quinta-feira, 7 de abril de 2016

Sonhos da Califórnia

A roadtrip, a solidão do volante e a lenda que fica

Porquê fazer uma roadtrip? Olhamos à nossa volta e temos sempre aquele amigo que recusa o Algarve, em favor de uma destas viagens no âmbito do insano. Doido, este gajo. Não são as férias um tempo para descansar? Tiramos 5 dias para fugir ao inferno da empresa e vamos fazer 3 000 kms em estradas desconhecidas, a conduzir um carro que não é o nosso, a puxar o corpo aos limites e a correr riscos que evitamos na nossa vida mundana? Todo o tempo da nossa vida que perdemos parados em semáforos, não será ele suficiente?

Quando se trata da clássica roadtrip pela Costa Vicentina, o pior que nos pode acontecer é ter que chamar a Assistência em Viagem e regressar a casa mais cedo com um taxista fala-barato do Sporting, que passa duas horas a queixar-se das arbitragens. É chato, sim, mas o risco é controlado. Mas quando se viaja para o outro lado do mundo para se fazer milhares de quilómetros no deserto, por vezes de noite, por vezes sozinho, por vezes a desafiar a capacidade do depósito e a própria segurança, qual é a motivação? Chegar ao destino? Ver os sunsets? Contar aos amigos? Não, não e não. Não para mim. Para mim, são os quilómetros.

Para mim, são as horas ao volante, fazer quilómetros e mais quilómetros a pensar na puta da vida. É na solidão do volante que eu procuro respostas aos meus anseios. Voei de Lisboa para o Canadá, conduzi até Nova Iorque, voei novamente para Los Angeles para ver 4 concertos (essa história fica para outro dia), mas o ponto alto da minha viagem foi quando me deram o Jeep para as mãos e eu lhe fiz milhares de milhas de rodagem. À estrada batida com o Jeep, às ansiedades ali rogadas, o volante retribuiu-me com o conforto que só uma máquina solitária, cega, surda e muda pode oferecer.

Fazer-me à estrada em São Francisco – com destino a Las Vegas – só com um mapa ao lado. GPS? Para meninos. Ligar o rádio, sintonizar numa qualquer estação Rock da Southern California e viajar nas ondas FM. Toca Tom Petty música da estrada; tocam os Fleetwood Mac música a cheirar a Califórnia; tocam os Eagles, já estamos no deserto. O cenário lá fora é ermo, estão 35º e um nada infinito rodeia-me. Saí da Interstate e aventurei-me por uma estrada secundária. Esta ainda vem no mapa, vou cortar para este caminho não cartografado e ver onde me leva. Aqui já não há rede nenhuma, nem de telemóvel, nem de planificação, nem de segurança, nada. Estou entregue a mim mesmo e a uma rádio californiana. A última bomba de gasolina foi há mais de 100 milhas, o depósito já não vai para cheio e não há vestígios de vida à minha volta. A água já canta como o cisne. Sobra uma Coca-Cola quente, a marinar há 3 horas no sol do deserto (é, literalmente, a última Coca-Cola do deserto). Na rádio tocam os Eagles outra vez. Sinto que estou a ter um momento para a eternidade.

A escolha da música numa roadtrip é mais importante que a escolha do carro e do motel. A soma da banda sonora e da paisagem lá fora é o que faz a viagem, é o que fica para sempre. Desde que voltei, sou propositadamente perseguido pela banda sonora das minhas férias. No banho, a fazer a A5 para o trabalho, sentado à secretária, só toca a playlist das minhas férias. Ouço o Tom Petty e lá vou eu automaticamente teleportado para o deserto de Mojave, perdido entre a Interstate e o Zabriskie Point. Estou de volta à Califórnia, a ouvir Guns na Sunset Boulevard ao volante do meu Jeep, meu companheiro de viagem que abandonei cruelmente no rent-a-car do aeroporto LAX.

No fim, a roadtrip ganha contornos de lenda, marca a nossa existência como Jesus Cristo marcou o calendário gregoriano e o tempo começa a contar em anos antes da roadtrip e anos depois da roadtrip. A lenda vive e a chuva que se abate teimosa e castigadora sobre Lisboa só me traz sonhos da Califórnia. Tal como o tema dos Mamas And The Papas, mal fecho os olhos, sinto-me seguro e quentinho –  "California dreaming, on such a winter's day." E daqui a 10 anos, quando "Mary Jane's Last Dance" voltar a rebentar nas colunas, os quilómetros voltarão a passar a milhas e aí poderei contar a lenda da roadtrip na Califórnia aos meus filhos, sentados no banco de trás do meu Jeep.

terça-feira, 8 de março de 2016

A morte da minha noite

O fecho anunciado do Jamaica, do Tokyo e do Europa marca o fim de uma era. Mas não tem que ser assim.

O fecho anunciado do Jamaica, do Tokyo e do Europa marca o fim de uma era na noite lisboeta. Mais do que isso, para mim, esta notícia significa a morte de parte da minha noite. Consta que ali nascerá um hotel. Mais um. É a política da terra queimada, da cegueira do lucro imediato. Acentua-se a gentrificação, a Lisboa para os lisboetas desaparece, nasce a Lisboa para os turistas, sem que ninguém se aperceba do paradoxo criado com o desaparecimento dos motivos que trazem os turistas à nossa cidade. Mas não tem que ser assim.

É óbvio que o edifício, como está, não pode continuar. O prédio está devoluto e os próprios bares já tiveram que financiar inúmeras obras de recuperação para continuarem a funcionar. A este cenário corresponde a aplicação de rendas ridículas, desadequadas ao valor actual da propriedade, que os bares facturam em poucas horas numa qualquer sexta-feira à noite. Mas é preciso lembrar que no espaço onde hoje jaz ouro, há não muitos anos morava um buraco infestado de ratos, baratas e prostituição barata. Se o espaço valorizou para o que hoje conhecemos, muito se deve ao funcionamento destes bares que atraíram multidões, tornaram-se ícones da noite de Lisboa e agora, em pleno auge, são obrigados a fechar. Não faz sentido.

Não se trata de advogar pela nacionalização o prédio. A conjuntura cultural de Lisboa ofereceu aos donos do edifício uma pedra preciosa e não há mal nenhum em aproveitar isso. Mas não a qualquer preço. O Planeamento Urbano existe e por alguma razão não se pode comprar os Jerónimos e fazer daquilo um hotel. Os bares do Cais do Sodré são (hoje, mais do que nunca) um ícone da cidade de Lisboa e devem ser protegidos como tal. Porra, o Jamaica está aberto há 45 anos! Os meus pais frequentaram o espaço e eu já sou cliente há mais de dez, muito antes do rosa cosmopolita. E acreditem, se há quem tem razões de queixa, esse sou eu, que sempre tive uma relação particularmente complicada com os porteiros do Jamaica. Fun story: sabem por que a retrete da casa de banho dos homens do Jamaica já não tem porta há 2 ou 3 anos? Porque um dos seguranças (o "Vin Diesel") a arrombou enquanto eu estava lá dentro. Nunca mais foi posta no sítio.

As obras são inevitáveis. Devem recolocar a porta e reconstruir o restante edifício, sim, mas englobando os estabelecimentos que ali funcionam há mais de 40 anos. Sem eles, o Cais do Sodré perde a sua identidade. Por falar em identidade, estou também curioso para ver o Projecto do novo hotel que vai nascer. Estou para ver se vão recuperar a fachada característica lisboeta ou se vai brotar dali um monstro de 20 andares espelhado e ultra-moderno a la Sana Evolution do Saldanha, que é tudo o que aquele espaço não precisa (dou de barato a questão de se permitir construir hotéis furiosamente e em tudo o que é esquina, expulsando as pessoas para fora da cidade; isso é outra discussão). Querem saber como se agrada a todos? Recuperem o edifício, deixem os bares onde estão, façam o lobby do hotel na Rua do Alecrim e o espaço funciona daí para cima. Deixam toda a gente satisfeita e respeita-se a cultura da cidade. Não têm de quê.

A Câmara pode (e deve) intervir para a manutenção dos bares, sem prejuízo para nenhuma das partes. Se matam a cidade, no fim vão-se embora os turistas, fecham os hotéis e os prédios voltam a ser vetados ao abandono. O que virá a seguir? O Roterdão? O Liverpool? O Incógnito? Ou, medo, o Plateau?! Não me matem a noite, por favor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A música divinal de George Harrison

Recordar o Quiet Beatle no dia em que faria 73 anos. Hare Krishna.


Adoro o George Harrison. Ele pode até ter sido o "Quiet Beatle", contido e discreto, mas carregava consigo uma aura sem paralelo. Talvez devido à sua devoção espiritual, talvez devido às influências indianas, há qualquer coisa em George de único, que eleva a sua música para um patamar de apreciação quase-metafísico. Esta sensação enche-nos particularmente no seu épico álbum de estreia a solo "All Things Must Pass" (1970). Sim, eu sei que é arriscado falar de música nestes termos, mas se me lêem há mais de duas crónicas, já devem estar habituados ao uso dos superlativos.

De tudo o que já me foi dado a ouvir ao longo da vida, o álbum "All Things Must Pass" é o produto musical mais merecedor de honras de canonização. E se acham que estou a ser leviano ao trazer assuntos eclesiásticos para uma crónica musical, desenganem-se, que eu levo a música religiosamente a sério. O álbum agarra-nos pelo pescoço e ali nos segura, esmagados e subjugados pela beleza da música, até à exaustão. Isto não é música para relaxamento, é música para purificação, pura e simples. Se o conceito de música divinal existe, então é disto que se trata.

"All Things Must Pass" é um álbum duplo, que resulta de uma gigantesca pilha de temas que George tinha deixado de lado ao longo do seu tempo nos Beatles, onde estava limitado a uma pequena quota por cada álbum. Dos poucos que conseguiu meter nos álbuns, apenas "Something" chegou a single e só em 1969 – ano de despedida da banda. Temos que ter em conta que os Beatles eram fundamentalmente a banda de Lennon e McCartney... onde Harrison também tocava. Os seus momentos de protagonismo ali foram efémeros e mais concentrados na fase final, quando a sua escrita melhorou exponencialmente com temas como "Something", "Here Comes The Sun", ou "While My Guitar Gently Weeps".

Este domínio de John e Paul (principalmente de Paul que, não por acaso, era chamado de "Bossy Beatle") ficou bem demonstrado no filme "Let It Be" e na discussão entre Paul e George (https://www.youtube.com/watch?v=IJQx9-GXAic) em frente às câmaras, durante os ensaios para "Maxwell Silver Hammer" ("eu toco o que tu quiseres que eu toque e se não quiseres que eu toque nada, eu não toco nada"). Farto de ser subjugado pelos seus colegas, George saiu furioso do estúdio e foi para casa escrever "Wah-Wah", tema que mais tarde seria também incluído em "All Things Must Pass".

Eu disse que "All Things Must Pass" era um álbum duplo? Esqueçam lá isso. É sim um álbum triplo, se contarmos com o disco bónus "Apple Jams", incluído na caixa de LPs original. A quantidade de material que George Harrison tinha acumulado para o seu primeiro álbum (não conto com os seus álbuns experimentais dos anos 60, objectos de mera curiosidade) era tão grande que deixou o produtor Phil Spector em choque. À medida que George sacava de mais e mais temas que tinha empilhados dos tempos dos Beatles, Spector apercebeu-se que George tinha em mãos um filão colossal e que a grande dificuldade estaria em fazer uma triagem de tudo aquilo. O resultado, construído à imagem da estética "Wall Of Sound" arquitectada por Spector, acabou por ser um álbum que rivaliza com as alturas babilónicas atingidas pelos Beatles; uma obra épica e majestosa, de uma grandiosidade que nos esmaga os sentidos, ao mesmo tempo que os mima.

Acho que já esgotei os superlativos. Agora vão ouvir o "All Things Must Pass" e deixem que o George mude a vossa vida. A minha mudou de certeza.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A miúda que decifrou o puzzle

O fim do meu Groundhog Day


Perdoem-me a petulância, mas achei este Dia dos Namorados uma grande banhada. Não é um pensamento novo, mas se no passado o motivo do soslaio era comum à maioria dos que detestam o Dia de S. Valentim (estava solteiro), agora as minhas razões são outras. Celebração do amor? Mas qual amor? Alguém sabe o que isso é?

Não me levem a mal, não quero negar o amor de ninguém. Todas as formas são válidas, desde que ao abrigo da lei e até algumas que (ainda) não estão reconhecidas têm o meu apoio (não é disso que eu estou a falar, R Kelly). Amem-se à vontade. Amem-se bués. Amem-se à bruta. Se vos pergunto se sabem o que isso é, é porque tudo à minha volta parece menor, quando comparado com este sentimento esmagador que se abateu sobre mim sem dó nem piedade. Não sei explicar isto. É como se o Benfica ganhasse todos os dias. É como se o Jonas fizesse golo sempre que ela se ri. É como se eu fosse uma panela de pressão que só alivia quando lhe digo que a amo. É como os Pink Floyd: gigante e impossível de categorizar. Não há aqui lugares-comuns, só há os lugares do meu mundo que melhor se adequam ao que sinto. Falo com o que conheço.

O que é que isto tem a ver com música? Como tudo na minha vida, tudo começou com uma música (que ficará em segredo). Depois dessa música, deu-se início ao meu Groundhog Day, pleno de caos, equívocos e hedonismo. Mas não é essa a estória que vos trago. Vou fazer fast-forward para o capítulo mais interessante e contar-vos como se resolveu o enigma do dia em time loop. Mais uma vez, tudo começou com uma (outra) música. Dizia o Rui Veloso que "não se ama alguém que não ouve a mesma canção", mas ninguém leva isso mais a sério que eu.

Não quero nem me atrevo a dissertar sobre o que motiva amar alguém. Mas será pacífico admitir vários estádios desse sentimento, desde a faísca do primeiro olhar, até ao clique mágico que nos deixa 'head over heels'. O meu clique deu-se quando ela decifrou uma música eu tinha na cabeça. Assim, that simple. Teimosa, a música martelou-me durante semanas a fio, sem que eu soubesse título, letra, ou artista. Sabia apenas trautear um refrão em nananas (devo aqui abrir este parêntesis para dizer que sou um Shazam a reconhecer música). Era por isso uma missão impossível. E no entanto, quando eu lhe trauteei a melodia que me perseguia, ela chegou, ouviu e identificou: "Tonight", Bryan Adams. O clique.
Era difícil ser mais foleiro, bem sei. Se me tivesse sido dado a escolher, teria matutado um tema obscuro do David Bowie, ou um Lado B dos The Smiths. Mas a vida não espera pelo lance da nota artística e decidiu resolver a contenda com um minor hit dos anos 80. Naquele momento, tive a certeza que era ela quem eu procurava. Se esta miúda era capaz de decifrar os puzzles da minha mente, era tudo o que eu queria.

Como explicar os mistérios do amor, quando é nas coisas mais simples que ele se descobre? Quando as peças se juntaram naquele clique, ficou tudo tão claro, tão nítido. Porra. Como é que eu perdi tanto tempo? Foi como se tivesse desperdiçado todos os dias desde que a conheci. Como se tivesse vivido o mesmo dia, repetido e cinzento, num Groundhog Day em time loop até que tudo se encaixasse no lugar certo. Quando ela decifrou o puzzle, eu pude finalmente acordar para um novo dia; com uma vista ainda melhor do que o Bill Murray para a Andie McDowell. E assim, um amor que começou confuso e desconfiado, transformou-se num furacão de loucura, paixão e desejo de mais e mais e mais, porque tudo nunca é demais. Tudo por causa de uma música. Sabem o que isso é?

sábado, 30 de janeiro de 2016

A apologia de Phil Collins — Uma reapreciação

Phil Collins faz hoje 65 anos e reedita a sua discografia a solo. Tempo para uma reapreciação.



Durante toda a minha infância, eu cresci rodeado de Phil Collins. Começando pela música que se ouvia em casa, espólio do meu Pai, passando pela rádio, lesta a passar os êxitos de Phil e dos Genesis, até às inúmeras colaborações de Phil com artistas de nomeada. Phil esteve no Live Aid, no Band Aid, nos concertos do Prince's Trust, tocou com Eric Clapton, Elton John, George Harrison, Sting, Mark Knopfler (Dire Straits), Robert Plant (Led Zeppelin), Peter Gabriel (já lá vamos) e isto sem ter que sequer recorrer ao Google. Phil estava em todo o lado. Ele era "o" baterista de referência. Se havia uma superbanda, ele estava lá, ter Phil era sinónimo de qualidade. Foi assim que eu cresci com ele, como um tio não muito afastado, cuja presença era instantaneamente reconhecível e reconfortante.

Qual não é o meu espanto, quando começo a ganhar consciência da cultura popular e me apercebo que Phil Collins é, afinal, o músico mais odiado do Mundo. Um baterista prodigioso, dono de um sentido rítmico e melódico único, com qualidade reconhecida por uma lista infindável de outros artistas é, afinal, uma valente merda. Os próprios artistas que em tempos trabalharam com ele já lhe viravam as costas com medo que as nuvens negras que o atormentavam fossem contagiosas. A opinião pública foi de tal forma intoxicada que as gerações que estiveram expostas apenas à arvore das baladas marteladas diariamente na rádio, se apressam a desqualificar à partida o trabalho de Phil Collins. Eu, que sou um privilegiado por conhecer a floresta de toda a sua obra, não caio nessa armadilha.

Eu entendo que a ubiquidade de Phil durante duas décadas tenha saturado o público. Claro que entendo. Quantas vezes não vemos as canções que gostamos serem usadas e abusadas pela rádio, televisão e publicidade, numa repetição violadora que as despe de significado? Olhem para o que estão a fazer ao "Don't Stop Me Now" dos Queen. É indigno. Experimentem dizer "cadeira" 100 vezes consecutivas. À vigésima, já nem se lembram para que serve. Mas se entendo a saturação, não compreendo a radicalização das opiniões aos extremos do ódio e do escárnio. Acima de tudo, não é justo.

Agora que Phil Collins faz 65 anos e vai reeditar os seus álbuns a solo, é tempo de fazer uma reapreciação a Phil e dar-lhe o devido reconhecimento. Os seus skills na bateria são inatacáveis (ouçam "The Musical Box" ou "Fountain Of Salmacis" dos Genesis, se quiserem ser esclarecidos acerca deste assunto), mas dizer que Phil Collins foi um dos melhores bateristas da sua geração é redutor para descrever o seu impacto como artista. Em 1979, quando Peter Gabriel procurava uma sonoridade nova para a bateria no seu 3º álbum a solo ("Melt"), foi buscar Phil Collins, pois claro. Phil e Peter, juntamente com os produtores Hugh Padgham e Steve Lilywhite, foram responsáveis por um estilo de bateria que marcaria toda a música nos anos 80: o "gated drum" e a ausência de pratos. A estreia desta sonoridade foi em "Intruder" de Peter Gabriel, mas foi com "In The Air Tonight" que se celebrizou. A impressão digital de Collins ficou então espalhada por todas a música que se ouvia.

Uma das críticas que é comum ouvir a Phil é a sua suposta plasticidade. Ora, os seus álbuns a solo são plenos de sentimento e de raiva. São reais. Talvez não todos, é certo. Eu próprio sinto que quando Phil deixou os Genesis em 1991, perdeu algum contacto com a realidade. Phil passou a ser um artista circunscrito e aborrecido e os seus álbuns seguintes pareciam mostrar isso. Mas ouçam os seu dois primeiros álbuns — "Face Value" e "Hello... I Must Be Going" — escritos na ressaca de um divórcio e verão que ele é a sério.

Só há uma coisa que a imprensa gosta mais que a ascensão de uma estrela, é a sua queda. A queda de Phil já durou tempo suficiente, atirou-o para uma depressão e por pouco não lhe tirou a vida. É tempo de lhe dar um abraço e agradecer-lhe tudo de bom que nos deu. Se fazem parte do grupo dos incautos que desconhece a floresta da obra de Phil, abram a mente e atrevam-se a dar uma espreitadela na playlist. Pode ser que se surpreendam.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

"Prova um pouco disto, vai mostrar-te onde estás. Ou pelo menos vai ajudar-te a sentir"

Bruce Springsteen vem ao Rock In Rio 2016. Como foi da última vez?



Rejubilem. Bruce Springsteen voltará a Portugal em Maio, 4 anos depois do seu último concerto no Rock In Rio Lisboa e 2 anos depois do cameo em "Tumbling Dice" com os Stones. A reacção nas redes sociais foi forte e outra coisa não seria de esperar. Não há outro artista a quem eu já tenha visto tamanha devoção, como a Bruce Springsteen. As pessoas não amam só a música dele, as pessoas amam o homem; amam-no incondicionalmente e seguem-no para todo o lado, como se de uma religião se tratasse. São décadas disto. Eu falo à vontade do assunto, porque eu próprio sou um devoto (planeio vê-lo 3 vezes este ano: LA, Lisboa e Madrid). E Bruce retribui essa devoção ao vivo, despejando o depósito noite após noite.

Para quem nunca o viu ao vivo, para quem nunca "sentiu", toda esta divagação pode soar estranha e exagerada. "É só um gajo a cantar!", disse-me uma vez um radialista céptico. Negativo. É muito mais que isso. Mas só se compreende estando lá, não há volta a dar. Agora que ele vem "cá" outra vez, a melhor forma para lançar o novo concerto é recordar o que escrevi poucas horas depois do fim do último, ainda de sobremaneira afectado pelo êxtase e pela falta de sono. Aqui vai:

Nota prévia: Se não estão preparados para (mais) um texto cheio de superlativos e loas a Bruce Springsteen, devem abandonar desde já este espaço. Aqui sempre se adorou, adora-se e vai continuar a adorar-se o Boss.

Segunda nota prévia: Por volta das 21:30 de ontem, a meio do concerto dos James no Palco Mundo, Tim Booth deu o mote para o que se passaria umas horas mais tarde. No alto daquele ar pálido de ex-presidiário em tentativa de reinserção na sociedade, Tim contou uma história que terá marcado o fim da sua adolescência rebelde:

"I was a 16 years old punk rocker, all my role models were self destructive. I was into the Sex Pistols and Iggy Pop and a 100 other tortured artists who wished to come on stage and cut themselves for people's entertainment.
And then... when I was 17, a friend of mine bought me a ticket to see a concert in Birmingham. I didn't wanna go, because I didn't like the guy's music. And they dragged me along to this guy's concert and after the 3rd song, I was standing up with the biggest smile on my face. That was Bruce Springsteen & The E Street Band.
They showed me another kind of artist that doesn't have to burn himself out... That doesn't have to cut themself for people's entertainment. They showed me a new way of being onstage. So, it's a great pleasure to be here this evening, with you and with them.
We need more role models like Bruce Springsteen. I needed one."

Bruce Springsteen & The E Street Band ao vivo, como uma "life changing experience", onde é que eu já ouvi isto? É uma história cujos contornos são comuns a milhares de pessoas em todo o Mundo e que ontem foi partilhada por muitas mais. Depois do espectáculo sensaborão de Alvalade em 1993 com a Other Band (sim, a "outra" banda de Bruce foi mesmo baptizada desta forma imaginativa), havia uma clara onda descrente em relação ao Boss no nosso país. Até ontem. Ou melhor, até hoje, porque o Boss demorou a chegar e quando entrou no Palco Mundo do RiR, já passava das 0:00 de 4 de Junho de 2012.

Bruce demorou, mas quando chegou, não defraudou as expectativas e deu aquele que foi (para mim) o melhor (e mais longo?) concerto do festival. Foi mais que um concerto, foi uma experiência. Vou ter que escrever qualquer coisa sobre o que presenciei, mas não sei ao certo o quê, uma vez que ainda estou em êxtase pós-orgásmico. Por onde começar?
Foram 2 horas e meia de masturbação emocional colectiva. Um turbilhão de emoções. Milhares de vidas que nunca mais serão as mesmas. Porque a partir de ontem, para essas pessoas houve qualquer coisa "lá dentro" que mudou, uma paixão que acordou. Foi assim que aconteceu com Tim Booth na sua juventude, foi assim que aconteceu com o meu melhor amigo que, tal como Tim, também eu "arrastei" para o concerto de ontem. E tal como Tim, também ele deu por si com um sorriso idiota na cara ao fim do 3º tema. São muitos anos a arrancar sorrisos a carrancudos.

Desde as 2:30 de hoje, hora que arrancaram Bruce do palco com fogo-de-artifício, que a imprensa se rendeu e multiplicou loas ao Boss, elegendo a sua actuação como o ponto alto do Rock In Rio 2012. Mas não só. Hoje já li críticas que vão desde "o concerto do festival", passando pelo "concerto do ano", até ao "concerto da década”. Como disse ontem Bruce, após um "Twist And Shout" já com foguetes ao fundo: "You've just experienced the legendary E Street Band!". Ninguém se pode queixar que não foi avisado. Na introdução de "Spirit In The Night" (tema de onde é retirado o título desta crónica), Bruce revelou ao que vinha :
"The E Street Band has come thousands of miles, just to be here in Lisbon tonight. And we've come here on a mission!
We're gonna bring the power! We're gonna bring the glory! We're gonna bring the fun! We're gonna stimulate your sexual organs, with the power of Rock N' Roll!
Can you feel the spirit? Can you feel the spirit now?"



E assim foi. Depois de 3 dias consecutivos de Rock In Rio, hoje estou de rastos. Sem voz, com a garganta rebentada e já não sinto pernas, pés ou costas. Estou mais morto que vivo, mas estou feliz. Com o tal sorriso idiota na cara.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Rei de Hollywood – Adeus, Glenn Frey

Take it easy, Glenn.


Não está fácil, 2016. Tínhamos tantos planos, mas começamos esta relação só com desgostos: na semana passada foi o David Bowie, ontem o Glenn Frey. Para o ouvinte mais distraído, o nome de Frey pode não soar tão familiar como o de Bowie; mas se eu falar na banda que Glenn formou com Don Henley em Hollywood, no início dos anos 70, todos reconhecerão os Eagles. Para mim, falar nos Eagles é falar em música que serviu de banda sonora cinemática a diferentes tempos, eventos e paisagens na minha vida.

Primeiro, entraram os êxitos. Entraram por meio de uma cassete com o inevitável "Best Of" que rodava incessantemente, qual martelo pneumático, no auto-rádio-auto-reverse do Lancia Dedra branco do meu Pai. Foi com o Country-Rock dos Eagles que eu percebi o conceito de "música de estrada". "Hotel California", "New Kid In Town" e "Take It Easy" pintaram paisagens e histórias dramáticas no imaginário de um miúdo sentado no banco de trás, que pouco percebia de inglês, mas que não precisava disso para interiorizar tais canções de fulgor imediato.

Depois entraram os Eagles selvagens e perigosos. Entraram muito mais tarde, quando emigrei para a Polónia durante 3 meses e os californianos foram a banda sonora da minha aventura. A música de Glenn Frey e Don Henley falava sobre Hollywood e os sonhos ingénuos pré-adultos (lembram-se?) da busca pelo sucesso, da conquista do mundo e mais além; sobre foras-da-lei irresistíveis, em viagens perigosas pelo faroeste desconhecido; sobre paixões tão fortes como bulldozers que destroem as vidas e os sonhos de todos à sua passagem. Era a música que descrevia o estado de espírito de um jovem latino a morar no sul da Polónia, com o depósito cheio de testosterona e ingenuidade e uma tábua rasa de experiência. Com os mp3 dos Eagles nos fones do novinho Creative (lembram-se?), eu era o "King Of Hollywood".

Depois voltei à realidade e entrou o resto da discografia. Descobri a ressaca e a perda do fascínio na música dos Eagles, à medida que iam caindo as minhas próprias ilusões. O que nunca caiu, foi a música da banda. Desde a cassete do meu Pai, 20 anos passaram e a mesma compilação, agora em CD, continua a passar incessantemente, agora no meu carro. Passa sempre que vejo um pôr-do-sol numa montanha lá ao fundo e me recordo das paisagens que a música pintou no imaginário do puto sentado no banco de trás do Lancia Dedra. Paisagens pintadas pelas música dos Eagles e as vozes de Don Henley e Glenn Frey.

Glenn Frey foi de Detroit para Los Angeles com um sonho e perseguiu-o ferozmente. Com Don Henley, formou uma das bandas mais velozes e vorazes dos EUA nos anos 70 (se quiserem saber mais sobre isso, leiam aqui e aqui) e a música dos Eagles não é mais do que a descrição de episódios na perseguição furiosa desse sonho. Glenn Frey viveu o sonho e tornou-se num dos reis de Hollywood.
Take it easy, Glenn (https://www.facebook.com/nuno.mm.bento/videos/1136032313081074/). Obrigado por teres dado uma banda sonora cinematográfica à minha vida e me fazeres sentir como um rei de Hollywood.