segunda-feira, 5 de agosto de 2019

IDLES, o som de um Reino (Des)Unido

Por que os IDLES são a banda Rock mais importante do Reino Unido na actualidade


Esta sexta-feira viu o lançamento do novo single de 7 polegadas dos IDLES (escrito assim, tudo em maiúsculas) "Mercedes Marxist". À boa maneira antiga, o single traz um B-Side no lado inverso, o igualmente tempestuoso "I Dream Guillotine". Ambas as faixas foram gravadas nas mesmas sessões de estúdio do aclamado "Joy As An Act Of Resistance", aquele que foi considerado aqui como o melhor álbum de 2018. Happy days, como diz o meu chefe.

"Mercedes Marxist" já havia sido disponibilizado no Spotify a 7 de Maio e na altura fiquei a pensar como é que um riff hipnotizante como este tinha ficado de fora do álbum. Segundo Joe Talbot (vocalista dos IDLES), o tema não entrou em "Joy," uma vez que foi uma das primeiras composições após "Brutalism" (o álbum de estreia da banda, lançado em 2017), numa altura que ele se sentia inútil e miserável com a vida que levava. Faltava ao tema o toque de redenção do material que veio a seguir e como tal foi omitido do álbum. Ainda bem que Talbot mudou de ideias e deixou "Mercedes Marxist" ver a luz do dia.

Mas se já conhecíamos o Lado A desde Maio, só agora pudemos ouvir "I Dream Guillotine". E foi ao ouvir a nova faixa no meu commute de sexta-feira de manhã, que me apercebi que nunca tinha escrito sobre os IDLES aqui na NiT. E o crime que isso encerrava. Tempo por isso de falar naquela que é a melhor banda Punk da actualidade.

Corrijo. Dizer que os IDLES são a melhor banda Punk da actualidade será um eufemismo para aquilo que os rapazes de Bristol representam. Os IDLES são a banda Rock mais importante do Reino Unido, e são maiores que este momento. Em primeiro lugar, porque romperam com o marasmo em que vive a cena Rock up-and-coming. Depois, porque voltaram a trazer o Punk ao mainstream (vejam aqui "Danny Nedelko" ao vivo no programa do Jools Holland na BBC) e isso não é de somenos. Lembro que a última vaga Punk que chegou ao grande público foi há 20 anos e tinha como timoneiro bandas que juntavam no seu nome substantivos e algarismos aleatoriamente. Mas a distância que vai dos Blink 182 e dos Sum 41 aos IDLES é incomensurável. Os IDLES são reais e falam de problemas reais. 5 homens dos council estates, cheios de cicatrizes da vida.

A banda de Bristol foi a revelação de 2018 para o grande público, mas para quem andava atento, foi apenas uma confirmação. Eu já levava a lição estudada de "Brutalism", desde que li uma review deliciosamente exagerada, onde o crítico descrevia o disco como a soma de "Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols", "It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back" (Public Enemy), "Fresh Fruit For Rotting Vegetables" (Dead Kennedys) e "Bad Brains", tudo ao mesmo tempo. Embora a descrição fosse desavergonhadamente hiperbólica, foi o suficiente para me gerar curiosidade para ouvir o álbum.

Tratei por isso de arranjar bilhete para o primeiro concerto da digressão do novo álbum que, por sorte e acaso, aconteceu em Kingston, a meia hora de Esher, onde eu trabalho. Foi um daqueles acasos da vida que me apanhou no sítio certo no momento certo. O concerto era na véspera do lançamento de "Joy As An Act Of Resistance" e foi por isso a primeiríssima vez que tocaram os temas do novo disco. Começou as 22:30 e terminou à meia noite, hora do lançamento oficial. Fui por isso um dos primeiros a ouvir temas como "Never Fight A Man With A Perm" (belo conselho) e logo ali percebi a magnitude do que aí vinha. Mas confesso, nem eu estava à espera de tão efusiva recepção por parte do grande público, de uma banda Punk tão in-your-face como os IDLES. Mas talvez seja precisamente isto que precisamos neste momento – uma barragem visceral de emoções e decibéis.

"Joy As Act Of Resistance" caiu no ano passado como um menir gigantesco neste Reino Des(Unido) pelo o Brexit. Os IDLES trouxeram um género novo para o mainstream, que eu só consigo classificar como Art-Punk-Catártico. É Punk, é arte e é catarse. Tudo nos IDLES tem uma razão de ser. A entrega pode ser barulhenta, mas há tanto para explorar na sua música. A mensagem é a mais actual, mais premente e mais convincente que qualquer banda tem para nos dar neste momento: crítica política e social, a varrer todos os assuntos da actualidade, desde o nacionalismo, a emigração, a masculinidade tóxica, a parentalidade moderna e o absurdo confronto sexual que tem separado homens e mulheres. Tudo sem medo, mas com aquele toque de humor witty britânico. Já à musica, ela ora é dotada de uma produção luxuosa ("June"), ora de uma estrutura complexa ("Colossus"), consoante a canção o peça. Os riffs são hipnotizantes ("I'm Scum"), os refrões são monolíticos ("Never Fight A Man With A Perm") e por vezes até tem um certo charme a piscar o olho às rádios ("Danny Nedelko"). É malha atrás de malha.

Sem surpresa, "Mercedes Marxist" e "I Dream Guillotine"são uma continuação natural da sonoridade do álbum que abanou o Reino Unido no ano passado. Que é como quem diz, são mais uma descarga da imensa barragem emocional que os IDLES parecem ter em pleno armazenamento, pronta para para mais uma torrente.

domingo, 21 de julho de 2019

Here Comes a nova caixa dos Beatles (doo doo doo doo)

"And in the end, the love you take is equal to the love you make"


Há um ano dei-vos aqui em primeira mão o conteúdo das novas edições do White Album dos The Beatles. Volvido 12 meses, é hora de vos revelar, também em primeira mão, o conteúdo das reedições do álbum que culminou a história dos Beatles — "Abbey Road".

Se o White Album foi o maior álbum dos Beatles e o "Sgt. Pepper" o mais influente, o "Abbey Road" terá sido aquele que manteve o seu apelo mais intacto desde o seu lançamento. Já lá vão 50 anos. Leram bem: 50 anos. Nenhum álbum dos Beatles soa tão bem, soa tão fresco, como o "Abbey Road". E as suas canções mantêm-se nas nossas vidas, mesclando-se perfeitamente nas nossas playlists no Spotify com canções gravadas 4 décadas mais tarde. Se há um álbum dos Beatles que emana intemporalidade, é sem dúvida o "Abbey Road".

O "Abbey Road" é especial por muitas razões. Uma delas é ter sido o último álbum gravado pelos Beatles. Apesar de "Let It Be" ter sido lançado em Março de 1970, a verdade é que a sua gravação remonta ao início de 1969 (na altura com o nome de "Get Back"), antes das sessões que deram lugar a "Abbey Road". O projecto "Get Back" era ambicioso, mas foi um desastre total. O conceito era gravar um álbum e, ao mesmo tempo, fazer um filme com imagens dessa gravação, o qual terminaria com os Beatles a tocarem o álbum ao vivo. O disco e o álbum seriam no fim lançados em conjunto, como um filme/álbum. Este projecto surgiu na pior altura possível, uma vez que apanhou os Beatles na fase de maior tensão no seio da banda. Juntar câmaras de filmar a esta equação, inserindo os Beatles num estúdio do tipo Big Brother, não foi claramente a melhor ideia. O desastre "Get Back" foi quase a machadada final na vida dos Beatles.

Mas Paul McCartney não baixou os braços. Paul achava que ainda havia vida nos Beatles e convenceu John, George e Ringo a gravar mais um álbum. Desta feita, tudo tinha que ser como dantes. Um último álbum "à Beatles". Foram buscar o produtor George Martin e este impôs a mesma condição — as regras teriam que ser as mesmas do passado. E foi assim que os Beatles uniram forças um última vez e criaram aquela que é, para muitos, a sua maior obra-prima — "Abbey Road" — fazendo também uma certa passadeira no Norte de Londres, a passadeira mais famosa do mundo.


50 anos mais tarde, meio século volvido, ainda estamos aqui a falar deste álbum. O mundo ainda está esfomeado pelos Beatles e se os últimos anos trouxeram edições de luxo de "Sgt. Pepper" e do White Album, este ano, é a vez de "Abbey Road". A reedição de "Abbey Road" vai ter uma novíssima remistura em Stereo, produzida por Giles Martin, filho de George Martin. E seguindo a tradição dos últimos álbuns, vai ter também uma primeira mistura em Surround.
A expansão de "Abbey Road" vai ser feita em (pelo menos) 5 formatos diferentes. Lembrem-se, leram aqui primeiro:

3CD+1BD: "Abbey Road" Anniversary Super Deluxe Edition (4 Discos)
  • Caixa que contém:
  • 1CD com a nova remistura em Stereo do álbum original.
Come Together
Something
Maxwell's Silver Hammer
Oh! Darling
Octopus's Garden
I Want You (She's So Heavy)
Here Comes the Sun
Because
You Never Give Me Your Money
Sun King
Mean Mr. Mustard
Polythene Pam
She Came In Through the Bathroom Window
Golden Slumbers
Carry That Weight
The End
Her Majesty
  • 2CD com demos e outtakes das sessões de gravação de "Abbey Road" (track listings ainda provisórias):
I Want You (She’s So Heavy) [Take 32 + Billy Organ]
Goodbye [Demo]
Something [Demo]
Ballad Of John And Yoko [Take 7]
Old Brown Shoe [Take 2]
Oh! Darling [Take 4]
Octopus Garden [Take 9]
You Never Give Me Your Money [Take 36]
Her Majesty [Takes 1-3]
Golden Slumbers / Carry That Weight [Takes 1-3]
Here Comes The Sun [Take 9]
Maxwell's Silver Hammer [Take 12]
Come Together [Take 5]
The End [Take 3]
Sunking Mean / Mr Mustard [Take 20]
Polythene Pam / She Came In Through The Bathroom Window [Take 27]
Because [Take 1]
The Long One [Trial Edit And Mix]
Something [Orchestral – Take 39]
Golden Slumbers [Take 17]
  • 1Blu-Ray com a nova remistura em Stereo e em Dolby Atmos / Surround 5.1 do álbum original.
  • Livro com 80 fotografias nunca antes vistas das sessões de "Abbey Road", reveladas dos negativos da Linda McCartney.

3LP: "Abbey Road" Anniversary Super Deluxe Edition
  • Caixa que contém:
  • 1LP com a nova remistura em Stereo do álbum original.
  • 2LP com demos e outtakes das sessões de gravação de "Abbey Road".

1CD: "Abbey Road" Anniversary Edition
  • 1CD com a nova remistura em Stereo do álbum original em formato digipack.

1LP: "Abbey Road" Anniversary Edition
  • 1LP com a nova remistura em Stereo do álbum original, numa fiel reprodução da capa do vinil original.

2CD: "Abbey Road" Anniversary Deluxe Edition
  • 1CD com a nova remistura em Stereo do álbum original.
  • 1CD com demos e outtakes das sessões de gravação de "Abbey Road".

Para aqui vão sair as duas caixas de "Abbey Road", o disco que nos deixou uma lição de vida: "And in the end, the love you take is equal to the love you make". No fim, o amor que recebes é igual ao amor que dás. True story.




domingo, 30 de junho de 2019

Lena D'Água está volta com um lote de canções de macramé

"Desalmadamente", o regresso triunfal da nossa menina

Uma das maiores revelações deste ano vem de uma artista cuja carreira discográfica começou há 40 anos. Parece estranho, eu categorizar como revelação alguém que tem mais anos de música do que eu de vida. Mas o novo disco de Lena D'Água é muito mais do que uma mera nota de rodapé nos lançamentos da semana. É o regresso triunfal de um ícone da cultura portuguesa, que adoptámos nos anos 80 como a nossa menina e depois largámos à sua sorte. Ela está de volta, melhor que nunca.

Filha do mais elegante levantador de taças da História, foi em 1979 que, ainda sob o nome de Maria Helena Águas, lançou o seu primeiro álbum de música infantil "Qual É Coisa Qual É Ela?". Dona de uma voz de menina e uma carinha angelical, a Maria Helena passou a Lena d'Água e na década de 80 conquistou as tabelas e os corações dos portugueses. Teve uma carreira ultra-prolífica naqueles 10 anos, tanto a solo, como na Salada de Frutas e na Banda Atlântida e assim se tornou numa das estrelas Pop que mais brilhou no nosso país. Depois, veio "a porcaria da droga" e a nossa menina perdeu-se. E nós esquecemo-nos dela.

Fast-forward para 2019 e a Lena está de volta com "Desalmadamente" — o seu primeiro álbum a solo de originais desde "Tu Aqui" de 1989. E como eu disse no início, é uma revelação. "Desalmadamente" é um disco sonhador e quase autobiográfico. "Quase" porque, na verdade, foi escrito por Pedro da Silva Martins dos Deolinda. Pedro tricotou um lote de canções de macramé, especificamente para a nossa menina, com um carinho que é audível nestas gravações. Há que tirar o chapéu ao grupo de músicos que ajudaram a Lena a ser um furacão outra vez — Francisca Cortesão, António Vasconcelos Dias, Mariana Ricardo, Benjamim e Sérgio Nascimento. Num disco de influências diversas no espaço e no tempo, eles foram várias bandas diferentes, mudando a bússola da máquina do tempo consoante o que a canção pedia.




São vários os destaques do álbum. Começo pelo mais óbvio, o single de avanço "Grande Festa". Todos os superlativos se aplicam. Num tema que parece retirado das sessões de "Parklife" dos Blur, eu ia jurar que ouvia o Graham Coxon na guitarra. Mas pelos vistos não. É a Francisca e o António. E aquele órgão delicioso que conduz o tema, esse é do Benjamim. Música produzida em 2019, mas de aroma intemporal.

E por falar em intemporalidade, que dizer do tema de abertura "Opá", com uma introdução de embalar que evoca o início de carreira da Lena, num dos temas mais fortes do álbum. A história da sua vida é espelhada em "Queda Para Voar": "Cheguei, subi para o palco e caí no chão e aplaudiram a minha canção". Impossível não sorrir à ironia deste tema. "Minutos" é outro dos meus grandes favoritos, um tema que junta uma linha de órgão que parece levantada do "Closer" dos Joy Division a um solo de saxofone urbano dos Destroyer. Junta-se a voz delicada da Lena e todo este tricot resulta numa manta de luxo.

Que revelação, é este "Desalmadamente". Ao fim de 6 meses, é difícil encontrar na Pop de 2019, nacional ou internacional, algo que sequer se aproxime remotamente de algo como a "Grande Festa". Para quem teve que se submeter recentemente ao novo álbum da Madonna, voltar a ouvir a "Grande Festa" significa perceber com toda a clareza de que lado é que se encontra a verdade. Para mim, é até ver o tema Pop do ano. De longe.

domingo, 23 de junho de 2019

Madonna contra Bruce Springsteen — A grande batalha nas tabelas da última semana

The Queen vs. The Boss — A batalha que colocou os fãs da Madonna contra Bruce Springsteen

Talvez não se tenham apercebido, mas na última semana deu-se uma das maiores batalhas das tabelas dos últimos anos — Madonna contra Bruce, The Queen vs. The Boss. Normalmente as editoras têm o cuidado de evitar que lançamentos de artistas que almejem o primeiro lugar da tabela coincidam na mesma semana. Mas desta vez calhou que ao mesmo tempo, na sexta passada, Madonna decidiu lançar o seu luso-perfumado (mas pouco) "Madame X" e Bruce Springsteen tirou da gaveta o seu álbum perdido "Western Stars". Os dias que se seguiram viram uma batalha feroz nas trincheiras.

Ambos os álbuns foram recebidos com alguma surpresa. "Western Stars" foi uma obra-prima inesperada — um disco que Bruce foi guardando desde 2011, inseguro sobre a reacção do seu público, mas que acabou por ser aclamado pela crítica e pela maioria dos fãs. Já dissertei extensivamente sobre "Western Stars" na crónica da semana passada.

Já "Madame X" foi o típico álbum "late period" da Madonna — um disco que colecciona as "novas tendências" dos últimos 5 anos, numa tentativa desesperada da Rainha da Pop em se manter relevante e em coleccionar mais uns hits. A Madonna, concedo-lhe o feito de se ter conseguido manter relevante ao longo de quatro décadas numa cena tão fugaz como a música Pop (e por isso ainda lhe é concedida tanta atenção, bem como planos de estacionamento especiais pela EMEL). O problema é que esta fugacidade em 2019 é exponenciada pela velocidade com que as ondas vão e vêm. No passado, Madonna foi-se rodeando dos produtores da moda, conhecedores do que fervia por entre a audiência teen, para lhe darem a receita dos hits que sempre perseguiu. Hoje em dia, com as mudanças na paisagem cultural a serem conduzidas por fenómenos virais, o espaço de uma artista com o peso da Madonna é ainda mais limitado. Imagino que ela esteja à espreita do que as filhas estão a ouvir e sendo a Madonna, pode ligar ao produtor de uma determinada faixa e pagar-lhe o voo para estarem a gravar no dia seguinte. Mas com o tempo que demora a manejar uma estrutura pesada como a do lançamento de um álbum novo da Madonna, quando ele chega às ruas, já a tendência mudou uma série de vezes. No caso de "Madame X", o resultado é uma almálgama de sonoridades desconexas que não soam nem particularmente actuais, nem particularmente passadas, mas que acima de tudo, não soam particularmente harmoniosas. E qual é a ideia do uso profuso de adereços vocais como o vocoder? A Madonna é reconhecida primeiramente pela sua voz. Sou particularmente adverso a temas onde canta como se estivesse a mastigar uma sandes de presunto ("God Control"). Mas divago.

Os lançamentos dos discos foram muito diferentes. Bruce apresentou "Western Stars" timidamente, quase como que envergonhado do que poderiam dizer dele. Não houve nenhum anúncio de uma digressão a solo ou com a E Street Band para promover o álbum. Pior que isso, Bruce anunciou de forma apologética a intenção de lançar um álbum e ir para a estrada com a sua banda para o ano que vem, ainda antes do lançamento de "Western Stars", como se este álbum fosse algo de somenos. Já Madonna apareceu no Festival da Eurovisão e a juntar à sua máquina publicitária, ainda anunciou a Madame X Tour, com 48 datas nos Estados Unidos e 31 datas na Europa (incluindo 6 no nosso Coliseu dos Recreios e 15 aqui no London Palladium). E foi aqui que ela sacou do seu Ás de trunfo — o ticket bundling — isto é, todos os bilhete vendidos (pelo menos nos EUA e no UK) incluíam uma cópia do seu novo álbum "Madame X". Isto significa que a venda de cada bilhete conta como a venda de uma disco.

As digressões sempre foram utilizadas com o objectivo final de promover um disco novo. Mas nesta era em que os artistas ganham mais com as digressões do que com os álbuns, a ordem dos factores reverteu-se. A verdade é que o "ticket bundling" não é original, nem exclusivo de Madonna. O truque já tem alguns anos e é utilizado com frequência pelos artistas de maior nomeada, de modo a facilitar o caminho para o primeiro lugar das tabelas. Mas não faz muito sentido. Grande parte do público quer ir ao concerto para ouvir os hits antigos e não quer saber do último álbum para nada; esses vão ficar com um disco que nunca vão ouvir. Já os verdadeiros fãs do artista, aqueles que não podem esperar, esses já têm o álbum de qualquer forma e vão agora ficar com duas cópias do mesmo disco. Por outro lado, dá também uma vantagem virtual (e injusta) nas tabelas.

Foi precisamente assim que "Madame X" começou a última semana. Com um avanço enorme sobre todos os outros. Só que quando os álbuns chegaram ao juízes que realmente decidem o andamento das tabelas — o público — a maré começou a virar. O hype do novo álbum da Madonna deu-lhe a liderança automática no iTunes e na Amazon na sexta-feira de manhã, mas a meio do dia, já era Bruce quem liderava.

E foi aí que começámos a assistir a cenas incríveis nas trincheiras desta batalha, algo que passou aparentemente despercebido aos mass media, mas que eu não via desde a famosa batalha entre os Oasis e os Blur nos mid-90s. Na tentativa de salvar a sua rainha, os fãs da Madonna começaram a acorrer às plataformas virtuais de venda, desde o iTunes até à Amazon, para deixar reviews de 1 estrela a "Western Stars" com o grito de guerra: "Buy Madame X". Alguma noção é precisa, caros fãs da Madonna.


Foi assim toda a semana. Bruce a recuperar paulatinamente da desvantagem inicial até à liderança em quase todos os mercados. Vejamos então a posição final de "Madame X" e "Western Stars" nas tabelas cujo resultado já é conhecido:

  • Reino Unido: Bruce #1; Madonna #2
  • Irlanda: Bruce #1; Madonna #8
  • Escócia: Bruce #1; Madonna #4
  • Itália: Bruce #1; Madonna #2
  • Alemanha: Bruce #1; Madonna #5
  • Holanda: Bruce #1; Madonna #2
  • Bélgica (Valónia): Madonna #2; Bruce #3
  • Bélgica (Flandres): Bruce #1; Madonna #2
  • Finlândia: Bruce #3; Madonna #7
  • Suécia: Bruce #3; Madonna #10
  • Noruega: Bruce #1; Madonna #6
  • Austrália: Bruce #1; Madonna #2
  • Nova Zelândia: Bruce #1; Madonna #5
Como podemos ver, as tabelas até agora dão a vitória a Bruce Springsteen em quase toda a linha. Faltam ainda alguns resultados importantes, como o de França (Madonna tem 10 datas no Grand Rex, em Paris), o de Portugal (que Madonna deve ganhar facilmente) e claro, o dos Estados Unidos. As primeiras notícias dão conta de uma vitória tangencial de Madonna em casa, por apenas 25 mil cópias. O que na prática significa que Madonna não vendeu mais álbuns, mas com a ajuda dos bilhetes e do "ticket bundling", pode agora dizer que o seu álbum foi número 1 nos EUA. Uma vitória pírrica, portanto.

Há várias reflexões a fazer aqui. Em primeiro lugar, o facto de estarmos a falar numa batalha entre dois artistas que tiveram o seu auge comercial há 35 anos significa que nos faltam ícones hoje para despoletar o mesmo nível de paixão; aquela cegueira que faça fãs irem insultar o álbum de outro artista só para defender a sua dama. E mais que isso, este truque do "ticket bundling", que é mais um sinal de aviso que os miúdos não estão a comprar discos. Ainda há poucas semanas tivemos o Ed Sheeran a esgotar a Luz por duas noites e a regressar ao topo das tabelas em Portugal com um álbum que lançou há dois anos. É ele quem carrega a tocha de saber o que fazer nos dias de hoje e levar os miúdos a comprarem discos outra vez. Mas se é no Ed Sheeran que depositamos todas as nossas esperanças, então estamos condenados.

domingo, 16 de junho de 2019

Era uma vez no Oeste — "Western Stars", o maravilhoso novo disco de Bruce Springsteen

Hoje à noite, as estrelas do Oeste vão brilhar outra vez

Que maravilhosa surpresa. Aos 69 anos, numa altura que já poucos esperavam, Bruce Springsteen volta a sacar de um clássico para o seu reportório e cimenta a sua posição como o melhor contador de histórias do último século. O Boss já nos acompanhou na fuga da raízes, já nos levou à orla da cidade e já nos conduziu pelo rio abaixo. Agora, em "Western Stars", Bruce senta-nos no banco do pendura da sua pick-up e dá-nos boleia rumo ao Oeste americano, com mais um set de histórias de vidas mundanas, embrulhadas num álbum rico, polido e cinemático.

"Western Stars" é o disco mais cinemático da discografia de Bruce Springsteen desde "Nebraska" de 1982. Mas se a paisagem de "Nebraska" era lúgubre, como um filme de Béla Tarr; as imagens evocadas por "Western Stars" são vibrantes, como um filme de Wes Anderson. Bruce descreveu este álbum como "a jewel box of a record" ("uma caixa de jóias de disco") e eu, que confesso, duvidei do entusiasmo do Boss, hoje confesso que não encontro melhor descrição para o seu décimo nono álbum de originais.

Há um pouco de toda a carreira de Bruce em "Western Stars": ouve-se a América de "The Rising" em "Tucson Train"; as histórias de "Tunnel Of Love" em "Western Stars" e "Moonlight Motel"; a atmosfera de "Devils And Dust" em "Drive Fast (The Stuntman)" e "Somewhere North of Nashville"; a inocência de "E Street Shuffle" em "Sleepy Joe's Cafe"; a riqueza de "Working On A Dream" em "There Goes My Miracle", "Sundown" e, na verdade, um pouco por todo o álbum. "Western Stars" é o sucessor natural do cânone sonhador de "Working On A Dream" (2009), o que faz todo o sentido, uma vez que este lote de canções remonta a esta altura.



"Western Stars" é lançado em 2019, mas a sua génese é antiga e o seu espírito ainda mais remoto. Segundo o que Bruce foi adiantando nas suas entrevistas ao longo dos anos, a ideia de um álbum de histórias do Oeste terá nascido antes do ano 2000, por alturas da Reunion Tour com a E Street Band. As gravações terão começado em 2010, depois da Working On A Dream Tour (2009) e das sessões de "The Promise" (2010), tendo o álbum sido sucessivamente posto na gaveta em detrimento de projectos (agora sabemos) inferiores, como "Wrecking Ball" (2012) e "High Hopes" (2014).

Bruce estava inseguro relativamente à reacção do seu público a "Western Stars" e com alguma razão, diga-se. A fanbase de Bruce é muito exigente, espera sempre que Bruce saque de um novo "Born To Run" e nunca fica satisfeito com menos que isso. Mas Bruce já não tem 20 anos e já não quer fugir da sua cidade natal (como contou em "Sprinsgteen On Broadway" (2018), agora vive a 10 minutos da casa onde nasceu). Por estes dias, ele quer pegar na sua pickup e contar as histórias das vidas perdidas que foi encontrando ao longo dos anos. E quer fazê-lo com a roupagem das canções da Pop sul-californiana do início dos anos 70, que despoletaram a sua imaginação quando ele era miúdo. É um álbum arriscado, que rompe com a estética clássica dos seus discos com a E Street Band, mas é ao mesmo tempo um álbum deliciosamente familiar. Bruce faz leves acenos ao seu passado, num álbum firmemente ancorado na eternidade. 

Os arranjos orquestrais são tão quentinhos e aconchegantes que só apetece abraçar a música. Mais que isso, estes arranjos opulentos conferem a "Western Stars" um estatuto de intemporalidade. O álbum foi lançado na sexta, mas após 5 audições, parece que estas canções estiveram sempre aqui. São canções que contam histórias de vida como a minha e vossa. São canções que, nestes tempos de divisão, chegam para nos juntar. São canções que, nestes tempos pesados, nos visam aliviar. Para todos nós que sentimos o peso do trabalho, das contas e de todos os problemas da vida, este álbum é um bálsamo que nos levanta o peso das costas.



Bruce usa a qualidade cinemática de "Western Stars" para desmistificar o mito cultural moribundo do sonho americano. No epílogo do álbum, o herói, incapaz de satisfazer as exigências do compromissos domésticos e da sociedade ("bills and kids and kids and bills"), entra na sua pickup e faz-se à estrada rumo à escuridão ("where nobody travels and nobody goes"), fechando assim o círculo de "Nebraska". Ele chama-nos à terra, com as suas histórias de heróis comuns com vidas partidas; e ao mesmo tempo, consegue pôr-nos a olhar para as estrelas.

Eu estou tão feliz com este álbum, que só me apetece abraçar o Bruce e assegurá-lo que está tudo bem; dizer-lhe que não há razão para inseguranças e que todos aqueles álbuns que ele tem na gaveta podem vir cá para fora. Depois de "Wrecking Ball" e "High Hopes", confesso que já temia que ele tivesse perdido a sua musa. Queria muito que este álbum fosse bom. Foi muito melhor do que eu esperava. Obrigado, Bruce.

P.S.: Este é apenas um dos projectos que Bruce Springtseen tem na calha para os próximos tempos. Bruce já revelou que tem pronto um lote de canções para gravar com a E Street Band e para lançar num álbum em 2020. Antes disso, ainda em este ano, a quadra natalícia deverá trazer-nos uma nova mega-caixa com gravações antigas, que vai suceder a "Tracks" de 1998. Este ano é também o 35º aniversário de "Born In The U.S.A." (1984) e o material que foi gravado nessas sessões é tanto, que vai certamente acontecer uma caixa expansiva do álbum, à semelhança do aconteceu com "Born to Run: 30th Anniversary Edition" (2005), "The Promise: The Darkness on the Edge of Town Story" (2010) e "The Ties That Bind: The River Collection" (2015). Se quiserem ter uma ideia do que ficou para trás nas sessões de "Born In The U.S.A" e do que poderia ser um segundo disco deste álbum, ouçam o podcast do London Calling — Murder Incorporated – O segundo disco de Born In The U.S.A..

terça-feira, 4 de junho de 2019

"Rocketman", o filme que é tudo aquilo que "Bohemian Rhapsody" não conseguiu ser

O musical mais esperado do ano visto à lupa por um fã do Elton... e dos Queen


"I don't live my life in black and white!", atira Elton John à sua mãe, numa das cenas-chave de "Rocketman" que define o tratado do filme e de toda a vida de Elton. E que também resume a diferença fundamental entre "Rocketman" e "Bohemian Rhapsody".
Saídos do berço do mesmo realizador — Dexter Fletcher — com menos de um ano de diferença, as comparações entre "Rocketman" e "Bohemian Rhapsody" são inevitáveis. Começando logo pela base do enredo que, se substituirmos Freddie por Elton e Bernie Taupin pelos restantes Queen, é inusitadamente similar. Nada que eu não estivesse à espera, diga-se (não fiquei muito longe na minha aposta para o plot) — Fletcher encontrou uma fórmula ganhadora e não mexeu. Mas as semelhanças com "Bohemian Rhapsody" não vão muito além da superfície. Se escavarmos mais um pouco, percebemos que há muito mais profundidade em "Rocketman".

Disse logo que confiava muito mais em Elton John para contar a sua história, do que em Brian May para contar a história dos Queen, e o Captain Fantastic não me desapontou. Brian é demasiado cuidadoso com o seu "legado". A porra do legado — essa dimensão fantasiosa onde tudo é limpinho e lavadinho; os bons são muito muito bonzinhos; os maus são uns grandes grandes mauzões; e tudo é preto ou branco. Não há nuances, não há tons de cinzento. Mas para quem tinha dúvidas, Elton afirma cabalmente – "eu não vivo a minha vida a preto e branco". Assim também eram os Queen, pelo menos até 1982.

A preocupação da defesa do legado de Elton John nunca se pôs verdadeiramente, uma vez que ele fez a sua carreira vivendo precisamente do factor choque. Basta olha para os fatos que Elton desde cedo adoptou para a sua persona de palco (retratados na perfeição no filme); ou pensar nos escândalos constantes que enchiam os tablóides nos anos 70 e 80 (também mencionados no filme). Elton nunca foi de se resguardar e "Rocketman" mostra que toda esta sede de exposição pode ser rastreada até aos pais. Elton viveu uma infância contraída de afecto e isso deixou-lhe marcas que o feriram para toda a vida, mas que também criaram este monstro de palco extrovertido e extravagante, que mais não é que uma busca para compensar défices de atenção do passado. Elton põe o dedo em todas estas feridas ao longo de "Rocketman" n um filme onde tem a coragem de expor o seu passado sem medos, mas onde também toma algumas liberdades para fazer alguns ajustes de contas. Lá chegaremos.

Antes de mais, tenho que deixar aqui um aviso — eu odeio musicais. Admito que isso possa estar relacionado com alguma ansiedade social da minha parte, mas sinto-me sempre desconfortável quando vejo uma cena dramática transformar-se numa performance coreografada da Broadway. Regra geral, parece-me desnecessário e violador da acção e do ritmo do filme. Mas isto sou eu, que não costumo ter vontade de desatar a cantar quando estou a meio de uma discussão acesa. Por outro lado, este é um filme sobre o Elton John, o personagem mais campy e ultrajante da história da música. Se há um filme onde este tipo de violação pode ser permitida, é o filme sobre um homem a quem sempre tudo foi permitido. Com uma nuance acrescida — Elton conseguiu safar-se com uma carreira plena de transgressões, polémicas e outfits escandalosos, sem nunca deixar de ser family friendly. Talvez porque nunca deixou de lado aquele sorriso de miúdo que lhe é tão característico. E isto terá muito a ver com a tal infância que não lhe sorriu.

O sorriso ubíquo de Elton é peça central em "Rocketman". Ele é sublinhado noutra das cenas-chave do filme quando, antes de entrar em palco no Royal Albert Hall, Elton liga à mãe para lhe revelar que é "Homossexual! Bicha! Paneleiro!" e ela o avisa que escolheu uma vida em que nunca vai ser amado "devidamente" (imagino que ela tenha usado mesmo a palavra "properly", ipsis verbis, uma vez que é repetida no fim do filme, mas em retaliação). Como se não bastasse, Elton leva um murro do homem que amava — o seu empresário, John Reid (já lá vamos) — e ainda discute com o seu melhor amigo de sempre — o adorável Bernie Taupin (já lá vamos também) —, a quem grita "escreve as letras e eu tomo conta do resto!". Mesmo com a sua vida a desabar, Elton nunca deixa de ser Elton e como tal, vestiu um dos seus fatos extravagantes, rasgou o sorriso e entrou no Royal Albert Hall para mais um concerto de levantar o tecto. Como disse uma vez Herman, Elton é o maior profissionalão da história da música.



Todos os filmes precisam de um vilão e em "Rocketman", cabe a John Reid esse papel. Reid é superiormente interpretado por Richard Madden (o Robb Stark, de "Game Of Thrones") e passa aqui por um empresário frio e ninfomaníaco, que seduz e depois trai Elton, sem nunca ser capaz de o amar. A realidade é um pouco mais complexa que isso. Se viram "Bohemian Rhapsody", recordar-se-ão que o mesmo John Reid (aí interpretado por Aidan Gillen, o Littlefinger de "Game Of Thrones", go figure!) é quem leva os Queen ao estrelato e depois é despedido num mal entendido com Paul Prenter (numa das muitas estupidificações que percorrem todo o filme). Na realidade, John Reid viveu com Elton 5 anos, entre 1970 e 1975, numa relação que, digamos assim, foi o mais estável que uma relação pode ser quando uma das partes é o Elton John. Eles separaram-se de facto em 1975, data que bate certo com o filme, quando Elton confessa ter começado a comportar-se como uma besta. Mas a verdade é que Elton e Reid mantiveram-se inseparáveis profissionalmente até 1998 quando, aí sim, John Reid traiu Elton, mas no campo financeiro. "Rocketman" faz um ajuste de contas com o antigo manager de Elton e para tal, reajusta os factos a favor do protagonista.  Note-se que Reid foi inclusive o padrinho de Elton no seu casamento de fachada com Renate Blauel em 1984 — casamento esse que no filme parece ter lugar algures entre 1979 e 1980, na ressaca do seu absoluto nadir discográfico (o álbum "Victim Of Love"),  numa das várias "afinações temporais" do filme.

Por falar em afinações temporais, quem é que acreditou que Elton entrou no concerto que mudou o rumo da sua carreira, sem conhecer a sua própria banda? Espero que ninguém. Como é óbvio, Elton já conhecia e tocava com o baterista Nigel Olsson e o baixista Dee Murray há vários meses e quando entraram no Troubador, já tocavam de olhos fechados. Elton ainda não tinha um guitarrista na altura, sendo que Davey Johnstone só ingressou na banda em 1972. Tanto Davey, como Nigel, ainda hoje fazem parte da Elton John Band (Dee morreu em 1992). Os membros da banda de Elton são meros figurantes no filme.

Outra daquelas afinações que fazem comichão a um fã é ver Elton apresentar "Daniel", "I Guess That’s Why They Call It the Blues" e "Sad Songs Say So Much" a Dick James em 1967, quando estes temas só iriam ser gravados em 1972, 1982 e 1983, respectivamente. Se era para mostrar baladas da altura, por que não "Skyline Pigeon", "Sixty Years On", ou "Border Song"? É daquelas coisas perfeitamente desnecessárias. E se quisermos ser mesmo minuciosos, é preciso apontar que "Crocodile Rock" não podia ser tocado no histórico concerto do Troubador em 1970, uma vez que só foi gravado em 1972.




A razão destes ajustes temporais é, na verdade, muito simples — Elton quis cingir-se aos êxitos em "Rocketman", uma vez que o principal objectivo do filme é mostrar as jóias do seu reportório para cativar a audiência mais nova. Eu teria preferido que ele fosse historicamente acurado, mas consigo viver com estes ajustes, desde que a densidade dos personagens compense. E se compensou.

Taron Egerton é fenomenal como Elton. Ao contrário de Rami Malek, o seu treino de Elton não se limitou a uma dentadura e uma coreografia. Começando logo pelo facto que Taron cantou, ele mesmo, as músicas de Elton; e não envergonhou ninguém. Mas mais importante ainda, Egerton mergulhou a fundo na personalidade de Elton, captou-lhe as nuances e conseguiu assim despejar no espectador o tremendo sofrimento por que Elton passou nos seus anos de desgraça, na segunda metade dos anos 70 e primeira dos 80. Neste período, Elton lidou com a exaustão, depressão, solidão e alienação (ouçam esta playlist para mais sobre o assunto). O filme não foge a nada disto

A cena do reencontro com o Pai é tão pessoal que a sua visualização se torna um exercício penoso. Para quem, como eu, tem um sentido familiar muito forte, ver o pai de Elton agarrar nos seus novos filhos, quando tudo o que Elton queria era um abraço do Pai é devastador. Ver a cara do Elton, quero dizer, do Taron, a olhar para aquela cena tira qualquer um do sério. Só esta cena faz valer o filme. Os manos do Elton têm uma opinião diferente acerca do que aconteceu, mas que importa? Foi assim que Elton se sentiu e este é o filme de Elton.

Mas nem todos foram maus com o pobre Elton. Todos os heróis têm um sidekick e o de Elton é o seu amigo de sempre, Bernie Taupin. Todos os que temos a sorte de ter um amigo a sério, sabemos reconhecer o valor a Bernie. Bernie tem em "Rocketman" o seu momento de glória, o reconhecimento de uma lenda que sempre viveu na sombra de Elton, mas sem quem Elton não teria existido. A relação entre os dois sempre foi muito especial. Apesar de terem um processo criativo sempre totalmente separado — com Bernie a escrever as letras sozinho e Elton, depois, a criar a música a partir das emoções que os poemas de Bernie lhe evocam —, a verdade é que Elton serviu de musa de Bernie por inúmeras vezes ao longo dos anos. Bernie escrevia sobre o ordálio que via Elton passar e por isso mesmo tantas das suas canções parecem autobiográficas, apesar de não serem escritas por ele. É o caso de "Idol", um tema que resume a vida e a carreira de Elton, especialmente do seu período negro e que escandalosamente não figura no filme. Ou então "Ego", que ilustra como nenhum outro a relação criativa entre ambos — um tema acusatório que Bernie escreveu aquando da sua separação com Elton e que Elton gravou e lançou em single (!) antes de embarcar nos seus projectos extra-Bernie. Pena não termos ouvido isto no filme. Mas claro está, a prioridade eram os hits.

O filme termina com uma maravilhosa semi-reconstituição do fantástico videoclip de "I'm Still Standing" (um dos meu favoritos de sempre) que, como eu previ aqui há meses, fecha o filme como a grande reviravolta na carreira de Elton (que o foi, de facto), em 1982.


https://www.youtube.com/watch?v=ZHwVBirqD2s

Continuo a odiar musicais, mas "Rocketman" é o melhor musical que eu já vi. E é tudo aquilo que "Bohemian Rhapsody" não conseguiu ser — honesto, infame e explícito. Elton quer contar a sua história, mas fá-lo à sua maneira — sem filtros. Com sexo homossexual e cocaína em barda, Elton não deixa nada por dizer, nem nada para mostrar. E continua sem se importar muito se acham isso mal.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Canção do Mar

Vamos embarcar numa crónica cheia de fado, saudade e mar.


"Tem mil anos uma história de viver a navegar". A voar sobre o Canal da Mancha, depois de quatro penosos meses debaixo do céu cinzento de Londres, ponho uma playlist no Spotify intitulada "Saudades de casa". Saudade, essa coisa tão portuguesa. Toca "Sete Mares" dos Sétima Legião. Sigo para o sul, olho pela janela e vejo o azul infinito de um mar que, embora esteja a milhares de milhas do meu país, me faz imediatamente sentir em casa. Mas porquê?

Porque sou português. E nós, portugueses, temos uma ligação metasensorial com o mar. Algo que só nós percebemos. É uma relação que está ancorada na nossa História, na nossa mitologia, na nossa cultura, na nossa educação e quiçá, na nossa genética.

Aprendemos na escola todos os fascínios do mar. Na História, passamos anos a ouvir sobre as aventuras dos navegadores portugueses — a nossa maior figura mitológica. Na Língua Portuguesa, estudamos a obra-prima de Sophia — "A Menina do Mar" — uma história tão bonita, comovente e multidimensional, que só anos mais tarde lhe percebi o alcance (Sophia que, atenção, faria 100 anos no próximo 6 de Novembro). Na rua, ouvimos os ditados – "há mar e mar, há ir e voltar". Adoptamos os verbos náuticos como estilística — vamos "embarcar" na nova aventura. Todos estes pequenos apontamentos do nosso quotidiano levam-nos ao mar. Esta relação de proximidade não tem paralelo com muitos povos no mundo. É uma ligação inexorável que ao mesmo tempo se configura como uma benção e uma maldição.

Uma benção, porque o mar nos cura tudo. O mar tem o condão de nos recarregar baterias. Qualquer coisa serve: basta almoçar a ver o mar e a cheirar a maresia; ou passar uma tarde de reflexão a olhar para o mar e a beber uma e outra imperial; se o tempo convidar, descer ao areal e dar um mergulho; basta até estar a 10 mil metros de altitude a ver o oceano infinito. Qualquer mar que nos entre pelos sentidos adentro cura-nos todas as maleitas. Eu, por exemplo, sofro imenso com alergias e quando estou ao pé do mar, nada me toca.

Por outro lado, a nossa ligação com o mar é também uma prisão. Nós precisamos do mar. E murchamos quando estamos longe dele. Vivendo no cinzento opaco de Londres, sei bem do que falo. Já vi uma colega minha, portuguesa, criada na Ericeira, regressar a Portugal porque já não aguentava mais viver longe da praia. Não voltou por amor. Voltou pelo mar. O cinzento dá cabo de nós.

Não é por acaso que o mar é a musa mais antiga da história do nosso país. Desde "Os Lusíadas" que assim é. O mar sempre fascinou os portugueses e sempre olhámos para ele em busca de inspiração. Foi nele que encontrámos as nossas maiores glórias e enfrentámos os nossos maiores terrores. Quando todos tinham medo do mar, nós agarramos em meia dúzia de tábuas, metemos 200 Maneis lá dentro e fomos procurar a nossa verdade no mar.

A mitologia do mar estendeu-se até à nossa música. Há duas semanas dediquei um programa do London Calling na NiTfm — "Canções do Mar", ouçam aqui — que congregava uma série de canções da música portuguesa sobre aquela que é a nossa musa mais antiga. Houve bandas que dedicaram quase toda a sua discografia a esta musa (Sétima Legião) e até houve bandas que se baptizaram em sua honra (Heróis do Mar). De todas as nossas canções do mar, há uma porém, que se destaca — a "Canção do Mar".

Passei toda a minha infância a ouvir a "Canção do Mar" na voz da Dulce Pontes, sem nunca perceber do que falava a música. Ou pelo menos sem nunca me ter conectado com a música. Até agora. Só agora, que estou do lado de fora a olhar com saudade, é que percebi quem é o locutor que nos chama:  "Vem saber se o mar terá razão / Vem cá ver, bailar no meu coração" — é Portugal.

É Portugal que fala ao português e o convida para ir procurar a verdade ao mar. Obviamente que esta é uma perspectiva totalmente parcial de quem está longe, cheio de saudades de casa e à distância reconfigura a sua própria cultura. Para mim, faz todo o sentido. Faz sentido tanto na mitologia que ancora o povo português ao mar ao longo da História, como nas histórias actuais, muitas que conheço pessoalmente, de saudade imensa do mar, de quem se vê longe dele. A minha, por exemplo.

Numa altura em que nos dizem que devemos ter vergonha da nossa História e querem que nos sintamos culpados do que aconteceu há 500 anos, urge celebrar o lado mais bonito da ligação de um povo com o mar. Um povo destemido que não teve medo do desconhecido ou, como diria Camões, "Que da Ocidental praia Lusitana / Por mares nunca dantes navegados / Passaram ainda além da Taprobana". Estes versos podem parecer distantes no tempo, mas caracterizam a diáspora de um povo de emigrantes tão bem naquela altura como hoje. Foi preciso ir para Londres e vir cá ver, para perceber que o mar tinha mesmo razão.