A cura para a depressão da banda de Brixton é uma barragem de suor e decibéis
À hora que escrevo isto, os meus ouvidos ainda tilintam com a barragem de decibéis a que fui sujeito na última noite. São 6 da manhã e no comboio matutino, só eu e os zombies do costume a caminho de mais um dia de trabalho. A diferença é que hoje não me sinto um dos zombies; ainda estou ligado à corrente, na ressaca de um dos concertos mais viscerais a que assisti nos últimos anos. Sinto-me vivo. Dói-me o corpo todo, não sei se do mosh pit, se das poucas horas de sono. Mas como é que alguém pode dormir depois de uma injecção de adrenalina daquelas?
Os shame (assim, com minúscula) ao vivo no Electric Ballroom, em Camden. O concerto de uma das bandas punk mais entusiasmantes dos últimos anos foi o primeiro com a cobertura NiT em Londres. How about that?
Sangue, suor e decibéis. Há muito tempo que num concerto não sentia o perigo que tudo podia acontecer. E se os decibéis foram muitos — tantos, que ainda ouço um infinito "piiiiiiii" enquanto vos escrevo —, ainda mais foi o suor. A sério. Londres, amo-te, mas por favor, vai tomar banho, que isto não se aguenta quando começa a fazer calor. Tenho dificuldades em descrever o fedor da torrente de transpiração que inundava o Electric Ballroom. Os U2 podem prometer uma experiência de realidade aumentada, mas acreditem, nada vos desperta tanto os sentidos como uma barragem de transpiração. Fica a ideia para o Bono.
O que é mais curioso é que terá sido exactamente este pivete esmagador que me fez sentir mais vivo. De uma forma perversa, foi isso que distinguiu esta noite como uma experiência visceral e libertadora. Como se de sexo selvagem se tratasse. Senti-me mais perto da verdade, num nirvana sensorial de Rock 'n' Roll. Se é que isto vos faz algum sentido.
No Electric Ballroom sentia-se a electricidade de um momento especial. Em palco, a banda exultava em como esta era um grande noite, "apesar" de estarem em North London, dando conta da rivalidade bairrista em Brixton. No mosh pit (onde temo que fosse um dos mais velhos), fervia uma revolta contra coisa nenhuma que fazia levantar aquela tromba de transpiração. Na tenda de merchandise, a crew dos shame — composta por amigos da banda — comentava que este era o maior concerto de sempre do grupo. Um longo caminho tinha sido percorrido desde os bares em Brixton.
A noite terminou com gritos gameofthronianos de "shame! shame! shame!" e quem esteve no Electric Ballroom naquela noite levou para casa uma cura para a depressão. Eu ainda trouxe comigo o vinil cor-de-rosa de "Songs of Praise" — o álbum de estreia dos shame e um dos discos do ano.
"I'd rather be fucked than sad and that's a start", dizem os shame no seu maior hit "One Rizla" (sendo que isto hoje é medido em scrobbles no Spotify), numa frase que pode resumir muito sumariamente o propósito da banda de Brixton. Revolta. Num mundo onde a depressão parece assolar meio mundo e onde os sinais de alarme só agora começam a ser ouvidos pela sociedade, até faz sentido gritar que é melhor ser fodido do que estar triste. Lá fora é uma merda e sim, nada de bom nos espera. Mas melhor isso que não fazer nada. Pode ser uma revolta contra coisa nenhuma, mas não deixa de ser um abanão contra a letargia do quotidiano.
Como filho dos anos 80, passei metade da minha infância a olhar para a televisão e metade dessa metade a ver a publicidade dos intervalos
Há anúncios e anúncios. A maioria ladra e nós passamos sem prestar atenção, tão habituamos já estamos em ser bombardeados com publicidade em todo o lado e a tempo inteiro. No meio da torrente, aparece sempre um ou outro que nos agarra, às vezes pela imagem, às vezes pelo som. Quando as duas dimensões sucedem, acontece arte; e como todas as obras de arte, também os anúncios se tornam imortais.
A lista de hoje compila algumas das obras de arte do marketing das últimas décadas, as quais conseguiram a proeza de acertar numa canção pop que ao mesmo tempo cola no ouvido e casa na perfeição com o conceito do anúncio. São a prova que a escolha da banda sonora pode ditar o sucesso de uma campanha publicitária.
Note-se que não qualificam para esta lista canções escritas especificamente para os anúncios. Não esperem por isso ver aqui o spot do "diga bom dia com Mokambo", o "papa-a-papa" da Cerelac, nem "um Bongo, o bom sabor da selva". Considerem-se avisados.
10. Elvis Presley vs JXL – "A Little Less Conversation" — Nike (2002)
A Nike tem uma longa história de forte investimento em publicidade e nos anos 90 não havia quem lhes fizesse sombra no campo do marketing televisivo. Quem não se lembra de anúncios épicos como o jogo do bem contra o mal, que Cantona resolveu depois de levantar a gola e dizer "au revoir"? Ou das tropelias da selecção brasileira no aeroporto, quando o Ronaldo-fenómeno dominava o mundo? Em 2002, por vésperas do Mundial na Coreia e no Japão, surgiu outro anúncio para a História: o torneio da jaula no navio. Desta vez a Nike apostou na escolha de um tema high-profile para acompanhar o anúncio, utilizando uma remistura recente de "A Little Less Conversation". O tema não só assentou que nem uma luva na acção do spot publicitário, como deu ainda uma nova vida a Elvis Presley, introduzindo-o a uma nova geração de ouvintes. O sucesso seria capitalizado com o lançamento da compilação "Elv1s: 30 No. 1 Hits" em Setembro desse ano, a qual chegaria ao primeiro lugar das tabelas um pouco por todo o mundo.
9. Jet – "Are You Gonna Be My Girl" — Apple iPod (2003)
O spot multi-cromático do Apple iPod de 2003 é certamente um dos anúncios visualmente mais singulares dos últimos 20 anos. Prova disso são as inúmeras paródias a que foi sujeito desde então, sendo a minha preferida a de Conan O'Brien em 2016, aquando do lançamento dos wireless pods. O anúncio deu a conhecer ao mundo os Jet, utilizando o seu enérgico primeiro single "Are You Gonna Be My Girl" e catapultando a banda para um sucesso astronómico que eles não foram capazes de suster. Naturalmente, diga-se. A banda não tinha canções para isso e também não voltaram a ter a ajuda de uma grande marca.
8. David Bowie – "Absolute Beginners" — Meo Fibra (2016)
Chegámos então às operadoras de telecomunicações, talvez os maiores investidores em publicidade das décadas mais recentes. Os Gato Fedorento protagonizaram os anúncios da marca desde a sua criação em 2007 (quando substituiu a TMN), primeiro em ensemble e depois apenas com o Ricardo Araújo Pereira — o elemento que de facto vendia o produto — como cara da marca. A Meo nunca quis ficar a perder, e em 2015 o RAP foi trocado pelo Cristiano Ronaldo e em 2016, saiu o Ronaldo para entrar David Bowie. Não o David em pessoa, que morrera no início do ano mas o seu "Absolute Beginners", escolha que capitalizou o renovado interesse popular em Bowie na ressaca da sua morte. Embora eu seja um fã de sempre, passei a odiar "Absolute Beginners" quando fui obrigado a ouvi-lo durante 5 horas seguidas numa linha de espera do maravilhoso serviço ao cliente da Meo.
7. Lenny Kravitz – "Are You Gonna Go My Way" — L' Oreal Studio Line (1998)
Um dos melhores riffs da História do Rock promove gloriosamente qualquer produto. Mesmo que o spot publicitário do produto não utilize exactamente esse riff para não pagar direitos de autor. Confusos? Foi o que a L'Óreal fez ao Lenny Kravitz. A marca não obteve licença para utilizar a versão original de "Are You Gonna Go My Way" e não contente com isso, certamente obstinada em utilizar o riff monstro, em vez de optarem por outra canção, fizeram uma imitação barata que, por muito estranho que possa parecer (e que mostra que a nossa mente trabalha de forma sui generis) é imediatamente reconhecível e associável a "Are You Gonna Go My Way". Em vez de pagar os devidos direitos ao Lenny, a L'Óreal gastou o dinheiro todo na Kate Moss a dizer "porque eu mereço".
O caso de Lenny Kravitz não é original, mas é impressionante porque mostra que o riff que escreveu para "Are You Gonna Go My Way?" é uma marca em si mesma e uma marca tão forte que a L'Óreal não precisou de o usar para vender o produto, ou sequer para passar a ideia que o queria utilizar. O anúncio vai ao limite de emular até o videoclipe da música, plano por plano.
No ano passado, a Volkswagen lá abriu os cordões à bolsa e resolveu pagar ao Lenny para poder usar a música como deve ser no adorável anúncio ao Golf:
6. The Dandy Wahrols – "Bohemian Like You"— Vodafone (2001)
Mais uma operadora. A colaboração entre a Vodafone e The Dandy Warhols é o exemplo acabado de uma simbiose perfeita. A banda saltou do desconhecimento para os ouvidos de todo o mundo (lembro que o anúncio não foi apenas transmitido em Portugal) e a marca teve o seu melhor anúncio de sempre, especialmente importante por marcar a transição entre o fim da Telecel e a chegada da Vodafone, ganhando também uma imagem revigorada junto da franja mais jovem, devido à associação a uma banda indie.
5. Queen – "Innuendo" — Ballantine's (1999)
"You can be anything you want to be". Quando o melhor que um whiskey tem é o seu anúncio televisivo, está tudo dito sobre a bebida. Ou quase. O Ballantine's pode não ser o melhor whiskey do mercado (e estou a ser imensamente eufemístico), mas saber reconhecer as suas próprias debilidades é um atributo valiosíssimo e por isso há que tirar o chapéu à marca pelo investimento num anúncio que tornou o seu produto tão ou mais conhecido que a maioria dos seus concorrentes e que elevou uma bebida sofrível a uma marca instantaneamente associada a selos de qualidade indiscutível como a voz de Freddie Mercury e a guitarra de Steve Howe. A isto chama-se marketing genial.
4. Ella Fitzgerald & Louis Armstrong – "Cheek to Cheek" — Adágio (2002)
As pessoas que comem iogurte em anúncios têm sempre muito mais prazer do que é socialmente aceitável numa situação daquelas. Nunca consegui perceber onde vão buscar aquele entusiasmo, mas a associação ao tema "Cheek To Cheek" de Ella Fitzgerald sucede precisamente em ilustrar a extensão na hipérbole da sensualidade de um iogurte. "Heaven, I'm in heaven!". Malta, é só iogurte.
3. Queen – "Don't Stop Me Now" — NOS (2014)
O uso copioso de "Don't Stop Me Now" em publicidade um por todo o mundo deu vida nova à canção, transformando um minor hit de um álbum esquecido dos Queen ("Jazz") naquele que será provavelmente o tema mais conhecido dos Queen na geração mais nova, superando monstros como "Bohemian Rhapsody", "We Will Rock You", ou "We Are The Champions" (e obviamente o já referido "Innuendo").
Em Portugal, tivemos o impossível-de-escapar anúncio da NOS em 2014. O conceito do anúncio é engraçado. Uma miúda está sozinha em casa numa noite de verão a cantarolar o "Don't Stop Me Now" com voz de quem está a praticar o coito, forma como toda a gente canta quando está sozinha em casa. Entretanto, liga o tablet à internet. Mas atenção, que não é uma internet qualquer, é o superior serviço de internet da NOS. Que é tão bom que projecta a miúda para uma realidade aumentada que a coloca na Avenida da Liberdade já na manhã seguinte, no deserto, em Londres à tarde, no faroeste, no meio de um bombardeamento e em Londres outra vez, para correr até à fila da frente do Estádio de Wembley naquela noite mágica de Sábado, 12 de Julho de 1986 em que ali tocaram os Queen e assim — já estou a chegar ao fim da frase — ver o Freddie Mercury cantar o "Don't Stop Me Now" mesmo à frente dela. Grande serviço de internet, sim senhor. Só há um problema. É que isto NUNCA ACONTECEU! (calma que vou só ali soprar a minha bomba asmática). Não sei que raio de pesquisa fizeram os senhores da agência de publicidade, mas os Queen não tocaram o "Don't Stop Me Now" no Wembley, anulando por completo todo o propósito do conceito do anúncio. Um erro histórico do tamanho do Wembley, que até dá que pensar que o serviço de internet talvez não seja assim tão espectacular.
2. Etta James – "I Just Want To Make Love To You" — Coca-Cola Light (1994)
"São quatro e meia! São quatro e meia!! São quatro e meia!!! É a hora Coca-Cola Light!". Há anúncios que vendem produtos e há anúncios que mudam a cultura popular. Talvez o maior exemplo disso nesta lista seja o anúncio de 1994 da Coca-Cola Light. Já lá vão mais de duas décadas desde a sua transmissão, mas toda a gente acima dos 30 ainda sabe qual é a hora Coca-Cola Light — a hora em que um trolha com os abdominais do Ronaldo arruinava a produtividade de um escritório cheio de mulheres, que interrompiam em massa o que quer que estivessem a fazer, para o ver tirar a camisola e abrir uma garrafa de refrigerante (será que hoje o neo-feminismo permitia isto?).
Como os melhores anúncios, o conceito é muito simples; mas é a certeira escolha musical que fica na memória e faz o anúncio. A música de Etta James (desde então associada ao striptease), a hora das quatro e meia (em Espanha, onze e meia) e o rapaz em tronco nu são três figuras para sempre indissociáveis da marca. E tudo conseguido em menos de 30 segundos, que mudaram para sempre a cultura popular.
1. Johnny Nash – "I Can See Clearly Now" — Nescafé (1988)
De uma forma ou de outra, todos os anúncios nesta lista mudaram a percepção que o público tinha de uma determinada canção. Uma boa ideia, executada com mestria, faz com que o anúncio tome para si a música e ela para sempre fique associada à respectiva marca. O spot da Coca-Cola Light, por exemplo, não só conseguiu isso como ainda moldou a cultura popular à boleia da escolha certeira da banda sonora. Mas o anúncio icónico da Nescafé levou as coisas um degrau acima.
"I can see clearly now, the rain has gone", "It's gonna be a bright, bright, sunshiny day" são palavras musicadas que imediatamente associamos a café. Tudo por causa do anúncio do nascer do sol da Nescafé. O casamento perfeito entre uma marca de café, o tema quente e calmante de Johnny Nash e a ideia de um Carocha estacionado numa arriba ao nascer do sol, com o café aquecido numa resistência ligada ao isqueiro do automóvel. É uma injecção de tranquilidade que mexe com o espectador. Há anúncios e anúncios, mas qual é o anuncio com poder para mudar o curso do dia de quem o vê?
Não posso deixar de fazer também uma menção honrosa à sequela deste anúncio. A Nescafé repetiu a façanha em 1990 com o em nada inferior (mas menos icónico) anúncio da loja de discos na praia, com "I Got You (I Feel Good)" de James Brown a sair da jukebox iluminada ao mesmo tempo do café. Tive que juntar estes dois no primeiro lugar, senão arriscava-me de correr a lista a anúncios da Nescafé.
Fiquem também com a clássica playlist que reúne todas as canções desta lista:
Aproveitem, que não é todos os dias que me podem ver a defender o hip hop.
Não percebo o hip hop. Se já me leram mais que uma vez, estão fartos de saber isto. Mas ao fim de 4 anos a escrever na NiT, havia de chegar o dia em que vinha aqui defender a causa do hip hop. Esse dia é hoje.
A razão para tal despropósito é a renovada insistência na deriva sociológica que associa a música — qualquer que ela seja — à violência. Em causa estão artigos no Guardian e Sunday Times e até estudos académicos que fazem uma ligação directa entre o hip hop — na sua vertente Drill (subgénero proveniente do sul de Chicago) — e a crescente onda de assassinatos que tem assolado Londres nas últimas semanas e que fez a cidade ultrapassar Nova Iorque em número de mortos.
Este tipo de retórica tem barbas. Lembro que há 50 anos faziam-se queimadas de discos dos Beatles (isso sim, uma heresia), porque a banda de Liverpool representava a vinda do Anti-Cristo. Uns anos mais tarde, surgiu nas comunidades mais conservadoras a ameaça de um extraterrestre chamado David Bowie que vinha de outro planeta para alienar a juventude. Os Black Sabbath, todos sabemos, eram satânicos. O próprio Ozzy Osbourne teve que ir a tribunal defender-se da responsabilização pelo suicídio de um adolescente que ouvia "Suicide Solution" quando disparou sobre si mesmo. Os Led Zeppelin fizeram um pacto com o diabo e tinham mensagens subliminares satânicas na sua música quando ouvida ao contrário (neste campo, a minha preferida continua a ser a genial mensagem subliminar de "Another One Bites The Dust" que, ouvido ao contrário, afirma que "It's fun to smoke marijuana" — true story). E claro, depois temos o Marilyn Manson, que foi o verdadeiro culpado — ele e não o acesso facilitado a armas nos EUA — do massacre de Columbine.
A associação de música à violência é o tipo de silogismo habitualmente traçado por quem nunca andou de metro para lá da Zona 2, a não ser para ir a Wimbledon ver ténis ou a Heathrow apanhar um avião. O Guardian, em particular, sempre tão preocupado em defender causas cosmopolitas e inclusivas, acaba por não perceber que só contribui para sectarizar ainda mais uma sociedade já dividida pela distribuição heterogénea de recursos. Para não falar que mostram perceber muito pouco do assunto, quando se equivocam na escolha da foto para o artigo (vejam a deliciosa nota no fim do texto).
Este é por isso o tipo de retórica utilizada por quem não entende o que é a música, o que significa e a sua importância social. Honestamente, só posso sentir pena destas pessoas. Temo que não estará ao alcance de todos a capacidade de abrir o coração à música e usufruir da torrente de emoções que ela inflige. É tão bom. Para eles, o mundo será um local bem mais cinzento. Para os outros, para nós,a música é um veículo de emoções. Tenha a forma que tiver, é histórica e axiomaticamente um factor de união. Mesmo que essa união seja feita num gueto. Ao comungar uma canção, o gueto vai partilhar sentimentos, vai humanizar-se. A tendência é sempre positiva.
Colocando em risco os que me rodeiam, também eu fui ouvir o Chief Keef e o Abra Cadabra, figuras de proa desse tão ameaçador Drill. Concedo que é tudo muito mau e confesso que não tive paciência para aturar muito mais do que 10 minutos daquilo. Mas não foi por isso que senti vontade de assassinar alguém. Não mais do que, por exemplo, quando sou submetido à audiência da banda-sonora do "Titanic" com a voz da Céline Dion. Não vamos banir a Céline por isso, pois não?
No ano passado, já aqui tinha falado no perigoso precedente que se abria ao estar a censurar música com livre critério, na altura com o argumento que tinha relações supremacistas. Ontem eles, hoje estes, amanhã não se sabe quem. E daí relembro que, tirando alguns tímpanos, a música nunca matou ninguém. Pode moldar erradamente cabeças mais incautas, é verdade, mas esse é um problema de educação. E é por isso que a culpabilização da música nos assassinatos de Londres é também (e principalmente?) uma manobra de diversão para desviar a atenção do verdadeiro problema.
A causa desta onda de crimes não tem nada a ver com a má música que se faz nos guetos, tem a ver com a pobreza e o défice educativo e cultural que ali existe, consequência directa dos cortes na educação, do desemprego e do emprego precário. Os autores destes crimes são quem vive nestas condições e se ouvem este tipo de música, isso representa uma relação causa-efeito tão directa como se comessem Chocapic ao pequeno-almoço. Censurar música por ser ouvida por criminosos seria como acabar com o Sporting porque o presidente é um pirómano. É preciso saber separar.
A própria qualidade medíocre da música é, também ela, uma consequência directa deste défice cultural. Não se pode atirar moedas de 10 cêntimos, chamar-lhes investimento, e depois esperar Beethoven ou Pink Floyd. Talvez aquela música seja um "crime" em si mesma, mas isso é outra história. Não é o Drill quem provoca os assassinatos e nada justifica a censura. Se querem combater a erosão cultural, então dêem condições aos miúdos para ter uma boa vida. Verão que também eles vão querer fazer música melhor. Até lá, aqui estarei para defender todas as formas de música que forem atacadas pelo lápis azul, venham de onde vierem.
Um olhar sobre o álbum mais negligenciado da discografia de Bruce Springsteen
"Bobby said he'd pull out, Bobby stayed in / Janey had a baby, wasn't any sin / They were set to marry on a summer day / Bobby got scared and he ran away".
Contos de fadas? Onde é que isso já vai. A história que Bruce Springsteen traz em "Spare Parts" não é edificante, não vem em contos de fadas e muito menos espera um final feliz. Mas é uma história da vida real e é apenas uma de muitas narrativas de desolação que assolam o álbum "Tunnel Of Love". Mas deixem-me enquadrar-vos primeiro.
Bruce anunciou esta semana o lançamento em vinil da segunda vaga da sua discografia, a qual compreende o período em que foi efectivamente um artista a solo, isto é, sem o suporte da sua E Street Band a tempo inteiro. Entre o fim da digressão de "Born In The U.S.A." e o reatamento definitivo em 1999, a E Street Band só se juntou na Tunnel Of Love Express Tour (de onde saiu o "Chimes of Freedom", EP também incluído nesta caixa) e na breve reunião de 1995 para o lançamento da colectânea "Greatest Hits", que deu também lugar ao filme e correspondente EP "Blood Brothers" (aqui pela primeira vez em vinil).
Foi um período de 10 anos de música mais introspectiva e menos acessível, globalmente menos inspirada, mas nem por isso desprovida de interesse. Principalmente quando falamos do primeiro disco desta vaga — o tormentoso "Tunnel Of Love", um lote de canções que Bruce achou demasiado pessoal para serem levadas à E Street Band.
"Tunnel Of Love" é a jóia mais negligenciada da discografia de Bruce Springsteen, muito por culpa das expectativas de quem esperava um segundo volume de "Born In The U.S.A.". O que até vem a calhar, uma vez que é de expectativas goradas que o álbum trata. Aqui não há cavaleiros brancos, nem princesas em castelos. Há, sim, personagens reais, homens e mulheres mutilados pela vida, readaptados a ciclos sucessivos de frustrações e desencontros. É um álbum de amores impossíveis.
Se a lírica é brutalmente honesta, a sonoridade do disco representa uma viragem em cotovelo do que se ouvira em "Born In The U.S.A.". O início cru, acappella, revela à cabeça que o sucesso do seu álbum blockbuster lhe trouxe tudo, menos aquilo que Bruce realmente queria:
"I got the fortunes of heaven in diamonds and gold / I got all the riches, baby, any man ever knew / But the only thing I ain't got, honey, I... ain't got you"
"Tunnel Of Love" foi gravado em pleno processo de separação de Bruce. E isso ouve-se. Olhando para o nome, poder-se-á afirmar que é um álbum sobre amor. E é, de certa forma. Mas não no sentido romântico da palavra; não na mesma medida que, por exemplo, "The Ties That Bind", disco que escrevera 8 anos antes (e que ficou na gaveta em detrimento do mais amplo "The River"). "The Ties That Bind" era sobre o compromisso, sobre a responsabilidade de escolher uma pessoa para viver para sempre. Mas 'para sempre' é muito tempo e nesta altura, Bruce já viveu o suficiente para perceber que não há contos de fadas.
Dez anos antes, ele já fora o sonhador em "Born To Run" e já tinha embatido contra a realidade do mundo em "Darkness Of The Edge Of Town". Mas estas eram ainda as ilusões e desilusões de um jovem a quem faltava viver a vida. Os anos 80 deitaram Bruce, firme, de cabeça no chão e resultaram no desmoronamento do seu casamento e na escrita de discos sombrios como "Nebraska" e boa parte de "Born In The U.S.A." (vão lá ouvir com atenção as letras do tema-título e de "Dancing In The Dark", por exemplo). Chegados a 1987, onde antes havia compromisso, agora há traição. Onde havia inocência, agora há cinismo. Onde havia um casamento, agora há um divórcio.
"So tell me who I see when I look in your eyes? / Is that you, baby, or just a brilliant disguise?"
Como a toda discografia de Bruce, é preciso chegar a um determinado capítulo da nossa vida para fazer match com a vida de Bruce e perceber devidamente a música. No caso de "Tunnel Of Love", se nos estamos a relacionar com as canções, é sinal que as coisas nesse momento não estão a correr muito bem. A mim, já serviu de banda sonora para uma discussão de breakup que durou cinco horas. Cinco horas. Deu para ouvir o álbum todo mais de 6 vezes (sim, eu fui lá virar o disco 12 vezes).
Os mais cépticos do Boss (Brucépticos?) dirão que "Tunnel Of Love" foi uma tentativa de abarcar o mercado do Adult Contemporary. Mas a música que ouvimos aqui, por muito 'Oceano Pacífico' que possa soar, é tão somente o espelho do estado de alma de Bruce em 1987. Indiferente aos milhões que "Born In The U.S.A." lhe ofereceu (até porque o sucesso profissional não lhe deu trouxe felicidade a casa), Bruce continuou a escrever canções sobre o homem comum, com as quais todos nos podemos relacionar. Ryan Adams disse esta semana que este é um álbum que vos vai salvar a vida umas quantas vezes. A minha já salvou.
Tunnel of Love is one of those records that'll save your life a few times. I would be lost without it.
Thanks, Boss. https://t.co/paHQVdDQLX
"Tunnel Of Love" é um álbum de amores impossíveis mas nem por isso traz uma perspectiva niilista ao amor, terminando com uma nota de esperança em "Valentine's Day": "So hold me close honey, say you're forever mine / And tell me you'll be my lonely valentine". Como diz em "Spare Parts", somos todos uma amálgama de peças avulsas que luta por manter o mundo a andar à roda. E foi isso que Bruce fez.
Enquanto gravava "Tunnel Of Love", Bruce aproximou-se da cantora que fazia backing vocals na E Street Band e cuja presença se sente um pouco por todo o álbum. Ele e Patti Scialfa acabaram por se juntar pouco depois e estão juntos até hoje. Não foi bem 'felizes para sempre' — 'para sempre' é muito tempo —, mas até ver, foram 31 anos. Um amor possível, portanto. Não será isto um conto de fadas?
P.S.: O título da crónica foi roubado ao novo livro da Inês Meneses, radialista do "Fala Com Ela" na Radar, "PBX" com Pedro Mexia e "O Amor é…" com Júlio Machado Vaz. Todos programas de audição recomendada.
Como os Xutos & Pontapés entraram na minha vida aos 32 anos
Foi num daqueles constrangedoresEncontros de Quadros onde pessoas que trabalham juntas durante o dia são atiradas para um ambiente anacrónico de copos à noite, sem que ninguém saiba ao certo até onde pode ir. Eram umas 4 da manhã e já pouca gente restava na discoteca da cave do Hotel do Vimeiro — local clássico destas reuniões da empresa —, quando um colega de outro sector, com quem nunca tinha conversado para além da prosaica troca de bons-dias, veio até mim com voz ébria, mas decidida: "Oh Bento! Tu que percebes de música, vai lá dizer ao DJ para meter música a sério!". (independentemente de termos falado ou não, todos na empresa sabiam de duas coisas sobre mim: que era doido por música e... pelo Benfica). Eu, que também já ia com uma bela pedalada, mas ainda umas cinco imperiais atrás do camisola amarela à minha frente, deixei-me rir e perguntei cinicamente: "mas o que é isso de 'música a sério?'". O meu colega inclinou-se para trás e meio desequilibrado da bebedeira, ergueu os braços em cruz e gritou: "É Xutos, pááá!!!". Como bom snob musical que à época só ouvia New Order, The Smiths e restante onda oitentista mancuniana, sorri de escárnio e corri aos meus colegas de sector para contar o insólito episódio. Nasceu ali uma inside joke que durou anos, durante os quais nos referimos aos Xutos & Pontapés de forma trocista como "É Xutos, pá!".
É clichê dizer-se que só se dá o devido valor às coisas quando as perdemos. E é um clichê dizer-se isto porque é absolutamente verdade. Viver fora do país ensina muita coisa e se ser emigrante não me deu (ainda!) para gostar de fado, permitiu-me em contrapartida perceber a verdadeira magnitude dos Xutos. E que o meu colega tinha razão.
Não é que eu tivesse falta de know-how de Xutos. Os êxitos, obviamente que os conhecia a todos. E como não? Eles são parte do património intelectual de Portugal, é impossível não os saber de cor. Mais, os Xutos são das bandas que vi ao vivo mais vezes — 6 no total, só atrás do David Gilmour com 8 vezes. O primeiro concerto que fui ver sem o meu Pai, foi Xutos em Lloret Del Mar (quer dizer, 'ver' é como quem diz; mas garantem-me que estive lá e tenho uma t-shirt para o provar). E no entanto, com tantos Xutos na minha vida, faltava-me ainda OUVIR os Xutos & Pontapés; faltava-me prestar atenção ao que têm para dizer, principalmente quando eles tinham tanto para dizer, em álbuns como "Cerco" de 1985 (o primeiro da formação clássica da banda) e "Circo de Feras" de 1987. Álbuns que moldam uma vida. Como estão a moldar a minha agora.
Tenho a firme convicção que a música nos chega apenas quando estamos preparados para ela. Toda a música nos chega no tempo certo, porque mesmo que chegue antes, não importa, não a vamos ouvir devidamente. A entrada da música dos Xutos & Pontapés em forma de torrente nesta fase da minha vida comprova esta teoria, ou não fosse o reportório da banda de Almada uma verdadeira linha de apoio ao emigrante.
É estranho que nenhum dos Xutos tenha, de facto, emigrado. Porque está lá tudo. Há as referências óbvias, como "as saudades que eu já tinha da minha alegre casinha", mas isso soa-me emocionalmente vápido — como a maioria do alinhamento do álbum "88"; não sei se por sobre-produção, se por sobre-reprodução — , quando comparado com a crueza bruta e honesta das canções de "Cerco". É aqui que o meu coração encalha, nos amores perdidos de "Conta-me Histórias", ou nas vidas perdidas de "Homem do Leme" (não se deixem enganar, procurem a versão original, incluída no álbum; é essa que querem ouvir) — "Sozinho na noite, um barco ruma, para onde vai? / Uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder".
Mas há muito mais de onde esta veio. "Contentores", de "Circo de Feras", é uma mina de referências à mudança de vida: "Carga pronta e metida nos contentores, adeus aos meus amores que me vou p'ra outro mundo / Mudaram todas as cores, rugem baixinho os motores e numa força invencível, deixo a cidade natal / É uma escolha que se faz, o passado foi lá atrás" — é a fuga para outro lugar, longe das raízes, sem olhar para trás. "Vida Malvada", do mesmo álbum, segue-lhe o rasto: "Adeus às praias cheias de gente e um beijo p'ra quem fica". Mas o maior catalisador motivacional (e obra-prima maior dos Xutos?) tem que ser o eufórico, revoltado e até provocatório "N'América": "Eu vou ter que sair, eu vou ter que partir / Finalmente vais ver, o que é que eu iria ser, o que é que eu iria ter... n' Américaaa". Sublime retrato do estado de espírito de quem muda de vida.
É aquela rara e preciosa sensação Springsteeniana que estão a falar comigo; que alguém, um dia, tomou notas e escreveu música sobre a minha vida. Não importa o seu significado original, porque eu tomei estas canções para mim. São minhas, agora. São sobre o meu commute diário, sobre os dramas e alegrias da minha vida em Londres, ou simplesmente a banda sonora enquanto corro desalmado para o metro, para tentar vencer o mau hábito de chegar atrasado.
"E quando as nuvens partirem, o céu azul ficará / E quando as trevas se abrirem, vais ver o sol brilhará" ("Não Sou O Único") é bálsamo para os ouvidos de quem está numa terra onde nunca se vê o sol. E no entanto, tal como em "Vida Malvada", ando de "óculos escuros a torto e a direito" (já me perguntaram se tenho algum problema), porque a ouvir Xutos, na minha cabeça o sol brilha. Bem, pensando melhor, talvez tudo isto seja um exercício de olhar para trás. Mas como não? Portugal continua a ser a minha casa. E os Xutos aproximam-me da minha casinha.
P.S.: Apesar de ter passado estes anos todos a gozar com o "É Xutos, pá!", a verdade é que fui lá mesmo pedir Xutos como o meu colega pediu. O DJ pôs a "Casinha" e foi uma maravilha.
P.P.S.: Dizem que só damos valor ao que não temos e só elogiamos quem já cá não está (o que é verdade, como vimos em cima). Pois bem, vou por isso aproveitar para me antecipar ao guião e deixar a minha homenagem ao meu Xuto preferido — o João Cabeleira. Sem desprimor para os outros Xutos, o Cabeleira tem algo que os separa dos demais. É mais sujo. É mais perigoso. É mais repugnante. E digo isto no melhor dos sentidos. O ar hardcore tem correspondência com o som que sai da sua guitarra, a esborratar continuamente a pintura de fino toque da secção rítmica composta pelo Tim, Kalú e Zé Pedro. Citando a minha mãe quando me quer chamar de javardola, é "uns a limpar por um lado e outros a sujar pelo outro". É isso que o João Cabeleira faz às canções dos Xutos & Pontapés. E ainda bem, que é assim que eu gosto dos meus Xutos — quanto mais sujos, melhor.
Nos subúrbios de Londres ferve Rock 'n' Roll que anseia sair
Quinta-Feira, seis da tarde. À porta de uma pequena loja de discos nos subúrbios de Londres, para lá da Zona 9, forma-se uma fila a perder de vista. O motivo? Tocava uma banda que ia ali apresentar o seu álbum de estreia. Sim, leram bem. Nenhum álbum lançado e já aquele frenesim. Mas quem? Perguntei à menina do balcão da loja — The Magic Gang, responde ela (ler com acentos nos aas — "mágic gáng"), seguríssima da resposta. Eu aceno afirmativamente, como quem diz com o queixo "muito bem, gosto muito". Nunca ouvi falar. Fuck me, que vergonha. O que é que eu estou a fazer neste fim de mundo suburbano, anyway? O amor ao Rock 'n' Roll tem coisas incríveis. Saio para a rua e vejo que a fila já dá a volta ao quarteirão. Quem é que veio ao concerto? Sendo uma banda rock, a audiência é obviamente mais velha; homens e mulheres acima dos 40 anos, munidos de casacos de cabedal espojados, a cheirar a mofo, comprados quando o Kurt Cobain ainda era vivo. Só que não.
Na verdade, a fila é constituída quase exclusivamente por miúdos abaixo dos 18 anos, que devem ter corrido para a loja ao toque de saída da Community School lá do sítio. É uma fila extensa, jovem e muito barulhenta. Principalmente a franja feminina, que a páginas tantas rebenta em histeria quando o guitarrista — denunciado pelo instrumento a tiracolo — se aproxima para falar com uma das meninas. "See you later!", diz ele em voz alta, exponenciando o entusiasmo daquele grupo juvenil. Eu? Fico à distância, a observar aquela intensa interação sociológica — um coito platónico, até porque a idade das meninas não dava para maluqueiras maiores. No alto dos meus 32 anos, devo ser o mais velho naquele passeio, já estou contando com a própria banda (o mais velho é Kristian Smith, com 25). Adoro tudo o que se está a passar à minha volta. A electricidade no ar é evidente, quase tão evidente como o frio obsceno que a corrente polar trouxe a Londres. Mas naquela fila nos subúrbios londrinos, o Rock 'n' Roll aquece o coração das adolescentes. Ali não se sente o frio. E que bonito é ver aquele amor genuíno pela música.
Quem disse que o Rock está morto? Ele vive e borbulha por aí, nas pequenas lojas de música nos subúrbios das metrópoles. E a julgar pela amostra aqui, há fome de Rock na juventude. Hajam bandas com ganas para nos satisfazer a gula e juntar-se-á a fome à vontade de comer. Eu é que já estou velho para estas andanças, mas isso é outra conversa. Não, não fui ao concerto. O que é que foi? Antes de julgarem, atentem nos números: 32 anos; 0 graus centígrados; 7 da tarde; a pé desde as 5 da manhã. A matemática fala por si — era hora de ir para casa, que o jantar não se faz sozinho e nem só de Rock eu me alimento. Até porque ainda me esperava hora e meia de caminho no regresso ao centro de Londres. Meti-me no autocarro, liguei o Spotify e lá fui eu ouvir os The Magic Gang pelo caminho.
O veredicto dos rapazes de Brighton? São uma banda de pop melódica (que hoje vai fatalmente para a vala comum do Indie Rock) de audição fácil e um inusitado arrojo para dar posição frontal às guitarras. São solos curtos e esporádicos, é certo, mas para quem quer ser ouvido na rádio nos dias que correm, é um sinal de coragem. O melhor tema da banda, "All That I Want Is You", demonstra isto mesmo. Em baixo está a versão original, incluída no EP de 2016, sendo que o tema foi-me regravado para o álbum de estreia, homónimo, lançado esta semana.
O grande problema dos The Magic Gang? São muito lavadinhos e têm um ar demasiado amigável para o meu gosto. Será preciso maior audácia para que uma banda Rock volte a conquistar o mundo. Essa banda não será com certeza os The Magic Gang. Mas hey, a música é boa e haverá sempre espaço para bandas de bons rapazes.
P.S.: Para quem não é um book buff (ou um Bowie buff), o titulo da crónica e uma referência ao romance de Hanif Kureishi, sobre um adolescente desesperado por abandonar os subúrbios do Sul de Londres.
"I can't tell you the way I feel, because the way I feel is all so new to me", ou os altos e baixos da vida de um novo Londoner.
Dia 1 — 5:00
O que é que eu fui fazer à minha vida?
Eu tinha tudo. Uma vida tranquila, uma casa na praia, um emprego estável, carro pago ao banco, tudo. O que me terá então passado pela cabeça, para mandar tudo ao ar e ir para Londres correr atrás de uma fantasia? O que raio fui eu fazer à minha vida?!
Era só este pensamento que me martelava em loop enquanto me olhava ao espelho àquela hora - às 5 da porra da manhã, hora obscena a que estou obrigado a me levantar para fazer o commute diário para o trabalho. Mas isto são horas para alguém que não sofra de incontinência "já" estar de pé? Se ainda fosse "ainda"... Logo eu, um noctívago, dorminhoco inato, que tantas vezes me levantei às 9:00 em dias de semana, depois de vencer o despertador pelo cansaço de tanto tocar. Logo eu, um atrasadista por excelência, que nunca cheguei a horas a coisa nenhuma, nem sequer a entrevistas de empregos onde fiquei (incluindo este). Logo eu, que sempre desconfiei de pessoas que chegam a horas. Logo eu, que sempre olhei para quem acorda com a pica toda (morning fucking people) como um sinal desviante de sociopatia. Logo eu, que sou este somatório de indigências sociológicas, fui meter-me na terra conhecida mundialmente pela pontualidade.
Àquela hora estranha para um ser humano estar acordado, depois de uma noite dormida em blocos de hora-e-meia, só me ecoavam na cabeça as palavras da minha avó de 95 anos (parece-me importante sublinhar a longevidade da senhora), que me ligara na noite anterior em prantos, a perguntar "meu filho, o que foste fazer à tua vida?!". Sei lá, Vó. Sei lá.
Como em todos os outros precipícios da minha vida, sempre o mesmo arnês na hora da queda. A música. Nas colunas tocava "Definitely Maybe" dos Oasis. O álbum que me me salvou a vida quando tinha 15 anos, veio outra vez em meu socorro e estava ali a segurar-me a mão. Firme. Não deixa cair. "There we were, now here we are; all this confusion, nothing's the same to me" / "I can't tell you the way I feel, because the way I feel is all so new to me", cantava Liam Gallagher em "Columbia", alinhando versos com o que eu sentia naquela manhã. Da cabeça confusa de um adolescente para a de um adulto não menos confuso, foi um pequeno salto. Levantei a cabeça, penteei o cabelo à Londoner e saí de casa a sentir-me "Supersonic".
Dia 1 — 8:06
Quando cheguei ao trabalho, tinha uma surpresa à espera. Não, não era a carta de despedimento por ter chegado atrasado OUTRA VEZ, logo no meu primeiro dia. Não. Já me tinham dado trabalho. Que era nem mais nem menos que parte do projecto de reabilitação da Battersea Power Station. A BATTERSEA POWER STATION! Para quem não sabe, é a central termoeléctrica na margem sul do Tamisa que aparece na capa do álbum "Animals" dos Pink Floyd e que eu só não classifico taxativamente como a capa mais fixe de sempre, porque os Pink Floyd têm outras artworks que também são as mais fixes de sempre. E sim, eu tenho a perfeita noção que tenho um problema com a exclusividade do conceito de "melhor de sempre". Já me disseram.
Mas isto? Isto é a Battersea Power Station! Aqui não há dúvidas, é mesmo o meu edifício preferido de sempre! Aquele que eu desenhava no caderno quando tinha 12 anos. É o meu sonho. Não, corrijo, nem nos meus sonhos me vi a trabalhar aqui. É um sinal! Só pode ser um sinal que estou no sítio certo, que fiz a escolha certa, que tudo estava escrito e destinado! Agora não é só "in my mind my dreams are real" ("Rock 'n' Roll Star"). Agora é aqui mesmo em carne, osso, betão e estrutura metálica. Tudo aconteceu por uma razão, todas as estradas vieram dar aqui.
Dia 1 — 18:16
Saí da estação de Earls Court, atravessei a estrada e fiz aqueles 100 metros até minha casa em lágrimas. Não sei se por tristeza, se por alegria. Estava assustado com todas as mudanças, mas ollhava à minha volta e via uma beleza idílica, parecia um filme. Finalmente cumpriu-se Londres. "These could be the best days of our lives, but I don't think we've been living very wise" ("Digsy's Dinner"). Naquele momento, tive a certeza que tomara a decisão correcta. Tudo parecia fazer sentido.
Entro em casa e percebo que não havia aquecimento. A senhoria não queria saber disso nem dos outros problemas da casa. E logo percebi que afinal nada era perfeito. Meu Freddie, o que raio fui fazer à minha vida? Intercalo agora períodos de êxtase indescritível com arrependimentos madalénicos. É difícil explicar a montanha-russa emocional onde viajo por estes dias. É muita coisa a acontecer ao mesmo tempo e sinto que a minha cabeça vai explodir. O meu sonho londrino está definitivamente a ser um desastre. Ou talvez o sonho seja mesmo assim. Talvez se fosse de outra forma não seria tão bom. Talvez tenha tomado mesmo a decisão certa em vir atrás da minha fantasia. Fuck knows. Definitivamente talvez.