quarta-feira, 30 de maio de 2018

A noite de libertação de Nick Mason


"Welcome to what's apparently the saucer of my secrets. Or my saucers and my secrets, I don't know. The band was unsure of what to call ourselveswe thought about Australian Roger Waters but decided at last minute to change it.
I'm not quite sure if this one is better."
Nick Mason, ao apresentar os Nick Mason's Saucerful Of Secrets no Half Moon, em Londres

Há um nítido sentimento de libertação nesta noite do inesperado regresso de Nick Mason aos palcos. Tenho o privilégio de estar aqui, no Half Moon, um pequeno e claustrofóbico bar em Putney que aparenta levar não mais que 50 pessoas, para esta inusitada ocasião. Olho à volta e lembro-me que foi precisamente para isto que eu me mudei para Londres. O ambiente fervia e todos comentavam entredentes: seria Nick capaz de dar conta do recado? Feitas as contas, ele já não tocava sozinho em palco desde a digressão de "Animals" em 1977, já lá iam mais de 40 anos. Toda a gente levava grande curiosidade, mas a verdade é que ninguém esperava grande coisa.

Desde que Nick Mason começou a ter ajuda nas suas partes de bateria em 1980, na The Wall Tour, que se estabeleceu a ideia generalizada que Nick é um baterista tecnicamente pouco hábil. Houve até alguma surpresa quando ele fez questão de aparecer sozinho no Live 8, em 2005, na famosa reunião dos Floyd. Acontece que já aí o Nick nos estava a tentar dizer alguma coisa.

E disse mais nos últimos anos, quando foi várias vezes convidado por David Gilmour para aparecer nos seus shows a solo e recusou repetidamente. Mason cansou-se de ser tratado como um napron de mesa e deu a saber a David que não estava mais disponível para enfeite, estava apenas e só disponível para os PINK FLOYD. Até porque depois da morte de Richard Wright e da saída de Roger Waters em 1985, Nick + David = Pink Floyd.

Mas David nunca o chamou para os Pink Floyd.

E por isso, farto de ser refém da vontade de Roger e David para poder sair de casa e fazer o que gosta, Nick (que é, note-se, o único músico presente em TODOS os álbuns dos Floyd) resolveu pôr mãos à obra, formar uma banda e provar a todos o quanto estávamos errados sobre a sua aptidão para a bateria.

E eis que chegamos aqui, ao Half Moon, um bar tão recôndito que mais parece um regresso aos longínquos tempos do UFO. É a noite de libertação de Nick Mason e dos seus Saucerful Of Secrets, o supergrupo menos super da História. O centro do palco é tomado por Guy Pratt, carismático baixista de estrada dos Pink Floyd e de David Gilmour desde 1987 (e genro de Richard Wright); nos flancos temos as guitarras de Gary Kemp dos Spandau Ballet (que agora vivem sem Tony Hadley) e de Lee Harris, guitarrista e manager dos The Blockheads pós-Ian Dury (no Técnico chamavam a isto de segunda derivada). Lá atrás, nas teclas, o produtor e mago de estúdio Dom Beken e lá muito ao fundo, demasiado ao fundo para quem é o cabeça de cartaz da noite e o homem que todos vieram ver, Nick Mason — esse mesmo, o baterista proscrito, alegadamente inábil e supostamente reformado dos Pink Floyd. É a noite de redenção deste suspeito grupo de músicos renegados, órfãos de banda e ratos de estúdio que, quais Rocky contra Apollo Creed, tiveram finalmente o seu shot at the title. E boy se o aproveitaram.


""The Nile Song" was actually the first Pink Floyd song I learned how to play when I was a kid. When I was with David, rehearsing for his On An Island tour in 2006, we were suggesting songs and I suggested to play this. And then David suggested that I should play in another band! And so I did!"
Guy Pratt, na introdução de "The Nile Song", tema nunca tocado pelos Pink Floyd

No passado presos à marca dos Pink Floyd, hoje Nick Mason e Guy Pratt foram livres e tocaram a música que conheciam e amavam fora das amarras dos líderes da banda, das telas gigantes e dos porcos a voar. O foco foi a música e exclusivamente o reportório que os Floyd fizeram antes do game-changer "The Dark Side Of The Moon", normalmente e infelizmente esquecido. Em suma, um sonho para qualquer fã dos Floyd. Ora atentem na insana setlist da noite:


A noite foi de glória total. Nick esteve imaculado e provou ser mil vezes o baterista que todos pensavam que ele era. Eu incluído. Impressionante a forma como o velhote varreu o dificílimo crescendo de "Set The Controls For The Heart Of The Sun". Um misto de felicidade e perpelexidade encheu a sala, como se de um sucesso de um velho amigo se tratasse.

Notava-se o nervoso miudinho no palco, mas salvo alguns excessos do teclista e algumas insuficiências nas guitarras (deuses há muitos, mas David Gilmour só há um), a banda esteve no ponto. Curiosamente, as grandes gafes da noite vieram dos membros com maior experiência de palco, com Guy Pratt a não acertar o baixo no crescendo de "A Saucerful Of Secrets" e Gary Kemp a esquecer-se de chegar ao microfone para cantar por diversas vezes, tal era a concentração no seu instrumento. A grande revelação foi Lee Harris, que se encarregou de levantar os pesos mais pesados de David e deu show no solo de "One Of These Days". Só tive pena que Nick não tivesse "cantado" ao vivo a sua famosa linha "one of these days I'm gonna cut you into little pieces".

Nick Mason era o Floyd que me faltava ver ao vivo e nunca pensei que tal se concretizasse nestes moldes. A minha vénia àquele que daqui para a frente terá que ser reconhecido como um fantástico baterista. Poucos dias depois de ter ver o Roger no Atlântico, é o culminar de uma semana maravilhosa para ser um fã dos Pink Floyd.

Saí do Half Moon de coração cheio e com o bónus de levar a setlist do palco na mão. Pensava que a noite não poderia ter corrido melhor. Até que olho para o lado e vejo o homem da noite, ele mesmo, Nick Mason. Depois de andar um dia atrás do Roger para um autógrafo sem sucesso, apanho o Nick assim, casualmente, à saída de um bar. E nisto lembrei-me do que dizia o John Lennon no seu tema "Beautiful Boy": a vida é o que acontece quando estamos ocupados a fazer outros planos. Nem mais.



quarta-feira, 23 de maio de 2018

Roger Waters em Lisboa — Um ataque bombástico aos sentidos

Bem-vindos à máquina — crónica da noite em que Roger nos submeteu à sua centrifugadora sensorial


Antes de falar no concerto de Roger Waters no Atlântico (eu sei, agora é Altice Arena, mas como não sei como se chamará daqui a um ano, fica Atlântico), deixem-me falar-vos primeiro do que significa para mim o Roger.

Vi o Roger pela primeira vez em 2002. Foi o meu primeiro grande concerto e a experiência marcou-me de tal forma que nunca mais quis outra coisa. Passei a minha vida em busca de voltar a agarrar aquele momento efémero de puro êxtase que só é possível obter num concerto, um bingo dos sentidos que nenhum outro evento na vida é capaz de dar. Voltei a apanhá-lo diversas vezes ao longo dos anos e foi no Atlântico que vi o maior espectáculo visual da minha vida, quando cumpri o sonho de ver ao vivo o show do The Wall em 2011.

Embora nunca tenha estado com o Roger pessoalmente, na minha mente a nossa relação é estreita. Foi ele quem me guiou durante a adolescência, trancado no bunker do meu quarto. Para além do meu Pai, nenhum homem me influenciou tanto e marcou tanto a minha vida como o Roger. É um herói, um ídolo. Amo-o. Amo-o com tanta força que o queria beijar na boca. E talvez por isso mesmo ainda bem que nunca tenhamos estado juntos.

Mas já chega de mim, vamos ao Roger. Como todas as mais interessantes personalidades da História da Humanidade (onde ele a seu tempo terá o seu espaço), o Roger é uma figura altamente polarizante. Basta escavar em qualquer caixa de comentários para percebermos que as opiniões se dividem em dois grandes campos: Roger é um génio e Roger é uma besta. E ambos poderão ter absoluta razão.

É compreensível a reacção aos seus anticorpos — a personalidade obnóxia, as opiniões vincadas sobre religião e o conflito entre Israel e Palestina, a forma como tratou o David Gilmour e fez implodir os Pink Floyd — não é fácil gostar de Roger Waters. Do outro lado está o seu incomensurável génio. É da cabeça dele que nascem os conceitos de álbuns maiores que a vida como "The Dark Side Of The Moon", "Animals" e "The Wall", obras de um génio louco e perturbado que não podem ser desligadas de uma personalidade irascível. Avé ao Deus David, cheio de graça, que sofreu pelos nossos pecados e aturou o Roger durante tanto tempo — o tempo suficiente para que pudéssemos desfrutar daquelas obras-primas que engrandecem as nossas vidas.

E é dessas obras que sai o núcleo duro da digressão que Roger trouxe a Lisboa. "Us + Them" (sendo "them" os "outros", todos aqueles que não têm a sua visão) serve de promoção ao seu (excelente) último álbum "Is This The Life We Really Want?", mas é dos clássicos que a maioria da audiência espera. E Roger já chegou a uma idade em que (finalmente) quer dar ao público o que o público quer. É um Roger diferente, este que veio a Lisboa. Mais calmo e meloso, com mais vontade de construir pontes em vez de as queimar. Claro que pelo meio destrói meia dúzia de figuras da política sem dó nem piedade (com Trump no olho do furacão), mas é assim o Roger que nós conhecemos e amamos.

Uma das derivas megalómanas de Roger é que foi ele quem inventou o espectáculo Rock. E se esta afirmação pode não ser totalmente consensual (deveria ser), já na questão de quem faz o maior, mais grandioso, mais meticulosamente calculado espectáculo Rock, aí não há espaço para dúvida — Roger é o mestre desta arte. E quem foi ao Atlântico pôde testemunhar isso na primeira pessoa.

Desde logo pela qualidade sónica do espectáculo. Se já assistiram a um concerto no Atlântico, sabem que a acústica da sala pende entre o mau e o aberrante, um problema de fundo que nunca foi resolvido desde a sua inauguração há vinte anos. Ninguém consegue pôr som em condições naquela sala. Ninguém, com uma única excepção: Roger Waters. Sempre. Entenda-se, os técnicos de som do Roger são tão experientes que conseguiriam pôr música em qualquer casa de banho do mundo. Para eles o Atlântico é só uma segunda-feira. O sistema quadrifónico do Roger enche o Atlântico com minúcia e mestria. Explosões, gritos e todo o tipo de efeitos sonoros atacam-nos por todos os lados, ao mesmo tempo que os instrumentos ouvem-se com claridade e separação. Uma maravilha para os sentidos.




Depois há a componente visual e se Roger é Messi no som, na imagem é Jonas e Cristiano Ronaldo e Eusébio e Pelé e Maradona e Poborsky, tudo ao mesmo tempo. Não há nada nem ninguém sequer minimamente comparável. O momento em que o cenário da Battersea Power Station baixa (não consigo fugir do meu local de trabalho) em "Dogs" vale por si só o preço do bilhete. Todos os que ali estiveram vão contar aos filhos e netos da magnificência daquele momento. O início do segundo set é, aliás, o ponto alto de todo o espectáculo, beneficiando do rico imaginário do álbum "Animals". Segue-se "Pigs (3 Different Ones)" e um porco insuflável gigante viaja pelo Atlântico com a mensagem "mantém-te humano", enquanto imagens de guerra são projectadas no cenário da Power Station. Mais uma maravilha para os sentidos.

Para quem ainda não tinha as pupilas cocainamente dilatadas, Roger dá uma última machadada nos sentidos desenhando o prisma da capa de "The Dark Side Of The Moon" sobre a plateia em "Eclipse". Se por esta altura não estão ainda em completo deslumbramento sensorial, então o melhor é irem ver isso a um cardiologista.


O espectáculo de Roger é uma centrifugadora sensorial. Ele trabalha cada um dos nossos sentidos e submete-os a uma lavagem tal que, no fim do programa, eles saem da máquina lavadinhos, prontos para enfrentarem o mundo cão e mau lá fora mais uma vez (como fazia na minha adolescência). Só quem foi ao Atlântico sabe, só quem foi é que viu, só quem foi sentiu. Entrámos no Atlântico com o peso dos nossos problemas, levámos uma tareia emocional lá dentro e saímos leves, limpos e a levitar.

O momento de maior beleza da noite é guardado para o encore. Sem os adereços dos temas dos Pink Floyd, Roger abre-nos o coração na lindíssima sequência "Wait For Her" / "Oceans Apart" / "Part Of Me Died" que fecha o seu último álbum. Revela-nos que está apaixonado, que finalmente encontrou o amor verdadeiro. E de repente aquela noite de explosões, prismas e porcos a voar ganha uma nova dimensão espiritual.

As comparações com David são inevitáveis. Apesar de tocarem a mesma música, os concertos de um e outro são experiências completamente diferentes. Do lado do David, a preocupação é quase exclusivamente pela música na sua vertente melódica, sendo a parte visual apenas um complemento. Um complemento muitíssimo bem executado, diga-se, como se pode atestar pelo magnífico "Live At Pompeii" do ano passado.

Do lado do Roger, a grande preocupação é mexer com as emoções da audiência. O espectáculo é um mastodonte audiovisual, sensorial e emocional sem paralelo, mas fica atrás do David na parte musical. Isto é particularmente perceptível em temas onde o solo de guitarra reina como "Comfortably Numb" e a falta de David se faz verdadeiramente sentir. E pensar que houve um dia que estas duas forças da natureza trabalhavam juntas.

Em suma, "Us + Them" visa fazer um ataque bombástico aos sentidos da audiência. O espectáculo é uma experiência tão emocionalmente pesada, que depois de três horas a chorar e a carpir mágoas imerso na musica e no espectáculo, saí do Atlântico exausto. Queria vê-lo dois dias seguidos, mas não fui capaz. Não me consegui submeter à mesma montanha russa emocional e passar por todo aquele ordálio mais uma vez.

P.S.: Montez, faz um favor à cultura portuguesa e contrata os técnicos de som do Roger Waters para resolverem a acústica do Atlântico. Eles fazem milagres.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Temam o pior — O filme dos Queen que tem tudo para correr mal

A minha bipolaridade antes e depois de ver o trailer de "Bohemian Rhapsody"

Antes de ver o trailer (texto escrito na noite de 14 de Maio):
Vem aí "Bohemian Rhapsody", o filme que promete trazer a história não contada de Freddie Mercury e da música dos Queen. Ora, sendo eu um fã irremediável dos Queen e sendo o Freddie — em quem se centra a história do filme — o meu herói de sempre, só posso estar a vibrar de excitação. Certo? Certo?! Errado.

Por mais que eu devesse estar entusiasmado com um filme sobre a vida do meu herói, não consigo deixar de pensar que vai ser um desastre de proporções épicas. O filme tem tudo para correr mal. Este é, aliás, um desastre anunciado desde há 8 anos. Lembro que foi em 2010 que se deu o início da produção do filme e foi feito o casting de Sacha Baron Cohen. Sacha que, 6 anos depois, se fartou dos Queen e mandou o projecto mais ambicioso da sua vida às malvas. Claro que quando digo "fartou-se dos Queen", quero realmente dizer "fartou-se de Brian May", o verdadeiro (único?) timoneiro do porta-aviões da banda britânica neste momento (o Roger quer é copos, caça e bater em tambores). Adoro o Brian, mas ele é um control freak e os anos infinitos de produção falhada do filme evidenciaram que ele estava a tentar polir ao máximo a imagem do Freddie. O afastamento do Sacha foi provocado por essa mesma diferença criativa .

É isto que me deixa com suores frios. Todos os sinais apontam para uma total higienização de Freddie Mercury em "Bohemian Rhapsody". E o que me chateia mais nem é a possível distorção dos factos da sua vida (que até pode ser compreensível, em função de um enredo mais cinemático), mas sim a higienização da sua personalidade. Temo que o filme pinte Freddie como um herói impoluto que não foi de maneira nenhuma. Temo que a preocupação em preservar a imagem lhe apague todas as nuances, todas as linhas turvas que eram precisamente as que lhe conferiam maior beleza e de onde nasceram as suas melhores obras. Obras como o tema-título do filme, "Bohemian Rhapsody".

Não tenho medo de ver os defeitos nos meus heróis. Pelo contrário. É nos defeitos que eles mostram humanismo. Vejo beleza na sua complexidade e até na sua falência. Sacha Baron Cohen parecia o perfect fit para o personagem — denso, misterioso e personalidade forte. Rami Malek de Mr. Robot? Não tenho tanta certeza. Pelo menos aceitou à partida as condições impostas pela banda. Mas quem sou eu para o criticar? Eu também aceitaria tudo o que me pusessem à frente, só pela oportunidade de ser o Freddie.

A preocupação de Brian May tem algum fundamento. Nesta era em que o politicamente correcto esmaga todas as formas de expressão livre em favor de versões lixiviadas da realidade, é um desafio fazer um filme sobre os insanos anos 70 e loucos 80s que tenha apelo universal. Mas tanto polimento vai inevitavelmente fazer sofrer o produto final. Um filme sobre Freddie Mercury que não é para maiores de 18 anos? Please.

Compreendo que a banda queira centrar o enredo na música, mas para se contar a verdadeira história de Freddie Mercury, é preciso sujar as mãos. E muito. Se queriam um filme fiel à realidade, talvez o melhor realizador para o projecto fosse o infame Gaspar Noé, que acabou de ir a Cannes com mais uma sangria de sexo, música e alienação. E olha, não foi precisamente assim a vida do Freddie?!



O enredo de "Bohemian Rhapsody" não é difícil de adivinhar e pelo que Brian May deixou escapar no Instagram, até já foi ensaiado no documentário "Days of Our Lives". Querem uma aposta? Lembrem-se que leram aqui primeiro:

A história começa com quatro rapazes que se conhecem no Imperial College em Londres e que rapidamente ganham notoriedade às costas do seu extravagante frontman. A banda faz três álbuns sempre em crescendo de popularidade, mas vê-se na bancarrota, apesar do sucesso. É aqui revelado o primeiro vilão da história, o manager dos Queen, que a banda descobre, lhes anda a sugar o dinheiro.
Os Queen são salvos por John Reid, manager de Elton John que, reza a lenda, diz aos Queen para não se preocuparem com mais nada sem ser fazer o melhor álbum de sempre. A banda vai para estúdio gravar "Bohemian Rhapsody", tema que é inicialmente rejeitado pelas rádios, mas mais tarde descoberto por Kenny Everett — DJ da BBC que fica obcecado com a opereta de Freddie — e passa o tema 14 vezes num só dia. Os Queen levantam voo e planam alto sobre os anos 70, chegando ao topo do mundo em 1980, com o sucesso retumbante de "Another One Bites The Dust" nos EUA.
É aqui que entra o segundo vilão da história: Paul Prenter. Freddie nomeia Prenter como o seu assistente pessoal e este dá-lhe a conhecer a louca vida gay de Nova Iorque no início dos anos 80 (vida essa que culminou na doença que o matou). Prenter, que achava que Freddie era maior que os Queen, convence-o que a banda deviam soar como a música que eles ouviam nas discotecas que frequentavam. Isto cria uma clivagem nos Queen, com Brian e Roger de um lado a quererem seguir a sua herança Rock 'n' Roll, Freddie e Prenter do outro a quererem adoptar uma linguagem mais gay e John, fã dos Chic e do movimento Disco, no meio a tentar equilibrar as coisas.
Deste choque resulta o álbum "Hot Space" e a inevitável implosão da banda, que infelizmente nunca chega a um equilíbrio em estúdio. A clivagem é notória e o álbum sofre com a sonoridade de duas bandas diferentes, cada uma a tocar para seu lado. O equilíbrio chegaria mais tarde em palco, quando os rapazes são obrigados a tocar em conjunto e ser uma banda novamente. Os Queen fazem finalmente das canções de "Hot Space", canções dos Queen e embarcam numa das melhores digressões da sua História, que acaba num triunfante concerto em Milton Keynes (mais tarde lançado em DVD como "On Fire At The Bowl"). Esta comunhão não é suficiente para manter os Queen vivos e a banda acaba por se separar, embora tal nunca seja oficialmente admitido.
Freddie vai a solo e recebe mais dinheiro sozinho para "Mr Bad Guy" do que os Queen receberam para "Hot Space", irritando ainda mais a banda. O disco adopta uma sonoridade full on gay club e, como se pode adivinhar pelo facto de ninguém se lembrar dele nos dias de hoje, é um espectacular falhanço. A banda reforma-se para "The Works", um álbum muito mais sóbrio que é bem recebido pelo público.
Mas como um mal nunca vem só e não há duas sem três, o terceiro naufrágio dos Queen acontece quando a banda tem a infeliz ideia de fazer uma residência em Sun City, terra do Apartheid, no Outono de 1984. A crescente consciencialização social dos anos 80 não perdoa os Queen pela ofensa e a banda cai em desgraça. E é aqui que, caído do céu, surge o Live Aid. Os Queen vêem no evento uma oportunidade de redenção e contra todas as expectativas e uma doença de Freddie cuja gravidade ainda não era bem entendida, fazem a melhor actuação da história da humanidade. O filme termina com Freddie e os Queen em glória.



E aí têm, a história dos Queen e o mais-que-provável plot do filme em apenas sete parágrafos. Já foi contada em "Days Of Our Lives" e não vejo a necessidade de voltar a fazê-lo neste filme. Os Queen estão a andar sobre gelo muito fino e qualquer passo em falso será fatal. Posso estar redondamente enganado acerca de "Bohemian Rhapsody", mas os sinais não são nada animadores. Atentem só no cartaz do filme:


O mau gosto deste cartaz é de uma atrocidade indizível. Começando pela cor azeiteira, passando pelo reflexo do grafismo dos Queen nos óculos e terminando no lema do filme, que inexplicavelmente não é uma linha escrita por Freddie Mercury. E tanto que havia por onde escolher. "Anyway the wind blows" teria sido perfeito, ainda mais sendo do tema-título do filme.

Obviamente que vou ver "Bohemian Rhapsody", mas levo poucas ou nenhumas expectativas. O último pedido de Freddie a Jim Beach (manager dos Queen desde 1978) foi "façam o que quiserem com a minha música, mas por favor nunca me tornem aborrecido." Espero que Brian May se tenha lembrado disso a fazer este filme.

Depois de ver o trailer (texto escrito na noite de 15 de Maio):


Vem aí "Bohemian Rhapsody", o filme que vai contar a história dos Queen, a minha banda preferida e de Freddie Mercury, o meu herói de sempre! WE WILL, WE WILL ROCK YOU! (bate três vezes na mesa) WE WILL, WE WILL ROCK YOU! (bate mais três vezes na mesa). Nunca mais chega Novembro.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Apetite por dinheiro - Quando as edições de luxo caem no ridículo

Os Guns N' Roses passaram de Apetite por Destruição para apetite por dinheiro na reedição de "Appetite For Destruction"

Vem aí a reedição de "Appetite For Destruction", o primeiro álbum dos Guns N' Roses e muito mais que o melhor álbum da banda de Hollywood, um fortíssimo candidato para melhor álbum Rock de sempre. "Ei, lá está este gajo com os exageros do costume", já vos estou a ouvir. Nada disso, meus amigos. Todos os superlativos são parcos para traçar "Apetite For Destruction" como a besta destrutiva sem paralelo que é. Aqui não há Hakuna Matata para ninguém. Isto é o manual de sobrevivência para a selva urbana. Appetite entra a matar com "Welcome To the Jungle" e fixa à cabeça uma bitola altíssima de onde não mais sai. E daí advém o único senão do disco: é que é, de facto, um álbum cansativo.

Desde que se ouvem os primeiros acordes em eco de Slash e rebenta o grito maníaco de Axl, que "Appetite For Destruction" nos agarra pelo pescoço e nos sujeita a uma tareia emocional de tal ordem, que quando chegamos ao fim de "Paradise City", já estamos fisicamente de rastos. O problema é que ao contrário dos concertos dos Guns, aqui ainda só vamos a meio do álbum! Hora, pois, de levantar a agulha, mudar o disco de lado e levar com mais uma torrente visceral de riffs sujos, solos maiores que a vida e gemidos de orgasmos (sim, é "isso" mesmo que ouvem em "Rocket Queen"). O resto do álbum é passado num estado de transe, como um cavalo que continua a levar pauladas quando já morto no chão.

Quando os oceanos secarem, o céu ficar vermelho e o apocalipse das máquinas se bater sobre nós (como bem ilustrado na capa original censurada em 1987 e obviamente censurada neste mundo de coninhas de 2018), algures num gira-discos ainda tocará "Appetite For Destruction" e aí sim, será dado o cenário perfeito para se ouvir o melhor e mais mau álbum Rock de sempre.



Mas voltemos à Terra.

Somado a tudo o que exponho em cima, está o facto de "Appetite For Destruction" ser, a nível pessoal, um dos álbuns da minha vida. Um disco que nos meus dezoito anos revolucionou a maneira como me vestia, como me expressava e como me relacionava com o mundo. O sol brilha quando ouço Appetite. Até em Londres. Por isso imaginam o entusiasmo com que fui tomado quando ouvi o anúncio da reedição deste álbum. E a desilusão que se seguiu. Pior que desilusão, um sentimento de traição, a roçar a ofensa. Os Guns passaram de apetite por destruição para apetite por dinheiro.

Atenção. Notem que este não é um artigo a acusar os Guns de quererem ganhar dinheiro — quem faz uma obra-prima daquelas, tem direito a todo o dinheiro do banco. Muito menos é um artigo sobre como as edições de luxo são a nova forma de extorsão das editoras — eu ADORO ser extorquido com edições de luxo dos meus álbuns preferidos e estou sempre preparado para largar grandes quantias pela música que eu amo. E nem sequer é um artigo de revolta pelo preço da edição "Locked N' Loaded" , uma caixa surreal que custa a módica quantia de 1000 euros — o colecionador obsessivo que há em mim (e que vence invariavelmente o bom-senso) quer sempre a opção mais alta e em condições normais, eu iria acabar por vergar à caixa de luxo. Mas não me posso sentir estúpido. Se querem o meu dinheiro, têm que me dar conteúdo. É só disso que se trata.


https://www.youtube.com/watch?v=CpVrCQv3m7c

Como alguém que compra praticamente todas as edições de luxo das suas bandas preferidas — e acreditem, são muitas — por mais extravagantes e caras que sejam e que tem uma casa que parece um museu da secção de boxed sets da Fnac (se a loja já existisse nos anos 70), acho que tenho alguma autoridade na matéria.
Mais que isso, para alguém que sabe um pouco do que foi a história fascinante e improvável (quase do campo da fantasia) daquela que era à data a banda mais perigosa do mundo, não posso deixar de me senti traído pela minha banda preferida dos meus anos de faculdade.

"If you got the money, honey, we got your disease"

A magia que acontecia quando aqueles 5 ex-delinquentes (agora milionários) começavam a gravar é inapelável. Aconteceu naquele tempo (1985-1987), naquele lugar (Hollywood), naquele clima (a ferver) e com os AppetiteFive (Axl, Slash, Izzy, Duff, Steven). Tudo o que eles fizeram é documento histórico e deve ser tratado como tal. Não me importo (mesmo) de inchar com os 1000 euros, mas para isso têm que me dar tudo na caixa. TUDO. Mas já lá vamos.

Para começar, é absolutamente ofensivo deixar de fora da caixa a gravação original de "Don't Cry", uma das melhores de sempre dos Guns, que só ficou de fora de "Appetite For Destruction" porque — e estou a citar o Axl — já havia uma balada no álbum ("Sweet Child O' Mine"). A decisão, se tinha que ser feita entre os dois, foi a correcta. Mas que explicação é há para ficar de fora outra vez? Guardar para a caixa dos "Use Your Illusion"? Não faz sentido. 1985 é 1985 e 1991 é 1991. Anos diferentes, gravações diferentes. As versões dos Illusions são boas, mas o cheiro a látex já lá não está. Ouçam a gravação original dos Mystic Studios em 1985 (em baixo) e digam-me se não sentem o cheiro a sexo, suor e látex a sair pelas colunas.


https://www.youtube.com/watch?v=JPS2NQyz7Js

Depois há a (tão aplaudida) decisão de deixar de fora "One In A Million", ao mesmo tempo que inclui os restantes temas de "G N' R Lies". O tema é ofensivo, sim. É de mau gosto, é. Mas porra, e depois? Se existe, se foi escrito nos anos de Appetite na casa de West Arkeen, gravado nesta altura e representa um determinado tempo, então porquê ficar de fora da caixa? Está tudo tranquilo com o facto de começarmos a apagar a história?

Mas o pior é a quantidade de lixo que está presente na caixa e que só serve para encarecer o preço. Caveiras? Bandanas? Posters? Mas isto é uma caixa para miúdos de 16 anos ou para miúdos que tiveram 16 anos há 30? E quem é que com 16 anos tem mesadas de 1000 euros?

O potencial para esta caixa era enorme. A ainda existirem, não há qualquer razão para as sessões de gravação dos AppetiteFive não aparecerem aqui na sua totalidade. E já nem estou a contar com os home demos de West Arkeen (por exemplo) que existem, andam por aí em circulação, mas não têm aquela magia dos AppetiteFive. Sem contar com documentos ao vivo (completamente ausentes da caixa, salvo uns B-Sides), era assim que devia ser a edição "Locked N' Loaded":

CD 1 + LP 1-2 (45rpm): Appetite For Destruction
1. Welcome To The Jungle
2. It's So Easy
3. Nightrain
4. Out Ta Get Me
5. Mr. Brownstone
6. Paradise City
7. My Michelle
8. Think About You
9. Sweet Child O' Mine
10. You're Crazy
11. Anything Goes
12. Rocket Queen

CD 2 + LP 3-4: B-Sides N’ EPs
Live ?!*@ Like a Suicide
1. Reckless Life
2. Nice Boys
3. Move To The City
4. Mama Kin
Live From The Jungle
5. Shadow Of Your Love (Live)
6. It’s So Easy (Live at The Marquee 28 June 1987)
7. Knockin’ On Heaven’s Door (Live at The Marquee 28 June 1987)
8. Whole Lotta Rosie (Live at The Marquee 28 June 1987)
Sweet Child O' Mine 7"
9. Sweet Child O' Mine (Edit/Remix)
Welcome To The Jungle 12"
10. You’re Crazy (Acoustic Version)
G N' R Lies
11. Patience
12. Used To Love Her
13. You’re Crazy
14. One In A Million
Patience 12"
15. Interview With W. Axl Rose

CD 3 + LP 5-6: Appetite Sessions Part 1
Mystic Studios (August 1985)
1. Welcome to the Jungle (5:00)
2. Anything Goes (5:11)
3. Don’t Cry (4:42)
4. Back Off Bitch (4:57)
5. Heartbreak Hotel
Sound City (June 2-4, 1986) Part 1
6. Nightrain (4:54)
7. Rocket Queen take 1 (6:13)
8. Out Ta Get Me (4:02)
9. Think About You (3:54)
10. My Michelle (4:23)
11. You’re Crazy (3:24)
12. Paradise City (5:40)
13. Move to the City take 1 (3:15)
14. Jumpin’ Jack Flash (3:26)
15. Shadow of Your Love (2:43)
16. November Rain piano (9:44)
(77 min)

CD 4 + LP 7-8: Appetite Sessions Part 2
Sound City (June 2-4, 1986) Part 2
1. Welcome to the Jungle (4:59)
2. Don’t Cry (5:19)
3. Nice Boys (2:59)
4. Back Off Bitch (4:41)
5. Anything Goes (4:33)
6. Rocket Queen take 2 (6:07)
7. Reckless Life (2:47)
8. Move to the City take 2
9. Mama Kin (3:29)
10. Heartbreak Hotel (4:41)
11. November Rain acoustic (4:54)
12. Ain’t Goin’ Down No More (instrumental) (3:33)
13. Jumpin’ Jack Flash acoustic (3:53)
14. Move to the City acoustic (3:48)
15. Untitled song in progress
16. You’re Crazy acoustic
17. The Plague
18. Cornshucker Stomp
19. New Work Tune
(78 min)

CD 5 + LP 9: Appetite Sessions Part 3
Pasha Studios (August 1986)
1. Sweet Child O’ Mine (6:29)
2. Nightrain (5:14)
3. Jumpin’ Jack Flash (3:31)
4. You’re Crazy (3:35)
5. Reckless Life (3:11)
6. Heartbreak Hotel (4:15)
7. Shadow of Your Love (2:59)
8. Welcome to the Jungle (4:59)
9. Don't Cry (5:25)
10. Mr. Brownstone (4:13)
11. Move to the City [clean Live Like a Suicide] (3:27)
12. Mama Kin [clean Live Like a Suicide] (3:41)
13. Nice Boys [clean Live Like a Suicide] (?:??)

CD 6 + LP 10-11: Appetite Sessions Part 4
Rumbo Studios, Take One Studio & Can Am Studio (Fall 1986 | Producer: Mike Clink)
1. Welcome to the Jungle
2. It’s So Easy
3. Nightrain
4. Out Ta Get Me
5. Mr. Brownstone
6. Paradise City
7. My Michelle
8. Think About You
9. Sweet Child O’ Mine
10. You’re Crazy
11. Anything Goes
12. Rocket Queen
Rumbo Studios (1988)
13. Patience (5:56)
14. One in a Million (6:32)
15. You’re Crazy (4:26)
16. Used To Love Her (1:30)
17. Cornshucker (4:20)

Mas calma, que não é tudo. Se a caixa dos Queen com a discografia completa em 15 LPs me custou 400 euros e a caixa "The Early Years" dos Pink Floyd com 27 discos foi 450€, com 11 LPs e 6 CDs ainda estamos muito longe da relação ideal "value for money". Uma vez que as faixas exclusivas aos singles já estão nos discos "B-Sides N' EPs", os 12" que aparecem na caixa tornam-se também redundantes, pelo que não precisamos deles. Falta-nos, obviamente, material ao vivo. Para justificar o preço, tem que ser muito e em boa qualidade. No mínimo, deveríamos ter :

  • CD e LP com concerto completo do Marquee em 1987 (parcialmente lançado em lados B e no EP japonês conhecido como Live In The Jungle);
  • Blu-Ray e LP com concerto completo do Ritz em 1988;
  • Blu-Ray com documentário com entrevistas novas com os AppetiteFive, a Adriana dos gemidos de "Rocket Queen", David Geffen, etc;
  • Blu-Ray com as melhores versões possíveis dos históricos concertos do Roxy, Troubador e Music Machine;
  • Blu-Ray com remistura em surround e álbum em HD (este está na caixa!!!). 

E aí sim, levavam-me os 1000 euros. Desta forma, desculpem lá, mas não vai dar. Simplesmente não consigo justificar a mim mesmo gastar tanto dinheiro por tão pouco. Claro que nem tudo é mau nesta edição. Temos as sessões de "Sound City", ainda que incompletas, e daí já ouvimos o fortíssimo "Shadow Of Your Love", onde podemos imediatamente sentir a importância de Steven Adler na sonoridade da banda — um baterista que dança a tocar. Mas é insuficiente. Por muito que eu ame o "Appetite For Destruction", vou ter que boicotar esta reedição. Tem que ser dado algum tipo de sinal às editoras para que, se nos quiserem extorquir, tenham que incutir valor no seu produto.


https://www.youtube.com/watch?v=aHUmy5PvPjQ

Quem é que estou a enganar? Às tantas não vou de férias este ano. Ou então vendo um rim.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Todas as cores de um Beige Boy — Noel Gallagher ao vivo em Wembley

Noel Gallagher apresentou o seu último álbum em Londres com um concerto colorido e arrojado.

Indiferente ao epíteto de "Beige Boy" que o irmão mais novo lhe colocou, ou talvez até a desafiar essa noção que se tornou um homem insípido com a idade, o sucesso e o status, Noel Gallagher regressou a Wembley munido de um dos light-shows mais impressionantes a que já assisti — a rivalizar com os mestres David Gilmour e Roger Waters — e deu um concerto pleno de cor e personalidade. Já sabia que ia ser bom (é o Noel!), mas não sabia que ia ser TÃO bom. Uma agradável surpresa.

É de facto preciso coragem para descartar o espólio de uma vida de canções (que estão a ser devidamente capitalizadas pelo irmão), em detrimento de um álbum novo muitos furos abaixo da bitola a que o Noel nos habituou. Por esta altura, mesmo imbuído na sua soberba, até o próprio Noel já se terá percebido que este não é o seu melhor trabalho, mas nem por isso deixou de tocar o álbum quase na íntegra (deixando de fora o melhor tema — "The Man Who Built The Moon"). Para o Noel, é este o álbum que temos, é este o álbum que vai e ponto final. Respect por isso.

O preço a pagar é ver os seus espectáculos — outrora instantaneamente esgotados — com dificuldades para encher salas de 10 mil pessoas, enquanto o irmão vende 40 mil bilhetes em minutos para o Finsbury Park. No Wembley Arena porém, não parecia caber mais ninguém. Por entre uns idiotas com t-shirts do Liam — e eu que me dei ao trabalho de ir a casa trocar a parka que tinha vestida por um bomber jacket igual ao do Noel! — havia uma plateia ávida pela música do Noel. Os fiéis.

Depois de uma hora de álbum novo, o Noel lá resolveu dar uns bombons à audiência. O primeiro tema dos Oasis surgiu já na segunda metade do set, mas logo do álbum mais pobre da banda — "Heathen Chemistry". Noel manteve-se sempre em gincana pelo material mais conhecido do grande público e mais à frente tivemos canções de "Don't Believe The Truth" e do meu preferido (mas tão odiado) "Standing On The Shoulder Of Giants". De "Definitely Maybe", só houve um B-side e de "(What's The Story) Morning Glory?", só os obrigatórios "Wonderwall" e "Don't Look Back In Anger".

Mas se era para sermos radicais, eu também me livrava destas duas maçadas e substituía por temas escritos no período criativo dourado de 1998 e 1999 que serviu para alimentar os Oasis e o Noel durante 10 anos. Vamos embora Noel, "Solve My Mystery" e "Idler's Dream", em vez de "Wonderwall" e "Don't Look Back In Anger".

O entusiasmo retraído era tal, que a audiência cantou até as partes de piano de "Wonderwall", num dos momentos de maior euforia colectiva da noite. Para além destes, os mais óbvios, as grandes reacções da noite saldaram-se por insanos mosh pits em "Ballad Of The Mighty I" (grande tema, mas wtf?!) e "Go Let It Out" (perfeitamente justificado, foi o ponto alto do concerto e também eu lá mergulhei) e por singalongs em "If I Had A Gun" (aquele primeiro álbum a solo é uma delicia do princípio ao fim) e "Dead In The Water", que foi aliás o único tema novo a ter uma recepção semelhante aos clássicos.

O que me leva também à conclusão óbvia que, se dúvidas ainda houvesse, as canções do álbum novo não foram adoptadas pelo público. Nem mesmo pelo público do Noel, que é lesto a devorar e a decorar as suas letras. Esta já é a quarta vez que vejo o Noel a solo em Londres e é a primeira que vejo uma audiência a morrer. Mesmo em temas novos, o público do Noel nunca desarma. Basta observar a reacção eufórica que teve "In The Heat Of The Moment" — single do álbum anterior — para perceber que nem só de Oasis vivem os fãs do Noel.

O forte do Noel sempre foram os refrões contagiantes — simples e virais, impossíveis de tirar da cabeça. Ninguém nos últimos 25 anos escreveu tantos e tão orelhudos refrões como ele. Neste capítulo, Noel faz jus à sua alcunha, é ele o Chefe. Se agora decide anular o seu forte e começar a focar apenas nos grooves, deixa de ser o melhor e passa a ser apenas bom. E conhecendo-o como o conheço, o Noel não é menino para se contentar com isso. Muito menos quando vê o irmão passear o seu sucesso (com as canções dele) à sua frente. Esperemos pois pelo álbum de redenção, pleno de refrões contagiantes, e pela digressão de consagração, que deverão estar já aí ao virar da esquina. Para já, se quiserem ver um Noel diferente de tudo o que nos mostrou até hoje (eventualmente até demais), é aproveitar e apanhar a digressão de "Who Built The World?" enquanto é tempo.








quarta-feira, 25 de abril de 2018

shame ao vivo no Electric Ballroom — Sangue, suor e decibéis

A cura para a depressão da banda de Brixton é uma barragem de suor e decibéis

À hora que escrevo isto, os meus ouvidos ainda tilintam com a barragem de decibéis a que fui sujeito na última noite. São 6 da manhã e no comboio matutino, só eu e os zombies do costume a caminho de mais um dia de trabalho. A diferença é que hoje não me sinto um dos zombies; ainda estou ligado à corrente, na ressaca de um dos concertos mais viscerais a que assisti nos últimos anos. Sinto-me vivo. Dói-me o corpo todo, não sei se do mosh pit, se das poucas horas de sono. Mas como é que alguém pode dormir depois de uma injecção de adrenalina daquelas?

Os shame (assim, com minúscula) ao vivo no Electric Ballroom, em Camden. O concerto de uma das bandas punk mais entusiasmantes dos últimos anos foi o primeiro com a cobertura NiT em Londres. How about that?

Sangue, suor e decibéis. Há muito tempo que num concerto não sentia o perigo que tudo podia acontecer. E se os decibéis foram muitos — tantos, que ainda ouço um infinito "piiiiiiii" enquanto vos escrevo —, ainda mais foi o suor. A sério. Londres, amo-te, mas por favor, vai tomar banho, que isto não se aguenta quando começa a fazer calor. Tenho dificuldades em descrever o fedor da torrente de transpiração que inundava o Electric Ballroom. Os U2 podem prometer uma experiência de realidade aumentada, mas acreditem, nada vos desperta tanto os sentidos como uma barragem de transpiração. Fica a ideia para o Bono.

O que é mais curioso é que terá sido exactamente este pivete esmagador que me fez sentir mais vivo. De uma forma perversa, foi isso que distinguiu esta noite como uma experiência visceral e libertadora. Como se de sexo selvagem se tratasse. Senti-me mais perto da verdade, num nirvana sensorial de Rock 'n' Roll. Se é que isto vos faz algum sentido.

No Electric Ballroom sentia-se a electricidade de um momento especial. Em palco, a banda exultava em como esta era um grande noite, "apesar" de estarem em North London, dando conta da rivalidade bairrista em Brixton. No mosh pit (onde temo que fosse um dos mais velhos), fervia uma revolta contra coisa nenhuma que fazia levantar aquela tromba de transpiração. Na tenda de merchandise, a crew dos shame — composta por amigos da banda — comentava que este era o maior concerto de sempre do grupo. Um longo caminho tinha sido percorrido desde os bares em Brixton.

A noite terminou com gritos gameofthronianos de "shame! shame! shame!" e quem esteve no Electric Ballroom naquela noite levou para casa uma cura para a depressão. Eu ainda trouxe comigo o vinil cor-de-rosa de "Songs of Praise" — o álbum de estreia dos shame e um dos discos do ano.

"I'd rather be fucked than sad and that's a start", dizem os shame no seu maior hit "One Rizla" (sendo que isto hoje é medido em scrobbles no Spotify), numa frase que pode resumir muito sumariamente o propósito da banda de Brixton. Revolta. Num mundo onde a depressão parece assolar meio mundo e onde os sinais de alarme só agora começam a ser ouvidos pela sociedade, até faz sentido gritar que é melhor ser fodido do que estar triste. Lá fora é uma merda e sim, nada de bom nos espera. Mas melhor isso que não fazer nada. Pode ser uma revolta contra coisa nenhuma, mas não deixa de ser um abanão contra a letargia do quotidiano.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Os melhores casamentos entre anúncios e canções pop

Como filho dos anos 80, passei metade da minha infância a olhar para a televisão e metade dessa metade a ver a publicidade dos intervalos

Há anúncios e anúncios. A maioria ladra e nós passamos sem prestar atenção, tão habituamos já estamos em ser bombardeados com publicidade em todo o lado e a tempo inteiro. No meio da torrente, aparece sempre um ou outro que nos agarra, às vezes pela imagem, às vezes pelo som. Quando as duas dimensões sucedem, acontece arte; e como todas as obras de arte, também os anúncios se tornam imortais. 

A lista de hoje compila algumas das obras de arte do marketing das últimas décadas, as quais conseguiram a proeza de acertar numa canção pop que ao mesmo tempo cola no ouvido e casa na perfeição com o conceito do anúncio. São a prova que a escolha da banda sonora pode ditar o sucesso de uma campanha publicitária.

Note-se que não qualificam para esta lista canções escritas especificamente para os anúncios. Não esperem por isso ver aqui o spot do "diga bom dia com Mokambo", o "papa-a-papa" da Cerelac, nem "um Bongo, o bom sabor da selva". Considerem-se avisados.


10. Elvis Presley vs JXL  "A Little Less Conversation" — Nike (2002)



A Nike tem uma longa história de forte investimento em publicidade e nos anos 90 não havia quem lhes fizesse sombra no campo do marketing televisivo. Quem não se lembra de anúncios épicos como o jogo do bem contra o mal, que Cantona resolveu depois de levantar a gola e dizer "au revoir"? Ou das tropelias da selecção brasileira no aeroporto, quando o Ronaldo-fenómeno dominava o mundo? Em 2002, por vésperas do Mundial na Coreia e no Japão, surgiu outro anúncio para a História: o torneio da jaula no navio. Desta vez a Nike apostou na escolha de um tema high-profile para acompanhar o anúncio, utilizando uma remistura recente de "A Little Less Conversation". O tema não só assentou que nem uma luva na acção do spot publicitário, como deu ainda uma nova vida a Elvis Presley, introduzindo-o a uma nova geração de ouvintes. O sucesso seria capitalizado com o lançamento da compilação "Elv1s: 30 No. 1 Hits" em Setembro desse ano, a qual chegaria ao primeiro lugar das tabelas um pouco por todo o mundo.


9. Jet  "Are You Gonna Be My Girl" — Apple iPod (2003)



O spot multi-cromático do Apple iPod de 2003 é certamente um dos anúncios visualmente mais singulares dos últimos 20 anos. Prova disso são as inúmeras paródias a que foi sujeito desde então, sendo a minha preferida a de Conan O'Brien em 2016, aquando do lançamento dos wireless pods. O anúncio deu a conhecer ao mundo os Jet, utilizando o seu enérgico primeiro single "Are You Gonna Be My Girl" e catapultando a banda para um sucesso astronómico que eles não foram capazes de suster. Naturalmente, diga-se. A banda não tinha canções para isso e também não voltaram a ter a ajuda de uma grande marca.


8. David Bowie  "Absolute Beginners" — Meo Fibra (2016)

Chegámos então às operadoras de telecomunicações, talvez os maiores investidores em publicidade das décadas mais recentes. Os Gato Fedorento protagonizaram os anúncios da marca desde a sua criação em 2007 (quando substituiu a TMN), primeiro em ensemble e depois apenas com o Ricardo Araújo Pereira — o elemento que de facto vendia o produto — como cara da marca. A Meo nunca quis ficar a perder, e em 2015 o RAP foi trocado pelo Cristiano Ronaldo e em 2016, saiu o Ronaldo para entrar David Bowie. Não o David em pessoa, que morrera no início do ano mas o seu "Absolute Beginners", escolha que capitalizou o renovado interesse popular em Bowie na ressaca da sua morte. Embora eu seja um fã de sempre, passei a odiar "Absolute Beginners" quando fui obrigado a ouvi-lo durante 5 horas seguidas numa linha de espera do maravilhoso serviço ao cliente da Meo.


7. Lenny Kravitz  "Are You Gonna Go My Way" — L' Oreal Studio Line (1998)



Um dos melhores riffs da História do Rock promove gloriosamente qualquer produto. Mesmo que o spot publicitário do produto não utilize exactamente esse riff para não pagar direitos de autor. Confusos? Foi o que a L'Óreal fez ao Lenny Kravitz. A marca não obteve licença para utilizar a versão original de "Are You Gonna Go My Way" e não contente com isso, certamente obstinada em utilizar o riff monstro, em vez de optarem por outra canção, fizeram uma imitação barata que, por muito estranho que possa parecer (e que mostra que a nossa mente trabalha de forma sui generis) é imediatamente reconhecível e associável a "Are You Gonna Go My Way". Em vez de pagar os devidos direitos ao Lenny, a L'Óreal gastou o dinheiro todo na Kate Moss a dizer "porque eu mereço".
O caso de Lenny Kravitz não é original, mas é impressionante porque mostra que o riff que escreveu para "Are You Gonna Go My Way?" é uma marca em si mesma e uma marca tão forte que a L'Óreal não precisou de o usar para vender o produto, ou sequer para passar a ideia que o queria utilizar. O anúncio vai ao limite de emular até o videoclipe da música, plano por plano.
No ano passado, a Volkswagen lá abriu os cordões à bolsa e resolveu pagar ao Lenny para poder usar a música como deve ser no adorável anúncio ao Golf:



6. The Dandy Wahrols  "Bohemian Like You"— Vodafone (2001)



Mais uma operadora. A colaboração entre a Vodafone e The Dandy Warhols é o exemplo acabado de uma simbiose perfeita. A banda saltou do desconhecimento para os ouvidos de todo o mundo (lembro que o anúncio não foi apenas transmitido em Portugal) e a marca teve o seu melhor anúncio de sempre, especialmente importante por marcar a transição entre o fim da Telecel e a chegada da Vodafone, ganhando também uma imagem revigorada junto da franja mais jovem, devido à associação a uma banda indie.


5. Queen  "Innuendo" — Ballantine's (1999)



"You can be anything you want to be". Quando o melhor que um whiskey tem é o seu anúncio televisivo, está tudo dito sobre a bebida. Ou quase. O Ballantine's pode não ser o melhor whiskey do mercado (e estou a ser imensamente eufemístico), mas saber reconhecer as suas próprias debilidades é um atributo valiosíssimo e por isso há que tirar o chapéu à marca pelo investimento num anúncio que tornou o seu produto tão ou mais conhecido que a maioria dos seus concorrentes e que elevou uma bebida sofrível a uma marca instantaneamente associada a selos de qualidade indiscutível como a voz de Freddie Mercury e a guitarra de Steve Howe. A isto chama-se marketing genial.


4. Ella Fitzgerald & Louis Armstrong – "Cheek to Cheek"  Adágio (2002)


As pessoas que comem iogurte em anúncios têm sempre muito mais prazer do que é socialmente aceitável numa situação daquelas. Nunca consegui perceber onde vão buscar aquele entusiasmo, mas a associação ao tema "Cheek To Cheek" de Ella Fitzgerald sucede precisamente em ilustrar a extensão na hipérbole da sensualidade de um iogurte. "Heaven, I'm in heaven!". Malta, é só iogurte.


3. Queen  "Don't Stop Me Now" — NOS (2014)



O uso copioso de "Don't Stop Me Now" em publicidade um por todo o mundo deu vida nova à canção, transformando um minor hit de um álbum esquecido dos Queen ("Jazz") naquele que será provavelmente o tema mais conhecido dos Queen na geração mais nova, superando monstros como "Bohemian Rhapsody", "We Will Rock You", ou "We Are The Champions" (e obviamente o já referido "Innuendo").
Em Portugal, tivemos o impossível-de-escapar anúncio da NOS em 2014. O conceito do anúncio é engraçado. Uma miúda está sozinha em casa numa noite de verão a cantarolar o "Don't Stop Me Now" com voz de quem está a praticar o coito, forma como toda a gente canta quando está sozinha em casa. Entretanto, liga o tablet à internet. Mas atenção, que não é uma internet qualquer, é o superior serviço de internet da NOS. Que é tão bom que projecta a miúda para uma realidade aumentada que a coloca na Avenida da Liberdade já na manhã seguinte, no deserto, em Londres à tarde, no faroeste, no meio de um bombardeamento e em Londres outra vez, para correr até à fila da frente do Estádio de Wembley naquela noite mágica de Sábado, 12 de Julho de 1986 em que ali tocaram os Queen e assim — já estou a chegar ao fim da frase — ver o Freddie Mercury cantar o "Don't Stop Me Now" mesmo à frente dela. Grande serviço de internet, sim senhor. Só há um problema. É que isto NUNCA ACONTECEU! (calma que vou só ali soprar a minha bomba asmática). Não sei que raio de pesquisa fizeram os senhores da agência de publicidade, mas os Queen não tocaram o "Don't Stop Me Now" no Wembley, anulando por completo todo o propósito do conceito do anúncio. Um erro histórico do tamanho do Wembley, que até dá que pensar que o serviço de internet talvez não seja assim tão espectacular.


2. Etta James  "I Just Want To Make Love To You" — Coca-Cola Light (1994)



"São quatro e meia! São quatro e meia!! São quatro e meia!!! É a hora Coca-Cola Light!". Há anúncios que vendem produtos e há anúncios que mudam a cultura popular. Talvez o maior exemplo disso nesta lista seja o anúncio de 1994 da Coca-Cola Light. Já lá vão mais de duas décadas desde a sua transmissão, mas toda a gente acima dos 30 ainda sabe qual é a hora Coca-Cola Light — a hora em que um trolha com os abdominais do Ronaldo arruinava a produtividade de um escritório cheio de mulheres, que interrompiam em massa o que quer que estivessem a fazer, para o ver tirar a camisola e abrir uma garrafa de refrigerante (será que hoje o neo-feminismo permitia isto?).
Como os melhores anúncios, o conceito é muito simples; mas é a certeira escolha musical que fica na memória e faz o anúncio. A música de Etta James (desde então associada ao striptease), a hora das quatro e meia (em Espanha, onze e meia) e o rapaz em tronco nu são três figuras para sempre indissociáveis da marca. E tudo conseguido em menos de 30 segundos, que mudaram para sempre a cultura popular.


1. Johnny Nash  "I Can See Clearly Now" — Nescafé (1988)



De uma forma ou de outra, todos os anúncios nesta lista mudaram a percepção que o público tinha de uma determinada canção. Uma boa ideia, executada com mestria, faz com que o anúncio tome para si a música e ela para sempre fique associada à respectiva marca. O spot da Coca-Cola Light, por exemplo, não só conseguiu isso como ainda moldou a cultura popular à boleia da escolha certeira da banda sonora. Mas o anúncio icónico da Nescafé levou as coisas um degrau acima.
"I can see clearly now, the rain has gone", "It's gonna be a bright, bright, sunshiny day" são palavras musicadas que imediatamente associamos a café. Tudo por causa do anúncio do nascer do sol da Nescafé. O casamento perfeito entre uma marca de café, o tema quente e calmante de Johnny Nash e a ideia de um Carocha estacionado numa arriba ao nascer do sol, com o café aquecido numa resistência ligada ao isqueiro do automóvel. É uma injecção de tranquilidade que mexe com o espectador. Há anúncios e anúncios, mas qual é o anuncio com poder para mudar o curso do dia de quem o vê?

Não posso deixar de fazer também uma menção honrosa à sequela deste anúncio. A Nescafé repetiu a façanha em 1990 com o em nada inferior (mas menos icónico) anúncio da loja de discos na praia, com "I Got You (I Feel Good)" de James Brown a sair da jukebox iluminada ao mesmo tempo do café. Tive que juntar estes dois no primeiro lugar, senão arriscava-me de correr a lista a anúncios da Nescafé.



Fiquem também com a clássica playlist que reúne todas as canções desta lista: