sábado, 30 de janeiro de 2016

A apologia de Phil Collins — Uma reapreciação

Phil Collins faz hoje 65 anos e reedita a sua discografia a solo. Tempo para uma reapreciação.



Durante toda a minha infância, eu cresci rodeado de Phil Collins. Começando pela música que se ouvia em casa, espólio do meu Pai, passando pela rádio, lesta a passar os êxitos de Phil e dos Genesis, até às inúmeras colaborações de Phil com artistas de nomeada. Phil esteve no Live Aid, no Band Aid, nos concertos do Prince's Trust, tocou com Eric Clapton, Elton John, George Harrison, Sting, Mark Knopfler (Dire Straits), Robert Plant (Led Zeppelin), Peter Gabriel (já lá vamos) e isto sem ter que sequer recorrer ao Google. Phil estava em todo o lado. Ele era "o" baterista de referência. Se havia uma superbanda, ele estava lá, ter Phil era sinónimo de qualidade. Foi assim que eu cresci com ele, como um tio não muito afastado, cuja presença era instantaneamente reconhecível e reconfortante.

Qual não é o meu espanto, quando começo a ganhar consciência da cultura popular e me apercebo que Phil Collins é, afinal, o músico mais odiado do Mundo. Um baterista prodigioso, dono de um sentido rítmico e melódico único, com qualidade reconhecida por uma lista infindável de outros artistas é, afinal, uma valente merda. Os próprios artistas que em tempos trabalharam com ele já lhe viravam as costas com medo que as nuvens negras que o atormentavam fossem contagiosas. A opinião pública foi de tal forma intoxicada que as gerações que estiveram expostas apenas à arvore das baladas marteladas diariamente na rádio, se apressam a desqualificar à partida o trabalho de Phil Collins. Eu, que sou um privilegiado por conhecer a floresta de toda a sua obra, não caio nessa armadilha.

Eu entendo que a ubiquidade de Phil durante duas décadas tenha saturado o público. Claro que entendo. Quantas vezes não vemos as canções que gostamos serem usadas e abusadas pela rádio, televisão e publicidade, numa repetição violadora que as despe de significado? Olhem para o que estão a fazer ao "Don't Stop Me Now" dos Queen. É indigno. Experimentem dizer "cadeira" 100 vezes consecutivas. À vigésima, já nem se lembram para que serve. Mas se entendo a saturação, não compreendo a radicalização das opiniões aos extremos do ódio e do escárnio. Acima de tudo, não é justo.

Agora que Phil Collins faz 65 anos e vai reeditar os seus álbuns a solo, é tempo de fazer uma reapreciação a Phil e dar-lhe o devido reconhecimento. Os seus skills na bateria são inatacáveis (ouçam "The Musical Box" ou "Fountain Of Salmacis" dos Genesis, se quiserem ser esclarecidos acerca deste assunto), mas dizer que Phil Collins foi um dos melhores bateristas da sua geração é redutor para descrever o seu impacto como artista. Em 1979, quando Peter Gabriel procurava uma sonoridade nova para a bateria no seu 3º álbum a solo ("Melt"), foi buscar Phil Collins, pois claro. Phil e Peter, juntamente com os produtores Hugh Padgham e Steve Lilywhite, foram responsáveis por um estilo de bateria que marcaria toda a música nos anos 80: o "gated drum" e a ausência de pratos. A estreia desta sonoridade foi em "Intruder" de Peter Gabriel, mas foi com "In The Air Tonight" que se celebrizou. A impressão digital de Collins ficou então espalhada por todas a música que se ouvia.

Uma das críticas que é comum ouvir a Phil é a sua suposta plasticidade. Ora, os seus álbuns a solo são plenos de sentimento e de raiva. São reais. Talvez não todos, é certo. Eu próprio sinto que quando Phil deixou os Genesis em 1991, perdeu algum contacto com a realidade. Phil passou a ser um artista circunscrito e aborrecido e os seus álbuns seguintes pareciam mostrar isso. Mas ouçam os seu dois primeiros álbuns — "Face Value" e "Hello... I Must Be Going" — escritos na ressaca de um divórcio e verão que ele é a sério.

Só há uma coisa que a imprensa gosta mais que a ascensão de uma estrela, é a sua queda. A queda de Phil já durou tempo suficiente, atirou-o para uma depressão e por pouco não lhe tirou a vida. É tempo de lhe dar um abraço e agradecer-lhe tudo de bom que nos deu. Se fazem parte do grupo dos incautos que desconhece a floresta da obra de Phil, abram a mente e atrevam-se a dar uma espreitadela na playlist. Pode ser que se surpreendam.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

"Prova um pouco disto, vai mostrar-te onde estás. Ou pelo menos vai ajudar-te a sentir"

Bruce Springsteen vem ao Rock In Rio 2016. Como foi da última vez?



Rejubilem. Bruce Springsteen voltará a Portugal em Maio, 4 anos depois do seu último concerto no Rock In Rio Lisboa e 2 anos depois do cameo em "Tumbling Dice" com os Stones. A reacção nas redes sociais foi forte e outra coisa não seria de esperar. Não há outro artista a quem eu já tenha visto tamanha devoção, como a Bruce Springsteen. As pessoas não amam só a música dele, as pessoas amam o homem; amam-no incondicionalmente e seguem-no para todo o lado, como se de uma religião se tratasse. São décadas disto. Eu falo à vontade do assunto, porque eu próprio sou um devoto (planeio vê-lo 3 vezes este ano: LA, Lisboa e Madrid). E Bruce retribui essa devoção ao vivo, despejando o depósito noite após noite.

Para quem nunca o viu ao vivo, para quem nunca "sentiu", toda esta divagação pode soar estranha e exagerada. "É só um gajo a cantar!", disse-me uma vez um radialista céptico. Negativo. É muito mais que isso. Mas só se compreende estando lá, não há volta a dar. Agora que ele vem "cá" outra vez, a melhor forma para lançar o novo concerto é recordar o que escrevi poucas horas depois do fim do último, ainda de sobremaneira afectado pelo êxtase e pela falta de sono. Aqui vai:

Nota prévia: Se não estão preparados para (mais) um texto cheio de superlativos e loas a Bruce Springsteen, devem abandonar desde já este espaço. Aqui sempre se adorou, adora-se e vai continuar a adorar-se o Boss.

Segunda nota prévia: Por volta das 21:30 de ontem, a meio do concerto dos James no Palco Mundo, Tim Booth deu o mote para o que se passaria umas horas mais tarde. No alto daquele ar pálido de ex-presidiário em tentativa de reinserção na sociedade, Tim contou uma história que terá marcado o fim da sua adolescência rebelde:

"I was a 16 years old punk rocker, all my role models were self destructive. I was into the Sex Pistols and Iggy Pop and a 100 other tortured artists who wished to come on stage and cut themselves for people's entertainment.
And then... when I was 17, a friend of mine bought me a ticket to see a concert in Birmingham. I didn't wanna go, because I didn't like the guy's music. And they dragged me along to this guy's concert and after the 3rd song, I was standing up with the biggest smile on my face. That was Bruce Springsteen & The E Street Band.
They showed me another kind of artist that doesn't have to burn himself out... That doesn't have to cut themself for people's entertainment. They showed me a new way of being onstage. So, it's a great pleasure to be here this evening, with you and with them.
We need more role models like Bruce Springsteen. I needed one."

Bruce Springsteen & The E Street Band ao vivo, como uma "life changing experience", onde é que eu já ouvi isto? É uma história cujos contornos são comuns a milhares de pessoas em todo o Mundo e que ontem foi partilhada por muitas mais. Depois do espectáculo sensaborão de Alvalade em 1993 com a Other Band (sim, a "outra" banda de Bruce foi mesmo baptizada desta forma imaginativa), havia uma clara onda descrente em relação ao Boss no nosso país. Até ontem. Ou melhor, até hoje, porque o Boss demorou a chegar e quando entrou no Palco Mundo do RiR, já passava das 0:00 de 4 de Junho de 2012.

Bruce demorou, mas quando chegou, não defraudou as expectativas e deu aquele que foi (para mim) o melhor (e mais longo?) concerto do festival. Foi mais que um concerto, foi uma experiência. Vou ter que escrever qualquer coisa sobre o que presenciei, mas não sei ao certo o quê, uma vez que ainda estou em êxtase pós-orgásmico. Por onde começar?
Foram 2 horas e meia de masturbação emocional colectiva. Um turbilhão de emoções. Milhares de vidas que nunca mais serão as mesmas. Porque a partir de ontem, para essas pessoas houve qualquer coisa "lá dentro" que mudou, uma paixão que acordou. Foi assim que aconteceu com Tim Booth na sua juventude, foi assim que aconteceu com o meu melhor amigo que, tal como Tim, também eu "arrastei" para o concerto de ontem. E tal como Tim, também ele deu por si com um sorriso idiota na cara ao fim do 3º tema. São muitos anos a arrancar sorrisos a carrancudos.

Desde as 2:30 de hoje, hora que arrancaram Bruce do palco com fogo-de-artifício, que a imprensa se rendeu e multiplicou loas ao Boss, elegendo a sua actuação como o ponto alto do Rock In Rio 2012. Mas não só. Hoje já li críticas que vão desde "o concerto do festival", passando pelo "concerto do ano", até ao "concerto da década”. Como disse ontem Bruce, após um "Twist And Shout" já com foguetes ao fundo: "You've just experienced the legendary E Street Band!". Ninguém se pode queixar que não foi avisado. Na introdução de "Spirit In The Night" (tema de onde é retirado o título desta crónica), Bruce revelou ao que vinha :
"The E Street Band has come thousands of miles, just to be here in Lisbon tonight. And we've come here on a mission!
We're gonna bring the power! We're gonna bring the glory! We're gonna bring the fun! We're gonna stimulate your sexual organs, with the power of Rock N' Roll!
Can you feel the spirit? Can you feel the spirit now?"



E assim foi. Depois de 3 dias consecutivos de Rock In Rio, hoje estou de rastos. Sem voz, com a garganta rebentada e já não sinto pernas, pés ou costas. Estou mais morto que vivo, mas estou feliz. Com o tal sorriso idiota na cara.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Rei de Hollywood – Adeus, Glenn Frey

Take it easy, Glenn.


Não está fácil, 2016. Tínhamos tantos planos, mas começamos esta relação só com desgostos: na semana passada foi o David Bowie, ontem o Glenn Frey. Para o ouvinte mais distraído, o nome de Frey pode não soar tão familiar como o de Bowie; mas se eu falar na banda que Glenn formou com Don Henley em Hollywood, no início dos anos 70, todos reconhecerão os Eagles. Para mim, falar nos Eagles é falar em música que serviu de banda sonora cinemática a diferentes tempos, eventos e paisagens na minha vida.

Primeiro, entraram os êxitos. Entraram por meio de uma cassete com o inevitável "Best Of" que rodava incessantemente, qual martelo pneumático, no auto-rádio-auto-reverse do Lancia Dedra branco do meu Pai. Foi com o Country-Rock dos Eagles que eu percebi o conceito de "música de estrada". "Hotel California", "New Kid In Town" e "Take It Easy" pintaram paisagens e histórias dramáticas no imaginário de um miúdo sentado no banco de trás, que pouco percebia de inglês, mas que não precisava disso para interiorizar tais canções de fulgor imediato.

Depois entraram os Eagles selvagens e perigosos. Entraram muito mais tarde, quando emigrei para a Polónia durante 3 meses e os californianos foram a banda sonora da minha aventura. A música de Glenn Frey e Don Henley falava sobre Hollywood e os sonhos ingénuos pré-adultos (lembram-se?) da busca pelo sucesso, da conquista do mundo e mais além; sobre foras-da-lei irresistíveis, em viagens perigosas pelo faroeste desconhecido; sobre paixões tão fortes como bulldozers que destroem as vidas e os sonhos de todos à sua passagem. Era a música que descrevia o estado de espírito de um jovem latino a morar no sul da Polónia, com o depósito cheio de testosterona e ingenuidade e uma tábua rasa de experiência. Com os mp3 dos Eagles nos fones do novinho Creative (lembram-se?), eu era o "King Of Hollywood".

Depois voltei à realidade e entrou o resto da discografia. Descobri a ressaca e a perda do fascínio na música dos Eagles, à medida que iam caindo as minhas próprias ilusões. O que nunca caiu, foi a música da banda. Desde a cassete do meu Pai, 20 anos passaram e a mesma compilação, agora em CD, continua a passar incessantemente, agora no meu carro. Passa sempre que vejo um pôr-do-sol numa montanha lá ao fundo e me recordo das paisagens que a música pintou no imaginário do puto sentado no banco de trás do Lancia Dedra. Paisagens pintadas pelas música dos Eagles e as vozes de Don Henley e Glenn Frey.

Glenn Frey foi de Detroit para Los Angeles com um sonho e perseguiu-o ferozmente. Com Don Henley, formou uma das bandas mais velozes e vorazes dos EUA nos anos 70 (se quiserem saber mais sobre isso, leiam aqui e aqui) e a música dos Eagles não é mais do que a descrição de episódios na perseguição furiosa desse sonho. Glenn Frey viveu o sonho e tornou-se num dos reis de Hollywood.
Take it easy, Glenn (https://www.facebook.com/nuno.mm.bento/videos/1136032313081074/). Obrigado por teres dado uma banda sonora cinematográfica à minha vida e me fazeres sentir como um rei de Hollywood.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Cinza às cinzas - Adeus, David Bowie

Para ti, David.



Vou tentar ser breve. Quem me conhece (ou tenha falado mais de uma hora comigo) sabe da importância que David Bowie tem para mim. Num momento como este, tenho ao mesmo tempo tudo e nada para escrever. Como diluir em dois parágrafos a magnitude de uma obra que definiu directamente a minha vida? Eu abro as portas do meu quotidiano à música e deixo que ela me influencie em tudo o que faço, mas poucos, ou nenhum, artista teve tanta influência em mim, na minha personalidade, como David Bowie.

Há exactamente cinco anos, obcecado com o seu álbum "Low" e com a ideia de me reinventar (quem nunca?), convenci-me que a única forma de revolucionar a minha vida seria seguir os passos de Bowie: desmanchar tudo, ir para Berlim e começar de novo. Inscrevi-me nas aulas de alemão, fui para Berlim sozinho duas semanas e estive a um pequeno passo e um ralhete da minha mãe de me mudar em definitivo. É este o tipo de importância que a sua obra tem na minha vida.

Nas próximas horas vamos ler milhares de tributos de gente a quem o David Bowie afectou das mais pequenas formas e assim perceber um pouco da sua importância. Vamos ouvir chamarem-no de "grande artista", "inovador", "pioneiro", "rei", "gigante", "herói" e todos os superlativos fáceis de quem fala sobre quem já cá não está. Para mim, David Bowie foi simplesmente um messias. Um messias que mudou, guiou e definiu a minha vida. Para mim, hoje é um dia devastador, um dia que só pode ser enfrentado com a celebração da vida e obra de um dos maiores artistas da História documentada da Humanidade. Até na morte, David deixa a sua marca de artista: álbum, vídeo, aniversário e morte. A morte é o último acto, é parte do espectáculo. Ouçamos, pois, David Bowie.

Permitam-me terminar com uma mensagem ao próprio.

Obrigado por tudo, David. Sem ti, eu não seria o mesmo e de certeza mais pobre. Deixo-te uma promessa: enquanto eu viver, tu viverás também. À mesa, entre garfadas, ou em sofás, entre copos de Jameson, vou contar histórias sobre ti aos meus amigos, filhos, netos e a quem mais vier; vou levar-te comigo para todo o lado e para sempre lembrar o mundo do teu legado. No que de mim depender, serás eterno.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Bem-vindos à selva, novamente: tudo sobre a iminente reunião (incompleta) dos Guns N' Roses

Desde a noite do nó em Hollywood, a 6 de Junho de 1985 (depois de apenas um dia de ensaios), que a formação clássica dos Guns N' Roses, composta por Axl Rose, Slash, Duff McKagan, Izzy Stradlin e Steven Adler, protagonizou um dos casamentos mais apaixonantes e explosivos do Rock N' Roll. Com a paixão, veio a tormenta e o drama não mais abandonou esta relação até à sua implosão em meados da década de 90. A maior banda Rock N' Roll dos últimos 30 anos está agora prestes a reunir-se e a questão que fica, à partida, é... valerá a pena?


Em primeiro lugar, é preciso perceber que a banda que gravou "Appetite For Destruction" e semeou o caos na Califórnia em finais dos anos 80 já não existe. Apesar de vivos (o que, convenhamos, era extremamente improvável), Axl, Slash, Duff, Izzy e Steven estão mais velhos, mais cínicos e alguns apresentam limitações evidentes - Izzy não gosta de andar estrada e Steven teve um AVC (e problemas recorrentes com drogas e... com toda a gente na banda). Mas mesmo se se juntassem novamente, essa já não seria a banda de delinquentes que os eram Guns nos 80s. A reunião do gangue de Hollywood original é uma ideia entre o impossível e o imaginário.

Restam então Axl, Slash e Duff, a quem se deve juntar Dizzy Reed da formação de "Use Your Illusion", bem como Richard Fortus (guitarrista desde 2001) e Frank Ferrer (baterista desde 2006) da formação mais recente, ocupando os lugares de Izzy e Steven, respectivamente. Fica um sabor agridoce nesta que parece ser uma reunião híbrida entre membros originais (Axl, Slash, Duff e vá, Dizzy) e membros da formação Axl-e-amigos (Frank e Fortus), mas isto pode até ser um bom sinal. Senão vejamos: Steven e Izzy são dois músicos voláteis, que a qualquer momento poderiam sair e pôr em riscos os contratos milionários que aí vêm; já Slash e Duff são dois workaholics que nunca pararam desde que saíram dos Guns, mantendo-se em sucessivos ciclos de álbum-digressão-álbum. Duff até já acompanhou os Guns na América do Sul em 2014, pelo que o factor novo aqui acaba por ser o regresso de Slash.

Assim, em vez de ser uma reunião de nostalgia pura, a soma de dois músicos funcionais permite que esta reunião híbrida possa sonhar em ser uma banda outra vez.  O Metal Sludge fala na possibilidade de um punhado de temas novos (Slash está sempre a sacar de riffs novos da carteira) e isso é, até ver, a mais entusiasmante de todas as notícias. Claro que isto pode entrar em conflito com o ritmo absurdamente vagaroso de Axl Rose, mas se chegámos até aqui, por que não esperar um bocadinho mais?

A reunião vale a pena? CLARO QUE SIM. Claro que a reunião de músicos com uma química única vale sempre a pena, independentemente da idade e da pança que apresentam (as bocas do peso não têm piada nem originalidade). Não é a mesma coisa? Claro que não, mas e depois? Nunca nada é igual ao que já foi. Resta-me desejar que Izzy entre no (eventual) processo de criação de temas novos, era ele a espinha-dorsal da banda original.

A reunião (incompleta) dos Guns N' Roses parece iminente e a qualquer hora podem surgir novos desenvolvimentos na novela interminável do Rock N' Roll que é a banda de Los Angeles. Antes do anúncio oficial, vamos fazer uma revisão dos acontecimentos por ordem cronológica (obrigado ao MyGNRforum pela ajuda):

7 de Junho de 2014: Guns N' Roses (versão Axl-e-amigos) dão o último espectáculo, fechando a residência no Hard Rock Hotel, em Las Vegas. Comenta-se que "as coisas ficaram em Vegas";

1 de Julho de 2014: É lançado o vídeo "Appetite For Democracy" que documenta a residência em Las Vegas, tal só é possível com a aprovação de Slash;

22 de Agosto de 2014: Slash culpa os media pelos conflitos entre os membros dos Guns N' Roses;

1 de Outubro de 2014: O radialista Eddie Trunk, conhecido "insider" dos Guns N' Roses, comenta: "a reunião está em andamento";

6 de Outubro de 2014: Slash enumera as qualidades de Axl Rose;

6 de Dezembro de 2014: Richard Fortus, guitarrista dos Guns N' Roses desde 2001, (ainda) fala sobre o próximo álbum da banda e refere que pode incluir material dos tempos de Slash;

26 de Janeiro de 2015: Del James, um dos homens mais próximos de Axl, faz um tag a Slash no Twitter;

6 de Fevereiro de 2015: Slash deseja feliz aniversário a Axl Rose no Twitter;

22 de Fevereiro de 2015: Tommy Stinson, baixista dos Guns N' Roses desde 2001, revela que "está fora do circuito" da banda;

1 de Maio de 2015: Slash volta a elogiar Axl Rose: "Axl é criativamente explosivo, tudo o que ouvem dele é honesto até ao tutano";

7 de Maio de 2015: Slash diz "nunca digo nunca" a uma reunião do Guns N' Roses, admitindo a animosidade entre ele e Axl já se dissipou;

15 de Maio de 2015: Slash afirma que Axl Rose é o melhor frontman de todos os tempos;

22 de Maio de 2015: Duff McKagan admite que uma reunião dos Guns N' Roses "pode acontecer";

27 de Julho de 2015: DJ Ashba, guitarrista dos Guns N' Roses desde 2009, abandona a banda com uma carta aberta;

31 de Julho de 2015: Bumblefoot, guitarrista desde 2006, deixa também os Guns N' Roses de acordo com uma "fonte dentro da banda";

22 de Agosto de 2015: Slash confirma na imprensa sueca que voltou a falar com Axl: "já não era sem tempo";

2 de Outubro de 2015: Richard Fortus diz que não sabe o que se passa com os Guns N' Roses;

7 de Outubro de 2015: Matt Sorum, baterista que substituiu Steven Adler em 1990 e ficou até 1997, recusa-se a falar na reunião: "Invoco a quinta emenda";

9 de Outubro de 2015: Gilby Clarke diz que gostava de fazer parte da reunião;

14 de Outubro de 2015: Blitz revela que há uma proposta para a versão original dos Guns N' Roses tocar em Portugal em 2016;

5 Novembro de 2015: Um dos maiores promotores argentinos refere que a versão original dos Guns N' Roses se vai reunir para o ano;

12 de Novembro de 2015: Nikki Sixx dos Motley Crue diz que os Guns N' Roses se vão reunir e já "toda a gente sabe";

25 de Dezembro de 2015: Guns N' Roses apagam o seu site oficial, deixando apenas o logótipo original da banda desenhado por Slash.

26 de Dezembro de 2015: Um anúncio misterioso começa a passar nos cinemas americanos antes do novo filme da saga "Star Wars" e o site Metal Sludge refere que pode vir aí novo material da nova-velha formação;

27 de Dezembro de 2015: Eddie Trunk revela que o anúncio será feito "na próxima Terça-Feira", a 5 de Janeiro, dia do anúncio do cartaz de Coachella;

29 de Dezembro de 2015: A Billboard confirma que os Guns N' Roses vão a Coachella em 2016 e avança com uma digressão de 25 estádios nos EUA durante o Verão. Começa a circular informação que a primeira aparição da banda reunida será a 6 de Janeiro no programa de Jimmy Kimmel.
A reunião parece iminente.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Os melhores de 2015 — Os álbuns do ano

Mais um dia de Dezembro, mais uma lista dos melhores do ano. Nada de novo, não fosse esta lista elaborada com um algoritmo preciso e original, com um único e simples critério: o tempo de escuta. Por outras palavras, os álbuns mais bem classificados na minha lista de fim de ano são os que mais ouvi, os que tocaram compulsivamente durante dias e semanas a fio, no meu carro, na minha sala e no meu gabinete. Se têm algum problema com isso, o melhor é fecharem o separador e correrem para os braços da Pitchfork. Mas como vocês adoram listas e eu adoro listas e melhor que a lista que tem os álbuns que ouvimos, só mesmo a lista que tem os álbuns que não ouvimos, aqui estão as minhas escolhas para os melhores álbuns de 2015.

Top 10

10 — Hooton Tennis Club — "Highest Point In Cliff Town"
O álbum de estreia dos Hooton Tennis Club é implacavelmente 90s e daí colhe de tudo um pouco, desde a Britpop fina dos Blur, até ao underground americano dos Pavement. Mas foram os toques mancunicanos de Stone Roses e Oasis em "I'm Not Going Roses Again" que me conquistaram. As referências às minhas referências são tantas, que fica difícil não gostar do primeiro álbum da banda de Liverpool.

9 — Vangoffey — "Take Off Your Jacket & Get Into It"
O baterista dos Supergrass foi a solo, bateu em várias portas e sacou um punhado de pérolas. No superlativo "The Race Of Life" parece um Basement Jaxx melódico e no single "Trials Of The Modern Man" parece The Kinks teleportados para os 90s. Álbum sólido e leve no ouvido.

8 — Courtney Barnett — "Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit"
Se Liam Gallagher tivesse uma filha australiana (em 1987, duvido que ele tivesse sequer saído de Manchester), imagino-a como a Courtney Barnett: decidida, desbocada e estilosa, a destilar bazófia na voz. Ah e com o talento do tio Noel para a escrita. "Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit" é transversalmente considerado um dos álbuns do ano e desta feita, estou totalmente com a crítica. Ouçam à confiança.

7 — The Decemberists — "What a Terrible World, What a Beautiful World"
Ao mesmo tempo que liberta um aroma de grandiosidade intemporal levitada por órgãos, violinos e trompetes, "What a Terrible World, What a Beautiful World" poderia servir como banda sonora de uma sitcom americana dos late 90; ou pode ser apenas a banda sonora de uma tarde de limpezas em casa. São várias as layers de consumo deste álbum, que tanto serve de música de fundo, como de objecto de análise académica. Foi dos primeiro álbuns originais que ouvi este ano e ficou comigo até ao fim.

6 — Kurt Vile — "B'lieve I'm Goin Down..."
"B'lieve I'm Goin Down..." é o trabalho de um artista já com a maturidade para fazer um "Nebraska" e safar-se com isso. Confessional, minimalista e vulnerável, este é um álbum de histórias que poderiam ser contadas no decorrer de uma noite no deserto, só com o barulho de fundo da fogueira. Um deleite.

5 — Blur — "The Magic Whip"
O aclamado regresso dos Blur aterrou com estrondo em 2015 e trouxe-nos logo em Janeiro o single do ano — "Go Out". Por vezes os melhores álbuns resultam de um fugaz alinhamento de estrelas, mas se os dias em Hong Kong foram produtivos, "The Magic Whip" precisava de mais algumas semanas daquela explosão criativa que só acontece quando os quatro blurs se juntam, para ser aquilo que merecia. Valeu-nos um dos concertos do ano no SBSR.

4 — Tame Impala — "Currents"
O novo trabalho dos Tame Impala era o álbum Indie mais esperado do ano, com a curiosidade acrescida de vir rotulado como "mais electrónico" que o anterior. "Medo", pensei. O resultado acabou por ser nem especialmente radical como se temia, nem especialmente brilhante. A virtude de "Currents" é que quando é bom, é mesmo muito, muito bom. "Let It Happen" e "The Less I Know The Better" são dois dos melhores temas de 2015. E aquela capa? Quase que ganhavam, de caras, o título de melhor artwork do ano. Não fosse Peter Saville meter-se ao barulho...

3 — David Gilmour — "Rattle That Lock"
David Gilmour sabe da beleza e "Rattle That Lock" recupera o quê de belo dos Pink Floyd em temas como "5 A.M.", "Faces Of Stone" e "In Any Tongue", corrigindo ainda o inexplicável medo dos solos de guitarra que afectou os álbuns de Rock na última década e meia. Os problemas de "Rattle That Lock" são a ausência de Richard Wright — cimento que ligava toda a brita dos Floyd — e aquele tema Jazz, onde David arrisca a ser confundido como uma segunda vaga de Leonard Cohen. Espero que o próximo álbum não demore mais 9 anos.

2 — New Order — "Music Complete"
A grande surpresa do ano. Na ressaca da saída tormentosa de um membro-chave como Peter Hook (o meu preferido), foi contra todas as expectativas (incluindo as minhas) que os New Order fixeram "somente" um dos melhores álbuns dançáveis dos últimos anos, "somente" o melhor da banda desde "Technique" de 1989. Mas há mais. "Tutti Frutti" (com La Roux na voz) é "somente" o melhor tema dançável do ano e a capa é "somente" a melhor artwork do ano, trazida com o selo de qualidade de Peter Saville. Melhor regresso era difícil.

1 — Noel Gallagher — "Chasing Yesterday"
O que há para enganar em "Chasing Yesterday"? O Chefe entregou mais 10 canções com o seu selo de qualidade e embarcou numa digressão onde o apanhei por três vezes. Não admira que tenha sido o álbum que mais ouvi em 2015. Noel reuniu em "Chasing Yesterday" temas que poderiam ter sido Lados B dos Oasis no início dos 00s (alguns remontam a essa altura) e acreditem, isto é o maior elogio que lhe poderia fazer. O floydiano "Riverman" e o zero7iano "The Right Stuff" destacam-se, mas o melhor está guardado (mais uma vez) para os Lados B, desta vez do single de "Ballad Of The Mighty I": "Revolution Song" — uma versão uptempo de "Solve My Mystery" — tema gravado nas sessões do malfadado "Standing On The Shoulder Of Giants", metido na gaveta desde então e que viu finalmente a luz do dia. Que o Chefe esteja connosco por muitos mais anos.

Menções honrosas

Quase, quase a entrar no Top 10 estiveram "Carrie & Lowell" de Sufjan Stevens (não quis fazer a vontade ao meu colega Paulo), "Elsewhere" de Moullinex (melhor álbum português), "Teens Of Style" dos Car Seat Headrest (este foi mesmo por um triz), "In Colour" de Jamie XX (um dos mais inventivos de 2015) e, permitam-me a batota, "The Ties That Bind", o álbum perdido que Bruce Springsteen devia ter lançado em 1979 (devia mesmo) e só lançou este ano na caixa de celebração de "The River". Pensando nisto, até podia ter feito um Top 15. Mas não há 15 mandamentos, pois não?

Outras menções honrosas são devidas à cover de "Save A Prayer" pelos Eagles Of Death Metal (já era fã da versão dos Duran Duran antes de... vocês sabem), aos imparáveis Sleaford Mods (adoro aquele sotaque), aos Pretty Vicious a rebentarem em Glastonbury (atenção que estes miúdos não têm medo de solos de guitarra), ao épico dos Titus Andronicus (que semearam o caos no Mexefest), ao regresso dos Destroyer (se fecharem os olhos em "Dream Lover", vêem a E Street Band), a mais um mind-fucking long-play dos Godspeed You! Black Emperor e ao que já ouvimos da bomba que está quase a chegar de David Bowie ("Blackstar" é de doidos e "Lazarus" é de chorar por mais).
Sem necessariamente respeitar a ordem em cima, fiquem com a playlist do melhor de 2015:

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Prego a fundo até ao abismo: Scott Weiland aguenta-se até aos 48 anos

O comboio que seguiu furioso em direcção à ravina.


"Scott Weiland aguenta-se até aos 48 anos". Devia ser assim o título das notícias da morte do vocalista dos Stone Temple Pilots e Velvet Revolver. Ao contrário da maioria das estrelas rock que se sanitizam depois dos 40 anos, normalmente depois de arranjarem mulher, filhos e contas para pagar, Scott nunca abrandou. Foi prego a fundo até ao abismo, como a estrela Rock N' Roll pura e indefectível que foi.

As entrevistas de alarme foram mais que muitas. Recordo-me de uma conversa com o Howard Stern, onde Scott dizia que estava sozinho, mas que não podia abrandar para pagar as pensões milionárias das mulheres e filhos que teve. Dizer que ninguém o ouviu será com certeza um absurdo. Tanto os STP como os VR o tentaram recuperar e até as redes sociais lhe tentaram dar a mão, quando em Abril apareceu um vídeo de Scott numa contenda para vestir um casaco em palco (só conseguiu com a ajuda de um roadie e a cantar "Vasoline" com a morte nos olhos. Na altura escrevi:

"Olhos vazios, zero de emoção, desaparecido de si mesmo, a um sopro de se desmanchar e sem acertar uma nota. Eis Scott Weiland a "cantar" esta semana. Doloroso de ver.
Este é o reverso da medalha da vida do Rock N' Roll. Os Velvet não o querem, os STP expulsaram-no e se continua assim, não tarda estamos a ler mais um obituário. Mas Scott já passou os 27, por isso até já essa piada perdeu. Volta depressa man, the joke is not funny anymore."

Mas Scott não ouviu ninguém e o comboio lá seguiu furioso em direcção à ravina.

Como rocker terminal que sou, sempre gostei dos Stone Temple Pilots, mas como fanático dos Guns N' Roses, vibrei ainda mais com os Velvet Revolver. Os Velvet ressuscitaram os Guns com a voz de Scott Weiland e fizeram (sem favor nenhum) um dos melhores álbuns dos anos 00 – "Contraband" – que em plena era de cinismo musical nos trouxe canções coléricas com cheiro a whisky, fumo e sexo. Uma maravilha. "Get away from the drugs you're taking", dizia Scott em "Dirty Little Thing". Hoje vou ouvir "Slither", "Set Me Free", "Plush" e "Vasoline", sem drogas, mas acompanhado com um copo de whisky. À tua, Scott. See you in hell.