sábado, 22 de setembro de 2018

The Beatles Super Deluxe — O maior álbum de sempre vai ficar ainda maior

Vem aí a tão esperada reedição do White Album. Se ouvirem gritos, sou eu a berrar de felicidade a partir de Londres.

Em 1968, os Beatles já não eram os quatro rapazes de Liverpool unha com carne retratados no filme "A Hard Day's Night". Os rapazes tinham-se tornado homens; casado e descasado; ido à Índia numa viagem de auto-descoberta e meditação transcendental; e no meio de tudo isto, feito muitas drogas. Sem a figura paternal de Brian Epstein como elo de ligação dos rapazes, as tensões entre os Beatles escalaram e por altura da gravação do álbum que iria suceder a "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", já eram por demais evidentes, levando mesmo ao abandono de Ringo e George no meio do processo. A presença constante de Yoko Ono era por demais intrusiva para os restantes Beatles, especialmente para Paul, que decidiu ocupar outra sala nos estúdios de Abbey Road para gravar as suas composições. O crescente fosso escavado entre os Beatles mostrava que eles já não eram uma unidade, mas sim quatro personalidades radicalmente diferentes, juntos apenas pela força da máquina da maior banda do mundo. A tensão foi quase palpável na música que se seguiu. Corre nela um vibe sinistro e ameaçador, de canções entregues com fúria e intensidade; um vibe inquietante de quatro homens que mal conseguiam estar na mesma sala ao mesmo tempo.

O resultado deste fosso entre os Beatles e das tensões entre os quatro foi uma explosão criativa nunca antes vista na Pop e possivelmente nunca vista depois, pelo menos com esta bitola de qualidade. Uma vez que cada Beatle estava concentrado nas suas próprias influências (British Hall, Rock 'n' Roll, Country, Folk, Avant Garde, Heavy Metal, you fucking name it), a junção das quatro partes gerou um cardápio que ilustra a importância dos Beatles em toda a música Pop e Rock feita desde então. Esqueçam as colectâneas, esqueçam o Álbum Vermelho, esqueçam o Álbum Azul. Se quiserem saber porque os Beatles foram mesmo importantes, então o que têm ouvir é o Álbum Branco, um autêntico catálogo com quase tudo o que se pode fazer no Rock. As compilações podem mostrar por que os Beatles foram grandes, mas não mostram o porquê de terem sido os mais importantes.

"The Beatles", mais conhecido por White Album, é um monumento. É o castelo de pedra que senta em cima do monte majestoso que é a discografia da banda. É um castelo construído em pedra maciça, pesada, materializada por 30 canções. Trinta temas que mostram o bom, o mau e o feio dos Beatles. "The Beatles" é o maior álbum de sempre e o maior álbum de sempre vai ficar ainda maior. Passemos então ao que interessa.

O anúncio ainda não é oficial, mas lembrem-se, leram aqui primeiro. A reedição do White Album vai trazer duas novíssimas remisturas do álbum em Stereo e em Surround, ambas produzidas por Giles Martin — filho de George Martin, produtor dos álbuns originais dos Beatles. Ambas as remisturas, mais a mistura Mono original, vão aparecer na caixa Super Deluxe do White Album, que para além disto ainda oferece um CD das demos gravadas em Maio de 1968, na casa de George em Esher (pequena cidade em Surrey, onde este que vos escreve hoje trabalha) e mais 3 CDs de gravações das sessões do White Album em Abbey Road. Entre estas gravações, vamos poder ouvir uma primeira versão de "Let It Be", dois anos antes do seu lançamento em 1970. A minha cabeça está a andar à roda.

A reedição do White Album será feita em 5 formatos diferentes:
  • 2CD: 2018 Stereo Mix
  • 2LP: 2018 Stereo Mix
  • 3CD: 2018 Stereo Mix + Esher Demos
  • Vinyl Box — 4LP: 2018 Stereo Mix + Esher Demos
  • Super Deluxe — 6CD + Blu-Ray:  2018 Stereo Mix (2CD) + Esher Demos (1CD) + White Album Sessions (3CD) + 2018 Surround Mix & Original Mono Mix (Blu-Ray)


A negrito está o essencial desta campanha de reedições (e o que virá fatalmente cá para casa). Vamos então saber o que de novo traz a Super Deluxe.

CD 3: Esher Demos
  • "Back in the U.S.S.R."
  • "Dear Prudence"
  • "Glass Onion"
  • "Ob-La-Di, Ob-La-Da"
  • "The Continuing Story of Bungalow Bill"
  • "While My Guitar Gently Weeps"
  • "Happiness is a Warm Gun"
  • "I’m so tired"
  • "Blackbird"
  • "Piggies"
  • "Rocky Raccoon"
  • "Julia"
  • "Yer Blues"
  • "Mother Nature’s Son"
  • "Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey"
  • "Sexy Sadie"
  • "Revolution"
  • "Honey Pie"
  • "Cry Baby Cry"
  • "Sour Milk Sea" (não incluído no álbum final, gravado mais tarde por Jackie Lomax)
  • "Junk" (não incluído no álbum final, gravado mais tarde por Paul para o seu álbum de estreia a solo "McCartney")
  • "Child of Nature" (não incluído no álbum final, rescrito e regravado por John para o seu álbum "Imagine", como o bem conhecido "Jealous Guy")
  • "Circles" (não incluído no álbum final, regravado por George para o seu álbum "Gone Troppo" em 1982)
  • "Mean Mr. Mustard "(não incluído no álbum final, regravado como parte do medley que fecha o álbum "Abbey Road")
  • "Polythene Pam" (não incluído no álbum final, regravado como parte do medley que fecha o álbum "Abbey Road")
  • "Not Guilty" (não incluído no álbum final, regravado por George para o seu álbum homónimo de 1979 e mais tarde incluído na compilação "Anthology 3")
  • "What’s the New Mary Jane " (não incluído no álbum final e apenas incluído na compilação "Anthology 3")

CDs 4, 5 & 6: Sessions

Não é ainda conhecido alinhamento dos 3 discos (três discos!!!) de sessões do White Album, mas sabemos que são 50 temas (cinquenta temas!), todos remisturados a partir da fitas originais (4 pistas e 8 pistas), que vão aparecer por ordem cronológica de gravação e que estará incluída uma versão de 12 minutos de "Helter Skelter" e uma versão nunca ouvida de "Let It Be", dois anos antes do seu lançamento. O belíssimo outtake de "Can You Take Me Back?" (cujo excerto aparece no fim de "Cry Baby Cry") também estará presente.

Blu-ray Audio:

Blu-Ray com conteúdo exclusivamente audio (é pena, uma vez que há horas de fitas de vídeo desta altura), e que inclui quatro versões do álbum:
  • 2018 Stereo Mix — High-resolution PCM;
  • 2018 Surround Mix — DTS-HD Master Audio 5.1;
  • 2018 Surround Mix — Dolby True HD 5.1;
  • Original Mono Mix — 2018 Direct Transfer.

Ouvem os gritos? Sim, sou eu. Deixo-vos então com o primeiro aperitivo da Super Deluxe do White Album — um excerto de 5 segundos de "Can You Take Me Back?".







domingo, 2 de setembro de 2018

O que mais falta acontecer aos U2?

Os U2 precisam de repensar a banda. E o tempo é agora.


É difícil não sentir pena do que está a acontecer aos U2. Os últimos anos têm sido um pesadelo para a banda irlandesa, que parece ter entrado numa espiral derrotista de onde não consegue sair.

Já devem ter visto as notícias — Bono perdeu a voz ontem à noite em Berlim, naquele que foi apenas o segundo (!) concerto da digressão europeia. Se os U2 estivessem na fase final de uma longa digressão, até se podia compreender. Mas o Bono acabou de regressar das suas férias no Mónaco (onde esteve com o Noel Gallagher), por isso deveria ter a voz em boas condições. Não se entende. Tudo de mau parece acontecer aos irlandeses.

https://www.youtube.com/watch?v=A6rTFFbN7E8

É doloroso ver o Bono a sofrer ao longo da canção, a cantar como quem carrega uma cruz na sua via sacra. Para dizer a verdade, olhando para o vídeo, ninguém parece estar muito contente. O que se passa com os U2? Desde aquele infame episódio do lançamento de "Songs Of Innocence" que a banda parece andar deprimida e esquizofrénica, entre o medo de cair na irrelevância e o medo de perder os seus fãs mais conservadores, ainda ancorados à sonoridade de “The Electric Co.”.

O último álbum sofre gravemente com esta esquizofrenia. É uma lástima que não é carne, nem é peixe. Não é aquele throwback definitivo aos early days como foi "All That You Can't Leave Behind" e também não é aquele corte com o passado como foram"Achtung Baby", (o injustiçado) "Pop" e o mais recente (e também injustiçado) "No Line On The Horizon". Em vez disso, tenta agradar à franja mais nova com uma sonoridade beige que se confunde com o que passa na rádio generalista (e que não tem nada a ver com os U2), mas sem nunca sair muito da zona de conforto. A única coisa boa de "Songs Of Experience" foi fazer-me chegar à conclusão que o "Songs of Innocence" não tinha sido assim tão mau. O pior álbum da história dos U2. Está na hora de mudar esta onda. E o tempo é agora.

Já se passaram quase 10 anos de "No Line On The Horizon". É tempo de os U2 voltarem a esticar os limites da sua sonoridade, mas com algo verdadeiramente anguloso e perigoso. Algo que respeite a tradição inconformada dos U2. Está na hora de os U2 voltarem a ser felizes. Ou isso, ou de arrumarem definitivamente as botas. Esta depressão de piloto automático é que já chega. Já nem sequer tem piada bater nos U2.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Sabia que estavam à minha espera — Adeus, Aretha

No céu, Aretha Franklin vai ter muitos fãs à sua espera. Freddie Mercury e George Michael já devem estar em pulgas.

Já os estou a ver em pulgas à porta do céu. "A Aretha vem aí, a Aretha vem aí!", exclama o George, visivelmente entusiasmado. Mal ouviu a notícia, foi logo buscar os Ray-Ban Aviator e o casaco de cabedal que queimou no vídeo do "Freedom '90" (no céu, os casacos de cabedal também ressuscitam) para receber a rainha com a pompa do vídeo de "I Knew You Were Waiting (For Me)".

"Rainha?! Quem é que me chamou?", intervém Freddie, a chegar ao portão do céu enquanto termina a ponta de um cigarro.

"Não és tu, Freddie! É "a" rainha! Ela vem aí!", responde o George a ajeitar nervosamente a cabeleira loira (no céu, o George Michael adoptou o look do "Faith").

"Como assim a rainha? A Aretha?! A Aretha morreu? Poor darling", suspira o Freddie, ao mesmo tempo que atira a beata para o chão, ateando mais um foco de ignição na Serra de Monchique. "Aquela voz... Quem me dera cantar como ela! Sabias que ela é a minha cantora favorita?"

"Também a minha! É a melhor de sempre!", sorri o George. "Quando ela chegar, vou recebê-la como no vídeo "I Knew You Were Waiting"!".

"Ah, então por isso é que estás assim vestido!", desmancha-se a rir o Freddie, deixando sair a sua dentuça toda cá para fora (no céu ainda se recusa a fazer a qualquer intervenção cirúrgica que lhe possa afectar a projecção da voz). "Nada disso, darling. Vamos os três fazer um trio. E vai ser uma lenda nos céus!".



Confesso. Não sou a pessoa mais qualificada para falar sobre Aretha Franklin. O Soul não é a minha praia e o meu tema preferido que a Aretha cantou é o "I Knew You Were Waiting (For Me)", um dueto com o George Michael. Conheco-a através do George e do Freddie Mercury. Sei da forma que falavam dela. Sei que era a cantora favorita de sempre dos meus cantores favoritos de sempre.

Vejam os olhos do Freddie e do George brilhar quando falam dela. Quando ouvimos o Freddie Mercury suspirar que o sonho dele era cantar como a Aretha, nem é preciso dizer mais nada. Na prática, a Aretha está para o Freddie e para o George, na mesma medida em que eles estão para mim; é a deusa dos meus deuses. E isso chega-me para saber da sua importância e lhe deixar toda a minha reverência e R-E-S-P-E-C-T.

Gosto de pensar que ela foi ter com eles e que eles estão em êxtase por verem o seu maior ídolo. E que vão gravar um tema a três que vai conquistar e que nós só poderemos ouvir quando nos juntarmos a eles. Até lá fiquemos com a música terrena da Aretha.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Monumental, a vida do espantalho tarkovskiano dos Godspeed You! Black Emperor

A banda canadiana de Post Rock levou o espectáculo 'Monumental' ao Barbican

Quando Andrei Tarkovsky ganhou reconhecimento como filmmaker nos anos 70, começaram a aparecer nas salas de cinema os espectadores que não iam bem para ver o filme, mas sim para o evento social que era ver um filme do Tarkovsky. Com a consciência que o efeito viral passa depressa  (mesmo à escala dos anos 70), esta tendência irritou Tarkovsky de sobremaneira, que queria que os seus filmes fossem vistos pelo "seu" público, aquele que ele tinha construído de forma paulatina e consistente ao longo da sua carreira.

O efeito viral foi especialmente relevante quando saiu "Solaris" em 1972, o filme que fora promovido pelo regime soviético como a resposta a Kubrick. Era o "2001 Odisseia no Espaço" soviético e um evento nacional. Tarkovsky plantou então aquilo que eu chamo de espantalho tarkovskianoa cena da auto-estrada. No início do filme, uma cena mostra em tempo real a viagem do psicólogo Kris Kelvin, num plano doloroso de 5 minutos que desafia a paciência dos espectadores e que em última instância espantou para para fora da sala aqueles que não estavam lá para ver o filme.


https://www.youtube.com/watch?v=rswYl7RLRNE

O universo dos Godspeed You! Black Emperor está repleto de espantalhos tarkovskianos. Estes visam espantar os curiosos e em última instância atrair apenas quem está disposto a dar um pouco de si mesmo e sofrer pela arte que recebe. Atentem, por exemplo, no primeiro álbum "F# A# oo", lançado em 1997. Começamos logo pelo nome — dar um nome impronunciável logo ao primeiro álbum é um exemplo proverbial de um espantalho tarkovskiano. Depois há a duração das canções, todas com uma duração superior a 17 minutos. Parece algo terrivelmente inacessível. Mas não, não passa de um espantalho. Na verdade, se prestarem a devida atenção à música, percebem que afinal são apenas uma sequência temática de pequenos crescendos que podem ser separados e até ter uma vida independente. Bandas sonoras para filmes que ninguém fez. Mais importante que tudo, são peças acessíveis a toda a gente que tenha alguma paciência para se deixar tomar pela música.

Vem esta reflexão a propósito do espectáculo "Monumental", que deu vida a algumas destas pequenas peças dos Godspeed You! Black Emperor, com a ajuda da companhia de dança canadiana The Holy Body Tattoo, num espectáculo que eu melhor posso baptizar como um bailado pós-apocalíptico. O repertório concentrou-se no primeiro álbum, mas também incorporou alguma música mais recente dos álbuns "Asunder, Sweet and Other Distress" e "Luciferian Towers".

Mas afinal o que é isto do bailado pós apocalíptico? Passo a explicar. "Monumental" é um espectáculo multi sensorial que retrata a distopia para onde definha a nossa sociedade e está estruturado em três dimensões, representadas no palco por três níveis sucessivos:

  • Lá atrás, no pano de fundo, são projectadas imagens e frases de Jenny Holzer, que dão o contexto de desumanização da nossa sociedade: "Some days you wake us and immediately start to worry. Nothing in particular is wrong, it's just the suspicion that forces are aligning quietly and there will be trouble"
  • À frente do pano, no fim do palco, os Godspeed You! Black Emperor enchem a sala com o seu som cru e monolítico. 
  • Na frente do palco, em primeiro plano, os dançarinos actuam em extensão da música, numa coreografia que amplia a realidade projectada na tela e aumenta o volume dos sentimentos da audiência.

Os textos de Jenny Holzer fundem-se na perfeição com a dança e a música dos Godspeed. Quase a chegar ao clímax do espectáculo, os actores entram numa espiral de destruição e loucura, enquanto na tela são projectadas frases sobre como a sociedade nos puxa aos limites:
"By your response to danger, it is easy to tell how you have lived and what has been done to you: you show the rage that's within you, whether you want to stay alive, whether you think you deserve to and whether you believe it's any good to act."
Um a um, os dançarinos começam a cair em palco.

Depois de duas horas intensas do definhar da civilização à frente dos nossos olhos, o espectáculo atinge o clímax com o apocalipse — todas as luzes da sala vão abaixo e restam apenas algumas lanternas dos poucos sobreviventes em palco. Toca a obra-prima dos Godspeed — "The Dead Flag Blues". Quando os oceanos secarem, os céus se pintarem de vermelho com as chamas do que está em terra e as bandeiras se deitarem mortas no topo dos mastros, qual é a música que vai tocar? Esta:


https://www.youtube.com/watch?v=XVekJTmtwqM

"The sky was beautiful on fire, all twisted metal stretching upwards"

P.S.: Um dos desafios para fazer o episódio do London Calling de há umas semanas (apropriadamente intitulado "The Flags Are All Dead") foi precisamente desmontar esta estrutura aparentemente complexa e apresentar algumas secções da música dos Godspeed You! Black Emperor em separado, de modo a mostrar que elas têm vida própria e são de facto acessíveis a todos. Para melhor perceber os Godspeed, "The Flags Are All Dead" é de audição obrigatória.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Uma tarde no parque com os tios Clapton e Zucchero

O Slowhand foi ao Hyde Park, mas esqueceu-se dos hits em casa

Com a Princesa Diana e Príncipe Carlos na audiência da Wembley Arena, Eric Clapton tocou em 1987 no concerto de beneficiência Prince's Trust, onde fez parte da banda residente e cantou o seu single da época "Behind The Mask". Foi este o meu primeiro contacto com Eric, bem como como toda com a constelação que figurava em palco naquela noite: Phil Collins na bateria, Elton John no piano, Bryan Adams na guitarra, Ray Cooper na percussão, Mark King no baixo e uma certa dupla que tocou no fim da noite - introduzida por Elton como "dois homens sem os quais nenhum de nós estaria aqui hoje" - nem mais nem menos George Harrison e Ringo Starr, que eu mais tarde aprenderia que faziam parte de uma banda chamada Beatles.



Este concerto estava numa cassete em double feature com o "Live At Wembley" dos Queen, por isso sempre que rebobinava a cassete (those were times!) para ver o Freddie Mercury, levava outra vez com Eric e companhia. Estes eram os dias do imaginário infinito de uma criança, quando todo o universo está ao nosso alcance. Cresci com este grupo de músicos que via diariamente, por isso era como se fossem da minha família. Sentia uma proximidade inusitada com eles, como se daquele tio que mora ao fundo da rua se tratasse.

Os anos passaram e eu fui apanhando cada um dos meus tios em concertos; com excepção do George e do Ringo, só me faltava ver o Eric. Foi por isso com justificado entusiasmo que fui ao Hyde Park no passado domingo para ver o tio Eric, num evento completamente esgotado.

A setlist foi carregada de números de Blues e demasiado leve nos (muitos) êxitos e malhas que Eric Clapton acumulou ao longo da sua longa carreira. Nada contra o Blues, obviamente; mas quando se está perante 60 mil pessoas cheias de calor e sedentas de animação, não é o melhor programa de festas. Até o clássico "Layla" foi reduzido à sua versão acústica, celebrizada no álbum "Unplugged" de 1992. Foi aliás apenas neste set acústico que Eric sacou de hits como "Tears In Heaven". Clapton tocou:

01. Somebody's Knockin'
02. Key To The Highway
03. Hoochie Coochie Man
04. Got To Get Better In A Little While
05. Driftin‘
06. Nobody Knows You When You're Down And Out
07. Layla
08. Tears In Heaven
09. Lay Down Sally (com Marcy Levy)
10. The Core (com Marcy Levy)
11. Wonderful Tonight
12. Crossroads
13. LIttle Queen Of Spades
14. Cocaine
15. High Time We Went (com Carlos Santana)

Valeu a aparição de Santana no encore para o classico "High Time We Went".

No polo oposto esteve Zucchero, a grande surpresa da tarde. A fechar o palco secundário, o italiano mostrou como se trata uma audiência debaixo de 30 graus centígrados: com hits em barda. "Il Volo", "Misrere", "Baila", "Senza Una Dona", foi um vê se te avias neste set de all-in de Zucchero. No meio de uma audiência pejada de emigrantes italianos, foi a loucura total. Sai do palco secundário de coração cheio. Convenhamos que era difícil Eric igualar aquele nível de adrenalina.



Eric esteve em grande forma na guitarra. Foi um alívio para quem o viu no ano passado numa cadeira de rodas no LAX. Os relatos de que estava acabado foram largamente exagerados. Mas se a sua técnica continua apurada, já a escolha do repertório não foi a mais feliz para uma tarde de enorme calor no parque. Foi pena. Ainda assim, fiquei feliz de ver o tio Eric a divertir-se, ainda que ele tenha sido provavelmente o único a fazê-lo.

Clapton levou uma vida singular, uma que eu ao mesmo tempo invejo e (tento) evitar, de tanto drama que carrega. Toda a novela da vida de Eric Clapton no London Calling desta semana na NiTfm, num programa (apropriadamente baptizado de "Clapton is God") que não podem de maneira nenhuma perder.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A noite de coroação de Liam Gallagher, eterna Rock 'n' Roll Star

Crónica da noite em que renovei os votos de amor eterno pelo nosso miúdo

"Liam is the angriest man you'll ever meet. He's like a man with a fork in a world of soup." — Há dez anos era assim que Noel Gallagher descrevia o seu mano mais novo. Mas se o Noel privasse com o "nosso miúdo" ("RKid" — uma alcunha carinhosa mancuniana) nos dias de hoje, duvido que o pintasse da mesma maneira. Muita coisa aconteceu na última década e Liam é hoje um homem diferente. Quer dizer, Liam Gallagher continua a ser o Liam Gallagher. Continua a emanar aquele poder, paixão e pureza sem paralelo, sempre que inclina a cabeça para trás e se posiciona estático por baixo do microfone, a puxar por aquela voz meia Lennoniana, meia Lydoniana, numa imagem que nos tranca o olhar e nos faz sonhar com vidas melhores do que a que vivemos. Isso está igual. Mas Liam está diferente, também.

A diferença, diria, está na gratidão. Liam esteve dois anos no charco. Perdeu o amor da sua vida (os Oasis), perdeu o seu outro grande amor (Nicole Appleton) e pior, perdeu o amor próprio. Aquela auto-confiança "up in the sky" que injectou em milhões de miúdos (em mim, por exemplo) a quem convenceu que podiam ser tudo o que quisessem na puta da vida, que podiam concretizar os seus sonhos e que podiam ser Rock 'n' Roll stars se assim o sonhassem, essa arrogância desvaneceu-se. Lembro-me de o tentar animar no Twitter, dizendo-lhe que o mundo precisava dele e que estávamos todos cheios de saudades.



Liam foi ao inferno e voltou. E nesse processo de recauchutagem espiritual, percebeu que não fazia sentido estar tão zangado com o mundo; que devia estar grato pela vida que levou e por tudo o que conseguiu; que devia estar grato pelos que o amavam e que não são assim tão poucos. E decidiu espetar o seu coração uma última vez no mastro e hasteá-lo bem alto, num disco com o nome de "As You Were", onde confessou que "for what it's worth I'm sorry for the hurt, I'll be the first to say I made my own mistakes".

"As You Were" foi um mega-sucesso. O álbum foi lançado há quase um ano e ainda hoje figura nas tabelas, mas o sucesso não veio de borla. Liam foi obrigado a começar do zero e durante dois anos correu todas as capelinhas a espalhar a boa-nova: estava de volta e queria reclamar de volta o que era dele. O trono de maior Rock 'n' Roll star.

Depois de percorrer uma longa via sacra, a hora da redenção chegou. Foi na sexta-feira passada, num concerto esgotadíssimo no Finsbury Park, onde foi coroado perante os seus fiéis (que se apresentaram nas dezenas de milhar) como eterna Rock 'n' Roll Star.



Liam estava nas nuvens. Sabia da importância deste concerto e preparou-se devidamente para o evento. A voz estava impecável e para juntar à sua banda habitual, Liam trouxe trompetes e violoncelos para "Whatever" e "Wonderwall" e também trouxe Bonehead, um lad de Manchester com quem fundou os Oasis e que eu imagino que tenha vindo de autocarro do Norte numa viagem do tipo Trainspotting, porque o avião é muito caro e a vida em Manchester é dura.

O público também percebeu a solenidade do evento. Mas da forma britânica que tem de o fazer. Com cânticos de "football's coming home" entre temas, mosh pits em que o tronco nu é mandatory e gajos todos nus a fazerem crowdsurfing. Eu próprio só não o fiz porque não podia perder as chaves de casa. De facto, era difícil conter o entusiasmo.

Não é segredo para ninguém que me costume ler, a minha adoração pelo nosso miúdo. Depois de o ter visto triunfar Finsbury Park, de me ter enchido o coração de poder, paixão e pureza, tal como quando eu tinha 15 anos, os meus votos de amor eterno foram renovados. Que saudades que eu tinha do nosso miúdo.

Liam agradeceu o apoio do público por ter comprado o seu disco e ainda acrescentou que "if you got yourself into some shit and you had a record coming out, I would go out and buy it too, you know?". Não duvido Ao contrário da percepção de muitos, Liam tem um coração enorme. Impossível não amar o nosso miúdo.

Para celebrar a noite de glória de Liam Gallagher, não podem deixar de ouvir o episódio desta semana de London Calling, apropriadamente baptizado de "Mad Fer It".

quarta-feira, 27 de junho de 2018

London Calling — O sonho da rádio é real e está aqui

A história de como um engenheiro civil emigrado em Londres foi parar à NiTfm. Well, some of it was true. 

Tudo começou num acidente de automóvel. Estava a caminho do trabalho, na primeira manhã depois das piores férias de Verão da minha vida e não sei o que me passou pela cabeça, mas escolhi ir por uma estrada por onde nunca tinha passado naquela manhã — resoluções de primeiro dia de escola, talvez. Andava zangado com a vida e descarregava as frustrações de um Verão maldito no pedal do acelerador, enquanto na minha cabeça passavam em loop filmes de amores falhados e histórias mal resolvidas.

Desligado da estrada, vejo o carro à minha frente travar bruscamente. Ou pior, não vi. Não vi coisíssima nenhuma. Bati a 80 km/h na traseira de uma carrinha Ford e as luzes foram abaixo.  No rádio tocava um cover de Noel Gallagher de "There Is a Light That Never Goes Out". Como em tantas outras ocasiões, a canção perfeita a fazer de banda sonora a um momento-chave da minha vida.

Devo ter estado out apenas uns segundos, mas quando acordei, parecia que tinha despertado de um sono profundo. Ouvia tudo à minha volta como se tivesse mergulhado numa piscina até ao fundo, com um piiiiii contínuo que me nauseava. Olho para a frente e vejo o vidro da frente partido em mil pedacinhos. Não havia dúvidas, aquilo estava mesmo a acontecer. Os airbags também tinham rebentado e um overwhelming cheiro a queimado enchia-me os pulmões. O meu primeiro instinto foi pensar que o carro ia explodir, qual filme do James Bond. Sem mais, abri a porta do carro e imediatamente atirei-me à Pierce Brosnan para o meio da estrada, que é como quem diz, para a faixa contrária, onde o trânsito continuava a fluir, surpreendentemente oblívio ao acidente ao lado.

Olho para cima e vejo o condutor da carrinha onde batera a vir furioso na minha direcção. Quando se apercebe da minha desorientação, espojado ali no meio da estrada, ele baixa a forquilha que trazia e procura ajudar-me a levantar. Conta que me viu vir contra ele a toda a velocidade e que por isso levantou o pé do travão, evitando males maiores para os dois. Ainda bem. Eu vejo que tem uma cadeirinha no banco de trás e ele diz-me que por sorte tinha acabado de deixar o filho no infantário. Menos mau.

No hospital dizem-me que só parti um dedo na mão esquerda, reduzindo o número de dedos utilizáveis para três. Lá ia à vida o sonho de aprender a tocar guitarra. Feito idiota, volto ao trabalho logo a seguir e verifico que estupidifiquei. Fico a olhar à Syd Barrett para o monitor do PC durante o resto do dia e chego a casa assustadíssimo. O que raio fui eu fazer?! Naquele momento, percebi que alguma coisa tinha que mudar a minha vida.

2012 fora um ano mau a nível sentimental. Porém, o Rock in Rio desse ano trouxe uma reconciliação inesperada com uma história mal resolvida do passado e parecia dar uma nova esperança ao Verão. Pensando nisto, afinal tudo começou num concerto. Não fosse aquele maravilhoso concerto do Bruce Springsteen no Rock In Rio e não estaria aqui a escrever-vos hoje. A música do Bruce capitalizou o momento do reencontro e reacendeu uma paixão que julgava morta. A música, sempre a música.

O Verão prometia, mas tudo correu mal. Na véspera de umas férias que eu marcara para os dois e para um casal amigo dela, acabámos sem que eu percebesse porquê. Como já tinha pago o apartamento — duas semanas num duplex ao pé da praia — lá fui eu, sozinho, para uma casa enorme, a fazer as férias que eram para dois (ou quatro). Não é preciso ser o Paulo Cardoso para adivinhar que não ia correr muito bem. De facto, foram as férias mais deprimentes de sempre. Pelo menos descobri a minha banda sonora perfeita — qual Neil Young em "On The Beach", sentia-me um cenário idílico, rodeado de gente, mas mais sozinho que nunca.

O meu quotidiano nesta altura podia ser resumido em três passos: durante a semana, trabalhava como com um condenado como engenheiro civil; sexta-feira saía à noite e bebia até cair; e ao fim-de-semana, ressacava a noite de sexta, com sessões contínuas de cinema europeu, que andava a descobrir na altura. Ao mesmo tempo que este filme corria em loop todas as semanas, somava uma miríade de relações falhadas que não me traziam qualquer felicidade. O acidente de automóvel foi por isso o clique que me fez perceber que alguma coisa tinha que mudar na minha vida. Tinha que procurar algo meaningful, que lhe desse outro sentido aos meus dias para além daquela rotina auto-destrutiva.

Foi aí que decidi ir em busca de um sonho antigo — o sonho da rádio. Ganhei coragem e inscrevi-me num curso pós-laboral. Era um passo de gigante que ia rasgar de alto a baixo a minha rotina e duplicar o trabalho que tinha para fazer diariamente. A revolução na minha vida foi total. Sem saber, dei início a um dominó de eventos, que 6 anos mais tarde iria resultar na NiTfm. Mas já lá vamos.

O curso de rádio marcou o início de um período renascentista para mim. Estava apaixonado pela rádio e a paixão parecia ser retribuída. Dediquei-me ao curso e tudo corria às mil maravilhas, ou pelo menos era o que eu achava. Eu, toda a turma (onde fiz amizades que duram até hoje) e todos os professores. Todos menos um, entenda-se — o director do curso. Por alguma razão, o homem embirrou comigo e a tensão escalou de tal forma, que na última semana de aulas, quando fiz uns sketches de comédia para uma cadeira de criatividade, ele avaliou-me perante toda a turma de forma contundente: "Nuno, na vida há pessoas que têm piada e há pessoas que não têm. Tu não tens piada e nunca vais ter. Quanto mais depressa te convenceres disso, melhor para ti e para todos.". Lembro que isto foi dito para toda a turma ouvir. Podia ter saído derrotado da sala, mas em vez disso jurei a mim mesmo que ia provar ao homem que ele estava enganado, nem que fosse para lhe esfregar na puta da cara. E terminei o curso tomado por um novo objectivo.

O passo seguinte era procurar as ferramentas para concretizar este novo objectivo. Inscrevi-me por isso num curso de Stand Up Comedy. Foi aqui que conheci o Jaime Martins Alberto, na altura editor da revista Sábado, com quem comecei a ter longas conversas sobre, pois claro, música. Falei-lhe de um blog que escrevia há já vários anos (o Escolha Musical Do Dia) e mantivemos contacto. Entretanto, o curso termina e eu começo a fazer Stand Up ao vivo. O primeiro espectáculo foi logo para um Teatro Villaret à pinha. Estava nervosíssimo, mas a minha actuação foi um enorme sucesso. Percorri os bares na zona de Lisboa nos meses seguintes, onde aprendi que não há nada mais difícil que lidar com uma audiência ao vivo. Tive uma curta carreira de um ano, com altos e baixos. Depois de uma gloriosa noite em Alverca, em que tudo correu bem, decidi que o Stand Up acabava ali. Estava já cumprido o meu objectivo. In your face, headmaster.

Os meses passaram-se e a vida seguiu normalmente. No Verão de 2014, do nada recebo uma chamada do Jaime. Tinha saído da Sábado para criar um novo e entusiasmante projecto — a NiT, New In Town — e queria que eu escrevesse uma coluna semanal sobre música. Coloquei-lhe a condição única de ter liberdade total para escrever o que quisesse e quando ele concordou, eu aceitei sem pestanejar. E é assim que desde setembro de 2014 escrevo todas as semana na NiT, numa coluna que é o meu orgulho. Mas ainda faltava mais qualquer coisa.

Fast-forward para março de 2016 e o mundo do Rock é abalado com a notícia que os AC/DC dispensaram os serviços de Brian Johnson e foram buscar para o seu lugar Axl Rose.  Enquanto a imprensa cai com estrondo e unanimidade sobre Angus Young pela escolha polémica, eu escrevo um artigo na NiT a defender o casamento dos Axl/DC. Algures em Cascais, no estúdio de uma rádio local — a 105.4 —, estava o Rui Barros, fã dos Guns N' Roses e radialista de paixão, que lê o artigo e entra em contacto comigo para me dar os parabéns. Nem a propósito. Como é óbvio, aproveitei logo a deixa: "obrigado e já que estamos a falar, quero ter um programa na tua rádio". O Rui Barros anuiu, mas o programa nunca se concretizou (o que se concretizou mesmo foram as minhas previsões em como o Axl ia dar conta do recado com os AC/DC).

Mais um ano se passou e em 2017 o tio Axl volta a Portugal, agora com os Guns N' Roses. Tempo por isso para relembrar o Rui Barros que havia um programa de rádio para fazer. A resposta dele foi menos positiva desta vez — ele estava de saída da 105.4 e procurava um novo projecto novo. Não eram boas notícias.

Foi aí que surgiu a ideia: se eu escrevia para a NiT, por que não casar os dois sonhos num só? O sonho da escrita e o sonho da rádio. Falei com o Jaime sobre a ideia e três reuniões depois, nasceu o projecto da NiTfm.

Só havia um problema. Eu estava prestes a mudar-me para Londres. Logo agora que estava prestes a conseguir o que há tanto tempo perseguia. Mas em 2018, uma mudança para Londres não pode ser um problema para a rádio, ou não fosse uma das suas muitas maravilhas, precisamente o poder de cortar distâncias. Foi assim que surgiu o conceito do meu programa —  London Calling. Uma chamada semanal de Londres para Portugal e (como diria o Jaime), uma vez que a NiTfm é emitida em formato digital, para todo o Mundo. Todas as Quartas-Feiras às 22h na NiTfm, em simultâneo com a crónica na NiT.



Não pode haver aqui meias palavras. Este é um sonho que se concretiza. I said please please please and got what I wanted. This is big. And it's happening. Por muito que eu fale em histórias dramáticas e mal resolvidas, esta tem um final feliz. Aliás, não é final nenhum. É muito melhor que isso — é um novo e entusiasmante início. The dream is fucking real. Vamos a isso.