segunda-feira, 27 de julho de 2015

A velha questão da pirataria vista por um melómano

Não é a atacar os ouvintes que se resolve a questão da pirataria.



Rejubilem. Após sucessivas ameaças, o Pirate Bay foi este ano bloqueado em Portugal. O problema da pirataria está resolvido e os artistas vão finalmente começar a ver o dinheiro que eles merecem. Certo? Errado. Não vou sequer dissertar sobre o gravíssimo precedente que se abre com o bloqueio destes sites, num ato de censura norte-coreanista que pareceu ser aceite com relativa tranquilidade. Não é no âmbito legal que eu quero entrar, porque desse lamaçal, percebo muito pouco. O que eu quero é saber da música, da proteção dos artistas que a fazem e claro, de quem a ouve. Porque não é a atacar os ouvintes que se resolve a questão da pirataria.

Mas antes de avançar, vou apresentar-me: o meu nome é Nuno Bento e sou um melómano. Grande parte do meu ordenado é investido em música. Tenho os meus álbuns divididos por três casas e em nenhuma delas tenho espaço para mais, mas continuo a comprar discos e já é difícil andar na minha sala sem dar um pontapé num vinil do David Bowie. Por isso falo à vontade, tenho a consciência tranquila. O dia em que me prenderem por pirataria é o dia em que toda esta discussão deixa de fazer sentido.

Falo à vontade para dizer que, mesmo assim, sempre fiz downloads (legais, é desses que eu estou a falar, ok?). Muitos. Estou sempre à procura de música nova e os downloads nunca me impediram de a comprar mais tarde. O meu amor pela música não pode ser platónico, necessita de contacto físico. Preciso de agarrar no CD, folhear o livrete, ler as letras, ver os agradecimentos. E se gostar mesmo do álbum, compro o vinil para ter a artwork em tamanho real nas minhas mãos, retirar o disco da capa, cheirá-lo, pô-lo a rodar. É um ritual.

Esses rituais são fomentados a ouvir música. Não é a restringir a audição e a perseguir os ouvintes que os miúdos se vão apaixonar pela música, pelas bandas e pelas suas histórias. É tornando a música mais livre. No fim, os artistas serão sempre pagos, seja pelas vendas, seja pelos concertos. O que é preciso é deixar as pessoas apaixonarem-se pela música. As pessoas fazem as coisas mais incríveis por amor. Até comprar discos. Uma porrada deles.

Eu percebo que o coleccionismo não sirva para toda a gente. Essas pessoas têm alternativas legais nos serviços de streaming como o Spotify, o Tidal, ou o Apple Music. Também é por aqui que se pode combater o download de uma forma não agressiva, criando novos hábitos nos ouvintes. Os serviços de streaming não chegam para mim (e por isso precisarei sempre dos formatos físicos), mas são uma boa ideia que combina o conceito de "rádio personalizada", com a comodidade e claro, a legalidade. Mas é uma ideia que precisa de séria revisão. Não tanto pelos grandes artistas, porque bandas como os Pink Floyd ou os Beatles têm um bom leverage negocial e têm também (muitas) vendas físicas garantidas (o último álbum dos Pink Floyd até cometeu a proeza de bater os One Direction e o Tony Carreira). Já as bandas em ascensão, essas são obrigadas a aceitar o acordo que lhes é posto em cima da mesa, por mais miserável que seja. E há quem se queixe, mesmo artistas estabelecidos como a Taylor Swift, que deixou o Spotify no ano passado.

No fim de contas, as editoras e os executivos continuam a receber mais que os artistas e isso é o que está errado. Eu entendo o lado das editoras e estou solidário com a sua existência, na medida em que promovem e distribuem o trabalho dos artistas. Mas o seu modelo de negócio ficou preso nos anos 90, quando as pessoas ouviam o "How You Remind Me" na rádio e iam a correr comprar o álbum dos Nickelback. Isso já acabou. E convenhamos que também não é justo enganar assim as pessoas. É um modelo de negócio ainda carregado de intermediários e comissionistas inúteis que, francamente, é ofensivo para com os artistas e os consumidores. As editoras precisam de perceber que são os artistas quem deve receber a maior parte do bolo e entender que quem quer comprar, quer um produto de qualidade, com bela artwork e tudo a que tem direito. Não é para fazerem como no último álbum dos Queens Of The Stone Age, quando fui vilipendiado sem dó nem piedade.

Na questão dos downloads, há aqui um enorme paralelismo com o cenário de há 30, 40 anos. Vou falar do caso que me é mais próximo: o meu Pai, que foi quem me passou esta paixão pela música. Há 40 anos, não havia lojas de discos na Beira. Mas havia um amigo que de vez em quando trazia uns LPs de Lisboa. Chamemos a esse amigo "Pirate Bay". Os LPs desse amigo serviam para centenas, milhares de pessoas; eles eram gravados para cassetes, que por sua vez eram gravadas para cassetes e assim sucessivamente, até à vigésima geração. Quando chegavam à Pampilhosa da Serra, a guitarra dos Black Sabbath atingia níveis de distorção que nem o Tony Iommi conseguia emular com os seus pedais. E mesmo com a proliferação das cassetes pela Beira Baixa, pasmem-se, os Sabbath fizeram uma carreira.

É verdade que os círculos de afectação na partilha de uma torrent são maiores e a qualidade também é melhor (embora seja no mínimo puxado afirmar que o mp3 é um recurso de qualidade). Mas ainda assim, há dinheiro envolvido. Sempre que se compra um disco rígido, ou um CD/DVD virgem, já se paga uma taxa de autor. É para isto que ela serve. É pouco? É. Mas é mais do que o zero que recebiam com as cassetes.

Tal como nos anos 60, 70, 80 e 90, haverá sempre melómanos como eu para comprar música, seja em formato físico, em download digital (como no iTunes), ou no novo formato telepático que há de vir. Mas para venderem mais, as editoras têm que baixar o preço dos discos, que é inadequado. Como? Redefinam-se. Cortem nos intermediários. Antecipem-se à pirataria, disponibilizem o álbum para download gratuito em mp3 e deixem o consumidor ouvi-lo dez vezes, depois fixem um preço justo para ele continuar a ouvi-lo em FLAC, ou noutro formato de qualidade. E os serviços de streaming, se querem ser a alternativa, também têm que aceitar menor parte do bolo e pagar melhor aos artistas. Isto é válido principalmente para o Spotify, que segundo um estudo do Nextshark (vejam em baixo o gráfico completo com a divisão detalhada de lucros em todos os formatos) paga 5 vezes menos que o Tidal. O Youtube paga ainda menos que o Spotify, o que me deixa sem saber para que serve afinal toda aquela publicidade irritante antes dos vídeos.



Poderia também advogar que se as editoras estão em dificuldades, é porque apostam na música errada, segura, formatada, desinteressante. Mas isso é outra discussão. Ou talvez seja a outra face do mesmo problema.
Pela minha parte, apenas faço votos que se um dia formos todos presos por fazer downloads de música, espero que pelo menos nos separem por género musical. É o mínimo.


Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Segunda-Feira, 27 de Julho de 2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

Carta aberta à Música no Coração

Como cronista musical da NiT, e autor do artigo de opinião que causou "grande mal estar" na Música no Coração, informo o seguinte.
Caros senhores da Música no Coração,

Como cronista musical da NiT, e autor do artigo de opinião que, aparentemente, causou "grande mal estar" na vossa agência, que por isso me barrou a entrada, bem como à restante equipa da NiT, no Super Bock Super Rock, impedindo-nos de fazer a cobertura do festival adequadamente, venho informar que... não guardo rancores.

A verdade é que ninguém gosta de levar um ban. Nem nos tempos do mIRC se gostava. E por isso mesmo eu vos escrevo esta missiva; para vos contar que esse ban foi apenas e só um equívoco. Mas um equívoco uncool e muito, muito pouco Super Rock.
Mesmo sem a acreditação, mesmo de muletas, eu fui na mesma ao festival, como podem comprovar pelas minhas crónicas do primeiro e segundo dias (no terceiro cedi às dores no pé). Se lerem as minhas crónicas, verão que vos elogiei e vos critiquei, directa e descomplexadamente, como sempre fiz e sempre farei.

Fui ao SBSR porque eu estou nisto pela música. Não gosto de politiquices, sou independente e não preciso de favores de ninguém. Quando quero ir a um concerto, vou. Se é música e eu gosto, vou. Ponto final. Entre os gastos com a minha coleção de discos, os bilhetes para concertos e as viagens é fácil perceber que não estou na música para ganhar dinheiro. Mas ganho tudo o que a música me dá e isso chega-me para continuar a palmilhar terreno. Fui ao SBSR porque o cartaz era excelente, o melhor de 2015 no que toca ao palco principal. Noel Gallagher, Sting, Blur (concerto do ano), é um cartaz imbatível. Por isso fui na mesma, sem rancores.

O problema aqui foram, aparentemente, as minhas palavras sobre o Sudoeste, numa crónica onde me limitei a escrever o que os festivaleiros comentam há vários anos e que, talvez por isso, teve 45 mil visualizações só neste mês. Meus senhores, eu estou nisto para separar o trigo do joio, por isso é que me chamam de crítico (nome que eu detesto). De outra forma, seria apenas um cocksucker. E eu sei que disse que amo o Damon Albarn, mas calma.

Estou aqui também para vos avisar da ratoeira da swaguização onde estão a cair, como o cartaz do Sudoeste, ou a aberração da zona VIP no SBSR. Que era aquilo? Deixar o Noel actuar para uma plateia com uma clareira enorme lá à frente, porque as Kakás e as Tetés estavam a jantar, ou a escolher a marca de gin? Não percebem como isto é errado? Isto é o tipo de coisa que atrai a "Caras" e os bandwagoners, mas afasta os festivaleiros e os amantes da música. Se matam a pureza do conceito, quando a moda passar e os bandwagoners abandonarem os festivais, quem é que fica para vos segurar a mão?

Estou aqui e estou do vosso lado, porque eu sei que vocês também gostam de música. Sei que têm uma história, que perderam dinheiro quando cá trouxeram o Bowie em 1996, que quiseram levar o Rock para a praia (no Meco) e que isso foi uma grande ideia que quase resultou (os acessos e o pó que nunca mais acabava estragaram tudo), que tiveram uma contribuição fundamental nos festivais em Portugal. E por isso estou aqui para vos ajudar a não destruir o bebé que ajudaram a criar.

Como disse, não guardo rancores. Ainda vamos todos beber umas jolas juntos e rir-nos à brava deste equívoco e claro, do cartaz do Sudoeste.



Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Terça-Feira, 21 de Julho de 2015

sábado, 18 de julho de 2015

Super Bock Super Rock — Dia 2: Savages abanaram o festival, Blur mandaram tudo abaixo

Noite magnifica em que o rock voltou à cidade. Pena que a swaguização tenha vindo atrás.



O segundo dia do Super Bock Super Rock começa com as Savages no Palco EDP, sob a pala do Pavilhão de Portugal e uma grande expectativa. A banda post-punk londrina traz ainda o seu primeiro álbum a Lisboa, mas já lhe acrescenta alguns temas novos. Actuam ao pôr-do-sol para uma plateia ainda pouco composta, mas elas precisam da escuridão da noite. O cenário muda rapidamente, assim que as miúdas enchem o espaço de decibéis e a noite cai no Parque das Nações.

As Savages são exactamente o oposto daquilo que nos disseram que uma banda feminina devia ser: não há imagem nas Savages. Não sabemos se elas são bonitas ou não. Elas estão sempre em contraluz, vestidas de preto. Não se vêem imagens da banda no ecrã, não se vê uma cara, nada. São uma banda anónima. À distância que estou (sentado cá atrás na zona de mobilidade reduzida), podiam ser uma banda de aliens e eu não dava pela diferença. Mas elas não precisam de ser meninas bonitas. Isso não interessa. Elas vieram aqui para despejar Rock N' Roll e é exactamente isso que estão a fazer. Who said girls can't rock? Quem? Bem, talvez eu próprio o tenha dito... Mas retiro o que disse. All hail the Savages.

O Palco EDP tem a sua maior enchente do dia pouco depois, para Bombay Bicycle Club. A banda Indie Folk britânica, que fechou o histórico Earls Court no ano passado (com a ajuda de David Gilmour dos Pink Floyd), traz também muita expectativa e muita gente de propósito para os ver. Mas quem entra em palco depois das Savages fica com uma bitola difícil de bater e os Bombay não estiveram à altura da tarefa. E não foi por causa do volume. O baixo dos Bombay estava tão potente, que me pôr a olhar para a pala do Pavilhão de Portugal. Mas isso era o Engenheiro em mim a preocupar-se demais.

Olho lá para a frente no Palco EDP e vejo a mesma aberração que notara no dia anterior na MEO Arena: a zona VIP. Que é isto? Para quem não sabe, a zona VIP é uma área exageradamente grande situada em frente ao palco, ocupando quase metade do espaço, que é roubado aos fãs das bandas que foram para as grades às 5 da tarde, alimentados a sandes e muito pouca água (porque uma ida à casa de banho deita tudo a perder). Que provincianismo é este? Será que as Kakás e as Tetés precisam mesmo de uma zona dedicada à frente do palco, só para entrarem quando o Noel toca o "Whatever", ou outro êxito "que dá na RFM" passa no palco? O próprio Noel tinha mandado a bicada no dia anterior — "Did you all came from the bar?!" — , quando foi obrigado a actuar para uma MEO Arena com uma enorme clareira logo ali à frente, porque os senhores VIP estavam mais preocupados a escolher a marca do gin, do que com a música que vinha do palco. O rock voltou à cidade e isso é fixe, mas a swaguização não precisa de vir atrás, obrigado.


Divido o meu tempo entre Bombay no EDP e dEUS no Palco Super Bock. Corro com a velocidade que as canadianas me permitem para a MEO Arena e ainda apanho metade do concerto. A banda belga traz o seu Indie Rock pujante e cumpre em palco, com o solo estendido de "Instant Street" a entrar directamente para o panteão dos momentos do festival. A plateia está já bem composta na MEO Arena, mas a banda dos anos 90 não parece convencer o público, que já está à espera da banda que fecha a noite no palco principal.

Os Blur chegam a palco sorridentes e entram a abrir com o novo single "Go Out" — e que single, "o melhor do ano" segundo o inimigo nº 1 da banda Liam Gallagher — e partem tudo com o clássico "There's No Other Way", do seu álbum de estreia "Leisure". De 1991, imaginem. Em 2015, ainda soa a Pop fresquinha, acabadinha de sair do gelo. Damon vem com a corda toda e salta para o meio do público em "Lonesome Street". Que monstro, que animal de palco. Damon salta e canta como se estivesse a cantar os temas pela primeira vez. Eu amo este homem.

Os Blur têm tudo aquilo que uma banda de palco principal deve ter e ainda lhe injectam a imprevisibilidade dos fora-de-série. O SBSR acertou na mouche no alinhamento do palco principal deste ano, o melhor de todos os festivais (no palco principal). Mas estragam tudo com a escolha do espaço, com a acústica de uma casa de banho de estação de serviço. Damon vai buscar a guitarra acústica para um tema mais soft como "Coffee & TV" e o som abominável do Atlântico dá logo sinal de si. Que salganhada se ouve no pavilhão.

O volume volta a aumentar e a casa vem abaixo pela primeira vez com "Beetlebum". Levantam-se uns malucos na bancada a fazer air guitar, naquele solo final que se parece estender até à eternidade. Talvez um desses maluquinhos até tenha sido eu. O ritmo do concerto abranda com o novo — mas excelente — "Thought I Was A Spaceman". O recente "The Magic Whip" tem algumas grandes malhas e esta é seguramente uma delas.Termina "Tender" e vejo alguma desilusão na banda. Eles estão à espera que o público cante até ao infinito o refrão "Oh my baby, oh my baby, oh why, oh my", como sempre acontece nos seus concertos. Mas o público não viu os vídeos no Youtube e não corresponde. Que pena.

Talvez porque sente que ainda precisa de ganhar o público, Damon chama um fã para fazer a parte de Phil Daniels em "Parklife". É o momento da noite. Mas o fã está tão entusiasmado, que se limita a abraçar Damon e a correr atrás dele, esquecendo-se de fazer a sua parte. Mas isso não importa, Damon conseguiu o que queria. Se dúvidas houvesse, agora o público mora na sua mão e já ninguém se senta na MEO Arena. Os êxitos continuam a sair em catadupa e a casa vem abaixo em "Song 2", com a mosh a ficar agreste em frente ao palco. Apetece-me deixar as canadianas e saltar lá para o meio. Maldito pé estragado.

O encore traz mais três momentos inolvidáveis: "Girls & Boys", para testar a memória e a dicção do público ("girls who want boys who like boys to be girls who do boys like they're girls who do girls like they're boys" — não é fácil); "For Tomorrow", para os fãs mais fiéis do brilhante "Modern Life Is Rubbish"; "The Universal", para toda a gente. Foi um final perfeito, para uma noite de emoções fortes.

Concerto da noite? Naaaa. Concerto do festival? É pouco. Blur foi o concerto do ano em Portugal. Bombástico, arrebatador, estrondoso. Veio tudo abaixo com Blur. Que noite magnífica.

Os Blur tocaram:
"Go Out"
"There's No Other Way"
"Lonesome Street"
"Badhead"
"Coffee & TV"
"Out of Time"
"Beetlebum"
"Thought I Was a Spaceman"
"Trimm Trabb"
"He Thought of Cars"
"End of a Century"
"Tender"
"Trouble in the Message Centre"
"Parklife"
"Ong Ong"
"Song 2"
"To the End"
"This Is A Low" 
Encore:
"Stereotypes"
"Girls & Boys"
"For Tomorrow"
"The Universal"

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Os dias mais felizes das nossas vidas

Esta é a história de uma cabra.



Em 1979, os Pink Floyd lançaram "The Wall", uma obra autobiográfica de Roger Waters que dividia a sua vida em quatro lados de vinil. O primeiro era dedicado à sua infância e daí saiu o êxito "Another Brick In The Wall Pt.2", com a célebre linha "Hey, teacher! Leave the kids alone!". Antes desse tema vinha "The Happiest Days Of Our Lives", uma tirada irónica sobre como são felizes os dias da nossa infância. Só que não são. Mas esta não é uma história sobre os Pink Floyd. Esta é a história de uma cabra.
"Os dias mais felizes da nossa vida", uma ova. A infância só é boa quando estamos a pagar as contas e olhamos para trás, com saudade do tempo em que não abríamos a carteira, seletivamente esquecendo tudo o que passámos até ali.

A verdade é esta: a infância é uma merda. Ser miúdo é ser oprimido pelos pais, oprimido pelos professores, oprimido pelos mais velhos, oprimido pelos bullies no recreio. É um caminho percorrido de derrota em derrota, até à vitória final, a da liberdade, da independência.

Na nossa turma da primária não havia bullies, mas havia rivalidades e a ocasional cena de pancadaria. O normal. Uma coisa nos unia, porém: como todas as crianças, detestávamos ir ao circo. Aliás, ao fim de 20 anos, ainda estou para perceber qual o apelo naquele espectáculo que as crianças detestam e os adultos abominam, mas que todos assistem com aquele entusiasmo de quem vai a um festival à espera dos Foo Fighters e depois tem que levar com os Florence and The Machine.

Do circo, salvava-se uma coisa: quando íamos pela escola, o caminho pela cidade era uma paródia. E era preferível a ter Estudo do Meio.

Foi aí, numa tenda de circo em Castelo Branco, que vivemos o ponto alto da nossa infância. Depois dos palhaços (outro enigma da sociedade), dos leões e de todos aqueles números que não nos interessavam, apareceu uma cabra. Uma cabra? Sim, uma cabra. Estava ali, imóvel, pachorrenta, posicionada ao fundo de uma escadaria metálica em caracol. Ninguém sabia ao que vinha. Até que rebenta nas colunas do circo o êxito da época "La Cabra", num volume tão alto, que parecia que tinha soado o alarme dos bombeiros. A cabra começa a subir as escadas. Era este o número.


Para quem não conhece, "La Cabra" foi um tema chavasqueiro dos anos 90 que rezava assim: "La cabra, la cabra, la puta de la cabra, la madre que la parió" (não será necessário traduzir). É agora pertinente recordar que a audiência era formada por crianças entre os 3 e os 9 anos, que frequentavam o Jardim-Escola João de Deus de Castelo Branco.

Foi o nosso momento. Aquela palavra proibida do "pê", que pais e professores nos ordenavam calar e nos castigavam por dizer, estava ali a ser difundida em emissores gigantescos. Ao pânico das professoras, lestas em exigir a interrupção imediata do som, a turma reagia num êxtase reminiscente da cena do futebol em "Sleepers", ou da cena da ópera em "Shawshawk Redemption". No meio de tantas derrotas, aquela música foi a nossa vitória. No meio de tanto silêncio, aquela música foi a nossa ópera. E nós abraçados, aos saltos, rivalidades esquecidas, amizades eternas prometidas, a rir e a festejar aquele triunfo, como se de uma medalha olímpica se tratasse. Durante aqueles minutos, demos a volta ao marcador, ganhámos, fomos livres. A música da cabra deu-nos uma vitória tão grande e tão pura, que duraria por anos a fio.

Tínhamos 9 anos. A partir daí, foi sempre a descer. Até ao primeiro ordenado.

Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Segunda-Feira, 22 de Junho de 2015

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Uma overdose de vinil

A minha droga é a música e a coca pura chama-se vinil.

Os meus amigos têm-se queixado que nas últimas semanas não tenho saído à rua. E com razão. Desde que redescobri todos os meus álbuns preferidos nos discos de vinil, não tenho cabeça para outra coisa. Ao pé da minha colecção de discos, sinto-me como a Amy Winehouse numa rave na casa de um traficante de cocaína colombiano. A minha droga é a música e a coca pura chama-se vinil.

Nas últimas semanas, a minha colecção de LPs cresceu ao ritmo de um incêndio de Verão no pinhal da Pampilhosa da Serra, queimando todo o espaço ocupado por CDs nas minhas prateleiras. Tenho muito orgulho na minha colecção, que só é rivalizada pela Fnac do Colombo (eles têm a Mono Box dos Beatles, eu (ainda) não) e por aquele maluquinho brasileiro que tem 3 milhões de discos no armazém. Construí-a com muito carinho, muito tempo perdido e claro, muito dinheiro torrado. Só na semana passada, vim de Marselha (onde fui ver o Macca) carregado com 48 discos do melhor loja de discos onde já entrei Tangerines Musiques.

Aquele na foto sou eu, armado em Tio Patinhas, a nadar numa piscina de vinis. O Patinhas tinha as moedas, eu é mais discos. Mas nem sempre foi assim.

Antes desta febre do vinil que me assolou nas últimas semanas, eu andava perdido, sem rumo, a resvalar para a ratoeira do MP3. Estava como o Fernando Couto, que dizia ter "caído nas malhas da nandrolona", como se tivesse tropeçado num lancil. Música em MP3 no telemóvel não é música, é nandrolona. E a nandrolona não bate como a coca (é o que me dizem). Não há prazer nenhum na nandrolona, só há a tentação do menor esforço. O MP3 é o whisky barato (malta, o Ballantine's de bom, só tem mesmo a música da publicidade), é o louro prensado vendido como haxixe na baixa de Lisboa, é fazer chichi na cama — bom e quentinho no início, irritante e nojento no fim. Uma merda.

O clique que me trouxe de volta à verdade foi "The Miracle". Não foi um milagre, foi o álbum dos Queen. O álbum não é sequer um dos meus preferidos, mas quando ouvi o baixo no "Breakthru"... Foi como se estivesse uma vida inteira a jogar Super Mario em 2D no Game Boy (para os mais novos, pensem numa Nintendo DS, mas a preto e branco e em formato calhau) e depois passasse para o Super Mario Galaxy na Wii, com gráficos em 3D e banda sonora orquestral. De repente, a música ganhou uma terceira dimensão. Tudo soava maior, mais vivo, mais encorpado. Digo isto sem snobismos de qualquer espécie. O vinil não é um snobismo, é um direito que nos assiste de ouvirmos música conforme era suposto que ouvíssemos. A diferença não se explica,ouve-se. Até porque, para vos descrever melhor esta sensação, sinto que teria que ir a uma prova de vinhos para ganhar vocabulário.

Desde este Breakthru (olha que belo trocadilho), gastei mais de metade do meu salário num gira-discos novo e o investimento não ficará por aqui. Neste momento, tenho no prato uma prensagem alemã de um álbum dos Floyd e é das coisas mais maravilhosas que já ouvi. Não quero sair daqui. Não compreendo sequer como é suposto eu ter uma vida lá fora. Os meus amigos queixam-se da minha ausência, mas quem tem sofrido a sério é a minha vizinha de baixo. Lara, se estás a ler isto, desculpa lá. Pensa assim: se eu gostasse de música House, era bem pior. Para ambos.

Originalmente publicado na NiT aqui, a 15/06/2015

segunda-feira, 8 de junho de 2015

O Evangelho segundo Paul

Que interessam o líder da religião Católica, o presidente dos EUA, ou o da Rússia, se nenhum deles esteve nos Beatles?


O Novo Testamento reuniu os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Paulo, o Apóstolo, também contribuiu para as Escrituras Sagradas com treze epístolas onde pregava a doutrina de Jesus. Quase dois mil anos depois, outro Paulo surge com novos escritos sagrados e uma nova doutrina. The Beatles, chamavam-lhe. "Maiores que Jesus", chegou a atirar João – outro dos novos evangelistas – sobre o impacto das frescas epístolas.

Cinquenta anos mais tarde, esses mesmos escritos continuam a ser celebrados numa festa que transcende gerações, cores e culturas, provando a imortalidade dos novos escritos. Não é a missa, é um concerto de Paul McCartney.

Estou entusiasmado, é evidente. Neste fim-de-semana, fui a Marselha para ver, ouvir e estar perto do homem mais importante do mundo. Papa Francisco? Obama? Putin? Deixem-me rir. Que interessam o líder da religião Católica, o presidente dos EUA, ou o da Rússia, se nenhum deles esteve nos Beatles?

Paul levou ao novo Velódrome o seu Evangelho e tocou 40 temas durante três horas. Tocou sem rede, sem playback, sem grandes props (excetuando em "Live And Let Die" onde foi despejada uma quantidade de pirotecnia de fazer inveja ao réveillon da Madeira), desafinando quando a voz não dava para mais e desafiando as mais ousadas previsões para um concerto de um rocker de 72 anos. Um puro e cru show Rock.

Paul levou ao novo Velódrome o seu Evangelho e tocou 40 temas durante três horas

Com aquela cara de miúdo (que inacreditavelmente ainda mantém), Paul pode não ser o mais convincente dos rockers, mas nem por isso deixa de ser um dos melhores de todos. Já depois de duas horas em palco e de um rol inesgotável de clássicos dos Beatles, Paul arrancou para o último terço do espetáculo com a sequência "Band On The Run" / "Back In The USSR" / "Live And Let Die". Sempre a abrir. E quando chegou ao último encore, ainda teve forças para recuperar um dos berços do heavy rock, "Helter Skelter" e mandar a casa abaixo. Foi a estocada final. Pelo menos para mim, que após 3 horas de espera debaixo de um calor abrasador e 3 horas de concerto a cantar a plenos pulmões, ali perdi os sentidos durante uma fração de segundo e só fui amparado pelo mais próximo fiel de Paul.


No fim, estava demasiado subnutrido, desidratado, exausto para ter a noção do que acabara de presenciar. Só na manhã seguinte, e na outra, e na outra, começou a aterrar em mim a verdadeira dimensão daquela noite. Macca ao vivo é um investimento certo, uma memória que se capitaliza com o passar dos dias, um ativo para o resto da vida.

Foram 3 horas e 40 temas, mas 40 temas que souberam a pouco. Não que a minha voz e as minhas pernas aguentassem mais (já estava mais preso por arames que um treinador no Sporting), mas onde ficaram clássicos como "Sgt. Pepper", "Magical Mystery Tour", "I Saw Her Standing There", "Drive My Car", "Hello, Goodbye", "I'm Down", ou (podia ficar aqui o dia todo) "Get Back"? Imperdoável, Paul.Ok, perdoo-te com uma condição: volta a Portugal e vem evangelizar esta malta. Já temos o Papa Francisco em 2017, tratemos agora de garantir o Evangelho que mais interessa.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O que raio se passou com os Coldplay?

Os Coldplay são hoje iguais a tudo o resto que passa na rádio.

Eu sei que hoje não é cool dizê-lo, mas houve um tempo em que eu era fã dos Coldplay. Eles são uma banda competente, sabem o que é uma melodia e o Chris Martin é um tipo afável, que sabe escrever uma canção. Então porque será que o novo ex-namorado de Jennifer Lawrence faz de tudo para que eu deteste a sua banda?

Recuemos 14 anos. Na viragem do milénio, o mais entusiasmante movimento musical das últimas duas décadas — o Britpop — estava já a dar as últimas, numa lenta decadência que teve início no advento das Girlsbands/Boysbands (Spice Girls, Backstreet Boys…) e que teve a estocada final no surgimento do Hip Hop comercial (com Eminem à cabeça) e na sua eventual fusão com o Rock — o Nu Metal (Limp Bizkit, Korn…).

Neste panorama desfavorável para as bandas melódicas do Reino Unido, apareceram os Coldplay, num último suspiro do Britpop. Contra a corrente, os Coldplay assumiram o topo das tabelas britânicas com o seu álbum de estreia “Parachutes”, destronando (curiosa e simbolicamente) Eminem. Parecia uma lufada de ar fresco que vinha animar os anos 00.


Avancemos novamente 14 anos e fica a pergunta: o que raio se passou com os Coldplay? Eu ouço estes últimos dois álbuns e nem quero acreditar que esta é a mesma banda que um dia me abanou com “Shiver”, ou mais recentemente com “Violet Hill”.

O que se passou? Passou-se que aos Coldplay não bastavam as melodias de “Parachutes”, a aclamação critica de “A Rush Of Blood To The Head”, as múltiplas platinas de “X&Y”, ou a excelência sónica de “Viva La Vida”. Os Coldplay queriam mais: queriam a omnipresença, a integração total na paisagem de cada momento, o domínio das tabelas independente à moda vigente. Qual o caminho mais fácil? Adoptando a sonoridade da moda vigente.

Eu não tenho nada contra bandas que gostam de estar nas tabelas, ainda há umas semanas elogiei aqui os U2 e os tomates que tiveram na promoção viral do seu novo álbum. Pelo menos os U2 (com quem os Coldplay são constantemente comparados) tentam molhar a sopa sempre que aparecem. Aos Coldplay, o melhor elogio que posso fazer neste momento, é que são inexoravelmente banais. E que talvez por isso, é que mesmo em tempo de acentuada crise na indústria discográfica, eles continuam a bater recordes de vendas.

Os Coldplay são hoje iguais a tudo o resto que passa na rádio. Em nome do apelo comercial, projectaram as suas melodias num ecrã IMAX com efeitos especiais de Avicii e Hardwell e contribuíram na mesma medida que estes para o enriquecimento musical das massas. Como perguntava no outro dia o Boinas: “desde quando é que passou a ser obrigatório que todas as rádios sejam a Orbital?”.

Esta semana Chris Martin lamentou-se que pediu a David Bowie para cantar um dos seus novos temas e que este recusou, por achar que não era um dos seus melhores trabalhos. Bowie deu-lhe o toque, falta saber se que Chris percebeu a mensagem. Querem saber o que raio se passou com os Coldplay? Perguntem ao David Bowie, ele explica.

(publicado originalmente a 15 de Dezembro de 2014)