domingo, 7 de outubro de 2018

John Lennon — Um Herói, um Vilão, ou o que é que isso interessa?

Reflexão sobre heróis e vilões na semana da reedição do álbum "Imagine"  


"Ou morres como um herói, ou vives tempo suficiente para te veres transformado num vilão", já dizia Harvey Dent, o ficcional-mas-tão-real-personagem da série Batman, prevendo inadvertidamente a sua transformação de herói como chefe da polícia de Gotham City para o vilão Two-Face. John Lennon morreu cedo e ficou assim gravado na história como um herói. Ainda bem para a sua memória. Tivesse ele vivido até aos tempos da devassa da vida privada e julgamento público sumário pela brigada de novos puritanos dos dias hoje, e as coisas seriam bem diferentes.

Vem esta reflexão a propósito da reedição do álbum mais popular da carreira a solo de John nesta semana. "Imagine" foi lançado em 1971, sucedendo ao catártico "Plastic Ono Band" do ano anterior e congrega mais um lote de temas viscerais e confessionais. Um álbum à John, portanto.
"Imagine" contém o maior número de faixas reconhecíveis pelo grande público: "Jealous Guy", popularizado pelos Roxy Music em 1981; "Oh Yoko!", que aparece no filme "Rushmore", de Wes Anderson (1998); e obviamente, o tema-título "Imagine", que aparece em todo o santo lado desde o seu lançamento em 1971, tornando-se na canção mais conhecida (e overplayed) dos catálogos dos Beatles a solo.

Mas a beleza de "Imagine" (o álbum) vai muito para além dos três temas de maior nomeada. O tema mais bonito do álbum é o confessional "How", onde John despeja todas as suas inseguranças: "How can I have feeling when I don't know if it's a feeling?" / "How can I give love when love is something I ain't never had?". Lindo, lindo, lindo. E isto com o background da finíssima produção wall-of-sound de Phil Spector, que no ano anterior já tinha ornamentado o melhor álbum de sempre dos Beatles a solo — falo obviamente do majestoso "All Things Must Pass", de George.

https://www.youtube.com/watch?v=Li7xH_E9w58

Mas há mais.

Falta-me falar do melhor de tudo. Em 1971, John Lennon e Paul McCartney viviam em guerra, fruto da amargura post-break-up dos Beatles. Depois de ver o primeiro álbum de Paul — "McCartney", de 1970 — ser arrasado pela crítica, John aproveitou o momento menos feliz que Paul vivia para dizer que sentia pena dele e que este andava perdido sem os Beatles. A resposta de Paul veio no tema de abertura do seu álbum seguinte — "Ram", de 1971 —, "Too Many People", onde Paul refere que há demasiada gente preocupada com o que os outros andam a fazer e a dizer-nos o que temos que fazer das nossas vidas, numa referência quase óbvia ao activismo agressivo de John e Yoko. Foi um ataque da parte de Paul, é certo, mas também foi um ataque "à Paul", uma palmada quase inofensiva. Mas John não estava para palmadinhas. 

Como seria de esperar, John subiria de tom e logo a seguir gravaria "How Do You Sleep?", provavelmente o maior "vai-te foder" jamais gravado em fita. "How do You Sleep?" apareceria no álbum "Imagine", onde na contracapa John imita a capa de "Ram", com a diferença de que, em vez de agarrar nos cornos de uma ovelha como Paul (numa referência à vida bucólica e familiar que vivia na altura), John agarra nas orelhas de um porco.

"How do You Sleep?" é de uma selvajaria sem paralelo. John descarrega toda a sua ira em cima de Paul e cada linha é uma entrada a pés juntos, com referências específicas a assuntos mal resolvidos e ataques pessoais do mais alto nível de ressabiamento: "Those freaks was right when they said you was dead" (referência à teoria da conspiração que Paul tinha morrido em 1966) / "The only thing you done was Yesterday" (referência ao single dos Beatles) / "And since you've gone you're just Another Day" (referência ao single mais recente de Paul à data). Quem toca guitarra no tema é George, esse mesmo, que na altura também em conflito com o Paul. Ringo também estava no estúdio, mas não quis gravar "How Do You Sleep?", tendo até gritado "That's enough, John", antes de se ir embora frustrado com o ponto a que as relações entre os velhos amigos tinham chegado.


Adoro o Paul e a verdade é que a História provaria que era ele quem estava certo na maioria dos diferendos com John (caso do manager Alan Klein, que também contribuiu para a letra deste tema), mas a verdade é que "How do You Sleep?" confirma a teoria que John estava no seu melhor quando estava no seu pior. John podia não estar certo, mas as emoções que ele deixa gravadas em fita são verdadeiras. São puras, cruas, sem filtro. São a verdade para ele, naquele momento. E é precisamente isso que faz dele um dos maiores artistas da música popular da História. Não importa se ele está correcto. Não importa se ele é um herói, ou um vilão, ou ambos. Importa apenas que ele foi verdadeiro consigo e com a sua arte e por isso o que ele deixou gravado foi a (sua) verdade.

Anos mais tarde, John confessou que se arrependera da canção, não pela canção em si, mas porque era tão directamente sobre o Paul, o que acabou por desviar a atenção do tema em si, que é um excelente tema. Para mim,  é "só" o melhor da discografia a solo de John.

Os discos a solo de John são como que actas de sessões de terapia psicanalítica. Talvez por isso sejam tão inconsistentes e talvez por isso a sua carreira a solo seja tão ignorada. Ninguém quer olhar para John como ele é, preferimos manter a imagem estereotipada de um puto rebelde, de um excêntrico a lutar pela paz numa cama com uma chinesa, ou de um mártir que caiu aos pés de um louco. Mas John é muitíssimo mais complexo que isso. John está longe de ser perfeito, mas não é por isso que não o devemos amar por aquilo que ele é. Quem de nós é perfeito, anyway? Que direito temos de julgar quem se deu todo à sua arte e fez tudo o que podia para mudar o mundo que odiava onde vivia? É na complexidade de John que reside a sua beleza. E é por ela e pela sua honestidade que não consigo parar de amar John.

sábado, 29 de setembro de 2018

Andróide paranóico na Piccadilly Line

Quando a vida é demasiado parecida com um videoclip dos Radiohead.
Fitter, happier and more productive. A pig, in a cage, on antibiotics.

Há algo de condenatório em andar numa linha de metro sem rede de telemóvel. Não sei se é por ainda utilizar o número português e estar em permanente roaming, mas pareço ser o único na carruagem obrigado a ter que olhar para as pessoas à minha volta.

Nem sempre é assim. A caminho do trabalho, todos os dias apanho a District Line, a qual cruza Chelsea, o Tâmisa e Putney à superfície, por isso não preciso de prestar atenção a quem me rodeia. Mas a caminho de Camden para ver o Nick Mason dos Pink Floyd, fui obrigado a apanhar a Piccadilly Line e sem hipótese de habeas corpus do meu "eu" virtual, tenho que me fixar na realidade e tomar consciência de quem está à minha frente. Que seca.

Para agravar as coisas, não tenho acesso ao Spotify, nem à playlist temática que tinha preparado para aquecimento para o concerto. Vou entrar na venue a frio! Tenho por isso que me cingir as músicas gravadas no telefone. Shuffle com isto. A primeira que me aparece — "Exit Music (For A Film)", do majestoso "OK Computer", álbum que descreve a queda da nossa sociedade.

Levanto a cabeça e quando olho à minha volta, mal consigo acreditar na perfeição da minha vista para a banda sonora que tenho nos ouvidos. De pé, encostado ao fundo da carruagem, olho para dezenas de pessoas encafuadas em poucos metros quadrados, cada uma delas sozinha, dentro do seu mundo, a ouvir a sua playlist temática com um olhar vazio de morte, a mirar o nada ao fundo. Todas elas com os seus fones, trancadas na sua bolha, oblívias à presença das outras. Que momento perfeito. Parece que estou dentro de um vídeo dos Radiohead. Estou de fora, a olhar para dentro e o melhor de tudo, pareço ser o único a constatar a presença dos outros. Wait. Mas não estou eu próprio trancado na minha bolha? A ouvir Radiohead enquanto escrevo furiosamente este texto? Hum.

Em Piccadilly entra na carruagem um homem com uma deformação horrenda na cara. Em nome de Freddie, que raio é aquilo? Até me deu uma tontura a olhar para o gajo. Isto de estar consciente dos outros é uma ideia terrível. O que vale é que mudo de linha já a seguir, em Leicester Square.

À saída do metro, alguém me toca no ombro. Que nojo, alguém me tocou! Quem é que se atreve a rebentar a minha bolha e invadir o meu espaço? Viro-me para trás e era o senhor da batata na cara. Eu tinha deixado cair o meu cachecol e já lá ia, mesmo à Tarzan, para os 8 graus do Outono londrino, sujeito a agravar a minha constipação. Sorri para o senhor e agradeci-lhe o gesto. Começou a tocar outra vez "Exit Music (For A Film)".

sábado, 22 de setembro de 2018

The Beatles Super Deluxe — O maior álbum de sempre vai ficar ainda maior

Vem aí a tão esperada reedição do White Album. Se ouvirem gritos, sou eu a berrar de felicidade a partir de Londres.

Em 1968, os Beatles já não eram os quatro rapazes de Liverpool unha com carne retratados no filme "A Hard Day's Night". Os rapazes tinham-se tornado homens; casado e descasado; ido à Índia numa viagem de auto-descoberta e meditação transcendental; e no meio de tudo isto, feito muitas drogas. Sem a figura paternal de Brian Epstein como elo de ligação dos rapazes, as tensões entre os Beatles escalaram e por altura da gravação do álbum que iria suceder a "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", já eram por demais evidentes, levando mesmo ao abandono de Ringo e George no meio do processo. A presença constante de Yoko Ono era por demais intrusiva para os restantes Beatles, especialmente para Paul, que decidiu ocupar outra sala nos estúdios de Abbey Road para gravar as suas composições. O crescente fosso escavado entre os Beatles mostrava que eles já não eram uma unidade, mas sim quatro personalidades radicalmente diferentes, juntos apenas pela força da máquina da maior banda do mundo. A tensão foi quase palpável na música que se seguiu. Corre nela um vibe sinistro e ameaçador, de canções entregues com fúria e intensidade; um vibe inquietante de quatro homens que mal conseguiam estar na mesma sala ao mesmo tempo.

O resultado deste fosso entre os Beatles e das tensões entre os quatro foi uma explosão criativa nunca antes vista na Pop e possivelmente nunca vista depois, pelo menos com esta bitola de qualidade. Uma vez que cada Beatle estava concentrado nas suas próprias influências (British Hall, Rock 'n' Roll, Country, Folk, Avant Garde, Heavy Metal, you fucking name it), a junção das quatro partes gerou um cardápio que ilustra a importância dos Beatles em toda a música Pop e Rock feita desde então. Esqueçam as colectâneas, esqueçam o Álbum Vermelho, esqueçam o Álbum Azul. Se quiserem saber porque os Beatles foram mesmo importantes, então o que têm ouvir é o Álbum Branco, um autêntico catálogo com quase tudo o que se pode fazer no Rock. As compilações podem mostrar por que os Beatles foram grandes, mas não mostram o porquê de terem sido os mais importantes.

"The Beatles", mais conhecido por White Album, é um monumento. É o castelo de pedra que senta em cima do monte majestoso que é a discografia da banda. É um castelo construído em pedra maciça, pesada, materializada por 30 canções. Trinta temas que mostram o bom, o mau e o feio dos Beatles. "The Beatles" é o maior álbum de sempre e o maior álbum de sempre vai ficar ainda maior. Passemos então ao que interessa.

O anúncio ainda não é oficial, mas lembrem-se, leram aqui primeiro. A reedição do White Album vai trazer duas novíssimas remisturas do álbum em Stereo e em Surround, ambas produzidas por Giles Martin — filho de George Martin, produtor dos álbuns originais dos Beatles. Ambas as remisturas, mais a mistura Mono original, vão aparecer na caixa Super Deluxe do White Album, que para além disto ainda oferece um CD das demos gravadas em Maio de 1968, na casa de George em Esher (pequena cidade em Surrey, onde este que vos escreve hoje trabalha) e mais 3 CDs de gravações das sessões do White Album em Abbey Road. Entre estas gravações, vamos poder ouvir uma primeira versão de "Let It Be", dois anos antes do seu lançamento em 1970. A minha cabeça está a andar à roda.

A reedição do White Album será feita em 5 formatos diferentes:
  • 2CD: 2018 Stereo Mix
  • 2LP: 2018 Stereo Mix
  • 3CD: 2018 Stereo Mix + Esher Demos
  • Vinyl Box — 4LP: 2018 Stereo Mix + Esher Demos
  • Super Deluxe — 6CD + Blu-Ray:  2018 Stereo Mix (2CD) + Esher Demos (1CD) + White Album Sessions (3CD) + 2018 Surround Mix & Original Mono Mix (Blu-Ray)


A negrito está o essencial desta campanha de reedições (e o que virá fatalmente cá para casa). Vamos então saber o que de novo traz a Super Deluxe.

CD 3: Esher Demos
  • "Back in the U.S.S.R."
  • "Dear Prudence"
  • "Glass Onion"
  • "Ob-La-Di, Ob-La-Da"
  • "The Continuing Story of Bungalow Bill"
  • "While My Guitar Gently Weeps"
  • "Happiness is a Warm Gun"
  • "I’m so tired"
  • "Blackbird"
  • "Piggies"
  • "Rocky Raccoon"
  • "Julia"
  • "Yer Blues"
  • "Mother Nature’s Son"
  • "Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey"
  • "Sexy Sadie"
  • "Revolution"
  • "Honey Pie"
  • "Cry Baby Cry"
  • "Sour Milk Sea" (não incluído no álbum final, gravado mais tarde por Jackie Lomax)
  • "Junk" (não incluído no álbum final, gravado mais tarde por Paul para o seu álbum de estreia a solo "McCartney")
  • "Child of Nature" (não incluído no álbum final, rescrito e regravado por John para o seu álbum "Imagine", como o bem conhecido "Jealous Guy")
  • "Circles" (não incluído no álbum final, regravado por George para o seu álbum "Gone Troppo" em 1982)
  • "Mean Mr. Mustard "(não incluído no álbum final, regravado como parte do medley que fecha o álbum "Abbey Road")
  • "Polythene Pam" (não incluído no álbum final, regravado como parte do medley que fecha o álbum "Abbey Road")
  • "Not Guilty" (não incluído no álbum final, regravado por George para o seu álbum homónimo de 1979 e mais tarde incluído na compilação "Anthology 3")
  • "What’s the New Mary Jane " (não incluído no álbum final e apenas incluído na compilação "Anthology 3")

CDs 4, 5 & 6: Sessions

Não é ainda conhecido alinhamento dos 3 discos (três discos!!!) de sessões do White Album, mas sabemos que são 50 temas (cinquenta temas!), todos remisturados a partir da fitas originais (4 pistas e 8 pistas), que vão aparecer por ordem cronológica de gravação e que estará incluída uma versão de 12 minutos de "Helter Skelter" e uma versão nunca ouvida de "Let It Be", dois anos antes do seu lançamento. O belíssimo outtake de "Can You Take Me Back?" (cujo excerto aparece no fim de "Cry Baby Cry") também estará presente.

Blu-ray Audio:

Blu-Ray com conteúdo exclusivamente audio (é pena, uma vez que há horas de fitas de vídeo desta altura), e que inclui quatro versões do álbum:
  • 2018 Stereo Mix — High-resolution PCM;
  • 2018 Surround Mix — DTS-HD Master Audio 5.1;
  • 2018 Surround Mix — Dolby True HD 5.1;
  • Original Mono Mix — 2018 Direct Transfer.

Ouvem os gritos? Sim, sou eu. Deixo-vos então com o primeiro aperitivo da Super Deluxe do White Album — um excerto de 5 segundos de "Can You Take Me Back?".







domingo, 2 de setembro de 2018

O que mais falta acontecer aos U2?

Os U2 precisam de repensar a banda. E o tempo é agora.


É difícil não sentir pena do que está a acontecer aos U2. Os últimos anos têm sido um pesadelo para a banda irlandesa, que parece ter entrado numa espiral derrotista de onde não consegue sair.

Já devem ter visto as notícias — Bono perdeu a voz ontem à noite em Berlim, naquele que foi apenas o segundo (!) concerto da digressão europeia. Se os U2 estivessem na fase final de uma longa digressão, até se podia compreender. Mas o Bono acabou de regressar das suas férias no Mónaco (onde esteve com o Noel Gallagher), por isso deveria ter a voz em boas condições. Não se entende. Tudo de mau parece acontecer aos irlandeses.

https://www.youtube.com/watch?v=A6rTFFbN7E8

É doloroso ver o Bono a sofrer ao longo da canção, a cantar como quem carrega uma cruz na sua via sacra. Para dizer a verdade, olhando para o vídeo, ninguém parece estar muito contente. O que se passa com os U2? Desde aquele infame episódio do lançamento de "Songs Of Innocence" que a banda parece andar deprimida e esquizofrénica, entre o medo de cair na irrelevância e o medo de perder os seus fãs mais conservadores, ainda ancorados à sonoridade de “The Electric Co.”.

O último álbum sofre gravemente com esta esquizofrenia. É uma lástima que não é carne, nem é peixe. Não é aquele throwback definitivo aos early days como foi "All That You Can't Leave Behind" e também não é aquele corte com o passado como foram"Achtung Baby", (o injustiçado) "Pop" e o mais recente (e também injustiçado) "No Line On The Horizon". Em vez disso, tenta agradar à franja mais nova com uma sonoridade beige que se confunde com o que passa na rádio generalista (e que não tem nada a ver com os U2), mas sem nunca sair muito da zona de conforto. A única coisa boa de "Songs Of Experience" foi fazer-me chegar à conclusão que o "Songs of Innocence" não tinha sido assim tão mau. O pior álbum da história dos U2. Está na hora de mudar esta onda. E o tempo é agora.

Já se passaram quase 10 anos de "No Line On The Horizon". É tempo de os U2 voltarem a esticar os limites da sua sonoridade, mas com algo verdadeiramente anguloso e perigoso. Algo que respeite a tradição inconformada dos U2. Está na hora de os U2 voltarem a ser felizes. Ou isso, ou de arrumarem definitivamente as botas. Esta depressão de piloto automático é que já chega. Já nem sequer tem piada bater nos U2.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Sabia que estavam à minha espera — Adeus, Aretha

No céu, Aretha Franklin vai ter muitos fãs à sua espera. Freddie Mercury e George Michael já devem estar em pulgas.

Já os estou a ver em pulgas à porta do céu. "A Aretha vem aí, a Aretha vem aí!", exclama o George, visivelmente entusiasmado. Mal ouviu a notícia, foi logo buscar os Ray-Ban Aviator e o casaco de cabedal que queimou no vídeo do "Freedom '90" (no céu, os casacos de cabedal também ressuscitam) para receber a rainha com a pompa do vídeo de "I Knew You Were Waiting (For Me)".

"Rainha?! Quem é que me chamou?", intervém Freddie, a chegar ao portão do céu enquanto termina a ponta de um cigarro.

"Não és tu, Freddie! É "a" rainha! Ela vem aí!", responde o George a ajeitar nervosamente a cabeleira loira (no céu, o George Michael adoptou o look do "Faith").

"Como assim a rainha? A Aretha?! A Aretha morreu? Poor darling", suspira o Freddie, ao mesmo tempo que atira a beata para o chão, ateando mais um foco de ignição na Serra de Monchique. "Aquela voz... Quem me dera cantar como ela! Sabias que ela é a minha cantora favorita?"

"Também a minha! É a melhor de sempre!", sorri o George. "Quando ela chegar, vou recebê-la como no vídeo "I Knew You Were Waiting"!".

"Ah, então por isso é que estás assim vestido!", desmancha-se a rir o Freddie, deixando sair a sua dentuça toda cá para fora (no céu ainda se recusa a fazer a qualquer intervenção cirúrgica que lhe possa afectar a projecção da voz). "Nada disso, darling. Vamos os três fazer um trio. E vai ser uma lenda nos céus!".



Confesso. Não sou a pessoa mais qualificada para falar sobre Aretha Franklin. O Soul não é a minha praia e o meu tema preferido que a Aretha cantou é o "I Knew You Were Waiting (For Me)", um dueto com o George Michael. Conheco-a através do George e do Freddie Mercury. Sei da forma que falavam dela. Sei que era a cantora favorita de sempre dos meus cantores favoritos de sempre.

Vejam os olhos do Freddie e do George brilhar quando falam dela. Quando ouvimos o Freddie Mercury suspirar que o sonho dele era cantar como a Aretha, nem é preciso dizer mais nada. Na prática, a Aretha está para o Freddie e para o George, na mesma medida em que eles estão para mim; é a deusa dos meus deuses. E isso chega-me para saber da sua importância e lhe deixar toda a minha reverência e R-E-S-P-E-C-T.

Gosto de pensar que ela foi ter com eles e que eles estão em êxtase por verem o seu maior ídolo. E que vão gravar um tema a três que vai conquistar e que nós só poderemos ouvir quando nos juntarmos a eles. Até lá fiquemos com a música terrena da Aretha.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Monumental, a vida do espantalho tarkovskiano dos Godspeed You! Black Emperor

A banda canadiana de Post Rock levou o espectáculo 'Monumental' ao Barbican

Quando Andrei Tarkovsky ganhou reconhecimento como filmmaker nos anos 70, começaram a aparecer nas salas de cinema os espectadores que não iam bem para ver o filme, mas sim para o evento social que era ver um filme do Tarkovsky. Com a consciência que o efeito viral passa depressa  (mesmo à escala dos anos 70), esta tendência irritou Tarkovsky de sobremaneira, que queria que os seus filmes fossem vistos pelo "seu" público, aquele que ele tinha construído de forma paulatina e consistente ao longo da sua carreira.

O efeito viral foi especialmente relevante quando saiu "Solaris" em 1972, o filme que fora promovido pelo regime soviético como a resposta a Kubrick. Era o "2001 Odisseia no Espaço" soviético e um evento nacional. Tarkovsky plantou então aquilo que eu chamo de espantalho tarkovskianoa cena da auto-estrada. No início do filme, uma cena mostra em tempo real a viagem do psicólogo Kris Kelvin, num plano doloroso de 5 minutos que desafia a paciência dos espectadores e que em última instância espantou para para fora da sala aqueles que não estavam lá para ver o filme.


https://www.youtube.com/watch?v=rswYl7RLRNE

O universo dos Godspeed You! Black Emperor está repleto de espantalhos tarkovskianos. Estes visam espantar os curiosos e em última instância atrair apenas quem está disposto a dar um pouco de si mesmo e sofrer pela arte que recebe. Atentem, por exemplo, no primeiro álbum "F# A# oo", lançado em 1997. Começamos logo pelo nome — dar um nome impronunciável logo ao primeiro álbum é um exemplo proverbial de um espantalho tarkovskiano. Depois há a duração das canções, todas com uma duração superior a 17 minutos. Parece algo terrivelmente inacessível. Mas não, não passa de um espantalho. Na verdade, se prestarem a devida atenção à música, percebem que afinal são apenas uma sequência temática de pequenos crescendos que podem ser separados e até ter uma vida independente. Bandas sonoras para filmes que ninguém fez. Mais importante que tudo, são peças acessíveis a toda a gente que tenha alguma paciência para se deixar tomar pela música.

Vem esta reflexão a propósito do espectáculo "Monumental", que deu vida a algumas destas pequenas peças dos Godspeed You! Black Emperor, com a ajuda da companhia de dança canadiana The Holy Body Tattoo, num espectáculo que eu melhor posso baptizar como um bailado pós-apocalíptico. O repertório concentrou-se no primeiro álbum, mas também incorporou alguma música mais recente dos álbuns "Asunder, Sweet and Other Distress" e "Luciferian Towers".

Mas afinal o que é isto do bailado pós apocalíptico? Passo a explicar. "Monumental" é um espectáculo multi sensorial que retrata a distopia para onde definha a nossa sociedade e está estruturado em três dimensões, representadas no palco por três níveis sucessivos:

  • Lá atrás, no pano de fundo, são projectadas imagens e frases de Jenny Holzer, que dão o contexto de desumanização da nossa sociedade: "Some days you wake us and immediately start to worry. Nothing in particular is wrong, it's just the suspicion that forces are aligning quietly and there will be trouble"
  • À frente do pano, no fim do palco, os Godspeed You! Black Emperor enchem a sala com o seu som cru e monolítico. 
  • Na frente do palco, em primeiro plano, os dançarinos actuam em extensão da música, numa coreografia que amplia a realidade projectada na tela e aumenta o volume dos sentimentos da audiência.

Os textos de Jenny Holzer fundem-se na perfeição com a dança e a música dos Godspeed. Quase a chegar ao clímax do espectáculo, os actores entram numa espiral de destruição e loucura, enquanto na tela são projectadas frases sobre como a sociedade nos puxa aos limites:
"By your response to danger, it is easy to tell how you have lived and what has been done to you: you show the rage that's within you, whether you want to stay alive, whether you think you deserve to and whether you believe it's any good to act."
Um a um, os dançarinos começam a cair em palco.

Depois de duas horas intensas do definhar da civilização à frente dos nossos olhos, o espectáculo atinge o clímax com o apocalipse — todas as luzes da sala vão abaixo e restam apenas algumas lanternas dos poucos sobreviventes em palco. Toca a obra-prima dos Godspeed — "The Dead Flag Blues". Quando os oceanos secarem, os céus se pintarem de vermelho com as chamas do que está em terra e as bandeiras se deitarem mortas no topo dos mastros, qual é a música que vai tocar? Esta:


https://www.youtube.com/watch?v=XVekJTmtwqM

"The sky was beautiful on fire, all twisted metal stretching upwards"

P.S.: Um dos desafios para fazer o episódio do London Calling de há umas semanas (apropriadamente intitulado "The Flags Are All Dead") foi precisamente desmontar esta estrutura aparentemente complexa e apresentar algumas secções da música dos Godspeed You! Black Emperor em separado, de modo a mostrar que elas têm vida própria e são de facto acessíveis a todos. Para melhor perceber os Godspeed, "The Flags Are All Dead" é de audição obrigatória.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Uma tarde no parque com os tios Clapton e Zucchero

O Slowhand foi ao Hyde Park, mas esqueceu-se dos hits em casa

Com a Princesa Diana e Príncipe Carlos na audiência da Wembley Arena, Eric Clapton tocou em 1987 no concerto de beneficiência Prince's Trust, onde fez parte da banda residente e cantou o seu single da época "Behind The Mask". Foi este o meu primeiro contacto com Eric, bem como como toda com a constelação que figurava em palco naquela noite: Phil Collins na bateria, Elton John no piano, Bryan Adams na guitarra, Ray Cooper na percussão, Mark King no baixo e uma certa dupla que tocou no fim da noite - introduzida por Elton como "dois homens sem os quais nenhum de nós estaria aqui hoje" - nem mais nem menos George Harrison e Ringo Starr, que eu mais tarde aprenderia que faziam parte de uma banda chamada Beatles.



Este concerto estava numa cassete em double feature com o "Live At Wembley" dos Queen, por isso sempre que rebobinava a cassete (those were times!) para ver o Freddie Mercury, levava outra vez com Eric e companhia. Estes eram os dias do imaginário infinito de uma criança, quando todo o universo está ao nosso alcance. Cresci com este grupo de músicos que via diariamente, por isso era como se fossem da minha família. Sentia uma proximidade inusitada com eles, como se daquele tio que mora ao fundo da rua se tratasse.

Os anos passaram e eu fui apanhando cada um dos meus tios em concertos; com excepção do George e do Ringo, só me faltava ver o Eric. Foi por isso com justificado entusiasmo que fui ao Hyde Park no passado domingo para ver o tio Eric, num evento completamente esgotado.

A setlist foi carregada de números de Blues e demasiado leve nos (muitos) êxitos e malhas que Eric Clapton acumulou ao longo da sua longa carreira. Nada contra o Blues, obviamente; mas quando se está perante 60 mil pessoas cheias de calor e sedentas de animação, não é o melhor programa de festas. Até o clássico "Layla" foi reduzido à sua versão acústica, celebrizada no álbum "Unplugged" de 1992. Foi aliás apenas neste set acústico que Eric sacou de hits como "Tears In Heaven". Clapton tocou:

01. Somebody's Knockin'
02. Key To The Highway
03. Hoochie Coochie Man
04. Got To Get Better In A Little While
05. Driftin‘
06. Nobody Knows You When You're Down And Out
07. Layla
08. Tears In Heaven
09. Lay Down Sally (com Marcy Levy)
10. The Core (com Marcy Levy)
11. Wonderful Tonight
12. Crossroads
13. LIttle Queen Of Spades
14. Cocaine
15. High Time We Went (com Carlos Santana)

Valeu a aparição de Santana no encore para o classico "High Time We Went".

No polo oposto esteve Zucchero, a grande surpresa da tarde. A fechar o palco secundário, o italiano mostrou como se trata uma audiência debaixo de 30 graus centígrados: com hits em barda. "Il Volo", "Misrere", "Baila", "Senza Una Dona", foi um vê se te avias neste set de all-in de Zucchero. No meio de uma audiência pejada de emigrantes italianos, foi a loucura total. Sai do palco secundário de coração cheio. Convenhamos que era difícil Eric igualar aquele nível de adrenalina.



Eric esteve em grande forma na guitarra. Foi um alívio para quem o viu no ano passado numa cadeira de rodas no LAX. Os relatos de que estava acabado foram largamente exagerados. Mas se a sua técnica continua apurada, já a escolha do repertório não foi a mais feliz para uma tarde de enorme calor no parque. Foi pena. Ainda assim, fiquei feliz de ver o tio Eric a divertir-se, ainda que ele tenha sido provavelmente o único a fazê-lo.

Clapton levou uma vida singular, uma que eu ao mesmo tempo invejo e (tento) evitar, de tanto drama que carrega. Toda a novela da vida de Eric Clapton no London Calling desta semana na NiTfm, num programa (apropriadamente baptizado de "Clapton is God") que não podem de maneira nenhuma perder.