segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Freddie Mercury, o grande fingidor

A vida e a música do eterno vocalista dos Queen, na semana da reedição da sua discografia a solo

Em Novembro de 1986, com os Queen ainda a recuperar de uma mega-digressão que enchera Knebworth, Wembley (duas vezes) e mais de 20 estádios por toda a Europa, Freddie Mercury dava entrada nos estúdios Townhouse, em Londres, para gravar um cover. Parecia ser mais uma bizarra decisão na errática carreira a solo de Freddie. Mas para mim, a escolha de "The Great Pretender", originalmente gravado pelos The Platters em 1965, foi tudo menos um acto aleatório. Freddie começou aqui uma série de mensagens subliminares para os seus fãs, preparando-os para o que aí vinha. O que ele queria dizer, a quem estivesse com atenção, é que era ele o grande fingidor. Ele sim era o "The Great Pretender". Ninguém o levou a sério.

Freddie era um homem frágil. Vendo-o em cima do palco, ninguém diria. Ali, ele usava a máscara de macho dominante, uma força da natureza que aliava uma voz divina a uma presença em palco nunca vista antes ou depois. Ali, ele podia fingir. Mas fora das luzes e dos decibéis, onde não podia fugir à realidade, Freddie era extremamente inseguro. O seu alter-ego artístico era a bolha que o distanciava dos demais e o protegia do mundo lá fora, mas ao mesmo tempo era a prisão que o sufocava. Freddie aparentava ter muito amor à sua volta, mas sentia-se terrivelmente solitário, lamentando não ter ninguém que o compreendesse: "People have a hard time to accept me as a normal person. I'd like to share my life with someone, but nobody wants to share their life with me. The more I open up, the more I get hurt. I'm riddled with scars and I just don't want it anymore."

Freddie tinha criado uma projecção monstruosa de si mesmo que se tornara impenetrável, mesmo na sua vida pessoal. O seu alter-ego alienava toda a gente do seu verdadeiro "eu" — um homem por um lado era extremamente intenso, perigosamente volátil e de temperamento difícil, mas que no seu downtime era, segundo o próprio, apenas "aborrecido". No fim de contas, era apenas um homem à procura de aceitação. E não somos todos? Como diria o David Bowie, "apenas um mortal com o potencial de um super-homem". A única forma de Freddie fugir a este novelo que atara com a sua própria imagem era, claro está, fingindo. Através da sua música.

Não é por acaso que a música de Freddie Mercury aborda tantas vezes o tópico da solidão. E se nos Queen ele tinha algum freio, talvez devido à sua timidez ou à protecção da sua máscara ("It's A Hard Life", ou "My Melancholy Blues" são raros exemplos), quando chegou a altura de gravar o seu primeiro álbum a solo em 1983 — "Mr. Bad Guy" —, Freddie foi a todo gás para dentro da sua mente: "Living On My Own" é auto-explicativo; "Man Made Paradise" pinta o cenário da sua vida — "History repeats itself, I seem to be all by myself again"; "Mr. Bad Guy" e "My Love Is Dangerous" são um auto-retrato de um vilão — "everyone's afraid of me" / "step carefully"; "Love Me Like There's No Tomorrow" fecha o álbum confessionalmente — "God knows I learnt to play the lonely man, I've never felt so alone in all my life". É tudo extremamente pessoal. Quase incomodamente pessoal.

Por outro lado, de uma forma perversa, os temas de "Mr. Bad Guy" aliam estas letras extremamente sombrias, profundas e pessoais, a música tentativamente Gay Disco, feita com sintetizadores low budget que parecem ter vindo do Toys R Us e a uma produção barata, indigna de um disco com a assinatura do mesmo homem que em tempos escreveu "Bohemian Rhapsody". Deve ter sido estarrecedor para quem foi comprar o álbum a solo de Freddie em 1985 e se deparou com isto. É quase como que Freddie não quisesse que o público dos Queen ouvisse o seu álbum; como se ele a meio ficasse tímido ou inseguro com a forma como se estava a expor e decidisse sabotar intencionalmente o seu próprio disco. Até o título do álbum, que esteve até à ultima hora para se chamar "Made In Heaven", foi violentado. Parece ridículo, eu sei. Mas como explicar que as faixas vocais de Freddie, que deveriam ser o pano frontal da sua musica A SOLO, foram colocadas debaixo de um papel vegetal, como se Freddie estivesse a cantar na sala ao lado?

Mas tudo isto era Freddie. Uma soma de contradições explosiva e por demais fascinante. É por isto que "Mr. Bad Guy" é um álbum tão importante para perceber quem era o verdadeiro Freddie Mercury. O outro lado de "Don't Stop Me Know" é este. Nesta altura faltava-lhe o Dr. Brian May para lhe pôr o freio e Freddie deixou-se descarrilar.

Não é por isso difícil perceber que "Mr. Bad Guy" seja o patinho feio da discografia de Freddie Mercury (juntamente com "Hot Space" dos Queen, mas esse ainda foi calibrado pelo nosso astrofísico favorito). No filme "Bohemian Rhapsody", o álbum é demonizado como o disco terrível que separou os Queen. Desde o seu lançamento original em 1985, "Mr. Bad Guy" nunca mais foi revisitado. Até agora.

Uma vez que os Queen, os verdadeiros, foram votados ao esquecimento pelo Dr. Brian May e pelo Sr. Roger Taylor, demasiado ocupados a viver o sonho Americano com um cantor de cabaret nas asas do filme, abriu-se a janela natalícia para um lançamento de Freddie Mercury a solo. E Jim Beach, manager dos Queen, aproveitou para revelar a muito adiada remistura de "Mr. Bad Guy". E em boa hora o fez. Numa altura em que a imagem de Freddie é progressivamente saneada, nada melhor que recordar que para além do Bom, Freddie também tinha o Mau e o Vilão. E que era nestas linhas turvas que se desenhava a personagem mais apaixonante da História da música.

Para além da nova remistura de "Mr. Bad Guy", chegou também uma reedição da versão 2012 de "Barcelona", quando foi totalmente regravado com uma orquestra real, substituindo os sintetizadores do álbum original. E para fechar a quadra dedicada a Freddie, veio também a nova compilação "Never Boring", cujo nome foi retirado do famoso pedido que Freddie fez a Jim Beach, quando o nomeou como o seu executor testamentário e representante legal nos Queen: "Do whatever you want with my music, just never make me boring". Foi um pedido que nem sempre foi satisfeito, mas certamente que tal não foi por falta de vontade do "Miami" Beach.

Os três discos foram lançados na sexta-feira e eu passei o fim de semana a ouvir estas reedições, a reconectar-me com a discografia a solo do Freddie e a relembrar-me de como o amo. A nova remistura de "Mr. Bad Guy" é absolutamente essencial. Pela primeira vez, não parece que Freddie está a cantar noutra sala. Os sintetizadores baratos continuam lá, como sempre feios que dói, mas a composição de Freddie continua intocável e beneficia agora de uma produção mais afinada, que faz o álbum ganhar uma nova vida. Estou há 4 dias a ouvir isto num loop compulsivo.

Também a colectânea "Never Boring" traz novas remisturas das faixas avulsas de Freddie, caso de "The Great Pretender". Este é o caso de um tema que não precisava de uma remistura, mas a nova versão vale por fazer sobressair outros detalhes que antes estavam escondidos. Já a regravação de "Barcelona" datada de 2012 é exactamente isso. Datada de 2012. A gravação original, provavelmente a gravação mais próxima do divino de toda a História da música, essa é intemporal.

Freddie era o grande fingidor, mas fingia menos nos seus discos a solo. Era ali que ele deixava escapar tudo o que não conseguia dizer nos muito mais expostos discos dos Queen. É ali que podemos perceber que grande parte da grandeza deste homem vem da sua própria escuridão. E é por isso que todos estes 3 discos são documentos essenciais para a compreensão do verdadeiro Freddie Mercury. Se pelo menos o tivéssemos ouvido.

P.S.: Se não conhecem a fundo os trabalhos a solo de Freddie Mercury, aconselho-vos vivamente ouvirem esta playlist:

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Springsteen e eu

Como a música de Bruce Springsteen salvou a minha vida

Hoje faz anos um dos meus heróis. Não usa capa, não tem uma banda desenhada, mas salva vidas. Vidas como a minha. Bruce Springsteen é muito mais do que um mero herói. Os heróis têm uma vida finita e perfeita. Vivem durante um filme, um livro, uma música. Bruce é real, com todas as imperfeições que tal encerra e que constroem um personagem muito mais complexo. Um personagem que vai viver para sempre, ou pelo menos muitos anos para além da sua vida. Pelo menos e certamente enquanto eu viver e puder contar a história do meu herói.

Sabem aquele ditado que diz que nunca devem conhecer os vossos heróis? Não se aplica a Bruce Springsteen. Quando tive a honra de conhecer o meu herói numa tórrida tarde de Verão em 2014, depois de 8 horas e meia debaixo do sol à espera dele, Bruce foi tudo aquilo que eu imaginei e mais ainda que um herói pudesse ser. Quando lhe pedi para tirar uma foto comigo, ele acenou com a cabeça - o aceno mais cool que vi em toda a minha vida -, pôs-me a mão nas costas e perguntou com aquela voz deliciosamente rouca: "Ok, man, ok... Where do I look?". Eu apontei para a Cristina, que tinha o meu telemóvel e que, coitada, tremia que nem varas verdes e chorava baba e ranho. Pudera. Ela tinha acabado de dar um beijo ao Bruce e ainda estava a suster aquele nirvana. Agora tinha a tarefa hercúlea de capturar um momento chave da minha vida com uma foto. Eu e o Bruce ficámos em contraluz, mas isso acabou por dar um efeito mais etéreo à fotografia, como que se a objectiva tivesse ficado encadeada por aquele momento.


Depois saímos do hotel e no meio do banho de multidão à porta, ainda tive tempo de lhe dar o meu primeiro "Darkness In The Edge Of Town" para ele assinar. O momento ficou capturado noutra foto, onde os meus olhos brilham intensamente, a olhar o meu herói assinar o disco com que ele salvara a minha vida nos anos transactos. Com os olhos lavados em lágrimas de alegria e alívio, voltei para o carro e senti que se tinha fechado um ciclo na minha vida. Outro disco se seguiria. Outro álbum onde Bruce contaria a sua história e onde eu pudesse ler ali a minha. E assim aconteceu.

O ciclo de "Darkness" começara em Dezembro de 2008, com o meu choque frontal com a realidade da vida adulta. Ao mesmo tempo que acabava o curso no Técnico e começava uma vida rotineira de trabalho, terminava a relação mais sólida e duradoura da minha vida, a qual durou os 5 anos de faculdade. Tinham sido os meus anos "Born To Run" — o álbum onde o Bruce estampou todos os seus, e meus, sonhos de juventude. Quando nada parece impossível e o mundo parece estar ali, de braços abertos, à nossa espera. E parecia estar mesmo.

https://www.youtube.com/watch?v=nGqjav-KbDU&t=45s

Em 1975, Bruce Springsteen cometeu a incrível proeza de ser capa das revistas Time e Newsweek na mesma semana. Mas não era só a América que estava aos seus pés. A digressão de promoção de "Born To Run" teve uma passagem triunfal pelo Hammersmith Odeon em Londres, mais tarde documentada num superlativo álbum ao vivo, num concerto promovido com o outdoor "Finally London is ready for Bruce Springsteen & The E Street Band". Nada parecia impossível e a expectativa do mundo era grande, para conhecer o que Bruce tinha na manga para o álbum seguinte.

Mas Bruce prosseguia numa interminável digressão onde entravam e saíam temas novos sem aparente critério e álbum novo, nem vê-lo. O problema era um contrato que Bruce assinara com o seu antigo manager Mike Appel, que estipulava que Bruce recebesse uma ínfima parte dos direitos das suas músicas. Reza a lenda que Bruce assinou este contrato num parque de estacionamento em New Jersey, sem sequer o ler. Na prática, isto significava que a única fonte de rendimento de Bruce Springsteen vinha das suas performances ao vivo, o que o obrigava a andar indefinidamente na estrada para pagar as suas contas. Foi o choque frontal de Bruce Springsteen com a realidade da vida adulta. Desse choque, nasceu um disco — "Darkness On The Edge Of Town".

Nos meses que se seguiram ao meu choque com a realidade, vivi na agonia de quem está perdido e à procura de respostas sobre as grandes questões da vida. Como tantas outras vezes, o universo enviou-me um disco para me dar respostas. Nesse período, descobri "Darkness In The Edge Of Town". Tudo o que eu precisava de ouvir naquele momento estava condensado ali. Bruce tinha a chave, todas as respostas que eu procurava. E as respostas são que não há respostas. Os mistérios permanecem por resolver e acumulam-se numa bagagem que temos carregar e com a qual temos de viver. Essa é a chave. Saber viver com toda a bagagem e continuar nesta maravilhosa viagem.

No trailer para o filme de "Western Stars", que será lançado no próximo mês, Bruce faz um resumo da sua viagem com a própria bagagem: "Life's mysteries remain and deepen. It's answers unresolved. So you walk on through the dark, because that's where the next morning is". Nesta viagem pela escuridão que todos temos que fazer, eu encontrei a minha lanterna — a música de Bruce Springsteen.

P.S.: Se não conhecem a música do Boss, fiquem com uma playlist de Bruce Springsteen para iniciantes:

https://open.spotify.com/playlist/5li6KXJtNsDOXnYFzqxQOS?si=wZYIQyqTSVWg8WMtzF4JIQ&fbclid=IwAR0QtHsr2QX_rRwX9C7mCwaGhSLB6EERdwrLquacPbCrotdyi2hCDsp12nU

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A substância dos New Order

Atenção Paredes de Coura, vem aí uma das melhores bandas de sempre.
(atentem nas calças do Peter Hook)

Não tenho visto muito alarido sobre isto, mas caso não saibam, hoje toca em Portugal uma das melhores, mais inventivas e mais importantes bandas de sempre. Num dos acontecimentos musicais do ano, os New Order actuam mais logo em Paredes de Coura e reforçam a posição do festival como o melhor cartaz deste ano. De muito longe.

Da tragédia da morte de Ian Curtis, nasceu uma das bandas que definiu a cena alternativa dos anos 80. A importância dos New Order não é de somenos. A banda de Manchester representa tudo aquilo que deve significar o Rock 'n' Roll. Isto embora eles estejam longe de ser uma banda Rock tradicional. O que é que eles fazem? Fuck knows. Se forem à Wikipédia, talvez lá diga que é música electrónica, mas se perguntarem ao Peter Hook (que já não está na banda), ele dir-vos-á que no seu auge os New Order eram uma banda de punks. Na verdade, não há nenhuma caixa onde os New Order possam caber. Nunca nenhuma banda desrespeitou tanto e tão consistentemente todas as regras da música como os New Order. E haverá coisa mais Rock 'n' Roll que isso?

Não há qualquer estrutura reconhecível na sua música da primeira metade dos anos 80. Não raras vezes ouvimos os instrumentos fora de tom, já para não falar nas vozes de Bernard Sumner e Peter Hook, que quando se viram desafogadas do dilúvio da produção de Martin Hannett, tiveram carta branca para navegar – e muitas vezes afundar – em mares de desafinação. Depois veio John Robie, o produtor que colaborou com a banda nas sessões de gravação para a banda sonora do filme "Pretty In Pink". Segundo Hooky conta na sua auto-biografia "Substance", Robie matou os New Order quando proferiu as 8 palavras fatais: "Barney, you know you're out of tune, right?". Sabia lá ele.

Até então, os New Order não tinham (nem queriam) ninguém para lhes dizer o que fazer e como fazer, por isso não sabiam se estavam a fazer bem ou mal. E numa discussão mais filosófica, será que sequer existe isso de "fazer mal" na música? Uma coisa é certa - os New Order eram completamente originais. A partir daí, Summer quis começar a trabalhar segundo as regras e isso para Hooky terminou o espírito livre da banda e a sensação que tudo podia acontecer. Mas houve tanto que aconteceu. Nem a metodologia de Barney livrou a banda de algumas das mais bizarras histórias da música. Se virem o filme "24 Hour Party People", podem ter uma ideia.

A banda vivia sob uma gestão caótica, que eu melhor vos posso descrever como de "maços de notas no bolso das calças ". Das calças de Rob Gretton (manager da banda), entenda-se. Tinha tudo para dar buraco e obviamente que deu. Ainda assim, os New Order davam de comer a muita gente. Foram eles que alimentaram a gestão errática da Hacienda (discoteca que detinham em Manchester) e da Factory Records (que impulsionou toda a cena musical de Manchester). Se há um exemplo vivo de um grupo de mecenas, são os New Order com certeza.

Os discos dos New Order eram verdadeiras obras de arte. A banda não olhava a meios para obter um produto de excelência, atendendo às mais excêntricas ideias do designer Peter Saville, o que levou a que chegassem a perder dinheiro com a venda dos seus próprios discos. Foi o caso do 12" single (conhecido em Portugal como maxi-single) de "Blue Monday", que tinha a forma de uma disquete de 8 polegadas (que se usava nos anos 80), e como tal custava mais 1£ a produzir do que o preço de venda ao público. O problema é que o disco vendeu 1 Milhão de cópias e tornou-se o 12" single mais vendido de sempre, recorde que mantém ate hoje. Resultado: 1 milhão de libras de prejuízo para os New Order. E zero fucks given.

Mas não pensem que os New Order ficaram por aqui no rol de decisões incríveis de autofagia financeira. Nem por sombras. Na ressaca do sucesso retumbante de "Blue Monday" em Março de 1983, o qual catapultou a banda para a estratosfera da música alternativa e das pistas de dança, a expectativa era grande para o álbum que se seguia. Só que quando "Power, Corruption And Lies" chegou às lojas em Maio, não tinha o tema que todos queriam ouvir. "Blue Monday"? Nem vê-lo. A inclusão do hit no álbum iria garantir à partida a venda de milhões de cópias. Mas os New Order não seguiam regras nenhumas e com esta revienga trocaram as voltas aos fãs-paraquedistas, que só queriam ouvir o single. Andar na música para fazer dinheiro? Isso é para os outros. Ao invés de privilegiar a parte comercial, os New Order pugnavam por fazer algo honesto, com que se identificassem e com que se pudessem divertir. São uma das bandas mais anti-sistema de sempre.

Não sei se a eloquência destas linhas deixou transparecer, mas os New Order são uma das bandas que eu mais amo e que mais impacto tiveram na minha vida. Foi desde a noite em que eu ouvi um tema hipnotizante no piso de baixo do velhinho Roterdão no Cais do Sodré, muitas luas atrás, e fui perguntar ao DJ que raio era aquilo. Ele olhou-me em choque e respondeu que era o "Everything's Gone Green" dos New Order, uma versão exclusiva à Bélgica. Fiquei fascinado. Na altura conhecia o "Blue Monday" e julgava-os o parente pobre dos Joy Division. O que eu me rio agora quando penso na minha ingenuidade de então. A conselho de um colega de trabalho, comprei uma compilação chamada "Substance 1987" e ali mergulhei durante meses a fio. Foi a banda sonora da minha vida nos meses que se seguiram.

Adorava estar hoje em Paredes de Coura para ver uma das minhas bandas preferidas. O único senão é que vai faltar Peter Hook no palco. Tenho muita pena do que aconteceu com os New Order e o Hooky. A batalha jurídica foi feia e indigna para quem passou tantos anos e tantas desventuras com a sua banda. Ele merecia mais que este desfecho. O Peter Hook é um dos meus ídolos de sempre e autor do melhor livro de Rock 'n' Roll de sempre (o já mencionado "Substance"). A forma como ele se expõe é de uma crueza e honestidade admiráveis. Hooky conta a sua verdade da atribulada História dos New Order (algo que, só por si, já tem suficiente interesse dramático), mas a maravilha é que o faz sem qualquer problema em revelar abertamente sentimentos de ressabiamento, escárnio, ou até inveja. É tudo genuíno e às claras. Hooky não tem medo em se expor completamente e com isso mostra aquilo que significa verdadeiramente o Rock 'n' Roll. Ao contrário do que a maioria pensa, ser Rock 'n' Roll não é ser cool a tempo inteiro. É ser o que quer que se queira ser a tempo inteiro e estar-se bem a cagar para o que os outros pensam ou dizem. Se pelo menos fôssemos todos mais Hooky.

É difícil imaginar os New Order sem o Peter Hook, mas a verdade é que eles se saíram lindamente com o último "Music Complete" (2015), um disco insanamente bom para o descendente arco discográfico da banda. Se forem a caminho de Coura, dêem um abraço por mim a malta de Salford. E façam também um pirete o Barney por aquilo que fez ao Hooky.

P.S.: Para celebrar a vinda dos New Order a Portugal, o London Calling desta semana faz um breve resumo com o melhor do melhor da discografia caótica da banda. Para ouvir aqui no aquecimento do concerto desta noite.

P.P.S.: Disse em cima que os discos dos New Order nos anos 80 eram verdadeiras obras de arte. Por isso desde cedo comecei a coleccionar os 12" singles e hoje aproveito para vos mostrar o espólio de que muito me orgulho.
Tudo o que vêem são prensagens originais da Factory UK, exceptuando o "Everything's Gone Green" e o "Murder", que foram originalmente lançados na Bélgica e que portanto têm aqui as primeiras prensagens da Factory Benelux. O mesmo se aplica ao EP "1981-1982", que serviu para introduzir os New Order nos EUA, aquando da sua (muito atribulada) primeira tourné americana e que está aqui também na sua primeira prensagem da Factory US. Ainda faltam uns quantos, vejam lá se identificam quais. Eis a legenda da foto, de cima para baixo e da esquerda para a direita:

• Ceremony / In A Lonely Place (Factory UK - FAC 33/12) - Mar 1981
• Ceremony / In A Lonely Place [Re-Release] (Factory UK - FAC 33/12) - Sep 1981
• Everything's Gone Green / Mesh (Cries And Whispers) (Factory Benelux - FBNL 8) - Dec 1981
• Temptation / Hurt (Factory UK - FAC 63) - May 1982
• 1981-1982 [EP] (Factory US - FACTUS 8) - 1982

• Blue Monday / The Beach (Factory UK - FAC 73) - 7 Mar 1983
• Thieves Like Us / Lonesome Tonight (Factory UK - FAC 103) - Apr 1984
• Murder / Thieves Like Us (Instrumental) (Factory Benelux - FBN 22) - May 1984
• Sub-Culture / Dub-Vulture (Factory UK - FAC 133) - Nov 1985

• The Perfect Kiss / The Kiss Of Death, Perfect Pit (Factory UK - FAC 103) - May 1985
• Shellshock / Shellcock (Factory UK - FAC 143) - Mar 1986
• State Of The Nation / Shame Of The Nation (Factory UK - FAC 151) - Sep 1986
• Bizarre Love Triangle / Bizarre Dub Triangle (Factory UK - FAC 163) - Nov 1986

• True Faith / 1963 (Factory UK - FAC 183) - Jul 1987
• Touched By The Hand Of God / Touched By The Hand Of Dub (Factory UK - FAC 193) - Dec 1987
• World In Motion... / The B-Side (Facto ry UK - FAC 293) - May 1990
• Substance 1987 [2LP] (Factory UK - FAC 200) - Aug 1987.


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

IDLES, o som de um Reino (Des)Unido

Por que os IDLES são a banda Rock mais importante do Reino Unido na actualidade


Esta sexta-feira viu o lançamento do novo single de 7 polegadas dos IDLES (escrito assim, tudo em maiúsculas) "Mercedes Marxist". À boa maneira antiga, o single traz um B-Side no lado inverso, o igualmente tempestuoso "I Dream Guillotine". Ambas as faixas foram gravadas nas mesmas sessões de estúdio do aclamado "Joy As An Act Of Resistance", aquele que foi considerado aqui como o melhor álbum de 2018. Happy days, como diz o meu chefe.

"Mercedes Marxist" já havia sido disponibilizado no Spotify a 7 de Maio e na altura fiquei a pensar como é que um riff hipnotizante como este tinha ficado de fora do álbum. Segundo Joe Talbot (vocalista dos IDLES), o tema não entrou em "Joy," uma vez que foi uma das primeiras composições após "Brutalism" (o álbum de estreia da banda, lançado em 2017), numa altura que ele se sentia inútil e miserável com a vida que levava. Faltava ao tema o toque de redenção do material que veio a seguir e como tal foi omitido do álbum. Ainda bem que Talbot mudou de ideias e deixou "Mercedes Marxist" ver a luz do dia.

Mas se já conhecíamos o Lado A desde Maio, só agora pudemos ouvir "I Dream Guillotine". E foi ao ouvir a nova faixa no meu commute de sexta-feira de manhã, que me apercebi que nunca tinha escrito sobre os IDLES aqui na NiT. E o crime que isso encerrava. Tempo por isso de falar naquela que é a melhor banda Punk da actualidade.

Corrijo. Dizer que os IDLES são a melhor banda Punk da actualidade será um eufemismo para aquilo que os rapazes de Bristol representam. Os IDLES são a banda Rock mais importante do Reino Unido, e são maiores que este momento. Em primeiro lugar, porque romperam com o marasmo em que vive a cena Rock up-and-coming. Depois, porque voltaram a trazer o Punk ao mainstream (vejam aqui "Danny Nedelko" ao vivo no programa do Jools Holland na BBC) e isso não é de somenos. Lembro que a última vaga Punk que chegou ao grande público foi há 20 anos e tinha como timoneiro bandas que juntavam no seu nome substantivos e algarismos aleatoriamente. Mas a distância que vai dos Blink 182 e dos Sum 41 aos IDLES é incomensurável. Os IDLES são reais e falam de problemas reais. 5 homens dos council estates, cheios de cicatrizes da vida.

A banda de Bristol foi a revelação de 2018 para o grande público, mas para quem andava atento, foi apenas uma confirmação. Eu já levava a lição estudada de "Brutalism", desde que li uma review deliciosamente exagerada, onde o crítico descrevia o disco como a soma de "Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols", "It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back" (Public Enemy), "Fresh Fruit For Rotting Vegetables" (Dead Kennedys) e "Bad Brains", tudo ao mesmo tempo. Embora a descrição fosse desavergonhadamente hiperbólica, foi o suficiente para me gerar curiosidade para ouvir o álbum.

Tratei por isso de arranjar bilhete para o primeiro concerto da digressão do novo álbum que, por sorte e acaso, aconteceu em Kingston, a meia hora de Esher, onde eu trabalho. Foi um daqueles acasos da vida que me apanhou no sítio certo no momento certo. O concerto era na véspera do lançamento de "Joy As An Act Of Resistance" e foi por isso a primeiríssima vez que tocaram os temas do novo disco. Começou as 22:30 e terminou à meia noite, hora do lançamento oficial. Fui por isso um dos primeiros a ouvir temas como "Never Fight A Man With A Perm" (belo conselho) e logo ali percebi a magnitude do que aí vinha. Mas confesso, nem eu estava à espera de tão efusiva recepção por parte do grande público, de uma banda Punk tão in-your-face como os IDLES. Mas talvez seja precisamente isto que precisamos neste momento – uma barragem visceral de emoções e decibéis.

"Joy As Act Of Resistance" caiu no ano passado como um menir gigantesco neste Reino Des(Unido) pelo o Brexit. Os IDLES trouxeram um género novo para o mainstream, que eu só consigo classificar como Art-Punk-Catártico. É Punk, é arte e é catarse. Tudo nos IDLES tem uma razão de ser. A entrega pode ser barulhenta, mas há tanto para explorar na sua música. A mensagem é a mais actual, mais premente e mais convincente que qualquer banda tem para nos dar neste momento: crítica política e social, a varrer todos os assuntos da actualidade, desde o nacionalismo, a emigração, a masculinidade tóxica, a parentalidade moderna e o absurdo confronto sexual que tem separado homens e mulheres. Tudo sem medo, mas com aquele toque de humor witty britânico. Já à musica, ela ora é dotada de uma produção luxuosa ("June"), ora de uma estrutura complexa ("Colossus"), consoante a canção o peça. Os riffs são hipnotizantes ("I'm Scum"), os refrões são monolíticos ("Never Fight A Man With A Perm") e por vezes até tem um certo charme a piscar o olho às rádios ("Danny Nedelko"). É malha atrás de malha.

Sem surpresa, "Mercedes Marxist" e "I Dream Guillotine"são uma continuação natural da sonoridade do álbum que abanou o Reino Unido no ano passado. Que é como quem diz, são mais uma descarga da imensa barragem emocional que os IDLES parecem ter em pleno armazenamento, pronta para para mais uma torrente.

domingo, 21 de julho de 2019

Here Comes a nova caixa dos Beatles (doo doo doo doo)

"And in the end, the love you take is equal to the love you make"


Há um ano dei-vos aqui em primeira mão o conteúdo das novas edições do White Album dos The Beatles. Volvido 12 meses, é hora de vos revelar, também em primeira mão, o conteúdo das reedições do álbum que culminou a história dos Beatles — "Abbey Road".

Se o White Album foi o maior álbum dos Beatles e o "Sgt. Pepper" o mais influente, o "Abbey Road" terá sido aquele que manteve o seu apelo mais intacto desde o seu lançamento. Já lá vão 50 anos. Leram bem: 50 anos. Nenhum álbum dos Beatles soa tão bem, soa tão fresco, como o "Abbey Road". E as suas canções mantêm-se nas nossas vidas, mesclando-se perfeitamente nas nossas playlists no Spotify com canções gravadas 4 décadas mais tarde. Se há um álbum dos Beatles que emana intemporalidade, é sem dúvida o "Abbey Road".

O "Abbey Road" é especial por muitas razões. Uma delas é ter sido o último álbum gravado pelos Beatles. Apesar de "Let It Be" ter sido lançado em Março de 1970, a verdade é que a sua gravação remonta ao início de 1969 (na altura com o nome de "Get Back"), antes das sessões que deram lugar a "Abbey Road". O projecto "Get Back" era ambicioso, mas foi um desastre total. O conceito era gravar um álbum e, ao mesmo tempo, fazer um filme com imagens dessa gravação, o qual terminaria com os Beatles a tocarem o álbum ao vivo. O disco e o álbum seriam no fim lançados em conjunto, como um filme/álbum. Este projecto surgiu na pior altura possível, uma vez que apanhou os Beatles na fase de maior tensão no seio da banda. Juntar câmaras de filmar a esta equação, inserindo os Beatles num estúdio do tipo Big Brother, não foi claramente a melhor ideia. O desastre "Get Back" foi quase a machadada final na vida dos Beatles.

Mas Paul McCartney não baixou os braços. Paul achava que ainda havia vida nos Beatles e convenceu John, George e Ringo a gravar mais um álbum. Desta feita, tudo tinha que ser como dantes. Um último álbum "à Beatles". Foram buscar o produtor George Martin e este impôs a mesma condição — as regras teriam que ser as mesmas do passado. E foi assim que os Beatles uniram forças um última vez e criaram aquela que é, para muitos, a sua maior obra-prima — "Abbey Road" — fazendo também uma certa passadeira no Norte de Londres, a passadeira mais famosa do mundo.


50 anos mais tarde, meio século volvido, ainda estamos aqui a falar deste álbum. O mundo ainda está esfomeado pelos Beatles e se os últimos anos trouxeram edições de luxo de "Sgt. Pepper" e do White Album, este ano, é a vez de "Abbey Road". A reedição de "Abbey Road" vai ter uma novíssima remistura em Stereo, produzida por Giles Martin, filho de George Martin. E seguindo a tradição dos últimos álbuns, vai ter também uma primeira mistura em Surround.
A expansão de "Abbey Road" vai ser feita em (pelo menos) 5 formatos diferentes. Lembrem-se, leram aqui primeiro:

3CD+1BD: "Abbey Road" Anniversary Super Deluxe Edition (4 Discos)
  • Caixa que contém:
  • 1CD com a nova remistura em Stereo do álbum original.
Come Together
Something
Maxwell's Silver Hammer
Oh! Darling
Octopus's Garden
I Want You (She's So Heavy)
Here Comes the Sun
Because
You Never Give Me Your Money
Sun King
Mean Mr. Mustard
Polythene Pam
She Came In Through the Bathroom Window
Golden Slumbers
Carry That Weight
The End
Her Majesty
  • 2CD com demos e outtakes das sessões de gravação de "Abbey Road" (track listings ainda provisórias):
I Want You (She’s So Heavy) [Take 32 + Billy Organ]
Goodbye [Demo]
Something [Demo]
Ballad Of John And Yoko [Take 7]
Old Brown Shoe [Take 2]
Oh! Darling [Take 4]
Octopus Garden [Take 9]
You Never Give Me Your Money [Take 36]
Her Majesty [Takes 1-3]
Golden Slumbers / Carry That Weight [Takes 1-3]
Here Comes The Sun [Take 9]
Maxwell's Silver Hammer [Take 12]
Come Together [Take 5]
The End [Take 3]
Sunking Mean / Mr Mustard [Take 20]
Polythene Pam / She Came In Through The Bathroom Window [Take 27]
Because [Take 1]
The Long One [Trial Edit And Mix]
Something [Orchestral – Take 39]
Golden Slumbers [Take 17]
  • 1Blu-Ray com a nova remistura em Stereo e em Dolby Atmos / Surround 5.1 do álbum original.
  • Livro com 80 fotografias nunca antes vistas das sessões de "Abbey Road", reveladas dos negativos da Linda McCartney.

3LP: "Abbey Road" Anniversary Super Deluxe Edition
  • Caixa que contém:
  • 1LP com a nova remistura em Stereo do álbum original.
  • 2LP com demos e outtakes das sessões de gravação de "Abbey Road".

1CD: "Abbey Road" Anniversary Edition
  • 1CD com a nova remistura em Stereo do álbum original em formato digipack.

1LP: "Abbey Road" Anniversary Edition
  • 1LP com a nova remistura em Stereo do álbum original, numa fiel reprodução da capa do vinil original.

2CD: "Abbey Road" Anniversary Deluxe Edition
  • 1CD com a nova remistura em Stereo do álbum original.
  • 1CD com demos e outtakes das sessões de gravação de "Abbey Road".

Para aqui vão sair as duas caixas de "Abbey Road", o disco que nos deixou uma lição de vida: "And in the end, the love you take is equal to the love you make". No fim, o amor que recebes é igual ao amor que dás. True story.




domingo, 30 de junho de 2019

Lena D'Água está volta com um lote de canções de macramé

"Desalmadamente", o regresso triunfal da nossa menina

Uma das maiores revelações deste ano vem de uma artista cuja carreira discográfica começou há 40 anos. Parece estranho, eu categorizar como revelação alguém que tem mais anos de música do que eu de vida. Mas o novo disco de Lena D'Água é muito mais do que uma mera nota de rodapé nos lançamentos da semana. É o regresso triunfal de um ícone da cultura portuguesa, que adoptámos nos anos 80 como a nossa menina e depois largámos à sua sorte. Ela está de volta, melhor que nunca.

Filha do mais elegante levantador de taças da História, foi em 1979 que, ainda sob o nome de Maria Helena Águas, lançou o seu primeiro álbum de música infantil "Qual É Coisa Qual É Ela?". Dona de uma voz de menina e uma carinha angelical, a Maria Helena passou a Lena d'Água e na década de 80 conquistou as tabelas e os corações dos portugueses. Teve uma carreira ultra-prolífica naqueles 10 anos, tanto a solo, como na Salada de Frutas e na Banda Atlântida e assim se tornou numa das estrelas Pop que mais brilhou no nosso país. Depois, veio "a porcaria da droga" e a nossa menina perdeu-se. E nós esquecemo-nos dela.

Fast-forward para 2019 e a Lena está de volta com "Desalmadamente" — o seu primeiro álbum a solo de originais desde "Tu Aqui" de 1989. E como eu disse no início, é uma revelação. "Desalmadamente" é um disco sonhador e quase autobiográfico. "Quase" porque, na verdade, foi escrito por Pedro da Silva Martins dos Deolinda. Pedro tricotou um lote de canções de macramé, especificamente para a nossa menina, com um carinho que é audível nestas gravações. Há que tirar o chapéu ao grupo de músicos que ajudaram a Lena a ser um furacão outra vez — Francisca Cortesão, António Vasconcelos Dias, Mariana Ricardo, Benjamim e Sérgio Nascimento. Num disco de influências diversas no espaço e no tempo, eles foram várias bandas diferentes, mudando a bússola da máquina do tempo consoante o que a canção pedia.




São vários os destaques do álbum. Começo pelo mais óbvio, o single de avanço "Grande Festa". Todos os superlativos se aplicam. Num tema que parece retirado das sessões de "Parklife" dos Blur, eu ia jurar que ouvia o Graham Coxon na guitarra. Mas pelos vistos não. É a Francisca e o António. E aquele órgão delicioso que conduz o tema, esse é do Benjamim. Música produzida em 2019, mas de aroma intemporal.

E por falar em intemporalidade, que dizer do tema de abertura "Opá", com uma introdução de embalar que evoca o início de carreira da Lena, num dos temas mais fortes do álbum. A história da sua vida é espelhada em "Queda Para Voar": "Cheguei, subi para o palco e caí no chão e aplaudiram a minha canção". Impossível não sorrir à ironia deste tema. "Minutos" é outro dos meus grandes favoritos, um tema que junta uma linha de órgão que parece levantada do "Closer" dos Joy Division a um solo de saxofone urbano dos Destroyer. Junta-se a voz delicada da Lena e todo este tricot resulta numa manta de luxo.

Que revelação, é este "Desalmadamente". Ao fim de 6 meses, é difícil encontrar na Pop de 2019, nacional ou internacional, algo que sequer se aproxime remotamente de algo como a "Grande Festa". Para quem teve que se submeter recentemente ao novo álbum da Madonna, voltar a ouvir a "Grande Festa" significa perceber com toda a clareza de que lado é que se encontra a verdade. Para mim, é até ver o tema Pop do ano. De longe.

domingo, 23 de junho de 2019

Madonna contra Bruce Springsteen — A grande batalha nas tabelas da última semana

The Queen vs. The Boss — A batalha que colocou os fãs da Madonna contra Bruce Springsteen

Talvez não se tenham apercebido, mas na última semana deu-se uma das maiores batalhas das tabelas dos últimos anos — Madonna contra Bruce, The Queen vs. The Boss. Normalmente as editoras têm o cuidado de evitar que lançamentos de artistas que almejem o primeiro lugar da tabela coincidam na mesma semana. Mas desta vez calhou que ao mesmo tempo, na sexta passada, Madonna decidiu lançar o seu luso-perfumado (mas pouco) "Madame X" e Bruce Springsteen tirou da gaveta o seu álbum perdido "Western Stars". Os dias que se seguiram viram uma batalha feroz nas trincheiras.

Ambos os álbuns foram recebidos com alguma surpresa. "Western Stars" foi uma obra-prima inesperada — um disco que Bruce foi guardando desde 2011, inseguro sobre a reacção do seu público, mas que acabou por ser aclamado pela crítica e pela maioria dos fãs. Já dissertei extensivamente sobre "Western Stars" na crónica da semana passada.

Já "Madame X" foi o típico álbum "late period" da Madonna — um disco que colecciona as "novas tendências" dos últimos 5 anos, numa tentativa desesperada da Rainha da Pop em se manter relevante e em coleccionar mais uns hits. A Madonna, concedo-lhe o feito de se ter conseguido manter relevante ao longo de quatro décadas numa cena tão fugaz como a música Pop (e por isso ainda lhe é concedida tanta atenção, bem como planos de estacionamento especiais pela EMEL). O problema é que esta fugacidade em 2019 é exponenciada pela velocidade com que as ondas vão e vêm. No passado, Madonna foi-se rodeando dos produtores da moda, conhecedores do que fervia por entre a audiência teen, para lhe darem a receita dos hits que sempre perseguiu. Hoje em dia, com as mudanças na paisagem cultural a serem conduzidas por fenómenos virais, o espaço de uma artista com o peso da Madonna é ainda mais limitado. Imagino que ela esteja à espreita do que as filhas estão a ouvir e sendo a Madonna, pode ligar ao produtor de uma determinada faixa e pagar-lhe o voo para estarem a gravar no dia seguinte. Mas com o tempo que demora a manejar uma estrutura pesada como a do lançamento de um álbum novo da Madonna, quando ele chega às ruas, já a tendência mudou uma série de vezes. No caso de "Madame X", o resultado é uma almálgama de sonoridades desconexas que não soam nem particularmente actuais, nem particularmente passadas, mas que acima de tudo, não soam particularmente harmoniosas. E qual é a ideia do uso profuso de adereços vocais como o vocoder? A Madonna é reconhecida primeiramente pela sua voz. Sou particularmente adverso a temas onde canta como se estivesse a mastigar uma sandes de presunto ("God Control"). Mas divago.

Os lançamentos dos discos foram muito diferentes. Bruce apresentou "Western Stars" timidamente, quase como que envergonhado do que poderiam dizer dele. Não houve nenhum anúncio de uma digressão a solo ou com a E Street Band para promover o álbum. Pior que isso, Bruce anunciou de forma apologética a intenção de lançar um álbum e ir para a estrada com a sua banda para o ano que vem, ainda antes do lançamento de "Western Stars", como se este álbum fosse algo de somenos. Já Madonna apareceu no Festival da Eurovisão e a juntar à sua máquina publicitária, ainda anunciou a Madame X Tour, com 48 datas nos Estados Unidos e 31 datas na Europa (incluindo 6 no nosso Coliseu dos Recreios e 15 aqui no London Palladium). E foi aqui que ela sacou do seu Ás de trunfo — o ticket bundling — isto é, todos os bilhete vendidos (pelo menos nos EUA e no UK) incluíam uma cópia do seu novo álbum "Madame X". Isto significa que a venda de cada bilhete conta como a venda de uma disco.

As digressões sempre foram utilizadas com o objectivo final de promover um disco novo. Mas nesta era em que os artistas ganham mais com as digressões do que com os álbuns, a ordem dos factores reverteu-se. A verdade é que o "ticket bundling" não é original, nem exclusivo de Madonna. O truque já tem alguns anos e é utilizado com frequência pelos artistas de maior nomeada, de modo a facilitar o caminho para o primeiro lugar das tabelas. Mas não faz muito sentido. Grande parte do público quer ir ao concerto para ouvir os hits antigos e não quer saber do último álbum para nada; esses vão ficar com um disco que nunca vão ouvir. Já os verdadeiros fãs do artista, aqueles que não podem esperar, esses já têm o álbum de qualquer forma e vão agora ficar com duas cópias do mesmo disco. Por outro lado, dá também uma vantagem virtual (e injusta) nas tabelas.

Foi precisamente assim que "Madame X" começou a última semana. Com um avanço enorme sobre todos os outros. Só que quando os álbuns chegaram ao juízes que realmente decidem o andamento das tabelas — o público — a maré começou a virar. O hype do novo álbum da Madonna deu-lhe a liderança automática no iTunes e na Amazon na sexta-feira de manhã, mas a meio do dia, já era Bruce quem liderava.

E foi aí que começámos a assistir a cenas incríveis nas trincheiras desta batalha, algo que passou aparentemente despercebido aos mass media, mas que eu não via desde a famosa batalha entre os Oasis e os Blur nos mid-90s. Na tentativa de salvar a sua rainha, os fãs da Madonna começaram a acorrer às plataformas virtuais de venda, desde o iTunes até à Amazon, para deixar reviews de 1 estrela a "Western Stars" com o grito de guerra: "Buy Madame X". Alguma noção é precisa, caros fãs da Madonna.


Foi assim toda a semana. Bruce a recuperar paulatinamente da desvantagem inicial até à liderança em quase todos os mercados. Vejamos então a posição final de "Madame X" e "Western Stars" nas tabelas cujo resultado já é conhecido:

  • Reino Unido: Bruce #1; Madonna #2
  • Irlanda: Bruce #1; Madonna #8
  • Escócia: Bruce #1; Madonna #4
  • Itália: Bruce #1; Madonna #2
  • Alemanha: Bruce #1; Madonna #5
  • Holanda: Bruce #1; Madonna #2
  • Bélgica (Valónia): Madonna #2; Bruce #3
  • Bélgica (Flandres): Bruce #1; Madonna #2
  • Finlândia: Bruce #3; Madonna #7
  • Suécia: Bruce #3; Madonna #10
  • Noruega: Bruce #1; Madonna #6
  • Austrália: Bruce #1; Madonna #2
  • Nova Zelândia: Bruce #1; Madonna #5
Como podemos ver, as tabelas até agora dão a vitória a Bruce Springsteen em quase toda a linha. Faltam ainda alguns resultados importantes, como o de França (Madonna tem 10 datas no Grand Rex, em Paris), o de Portugal (que Madonna deve ganhar facilmente) e claro, o dos Estados Unidos. As primeiras notícias dão conta de uma vitória tangencial de Madonna em casa, por apenas 25 mil cópias. O que na prática significa que Madonna não vendeu mais álbuns, mas com a ajuda dos bilhetes e do "ticket bundling", pode agora dizer que o seu álbum foi número 1 nos EUA. Uma vitória pírrica, portanto.

Há várias reflexões a fazer aqui. Em primeiro lugar, o facto de estarmos a falar numa batalha entre dois artistas que tiveram o seu auge comercial há 35 anos significa que nos faltam ícones hoje para despoletar o mesmo nível de paixão; aquela cegueira que faça fãs irem insultar o álbum de outro artista só para defender a sua dama. E mais que isso, este truque do "ticket bundling", que é mais um sinal de aviso que os miúdos não estão a comprar discos. Ainda há poucas semanas tivemos o Ed Sheeran a esgotar a Luz por duas noites e a regressar ao topo das tabelas em Portugal com um álbum que lançou há dois anos. É ele quem carrega a tocha de saber o que fazer nos dias de hoje e levar os miúdos a comprarem discos outra vez. Mas se é no Ed Sheeran que depositamos todas as nossas esperanças, então estamos condenados.