segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Da mente de Kevin Parker, para as pistas de dança. Valeu a pena a viagem?

Uma viagem pelo arco discográfico dos Tame Impala



Se estão a ler esta crónica, sabem quem é o Kevin Parker e quem são os Tame Impala. Sabem que eles estiveram no Paredes de Coura e que foi um vê-se-te-avias para arranjar bilhete. Sabem também que eles têm um novo álbum e que o mesmo marca uma saída do Rock psicadélico, para um registo mais electrónico e dançável. Isto já foi escrito por dezenas de publicações musicais e restantes entendidos e vocês já estão fartos de saber. Mas... E então? Será que a migração foi bem sucedida? A narrativa da "evolução sónica da banda" pode fazer-nos crer que sim, que qualquer coisa nova seja uma coisa boa. Não necessariamente.

"Innerspeaker" em 2010, "Lonerism" em 2012, "Currents" em 2015. São estes os três pontos que em 5 anos definem o primeiro arco discográfico dos Tame Impala. "Lonerism" foi um dos álbuns da década e em "Apocalypse Dreams", os Tame Impala tocaram no céu. Ao terceiro álbum, chegam as pistas de dança. Não é a primeira vez que artistas Rock decidem fazer esta viragem para as bolas de espelhos. Historicamente, os resultados são tão díspares como as polémicas que tais mudanças implicam. David Bowie fez os seus melhores álbuns em meados dos anos 70 ("Station To Station", "Low" e "Heroes") quando começou a respirar os ares da electrónica alemã. Os Queen foram fuzilados pela crítica quando desceram aos bares gay noviorquinos nos early 80s e de lá trouxeram a Disco para o álbum "Hot Space". Os Pink Floyd também levaram a Disco para "Another Brick In The Wall Pt.2", mas desta feita com sucesso retumbante. Cada caso é um caso. E o caso dos Tame Impala não é particularmente bem sucedido.

Calma. Guardem lá as pedras, pelo menos para já. Kevin Parker provou que se pode gravar um disco dançável sem vender a alma ao diabo, como fizeram os Coldplay. "Currents" está longe de ser um álbum vulgar e é facilmente um dos melhores do ano. Quando é bom, é mesmo muito bom. Mas podia ser muito melhor do que é. "Currents" empalidece ao lado de "Lonerism" e não é por ser mais dançável, é porque naquilo que é, não é especialmente brilhante. Mas esse era o preço do risco assumido na mudança de direcção. Há uma certa esquizofrenia em "Currents" que torna a sua digestão um caso sério de dispepsia sonora. Temas como "Love/Paranoia", "Past Life", ou "Yes, I'm Changing" são difíceis de mastigar, aborrecem-me e não me deixam a viajar na minha própria mente como faziam "Solitude Is Bliss" ou "Be Above It".
Para alimentar esta confusão, é curioso perceber que o melhor deste álbum aparece quando Kevin Parker carrega mais na bola de espelhos: "The Less I Know The Better", "Disciples" e "'Cause I'm A Man" são pequenas gomas Pop viciantes que podiam ter saído de qualquer um dos álbuns de Michael Jackson nos anos 80. E agora faço uma pausa para se aperceberem da magnitude de uma coisa destas. (...) Como disse em cima, quando "Currents" é bom, é muito bom. Mas nem sempre é bom.

Há semanas que "Currents" não sai do meu Spotify e alguma coisa isso quererá dizer. Mas não consigo deixar de pensar que os Tame Impala perderam aqui algum do seu quê de especial. O álbum divide opiniões e dividiu-me a mim também e se notam alguma esquizofrenia nesta análise, isso só reflecte o meu sentimento ao ouvir este álbum. "Currents" é bom, mas ainda é "Lonerism" o prato forte dos Tame Impala. Com a viragem às pistas de dança, os Tame Impala deixaram de ser excelentes e passaram a ser apenas muito bons.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O ouvinte tem sempre razão

Mas tem mesmo?


O ouvinte tem sempre razão? Não. Mas claro que não! Ou é preciso recordar que os Aqua foram #1 em todo o mundo em 1997 com "Barbie Girl"? Ainda alguém se lembra do Crazy Frog? E do Scatman John? E do R. Kelly? Ah ok, desse lembramo-nos por causa daquela cena chata da pedofilia.

Este fim-de-semana aconteceu o maior festival português na Zambujeira do Mar e, acreditem, eu queria ficar calado. A sério, juro que queria. Mas a quantidade de fezes que foi atirada na defesa desta nova ideia de 'festival de Verão' não me deixa ficar calado.

Outras vozes já se expressaram devidamente. As minha preferidas foram a de João Quadros, no Twitter: "Ainda assim: cartaz do PS > cartaz do Sudoeste" (tão bom) e a de João Pedro Rodrigues, no Facebook, um membro da "tribo" (parabéns ao génio publicitário que inventou este conceito) que avaliou o festival com 5 estrelas, comentando de forma assertiva: "epah mais um ano a partir aquela merd* toda !!! O cartaz é fatela Ya, mas o que conta com é o espírito !!!". Meus amigos do Sudoeste, quando um dos membros mais fervorosos da vossa tribo apelida o cartaz de "fatela Ya", eu acho que não preciso de entrar em cena com adjectivação adicional. O trabalho está feito.

Mas depois vieram as fezes.

Dizem-me que é a evolução, que a música nova irrita sempre as gerações mais velhas e que assim é que deve ser. Certo. Mas o quando o Dylan ligou a guitarra eléctrica no Newport Folk Festival em 1965 e chocou uma audiência que esperava um espectáculo acústico, ele não se limitou a carregar num botão para tocar hits da década anterior, nem começou a atirar bolos à audiência. Tocou a música dele AO VIVO, foi REAL.
E quando os Sex Pistols abriram a distorção e cuspiram no público dos bares suados da Grã-Bretanha de 1976, ainda era música AO VIVO que saía das colunas, por muito desafinada que fosse. Era REAL (excepto quando o Sid Vicious não ligava o baixo, aí era mesmo só cuspo).

Dizem-me que isto é "música do meu tempo" e que o meu tempo já passou. Música do meu tempo? Eu nasci nos anos 80 e as minhas bandas preferidas são dos anos 60 e 70. Moldei o meu gosto porque o meu Pai me deu a conhecer música e eu ganhei curiosidade para procurar mais. Os jovens ouvem aquilo que lhes dão e se eles gostam de caca é porque só lhes deram caca, dia após dia, após dia, e eles não conhecem outra coisa. Isto é só mais um capítulo do livro dos nossos tempos "Ausência dos pais em casa". Os miúdos não precisam de gostar dos Beatles nem dos Stones, mas convém conhecê-los, como parte da História e da Cultura que eles são. Não conhecer os Beatles é tão grave como não saber quem foi Hitler. E aposto que muitos não conhecem nenhum deles.

Dizem-me que que a geração mais nova gosta de volume e de graves e não quer saber do conteúdo. Certo. Mais uma vez, gostam disso porque é aquilo que lhes dão. É fácil. É anestésico. É acéfalo. Dá para desligar facilmente e assim dar atenção às babes que passam e à selfie que se tira.

Dizem-me frases feitas numa linguagem torpe de políticos, que normalmente antecede a sentença "e por isso vamos ter que aumentar os impostos". Mas esquecem-se de falar no desinvestimento. Porque aí é que reside a explicação. Querem uma ideia do que estamos a falar? Eu dou. Uma pesquisa rápida no Google revela-nos que Calvin Harris — talvez o nome mais caro do SW — cobra aproximadamente 500 mil euros por actuação. Dando um exemplo de outro cabeça de cartaz deste ano, os Muse cobram perto de 850 mil euros para dar um concerto. Pois. E se olharmos para o volume do cartaz? "Fatela Ya", como diz o João Pedro. Ou apenas o fruto do desinvestimento.

Dizem-me coisas em tom paternalista, de gente bem intencionada que acha que temos que "ser razoáveis" para com o festival e os seus organizadores e patrocinadores, "ser razoáveis" para com a vertigem do lucro. Mas isto é música. Desde quando é que temos que "ser razoáveis" para com a arte? Foi a isto que chegámos? Não é na música que devemos procurar a pureza? Pelo menos foi isso que a música do meu Pai me ensinou.

Não, o ouvinte não tem sempre razão. Como em todas as culturas, é preciso educar para colher frutos. Se educarem os miúdos com caca, eles vão ouvir caca. E caca é muito mais barato. Já aqui o escrevi: há demasiadas coisas medíocres na nossa vida, a música não pode ser uma delas.


Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Terça-Feira 11 de Agosto de 2015

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O novo filme de James Bond e a pergunta do milhão de euros

Quem se seguirá a Adele? E quem devia seguir? Tudo aqui.



Sou fã acérrimo da saga de James Bond. Desde que joguei o mítico "Goldeneye 007" na Nintendo 64 e depois fui ao cinema ver o Pierce Brosnan fugir a um helicóptero numa mota pelos telhados de Ho Chi Minh em "Tomorrow Never Dies", que fiquei agarrado. Os filmes não são o que podemos chamar de intelectualmente exigentes, mas oferecem a fantasia (aquele início do "Goldeneye" é a ficção e a perfeição em doses iguais) e a acção que preciso para me alienar do marasmo de um quotidiano sem explosões, nem Aston Martins, nem a Eva Green. Mas apesar de gostar dos filmes, o que me move mesmo na saga do espião inglês é a música, mais precisamente os temas do genérico de cada filme. Arrisco dizer que nenhuma outra saga está tão bem representada neste capítulo como a de James Bond.

Se têm dúvidas, ouçam a compilação "The Best of Bond...James Bond" (qualquer uma delas, embora eu prefira a ordem da compilação de 2002) e tirem as vossas conclusões. É malha atrás de malha, numa enxurrada impressionante. Desde as várias versões do clássico "James Bond Theme", originalmente composto por Monty Norman em 1962 para "Dr.No", passando pelo drama de "Goldfinger", a intensidade de "Thunderball", a saudade de "From Russia With Love", a candura de "Nobody Does It Better", a Pop de "A View To A Kill" e até algum refugo como "Diamonds Are Forever" (o José Castelo Branco destruiu para sempre este tema para mim, quando o vi cantá-lo vestido de mulher na televisão. Porra. Vade retro). Tendo em conta que a saga acompanhou a cultura popular desde os anos 60, o leque de artistas que já contribuiu para os filmes é vasto e representativo do mainstream de cada década: Shirley Bassey nos anos 60, Paul McCartney nos 70s, Duran Duran nos 80s, Sheryl Crow nos 90s, Jack White 00s e Adele 10s. Há espaço para tudo.

Agora que estamos a poucos meses da chegada de "Spectre", fica a questão do milhão de euros: quem vai cantar o tema do próximo filme de James Bond? Bem, um milhão de euros não sei, mas vale pelo menos 15 mil libras, quantia que um apostador pôs nos Radiohead esta semana, levando à suspensão das apostas. Das duas, uma: ou o cavalheiro sabia de alguma coisa que nós não sabemos, ou então é um fã dos Radiohead sem grande amor ao dinheiro. E nós já sabemos como é com os fãs dos Radiohead: o melhor é não os contrariar.

A lógica dita que a resposta à grande pergunta esteja algures nas tabelas dos últimos anos. Os rumores mais fortes indicavam primeiro Sam Smith, depois Ellie Goulding e agora Radiohead. A resposta deve morar aqui. Também já se falou no Kanye West (por favor não, vamos manter o Bond classy), Ed Sheeran (pior ainda, ele quanto muito devia fazer a banda sonora dos Teletubbies) e até no Noel Gallagher (seria bom, mas duvido muito), mas essas são hipóteses mais remotas.

A minha aposta entre o trio dos preferidos seria (de longe) os Radiohead. É interessante pensar na voz de Thom Yorke à frente da frota de trompetes que costuma acompanhar os temas de Bond. E basta recordar o que eles fizeram com "Nobody Does It Better" para ficar com água na boca.

Mas a minha preferência pessoal não recai em nenhum dos anteriores.

O tema que apresenta um filme de James Bond precisa de ser explosivo, dilacerante e poderoso; precisa de nos pôr aos saltos no banco do cinema ainda antes do filme começar; precisa, por isso, da figura maior do rock musculado dos nossos dias. Mandasse eu na EON e subempreitava o tema de "Spectre" a Josh Homme e aos Queens Of The Stone Age. Fico com água na boca, só de pensar nas explosões no ecrã ao som das guitarras da banda californiana. E fazia mais: dava a banda sonora (que já foi entregue a Thomas Newman) a Trent Reznor, que tão bem tem tratado os filmes de David Fincher. E já que estamos com o balanço, aproveitava e dava o próximo filme ao próprio David Fincher. Mas talvez já me esteja a entusiasmar.

"Spectre" sai em Outubro deste ano, por isso já deve faltar pouco para saber a resposta à pergunta do milhão de euros. Fica a faltar-me só o Aston Martin. E a Eva Green.


Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Segunda-Feira, 3 de Agosto de 2015

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A velha questão da pirataria vista por um melómano

Não é a atacar os ouvintes que se resolve a questão da pirataria.



Rejubilem. Após sucessivas ameaças, o Pirate Bay foi este ano bloqueado em Portugal. O problema da pirataria está resolvido e os artistas vão finalmente começar a ver o dinheiro que eles merecem. Certo? Errado. Não vou sequer dissertar sobre o gravíssimo precedente que se abre com o bloqueio destes sites, num ato de censura norte-coreanista que pareceu ser aceite com relativa tranquilidade. Não é no âmbito legal que eu quero entrar, porque desse lamaçal, percebo muito pouco. O que eu quero é saber da música, da proteção dos artistas que a fazem e claro, de quem a ouve. Porque não é a atacar os ouvintes que se resolve a questão da pirataria.

Mas antes de avançar, vou apresentar-me: o meu nome é Nuno Bento e sou um melómano. Grande parte do meu ordenado é investido em música. Tenho os meus álbuns divididos por três casas e em nenhuma delas tenho espaço para mais, mas continuo a comprar discos e já é difícil andar na minha sala sem dar um pontapé num vinil do David Bowie. Por isso falo à vontade, tenho a consciência tranquila. O dia em que me prenderem por pirataria é o dia em que toda esta discussão deixa de fazer sentido.

Falo à vontade para dizer que, mesmo assim, sempre fiz downloads (legais, é desses que eu estou a falar, ok?). Muitos. Estou sempre à procura de música nova e os downloads nunca me impediram de a comprar mais tarde. O meu amor pela música não pode ser platónico, necessita de contacto físico. Preciso de agarrar no CD, folhear o livrete, ler as letras, ver os agradecimentos. E se gostar mesmo do álbum, compro o vinil para ter a artwork em tamanho real nas minhas mãos, retirar o disco da capa, cheirá-lo, pô-lo a rodar. É um ritual.

Esses rituais são fomentados a ouvir música. Não é a restringir a audição e a perseguir os ouvintes que os miúdos se vão apaixonar pela música, pelas bandas e pelas suas histórias. É tornando a música mais livre. No fim, os artistas serão sempre pagos, seja pelas vendas, seja pelos concertos. O que é preciso é deixar as pessoas apaixonarem-se pela música. As pessoas fazem as coisas mais incríveis por amor. Até comprar discos. Uma porrada deles.

Eu percebo que o coleccionismo não sirva para toda a gente. Essas pessoas têm alternativas legais nos serviços de streaming como o Spotify, o Tidal, ou o Apple Music. Também é por aqui que se pode combater o download de uma forma não agressiva, criando novos hábitos nos ouvintes. Os serviços de streaming não chegam para mim (e por isso precisarei sempre dos formatos físicos), mas são uma boa ideia que combina o conceito de "rádio personalizada", com a comodidade e claro, a legalidade. Mas é uma ideia que precisa de séria revisão. Não tanto pelos grandes artistas, porque bandas como os Pink Floyd ou os Beatles têm um bom leverage negocial e têm também (muitas) vendas físicas garantidas (o último álbum dos Pink Floyd até cometeu a proeza de bater os One Direction e o Tony Carreira). Já as bandas em ascensão, essas são obrigadas a aceitar o acordo que lhes é posto em cima da mesa, por mais miserável que seja. E há quem se queixe, mesmo artistas estabelecidos como a Taylor Swift, que deixou o Spotify no ano passado.

No fim de contas, as editoras e os executivos continuam a receber mais que os artistas e isso é o que está errado. Eu entendo o lado das editoras e estou solidário com a sua existência, na medida em que promovem e distribuem o trabalho dos artistas. Mas o seu modelo de negócio ficou preso nos anos 90, quando as pessoas ouviam o "How You Remind Me" na rádio e iam a correr comprar o álbum dos Nickelback. Isso já acabou. E convenhamos que também não é justo enganar assim as pessoas. É um modelo de negócio ainda carregado de intermediários e comissionistas inúteis que, francamente, é ofensivo para com os artistas e os consumidores. As editoras precisam de perceber que são os artistas quem deve receber a maior parte do bolo e entender que quem quer comprar, quer um produto de qualidade, com bela artwork e tudo a que tem direito. Não é para fazerem como no último álbum dos Queens Of The Stone Age, quando fui vilipendiado sem dó nem piedade.

Na questão dos downloads, há aqui um enorme paralelismo com o cenário de há 30, 40 anos. Vou falar do caso que me é mais próximo: o meu Pai, que foi quem me passou esta paixão pela música. Há 40 anos, não havia lojas de discos na Beira. Mas havia um amigo que de vez em quando trazia uns LPs de Lisboa. Chamemos a esse amigo "Pirate Bay". Os LPs desse amigo serviam para centenas, milhares de pessoas; eles eram gravados para cassetes, que por sua vez eram gravadas para cassetes e assim sucessivamente, até à vigésima geração. Quando chegavam à Pampilhosa da Serra, a guitarra dos Black Sabbath atingia níveis de distorção que nem o Tony Iommi conseguia emular com os seus pedais. E mesmo com a proliferação das cassetes pela Beira Baixa, pasmem-se, os Sabbath fizeram uma carreira.

É verdade que os círculos de afectação na partilha de uma torrent são maiores e a qualidade também é melhor (embora seja no mínimo puxado afirmar que o mp3 é um recurso de qualidade). Mas ainda assim, há dinheiro envolvido. Sempre que se compra um disco rígido, ou um CD/DVD virgem, já se paga uma taxa de autor. É para isto que ela serve. É pouco? É. Mas é mais do que o zero que recebiam com as cassetes.

Tal como nos anos 60, 70, 80 e 90, haverá sempre melómanos como eu para comprar música, seja em formato físico, em download digital (como no iTunes), ou no novo formato telepático que há de vir. Mas para venderem mais, as editoras têm que baixar o preço dos discos, que é inadequado. Como? Redefinam-se. Cortem nos intermediários. Antecipem-se à pirataria, disponibilizem o álbum para download gratuito em mp3 e deixem o consumidor ouvi-lo dez vezes, depois fixem um preço justo para ele continuar a ouvi-lo em FLAC, ou noutro formato de qualidade. E os serviços de streaming, se querem ser a alternativa, também têm que aceitar menor parte do bolo e pagar melhor aos artistas. Isto é válido principalmente para o Spotify, que segundo um estudo do Nextshark (vejam em baixo o gráfico completo com a divisão detalhada de lucros em todos os formatos) paga 5 vezes menos que o Tidal. O Youtube paga ainda menos que o Spotify, o que me deixa sem saber para que serve afinal toda aquela publicidade irritante antes dos vídeos.



Poderia também advogar que se as editoras estão em dificuldades, é porque apostam na música errada, segura, formatada, desinteressante. Mas isso é outra discussão. Ou talvez seja a outra face do mesmo problema.
Pela minha parte, apenas faço votos que se um dia formos todos presos por fazer downloads de música, espero que pelo menos nos separem por género musical. É o mínimo.


Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Segunda-Feira, 27 de Julho de 2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

Carta aberta à Música no Coração

Como cronista musical da NiT, e autor do artigo de opinião que causou "grande mal estar" na Música no Coração, informo o seguinte.
Caros senhores da Música no Coração,

Como cronista musical da NiT, e autor do artigo de opinião que, aparentemente, causou "grande mal estar" na vossa agência, que por isso me barrou a entrada, bem como à restante equipa da NiT, no Super Bock Super Rock, impedindo-nos de fazer a cobertura do festival adequadamente, venho informar que... não guardo rancores.

A verdade é que ninguém gosta de levar um ban. Nem nos tempos do mIRC se gostava. E por isso mesmo eu vos escrevo esta missiva; para vos contar que esse ban foi apenas e só um equívoco. Mas um equívoco uncool e muito, muito pouco Super Rock.
Mesmo sem a acreditação, mesmo de muletas, eu fui na mesma ao festival, como podem comprovar pelas minhas crónicas do primeiro e segundo dias (no terceiro cedi às dores no pé). Se lerem as minhas crónicas, verão que vos elogiei e vos critiquei, directa e descomplexadamente, como sempre fiz e sempre farei.

Fui ao SBSR porque eu estou nisto pela música. Não gosto de politiquices, sou independente e não preciso de favores de ninguém. Quando quero ir a um concerto, vou. Se é música e eu gosto, vou. Ponto final. Entre os gastos com a minha coleção de discos, os bilhetes para concertos e as viagens é fácil perceber que não estou na música para ganhar dinheiro. Mas ganho tudo o que a música me dá e isso chega-me para continuar a palmilhar terreno. Fui ao SBSR porque o cartaz era excelente, o melhor de 2015 no que toca ao palco principal. Noel Gallagher, Sting, Blur (concerto do ano), é um cartaz imbatível. Por isso fui na mesma, sem rancores.

O problema aqui foram, aparentemente, as minhas palavras sobre o Sudoeste, numa crónica onde me limitei a escrever o que os festivaleiros comentam há vários anos e que, talvez por isso, teve 45 mil visualizações só neste mês. Meus senhores, eu estou nisto para separar o trigo do joio, por isso é que me chamam de crítico (nome que eu detesto). De outra forma, seria apenas um cocksucker. E eu sei que disse que amo o Damon Albarn, mas calma.

Estou aqui também para vos avisar da ratoeira da swaguização onde estão a cair, como o cartaz do Sudoeste, ou a aberração da zona VIP no SBSR. Que era aquilo? Deixar o Noel actuar para uma plateia com uma clareira enorme lá à frente, porque as Kakás e as Tetés estavam a jantar, ou a escolher a marca de gin? Não percebem como isto é errado? Isto é o tipo de coisa que atrai a "Caras" e os bandwagoners, mas afasta os festivaleiros e os amantes da música. Se matam a pureza do conceito, quando a moda passar e os bandwagoners abandonarem os festivais, quem é que fica para vos segurar a mão?

Estou aqui e estou do vosso lado, porque eu sei que vocês também gostam de música. Sei que têm uma história, que perderam dinheiro quando cá trouxeram o Bowie em 1996, que quiseram levar o Rock para a praia (no Meco) e que isso foi uma grande ideia que quase resultou (os acessos e o pó que nunca mais acabava estragaram tudo), que tiveram uma contribuição fundamental nos festivais em Portugal. E por isso estou aqui para vos ajudar a não destruir o bebé que ajudaram a criar.

Como disse, não guardo rancores. Ainda vamos todos beber umas jolas juntos e rir-nos à brava deste equívoco e claro, do cartaz do Sudoeste.



Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Terça-Feira, 21 de Julho de 2015

sábado, 18 de julho de 2015

Super Bock Super Rock — Dia 2: Savages abanaram o festival, Blur mandaram tudo abaixo

Noite magnifica em que o rock voltou à cidade. Pena que a swaguização tenha vindo atrás.



O segundo dia do Super Bock Super Rock começa com as Savages no Palco EDP, sob a pala do Pavilhão de Portugal e uma grande expectativa. A banda post-punk londrina traz ainda o seu primeiro álbum a Lisboa, mas já lhe acrescenta alguns temas novos. Actuam ao pôr-do-sol para uma plateia ainda pouco composta, mas elas precisam da escuridão da noite. O cenário muda rapidamente, assim que as miúdas enchem o espaço de decibéis e a noite cai no Parque das Nações.

As Savages são exactamente o oposto daquilo que nos disseram que uma banda feminina devia ser: não há imagem nas Savages. Não sabemos se elas são bonitas ou não. Elas estão sempre em contraluz, vestidas de preto. Não se vêem imagens da banda no ecrã, não se vê uma cara, nada. São uma banda anónima. À distância que estou (sentado cá atrás na zona de mobilidade reduzida), podiam ser uma banda de aliens e eu não dava pela diferença. Mas elas não precisam de ser meninas bonitas. Isso não interessa. Elas vieram aqui para despejar Rock N' Roll e é exactamente isso que estão a fazer. Who said girls can't rock? Quem? Bem, talvez eu próprio o tenha dito... Mas retiro o que disse. All hail the Savages.

O Palco EDP tem a sua maior enchente do dia pouco depois, para Bombay Bicycle Club. A banda Indie Folk britânica, que fechou o histórico Earls Court no ano passado (com a ajuda de David Gilmour dos Pink Floyd), traz também muita expectativa e muita gente de propósito para os ver. Mas quem entra em palco depois das Savages fica com uma bitola difícil de bater e os Bombay não estiveram à altura da tarefa. E não foi por causa do volume. O baixo dos Bombay estava tão potente, que me pôr a olhar para a pala do Pavilhão de Portugal. Mas isso era o Engenheiro em mim a preocupar-se demais.

Olho lá para a frente no Palco EDP e vejo a mesma aberração que notara no dia anterior na MEO Arena: a zona VIP. Que é isto? Para quem não sabe, a zona VIP é uma área exageradamente grande situada em frente ao palco, ocupando quase metade do espaço, que é roubado aos fãs das bandas que foram para as grades às 5 da tarde, alimentados a sandes e muito pouca água (porque uma ida à casa de banho deita tudo a perder). Que provincianismo é este? Será que as Kakás e as Tetés precisam mesmo de uma zona dedicada à frente do palco, só para entrarem quando o Noel toca o "Whatever", ou outro êxito "que dá na RFM" passa no palco? O próprio Noel tinha mandado a bicada no dia anterior — "Did you all came from the bar?!" — , quando foi obrigado a actuar para uma MEO Arena com uma enorme clareira logo ali à frente, porque os senhores VIP estavam mais preocupados a escolher a marca do gin, do que com a música que vinha do palco. O rock voltou à cidade e isso é fixe, mas a swaguização não precisa de vir atrás, obrigado.


Divido o meu tempo entre Bombay no EDP e dEUS no Palco Super Bock. Corro com a velocidade que as canadianas me permitem para a MEO Arena e ainda apanho metade do concerto. A banda belga traz o seu Indie Rock pujante e cumpre em palco, com o solo estendido de "Instant Street" a entrar directamente para o panteão dos momentos do festival. A plateia está já bem composta na MEO Arena, mas a banda dos anos 90 não parece convencer o público, que já está à espera da banda que fecha a noite no palco principal.

Os Blur chegam a palco sorridentes e entram a abrir com o novo single "Go Out" — e que single, "o melhor do ano" segundo o inimigo nº 1 da banda Liam Gallagher — e partem tudo com o clássico "There's No Other Way", do seu álbum de estreia "Leisure". De 1991, imaginem. Em 2015, ainda soa a Pop fresquinha, acabadinha de sair do gelo. Damon vem com a corda toda e salta para o meio do público em "Lonesome Street". Que monstro, que animal de palco. Damon salta e canta como se estivesse a cantar os temas pela primeira vez. Eu amo este homem.

Os Blur têm tudo aquilo que uma banda de palco principal deve ter e ainda lhe injectam a imprevisibilidade dos fora-de-série. O SBSR acertou na mouche no alinhamento do palco principal deste ano, o melhor de todos os festivais (no palco principal). Mas estragam tudo com a escolha do espaço, com a acústica de uma casa de banho de estação de serviço. Damon vai buscar a guitarra acústica para um tema mais soft como "Coffee & TV" e o som abominável do Atlântico dá logo sinal de si. Que salganhada se ouve no pavilhão.

O volume volta a aumentar e a casa vem abaixo pela primeira vez com "Beetlebum". Levantam-se uns malucos na bancada a fazer air guitar, naquele solo final que se parece estender até à eternidade. Talvez um desses maluquinhos até tenha sido eu. O ritmo do concerto abranda com o novo — mas excelente — "Thought I Was A Spaceman". O recente "The Magic Whip" tem algumas grandes malhas e esta é seguramente uma delas.Termina "Tender" e vejo alguma desilusão na banda. Eles estão à espera que o público cante até ao infinito o refrão "Oh my baby, oh my baby, oh why, oh my", como sempre acontece nos seus concertos. Mas o público não viu os vídeos no Youtube e não corresponde. Que pena.

Talvez porque sente que ainda precisa de ganhar o público, Damon chama um fã para fazer a parte de Phil Daniels em "Parklife". É o momento da noite. Mas o fã está tão entusiasmado, que se limita a abraçar Damon e a correr atrás dele, esquecendo-se de fazer a sua parte. Mas isso não importa, Damon conseguiu o que queria. Se dúvidas houvesse, agora o público mora na sua mão e já ninguém se senta na MEO Arena. Os êxitos continuam a sair em catadupa e a casa vem abaixo em "Song 2", com a mosh a ficar agreste em frente ao palco. Apetece-me deixar as canadianas e saltar lá para o meio. Maldito pé estragado.

O encore traz mais três momentos inolvidáveis: "Girls & Boys", para testar a memória e a dicção do público ("girls who want boys who like boys to be girls who do boys like they're girls who do girls like they're boys" — não é fácil); "For Tomorrow", para os fãs mais fiéis do brilhante "Modern Life Is Rubbish"; "The Universal", para toda a gente. Foi um final perfeito, para uma noite de emoções fortes.

Concerto da noite? Naaaa. Concerto do festival? É pouco. Blur foi o concerto do ano em Portugal. Bombástico, arrebatador, estrondoso. Veio tudo abaixo com Blur. Que noite magnífica.

Os Blur tocaram:
"Go Out"
"There's No Other Way"
"Lonesome Street"
"Badhead"
"Coffee & TV"
"Out of Time"
"Beetlebum"
"Thought I Was a Spaceman"
"Trimm Trabb"
"He Thought of Cars"
"End of a Century"
"Tender"
"Trouble in the Message Centre"
"Parklife"
"Ong Ong"
"Song 2"
"To the End"
"This Is A Low" 
Encore:
"Stereotypes"
"Girls & Boys"
"For Tomorrow"
"The Universal"

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Os dias mais felizes das nossas vidas

Esta é a história de uma cabra.



Em 1979, os Pink Floyd lançaram "The Wall", uma obra autobiográfica de Roger Waters que dividia a sua vida em quatro lados de vinil. O primeiro era dedicado à sua infância e daí saiu o êxito "Another Brick In The Wall Pt.2", com a célebre linha "Hey, teacher! Leave the kids alone!". Antes desse tema vinha "The Happiest Days Of Our Lives", uma tirada irónica sobre como são felizes os dias da nossa infância. Só que não são. Mas esta não é uma história sobre os Pink Floyd. Esta é a história de uma cabra.
"Os dias mais felizes da nossa vida", uma ova. A infância só é boa quando estamos a pagar as contas e olhamos para trás, com saudade do tempo em que não abríamos a carteira, seletivamente esquecendo tudo o que passámos até ali.

A verdade é esta: a infância é uma merda. Ser miúdo é ser oprimido pelos pais, oprimido pelos professores, oprimido pelos mais velhos, oprimido pelos bullies no recreio. É um caminho percorrido de derrota em derrota, até à vitória final, a da liberdade, da independência.

Na nossa turma da primária não havia bullies, mas havia rivalidades e a ocasional cena de pancadaria. O normal. Uma coisa nos unia, porém: como todas as crianças, detestávamos ir ao circo. Aliás, ao fim de 20 anos, ainda estou para perceber qual o apelo naquele espectáculo que as crianças detestam e os adultos abominam, mas que todos assistem com aquele entusiasmo de quem vai a um festival à espera dos Foo Fighters e depois tem que levar com os Florence and The Machine.

Do circo, salvava-se uma coisa: quando íamos pela escola, o caminho pela cidade era uma paródia. E era preferível a ter Estudo do Meio.

Foi aí, numa tenda de circo em Castelo Branco, que vivemos o ponto alto da nossa infância. Depois dos palhaços (outro enigma da sociedade), dos leões e de todos aqueles números que não nos interessavam, apareceu uma cabra. Uma cabra? Sim, uma cabra. Estava ali, imóvel, pachorrenta, posicionada ao fundo de uma escadaria metálica em caracol. Ninguém sabia ao que vinha. Até que rebenta nas colunas do circo o êxito da época "La Cabra", num volume tão alto, que parecia que tinha soado o alarme dos bombeiros. A cabra começa a subir as escadas. Era este o número.


Para quem não conhece, "La Cabra" foi um tema chavasqueiro dos anos 90 que rezava assim: "La cabra, la cabra, la puta de la cabra, la madre que la parió" (não será necessário traduzir). É agora pertinente recordar que a audiência era formada por crianças entre os 3 e os 9 anos, que frequentavam o Jardim-Escola João de Deus de Castelo Branco.

Foi o nosso momento. Aquela palavra proibida do "pê", que pais e professores nos ordenavam calar e nos castigavam por dizer, estava ali a ser difundida em emissores gigantescos. Ao pânico das professoras, lestas em exigir a interrupção imediata do som, a turma reagia num êxtase reminiscente da cena do futebol em "Sleepers", ou da cena da ópera em "Shawshawk Redemption". No meio de tantas derrotas, aquela música foi a nossa vitória. No meio de tanto silêncio, aquela música foi a nossa ópera. E nós abraçados, aos saltos, rivalidades esquecidas, amizades eternas prometidas, a rir e a festejar aquele triunfo, como se de uma medalha olímpica se tratasse. Durante aqueles minutos, demos a volta ao marcador, ganhámos, fomos livres. A música da cabra deu-nos uma vitória tão grande e tão pura, que duraria por anos a fio.

Tínhamos 9 anos. A partir daí, foi sempre a descer. Até ao primeiro ordenado.

Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Segunda-Feira, 22 de Junho de 2015