do vídeo ditar que este não podia passar antes da meia-noite, a restrição só serviu para disparar o interesse do público. A MTV acabaria por criar uma versão severamente editada para exibição em horário normal e a "Girls On Film" seguiram-se maravilhas como "Rio" (com os cocktails dentro de água), "Save A Prayer" e "Hungry like The Wolf" (com a banda no Sri Lanka). Enquanto a estação ganhava audiências à custa dos Duran Duran, a banda vendia discos à custa da promoção na MTV. Dizia-se que nos anos 80 se a MTV gostasse de ti, o mundo gostava de ti; a MTV adorava os Duran Duran e o mundo seguiu-lhe os passos.

Tal como a imagem, também a música dos Duran Duran trazia uma mensagem perfeitamente ajustada à década que os projectou. Eram temas sobre a liberdade individual e sexual, a importância do momento presente e a celebração do amor efémero. "Não vamos pensar no que significa, não vamos pensar no que vai ser amanhã. Vamos pensar no que vai ser este momento, é a única coisa que importa.", diz Simon Le Bon acerca de "Save A Prayer", um dos ex-libris da banda e o meu personal favourite. "Há quem lhe chame um one night stand, mas nós podemos chamar-lhe o paraíso" foi também um dos ex-libris da minha vida durante alguns anos.

O álbum "Rio" - o segundo da banda -, ao mesmo tempo que é um dos LPs que melhor define a década de 80, consegue soar tão bem hoje como há 30 anos. Não há um único stinker no álbum. Em 2106, mantém-se um exemplo perfeito de Pop dançável polida e carregada de rasgo. Era este rasgo incutido pela guitarra incisiva de Andy Taylor que distinguia os Duran Duran de todas as outras bandas Pop. Rude e áspera, a guitarra de Andy dilacerava as texturas minuciosas saídas dos sintetizadores de Nick Rhodes e conferia aos Duran Duran um edge único no panorama Pop da época. Quando Andy quis fazer algo mais adequado às suas raízes Punk e saiu durante a gravação do álbum "Notorious", os Duran Duran deixaram de ser excelentes e passaram a ser apenas bons.

Entretanto, os fãs adolescentes cresceram, a música evoluiu com a experiência nos projectos paralelos dos Arcadia (Simon, Nick e Roger) e dos Power Station (John e Andy) e a banda entrou em processo de negação contra-cíclica, sempre à procura de adaptar a sua música ao que se ouvia na rádio. Se George Michael teve a inteligência de dissolver os Wham! e continuar a solo com uma sonoridade mais adulta, os Duran Duran continuaram, sempre com sucesso muito tépido. Houve um comeback importante em 1993 com "Ordinary World" e "Come Undone" (retirados do álbum epónimo desse ano), mas os hits terminaram aí. O último álbum tenta fazer-nos lembrar dos tempos áureos dos 80s, ao mesmo tempo que tenta soar actual. Falha nos dois objectivos. Felizmente, teremos sempre o "Rio" para recordar a Pop deliciosa dos Duran Duran.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Em defesa dos Wham!, a melhor banda Pop de sempre

Uma ode à máquina de música dançável de George Michael

É um dos maiores e mais injustos preconceitos da nossa sociedade: em Portugal, gostar de Wham! ainda é tabu. Com os anos, chegámos à conclusão que era aceitável gostar de Prince, Madonna e Michael Jackson (e ainda bem), mas por alguma razão, ainda temos que murmurar que gostamos de George Michael e dos Wham!. Raramente se vê uma menção ao duo Pop britânico na imprensa portuguesa; na rádio, só passa o "Last Christmas" por altura no Natal e à noite, até o Plateau se recusa a passar outro tema que não o "Wake Me Up Before You Go-Go". Um ultraje.

Qual não é o meu espanto, pois, quando vejo esta semana duas peças diferentes sobre os Wham!, primeiro pelo Nuno Galopim (Máquina de Escrever), a propósito dos 30 anos do último concerto da banda e depois pelo Tiago Castro no"Álbum de família" da Radar, homenageando "Make It Big" de 1984. Fica aqui a minha ovação ao Nuno e ao Tiago. Já era tempo de fazer justiça aos Wham!, a melhor banda Pop de sempre.

Melhor banda Pop de sempre? "Que heresia!", já vos estou a ouvir, enquanto preparam o arremesso da esferográfica ao monitor. Calma, eu explico. Comecemos pelo princípio: os Wham! foram um duo de vida meteórica formado por George Michael e Andrew Ridgeley, que brilhou de forma incandescente na sua curta passagem pelo panorama musical. O registo da banda no Reino Unido é verdadeiramente avassalador: de 1982 a 1986, lançaram 9 singles e todos (sublinho: TODOS) entraram para o Top 10 das tabelas britânicas, sendo que 4 deles chegaram ao 1º lugar. Os álbuns "Fantastic" e "Make It Big" também foram #1. São números impressionantes que dão uma ideia ideia do impacto que os Wham! tiveram na altura.

Bem sei que toquei num assunto delicado: será que a popularidade e a qualidade da música são duas variáveis directamente relacionáveis? Não necessariamente, mas também não têm que ser inversamente proporcionais. O "Bohemian Rhapsody" foi #1 durante nove semanas e ninguém discute a valia da canção.
Os Wham! foram muito mais que apenas um fenómeno de popularidade. Se olharmos para a Pop de hoje, percebemos que há demasiados intérpretes que não escrevem as suas próprias canções, puros produtos de venda ao público que vêem as suas carreiras projectadas ao milímetro, desde a imagem, à produção da música e à respectiva promoção. É como uma linha de montagem, onde todas as decisões resultam de uma análise puramente técnica e comercial. Fecha-se o espaço à arte e ao rasgo e traçam-se fronteiras de forma e conteúdo. Tudo soa ao mesmo. No fim de contas, "arte" é coisa que ali não mora e o "artista" pouco tem a ver com o processo, a não ser dar a cara para o público.

Os Wham!, por outro lado, eram um produto saído somente da cabeça de George Michael. George era o mentor, cantor, compositor e o produtor da banda e ainda tocava múltiplos instrumentos nos discos (tudo isto quando tinha pouco mais que 20 anos).  Andrew Ridgeley, o outro membro do duo, estava lá apenas para atrair uma faixa etária mais velha e tirando o apoio moral, ainda hoje se está para saber o que fazia Andrew exactamente nos Wham! (a sua guitarra nem sequer era ligada nos concertos).

É certo que os Wham! tinham uma forte componente de imagem, mas também os Beatles a tinham no início de carreira, durante o auge da Beatlemania. E os Wham! não soavam como nada do que havia em 1983 no Reino Unido. Num panorama Pop onde despontavam os Duran Duran na New Wave e os Culture Club no Reggae, os Wham! faziam música Disco com toques de Soul; quanto muito, soavam como a Motown. Era música negra americana dos 70, para um público branco britânico dos anos 80. George Michael foi, aliás, sozinho, a Motown britânica dos anos 80; numa altura em que a própria Motown estava moribunda, sobrevivendo à tona de água apenas com artistas como Lionel Ritchie e Stevie Wonder. Mas se a nossa sociedade aceita pacificamente que Stevie Wonder é um génio (é mesmo), então por que raio tanto desdém pelos Wham!?

"Isso é música de paneleiros" é a minha justificação preferida. Então e o Freddie Mercury, não é "paneleiro" também? E não é o melhor de sempre? Então não podemos ouvir a música do senhor porque ele gosta de dormir com cavalheiros? Não me faz muito sentido.
"Isso é piroso", dizem-me. Certo. Então e alguém sairia à rua com as roupas roxas que o Prince usava? E o David Bowie? Um foleiro. Não vamos gostar de nenhum deles? Também não me parece válido.
"Eu não gosto da música, nem sou obrigado a gostar". Claro que não, mas expliquem-me, como é que podem não ficar contagiados por temas como "Club Tropicana", "I'm Your Man" ou "Freedom" e ser arrebatados com uma urgência de saltar para a pista de dança? Não? Nada? Então o melhor é verem isso com o médico, porque o sangue que vos corre nas veias está prestes a gelar.

Não tenham medo de gostar dos Wham! e muito menos tenham medo de admitir que gostam. A sério, vão ver que é "Fantastic" e não dói nada.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O dia negro do Rock In Rio



Em 12 anos de Rock In Rio em Lisboa já tivemos cartazes para todos os gostos. Tivemos Pop com Britney, Shakira a Ivete, tivemos Heavy Metal com Metallica, Slipknot e Rammstein e às vezes até tivemos Rock. Todos os cartazes foram diferentes mas todos tiveram uma coisa em comum: eram artista de Classe A; artistas que eram à data, ou foram em tempos, no topo do mundo.

Podemos gostar ou não, mas desde os Tokio Hotel até ao Roger Waters (dando exemplos em pólos opostos), os cabeças de cartaz sempre foram de indubitável craveira.  Então expliquem-me, o que raio estão a fazer aqui os Hollywood Vampires como cabeça de cartaz? Joe Perry? Óptimo, que traga os Aerosmith. Alice Cooper? Maravilha, que traga as suas cobras. Johnny Depp? Porreiro, que venha apresentar o seu novo filme ao CCB. Os três juntos a tocar covers? Ok, se viessem abrir para Black Sabbath, Metallica ou Guns. Assim, qual é a ideia? Não faz sentido.

Já não bastava a redução de 5/6 bandas por dia para 3 (o musical não é para o Palco Mundo, lamento) e agora temos bandas de covers como cabeças de cartaz? O RiR Lisboa não merecia isto. Roberta, adoro-te por me teres trazido o Bruce Springsteen (e sei que qualquer coisa depois dele iria saber a pouco), mas o Rock In Rio que tão bem construíste não merecia isto. Nada contra os Hollywood Vampires e muito menos contra o Alice, o Joe, ou o Johnny. Mas nunca como headliners. Sem surpresa, foi ver durante a última semana o desfilar de bilhetes vendidos nas redes sociais a preços recorde. Ontem era mais caro jantar dentro do Rock In Rio, do que entrar no Rock In Rio.

Apesar das reservas, a noite até começou com uma agradável surpresa, com os Rival Sons — "We don't play Rock, we play Rock N' Roll". E deram mesmo um grande concerto de Rock N' Roll, pleno de decibéis. Bom início de noite.

Depois vinha a banda por que a maioria esperava — bastava olhar para as t-shirts espalhadas por todo o lado — os Korn. Nos idos finais dos anos 90, vivia-se no pico do Nu Metal, numa altura em que toda a gente gostava de Limp Bizkit, ouvir Korn era uma valência reservada aos puros. E só os puros que restaram vieram aqui hoje (alguns trouxeram os filhos). Tal não quer dizer que fossem poucos — mais de 50 mil segundo a organização. Mas foi aqui que vieram os problemas. Depois de duas falsas partidas devido a falhas de equipamento, os Korn começam finalmente o concerto com uma hora e dez minutos de atraso. A loucura. Copos de cerveja a voar, sofás insufláveis a voar, metaleiros a voar, metaleiros em cima de sofás insufláveis a voar. Os Korn tocam 25 minutos e quando faziam um cover de "One" dos Metallica, dá-se a terceira falha eléctrica e abandonam em definitivo o festival. Acabou por ser o momento mais Rock N' Roll do Rock In Rio, desde que o Axl fez do palco o seu próprio confessionário em 2001. Quem disse que falta Rock ao Rock In Rio?

As culpas foram imputadas ao equipamento dos Korn e eu até acredito que assim foi, mas como é que a produção pode permitir que isto aconteça, uma, duas e três vezes? Ainda mais num festival como o Rock In Rio, que sempre se pautou como um exemplo de organização com uma folha limpa neste tipo de falhas? Não quero bater mais na produção do RiR, já o fiz com a escolha pobre do cartaz deste dia, mas é preciso perceber que os metaleiros (fiéis ao RiR desde a primeira hora) foram muito mal tratados este ano. E é preciso emendar a mão de alguma forma. Dica: um dia especial lá para o fim do Verão com os Sabbath e os Guns (eu sei, isto já sou eu a ser guloso).

O fim da noite foi salvo pelos inatacáveis Alice Cooper e Joe Perry. E, por que não, pelo Matt Sorum (ex-Guns) na bateria — que bom que foi revê-lo. Ah e também lá estava o Johnny Depp, que está para os Hollywood Vampires como o Andrew Ridgeley estava para os Wham! — para acenar às meninas. O público começou desconfiado, a mostrar alguma resistência, mas quando Joe Perry fez de Pete Townshend e partiu a guitarra em "My Generation", a corrente começou a mudar. E ficou definitivamente rendido quando os Vampires arrancaram com "Whole Lotta Love" dos Led Zeppelin e depois com "Break On Through (Through The Other Side)" dos The Doors. Seguiu-se um agressivo mosh em "Rebel Rebel" (Bowie ficaria orgulhoso), para a audiência despejar aquela energia acumulada em Korn. O momento da noite chegaria quando Alice interpretou Alice, com "I'm Eighteen" (a fazer lembrar "Freaks And Geeks) e "School's Out". Os Hollywood Vampires podem ser uma mera banda de covers de bar, mas são provavelmente a melhor mera banda de covers de bar do Mundo. O único problema é que a seguir a eles não veio o headliner que se pedia.

domingo, 22 de maio de 2016

Queen+ Adam Lambert: um amor cego e por vezes surdo

O concerto de Queen+ Adam Lambert no segundo dia do Rock In Rio 2016
(imagem roubada ao SAPO)

Nos primeiros tempos da internet, quando devorava toda a informação online sobre os Queen, li uma review do concerto do Brian May no Dramático de Cascais em 1993, onde o cronista se mostrava surpreendido com a quantidade de miúdos que tinham ido ver o guitarrista de uma banda defunta há mais de dois anos e que sabiam todas as letras de trás para a frente. Vinte e três anos mais tarde, sou eu a escrever a crónica de um concerto do Brian e o que posso dizer é que fiquei perplexo com a quantidade de miúdos (e miúdas) no Parque da Bela Vista, que gritaram em volume máximo todos os êxitos dos Queen.

Mas qual é a surpresa? Com a idade deles, também eu já sabia tudo de cor. A diferença é que a minha geração, sem ter vivido o período áureo dos Queen, viveu a morte de Freddie Mercury — um acontecimento que abalou o mundo — e a subsequente febre pelos Queen. A nova geração não viveu nada disso, são um produto totalmente pós-Freddie e mesmo assim são doidos pelas músicas. Como explicar, então, este fenómeno?

A explicação é fácil: não há banda que passe tanto na rádio generalista em Portugal, como os Queen. Quantos êxitos dos Queen é que conseguem enumerar de cabeça? Se já sintonizaram uma rádio portuguesa, conseguem facilmente chegar a pelo menos 20. É por isso fácil entender que nenhuma banda "clássica" tenha níveis de popularidade na geração mais nova como os Queen.

A vinda dos Queen+ Adam Lambert era por isso uma aposta ganha à partida pelo Rock In Rio. Ou será que era mesmo? O concerto com Paul Rodgers em 2005 não foi muito bem recebido e os cépticos cedo se apressaram a relembrar essa desilusão. Mas ontem à saída da Bela Vista, era difícil encontrar opiniões desfavoráveis. Essa aparente unanimidade deixou-me, confesso, confuso.

Não me levem a mal, eu gostei do concerto. Amo as canções e o amor é cego e às vezes surdo (só assim se explica a insistência em colocar gatos estrangulados a cantar o "Somebody To Love" no palco do karaoke). Também gostei do Adam Lambert. É impossível não gostar dele. O miúdo tem um vozeirão, sabe-se mexer num palco e vê-se que tem um respeito bíblico pela música dos Queen e pelo próprio Freddie Mercury, esclarecendo logo à partida que só há um Freddie e que ele está apenas a fazer a sua interpretação dos escritos sagrados. Mas é aqui que começa o meu problema com Adam: ele tanto tenta emular Freddie naquele registo Ídolos, que a sua interpretação se torna por vezes exagerada, risível, quase a roçar a paródia. Especialmente quando carrega nos agudos, alturas em que mais parece estar a prestar provas para um musical ou um bar de karaoke. O miúdo é bom, mas peca pela falta de personalidade própria.

Curiosamente, foi este o principal pecado de Paul Rodgers com os Queen: excesso de cunho pessoal nas canções que todos conheciam. Soava estranho. Q+PR era uma entidade bizarra, mas tinha uma alma própria e independente. O que vimos no Rock In Rio com Q+AL não é nada mais que uma banda de tributo aos Queen com dois membros da banda original (mais o Spike Edney, que acompanha os Queen desde 1984). E no entanto, o público adorou.

É isto que é preciso entender: mais do que Adam, mais do que Brian e Roger e até mais do que Freddie, as pessoas amam as canções dos Queen. É um legado gigantesco, opulento e diversificado de 18 anos, entre 73 e 91, que em 2016,  25 anos depois do término, continua forte como nunca. Ouvir a loucura da gente nova em "Don't Stop Me Now" (injectada pelo uso na publicidade) é perceber que não há nenhum (nem um!) hit internacional nos últimos anos com o mesmo impacto em solo português que um tema de um álbum obscuro dos Queen de 1978 com o título enganador de "Jazz" (numa altura em que a banda começava a perder o poder de fogo, obrigando-se a uma reinvenção da sua sonoridade no álbum seguinte "The Game"). É incrível. O amor é mesmo cego.

Para mim, soube a pouco. Queria ter ouvido o "'39" no set acústico, queria um "Too Much Love Will Kill You" com Brian na voz (o tema foi originalmente um êxito a solo para Brian) e mais que tudo, queria o "I'm In Love With My Car" com Roger Taylor na bateria e na voz ao mesmo tempo, como nos concertos de 2005. Queria mais Brian e mais Roger.
Contudo, o maior crime da noite foi mesmo o cruel estrangulamento do solo de Brian May em "Crazy Little Thing Called Love", o ponto álbum do lendário concerto de Wembley e — porquê ter medo das palavras? — da História da humanidade em geral.
Em suma, foi bom, foi respeitoso para com Freddie, os fãs gostaram, a Roberta ganhou a aposta em trazer os Q+AL, mas foi pouco arrojado, teve pouca personalidade e podia ter sido muito melhor. Ao contrário da lendária actuação dos Queen no primeiro Rock In Rio em 1985, esta não ficará para a História, mas no fim de contas, eu diverti-me e os outros 74 mil, também.