segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Tears For Fears em Brighton — A crónica de uma jornada frenética

Muito mais que uma crónica de um concerto, uma carta de amor aos Tears For Fears


Esta é muito mais do que uma mera crónica de um concerto. É a crónica de uma jornada frenética entre Londres, Brighton e Esher, que envolveu um concerto dos Tears For Fears nas grades, inundações, ameaças de morte, posters assinados, setlists, palhetas, cartazes, sorrisos trocados com o Roland Orzabal e o Curt Smith e o bónus deste falar comigo no microfone DURANTE O CONCERTO (desculpem o caps lock, é a emoção ainda). E tudo isto enquanto o trabalho e a vida quotidiana decorriam normalmente. Longos dias duram cem anos. Esta jornada durará uma vida. Esta é a crónica de como uma banda pode marcar uma vida. É uma carta de amor aos Tears For Fears.


1. The Bible Of Dreams — O sonho de uma vida

Um dos sonhos de toda a minha vida adulta sempre foi ver os Tears For Fears ao vivo. Na minha adolescência, a banda de Bath representou o papel de psicólogo. Foi a música deles que me ensinou que não havia mal nenhum em expressar as minhas emoções (para mal dos meus pecados, segundo a minha mãe). Desde esse tempo que os TFF foram a banda mais constante em toda a minha vida, até mais que os "gigantes" Queen e Pink Floyd, que eu normalmente aponto como as minhas bandas favoritas, mas que têm uma presença muito mais sazonal no meu quotidiano, quando comparados com os TFF.

Ao longo dos anos, esperei pacientemente que viessem a Portugal. Todas as Primaveras cruzava os dedos para que o Covões, a Roberta, ou o Montez se lembrassem deles e os trouxessem aos seus festivais. Antes do tempo do Facebook, passava os dias a fazer refresh na página da Blitz, sempre em pulgas pelas novas confirmações para os festivais. Mas nunca eram os Tears For Fears. Ou eles não vinham à Europa, ou se vinham, escapavam invariavelmente ao nosso circuito.

Em 2005, numa altura em que andava no Técnico e mal tinha dinheiro para ir à Costa, projectei uma viagem a Londres para ir ver os TFF ao Hammersmith Odeon. As minhas poupanças de 200€ riram-se. Não fui. Acabei por com esse dinheiro ir a Madrid ver o (na altura ultra-entusiasmante) regresso dos "Queen" com o Paul Rodgers, numa épica viagem de autocarro que ainda está por contar.


Em 2016, a viver um ponto baixo na minha vida e farto de esperar que os TFF viessem até mim, decidi ir eu até eles. Projectei então uma viagem-relâmpago aos Estados Unidos, para os ir ver ao histórico Red Rocks, no Colorado (digam-me lá se o cartaz não é uma maravilha). Mas não era uma aventura barata e mesmo já com mais alguns trocos na carteira, as minhas poupanças voltaram a rir-se. E eu voltei a não ir. Acabei por (num orçamento bem mais simpático) ir a Londres carpir mágoas com o David Gilmour no Royal Albert Hall (história aqui), naquele que ainda é, até à data, o seu último concerto em nome próprio. Mas faltavam sempre os Tears For Fears.

Foi por isso sem pensar duas vezes que, quando no Outono de 2017 os Tears For Fears marcaram uma data para o lendário Royal Albert Hall (notem esta tendência, sempre os mesmos lugares a aparecerem ciclicamente), eu marquei bilhete e viagem de Lisboa. Foi uma noite gloriosa, inesquecível, perfeita, a melhor de sempre; todos os superlativos se aplicam (e foram na altura documentados aqui na NiT). Curiosamente, essa noite marcou também o fim de um ciclo, uma vez que acabou por ser a minha última viagem de turismo a Londres, antes de me mudar definitivamente para cá.



Há um ano surgiu uma oportunidade, daquelas que imediatamente percebemos que só aparecem uma vez na vida. Numa noite de insónias, fui ver como estavam os bilhetes para a digressão de 2019 dos Tears For Fears. Esta digressão era para ter acontecido há um ano (e eu não tinha bilhete), mas entretanto a mulher do Roland Orzabal morreu de cancro e atirou-o para uma depressão que impossibilitou o lançamento do novo álbum dos TFF e fez adiar a digressão um ano. Com esse adiamento, muitos pediram a devolução do dinheiro e com isso libertaram alguns lugares de luxo. Lugares como o que me apareceu NA PRIMEIRA FILA em Brighton (lá estou eu com o Caps Lock) e parecia caído dos céus, mesmo no meu colo. Nem queria acreditar. Depois de agradecer ao Freddie, ao George e meus restantes anjinhos, marquei o lugar sem mais pestanejar. E sem pensar que o concerto era em Brighton, numa segunda-feira.


2. The Working Hour — Um dia de trabalho pouco normal

Tinha tudo programado ao pormenor. Saía de Londres de manhãzinha e ia para Esher trabalhar como habitualmente. Às 4:00, se o dia corresse excepcionalmente bem e não houvesse problemas para resolver na obra da Battersea Power Station, agarrava nas coisas e punha-me no comboio a caminho de Brighton. Com o tempo bem contado, estava lá à hora da abertura de portas.

Não se comecem já a rir. É que eu tinha mesmo que lá estar à hora de abertura de portas. Isto porque normalmente o Roland e o Curt assinavam uns 25 posters da tour e só os primeiros a chegar à venue é que os agarravam. Nada podia falhar, com o risco de não passar um dos testemunhos desta apertada corrida de estafetas e ir tudo por água abaixo. E por falar em água. Estava o dia a correr dentro da normalidade possível de uma segunda-feira, quando à uma da tarde ligam-me da Foxtons (a agência onde aluguei a minha casa em Londres) e dizem-me que estava a cair água no apartamento do vizinho de baixo. Isto significava que podia haver uma inundação em minha casa. Fucking hell. Era mesmo o dia indicado para acontecer uma tragédia destas.

Minha gente. Há uma coisa que precisam de saber sobre mim. Sou um gajo muitíssimo zeloso com os seus pertences. E obsessivo-compulsivo quando se trata da sua colecção de discos de vinil. Quando trouxe para Londres toda a minha colecção de mil discos (hoje já são 2 mil), foi na certeza de que eles comigo é que estavam bem. Pensar que um maldito cano roto qualquer tinha arruinado anos de trabalho e de paixão, deixou-me num estado de pânico e corrosão interior que é difícil explicar aqui. Descrevi a situação ao meu chefe como a catástrofe que de facto era. E ele, que já me conhece o suficiente para saber da importância dos meus discos, liberou-me, "mas só depois de fazeres as tuas timesheets!", diz. Estes ingleses e as putas das regras. Feita a tarefa, pus-me a caminho de casa temendo o pior.

Chegado a casa, não havia sinais de água no chão. Alívio. O cano roto estava a verter no apartamento de baixo, mas o meu estava aparentemente salvo. Pelo menos ate aos meus vizinhos de cima — um casal germânico-coreano muito brincalhão — voltarem às suas brincadeiras de sábado à noite na banheira. Mas adiante.

Agora era hora de voltar a pôr o plano inicial nos carris. Pijama na mala e siga para Victoria, para apanhar o comboio rumo a Sul. À saída de Victoria Station uma das minhas imagens preferidas de Londres: a Battersea Power Station vista por trás do parque de comboios de Pimlico, antes da Grosvenor Bridge. Todas as dificuldades pareciam ter ficado para trás. Agora era só smooth sailing.



3. I Believe — Antes do concerto

Cheguei a Brighton debaixo do clássico tempo britânico — os showers. Como o próprio nome indica, levei um banho a caminho da venue e por isso cheguei ao Brighton Centre todo ensopadinho. Mas mesmo a tempo do que eu queria. Fui um dos primeiros a entrar e pude assim ter o merch stand só para mim e sim, os posters assinados estavam lá. Mas bolas, 50£?! Ainda por cima eram só 15, por isso tinha que decidir rapidamente. Enfim, isto um dia não são dias. Para além do tão desejado poster assinado, trouxe ainda umas meias do Seeds Of Love que são a minha nova paixão.



Estava então na hora de programar o próximo passo. Uma vez que tinha bilhete para a fila da frente, pensei em levar, pela primeira vez, um cartaz para um concerto. Mas o que é que eu podia pedir aos rapazes? A primeira coisa que me passou pela cabeça foi pedir para tocarem o meu tema preferido de sempre dos Tears For Fears — o ferocíssimo "Raoul And The Kings Of Spain". Mas isso tinha dois senãos: em primeiro lugar, conheço a banda e sei que não era por eu pedir o tema que eles o iam tocar, não estando ensaiado; e depois é um tema da iteração Roland-a-solo dos TFF e eu sabia que ia ter o Curt mesmo à minha frente. Então decidi-me pela second-best-thing:


Sim, é como leram – queria cantar o verso do "Shout". Para quem não se lembra, é aquela parte: "in violent times, you shouldn't have to sell your soul". Teoricamente, o meu plano tinha tudo para dar certo. Sabia que era o último tema do set e sabia que o Roland costumava emprestar o microfone à audiência para cantar o refrão. Quando fui vê-los ao Royal Albert Hall em 2017, vi o Roland deixar um tipo cantar parte do verso e, pasmem-se, ele não sabia a letra. Mas eu sabia e ia mostrá-lo ao Roland, "I Believe". Siga para a sala principal do Brighton Centre.

Antes do prato forte da noite, Allison Moyet a abrir. E que bela surpresa. Entre os hits dos Yazoo e da sua carreira a solo, a ex-vocalista do duo synthpop (que formou com o hitmaker Vince Clarke, quando este saiu dos Depeche Mode) foi uma revelação.
Olhando à minha volta, apercebo-me que sou um alien ali dentro. Não só sou o único estrangeiro na sala, também sou o único abaixo dos 35.Altura também para pôr alguma coisa no estômago, que tinha passado o dia todo só com uma torradinha às 8 da manhã. Sai então duas pints, que os Tears For Fears estão mesmo a chegar.


4. Head Over Heels — O concerto de uma vida I

Já discorri vezes sem conta neste espaço sobre a excelência dos Tears For Fears. Mas para quem ainda não leu o memorando, aqui vai mais uma vez: os Tears For Fears foram a melhor banda dos anos 80. Period. Onde os The Smiths têm o "Hatful of Hollow", os TFF têm o "The Hurting"; onde os The Cure têm o "Disintegration", os TFF têm o "The Seeds Of Love"; onde os U2 têm o "The Joshua Tree", os TFF têm o "Songs From The Big Chair". São a banda mais completa de todas as que saíram desta década.

O maior elogio que se pode fazer aos TFF é que são uma banda que envelheceu bem. São uma banda que teve sucesso nos anos 80, mas a sua palete sonora é muito mais larga que essa década. O arco discográfico dos Tears For Fears é nada menos que perfeito (também porque os rapazes tiveram sempre o dom de perceber quando parar). Cada álbum é uma ilha independente, que vive por si própria e só está ligada às demais por meras questões de linguagem. É o próprio Roland que confessa que "para construir algo de novo é preciso destruir primeiro o que existe; para criar, é preciso matar". A discografia dos TFF é tão perfeita que só apetece abraçar e dormir agarradinho a ela, para depois de manhã pedir em casamento. Mas para quê complicar uma relação que já é tão perfeita?

Daqui resulta que o espólio dos Tears For Fears não é muito extenso (especialmente para uma banda que nasceu há quase 40 anos), mas clinicamente preciso. Qualquer iteração do seu repertório daria uma setlist sólida. Quando esta é construída à volta dos hits da banda, não há como falhar. O set foi por isso uma cavalgada de hit after hit, com uns deep cuts preciosos lá pelo meio. Os êxitos são tantos, que os Tears For Fears se deram ao luxo de começar com "Everybody Wants To Rule The World", tão somente o tema com mais scrobbles no Spotify.

Segue-se o apaixonante "Secret World", um tema de significado muito especial, onde os rapazes mostram a simbiose que ilustra porque é que a magia dos Tears For Fears precisa da presença de ambos. Não tirei muitos vídeos nesta noite, uma vez que estava a tentar absorver ao máximo o que se passava à minha frente. Mas mostro-vos o meu vídeo preferido de Brighton, com os rapazes em perfeita harmonia em "Secret World":



A discussão da importância das partes nos Tears For Fears é antiga. Há uma grande facção de fãs que considera que Roland, sozinho, é os Tears For Fears. E é fácil perceber porquê. Roland é o génio esquecido dos anos 80. A sua imagem não era tão icónica como Morrissey, não era tão dark como Robert Smith e (definitivamente) não era tão atractiva como a de Simon Le Bon. Roland sempre foi o protótipo do anticool. Mas isso nunca me importou. Nunca foi esse o seu apelo. Há um magnetismo animal indizível em Roland Orzabal, um dos personagens mais densos e enigmáticos da música.

Nos Tears For Fears, Roland era quase tudo. Era ele quem escrevia a maior parte da música, cantava a maior parte das canções e no entanto, quando chegava a hora de escolher os singles, eles eram invariavelmente para o Curt. Porque a verdade é que era Curt quem vendia os Tears For Fears.

Um dia o Andrew Ridgeley dos Wham! (olha quem) disse que os Tears For Fears eram "all about Curt". E de facto era o Curt quem figurava nas capas da Bravo; era o Curt quem aparecia nas festas com o Morrissey; era o Curt quem era amigo do Phil Collins (e que o levou para ser atormentado pelo Roland nas sessões do álbum "The Seeds Of Love"). Mesmo não sendo a fonte da música, era mesmo tudo acerca do Curt Smith. (Nota, não subestimem o senhor Andrew Ridgeley; ele pode ter pouco ou nenhum talento musical, mas é um milionário que fez fortuna à custa de uma carreira na música... sem ter talento musical).

Curt esteve impecabilíssimo e aqueles que dizem que não faz falta aos Tears For Fears precisam de ver com os próprios olhos a performance de temas como o épico "Badman's Song". Como é hábito, o clássico de 10 minutos foi o ponto alto do show. Eis os rapazes numa jam em "Badman's Song":



O Andrew Ridgeley tinha razão. Há de facto alguma coisa de especial acerca do Curt Smith. Tem um ar simultaneamente afável e impecabilíssimo, que o tornam numa máquina inabalável de coolness. É ele o aileron dos Tears For Fears. Tê-lo ali ao pé de mim, à distância de um braço, a mandar aquela linha de baixo pulsante do "Broken" e ainda por cima a fazer eye contact comigo a cada dois minutos, (suspiro), deixava-me derretido como se fosse uma fã adolescente a olhar para a capa da Bravo. Nem parecia real.


5. Memories Fade — O concerto de uma vida II

Memórias voltaram de uma noite em 2011, quando numa (outra) jornada épica, cruzei o deserto do Nevada em tempo recorde, só para apanhar o Curt Smith ao vivo em Los Angeles, numa sala que levava no máximo umas 50 pessoas. No fim conversámos durante imenso tempo, sobre como ele não sabia se os Tears For Fears iam voltar a gravar, sobre como ele adorava Portugal e sobre como ele era apaixonado pelo futebol de Cristiano Ronaldo. Descobri aí que o Curt era um adepto fervoroso do Manchester United e estava "Head Over Heels" para que o José Mourinho assumisse o comando da sua equipa do coração. "Careful what you wish for", já fiz o ditado inglês. Anos mais tarde, o seu "Advice" iria cumprir-se, mas "I Believe" que depois de um "Year Of The Knife" em Manchester, tudo se transformou num "The Hurting". Esta só os fãs é que perceberam. Adiante.

E por falar no "The Hurting", na introdução de "Mad World", o Curt perguntou ao público quem é que era fã dos TFF desde essa altura. 1983, portanto. E eu, que estava ali mesmo ao pé dele, respondi-lhe que ainda nem sequer tinha nascido. Eu quero aqui relembrar que estava na primeira fila. Não sei se já tinha dito. Aliás, antes de começar o concerto, eu tinha-me levantado da primeira fila para me encostar às grades, não fosse algum chico-esperto tapar-me o campo visual. Mas voltando ao Curt, ele ouviu e respondeu NO MICROFONE "there is someone here who is very excited about not being born yet then. God, I'm old." Fucking hell. Talk about contact with your idols.

Claro que o contacto que eu estava mesmo desejoso era que me deixassem cantar um bocadinho do "Shout". Sabia que o Roland tinha deixado a audiência cantar em todos os concertos até então, por isso não havia razão nenhuma para que o meu plano não desse certo. Só que alguma coisa tinha acontecido no encore break. A banda estava a ter alguns problemas técnicos. Nada que fosse perceptível de onde eu estava a ouvir, a não ser quando os rapazes trocaram inadvertidamente de microfones em "Mad World" e as backing vocals do Roland ficaram por cima da lead vocal do Curt, algo que pareceu divertir muito o Roland.



Roland esteve visivelmente martelado durante todo o concerto. E segundo as informações que me chegam dos grupos do Facebook, tem sido assim a digressão toda. É difícil perceber o que passará na sua cabeça depois da morte da sua mulher. Roland revelou ao Evening Standard que bateu no fundo no ano passado e que demorou muito tempo a sair do buraco. A sua transformação desde o show do Royal Albert Hall é evidente. Roland está mais velho, mais bruto, mais animal. Mas com a mesma dor e potência de sempre na voz. Espero que tenha carpido as mágoas em canções que possamos ouvir no futuro. Como esta —"Please Be Happy" —, que partilhou em Julho de 2017, quando a sua mulher morreu e que quase ninguém ouviu.

O processo de recuperação de Roland fez adiar a digressão no ano passado e não se sabe que mais dano terá trazido aos Tears For Fears. O novo álbum — "Tipping Point" — foi anunciado pela banda em 2013, mas já estamos em 2019 e não há sinal que o seu lançamento esteja próximo. Julgando pelo novo merchandising, a artwork deve ser esta — será que o nome do álbum mudou para "Dancing Gramophone"?! —, mas tudo o resto é desconhecido.

Nunca acaba o drama nos TFF. Recordo que a digressão esteve mais uma vez em perigo há um mês, quando Curt Smith começou a publicar mensagens crípticas no Twitter, dando a entender que tinha abandonado os Tears For Fears. Isso acabou por ser confirmado (certamente não inadvertidamente, que o Roland é um tipo muito inteligente) numa entrevista há poucas semanas, quando confessou isso mesmo ao Irish Examiner.


Esta digressão acabou por não trazer muitas novidades, para desespero dos fãs (o meu desespero é que continuam sem tocar o "Raoul", mas isso sou eu). A grande novidade da digressão surgiria em, adivinhem, Brighton. Foi a primeira performance de "Suffer The Children" desde 1983. Os fóruns entraram em histeria, bem mais que os presentes, diga-se. Eu adorei. Mas já sabem, estava mais em pulgas para o encore.


6. Shout — O encore

Azar dos azares. À entrada para o encore, a banda não parecia muito contente. O Curt chegou, agarrou no microfone e enquanto falava das "fucking technical issues" que a banda tivera com os microfones, Roland foi para a outra ponta do palco. Algo não estava a correr bem.

Eu sabia que o "Shout" ia fechar o encore, por isso saquei finalmente do meu cartaz: "PLEASE LET ME SING THE VERSE OF SHOUT". O Curt viu, riu-se para mim e avisou Roland — "Hey, looks like someone here wants to sing the verse of "Shout"!". Mas depois o Curt olhou para mim e lembrou — "but we're not going to do "Shout" now". E de facto não iam. Mas já vão perceber.

Mas nisto, o Roland, que estava do outro lado do palco de costas para o Curt (e para mim), oblívio ao que se estava a passar, não percebeu e deu ordens ao teclista para começar o drum loop de "Shout". E daí acelerou para a versão mais rápida de "Shout" desta digressão. Pela primeira e única vez, Roland não foi ao público e por isso, paciência, o meu desejo não foi satisfeito. Só quando já se estava a despedir, Roland apercebeu-se do cartaz e riu-se para mim. Hey, já é alguma coisa. E sim, eu sei, este parece o relato de uma fã adolescente. Não é, mas acho que já perceberam que é como se fosse.

Depois da saída da banda do palco, tempo para pedir uns goodies aos roadies da banda. Fui o primeiro a pedir a setlist (ai não!) ao roadie do Roland e depois de me ignorar algumas vezes, lá me deu a que estava no microfone do Curt. Atentem no encore que estava previsto.


Vêem? O Curt tinha razão — a setlist mostrava que a banda ia fazer o seu clássico cover do "Creep" e só depois, para terminar, o "Shout". Enfim, nabice minha que não puxei o cartaz mais cedo. Repararam naquela palheta ali no meio da setlist? Ah pois. Não contente com a setlist, fiquei mais uns minutos a fazer a cabeça do pobre roadie para me dar a palheta do Roland. E acreditem, eu consigo ser muito chato nestas coisas. Ele lá cedeu e quando eu a vejo, não contenho o riso. CLARO que o Roland ia tocar com uma palheta com a sua própria cara. Só podia ser dele. Mais narcisista que isto, é impossível. Não era à toa que o Curt o chamava de Sun King.

Com a mala cheia de presentes e um sorriso rasgadíssimo na cara, saí do Brighton Centre a levitar, com a sensação de ter tido uma experiência extra-corporal. Ter ali o Roland e o Curt a tocar ao pé de mim, não pareceu real. Ainda não parece real, quando penso nisso. Valeu tudo a pena. E chegava assim ao fim uma jornada épica de emoções fortes. Pensava eu.

Nada mais falso.


7. Swords And Knives — Depois do concerto

Eu queria mesmo poder chamar a este capítulo de "Goodnight Song", um tema reconfortante do álbum "Elemental", perfeito para ouvir à hora da caminha. Mas a minha experiência na dormida em Brighton foi mais de "Swords And Knives".

Antes de mais, deixem-me explicar-vos (e defender) o meu raciocínio. Já tinha gasto imenso dinheiro no bilhete para o concerto (primeira fila de um concerto como os Tears For Fears aqui no UK não é brincadeira); mais a viagem de comboio, que é outra machadada neste país; mais a batelada do poster assinado. A viagem já estava muito cara. Ora, como sabia que tinha que apanhar o comboio para Esher muito cedo no dia seguinte, ia ficar só com umas 4 a 5 horas para dormir. Não valia a pena marcar um quarto e gastar mais uma torrente de dinheiro. Solução? Uma cama num hostel. Bela ideia.

As coisas no hostel não começaram bem. As fotografias mostravam um quarto para 4 pessoas, mas afinal a minha reserva era para uma camarata de 6 pessoas. Enfim, siga que eu tenho sono. Chegado ao quarto, escuro total. E aquele cheiro a metro sem ar condicionado parado no meio de um túnel a 40 graus. Para ver onde metia os pés, liguei a lanterna do telemóvel e percebo que todos os beliches estavam ocupados, menos o andar de cima de um deles. Era a minha cama.

Quando me aproximo, sai do andar de baixo um "Vinnie Jones" furibundo na minha direcção (vou reproduzir em inglês) — "YOU FUCKING FUCK! It's 11:30! Do you think this is thr time to enter the room and slam the fucking door? You woke me up!". Das outras camas, nem um pio. Eu, obviamente intimidado pelo formato 16 por 9, ecrã PAL-PLUS do meu interlocutor, digo – "I didn't slam the door, it just closed automatically".

Mas ele não ficou muito contente com a minha resposta ou, diria eu, sequer com o facto de eu lhe ter ousado a responder. E daí avança mais um passo e encosta o nariz dele ao meu, qual jogador da bola, e atira — "I'M GONNA FUCKING KILL YOU! You're saying that wasn't a slam?! Maybe you wanna show me a slam now, do you? Do you wanna slam the door on my face, you fucking fuck?".

Bem, that escalated quickly. Neste momento, como devem compreender, só o facto de eu ter mantido a minha roupa interior intacta e as minhas pernas hirtas, já foi uma vitória. Ainda arrisquei ir lavar os dentes para a casa de banho (mais barulho para deleite do nosso amigo "Vinnie Jones"), mas quando voltei e o ouvi a praguejar entredentes numa língua que eu já nem sequer conseguia decifrar, aí percebi que tinha que bater em retirada. É que eu ia dormir mesmo por cima do "Vinnie Jones". Ou melhor, não ia dormir, porque seria impossível dormir naquelas condições. Agarrei na trouxa e fui à recepção explicar o sucedido.

Resultado? Deram-me um quarto só para mim. In your face, "Vinnie Jones". E ainda me prometeram que o iam banir para sempre da cadeia de hostels. Ainda bem que eu ia sair do hotel às 5 da manhã, caso contrário ainda me arriscava a que o meu amigo "Vinnie" me chegasse a roupa ao pêlo. Mas também convenhamos que quando um gajo se arrisca a pagar 17£ por uma noite em Brighton, levar nos cornos deve ser mesmo das melhores coisas que podem acontecer.

E tudo isto foi só uma segunda-feira.


8. Break It Down Again — O dia seguinte

Quando cheguei à estação de Brighton, ainda faltavam 20 minutos para o meu comboio. Era o primeiro de três comboios que me iriam levar até Esher (onde trabalho), em mais uma corrida de estafetas onde qualquer falha resultaria num desastre de proporções épicas (ok, era só chegar atrasado ao trabalho, mas os ingleses são muito picuinhas com isto das horas). Fui buscar um daqueles grandes cafés, adequado para o longo dia que aí vinha.

Ao anúncio da plataforma, 5 minutos antes da partida, segui em direcção ao comboio, mas fui interceptado por um revisor — "Show me your ticket, please". Lá mostrei. "I'm sorry Sir. This is not a valid ticket. This is only for off-peak trains". Oi? Off-peak trains? Ó amigo, isto são 5 da manhã. Ok, já são quase 6, mas 6 da manhã é hora de ponta? "Yes, you must go to the Travel Centre and pay the excess". Mas nisto já só faltavam 3 minutos para a largada do comboio. Esta realização fez-me entornar o café em cima de mim. Corri enquanto tentava limpar o leite com café do casaco. O excesso de um bilhete de 35£ eram "só" 21£. Até corei. Mais uma corrida e consegui apanhar o comboio ao sinal do pipipi das portas. A primeira etapa estava safa.

A primeira passagem de testemunho era em East Croydon e havia apenas 4 minutos de diferença entre a chegada de um e a partida do outro. E como não poderia deixar de ser, o comboio de Brighton atrasou-se... 4 minutos. Saí esbaforido do comboio e entre subir escadas, correr e descer escadas, devo ter feito um recorde de 20 segundos e 3 pessoas atropeladas. Mais uma vez depois do pipipi, lancei-me para dentro de uma carruagem cheia de East-Croydonianos que não acharam muita piada à brincadeira.

A segunda passagem de testemunho foi em Clapham Junction e aí sim, já foi tudo smooth sailing. Quer dizer, foi tranquilo porque não apanhei nenhum pica, porque na verdade só paguei o excesso do off-peak e não o excesso para a ligação até Esher. Era o fim de 24 horas loucas, das quais ainda estou agora a recuperar.

À hora que termino de escrever este texto, já passaram 5 dias desde o concerto e olhando para trás, tudo foi tão rápido que a sensação é que foi tudo um sonho. Um sonho bom. Daqueles de que não apetece acordar e quando o maldito despertador toca, metemos o snooze para tentar voltar. Não pareceu e continua sem parecer real. E tal como no concerto de 2017, voltei a sentir que tudo passou demasiado rápido. É o mistério do tempo, que faz os bons momentos parecerem tão curtos e depois os estica na memória para toda a eternidade.


9. Mother's Talk — P.S.:

Esta semana a minha mãe ligou-me com más notícias. Depois de ouvir o London Calling desta semana — o meu programa de rádio na NiTfm (se não conhecem, you're missing out!) —, disse-me: "Expões-te demasiado! Toda aquela conversa que a música mudou a tua vida e não sei quê. Expões-te em demasia!" Ó Mãe, a culpa é do Roland e do Curt. Fala com eles.

Por falar no London Calling, não deixem de seguir a página no Facebook e claro, ouçam o programa desta semana "Shows From the Big Chair", dedicado aos Tears For Fears. Uma vez que não tive tempo para preparar o programa nos moldes habituais, o programa é o primeiro de sempre a ser gravado integralmente de improviso.

A ideia era contar a história épica das 24 horas de Brighton e intercalá-la com algumas das melhores performances ao vivo dos Tears For Fears. Mas tal como sempre acontece quando começo a contar as minhas histórias (perguntem às minhas estagiárias), acabei por me entusiasmar e ter que interromper o programa quando já batia praticamente a hora e meia. O programa tem performances em 1983 no programa de John Peel para a BBC, em 1985 no Massey Hall, em Toronto e em 1996 no Shepperd's Bush, aqui em Londres. Absolutamente imperdível.

10. Benfica — 0. Nacional


Perdoem-me, mas tinha que fazer menção a isto.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

A glória das manhãs que veio de Manchester

What's the story? Morning glory.


Quando comecei a trabalhar em Londres, uma das coisas que mais estranhei foi a atitude dos ingleses para com as manhãs de trabalho. Todos os dias, quando chegava ao escritório de manhã e dizia um alto "Good mo'nin'" em inglês amourinhado, o meu chefe perguntava-me não-retoricamente "How are you doing?". Percebi que não era retórico, uma vez que ele ficava sempre a olhar para mim fixamente à espera de uma resposta. Hã? Mas o que é que ele tem a ver com isso? Eu chego ao trabalho para trabalhar e ele confronta-me com perguntas pessoais? Que lhe vou dizer? Que estou deprimido porque o fim-de-semana acabou? Porque o Benfica vai atrás no campeonato? Não podia, obviamente.

E então eu respondia-lhe com um "Ok". O "Ok" menos miserável que me era possível, tendo em conta que eram 7:55 da manhã de uma terça-feira sem sol e sem perspectivas de ele aparecer durante o resto do dia. Mas depois eu devolvia-lhe a pergunta — "How about you?" — e ele retorquia com um contundente: "Spectacular!". Wait, what? E eu ficava de rastos.

A verdade é que nós, em Portugal, estamos mal habituados. Vemos o sol todos os dias e damo-lo como garantido. Não lhe damos a importância devida. Mesmo com o sol radioso lá fora, damo-nos ao luxo de ir para o trabalho deprimidos. Passar o dia de trombas. Até porque "é trabalho" — dizemos nós —, é suposto estarmos deprimidos. Certo? Errado. Para os ingleses, não.

O facto de eles normalmente não terem sol faz com que tenham que se alimentar de outra coisa qualquer — uma força ou energia interior qualquer (perdoem-me, não sou bom a fazer de Gustavo Santos) —, que lhes faça enfrentar a jornada de trabalho com alegria e pujança. É algo que nos é estranho, uma vez que nós, portugueses, nos alimentamos do sol e da vitamina D e da cor e da luz e quando não as temos, caímos em depressão. Os ingleses, não. Eles conseguem sair do buraco de alguma forma e ainda ter os rins para dar a volta e criar música que alimenta, inspira e salva as vidas dos habitantes do Sul da Europa. Como a minha.

Por isso comecei a pensar que, uma vez que estou aqui e tenho que viver no mesmo clima dos ingleses — e obviamente, como bom português que sou, também odeio os dias cinzentos —, tenho agora que adoptar uma postura diferente para com as manhãs de trabalho. E daí voltei-me para a minha inspiração de sempre — a música de Manchester. Não esquecer que Manchester é uma cidade ainda mais escura, fria e austera que Londres. E que mesmo assim é um bastião de uma cultura de afirmação, cor e positivismo sem paralelo. Se alguém tem o segredo, são eles. E pensei: como é que o Ian Brown dos Stone Roses responderia à pergunta "How are you doing?", de manhã, num dia de chuva, à entrada do trabalho?




"GLORIOUS!", diz o Ian Brown. Para falar verdade, antes já os Oasis tinham feito uma canção sobre isso. Estava encontrada a minha musa. Mais uma vez, a música de Manchester a tomar conta na minha vida. Ela que me salvou mais vezes do que eu posso contar e me influenciou em toda a linha, desde a maneira de vestir, até à maneira de andar e até agora, à maneira de como respondo de manhã à pergunta "How are you doing?""Glorious!", digo sempre. Agora são os gregos e os espanhóis, europeus do sul e haters de cinzento como nós, que ficam baralhados. Ninguém sabe de onde vem aquela Morning Glory e muito menos imaginam que vem da cinzenta Manchester.



P.S.: Vem esta reflexão a propósito do episódio desta semana do London Calling — " …E ao sexto dia, Deus criou MANchester" — a minha carta de amor a Manchester, onde discorri sobre o absolutamente inigualável espólio musical da cidade: Buzzcocks, The Fall, Joy Division, A Certain Ratio, The Durutti Column, New Order, The Smiths, James, The Stone Roses, Electronic, Inspiral Carpets, The Charlatans, Happy Mondays, Oasis, The Verve, uff... Um programa a não perder.

P.P.S.: Sim, há um outro significado para "morning glory", mas o trabalho no campo da engenharia não é assim tão entusiasmante.

sábado, 12 de janeiro de 2019

E o prémio de melhor pior filme de 2018 vai para “Bros: After The Screaming Stops”

O filme que apanhou o Reino Unido de surpresa e deixou toda a gente a falar nos gémeos Goss, 30 anos depois



Trinta anos depois, os Bros voltaram a ver as suas fotos nos jornais. Bros? Quem? Se são da minha geração (nascidos após o Live Aid), é possível que nunca tenham ouvido falar nos Bros. Se nasceram antes e perceberam o trocadilho da introdução, é bem provável não tenham muita vontade em voltar a falar neles. Mas calma, segurem-se aí um bocadinho, que isto vai valer a pena.

Para quem não conhece, os Bros foram uma boys band da segunda metade dos anos 80, que atingiram um efémero mas fenomenal sucesso no UK, principalmente junto da audiência teen, com o seu álbum de estreia "Push" e temas como "I Owe You Nothing" e "When Will I Be Famous?" (btw, a resposta é 1988 e 1989). A banda era composta pelos gémeos Goss — Matt na voz e Luke na bateria — e Chris "Ken" Logan no baixo. Ken não se deu bem com o sucesso e saiu no início de 1989.



Os manos tiveram o seu momento Knebworth em Agosto de 1989, quando encheram o Estádio do Wembley com apenas 20 anos (!!!) de idade. A partir daí, a descida foi a pique. Ao contrário de outras boys band bem parecidas dos 80s, como os Wham! ou os Duran Duran, os manos não tinham muito talento do seu lado. Seguiram-se por isso mais dois álbuns que caíram em saco roto e os Bros terminaram em 1992, sem que o mundo nunca mais soubesse nada deles. Até agora.

Fast-forward 25 anos e os manos regressam com um dos melhores piores filmes de sempre. "After The Screaming Stops" é o filme que resultaria se o "The Office" de Ricky Gervais fosse de facto um documentário sobre um escritório e não um trabalho de ficção. No caso dos Bros, a realidade ultrapassa em muito a ficção de Gervais.

Começamos o documentário a saber que os gémeos Goss não se podem ver à frente. Principalmente por causa de Luke (o baterista), que nunca recuperou do ressabiamento por ver o seu mano ter toda a atenção das meninas nos anos 80. Apesar de serem fisicamente iguais, Matt era o vocalista da banda e já sabemos, elas gostam é dos vocalistas. Vemos então Luke numa praia na Califórnia a atirar pedras ao mar, numa cena que podia sair de um bloco introdutório do Big Brother, ou melhor ainda, do Último A Sair.

Luke mudou-se para Los Angeles, mas tem Londres no coração — "I'm a Londoner. Embankment. Big Ben. Cab drivers". Começamos a contorcer-nos no sofá. Naturalmente, Luke entregou-se à espiritualidade e é hoje um homem diferente. Só não pode ouvir falar no seu irmão, claro. A não ser que... Bem, a não ser que lhe ponham uma oferta milionária para um reunião dos Bros, com uma digressão em arenas por todo o Reino Unido. Aí já a conversa muda de figura.

Seguimos para Las Vegas, onde vamos encontrar Matt na sua mega-mansão (os Bros devem ter feito mesmo muito dinheiro) cheia de cristais (que lhe dão energia positiva) e regras de que se alguém quiser discutir, tem que ir para a rua. Matt tem uma óbvia paixão pela sua casa e confessa: "acho que as letras H, O, M e E são muito importantes, uma vez que personificam a palavra HOME (casa)". Que maravilha. Parece uma frase do David Brent, mas não, é muito melhor, é o Matt Goss. Ele voltou e vem trazer-nos o melhor entretenimento involuntário dos últimos anos.



Os manos reúnem-se finalmente em Londres para preparar a abertura da digressão no o2, mas como se esperava, as coisas não correm bem. As cenas que se seguem entre eles são tão deliciosamente viciosas, que parecem ter saído de um guião do "The Office". O nível de alienação dos manos é tal, que parece mesmo que estamos a ver um programa de ficção e não um documentário. Mas a realidade é muito mais hilariante que o "This Is Spinal Tap" e o "The Office" juntos.

Nada se salva aqui: a relação entre os manos é má; o talento é baixo; a alienação é alta; o desligamento da realidade é total. Mas tudo o que vemos em "After The Screaming Stops" é tão maravilhosamente mau, que acabamos o documentário a torcer pelos manos Goss. A verdade é que eles não têm culpa do que lhes aconteceu. Foram atirados muito novos para a máquina trituradora da fama e sem o talento para servir de fundação, acabaram como coelhos no meio da estrada a olhar para os máximos dos carros na sua direcção.

Os dois concertos no o2 foram mesmo para a frente em 2017, mas o resto da digressão foi cancelada por "condicionantes logísticas inesperadas", que é como quem diz, falta de bilhetes vendidos. Os Bros não conseguiram criar buzz para a sua reunião e parecia que estavam finalmente mortos e enterrados. Mas devido ao deliciosamente mau "After The Screaming Stops", os manos voltam a ver as suas fotos no Metro e no Evening Standard, de tal forma que já há uma nova resposta à pergunta "When Will I Be Famous?" 1988, 1989 e 2019.


https://www.youtube.com/watch?v=NvQTTA9raJU

P.S.: Eu sei que estavam à espera da referência, por isso cá vai. Se era para dar o Globo de Ouro a um mau filme sobre música, o prémio devia ir para os Bros e não para o "Bohemian Rhapsody".

sábado, 29 de dezembro de 2018

"Black Mirror: Bandersnatch" é um maravilhoso labirinto de loucura, alienação e morte

A Netflix guardou o melhor do ano para o fim. "Black Mirror: Bandersnatch" é mais um triunfo monumental da melhor série do século XXI e um aperitivo do que vem aí num futuro não muito distante no mundo do entretenimento.

E se? Quem nunca se perguntou a si mesmo o que é que aconteceria se tivesse feito as coisas de outra forma? E se tivesse tomado decisões diferentes em momentos-chave da sua vida? E as pequenas decisões? Em que é que elas influenciam a nossa vida? Penso se tivesse ido à casa de banho em Heathrow 5 minutos antes e não tivesse apanhado aquele gajo que espirrou em cima de mim, estaria há uma semana de cama? E se não tivesse ido para Londres há um ano, o que seria da minha vida agora? Por que tomamos estas decisões, por vezes tão estranhas e anticlimáticas, que viram a nossa vida do avesso? Nunca sentiram que não estão no controlo do que acontece na vossa vida?

São estas tiras que compõem o espectro filosófico de "Black Mirror: Bandersnatch" — o novo episódio de Black Mirror lançado ontem na Netflix. E este só dá mesmo para ver na Netflix, aqui não há outra saída. O enredo de "Bandersnatch" é um labirinto que o próprio telespectador resolve (e em partes participa directamente), tomando as decisões de vida de Stefan Butler, um jovem programador de videojogos que, coitado, está submetido à nossa vontade, assim na Terra como no Netflix. Se é que a fronteira entre ambos não está já demasiado difusa. Esta é também uma forma efectiva de combater a pirataria, uma vez que o espectador precisa da aplicação do Netflix para poder intervir nas decisões do Stefan. Não dá para simplesmente "sacar" o episódio. Isto disseram-me, atenção.

Um pouco de contexto. Stefan é filho único, órfão de mãe e isso é um fantasma que o persegue, como ao Pac-Man (hint!). A história segue-o na missão impossível de em poucos meses adaptar o livro "Bandersnatch" a um jogo de 48k. "Bandersnatch" é uma obra de Jerome F. Davies, um "génio" que enlouqueceu e decapitou a mulher, convencido que tinha perdido o controlo sobre as suas próprias acções. Já viram onde é que isto pode vir a dar.

"Bandersnatch" suga-nos para o seu próprio universo, com uma caracterização nada menos que sublime. A série passa-se em 1984 (hint!) na cidade de Londres e conta com com múltiplas referências à cultura de então e uma pesadíssima influência da música alternativa dos anos 80 (tentem decifrar na foto em cima). E começa aqui a minha história de amor com este episódio. Londres nos anos 80 é um cenário saído de um sonho. Um sonho pintado a cinzento (como é apanágio da cidade), principalmente para o pobre Stefan.

Não é por acaso que a brutalíssima (pun intended) Trellick Tower em Notting Hill serve de cenário para uma das cenas fundamentais do enredo. Odiada pela maioria dos transeuntes, que vêem nela uma besta na skyline londrina, a torre de arquitectura brutalista tem um fascínio sombrio ímpar, que atrai magneticamente o olhar e propulsiona a imaginação sobre as histórias de amores e terrores que ali se deselançam. Quando Stefan lá vai, à casa de Colin Ritman — um bem-sucedido designer de videojogos —, este desvenda-lhe os mistérios da vida e põe em causa a realidade conforme a conhecemos, num monólogo com a banda sonora cinemática dos Tangerine Dream ("Love On A Real Train") que ajuda a definir o espectro filosófico que referi há pouco:
As pessoas pensam que só há uma realidade, mas há imensas, como raízes. O que fazemos numa timeline afecta o que acontece nos outros caminhos. O tempo é uma construção. As pessoas pensam que não se pode voltar para trás e mudar as coisas, mas podem. É isso que são os deja vus — são convites para voltar atrás e fazer escolhas diferentes. Quando tomas uma decisão, pensas que és tu a fazê-lo, mas não. É uma entidade no lado de lá que está ligado ao nosso mundo que decide o que fazemos e nós só temos que seguir o que nos é imposto.
Wait, what? Vamos voltar ao início do labirinto.

São estas tiras que compõem o espectro filosófico de "Black Mirror: Bandersnatch" — o novo episódio de Black Mirror lançado ontem na Netflix. O enredo de "Bandersnatch" é um labirinto que o próprio telespectador resolve, tomando as decisões de vida do Stefan que, coitado, está submetido à nossa vontade. A primeira vez que se percorre o labirinto de "Bandersnatch" é como uma viagem de fascínio e descoberta. Mas como todos os labirintos, também Bandersnatch tem os seus becos sem saída. Quando nos decidimos a saltar da janela, somos convidados a voltar para trás. Outra vez. Mas não há problema, porque se nesta timeline fomos de vela, noutras teremos uma chance de fazer as coisas correrem bem. Ou será que teremos?

São estas tiras que compõem o espectro filosófico de "Black Mirror: Bandersnatch" — o novo episódio de Black Mirror lançado ontem na Netflix. O enredo de "Bandersnatch" é um labirinto que o próprio telespectador resolve e é quando se volta para trás e se procuram caminhos alternativos, que a cabeça começa a andar à roda. Só aí se percebe o verdadeiro espectro deste projecto e o que é que filosoficamente implica. O episódio deixa-nos fazer uma e outra e outra iteração e aí sim, podemos pôr à prova todos os "e se?" da vida do Stefan. Todas aquelas fantasias que alimentamos nas nossas vidas, o "Crtl+Z", apagar e fazer de novo, aqui tudo é possível. Estamos no controlo. Guiamos a vida do Stefan e todas as pequenas decisões que tomamos afectam o que acontece a seguir, criando uma árvore de possibilidades imensa. Tudo depende das nossas escolhas e o Stefan, coitado, está submetido à nossa vontade, assim na Terra como no Netflix. Se é que a fronteira entre ambos não está já demasiado difusa.

Numa das iterações, é-nos dada a hipótese de explicar ao Stefan que os estamos a controlar do futuro, numa plataforma interactiva chamada Netflix, para nosso próprio entretimento. Wait, what? A série goza consigo própria, num delicioso humor self-deprecating que nos deixa a cabeça a andar à roda. A nós e ao Stefan que, compreensivelmente, fica ainda mais confuso e o seu comportamento ainda mais desviante. Mas podemos sempre corrigir as coisas e tentar que o Stefan tenha melhor sorte em mais uma iteração. Se é que isso é possível.

Como terão percebido nos parágrafos em cima, a repetição é uma figura de estilo fundamental neste episódio de Black Mirror. É uma ferramenta eficaz para a sucção para o universo de "Bandersnatch". Eu, pelo menos, ainda não consegui sair de lá. E que maravilhoso é.

Como é costume em Black Mirror (e como tanto gostamos), os easter eggs estão um pouco por todo o lado no universo de "Bandersnatch". Logo no início do episódio, somos brindados com um outdoor grafitado com um símbolo que nos é familiar do episódio "White Bear", acompanhado pela inscrição "no future". As coisas já não parecem muito optimistas aqui (noutra iteração aparece um autocarro com a inscrição "new beginning"). O símbolo de White Bear vai aparecer um várias vezes ao longo do episódio e sempre que tal acontece, sabemos a priori que boa coisa daí não vem. Quando Stefan chega aos estúdios da Tuckersoft, dá de caras com o cartaz de "Metl Hedd", numa referência ao (melhor) episódio da quarta temporada. Colin está por sua vez a trabalhar em "Nohzdyve" numa referência ao primeiro episódio da terceira temporada. Quando Stefan está à porta do consultório, ouvimos o tema dos XTC "Making Plans for Nigel", numa dica para um dos finais que podemos ter em "Bandersnatch". E por falar em dicas, a melhor é dada no início pelos Frankie Goes To Hollywood: "relax, don't do it" (e só à segunda visualização é que nos apercebemos que o Pai tranca a porta de uma certa divisão da casa). Se ao menos o Stefan ouvisse os sinais.

Para mim, não há dúvidas: o melhor do ano ficou guardado para o fim. "Black Mirror: Bandersnatch" é mais um triunfo monumental da melhor série do século XXI e um aperitivo do que vem aí num futuro não muito distante. Como o Black Mirror sempre fez, aliás. A única questão é saber se "Bandersnatch" é o melhor episódio do ano, o melhor filme do ano, ou whatever the fuck it is, porque acho que não há ainda uma categoria para isto. Um maravilhoso mindfuck.

P.S.: Se como eu, não quiserem sair do maravilhoso universo de "Black Mirror: Bandersnatch", deixem-se submergir pela banda sonora deste episódio.

sábado, 24 de novembro de 2018

Nós somos os campeões — A lista definitiva dos melhores álbuns dos Queen

Uma vez que continuo a receber e-mails irados à custa da crítica ao poucochinho "Bohemian Rhapsody" e hoje faz 27 anos que o Rei Freddie nos deixou, tenho a desculpa perfeita para escrever mais uma vez sobre a minha banda favorita.

Com toda a atenção que é dada a Freddie Mercury, esquecemo-nos que os Queen eram de facto uma excelente banda, com excelente música e com uma matriz de choque com o establishment que é o exacto oposto do que o Dr Brian May nos quer vender hoje em dia. Uma banda com o repertório tão vasto e tão variado, que os fãs nunca vão concordar qual o melhor e o pior. Esta é a minha lista.

15. FLASH GORDON (1981)

"What's happenin', Flash?!"


É obviamente o álbum mais fraco dos Queen, dêem-se as voltas que se derem. Tem apenas uma canção terminada, com cabeça tronco e membros ("The Hero"), sendo que nem sequer foi o single do álbum. Esse foi "Flash" (ou "Flash's Theme" no disco), pouco mais que uma colagem de efeitos sonoros sobre uma linha de baixo de uma nota repetida apenas (e vá, com uma bridge pelo meio). Não deixa de ser uma colagem cool, mas é só isso mesmo, uma colagem. E foi um hit.
"Flash Gordon" é uma festa de sintetizadores e um disco brutalmente experimental; e contudo, os Queen têm todo o meu respeito pela coragem de lançarem este trabalho completamente anticlimático, logo a seguir a terem conquistado ambos os lados do Atlântico com o álbum "The Game".
Imaginem os tomates que são precisos para a maior banda do mundo da altura suceder o seu álbum mais bem recebido com isto. Maravilha. Só mesmo os Queen.

Faixas essenciais: "The Hero", "Flash's Theme" e vá, "Football Fight".


14. THE MIRACLE (1987)

"Goodbye, the party is over"


Na altura do seu lançamento, "The Miracle" foi visto com bons olhos pelos fãs dos Queen, que já ansiavam por algo mais próximo das suas origens Rock. O entusiasmo vinha de "I Want It All", um tema Rock straight-forward que prometia um álbum mais pesado, em consonância com o movimento Hair Metal que dominava as tabelas da altura. Nada mais falso.
Olhando para trás, "The Miracle" não conseguiu ser isso nem outra coisa nenhuma, a não ser música feita para agradar às massas, o que é exactamente o oposto daquilo que os Queen são (ou foram até 1982). "The Miracle" trouxe uns Queen normalizados, a tentarem entrar com toda a força na rádio mainstream da altura. E honra seja feita aos rapazes, isso foi conseguido com sucesso, uma vez que os singles (e os respectivos vídeos) são de facto terrivelmente atraentes.
"Breakthru" e o tema-título "The Miracle" são os pontos altos, "I Want It All" é o arquétipo do tema perfeito para a rádio, "Scandal" é uma jóia escondida e até "The Invisible Man" pode ser desculpável, se visto como um momento de Queen just wanna have fun. Já para coisas como "Party", "Khashoggi's Ship", "Rain Must Fall", ou "My Baby Does Me" é mais difícil encontrar desculpas (como é que "Too Much Love Will Kill You" e "My Life Has Been Saved" ficaram de fora?). Nem os singles disfarçam um álbum profundamente desinspirado. A festa tinha mesmo acabado para os Queen.

Faixas essenciais: "Breakthru", "The Miracle" e "Scandal".


13. THE WORKS (1984)

"It's software, it's hardware. It's heartbeat, it's time-share"


O álbum “Hot Space” gerou tensões tão grandes no seio dos Queen, que por pouco não separou a banda em definitivo. O público não quis nada com as experiências Gay Disco de Freddie Mercury e por isso os Queen em 1984 abriram o Windows no safety mode, com o lançamento de um álbum seguríssimo-mesmo-na-roupa-mais-delicada — "The Works". Nunca percebi muito bem o título do álbum, a não ser na perspectiva que este disco foi visto pelos Queen como mais um dia no escritório.
Os Queen estavam desesperados por reaver a sua audiência de volta e por isso estavam propositadamente a jogar pelo seguro. Nesta altura, a única coisa que ancorava os Queen à sua matriz ultrajante eram os vídeos, que compensavam o facto da banda se ter (finalmente) rendido à crítica e começar a produzir pop adulta by-the-numbers para agradar à MTV. Ironia das ironias, o single principal do álbum "Radio Ga Ga" fala precisamente disso mesmo.
Valeram os singles, impossíveis de não gostar, até porque são tão easy-listening, não é?

Faixas essenciais: "I Want To Break Free", "It's A Hard Life" e "Hammer To Fall".


12. JAZZ (1978)

"Only football gives us thrills, Rock 'n' Roll just pays the bills"


Os Queen passaram a década de 70 a ostentar nos seus álbuns o lema "No synths!", orgulhando-se de que todos os sons misteriosos ouvidos na sua música eram provenientes da guitarra de Brian May. Isto é tudo muito bonito, mas no fim do dia, acabava por ser uma limitação que os Queen se auto-infligiam. Sem razão nenhuma.
A verdade é que em 1978, as ideias dos Queen para um mundo perfeito sem sintetizadores já começavam a escassear. Nesta altura, o core business dos Queen já eram os concertos, onde a banda brilhava intensamente e o álbum "Jazz" foi demasiado-obviamente composto para ser tocado ao vivo para dezenas de milhares de pessoas. Isso já era óbvio no antecessor de 1977 ("News Of The World"), mas aqui já nem disfarçam ("Let Me Entertain You" é um bom exemplo). Parecia que os Queen estavam apenas numa de go through the motions, sem grande intenção de arriscar ou inventar coisas novas, como era a sua matriz de trabalho (excepção será o magrebino "Mustapha" e talvez "Dead On Time", a roçar o heavy metal).
Curiosamente, também aqui os Queen denunciam isto mesmo no tema "More Of That Jazz" ("what you're given is what you've been given a thousand times before"). Os Queen precisavam de se reinventar e ainda bem que o fizeram no álbum "The Game".

Faixas essenciais: "Mustapha", "Fat Bottomed Girls" e "More Of That Jazz".


11. Queen (1973)

"Mother Mercury, look what they've done to me"


O primeiro álbum dos Queen é aquilo que no atletismo se chama de "falsa partida". Há aqui muitas e dispersas influências (Led Zeppelin a mais óbvia) e boas ideias, algumas mais tarde desenvolvidas para algo superior ("Seven Seas Of Rhye") e outras felizmente abandonadas ("Jesus" era demasiado preachy para uma banda Rock).
Os Queen já arranham algumas malhas como "Doing Alright", "Liar" e "Son And Daughter", que iriam em breve desabrochar ao vivo. "Keep Yourself Alive" abre a discografia dos Queen com um riff glorioso, mas a canção não está ao nível.
Parecia ainda faltar alguma confiança aos Queen, mas como sabemos, a modéstia não é propriamente o forte do nosso Freddie e felizmente a sua visão grandiosa iria em breve dar asas à banda londrina.

Faixas essenciais: "Doing Alright", "Liar" e "Son And Daughter".


10. The Game (1980)

"Are you ready for this? Are you hanging on the edge of your seat?"


Os Queen entraram na década de 80 com uma explosão... de sintetizadores. Quebrando o dogma que levaram até ao álbum "Jazz", os Queen agarraram-se aos sintetizadores com toda a fome de quem estivera uma década à míngua e comportaram-se como aquele miúdo que recebe uma Nintendo 64 pelo Natal e durante três meses não sai do quarto (eu em 1998, portanto).
Ha quem diga que a partir daqui, os Queen deixaram de ser muito bons e passaram a ser apenas bons. Eu discordo, uma vez que os Queen continuaram a fazer boa música e se não era tão boa como o passado, não teve a ver com o uso de sintentizadores per se, mas sim com o mau uso dos mesmos, ou então o seu uso excessivo mascarar outras deficiências da banda, como algum desinteresse dos seus membros, depois de uma década exaustiva de ciclos álbum-tour-álbum-tour.
"The Game" foi no entanto um triunfo absoluto para os Queen, uma vez que foi o álbum que conquistou a América, nomeadamente com o single "Another One Bites The Dust". É o exemplo perfeito de como casar com bom gosto os velhos Queen, com o uso do novo brinquedo.

Faixas essenciais: "Dragon Attack", "Another One Bite's The Dust" e "Save Me".


9. NEWS OF THE WORLD (1977)

"You brought me fame and fortune and everything that goes with it. I thank you all"


Há um momento no filme "Bohemian Rhapsody" que define "News Of The World" – quando Brian May diz a Freddie Mercury (três anos mais tarde do que na realidade aconteceu) "quero escrever uma canção que o público possa cantar connosco". Temas como "We Will Rock You" e "We Are The Champions" são exercícios disto mesmo.
"News Of The World" é puro Arena Rock, mas nem por isso os Queen deixaram de ser ultrajantes. Prova disso é que as sugestões sexuais se estavam a tornar cada vez mais óbvias ("you gotta fight from the inside, attack from the rear"). Pena que "Get Down, Make Head" fosse à última hora alterado para "Get Down, Make Love".
Adoro "News Of The World" e dói-me deixá-lo aqui no número 9, mas notem que ter um álbum como este na nona posição não significa que seja fraco. Significa apenas que os Queen eram assim TÃO bons.

Faixas essenciais: "It's Late", "Spread Your Wings" e "My Melancholy Blues".


8. SHEER HEART ATTACK (1972)

"Baby you've been had"


Estava eu esta semana na Pretty Green em Carnaby Street e começa a tocar o "Brighton Rock" nas colunas. Os rapazes que trabalhavam na loja — deviam ter os seus 20 anos —perguntavam-se o que raio era aquilo. Eu intrometi-me orgulhoso — "Isto é Queen!" —, ao que um respondeu — "não sabia que os Queen faziam música pesada!". Ah pois. E eu terminei com "os Queen faziam de tudo e era tudo bom!". E se há testamento disso mesmo é "Sheer Heart Attack", um álbum mais simplista que o seu antecessor ("Queen II") e o seu sucessor ("A Night At The Opera") e que trocou uma abordagem menos complexa e grandiosa na composição por uma sonoridade mais pesada em temas como "Brighton Rock", "Tenement Funster", "Flick Of The Wrist" (que malha!) e "Stone Cold Crazy" (um cover habitual dos Metallica). Os Queen conquistaram as tabelas do UK e do Japão com este álbum e as coisas começaram finalmente a aquecer (como se pode atestar pela capa do álbum).

Faixas essenciais: "Brighton Rock", "Flick Of The Wrist" e "In The Lap Of The Gods... Revisited".


7. Hot Space (1982)

"I've got fire down below, I'm just a regular dynamo"


Baixem lá essas forquilhas, ó seus fãs dos Greatest Hits. Não, "Hot Space" não é propriamente um desfilar de hits como, por exemplo, "The Works". E ainda bem. Porque "Hot Space" é o álbum que define exactamente o que eram os Queen — uma banda sempre a puxar os limites, sem medo de correr riscos e mais que isso, com vontade de correr riscos; vontade de chocar, ser ultrajante. Em suma, o oposto daquilo que o filme "Bohemian Rhapsody" nos mostrou.
Tenho um tremendo, tremendo respeito pelos Queen por este álbum. Pese embora os próprios Brian e Roger ainda o odiarem, continua a ser um testamento de como os Queen não têm paralelo. Mas mais. É na verdade um dos álbuns que mais ouço.
Depois disto, os Queen avançaram para fazer música "melhor" (ninguém pode dizer que "I Want To Break Free" não é melhor que "Body Language", ou "Radio Ga Ga" pior que "Back Chat"), mas os Queen deixaram de ser o gajo da gabardine que vai para o parque mostrar as partes íntimas às velhotas e deixar todos os transeuntes em estado de choque.
Imaginem lá agora que o John Bonham nunca tinha morrido em 1980 e os Led Zeppelin tinham feito um álbum Gay Disco. What the fuck? Exacto. Nunca teriam a coragem de fazer um álbum desses. E por isso é que os Queen são melhores. Os melhores. De sempre. Word.

Faixas essenciais: "Staying Power" ao vivo (eu sei, eu sei, é batota) , "Cool Cat" e "Under Pressure".


6. I N N U E N D O (1991)

"My make-up may be flaking, but my smile still stays on"


Os Queen estavam convencidos que "Innuendo" iria ser o último álbum que Freddie Mercury poderia gravar, por isso sabiam que tinham que make this one count. Depois do tiro ao lado com "The Miracle", aqui não havia espaço para falhanços. Era o tudo ou nada. E por isso mesmo os Queen capricharam neste álbum extraordinário, com clássico atrás de clássico ("I'm Going Slightly Mad" é talvez a faixa mais britânica de sempre), exceptuando quando quiseram fazer a vontade ao Freddie e deixá-lo cantar um tema para a sua gata Delilah. E o tema que não resultou com a Montserrat Caballé ("All God's People") também era desnecessário. Fora isso, é uma saída triunfal para o arco discográfico dos Queen. Não é por acaso que "The Show Must Go On" é a última faixa do álbum. Freddie não sabia se ia sequer terminar "Innuendo", quanto mais gravar mais alguma coisa a seguir...

Faixas essenciais: "Innuendo", "I'm Going Slightly Mad" e "The Show Must Go On".


5. A Kind Of Magic (1986)

"Here we are. Born to be kings"


"A Kind of Magic" é um álbum puro 80s. E nem pensem que isto tem uma conotação negativa, uma vez que tem tudo o que foi de bom nos 80s e tudo na conta certa. A simbologia do álbum é deliciosa e a música é a mescla perfeita entre uma banda Rock dos anos 70 e os sintetizadores dos anos 80. Os Queen também conseguiram o feito de cruzar na perfeição um álbum de banda sonora com um álbum Rock. Continua a ser um testamento que os Queen podiam e sabiam fazer tudo e era tudo bom.

Faixas essenciais: "One Vision", "Who Wants To Live Forever" e "Gimme The Prize (Kurgan's Theme)".


4. MADE IN HEAVEN (1995)

"So quiet and peaceful (dreaming...); Tranquil and blissful"


Muito falei nesta crónica de "riscos"; que os Queen eram excepcionais porque não tinham medo de correr riscos e faziam-no com gosto e com vontade de desafiar o mundo, a crítica e os próprios fãs. Tudo verdade. Mas nessa perspectiva, que riscos é que os Queen correram no adult sounding "Made In Heaven"? Nenhuns. Excepto o risco que o seu vocalista pudesse morrer a qualquer momento. Isso é capaz de ser arriscado. E foi mesmo. Porque Freddie Mercury morreu mesmo a meio de "Made In Heaven".
Sabendo da situação periclitante de Freddie, os Queen mudaram-se de armas e bagagens para Montreux em 1991, onde ocuparam os Mountain Studios (onde mais tarde foi erguida uma estátua ao Rei, que serviu de capa para o álbum e ainda lá está nos dias de hoje), à espera que Freddie Mercury tivesse uns dias de melhoria e apanhasse um avião para mandar abaixo mais umas faixas vocais. As sessões foram por isso aquilo que (compreensivelmente) puderam fazer delas.
Neste período, Freddie gravou "You Don't Fool Me", "A Winter's Tale" e metade de "Mother Love". Aqui as coisas ficam um pouco difusas, uma vez que Brian May afirma que a última faixa que Freddie gravou foi "Mother Love" em Montreux, tendo que abandonar a sessão a meio e nunca voltado para a completar (e por isso é Brian quem canta o último verso). Esta é uma versão mais dramática e pro-Queen da História, apanágio do nosso astrofísico favorito.
A outra versão é do produtor David Richards, que disse que a última faixa vocal que Freddie gravou foi na verdade "A Winter's Tale", em Londres, a 11 de Novembro de 1991. A 10 dias de morrer, portanto.
Toda este elán faz com que "Made In Heaven" seja um álbum especial. É um álbum que prova que Freddie tinha, acima de tudo o resto, uma missão neste mundo — cantar. Fê-lo até ao fim contra tudo e contra todas as doenças, dores e um sofrimento inimaginável. E tudo para que nós, os seus fãs, quem o amava verdadeiramente sem pedir nada em troca, pudéssemos desfrutar de mais um miminho. E que miminho ele nos deixou. Obrigado, Freddie.

Faixas essenciais: "Two Much Love Will Kill You", "Mother Love" e "A Winter's Tale", duas faixas gravadas nos últimissimos dias do Rei.


3. A Night At The Opera (1975)

"So très charmant, my dear"


Já quase tudo foi dito sobre "A Night At The Opera", o álbum que tem como grande defeito não estar à altura do seu mamutiano single de avanço — "Bohemian Rhaposdy". Mas como tal seria possível?
Não pensem porém que "Bohemian Rhapsody" está sozinho neste disco pleno de charme e finesse.
A variedade é mesmo o grande forte do álbum, que abre com o tema mais agressivo da discografia dos Queen — "Death On Two Legs [Dedicated To..." (dedicado ao antigo manager da banda Norman Sheffield),  evoca o music hall nos muito British "Lazing On A Sunday Afternoon", "Seaside Rendezvouz" e "Good Company", deixa Roger fazer a sua declaração de amor aos automóveis em "I'm In Love With My Car" e claro, o épico de Mercury "The Prophet's Song", que só não é mais conhecido porque ficou sempre na sombra de Bo Rhap.

Faixas essenciais: "Death On Two Legs [Dedicated To...", "The Prophet's Song" e (obviamente) "Bohemian Rhapsody".

2. Queen II (1973)

"I reign with my left hand, I rule with my right; I'm lord of all darkness, I'm Queen of the night"


Já todos ouviram falar do "Chinese Democracy" dos Guns N' Roses — um álbum tão exageradamente produzido, que acabou por ficar na sua própria sombra. Ora, o que Axl Rose queria afinal fazer com "Chinese Democracy"? Simples. Queria fazer o seu próprio "Queen II". A diferença é que levou 11 anos a fazer o que os Queen demoraram 1 mês.
Há tanto que se passa em "Queen II", que é difícil acompanhar. É como aqueles filmes do David Lynch, que só à 4ª ou 5ª visualização é que percebemos que "Ahhh, então aquilo é uma guitarra!" (nesta fase pré-sintetizadores, era sempre).
"Queen II" é todos os superlativos ao mesmo tempo. Dividido num Side White de Brian May e Side Black de Freddie Mercury, o álbum tem um pouco de tudo e é "O" grande triunfo artístico da discografia dos Queen. Nunca mais os rapazes fizeram algo tão complexo. Bem, exceptuando obviamente aquele tema do "A Night At The Opera".

Faixas essenciais: "White Queen (As It Began)", "Ogre Battle" e "The March Of The Black Queen".


1. A Day At The Races (1976)

"I can dim the lights and sing you songs full of sad things"


"A Day At The Races" é o álbum mais accomplished da carreira dos Queen. Aqueles 20 minutos entre o gongo que abre "A Day At The Races" e o fim de "You And I" são o absoluto e indisputado pináculo da discografia dos Queen. "Tie Your Mother Down", "You Take My Breath Away", "Long Away", "The Millionaire Waltz" e "You And I". Não precisavam de fazer mais nada na carreira deles.
Vira-se o disco e o Lado B começa com o "Somebody To Love". Enough said.

Faixas essenciais: "Tie Your Mother Down", "You Take My Breath Away" e "The Millionaire Waltz"; Ah e "Teo Torriatte", claro. Esperem, e o "Somebody To Love"?

sábado, 27 de outubro de 2018

Is this just fantasy? — "Bohemian Rhapsody" foi exactamente o desastre olímpico que eu esperava

O cronista da NiT e fanático dos Queen foi à estreia mundial em Londres e traz a review do filme que chega para a semana a Portugal

"Bohemian Rhapsody" foi exactamente o desastre olímpico que eu esperava que fosse. O filme é uma espécie de versão Disney da história dos Queen: limpinho, lavadinho, uma visão higienizada de Freddie Mercury que se pode mostrar às crianças e imprimir em livros de colorir. Em Maio escrevi aqui que com os dados que estavam lançados, só podíamos temer o pior e as expectativas confirmaram-se. O Dr. Brian May é um homem de muitos talentos — um dos mais inventivos, melódicos e singulares guitarristas da história da música; um astrofísico brilhante; um protector felino do seu legado — mas infelizmente, a produção de filmes não é um desses talentos. Foi exactamente por isso que Sacha Baron Cohen abandonou o projecto, quando percebeu que o instinto protector de Brian não iria permitir o filme ganhar as asas que merecia.

Antes de mais, deixem-me desmontar um mito que se criou quando começaram a sair as primeiras fotos e os primeiros trailers do filme: Rami Malek não é um bom Freddie Mercury. Ele imita-lhe os movimentos, sim, mas não conseguiu capturá-lo. Para se ser Freddie, não basta imitar-lhe as poses; não basta arranjar um treinador de movimentos para copiar exactamente como Freddie se movia do Ponto A para o Ponto B. Não chega. Para se ser Freddie, é preciso entender Freddie. É preciso fazer os mesmos movimentos, mas com a mesma força, a mesma confiança e a mesma autoridade. É preciso perceber que este era um homem extremamente inseguro que, quando lhe davam um microfone para a mão, era o Rei do Mundo e não tinha dúvidas disso (e não estou a ser metafórico).

Atente-se por exemplo na célebre performance do Live Aid: reparem como Freddie comanda uma audiência de 80 mil pessoas no Wembley e 2 mil milhões de pessoas em casa como se de um exército se tratasse; como ele ordena o público a segui-lo — "I like it, SING IT AGAIN!" — e todos o fazem com um sorriso nos lábios, como quem está a carpir mágoas numa experiência metasensorial. Não se sente nada deste poder em Rami Malek. Tudo é mecânico, forçado e sem vida, como se estivesse a reproduzir uma coreografia num musical. Há muito pouco de Freddie em Rami. Lamento, mas meter uma dentadura não chega.

Em defesa de Rami Malek, devo dizer que a tarefa que tinha entre mãos era extraordinariamente difícil. Mas temo que na preparação do filme, ele nunca tenha percebido isso. Eu entendo que Rami não tenha tempo para perder em tamanha dedicação. Afinal, há mais filmes e séries para gravar. E não há problema nenhum com isso, entenda-se. Rami Malek é um bom actor, mas não é o actor que Freddie precisava. É muito poucochinho. Era preciso estudar, ver horas, dias, semanas, meses de vídeos de concertos, entrevistas e filmagens do "boring Freddie" para se perceber a extrema riqueza, profundidade e complexidade deste homem tão brilhante e perturbado. Era preciso tempo e dedicação. Era o papel de uma vida. Era preciso um method actor. Como por exemplo, se bem se lembram, Sacha Baron Cohen.

Dito isto, a performance de Rami Malek está longe de ser o pior de "Bohemian Rhapsody". É apenas aquilo que salta mais à vista para um fã dos Queen mais atento. Isso e as inúmeras imprecisões históricas, que vão muito para além do moustachegate de que falei na semana passada (os Queen a  gravarem "We Will Rock You" com Freddie Mercury de bigode). A banda sonora já tinha dado a dica, com um alinhamento cronologicamente todo trocado, mas que é exactamente aquilo que vemos no verdadeiro caos factual que é "Bohemian Rhapsody".

As coisas começam logo mal quando vemos os Queen numa digressão americana em 1974-1975 ao som de "Fat Bottomed Girls", escrito em 1978 (altura em que Freddie já tinha cabelo curto e se vestia em cabedal integral). Mais à frente, vemos Freddie a explicar a Mary Austin que "Love Of My Life" foi escrito para ela, enquanto lhe mostra imagens (reais) de um concerto no Rio de Janeiro que na realidade ocorreu 10 anos mais tarde (1985), mas com Freddie a utilizar um stage costume de 1976. No filme, "We Will Rock You" (1977) é composto em 1980 e "Another One Bites The Dust" (1980) é escrito em 1982 para terminar uma discussão do grupo na gravação do álbum "Hot Space". Para quem conhece a história dos Queen, tudo isto é no mínimo bizarro.

Daqui para a frente, a História como-realmente-aconteceu é completamente deitada pela janela fora. O caos é total, com o filme a contar uma narrativa dos Queen nos anos 80 que simplesmente não aconteceu, muitas vezes através de cenas parodicamente dramatizadas, que mais parecem saídas de uma telenovela mexicana. E tudo culmina no bizarro dia do Live Aid em que, no mesmo dia, Freddie consegue encontrar o homem que tinha tomado o seu coração 5 anos antes (Jim Hutton), leva-o a tomar chá a casa dos pais, reconcilia-se com Mary Austin e ainda faz o Live Aid. Há dias que têm 5 anos, de facto.

Mas não pensem que o pior do filme é esta embrulhada temporal. O filme trata a maiorias dos episódios da História dos Queen pela rama, preocupando-se em demasia em enunciar o maior número de factos, sem lhes dar o devido contexto. Porque é que as coisas aconteceram como aconteceram? Não interessa, é preciso andar mais uns anos, que o filme não pode ser muito longo. E isto reflecte-se na profundidade das próprias personagens. Na verdade, à excepção de Freddie, Mary Austin e Paul Prenter (o grande vilão da história), nenhum dos personagens do filme têm personalidade própria. Todos se limitam a deixar-se levar mecanicamente de episódio em episódio, como se fossem props do filme, para relatar vagamente e em ordem caótica factos que se passaram na história dos Queen.

Dos personagens, sabemos que o Brian é um astrofísico, que o Roger gosta de gajas e que o John não tem interesse nenhum. E sabemos disto porque o Freddie o diz numa das muitas cenas interrompidas por "momentos informativos" em que se sente o evidente toque do Dr. Brian May, que quer deixar bem claro quem-disse-o-quê e assim esclarecer a audiência sobre quem estava do lado certo da história (entenda-se: Brian e Roger estavam certos, contra Freddie e John).

"Bohemian Rhapsody" vale por ser uma (sempre pertinente) celebração dos Queen. Nem tudo é mau. Em primeiro lugar, a música. Aqui, não havia que enganar. A utilização de gravações originais dos Queen no filme foi uma decisão acertada e se aqueles ensaios para o Live Aid são gravações genuínas do Freddie a desafinar e a perder a voz, então tiro o meu chapéu ao Dr. Brian May, porque temos ali um tesouro.

O ponto alto do filme é a composição do tema "Bohemian Rhapsody" nos Rockfield Studios (uma quinta no Sul de Gales) . Aqui sim, é deixado o espaço e o tempo suficiente para a acção respirar e o filme se desenrolar. É precioso ver o método criativo de Freddie a compor a letra da canção, numa altura que se apercebia da sua sexualidade. É maravilhoso ver o Freddie obsessivo a puxar a voz de Roger Taylor aos limites para só mais um Galileo. É magnífico ver Freddie picar Brian para melhorar o seu solo de guitarra: "Está bom, mas agora toca como se a canção fosse tua!". É uma cena que vale o preço do bilhete do filme. Essa e o impressionante CGI que recriou o (entretanto demolido) Estádio do Wembley para a cena do Live Aid. O filme utiliza o áudio original dos Queen no Live Aid e se a performance de Rami Malek é demasiado mecânica, toda a caracterização que rodeia a cena é absolutamente irrepreensível.

A escolha dos restantes actores também foi na generalidade feliz. O actor que faz de Brian May é mais parecido com o Brian May que o próprio Brian May. O actor de John Deacon também é inacreditavelmente igual. Já para Roger Taylor, não conseguiram encontrar um actor que ficasse tão bem vestido de mulher como o Roger (não era fácil). Bob Geldof também está brilhantemente representado, assim como Jim Hutton e Bono Vox, que faz uma aparição relâmpago no início do filme no backstage do Live Aid. Se a preocupação com a caracterização foi evidente, que dizer do guarda-roupa, que é simplesmente fenomenal. Todos os fatos de Freddie estão lá e toda a gente parece saída da década de 70 e 80. Quando não está tudo trocado, claro.

Tenho que vos confessar: é muito difícil para mim escrever uma review de "Bohemian Rhapsody" nestes termos. Durante toda a carreira dos Queen, eles sempre foram arrasados pela crítica, que nunca compreendeu o apelo marginal da banda. Hoje, parece que sou eu que estou a tomar esse lugar. Mas não é assim. Há poucas coisas que eu ame tanto na vida como os Queen (a minha família e pouco mais). Mas por isso mesmo tenho a certeza que os Queen mereciam mais que este filme tão pobrezinho. O último desejo de Freddie ao seu manager Jim "Miami" Beach foi "Faz o que quiseres com a minha música; só nunca me faças parecer aborrecido". "Bohemian Rhapsody" não faz propriamente Freddie parecer aborrecido, mas fá-lo parecer infinitamente menos interessante do que realmente foi. É pena.

A história dos Queen merece de facto ser contada. O problema é que é demasiado ultrajante para ser contada num filme para crianças. Que é exactamente o que "Bohemian Rhapsody" é: uma introdução aos Queen para crianças, um "Queen for dummies", visualmente acurado, mas sem nenhuma profundidade. Ou então sou eu que sou demasiado exigente com a banda que me fez apaixonar pela música.

P.S.: Se quiserem saber a verdadeira História dos Queen, como ela aconteceu, na correcta ordem cronológica e com o foco naquilo que realmente interessa — a música — então é ouvirem o especial "Queen: A Concert Through Time And Space" na NiTfm, com a primeira parte dedicada aos anos 70 e a segunda parte dedicada aos anos 80. Tudo livre de qualquer higienização e brutalmente honesto.

domingo, 7 de outubro de 2018

John Lennon — Um Herói, um Vilão, ou o que é que isso interessa?

Reflexão sobre heróis e vilões na semana da reedição do álbum "Imagine"  


"Ou morres como um herói, ou vives tempo suficiente para te veres transformado num vilão", já dizia Harvey Dent, o ficcional-mas-tão-real-personagem da série Batman, prevendo inadvertidamente a sua transformação de herói como chefe da polícia de Gotham City para o vilão Two-Face. John Lennon morreu cedo e ficou assim gravado na história como um herói. Ainda bem para a sua memória. Tivesse ele vivido até aos tempos da devassa da vida privada e julgamento público sumário pela brigada de novos puritanos dos dias hoje, e as coisas seriam bem diferentes.

Vem esta reflexão a propósito da reedição do álbum mais popular da carreira a solo de John nesta semana. "Imagine" foi lançado em 1971, sucedendo ao catártico "Plastic Ono Band" do ano anterior e congrega mais um lote de temas viscerais e confessionais. Um álbum à John, portanto.
"Imagine" contém o maior número de faixas reconhecíveis pelo grande público: "Jealous Guy", popularizado pelos Roxy Music em 1981; "Oh Yoko!", que aparece no filme "Rushmore", de Wes Anderson (1998); e obviamente, o tema-título "Imagine", que aparece em todo o santo lado desde o seu lançamento em 1971, tornando-se na canção mais conhecida (e overplayed) dos catálogos dos Beatles a solo.

Mas a beleza de "Imagine" (o álbum) vai muito para além dos três temas de maior nomeada. O tema mais bonito do álbum é o confessional "How", onde John despeja todas as suas inseguranças: "How can I have feeling when I don't know if it's a feeling?" / "How can I give love when love is something I ain't never had?". Lindo, lindo, lindo. E isto com o background da finíssima produção wall-of-sound de Phil Spector, que no ano anterior já tinha ornamentado o melhor álbum de sempre dos Beatles a solo — falo obviamente do majestoso "All Things Must Pass", de George.

https://www.youtube.com/watch?v=Li7xH_E9w58

Mas há mais.

Falta-me falar do melhor de tudo. Em 1971, John Lennon e Paul McCartney viviam em guerra, fruto da amargura post-break-up dos Beatles. Depois de ver o primeiro álbum de Paul — "McCartney", de 1970 — ser arrasado pela crítica, John aproveitou o momento menos feliz que Paul vivia para dizer que sentia pena dele e que este andava perdido sem os Beatles. A resposta de Paul veio no tema de abertura do seu álbum seguinte — "Ram", de 1971 —, "Too Many People", onde Paul refere que há demasiada gente preocupada com o que os outros andam a fazer e a dizer-nos o que temos que fazer das nossas vidas, numa referência quase óbvia ao activismo agressivo de John e Yoko. Foi um ataque da parte de Paul, é certo, mas também foi um ataque "à Paul", uma palmada quase inofensiva. Mas John não estava para palmadinhas. 

Como seria de esperar, John subiria de tom e logo a seguir gravaria "How Do You Sleep?", provavelmente o maior "vai-te foder" jamais gravado em fita. "How do You Sleep?" apareceria no álbum "Imagine", onde na contracapa John imita a capa de "Ram", com a diferença de que, em vez de agarrar nos cornos de uma ovelha como Paul (numa referência à vida bucólica e familiar que vivia na altura), John agarra nas orelhas de um porco.

"How do You Sleep?" é de uma selvajaria sem paralelo. John descarrega toda a sua ira em cima de Paul e cada linha é uma entrada a pés juntos, com referências específicas a assuntos mal resolvidos e ataques pessoais do mais alto nível de ressabiamento: "Those freaks was right when they said you was dead" (referência à teoria da conspiração que Paul tinha morrido em 1966) / "The only thing you done was Yesterday" (referência ao single dos Beatles) / "And since you've gone you're just Another Day" (referência ao single mais recente de Paul à data). Quem toca guitarra no tema é George, esse mesmo, que na altura também em conflito com o Paul. Ringo também estava no estúdio, mas não quis gravar "How Do You Sleep?", tendo até gritado "That's enough, John", antes de se ir embora frustrado com o ponto a que as relações entre os velhos amigos tinham chegado.


Adoro o Paul e a verdade é que a História provaria que era ele quem estava certo na maioria dos diferendos com John (caso do manager Alan Klein, que também contribuiu para a letra deste tema), mas a verdade é que "How do You Sleep?" confirma a teoria que John estava no seu melhor quando estava no seu pior. John podia não estar certo, mas as emoções que ele deixa gravadas em fita são verdadeiras. São puras, cruas, sem filtro. São a verdade para ele, naquele momento. E é precisamente isso que faz dele um dos maiores artistas da música popular da História. Não importa se ele está correcto. Não importa se ele é um herói, ou um vilão, ou ambos. Importa apenas que ele foi verdadeiro consigo e com a sua arte e por isso o que ele deixou gravado foi a (sua) verdade.

Anos mais tarde, John confessou que se arrependera da canção, não pela canção em si, mas porque era tão directamente sobre o Paul, o que acabou por desviar a atenção do tema em si, que é um excelente tema. Para mim,  é "só" o melhor da discografia a solo de John.

Os discos a solo de John são como que actas de sessões de terapia psicanalítica. Talvez por isso sejam tão inconsistentes e talvez por isso a sua carreira a solo seja tão ignorada. Ninguém quer olhar para John como ele é, preferimos manter a imagem estereotipada de um puto rebelde, de um excêntrico a lutar pela paz numa cama com uma chinesa, ou de um mártir que caiu aos pés de um louco. Mas John é muitíssimo mais complexo que isso. John está longe de ser perfeito, mas não é por isso que não o devemos amar por aquilo que ele é. Quem de nós é perfeito, anyway? Que direito temos de julgar quem se deu todo à sua arte e fez tudo o que podia para mudar o mundo que odiava onde vivia? É na complexidade de John que reside a sua beleza. E é por ela e pela sua honestidade que não consigo parar de amar John.