quarta-feira, 11 de abril de 2018

Os assassinatos de Londres e o disparate da culpabilização da música

Aproveitem, que não é todos os dias que me podem ver a defender o hip hop.

Não percebo o hip hop. Se já me leram mais que uma vez, estão fartos de saber isto. Mas ao fim de 4 anos a escrever na NiT, havia de chegar o dia em que vinha aqui defender a causa do hip hop. Esse dia é hoje.

A razão para tal despropósito é a renovada insistência na deriva sociológica que associa a música — qualquer que ela seja — à violência. Em causa estão artigos no Guardian e Sunday Times e até estudos académicos que fazem uma ligação directa entre o hip hop — na sua vertente Drill (subgénero proveniente do sul de Chicago) — e a crescente onda de assassinatos que tem assolado Londres nas últimas semanas e que fez a cidade ultrapassar Nova Iorque em número de mortos.

Este tipo de retórica tem barbas. Lembro que há 50 anos faziam-se queimadas de discos dos Beatles (isso sim, uma heresia), porque a banda de Liverpool representava a vinda do Anti-Cristo. Uns anos mais tarde, surgiu nas comunidades mais conservadoras a ameaça de um extraterrestre chamado David Bowie que vinha de outro planeta para alienar a juventude. Os Black Sabbath, todos sabemos, eram satânicos. O próprio Ozzy Osbourne teve que ir a tribunal defender-se da responsabilização pelo suicídio de um adolescente que ouvia "Suicide Solution" quando disparou sobre si mesmo. Os Led Zeppelin fizeram um pacto com o diabo e tinham mensagens subliminares satânicas na sua música quando ouvida ao contrário (neste campo, a minha preferida continua a ser a genial mensagem subliminar de "Another One Bites The Dust" que, ouvido ao contrário, afirma que "It's fun to smoke marijuana" — true story). E claro, depois temos o Marilyn Manson, que foi o verdadeiro culpado — ele e não o acesso facilitado a armas nos EUA — do massacre de Columbine.

A associação de música à violência é o tipo de silogismo habitualmente traçado por quem nunca andou de metro para lá da Zona 2, a não ser para ir a Wimbledon ver ténis ou a Heathrow apanhar um avião. O Guardian, em particular, sempre tão preocupado em defender causas cosmopolitas e inclusivas, acaba por não perceber que só contribui para sectarizar ainda mais uma sociedade já dividida pela distribuição heterogénea de recursos. Para não falar que mostram perceber muito pouco do assunto, quando se equivocam na escolha da foto para o artigo (vejam a deliciosa nota no fim do texto).

Este é por isso o tipo de retórica utilizada por quem não entende o que é a música, o que significa e a sua importância social. Honestamente, só posso sentir pena destas pessoas. Temo que não estará ao alcance de todos a capacidade de abrir o coração à música e usufruir da torrente de emoções que ela inflige. É tão bom. Para eles, o mundo será um local bem mais cinzento. Para os outros, para nós, a música é um veículo de emoções. Tenha a forma que tiver, é histórica e axiomaticamente um factor de união. Mesmo que essa união seja feita num gueto. Ao comungar uma canção, o gueto vai partilhar sentimentos, vai humanizar-se. A tendência é sempre positiva.

Colocando em risco os que me rodeiam, também eu fui ouvir o Chief Keef e o Abra Cadabra, figuras de proa desse tão ameaçador Drill. Concedo que é tudo muito mau e confesso que não tive paciência para aturar muito mais do que 10 minutos daquilo. Mas não foi por isso que senti vontade de assassinar alguém. Não mais do que, por exemplo, quando sou submetido à audiência da banda-sonora do "Titanic" com a voz da Céline Dion. Não vamos banir a Céline por isso, pois não?

No ano passado, já aqui tinha falado no perigoso precedente que se abria ao estar a censurar música com livre critério, na altura com o argumento que tinha relações supremacistas. Ontem eles, hoje estes, amanhã não se sabe quem. E daí relembro que, tirando alguns tímpanos, a música nunca matou ninguém. Pode moldar erradamente cabeças mais incautas, é verdade, mas esse é um problema de educação. E é por isso que a culpabilização da música nos assassinatos de Londres é também (e principalmente?) uma manobra de diversão para desviar a atenção do verdadeiro problema.

A causa desta onda de crimes não tem nada a ver com a má música que se faz nos guetos, tem a ver com a pobreza e o défice educativo e cultural que ali existe, consequência directa dos cortes na educação, do desemprego e do emprego precário. Os autores destes crimes são quem vive nestas condições e se ouvem este tipo de música, isso representa uma relação causa-efeito tão directa como se comessem Chocapic ao pequeno-almoço. Censurar música por ser ouvida por criminosos seria como acabar com o Sporting porque o presidente é um pirómano. É preciso saber separar.

A própria qualidade medíocre da música é, também ela, uma consequência directa deste défice cultural. Não se pode atirar moedas de 10 cêntimos, chamar-lhes investimento, e depois esperar Beethoven ou Pink Floyd. Talvez aquela música seja um "crime" em si mesma, mas isso é outra história. Não é o Drill quem provoca os assassinatos e nada justifica a censura. Se querem combater a erosão cultural, então dêem condições aos miúdos para ter uma boa vida. Verão que também eles vão querer fazer música melhor. Até lá, aqui estarei para defender todas as formas de música que forem atacadas pelo lápis azul, venham de onde vierem.

domingo, 8 de abril de 2018

"Tunnel Of Love", um álbum de amores impossíveis

Um olhar sobre o álbum mais negligenciado da discografia de Bruce Springsteen

"Bobby said he'd pull out, Bobby stayed in / Janey had a baby, wasn't any sin / They were set to marry on a summer day / Bobby got scared and he ran away".
Contos de fadas? Onde é que isso já vai. A história que Bruce Springsteen traz em "Spare Parts" não é edificante, não vem em contos de fadas e muito menos espera um final feliz. Mas é uma história da vida real e é apenas uma de muitas narrativas de desolação que assolam o álbum "Tunnel Of Love". Mas deixem-me enquadrar-vos primeiro.

Bruce anunciou esta semana o lançamento em vinil da segunda vaga da sua discografia, a qual compreende o período em que foi efectivamente um artista a solo, isto é, sem o suporte da sua E Street Band a tempo inteiro. Entre o fim da digressão de "Born In The U.S.A." e o reatamento definitivo em 1999, a E Street Band só se juntou na Tunnel Of Love Express Tour (de onde saiu o "Chimes of Freedom", EP também incluído nesta caixa) e na breve reunião de 1995 para o lançamento da colectânea "Greatest Hits", que deu também lugar ao filme e correspondente EP "Blood Brothers" (aqui pela primeira vez em vinil).

Foi um período de 10 anos de música mais introspectiva e menos acessível, globalmente menos inspirada, mas nem por isso desprovida de interesse. Principalmente quando falamos do primeiro disco desta vaga — o tormentoso "Tunnel Of Love", um lote de canções que Bruce achou demasiado pessoal para serem levadas à E Street Band.

"Tunnel Of Love" é a jóia mais negligenciada da discografia de Bruce Springsteen, muito por culpa das expectativas de quem esperava um segundo volume de "Born In The U.S.A.". O que até vem a calhar, uma vez que é de expectativas goradas que o álbum trata. Aqui não há cavaleiros brancos, nem princesas em castelos. Há, sim, personagens reais, homens e mulheres mutilados pela vida, readaptados a ciclos sucessivos de frustrações e desencontros. É um álbum de amores impossíveis.



Se a lírica é brutalmente honesta, a sonoridade do disco representa uma viragem em cotovelo do que se ouvira em "Born In The U.S.A.". O início cru, acappella, revela à cabeça que o sucesso do seu álbum blockbuster lhe trouxe tudo, menos aquilo que Bruce realmente queria:
"I got the fortunes of heaven in diamonds and gold / I got all the riches, baby, any man ever knew / But the only thing I ain't got, honey, I... ain't got you"
"Tunnel Of Love" foi gravado em pleno processo de separação de Bruce. E isso ouve-se. Olhando para o nome, poder-se-á afirmar que é um álbum sobre amor. E é, de certa forma. Mas não no sentido romântico da palavra; não na mesma medida que, por exemplo, "The Ties That Bind", disco que escrevera 8 anos antes (e que ficou na gaveta em detrimento do mais amplo "The River"). "The Ties That Bind" era sobre o compromisso, sobre a responsabilidade de escolher uma pessoa para viver para sempre. Mas 'para sempre' é muito tempo e nesta altura, Bruce já viveu o suficiente para perceber que não há contos de fadas.

Dez anos antes, ele já fora o sonhador em "Born To Run" e já tinha embatido contra a realidade do mundo em "Darkness Of The Edge Of Town". Mas estas eram ainda as ilusões e desilusões de um jovem a quem faltava viver a vida. Os anos 80 deitaram Bruce, firme, de cabeça no chão e resultaram no desmoronamento do seu casamento e na escrita de discos sombrios como "Nebraska" e boa parte de "Born In The U.S.A." (vão lá ouvir com atenção as letras do tema-título e de "Dancing In The Dark", por exemplo). Chegados a 1987, onde antes havia compromisso, agora há traição. Onde havia inocência, agora há cinismo. Onde havia um casamento, agora há um divórcio.
"So tell me who I see when I look in your eyes? / Is that you, baby, or just a brilliant disguise?"


Como a toda discografia de Bruce, é preciso chegar a um determinado capítulo da nossa vida para fazer match com a vida de Bruce e perceber devidamente a música. No caso de "Tunnel Of Love", se nos estamos a relacionar com as canções, é sinal que as coisas nesse momento não estão a correr muito bem. A mim, já serviu de banda sonora para uma discussão de breakup que durou cinco horas. Cinco horas. Deu para ouvir o álbum todo mais de 6 vezes (sim, eu fui lá virar o disco 12 vezes).

Os mais cépticos do Boss (Brucépticos?) dirão que "Tunnel Of Love" foi uma tentativa de abarcar o mercado do Adult Contemporary. Mas a música que ouvimos aqui, por muito 'Oceano Pacífico' que possa soar, é tão somente o espelho do estado de alma de Bruce em 1987. Indiferente aos milhões que "Born In The U.S.A." lhe ofereceu (até porque o sucesso profissional não lhe deu trouxe felicidade a casa), Bruce continuou a escrever canções sobre o homem comum, com as quais todos nos podemos relacionar. Ryan Adams disse esta semana que este é um álbum que vos vai salvar a vida umas quantas vezes. A minha já salvou.

"Tunnel Of Love" é um álbum de amores impossíveis mas nem por isso traz uma perspectiva niilista ao amor, terminando com uma nota de esperança em "Valentine's Day": "So hold me close honey, say you're forever mine / And tell me you'll be my lonely valentine". Como diz em "Spare Parts", somos todos uma amálgama de peças avulsas que luta por manter o mundo a andar à roda. E foi isso que Bruce fez.

Enquanto gravava "Tunnel Of Love", Bruce aproximou-se da cantora que fazia backing vocals na E Street Band e cuja presença se sente um pouco por todo o álbum. Ele e Patti Scialfa acabaram por se juntar pouco depois e estão juntos até hoje. Não foi bem 'felizes para sempre' — 'para sempre' é muito tempo —, mas até ver, foram 31 anos. Um amor possível, portanto. Não será isto um conto de fadas?

P.S.: O título da crónica foi roubado ao novo livro da Inês Meneses, radialista do "Fala Com Ela" na Radar, "PBX" com Pedro Mexia e "O Amor é…" com Júlio Machado Vaz. Todos programas de audição recomendada.

quinta-feira, 29 de março de 2018

É Xutos, pá! — Os Xutos & Pontapés como linha de apoio ao emigrante

Como os Xutos & Pontapés entraram na minha vida aos 32 anos

Foi num daqueles constrangedores Encontros de Quadros onde pessoas que trabalham juntas durante o dia são atiradas para um ambiente anacrónico de copos à noite, sem que ninguém saiba ao certo até onde pode ir. Eram umas 4 da manhã e já pouca gente restava na discoteca da cave do Hotel do Vimeiro — local clássico destas reuniões da empresa —, quando um colega de outro sector, com quem nunca tinha conversado para além da prosaica troca de bons-dias, veio até mim com voz ébria, mas decidida: "Oh Bento! Tu que percebes de música, vai lá dizer ao DJ para meter música a sério!". (independentemente de termos falado ou não, todos na empresa sabiam de duas coisas sobre mim: que era doido por música e... pelo Benfica). Eu, que também já ia com uma bela pedalada, mas ainda umas cinco imperiais atrás do camisola amarela à minha frente, deixei-me rir e perguntei cinicamente: "mas o que é isso de 'música a sério?'". O meu colega inclinou-se para trás e meio desequilibrado da bebedeira, ergueu os braços em cruz e gritou: "É Xutos, pááá!!!". Como bom snob musical que à época só ouvia New Order, The Smiths e restante onda oitentista mancuniana, sorri de escárnio e corri aos meus colegas de sector para contar o insólito episódio. Nasceu ali uma inside joke que durou anos, durante os quais nos referimos aos Xutos & Pontapés de forma trocista como "É Xutos, pá!".

É clichê dizer-se que só se dá o devido valor às coisas quando as perdemos. E é um clichê dizer-se isto porque é absolutamente verdade. Viver fora do país ensina muita coisa e se ser emigrante não me deu (ainda!) para gostar de fado, permitiu-me em contrapartida perceber a verdadeira magnitude dos Xutos. E que o meu colega tinha razão.

Não é que eu tivesse falta de know-how de Xutos. Os êxitos, obviamente que os conhecia a todos. E como não? Eles são parte do património intelectual de Portugal, é impossível não os saber de cor. Mais, os Xutos são das bandas que vi ao vivo mais vezes — 6 no total, só atrás do David Gilmour com 8 vezes. O primeiro concerto que fui ver sem o meu Pai, foi Xutos em Lloret Del Mar (quer dizer, 'ver' é como quem diz; mas garantem-me que estive lá e tenho uma t-shirt para o provar). E no entanto, com tantos Xutos na minha vida, faltava-me ainda OUVIR os Xutos & Pontapés; faltava-me prestar atenção ao que têm para dizer, principalmente quando eles tinham tanto para dizer, em álbuns como "Cerco" de 1985 (o primeiro da formação clássica da banda) e "Circo de Feras" de 1987. Álbuns que moldam uma vida. Como estão a moldar a minha agora.

Tenho a firme convicção que a música nos chega apenas quando estamos preparados para ela. Toda a música nos chega no tempo certo, porque mesmo que chegue antes, não importa, não a vamos ouvir devidamente. A entrada da música dos Xutos & Pontapés em forma de torrente nesta fase da minha vida comprova esta teoria, ou não fosse o reportório da banda de Almada uma verdadeira linha de apoio ao emigrante.

É estranho que nenhum dos Xutos tenha, de facto, emigrado. Porque está lá tudo. Há as referências óbvias, como "as saudades que eu já tinha da minha alegre casinha", mas isso soa-me emocionalmente vápido — como a maioria do alinhamento do álbum "88"; não sei se por sobre-produção, se por sobre-reprodução — , quando comparado com a crueza bruta e honesta das canções de "Cerco". É aqui que o meu coração encalha, nos amores perdidos de "Conta-me Histórias", ou nas vidas perdidas de "Homem do Leme" (não se deixem enganar, procurem a versão original, incluída no álbum; é essa que querem ouvir) — "Sozinho na noite, um barco ruma, para onde vai? / Uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder".

Mas há muito mais de onde esta veio. "Contentores", de "Circo de Feras", é uma mina de referências à mudança de vida: "Carga pronta e metida nos contentores, adeus aos meus amores que me vou p'ra outro mundo / Mudaram todas as cores, rugem baixinho os motores e numa força invencível, deixo a cidade natal / É uma escolha que se faz, o passado foi lá atrás" — é a fuga para outro lugar, longe das raízes, sem olhar para trás. "Vida Malvada", do mesmo álbum, segue-lhe o rasto: "Adeus às praias cheias de gente e um beijo p'ra quem fica". Mas o maior catalisador motivacional (e obra-prima maior dos Xutos?) tem que ser o eufórico, revoltado e até provocatório "N'América": "Eu vou ter que sair, eu vou ter que partir / Finalmente vais ver, o que é que eu iria ser, o que é que eu iria ter... n' Américaaa". Sublime retrato do estado de espírito de quem muda de vida.



É aquela rara e preciosa sensação Springsteeniana que estão a falar comigo; que alguém, um dia, tomou notas e escreveu música sobre a minha vida. Não importa o seu significado original, porque eu tomei estas canções para mim. São minhas, agora. São sobre o meu commute diário, sobre os dramas e alegrias da minha vida em Londres, ou simplesmente a banda sonora enquanto corro desalmado para o metro, para tentar vencer o mau hábito de chegar atrasado.

"E quando as nuvens partirem, o céu azul ficará / E quando as trevas se abrirem, vais ver o sol brilhará" ("Não Sou O Único") é bálsamo para os ouvidos de quem está numa terra onde nunca se vê o sol. E no entanto, tal como em "Vida Malvada", ando de "óculos escuros a torto e a direito" (já me perguntaram se tenho algum problema), porque a ouvir Xutos, na minha cabeça o sol brilha. Bem, pensando melhor, talvez tudo isto seja um exercício de olhar para trás. Mas como não? Portugal continua a ser a minha casa. E os Xutos aproximam-me da minha casinha.



P.S.: Apesar de ter passado estes anos todos a gozar com o "É Xutos, pá!", a verdade é que fui lá mesmo pedir Xutos como o meu colega pediu. O DJ pôs a "Casinha" e foi uma maravilha.

P.P.S.: Dizem que só damos valor ao que não temos e só elogiamos quem já cá não está (o que é verdade, como vimos em cima). Pois bem, vou por isso aproveitar para me antecipar ao guião e deixar a minha homenagem ao meu Xuto preferido — o João Cabeleira. Sem desprimor para os outros Xutos, o Cabeleira tem algo que os separa dos demais. É mais sujo. É mais perigoso. É mais repugnante. E digo isto no melhor dos sentidos. O ar hardcore tem correspondência com o som que sai da sua guitarra, a esborratar continuamente a pintura de fino toque da secção rítmica composta pelo Tim, Kalú e Zé Pedro. Citando a minha mãe quando me quer chamar de javardola, é "uns a limpar por um lado e outros a sujar pelo outro". É isso que o João Cabeleira faz às canções dos Xutos & Pontapés. E ainda bem, que é assim que eu gosto dos meus Xutos — quanto mais sujos, melhor.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Os budas dos subúrbios

Nos subúrbios de Londres ferve Rock 'n' Roll que anseia sair

Quinta-Feira, seis da tarde. À porta de uma pequena loja de discos nos subúrbios de Londres, para lá da Zona 9, forma-se uma fila a perder de vista. O motivo? Tocava uma banda que ia ali apresentar o seu álbum de estreia. Sim, leram bem. Nenhum álbum lançado e já aquele frenesim. Mas quem? Perguntei à menina do balcão da loja — The Magic Gang, responde ela (ler com acentos nos aas — "mágic gáng"), seguríssima da resposta. Eu aceno afirmativamente, como quem diz com o queixo "muito bem, gosto muito". Nunca ouvi falar. Fuck me, que vergonha. O que é que eu estou a fazer neste fim de mundo suburbano, anyway? O amor ao Rock 'n' Roll tem coisas incríveis. Saio para a rua e vejo que a fila já dá a volta ao quarteirão. Quem é que veio ao concerto? Sendo uma banda rock, a audiência é obviamente mais velha; homens e mulheres acima dos 40 anos, munidos de casacos de cabedal espojados, a cheirar a mofo, comprados quando o Kurt Cobain ainda era vivo. Só que não.

Na verdade, a fila é constituída quase exclusivamente por miúdos abaixo dos 18 anos, que devem ter corrido para a loja ao toque de saída da Community School lá do sítio. É uma fila extensa, jovem e muito barulhenta. Principalmente a franja feminina, que a páginas tantas rebenta em histeria quando o guitarrista — denunciado pelo instrumento a tiracolo — se aproxima para falar com uma das meninas. "See you later!", diz ele em voz alta, exponenciando o entusiasmo daquele grupo juvenil. Eu? Fico à distância, a observar aquela intensa interação sociológica — um coito platónico, até porque a idade das meninas não dava para maluqueiras maiores. No alto dos meus 32 anos, devo ser o mais velho naquele passeio, já estou contando com a própria banda (o mais velho é Kristian Smith, com 25). Adoro tudo o que se está a passar à minha volta. A electricidade no ar é evidente, quase tão evidente como o frio obsceno que a corrente polar trouxe a Londres. Mas naquela fila nos subúrbios londrinos, o Rock 'n' Roll aquece o coração das adolescentes. Ali não se sente o frio. E que bonito é ver aquele amor genuíno pela música.

Quem disse que o Rock está morto? Ele vive e borbulha por aí, nas pequenas lojas de música nos subúrbios das metrópoles. E a julgar pela amostra aqui, há fome de Rock na juventude. Hajam bandas com ganas para nos satisfazer a gula e juntar-se-á a fome à vontade de comer. Eu é que já estou velho para estas andanças, mas isso é outra conversa. Não, não fui ao concerto. O que é que foi? Antes de julgarem, atentem nos números: 32 anos; 0 graus centígrados; 7 da tarde; a pé desde as 5 da manhã. A matemática fala por si — era hora de ir para casa, que o jantar não se faz sozinho e nem só de Rock eu me alimento. Até porque ainda me esperava hora e meia de caminho no regresso ao centro de Londres. Meti-me no autocarro, liguei o Spotify e lá fui eu ouvir os The Magic Gang pelo caminho.

O veredicto dos rapazes de Brighton? São uma banda de pop melódica (que hoje vai fatalmente para a vala comum do Indie Rock) de audição fácil e um inusitado arrojo para dar posição frontal às guitarras. São solos curtos e esporádicos, é certo, mas para quem quer ser ouvido na rádio nos dias que correm, é um sinal de coragem. O melhor tema da banda, "All That I Want Is You", demonstra isto mesmo. Em baixo está a versão original, incluída no EP de 2016, sendo que o tema foi-me  regravado para o álbum de estreia, homónimo, lançado esta semana.



O grande problema dos The Magic Gang? São muito lavadinhos e têm um ar demasiado amigável para o meu gosto. Será preciso maior audácia para que uma banda Rock volte a conquistar o mundo. Essa banda não será com certeza os The Magic Gang. Mas hey, a música é boa e haverá sempre espaço para bandas de bons rapazes.

P.S.: Para quem não é um book buff (ou um Bowie buff), o titulo da crónica e uma referência ao romance de Hanif Kureishi, sobre um adolescente desesperado por abandonar os subúrbios do Sul de Londres.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Definitivamente talvez

"I can't tell you the way I feel, because the way I feel is all so new to me", ou os altos e baixos da vida de um novo Londoner.



Dia 1 — 5:00

O que é que eu fui fazer à minha vida?

Eu tinha tudo. Uma vida tranquila, uma casa na praia, um emprego estável, carro pago ao banco, tudo. O que me terá então passado pela cabeça, para mandar tudo ao ar e ir para Londres correr atrás de uma fantasia? O que raio fui eu fazer à minha vida?!

Era só este pensamento que me martelava em loop enquanto me olhava ao espelho àquela hora - às 5 da porra da manhã, hora obscena a que estou obrigado a me levantar para fazer o commute diário para o trabalho. Mas isto são horas para alguém que não sofra de incontinência "já" estar de pé? Se ainda fosse "ainda"... Logo eu, um noctívago, dorminhoco inato, que tantas vezes me levantei às 9:00 em dias de semana, depois de vencer o despertador pelo cansaço de tanto tocar. Logo eu, um atrasadista por excelência, que nunca cheguei a horas a coisa nenhuma, nem sequer a entrevistas de empregos onde fiquei (incluindo este). Logo eu, que sempre desconfiei de pessoas que chegam a horas. Logo eu, que sempre olhei para quem acorda com a pica toda (morning fucking people) como um sinal desviante de sociopatia. Logo eu, que sou este somatório de indigências sociológicas, fui meter-me na terra conhecida mundialmente pela pontualidade.

Àquela hora estranha para um ser humano estar acordado, depois de uma noite dormida em blocos de hora-e-meia, só me ecoavam na cabeça as palavras da minha avó de 95 anos (parece-me importante sublinhar a longevidade da senhora), que me ligara na noite anterior em prantos, a perguntar "meu filho, o que foste fazer à tua vida?!". Sei lá, Vó. Sei lá.

Como em todos os outros precipícios da minha vida, sempre o mesmo arnês na hora da queda. A música. Nas colunas tocava "Definitely Maybe" dos Oasis. O álbum que me me salvou a vida quando tinha 15 anos, veio outra vez em meu socorro e estava ali a segurar-me a mão. Firme. Não deixa cair.
"There we were, now here we are; all this confusion, nothing's the same to me" / "I can't tell you the way I feel, because the way I feel is all so new to me", cantava Liam Gallagher em "Columbia", alinhando versos com o que eu sentia naquela manhã. Da cabeça confusa de um adolescente para a de um adulto não menos confuso, foi um pequeno salto. Levantei a cabeça, penteei o cabelo à Londoner e saí de casa a sentir-me "Supersonic".


Dia 1 — 8:06

Quando cheguei ao trabalho, tinha uma surpresa à espera. Não, não era a carta de despedimento por ter chegado atrasado OUTRA VEZ, logo no meu primeiro dia. Não. Já me tinham dado trabalho. Que era nem mais nem menos que parte do projecto de reabilitação da Battersea Power Station. A BATTERSEA POWER STATION! Para quem não sabe, é a central termoeléctrica na margem sul do Tamisa que aparece na capa do álbum "Animals" dos Pink Floyd e que eu só não classifico taxativamente como a capa mais fixe de sempre, porque os Pink Floyd têm outras artworks que também são as mais fixes de sempre. E sim, eu tenho a perfeita noção que tenho um problema com a exclusividade do conceito de "melhor de sempre". Já me disseram.


Mas isto? Isto é a Battersea Power Station! Aqui não há dúvidas, é mesmo o meu edifício preferido de sempre! Aquele que eu desenhava no caderno quando tinha 12 anos. É o meu sonho. Não, corrijo, nem nos meus sonhos me vi a trabalhar aqui. É um sinal! Só pode ser um sinal que estou no sítio certo, que fiz a escolha certa, que tudo estava escrito e destinado! Agora não é só "in my mind my dreams are real" ("Rock 'n' Roll Star"). Agora é aqui mesmo em carne, osso, betão e estrutura metálica. Tudo aconteceu por uma razão, todas as estradas vieram dar aqui.


Dia 1 — 18:16

Saí da estação de Earls Court, atravessei a estrada e fiz aqueles 100 metros até minha casa em lágrimas. Não sei se por tristeza, se por alegria. Estava assustado com todas as mudanças, mas ollhava à minha volta e via uma beleza idílica, parecia um filme. Finalmente cumpriu-se Londres. "These could be the best days of our lives, but I don't think we've been living very wise" ("Digsy's Dinner"). Naquele momento, tive a certeza que tomara a decisão correcta. Tudo parecia fazer sentido.

Entro em casa e percebo que não havia aquecimento. A senhoria não queria saber disso nem dos outros problemas da casa. E logo percebi que afinal nada era perfeito. Meu Freddie, o que raio fui fazer à minha vida? Intercalo agora períodos de êxtase indescritível com arrependimentos madalénicos. É difícil explicar a montanha-russa emocional onde viajo por estes dias. É muita coisa a acontecer ao mesmo tempo e sinto que a minha cabeça vai explodir. O meu sonho londrino está definitivamente a ser um desastre. Ou talvez o sonho seja mesmo assim. Talvez se fosse de outra forma não seria tão bom. Talvez tenha tomado mesmo a decisão certa em vir atrás da minha fantasia. Fuck knows. Definitivamente talvez.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O homem de Londres

A história do melhor tema de James Bond que nunca o foi.

Um dos maiores elogios que recebi em toda a minha vida foi de uma paixão que durou apenas 3 dias em Londres. Há amores que são assim — só existem numa determinada janela de espaço e tempo. Passadas as portas da Martini na Portela, o turbilhão desvaneceu tão rapidamente como aparecera; mas naquelas 72 horas, parecia que não havia mais nada do mundo. Era toda a música no mundo, todas as cores e todos os sonhos ao mesmo tempo, condensados numa só tempestade adamastora que lavrava tudo à sua passagem.

Encostados ao muro junto ao rio, a olhar para a Tower Bridge depois de um beijo apaixonado, ela virou-se para mim com um olhar encantado e disse-me que o que mais a impressionava em mim é que eu parecia não ter medo de nada. Sem perceber a tragédia do verdadeiro alcance das suas palavras, sorri e por um momento, senti-me o James Bond.

Toda a minha vida fantasiei com duas coisas: ser uma estrela de Rock n Roll e o James Bond. Por isso senti as palavras dela foram como um enorme elogio, mas nem por isso tirei quaisquer dividendos deste destemor. A verdade é que o medo não é mais que uma consequência das experiências negativas. É um sinal de inteligência emocional. Esta minha estúpida falta de medo deve-se ao facto de ter sido abençoado com a maldição de não aprender com as experiências anteriores e por isso não ter medo de cair nos mesmos erros uma e outra vez. Talvez por isso tenha sempre sentido esta atracção irresistível pelo perigo e pelo erro iminente. E como tal, não tenho medo de nada.



Man-o-war is very melodramatic. Too melodramatic. When we started out, it was just a homage to Bond themes really. I like it. It's pretty much the opposite to everything we're writing."

Os Radiohead escreveram "Man Of War" nos anos 90, por alturas do álbum "The Bends", como uma homenagem aos Bond themes, na expectativa de um dia a EoN (produtora dos filmes do James Bond) ligar à banda com o convite — no documentário "Meeting People Is Easy", podemos ver a banda em estúdio a gravar o tema. O telefone nunca tocou e "Man Of War" ficou na gaveta durante 20 anos, até ao ano passado, quando finalmente viu a luz do dia na reedição de "OK Computer".

A chamada da EoN chegaria finalmente em 2015 e, mel para os Radiohead, eles tinham exactamente o que a EoN. Só que perversamente, a EoN não quis "Man Of War", por ser um tema antigo. Como tal, os Radiohead gravaram "Spectre", o qual foi igualmente rejeitado por ser demasiado sombrio. Em última instância foi chamado Sam Smith, que acabaria por editar o deveras underwhelming "Writing On The Wall", tema competente mas desprovido de alma.

Na verdade, "Man Of War" talvez fosse demasiado complexo para o retrato que a EON quer fazer do James Bond nos seus filmes. Na visão original de Ian Fleming, James Bond é um assassino. Plain and simple. É um homem com mais morte e menos swing que a série de filmes quer fazer crer. Mas acima de tudo, é um homem. Um homem igual aos outros, com medos, desejos e anseios. A morte dos outros é a forma que Bond encontrou para compensar a sua própria morte interior. E é assim que os Radiohead se atrevem a caracterizá-lo.

"Drunken confessions and hijacked affairs just make you more alone"

O que mais me fascina na personagem do James Bond é o que estará por trás do homem infalível que vemos no ecrã. Nas cenas nunca mostradas, quando a câmara desliga e a missão está descomprometida, de certeza que detrás de todas aquelas conquistas há um homem que bebe uns copos a mais e conta os seus segredos a pessoas que conhece há tempo de menos para os saberem; que pega no carro bezano e conduz sem medo pelas curvas de Monte Carlo, em busca de respostas para os seus tormentos; que vai para Londres em busca das cores e encontra cinzento; que anseia pelo momento em que chega a miúda que lhe diz "és a minha Rock 'n' Roll Star".

"Man Of War" retrata este herói solitário e perturbado, um homem sozinho que vive com o peso d'"a missão" nos seus ombros. É o melhor tema de James Bond que nunca o foi. A recusa da EoN faz com que "Man Of War" deixe de ser necessariamente sobre Bond e passe a ser sobre quem quer que viva oblívio do medo e do perigo que espreita a cada esquina. Até finalmente perceber que Londres não tem finais felizes.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Estamos vivos — Uma reflexão sobre o Rock em 2018

O labirinto que cerca o Rock e a procura de uma saída

O Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell em trabalho e rocker a tempo inteiro, mexeu com as águas esta semana. Bastou-lhe despejar a alma numas linhas de um jornal para que, neste mundo beije e insípido onde o politicamente correcto reina e todos temem ter uma opinião, ele fosse imediatamente notícia. Não estranho. Numa crónica publicada no Jornal de Leiria, o Fernando discorre sobre os cronistas de Lisboa "de todo o peido que a Madonna dá", que dão o Rock como "uma coisa ultrapassada, para gente “fatela” e “burra”". Ora, eu também sou um cronista de Lisboa e embora não me sinta um dos visados (ou não fosse um fellow rocker a tempo inteiro), o tema é por demais pertinente para me passar ao lado. Até porque se o assunto é Rock 'n' Roll (e a sua tão propalada morte), então é comigo também.

Concordo com o Fernando em grande parte do texto. Adorei a metáfora da família do Rock "sentada à mesa, a comer com as mãos, a beber da garrafa e a abanar a cabeça". Retrata bem essa maravilhosa maluqueira que é o Rock, que nos mantém indefectíveis mesmo quando partimos quatro dedos de um pé num moshpit no Alive, ou mesmo quando levamos um pontapé nas partes baixas num concerto dos Metallica — ambas comigo, sim. São ossos do ofício. É o prazer em quebrar as regras, um escape das nossas vidas mundanas. E é essa visão de família que sinto quando olho para o tio Axl a ajudar o tio Angus a repor o carvão no comboio dos AC/DC, para que este continue a rolar infinitamente por essa linha fora.

Relativamente à morte do Rock 'n' Roll, desde os anos 60 que ela é declarada semanalmente e no entanto ele continua aí. O Rock é dado como moribundo nas publicações, mas vemo-lo de boa saúde na venda de bilhetes para espectáculos — veja-se a loucura na procura para o Alive, para os Metallica e para os U2. É dado como fora de moda, mas a venda de t-shirts (até nas lojas mais mainstream) mostram que o Rock é que tem ainda as marcas mais cool do mercado. Por isso não se deixem levar pelas notícias — o Rock está bem vivo. O que não significa que o panorama seja só de rosas. Ignorar o complexo labirinto onde o Rock está colocado é contribuir para a sua marginalização. O que também não significa que seja um mau prenúncio. Mas vamos por partes.

O labirinto onde o Rock está metido é complexo. Por um lado, há um claro défice de investimento nas bandas Rock, tanto monetário por parte das editoras, como social por parte dos media. Sem o dinheiro nem a projecção de outros tempos, as bandas vêem-se com menos recursos e menos tempo para criar as obras grandiosas do passado. Os tempos dos adiantamentos de milhões para a gravação de um álbum já lá vão e isso, inevitavelmente, vai reflectir-se na qualidade do material. Porque por cada "Chinese Democracy" há um "A Night At The Opera" ou um "The Seeds Of Love".

Por outro lado, se esse investimento megalómano porventura existir (pela própria banda, por exemplo), o lucro com as vendas em formatos físicos não vai justificar a despesa. Os tempos mudaram e com as novas formas de ouvir música e a migração para as plataformas de streaming, o investimento na criação da música Rock — mais caro que a EDM ou que o Hip Hop, onde basta um laptop para "fazer" música — deixou de compensar. As bandas veêm-se encurraladas neste ciclo vicioso do qual é complicado sair. A solução que encontraram para recuperar rendimentos foram longas digressões após longas digressões, interrompidas por um "novo álbum", muitas vezes apenas como pretexto para ir novamente para a estrada. E por isso chegamos a este ponto curioso — perverso, até — em que numa altura que se ouve cada vez mais música, os artistas passem cada vez mais por dificuldades. O reavivamento do mercado do vinil e a aposta nos (meus tão amados) boxed sets veio equilibrar um pouco as coisas e a aposta na valorização da música é um dos caminhos, mas os puristas e os coleccionadores não deixam de ser apenas um nicho do mercado.

Antes que venham com a questão da pirataria, esqueçam. Ela sempre existiu e está aqui desmistificada. Porque não é a restringir a audição e a perseguir os ouvintes que os miúdos se vão apaixonar pela música, pelas bandas e pelas suas histórias, O que é preciso é deixar as pessoas apaixonarem-se pela música. As pessoas fazem as coisas mais incríveis por amor. Até comprar discos. Uma porrada deles.

Independentemente das vendas físicas, a transição para o streaming é evidente, pelo que terão que ser essas plataformas — que vieram, em parte, substituir o papel das "editoras" — a compensar melhor os artistas pela sua música e até a investir neles; mas isso implica uma negociação complexa, da qual estamos ainda muito longe. A não ser, claro, que estejamos a falar de "marcas" já estabelecidas, com poder de alavancagem suficiente para negociar. Foi o caso dos Beatles, que por causa disto mesmo, só recentemente entraram no Spotify. E aqui reside outra questão importante na marginalização do Rock — a falta de "marcas" novas.

Se pensarmos em cada banda (ou artista) como uma "marca", em que marcas é que os novos investidores preferem apostar? Se virmos as bandas novas axiomaticamente como marcas de risco e as bandas mais antigas e já estabelecidas como marcas seguras, a resposta é fácil. A falta de "marcas" novas acaba por ser o grande problema dos media, nomeadamente das publicações musicais, problema esse do qual são ao mesmo tempo réus e vítimas. Vítimas, porque não são eles os principais culpados do que está a acontecer, sendo apenas um peão (um cavalo, vá) nesse grande tabuleiro de xadrez; réus, porque não fazem nada para mudar o estado das coisas e deixam simplesmente a coisa andar, até finalmente afundarem elas mesmas — casos da NME, Rolling Stone e, obviamente, da Blitz.

Depois há a questão da projecção social. Com a falta de promoção por parte das editoras, as bandas são obrigadas a auto-promover-se. Mas o mundo está hoje pejado de um falso e pútrido puritanismo que disseca todas as opiniões (ou meros desabafos nas redes sociais), confunde a criação com o criador e tritura quem se atreve a pensar pela sua cabeça. Não é por isso fácil ser-se um jovem rocker com ideias fortes e vontade de transcender as regras. Se estas fugirem do status quo, um bocadinho que seja, cai uma shitstorm sobre ele e lá se vai o seu trabalho. Nem para os velhos a coisa está fácil. Perguntem ao Cid, humilhado por causa de uma piada; ou ao Reininho, indignadamente expulso de um programa da RTP. Ser um homem livre é algo que se paga e em Portugal paga-se a dobrar.

Com o panorama mirrado em "estrelas" beije e com pouco brilho, fica difícil vender revistas. Principalmente quando elas estão demasiado preocupadas em encaixar nos "novos tempos", ou então com medo de apostar em alguém com um discurso mais anguloso, não vá o alvo ser apontado para eles também. É de facto, um ciclo vicioso.

Há também o argumento que tudo está feito. Que o Rock está esgotado e só estamos a repetir os ases do passado. Isto é historicamente falso. Desde a sua invenção que o Rock teve a capacidade de se reinventar sempre —Prog, Punk, Metal, Grunge, Britpop, Indie e por aí fora. Há sempre espaço mais uma mutação. E porquê? Porque o Rock está sempre aí em quem o ama e olhem à vossa volta — somos muitos. Enquanto houver rockers, haverá Rock. E aqui recupero o argumento do início, que esta marginalização do Rock não tem de ser forçosamente um mau prenúncio. Porque todas as grandes explosões, todos os grandes movimentos do passado, começaram assim. Debaixo do radar. A mensagem continua a mesma do célebre concerto do Liceu D. Pedro V em Maio de 1979, onde os Xutos & Pontapés fizeram a sua segunda actuação ao vivoEstamos vivos. Pela minha parte, enquanto eu viver e me for dado espaço para difundir o Rock, nestas linhas ele viverá.