sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Sabia que estavam à minha espera — Adeus, Aretha

No céu, Aretha Franklin vai ter muitos fãs à sua espera. Freddie Mercury e George Michael já devem estar em pulgas.

Já os estou a ver em pulgas à porta do céu. "A Aretha vem aí, a Aretha vem aí!", exclama o George, visivelmente entusiasmado. Mal ouviu a notícia, foi logo buscar os Ray-Ban Aviator e o casaco de cabedal que queimou no vídeo do "Freedom '90" (no céu, os casacos de cabedal também ressuscitam) para receber a rainha com a pompa do vídeo de "I Knew You Were Waiting (For Me)".

"Rainha?! Quem é que me chamou?", intervém Freddie, a chegar ao portão do céu enquanto termina a ponta de um cigarro.

"Não és tu, Freddie! É "a" rainha! Ela vem aí!", responde o George a ajeitar nervosamente a cabeleira loira (no céu, o George Michael adoptou o look do "Faith").

"Como assim a rainha? A Aretha?! A Aretha morreu? Poor darling", suspira o Freddie, ao mesmo tempo que atira a beata para o chão, ateando mais um foco de ignição na Serra de Monchique. "Aquela voz... Quem me dera cantar como ela! Sabias que ela é a minha cantora favorita?"

"Também a minha! É a melhor de sempre!", sorri o George. "Quando ela chegar, vou recebê-la como no vídeo "I Knew You Were Waiting"!".

"Ah, então por isso é que estás assim vestido!", desmancha-se a rir o Freddie, deixando sair a sua dentuça toda cá para fora (no céu ainda se recusa a fazer a qualquer intervenção cirúrgica que lhe possa afectar a projecção da voz). "Nada disso, darling. Vamos os três fazer um trio. E vai ser uma lenda nos céus!".



Confesso. Não sou a pessoa mais qualificada para falar sobre Aretha Franklin. O Soul não é a minha praia e o meu tema preferido que a Aretha cantou é o "I Knew You Were Waiting (For Me)", um dueto com o George Michael. Conheco-a através do George e do Freddie Mercury. Sei da forma que falavam dela. Sei que era a cantora favorita de sempre dos meus cantores favoritos de sempre.

Vejam os olhos do Freddie e do George brilhar quando falam dela. Quando ouvimos o Freddie Mercury suspirar que o sonho dele era cantar como a Aretha, nem é preciso dizer mais nada. Na prática, a Aretha está para o Freddie e para o George, na mesma medida em que eles estão para mim; é a deusa dos meus deuses. E isso chega-me para saber da sua importância e lhe deixar toda a minha reverência e R-E-S-P-E-C-T.

Gosto de pensar que ela foi ter com eles e que eles estão em êxtase por verem o seu maior ídolo. E que vão gravar um tema a três que vai conquistar e que nós só poderemos ouvir quando nos juntarmos a eles. Até lá fiquemos com a música terrena da Aretha.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Monumental, a vida do espantalho tarkovskiano dos Godspeed You! Black Emperor

A banda canadiana de Post Rock levou o espectáculo 'Monumental' ao Barbican

Quando Andrei Tarkovsky ganhou reconhecimento como filmmaker nos anos 70, começaram a aparecer nas salas de cinema os espectadores que não iam bem para ver o filme, mas sim para o evento social que era ver um filme do Tarkovsky. Com a consciência que o efeito viral passa depressa  (mesmo à escala dos anos 70), esta tendência irritou Tarkovsky de sobremaneira, que queria que os seus filmes fossem vistos pelo "seu" público, aquele que ele tinha construído de forma paulatina e consistente ao longo da sua carreira.

O efeito viral foi especialmente relevante quando saiu "Solaris" em 1972, o filme que fora promovido pelo regime soviético como a resposta a Kubrick. Era o "2001 Odisseia no Espaço" soviético e um evento nacional. Tarkovsky plantou então aquilo que eu chamo de espantalho tarkovskianoa cena da auto-estrada. No início do filme, uma cena mostra em tempo real a viagem do psicólogo Kris Kelvin, num plano doloroso de 5 minutos que desafia a paciência dos espectadores e que em última instância espantou para para fora da sala aqueles que não estavam lá para ver o filme.


https://www.youtube.com/watch?v=rswYl7RLRNE

O universo dos Godspeed You! Black Emperor está repleto de espantalhos tarkovskianos. Estes visam espantar os curiosos e em última instância atrair apenas quem está disposto a dar um pouco de si mesmo e sofrer pela arte que recebe. Atentem, por exemplo, no primeiro álbum "F# A# oo", lançado em 1997. Começamos logo pelo nome — dar um nome impronunciável logo ao primeiro álbum é um exemplo proverbial de um espantalho tarkovskiano. Depois há a duração das canções, todas com uma duração superior a 17 minutos. Parece algo terrivelmente inacessível. Mas não, não passa de um espantalho. Na verdade, se prestarem a devida atenção à música, percebem que afinal são apenas uma sequência temática de pequenos crescendos que podem ser separados e até ter uma vida independente. Bandas sonoras para filmes que ninguém fez. Mais importante que tudo, são peças acessíveis a toda a gente que tenha alguma paciência para se deixar tomar pela música.

Vem esta reflexão a propósito do espectáculo "Monumental", que deu vida a algumas destas pequenas peças dos Godspeed You! Black Emperor, com a ajuda da companhia de dança canadiana The Holy Body Tattoo, num espectáculo que eu melhor posso baptizar como um bailado pós-apocalíptico. O repertório concentrou-se no primeiro álbum, mas também incorporou alguma música mais recente dos álbuns "Asunder, Sweet and Other Distress" e "Luciferian Towers".

Mas afinal o que é isto do bailado pós apocalíptico? Passo a explicar. "Monumental" é um espectáculo multi sensorial que retrata a distopia para onde definha a nossa sociedade e está estruturado em três dimensões, representadas no palco por três níveis sucessivos:

  • Lá atrás, no pano de fundo, são projectadas imagens e frases de Jenny Holzer, que dão o contexto de desumanização da nossa sociedade: "Some days you wake us and immediately start to worry. Nothing in particular is wrong, it's just the suspicion that forces are aligning quietly and there will be trouble"
  • À frente do pano, no fim do palco, os Godspeed You! Black Emperor enchem a sala com o seu som cru e monolítico. 
  • Na frente do palco, em primeiro plano, os dançarinos actuam em extensão da música, numa coreografia que amplia a realidade projectada na tela e aumenta o volume dos sentimentos da audiência.

Os textos de Jenny Holzer fundem-se na perfeição com a dança e a música dos Godspeed. Quase a chegar ao clímax do espectáculo, os actores entram numa espiral de destruição e loucura, enquanto na tela são projectadas frases sobre como a sociedade nos puxa aos limites:
"By your response to danger, it is easy to tell how you have lived and what has been done to you: you show the rage that's within you, whether you want to stay alive, whether you think you deserve to and whether you believe it's any good to act."
Um a um, os dançarinos começam a cair em palco.

Depois de duas horas intensas do definhar da civilização à frente dos nossos olhos, o espectáculo atinge o clímax com o apocalipse — todas as luzes da sala vão abaixo e restam apenas algumas lanternas dos poucos sobreviventes em palco. Toca a obra-prima dos Godspeed — "The Dead Flag Blues". Quando os oceanos secarem, os céus se pintarem de vermelho com as chamas do que está em terra e as bandeiras se deitarem mortas no topo dos mastros, qual é a música que vai tocar? Esta:


https://www.youtube.com/watch?v=XVekJTmtwqM

"The sky was beautiful on fire, all twisted metal stretching upwards"

P.S.: Um dos desafios para fazer o episódio do London Calling de há umas semanas (apropriadamente intitulado "The Flags Are All Dead") foi precisamente desmontar esta estrutura aparentemente complexa e apresentar algumas secções da música dos Godspeed You! Black Emperor em separado, de modo a mostrar que elas têm vida própria e são de facto acessíveis a todos. Para melhor perceber os Godspeed, "The Flags Are All Dead" é de audição obrigatória.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Uma tarde no parque com os tios Clapton e Zucchero

O Slowhand foi ao Hyde Park, mas esqueceu-se dos hits em casa

Com a Princesa Diana e Príncipe Carlos na audiência da Wembley Arena, Eric Clapton tocou em 1987 no concerto de beneficiência Prince's Trust, onde fez parte da banda residente e cantou o seu single da época "Behind The Mask". Foi este o meu primeiro contacto com Eric, bem como como toda com a constelação que figurava em palco naquela noite: Phil Collins na bateria, Elton John no piano, Bryan Adams na guitarra, Ray Cooper na percussão, Mark King no baixo e uma certa dupla que tocou no fim da noite - introduzida por Elton como "dois homens sem os quais nenhum de nós estaria aqui hoje" - nem mais nem menos George Harrison e Ringo Starr, que eu mais tarde aprenderia que faziam parte de uma banda chamada Beatles.



Este concerto estava numa cassete em double feature com o "Live At Wembley" dos Queen, por isso sempre que rebobinava a cassete (those were times!) para ver o Freddie Mercury, levava outra vez com Eric e companhia. Estes eram os dias do imaginário infinito de uma criança, quando todo o universo está ao nosso alcance. Cresci com este grupo de músicos que via diariamente, por isso era como se fossem da minha família. Sentia uma proximidade inusitada com eles, como se daquele tio que mora ao fundo da rua se tratasse.

Os anos passaram e eu fui apanhando cada um dos meus tios em concertos; com excepção do George e do Ringo, só me faltava ver o Eric. Foi por isso com justificado entusiasmo que fui ao Hyde Park no passado domingo para ver o tio Eric, num evento completamente esgotado.

A setlist foi carregada de números de Blues e demasiado leve nos (muitos) êxitos e malhas que Eric Clapton acumulou ao longo da sua longa carreira. Nada contra o Blues, obviamente; mas quando se está perante 60 mil pessoas cheias de calor e sedentas de animação, não é o melhor programa de festas. Até o clássico "Layla" foi reduzido à sua versão acústica, celebrizada no álbum "Unplugged" de 1992. Foi aliás apenas neste set acústico que Eric sacou de hits como "Tears In Heaven". Clapton tocou:

01. Somebody's Knockin'
02. Key To The Highway
03. Hoochie Coochie Man
04. Got To Get Better In A Little While
05. Driftin‘
06. Nobody Knows You When You're Down And Out
07. Layla
08. Tears In Heaven
09. Lay Down Sally (com Marcy Levy)
10. The Core (com Marcy Levy)
11. Wonderful Tonight
12. Crossroads
13. LIttle Queen Of Spades
14. Cocaine
15. High Time We Went (com Carlos Santana)

Valeu a aparição de Santana no encore para o classico "High Time We Went".

No polo oposto esteve Zucchero, a grande surpresa da tarde. A fechar o palco secundário, o italiano mostrou como se trata uma audiência debaixo de 30 graus centígrados: com hits em barda. "Il Volo", "Misrere", "Baila", "Senza Una Dona", foi um vê se te avias neste set de all-in de Zucchero. No meio de uma audiência pejada de emigrantes italianos, foi a loucura total. Sai do palco secundário de coração cheio. Convenhamos que era difícil Eric igualar aquele nível de adrenalina.



Eric esteve em grande forma na guitarra. Foi um alívio para quem o viu no ano passado numa cadeira de rodas no LAX. Os relatos de que estava acabado foram largamente exagerados. Mas se a sua técnica continua apurada, já a escolha do repertório não foi a mais feliz para uma tarde de enorme calor no parque. Foi pena. Ainda assim, fiquei feliz de ver o tio Eric a divertir-se, ainda que ele tenha sido provavelmente o único a fazê-lo.

Clapton levou uma vida singular, uma que eu ao mesmo tempo invejo e (tento) evitar, de tanto drama que carrega. Toda a novela da vida de Eric Clapton no London Calling desta semana na NiTfm, num programa (apropriadamente baptizado de "Clapton is God") que não podem de maneira nenhuma perder.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A noite de coroação de Liam Gallagher, eterna Rock 'n' Roll Star

Crónica da noite em que renovei os votos de amor eterno pelo nosso miúdo

"Liam is the angriest man you'll ever meet. He's like a man with a fork in a world of soup." — Há dez anos era assim que Noel Gallagher descrevia o seu mano mais novo. Mas se o Noel privasse com o "nosso miúdo" ("RKid" — uma alcunha carinhosa mancuniana) nos dias de hoje, duvido que o pintasse da mesma maneira. Muita coisa aconteceu na última década e Liam é hoje um homem diferente. Quer dizer, Liam Gallagher continua a ser o Liam Gallagher. Continua a emanar aquele poder, paixão e pureza sem paralelo, sempre que inclina a cabeça para trás e se posiciona estático por baixo do microfone, a puxar por aquela voz meia Lennoniana, meia Lydoniana, numa imagem que nos tranca o olhar e nos faz sonhar com vidas melhores do que a que vivemos. Isso está igual. Mas Liam está diferente, também.

A diferença, diria, está na gratidão. Liam esteve dois anos no charco. Perdeu o amor da sua vida (os Oasis), perdeu o seu outro grande amor (Nicole Appleton) e pior, perdeu o amor próprio. Aquela auto-confiança "up in the sky" que injectou em milhões de miúdos (em mim, por exemplo) a quem convenceu que podiam ser tudo o que quisessem na puta da vida, que podiam concretizar os seus sonhos e que podiam ser Rock 'n' Roll stars se assim o sonhassem, essa arrogância desvaneceu-se. Lembro-me de o tentar animar no Twitter, dizendo-lhe que o mundo precisava dele e que estávamos todos cheios de saudades.



Liam foi ao inferno e voltou. E nesse processo de recauchutagem espiritual, percebeu que não fazia sentido estar tão zangado com o mundo; que devia estar grato pela vida que levou e por tudo o que conseguiu; que devia estar grato pelos que o amavam e que não são assim tão poucos. E decidiu espetar o seu coração uma última vez no mastro e hasteá-lo bem alto, num disco com o nome de "As You Were", onde confessou que "for what it's worth I'm sorry for the hurt, I'll be the first to say I made my own mistakes".

"As You Were" foi um mega-sucesso. O álbum foi lançado há quase um ano e ainda hoje figura nas tabelas, mas o sucesso não veio de borla. Liam foi obrigado a começar do zero e durante dois anos correu todas as capelinhas a espalhar a boa-nova: estava de volta e queria reclamar de volta o que era dele. O trono de maior Rock 'n' Roll star.

Depois de percorrer uma longa via sacra, a hora da redenção chegou. Foi na sexta-feira passada, num concerto esgotadíssimo no Finsbury Park, onde foi coroado perante os seus fiéis (que se apresentaram nas dezenas de milhar) como eterna Rock 'n' Roll Star.



Liam estava nas nuvens. Sabia da importância deste concerto e preparou-se devidamente para o evento. A voz estava impecável e para juntar à sua banda habitual, Liam trouxe trompetes e violoncelos para "Whatever" e "Wonderwall" e também trouxe Bonehead, um lad de Manchester com quem fundou os Oasis e que eu imagino que tenha vindo de autocarro do Norte numa viagem do tipo Trainspotting, porque o avião é muito caro e a vida em Manchester é dura.

O público também percebeu a solenidade do evento. Mas da forma britânica que tem de o fazer. Com cânticos de "football's coming home" entre temas, mosh pits em que o tronco nu é mandatory e gajos todos nus a fazerem crowdsurfing. Eu próprio só não o fiz porque não podia perder as chaves de casa. De facto, era difícil conter o entusiasmo.

Não é segredo para ninguém que me costume ler, a minha adoração pelo nosso miúdo. Depois de o ter visto triunfar Finsbury Park, de me ter enchido o coração de poder, paixão e pureza, tal como quando eu tinha 15 anos, os meus votos de amor eterno foram renovados. Que saudades que eu tinha do nosso miúdo.

Liam agradeceu o apoio do público por ter comprado o seu disco e ainda acrescentou que "if you got yourself into some shit and you had a record coming out, I would go out and buy it too, you know?". Não duvido Ao contrário da percepção de muitos, Liam tem um coração enorme. Impossível não amar o nosso miúdo.

Para celebrar a noite de glória de Liam Gallagher, não podem deixar de ouvir o episódio desta semana de London Calling, apropriadamente baptizado de "Mad Fer It".

quarta-feira, 27 de junho de 2018

London Calling — O sonho da rádio é real e está aqui

A história de como um engenheiro civil emigrado em Londres foi parar à NiTfm. Well, some of it was true. 

Tudo começou num acidente de automóvel. Estava a caminho do trabalho, na primeira manhã depois das piores férias de Verão da minha vida e não sei o que me passou pela cabeça, mas escolhi ir por uma estrada por onde nunca tinha passado naquela manhã — resoluções de primeiro dia de escola, talvez. Andava zangado com a vida e descarregava as frustrações de um Verão maldito no pedal do acelerador, enquanto na minha cabeça passavam em loop filmes de amores falhados e histórias mal resolvidas.

Desligado da estrada, vejo o carro à minha frente travar bruscamente. Ou pior, não vi. Não vi coisíssima nenhuma. Bati a 80 km/h na traseira de uma carrinha Ford e as luzes foram abaixo.  No rádio tocava um cover de Noel Gallagher de "There Is a Light That Never Goes Out". Como em tantas outras ocasiões, a canção perfeita a fazer de banda sonora a um momento-chave da minha vida.

Devo ter estado out apenas uns segundos, mas quando acordei, parecia que tinha despertado de um sono profundo. Ouvia tudo à minha volta como se tivesse mergulhado numa piscina até ao fundo, com um piiiiii contínuo que me nauseava. Olho para a frente e vejo o vidro da frente partido em mil pedacinhos. Não havia dúvidas, aquilo estava mesmo a acontecer. Os airbags também tinham rebentado e um overwhelming cheiro a queimado enchia-me os pulmões. O meu primeiro instinto foi pensar que o carro ia explodir, qual filme do James Bond. Sem mais, abri a porta do carro e imediatamente atirei-me à Pierce Brosnan para o meio da estrada, que é como quem diz, para a faixa contrária, onde o trânsito continuava a fluir, surpreendentemente oblívio ao acidente ao lado.

Olho para cima e vejo o condutor da carrinha onde batera a vir furioso na minha direcção. Quando se apercebe da minha desorientação, espojado ali no meio da estrada, ele baixa a forquilha que trazia e procura ajudar-me a levantar. Conta que me viu vir contra ele a toda a velocidade e que por isso levantou o pé do travão, evitando males maiores para os dois. Ainda bem. Eu vejo que tem uma cadeirinha no banco de trás e ele diz-me que por sorte tinha acabado de deixar o filho no infantário. Menos mau.

No hospital dizem-me que só parti um dedo na mão esquerda, reduzindo o número de dedos utilizáveis para três. Lá ia à vida o sonho de aprender a tocar guitarra. Feito idiota, volto ao trabalho logo a seguir e verifico que estupidifiquei. Fico a olhar à Syd Barrett para o monitor do PC durante o resto do dia e chego a casa assustadíssimo. O que raio fui eu fazer?! Naquele momento, percebi que alguma coisa tinha que mudar a minha vida.

2012 fora um ano mau a nível sentimental. Porém, o Rock in Rio desse ano trouxe uma reconciliação inesperada com uma história mal resolvida do passado e parecia dar uma nova esperança ao Verão. Pensando nisto, afinal tudo começou num concerto. Não fosse aquele maravilhoso concerto do Bruce Springsteen no Rock In Rio e não estaria aqui a escrever-vos hoje. A música do Bruce capitalizou o momento do reencontro e reacendeu uma paixão que julgava morta. A música, sempre a música.

O Verão prometia, mas tudo correu mal. Na véspera de umas férias que eu marcara para os dois e para um casal amigo dela, acabámos sem que eu percebesse porquê. Como já tinha pago o apartamento — duas semanas num duplex ao pé da praia — lá fui eu, sozinho, para uma casa enorme, a fazer as férias que eram para dois (ou quatro). Não é preciso ser o Paulo Cardoso para adivinhar que não ia correr muito bem. De facto, foram as férias mais deprimentes de sempre. Pelo menos descobri a minha banda sonora perfeita — qual Neil Young em "On The Beach", sentia-me um cenário idílico, rodeado de gente, mas mais sozinho que nunca.

O meu quotidiano nesta altura podia ser resumido em três passos: durante a semana, trabalhava como com um condenado como engenheiro civil; sexta-feira saía à noite e bebia até cair; e ao fim-de-semana, ressacava a noite de sexta, com sessões contínuas de cinema europeu, que andava a descobrir na altura. Ao mesmo tempo que este filme corria em loop todas as semanas, somava uma miríade de relações falhadas que não me traziam qualquer felicidade. O acidente de automóvel foi por isso o clique que me fez perceber que alguma coisa tinha que mudar na minha vida. Tinha que procurar algo meaningful, que lhe desse outro sentido aos meus dias para além daquela rotina auto-destrutiva.

Foi aí que decidi ir em busca de um sonho antigo — o sonho da rádio. Ganhei coragem e inscrevi-me num curso pós-laboral. Era um passo de gigante que ia rasgar de alto a baixo a minha rotina e duplicar o trabalho que tinha para fazer diariamente. A revolução na minha vida foi total. Sem saber, dei início a um dominó de eventos, que 6 anos mais tarde iria resultar na NiTfm. Mas já lá vamos.

O curso de rádio marcou o início de um período renascentista para mim. Estava apaixonado pela rádio e a paixão parecia ser retribuída. Dediquei-me ao curso e tudo corria às mil maravilhas, ou pelo menos era o que eu achava. Eu, toda a turma (onde fiz amizades que duram até hoje) e todos os professores. Todos menos um, entenda-se — o director do curso. Por alguma razão, o homem embirrou comigo e a tensão escalou de tal forma, que na última semana de aulas, quando fiz uns sketches de comédia para uma cadeira de criatividade, ele avaliou-me perante toda a turma de forma contundente: "Nuno, na vida há pessoas que têm piada e há pessoas que não têm. Tu não tens piada e nunca vais ter. Quanto mais depressa te convenceres disso, melhor para ti e para todos.". Lembro que isto foi dito para toda a turma ouvir. Podia ter saído derrotado da sala, mas em vez disso jurei a mim mesmo que ia provar ao homem que ele estava enganado, nem que fosse para lhe esfregar na puta da cara. E terminei o curso tomado por um novo objectivo.

O passo seguinte era procurar as ferramentas para concretizar este novo objectivo. Inscrevi-me por isso num curso de Stand Up Comedy. Foi aqui que conheci o Jaime Martins Alberto, na altura editor da revista Sábado, com quem comecei a ter longas conversas sobre, pois claro, música. Falei-lhe de um blog que escrevia há já vários anos (o Escolha Musical Do Dia) e mantivemos contacto. Entretanto, o curso termina e eu começo a fazer Stand Up ao vivo. O primeiro espectáculo foi logo para um Teatro Villaret à pinha. Estava nervosíssimo, mas a minha actuação foi um enorme sucesso. Percorri os bares na zona de Lisboa nos meses seguintes, onde aprendi que não há nada mais difícil que lidar com uma audiência ao vivo. Tive uma curta carreira de um ano, com altos e baixos. Depois de uma gloriosa noite em Alverca, em que tudo correu bem, decidi que o Stand Up acabava ali. Estava já cumprido o meu objectivo. In your face, headmaster.

Os meses passaram-se e a vida seguiu normalmente. No Verão de 2014, do nada recebo uma chamada do Jaime. Tinha saído da Sábado para criar um novo e entusiasmante projecto — a NiT, New In Town — e queria que eu escrevesse uma coluna semanal sobre música. Coloquei-lhe a condição única de ter liberdade total para escrever o que quisesse e quando ele concordou, eu aceitei sem pestanejar. E é assim que desde setembro de 2014 escrevo todas as semana na NiT, numa coluna que é o meu orgulho. Mas ainda faltava mais qualquer coisa.

Fast-forward para março de 2016 e o mundo do Rock é abalado com a notícia que os AC/DC dispensaram os serviços de Brian Johnson e foram buscar para o seu lugar Axl Rose.  Enquanto a imprensa cai com estrondo e unanimidade sobre Angus Young pela escolha polémica, eu escrevo um artigo na NiT a defender o casamento dos Axl/DC. Algures em Cascais, no estúdio de uma rádio local — a 105.4 —, estava o Rui Barros, fã dos Guns N' Roses e radialista de paixão, que lê o artigo e entra em contacto comigo para me dar os parabéns. Nem a propósito. Como é óbvio, aproveitei logo a deixa: "obrigado e já que estamos a falar, quero ter um programa na tua rádio". O Rui Barros anuiu, mas o programa nunca se concretizou (o que se concretizou mesmo foram as minhas previsões em como o Axl ia dar conta do recado com os AC/DC).

Mais um ano se passou e em 2017 o tio Axl volta a Portugal, agora com os Guns N' Roses. Tempo por isso para relembrar o Rui Barros que havia um programa de rádio para fazer. A resposta dele foi menos positiva desta vez — ele estava de saída da 105.4 e procurava um novo projecto novo. Não eram boas notícias.

Foi aí que surgiu a ideia: se eu escrevia para a NiT, por que não casar os dois sonhos num só? O sonho da escrita e o sonho da rádio. Falei com o Jaime sobre a ideia e três reuniões depois, nasceu o projecto da NiTfm.

Só havia um problema. Eu estava prestes a mudar-me para Londres. Logo agora que estava prestes a conseguir o que há tanto tempo perseguia. Mas em 2018, uma mudança para Londres não pode ser um problema para a rádio, ou não fosse uma das suas muitas maravilhas, precisamente o poder de cortar distâncias. Foi assim que surgiu o conceito do meu programa —  London Calling. Uma chamada semanal de Londres para Portugal e (como diria o Jaime), uma vez que a NiTfm é emitida em formato digital, para todo o Mundo. Todas as Quartas-Feiras às 22h na NiTfm, em simultâneo com a crónica na NiT.



Não pode haver aqui meias palavras. Este é um sonho que se concretiza. I said please please please and got what I wanted. This is big. And it's happening. Por muito que eu fale em histórias dramáticas e mal resolvidas, esta tem um final feliz. Aliás, não é final nenhum. É muito melhor que isso — é um novo e entusiasmante início. The dream is fucking real. Vamos a isso.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A Copa de uma vida - Os 10 melhores temas de Mundiais e Europeus



Está tudo a pensar no mesmo. O Mundial da Rússia está aí e começa a ser difícil conter esta febre que toma conta do mundo por um mês de quatro em quatro anos. Tempo por isso de recordar as 10 melhores canções de Europeus e Mundiais e compilar uma playlist para o efeito. O tema oficial deste mundial ficou a cargo de Shawn Mendes, mas ainda não passou o teste do tempo e como tal não foi considerado para a lista. A selecção dos temas é obviamente da exclusiva responsabilidade do seleccionador musical da NiT. Eu, portanto.

10. Shakira - "Waka Waka (This Time for Africa)" — África do Sul 2010



O Mundial mais barulhento da História (lembram-se das vuvuzelas?) teve direito a tema oficial da que era à data a maior estrela Pop da América Latina. Seguindo a boleia de êxitos como "Wherever Whenever", "Underneath Your Clothes" (wow, que throwback ao liceu!) e "Hips Don't Lie" (aquela com o gajo dos Black Eyed Peas), Shakira levou "Waka Waka" à África do Sul para animar um Mundial que não foi especialmente notável em coisa nenhuma, a não ser no barulho.


9. The Lightning Seeds - "Three Lions (Football's Coming Home)" —  Inglaterra 1996



"It's coming home, it's coming home, football is coming home". Não é um cântico muito familiar aos portugueses, mas foi "a cena" em Inglaterra em 1996, de tal forma que ainda hoje cantam isto no pub sempre que jogam os Three Lions (alcunha da Selecção inglesa). O Euro 96 marcou o regresso de uma grande competição internacional ao país que viu nascer o futebol (a primeira desde o brilharete dos Magriços em 1966) e os Lightning Seeds celebraram a efeméride com uma canção que deixou na sombra o tema oficial da competição — o nem-de-perto tão entusiasmante "We're in This Together" dos Simply Red — e cujo impacto durou até hoje.


8. Elvis Presley vs JXL - "A Little Less Conversation" — Coreia do Sul / Japão 2002



Mais um tema não oficial. "A Little Less Conversation" é, na verdade, o tema que fez de banda sonora à mítica publicidade da Nike para o Mundial de 2002, no tempo em que cada anúncio da Nike era uma obra-prima. O Mundial da Coreia e Japão foi um espectacular descarrilamento, pelo menos para Portugal, que foi lá ser enxovalhado a todos os níveis. Mas se dentro do campo as coisas correram mal, na música também não correram muito melhor. Paulo Gonzo e a Federação Portuguesa de Futebol embrulharam-se numa disputa de direitos sobre quem é que tinha o tema oficial da Selecção, depois de Paulo Gonzo gravar o vídeo de "Mundial" com os jogadores. O tema entrou na compilação oficial da FIFA, mas a FPF recusou-se a assumir o hino. Também não se perdeu grande coisa.


7. Chumbawamba - "Tubthumping" — França 1998



Tub quê? Thumping. Oi? Pois, também não sei. Mas decerto reconhecerão a linha "I get knocked down, but I get up again". É essa. "Tubthumping" não foi tema oficial do França 98, mas foi a introdução para o jogo "World Cup '98" da Electronic Arts e um smash hit no Verão de 1998, por isso a RTP carregava com a música em tudo o que fossem resumos diários da competição.  Para quem viveu este mundial com a inocência dos 12 anos, a papar todos os jogos — que começavam depois do almoço e seguiam ininterruptamente até à noite — e todos os resumos, era isto de manhã à noite.  Ah, que saudades de ser puto. Futebol ao pequeno-almoço, almoço e jantar, those were the fucking days.


6. Nelly Furtado - "Força" — Portugal 2004



Como a única estrela Pop internacional com alguma (remota) ligação a Portugal, coube a Nelly Furtado a honra de cantar o tema oficial do Europeu que se realizou no nosso país. "Força" foi a canção que carregou a nação valente e imortal ao maior "quase" desde que quase descobrimos a América, tivesse D. João II dado as três caravelas que o Colombo pedia. Tivesse o Scolari metido o Nuno Gomes e o Pauleta na frente... nunca saberemos. Pela minha parte, confesso que nunca consegui levar o tema muito a sério devido à pronúncia bizarra da Nelly, particularmente à forma inusitada como parece dar o incentivo "come-me à força".


5. Bondage - "Será Demais Pedir a Taça?" — Portugal 2004



Ah, agora sim. "Menos ais, menos ais, menos ais". Esqueçam a Nelly, a música que verdadeiramente preencheu o nosso imaginário em 2004 saiu de uma campanha publicitária. Ai, Ricardo, porque é que fechaste os olhos àquele cruzamento?


4. José Estebes - "Bamos lá cambada" — México 1986



Clássico máximo dos nossos Mundiais, interpretado pelo único artista em Portugal que cruzou duas décadas e várias gerações pelo meio, onde conseguiu ser tão ou mais popular que as maiores estrelas do futebol da época. Ou não fosse a alcunha do Herman José, o verdadeiro artista. Mil vénias ao Herman. Sempre o Maior.


3. New Order - "World In Motion" — Itália 1990



Obviamente a entrada mais cool desta lista. Só mesmo a Inglaterra para se dar ao luxo de pedir a uma banda alternativa como os New Order para fazer um hino oficial para a Selecção. Até meteram o John Barnes, extremo esquerdo do Liverpool, a fazer um rap. E resultou.

2. James - "Goal Goal Goal" — EUA 1994



Tenho um fraquinho especial por "Goal Goal Goal" por várias razões: em primeiro lugar, porque adoro os James; em segundo, porque o USA '94 foi a primeira competição internacional que devorei que nem um Songoku depois do treino e (talvez por isso) ainda hoje é o meu Mundial preferido (saudades de ser puto!); terceiro, porque fala da paixão inocente pelo jogo, algo que espelhava o meu sentimento da altura; e quarto, porque é um tema deliciosamente viciante. Embora não seja "a canção" do Mundial dos Estados Unidos, "Goal Goal Goal" é de facto um dos temas oficiais, uma vez que foi editado (em exclusivo) na fabulosa compilação "Gloryland", banda sonora licenciada do USA '94.


1. Ricky Martin - "La Copa de la Vida" — França 1998



"La Copa de la Vida" está para os mundiais como "Last Christmas" está para o Natal e imagino que tenha um pico de visualizações no YouTube de quatro em quatro anos, em tudo semelhante ao do tema dos Wham! todos os Natais. Percebendo que a audiência maioritária dos Mundiais é latina, a FIFA teve a inteligência de ir buscar o porto-riquenho dos Menudo — cuja carreira estava na altura em ascensão meteórica — para fazer o tema oficial do França '98. Ricky Martin emprestou ao Mundial este tema Pop perfeito e ao nosso Ronaldo o grito de guerra que iria adoptar dez anos mais tarde. Siiiiiiiiii!. "La Copa de la Vida" é o mais mítico e mais convincente dos hinos dos Mundiais e um must para entrar no mood do Mundial.



E agora vamos lá cambada que isto é futebol total e o maior é Portugal. É trazer a taça ou pelo menos, como dizia o Ricky Martin, "luchar por ella". Full Copa mode on!


quarta-feira, 6 de junho de 2018

The Libertines em Londres — Um concerto de beneficência que descambou numa festa maradoniana

A crónica de uma noite de Rock 'n' Roll pelas razões correctas

Sempre fui fã de concertos de beneficência. Paira nestas noites um sentido de comunhão e urgência que as torna especiais e tantas vezes nos proporciona momentos icónicos que marcam de forma indelével a cultura popular. A tradição do Rock neste tipo de eventos é rica e antiga: começando no longínquo Concert For Bangladesh (primeira actuação a solo de George e logo a tocar temas dos Beatles com Eric Clapton), passando pelo famoso Live Aid (quando os Queen tomaram de assalto o Wembley e as duas mil milhões de pessoas a assistir em casa) e o seu irmão mais novo Live 8 (quando os Pink Floyd enterraram o machado por uma noite), pelos concertos do Prince's Trust nos anos 80 (George Harrison e Ringo Starr finalmente reunidos) e pelo Tributo ao Freddie Mercury que despertou o mundo para a SIDA (Axl e Elton abraçados, George Michael a tomar os Queen de assalto, infelizmente só por uma noite), até ao mais recente One Love de Manchester (Chris Martin a fazer as pazes com um Liam Gallagher munido de uma magnífica parca laranja). A lista de páginas históricas desenhadas nestes concertos é infindável.

Há um momento, porém, que define para mim estes concertos — quando Paul McCartney entra em palco no Hyde Park para fechar o Live 8 e diz ao público: "You came for the right reason. You wanna rock.". Porque depois de pagar o seu bilhete e fazer a sua contribuição, é exactamente para isso que o público lá está.

Foi nesse espírito que eu fui ao concerto Hoping For Palestine no Roundhouse, em Camden, norte de Londres. O dinheiro da bilhética revertia para as crianças da Palestina, pelo que sabia que algum bem ia sair dali. Mas a partir do momento em que estava lá dentro, o que eu queria mesmo era Rock N' Roll. O problema é que nem todos os artistas da noite receberam o memorando. Mas já lá vamos.

Comecemos como o Memento, pelo fim — The Libertines. Que concertão. Uma noite sem dormir à custa destes gajos. Não que o concerto tivesse acabado a hora tardia, que em Londres a partir das 23h não há barulho para ninguém (eles ainda estenderam a coisa por mais 10 minutos); mas quem é que consegue dormir depois de uma noite destas, com o corpo carregado de adrenalina? É por isso que os concertos a meio da semana (neste caso numa segunda-feira!) são sempre um desastre fisiológico que desregula por completo todo o equilíbrio de uma pessoa. Mas voltemos ao concerto.

Quem quer que ache que o Rock N' Roll está morto, precisa de ver The Libertines ao vivo. Urgentemente. A banda londrina está melhor que nunca e deu um espectáculo que viverá para sempre na memória de quem foi ao Roundhouse. Bem, na verdade não deu um, mas sim dois espectáculos. Passo a explicar.

Carl Barat fazia anos e como tal, a noite teve dois concertos diferentes: o primeiro, antes de Pete Doherty lhe cantar os parabéns e os dois irem para trás dos palco por 5 longos minutos (enquanto o baterista e o baixista improvisavam em palco); o segundo, quando voltaram do backstage a fungar e a coçar o nariz (não estou a metaforizar) e mais pareciam dois bêbados num karaoke. E pasmem-se, ambos os concertos foram maravilhosos.

A primeira parte do espectáculo mostrou uma banda bem ensaiada, feliz e plena de positivismo. Especialmente o Pete Doherty, que apareceu com o seu melhor aspecto desde desde 1998. Tem obviamente andado a comer a sopinha em casa.


Num set de apenas uma hora, não havia espaço para grandes aperitivos e por isso os Libertines foram direitos ao "Heart Of The Matter". "Fame And Fortune", "What Katie Did", "Can't Stand Me Now", os hits foram saindo uns atrás dos outros, numa torrente que enchia a sala de sorrisos e o chão de cerveja. A sério, com a pint a 5 libras, quem é que no seu perfeito juízo vai lançar o copo cheio no ar sempre que entra um refrão? Só mesmo estes ingleses.

Em cima do palco, tudo corria de forma inusitadamente sóbria. Talvez descontente com tal efeméride, Pete Doherty revela que era o aniversário de Carl Barat e é aqui que as coisas descambam. Doherty despe o blazer e mostra a camisola da Argentina em tempos usada por Maradona, ao mesmo tempo que começa a cantar os parabéns a Barat. Depois, enfim, foram os dois maradoniar para trás do palco. Mas como julgar? A ocasião merecia um festejo à antiga.
Quando voltaram, começaram a tocar os acordes de "Golden Brown" dos Stranglers e aí deixaram-me baralhado acerca da escolha da actividade atrás do palco. Branca ou castanha? Cheira-me a branca. Bem, não literalmente, que eu estava quietinho cá atrás.

A segunda parte do concerto foi um belíssimo descarrilamento de puro Rock 'n' Roll. "Gunga Din", "Time For Heroes", os hits continuaram a sair, mas agora aos tombos como nos "Good Old Days", um espelho perfeito dos dois frontmen em palco. Dois bêbados num karaoke, zero fucks given. Como não adorar?

O concerto terminou com Pete Doherty a lançar a sua própria guitarra para o público (microfones já tinham sido uns quantos) para desespero do seu guitar tech que, coitado, teve com certeza o pior serão de todos os que foram ao Roundhouse. A guitarra, essa, por pouco não me acertou na cabeça, distraído que estava aos pulos no meio do mosh pit. Ora fiquem aí com o vídeo do momento, cortesia da própria banda (atentem no roadie).



Antes do prato principal servido pelos Libertines, a noite teve uma série de aperitivos de nomeada: Patti Smith a abrir, Thurston Moore, Frankie Boyle e até Eric Cantona a declamar poemas entre sets. Cantona foi curto, directo e brilhante, mas os restantes deixaram muito a desejar. O memorando de que a audiência estava ali para se divertir deve ter sido dobrado em quatro e utilizado para fazer linhas no camarim dos Libertines, porque de certeza que mais ninguém o leu.


O set de Thurston Moore, voz e guitarra dos Sonic Youth, consistiu num cover integral do primeiro lado de "Metal Machine Music", acompanhado por um tipo num fato-macaco branco e aprumado a fazer dança contemporânea. Excelente combo para um concerto de beneficência. Mas a grande decepção da noite foi mesmo Frankie Boyle. O comediante, um dos melhores do mundo a fazer stand up comedy, preferiu a leitura sóbria às piadas, desperdiçando uma chance crucial para mostrar que todóos os momentos têm espaço para o humor. Que pena.

No início da noite, Patti Smith brilhou intensamente em "Pissing In A River", pondo toda a audiência madrugadora em sentido com o seu poderosíssimo vozeirão. Só foi pena ter ocupado o seu já curtíssimo tempo de palco com longos discursos activistas. Patti queria dar o enquadramento da ocasião à audiência, mas não percebeu que o público já estava no Roundhouse pelas razões correctas — para se divertir, ao mesmo tempo que ajudava. Os Libertines sabem como se faz.