quinta-feira, 22 de março de 2018

Os budas dos subúrbios

Nos subúrbios de Londres ferve Rock 'n' Roll que anseia sair

Quinta-Feira, seis da tarde. À porta de uma pequena loja de discos nos subúrbios de Londres, para lá da Zona 9, forma-se uma fila a perder de vista. O motivo? Tocava uma banda que ia ali apresentar o seu álbum de estreia. Sim, leram bem. Nenhum álbum lançado e já aquele frenesim. Mas quem? Perguntei à menina do balcão da loja — The Magic Gang, responde ela (ler com acentos nos aas — "mágic gáng"), seguríssima da resposta. Eu aceno afirmativamente, como quem diz com o queixo "muito bem, gosto muito". Nunca ouvi falar. Fuck me, que vergonha. O que é que eu estou a fazer neste fim de mundo suburbano, anyway? O amor ao Rock 'n' Roll tem coisas incríveis. Saio para a rua e vejo que a fila já dá a volta ao quarteirão. Quem é que veio ao concerto? Sendo uma banda rock, a audiência é obviamente mais velha; homens e mulheres acima dos 40 anos, munidos de casacos de cabedal espojados, a cheirar a mofo, comprados quando o Kurt Cobain ainda era vivo. Só que não.

Na verdade, a fila é constituída quase exclusivamente por miúdos abaixo dos 18 anos, que devem ter corrido para a loja ao toque de saída da Community School lá do sítio. É uma fila extensa, jovem e muito barulhenta. Principalmente a franja feminina, que a páginas tantas rebenta em histeria quando o guitarrista — denunciado pelo instrumento a tiracolo — se aproxima para falar com uma das meninas. "See you later!", diz ele em voz alta, exponenciando o entusiasmo daquele grupo juvenil. Eu? Fico à distância, a observar aquela intensa interação sociológica — um coito platónico, até porque a idade das meninas não dava para maluqueiras maiores. No alto dos meus 32 anos, devo ser o mais velho naquele passeio, já estou contando com a própria banda (o mais velho é Kristian Smith, com 25). Adoro tudo o que se está a passar à minha volta. A electricidade no ar é evidente, quase tão evidente como o frio obsceno que a corrente polar trouxe a Londres. Mas naquela fila nos subúrbios londrinos, o Rock 'n' Roll aquece o coração das adolescentes. Ali não se sente o frio. E que bonito é ver aquele amor genuíno pela música.

Quem disse que o Rock está morto? Ele vive e borbulha por aí, nas pequenas lojas de música nos subúrbios das metrópoles. E a julgar pela amostra aqui, há fome de Rock na juventude. Hajam bandas com ganas para nos satisfazer a gula e juntar-se-á a fome à vontade de comer. Eu é que já estou velho para estas andanças, mas isso é outra conversa. Não, não fui ao concerto. O que é que foi? Antes de julgarem, atentem nos números: 32 anos; 0 graus centígrados; 7 da tarde; a pé desde as 5 da manhã. A matemática fala por si — era hora de ir para casa, que o jantar não se faz sozinho e nem só de Rock eu me alimento. Até porque ainda me esperava hora e meia de caminho no regresso ao centro de Londres. Meti-me no autocarro, liguei o Spotify e lá fui eu ouvir os The Magic Gang pelo caminho.

O veredicto dos rapazes de Brighton? São uma banda de pop melódica (que hoje vai fatalmente para a vala comum do Indie Rock) de audição fácil e um inusitado arrojo para dar posição frontal às guitarras. São solos curtos e esporádicos, é certo, mas para quem quer ser ouvido na rádio nos dias que correm, é um sinal de coragem. O melhor tema da banda, "All That I Want Is You", demonstra isto mesmo. Em baixo está a versão original, incluída no EP de 2016, sendo que o tema foi-me  regravado para o álbum de estreia, homónimo, lançado esta semana.



O grande problema dos The Magic Gang? São muito lavadinhos e têm um ar demasiado amigável para o meu gosto. Será preciso maior audácia para que uma banda Rock volte a conquistar o mundo. Essa banda não será com certeza os The Magic Gang. Mas hey, a música é boa e haverá sempre espaço para bandas de bons rapazes.

P.S.: Para quem não é um book buff (ou um Bowie buff), o titulo da crónica e uma referência ao romance de Hanif Kureishi, sobre um adolescente desesperado por abandonar os subúrbios do Sul de Londres.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Definitivamente talvez

"I can't tell you the way I feel, because the way I feel is all so new to me", ou os altos e baixos da vida de um novo Londoner.



Dia 1 — 5:00

O que é que eu fui fazer à minha vida?

Eu tinha tudo. Uma vida tranquila, uma casa na praia, um emprego estável, carro pago ao banco, tudo. O que me terá então passado pela cabeça, para mandar tudo ao ar e ir para Londres correr atrás de uma fantasia? O que raio fui eu fazer à minha vida?!

Era só este pensamento que me martelava em loop enquanto me olhava ao espelho àquela hora - às 5 da porra da manhã, hora obscena a que estou obrigado a me levantar para fazer o commute diário para o trabalho. Mas isto são horas para alguém que não sofra de incontinência "já" estar de pé? Se ainda fosse "ainda"... Logo eu, um noctívago, dorminhoco inato, que tantas vezes me levantei às 9:00 em dias de semana, depois de vencer o despertador pelo cansaço de tanto tocar. Logo eu, um atrasadista por excelência, que nunca cheguei a horas a coisa nenhuma, nem sequer a entrevistas de empregos onde fiquei (incluindo este). Logo eu, que sempre desconfiei de pessoas que chegam a horas. Logo eu, que sempre olhei para quem acorda com a pica toda (morning fucking people) como um sinal desviante de sociopatia. Logo eu, que sou este somatório de indigências sociológicas, fui meter-me na terra conhecida mundialmente pela pontualidade.

Àquela hora estranha para um ser humano estar acordado, depois de uma noite dormida em blocos de hora-e-meia, só me ecoavam na cabeça as palavras da minha avó de 95 anos (parece-me importante sublinhar a longevidade da senhora), que me ligara na noite anterior em prantos, a perguntar "meu filho, o que foste fazer à tua vida?!". Sei lá, Vó. Sei lá.

Como em todos os outros precipícios da minha vida, sempre o mesmo arnês na hora da queda. A música. Nas colunas tocava "Definitely Maybe" dos Oasis. O álbum que me me salvou a vida quando tinha 15 anos, veio outra vez em meu socorro e estava ali a segurar-me a mão. Firme. Não deixa cair.
"There we were, now here we are; all this confusion, nothing's the same to me" / "I can't tell you the way I feel, because the way I feel is all so new to me", cantava Liam Gallagher em "Columbia", alinhando versos com o que eu sentia naquela manhã. Da cabeça confusa de um adolescente para a de um adulto não menos confuso, foi um pequeno salto. Levantei a cabeça, penteei o cabelo à Londoner e saí de casa a sentir-me "Supersonic".


Dia 1 — 8:06

Quando cheguei ao trabalho, tinha uma surpresa à espera. Não, não era a carta de despedimento por ter chegado atrasado OUTRA VEZ, logo no meu primeiro dia. Não. Já me tinham dado trabalho. Que era nem mais nem menos que parte do projecto de reabilitação da Battersea Power Station. A BATTERSEA POWER STATION! Para quem não sabe, é a central termoeléctrica na margem sul do Tamisa que aparece na capa do álbum "Animals" dos Pink Floyd e que eu só não classifico taxativamente como a capa mais fixe de sempre, porque os Pink Floyd têm outras artworks que também são as mais fixes de sempre. E sim, eu tenho a perfeita noção que tenho um problema com a exclusividade do conceito de "melhor de sempre". Já me disseram.


Mas isto? Isto é a Battersea Power Station! Aqui não há dúvidas, é mesmo o meu edifício preferido de sempre! Aquele que eu desenhava no caderno quando tinha 12 anos. É o meu sonho. Não, corrijo, nem nos meus sonhos me vi a trabalhar aqui. É um sinal! Só pode ser um sinal que estou no sítio certo, que fiz a escolha certa, que tudo estava escrito e destinado! Agora não é só "in my mind my dreams are real" ("Rock 'n' Roll Star"). Agora é aqui mesmo em carne, osso, betão e estrutura metálica. Tudo aconteceu por uma razão, todas as estradas vieram dar aqui.


Dia 1 — 18:16

Saí da estação de Earls Court, atravessei a estrada e fiz aqueles 100 metros até minha casa em lágrimas. Não sei se por tristeza, se por alegria. Estava assustado com todas as mudanças, mas ollhava à minha volta e via uma beleza idílica, parecia um filme. Finalmente cumpriu-se Londres. "These could be the best days of our lives, but I don't think we've been living very wise" ("Digsy's Dinner"). Naquele momento, tive a certeza que tomara a decisão correcta. Tudo parecia fazer sentido.

Entro em casa e percebo que não havia aquecimento. A senhoria não queria saber disso nem dos outros problemas da casa. E logo percebi que afinal nada era perfeito. Meu Freddie, o que raio fui fazer à minha vida? Intercalo agora períodos de êxtase indescritível com arrependimentos madalénicos. É difícil explicar a montanha-russa emocional onde viajo por estes dias. É muita coisa a acontecer ao mesmo tempo e sinto que a minha cabeça vai explodir. O meu sonho londrino está definitivamente a ser um desastre. Ou talvez o sonho seja mesmo assim. Talvez se fosse de outra forma não seria tão bom. Talvez tenha tomado mesmo a decisão certa em vir atrás da minha fantasia. Fuck knows. Definitivamente talvez.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O homem de Londres

A história do melhor tema de James Bond que nunca o foi.

Um dos maiores elogios que recebi em toda a minha vida foi de uma paixão que durou apenas 3 dias em Londres. Há amores que são assim — só existem numa determinada janela de espaço e tempo. Passadas as portas da Martini na Portela, o turbilhão desvaneceu tão rapidamente como aparecera; mas naquelas 72 horas, parecia que não havia mais nada do mundo. Era toda a música no mundo, todas as cores e todos os sonhos ao mesmo tempo, condensados numa só tempestade adamastora que lavrava tudo à sua passagem.

Encostados ao muro junto ao rio, a olhar para a Tower Bridge depois de um beijo apaixonado, ela virou-se para mim com um olhar encantado e disse-me que o que mais a impressionava em mim é que eu parecia não ter medo de nada. Sem perceber a tragédia do verdadeiro alcance das suas palavras, sorri e por um momento, senti-me o James Bond.

Toda a minha vida fantasiei com duas coisas: ser uma estrela de Rock n Roll e o James Bond. Por isso senti as palavras dela foram como um enorme elogio, mas nem por isso tirei quaisquer dividendos deste destemor. A verdade é que o medo não é mais que uma consequência das experiências negativas. É um sinal de inteligência emocional. Esta minha estúpida falta de medo deve-se ao facto de ter sido abençoado com a maldição de não aprender com as experiências anteriores e por isso não ter medo de cair nos mesmos erros uma e outra vez. Talvez por isso tenha sempre sentido esta atracção irresistível pelo perigo e pelo erro iminente. E como tal, não tenho medo de nada.



Man-o-war is very melodramatic. Too melodramatic. When we started out, it was just a homage to Bond themes really. I like it. It's pretty much the opposite to everything we're writing."

Os Radiohead escreveram "Man Of War" nos anos 90, por alturas do álbum "The Bends", como uma homenagem aos Bond themes, na expectativa de um dia a EoN (produtora dos filmes do James Bond) ligar à banda com o convite — no documentário "Meeting People Is Easy", podemos ver a banda em estúdio a gravar o tema. O telefone nunca tocou e "Man Of War" ficou na gaveta durante 20 anos, até ao ano passado, quando finalmente viu a luz do dia na reedição de "OK Computer".

A chamada da EoN chegaria finalmente em 2015 e, mel para os Radiohead, eles tinham exactamente o que a EoN. Só que perversamente, a EoN não quis "Man Of War", por ser um tema antigo. Como tal, os Radiohead gravaram "Spectre", o qual foi igualmente rejeitado por ser demasiado sombrio. Em última instância foi chamado Sam Smith, que acabaria por editar o deveras underwhelming "Writing On The Wall", tema competente mas desprovido de alma.

Na verdade, "Man Of War" talvez fosse demasiado complexo para o retrato que a EON quer fazer do James Bond nos seus filmes. Na visão original de Ian Fleming, James Bond é um assassino. Plain and simple. É um homem com mais morte e menos swing que a série de filmes quer fazer crer. Mas acima de tudo, é um homem. Um homem igual aos outros, com medos, desejos e anseios. A morte dos outros é a forma que Bond encontrou para compensar a sua própria morte interior. E é assim que os Radiohead se atrevem a caracterizá-lo.

"Drunken confessions and hijacked affairs just make you more alone"

O que mais me fascina na personagem do James Bond é o que estará por trás do homem infalível que vemos no ecrã. Nas cenas nunca mostradas, quando a câmara desliga e a missão está descomprometida, de certeza que detrás de todas aquelas conquistas há um homem que bebe uns copos a mais e conta os seus segredos a pessoas que conhece há tempo de menos para os saberem; que pega no carro bezano e conduz sem medo pelas curvas de Monte Carlo, em busca de respostas para os seus tormentos; que vai para Londres em busca das cores e encontra cinzento; que anseia pelo momento em que chega a miúda que lhe diz "és a minha Rock 'n' Roll Star".

"Man Of War" retrata este herói solitário e perturbado, um homem sozinho que vive com o peso d'"a missão" nos seus ombros. É o melhor tema de James Bond que nunca o foi. A recusa da EoN faz com que "Man Of War" deixe de ser necessariamente sobre Bond e passe a ser sobre quem quer que viva oblívio do medo e do perigo que espreita a cada esquina. Até finalmente perceber que Londres não tem finais felizes.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Estamos vivos — Uma reflexão sobre o Rock em 2018

O labirinto que cerca o Rock e a procura de uma saída

O Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell em trabalho e rocker a tempo inteiro, mexeu com as águas esta semana. Bastou-lhe despejar a alma numas linhas de um jornal para que, neste mundo beije e insípido onde o politicamente correcto reina e todos temem ter uma opinião, ele fosse imediatamente notícia. Não estranho. Numa crónica publicada no Jornal de Leiria, o Fernando discorre sobre os cronistas de Lisboa "de todo o peido que a Madonna dá", que dão o Rock como "uma coisa ultrapassada, para gente “fatela” e “burra”". Ora, eu também sou um cronista de Lisboa e embora não me sinta um dos visados (ou não fosse um fellow rocker a tempo inteiro), o tema é por demais pertinente para me passar ao lado. Até porque se o assunto é Rock 'n' Roll (e a sua tão propalada morte), então é comigo também.

Concordo com o Fernando em grande parte do texto. Adorei a metáfora da família do Rock "sentada à mesa, a comer com as mãos, a beber da garrafa e a abanar a cabeça". Retrata bem essa maravilhosa maluqueira que é o Rock, que nos mantém indefectíveis mesmo quando partimos quatro dedos de um pé num moshpit no Alive, ou mesmo quando levamos um pontapé nas partes baixas num concerto dos Metallica — ambas comigo, sim. São ossos do ofício. É o prazer em quebrar as regras, um escape das nossas vidas mundanas. E é essa visão de família que sinto quando olho para o tio Axl a ajudar o tio Angus a repor o carvão no comboio dos AC/DC, para que este continue a rolar infinitamente por essa linha fora.

Relativamente à morte do Rock 'n' Roll, desde os anos 60 que ela é declarada semanalmente e no entanto ele continua aí. O Rock é dado como moribundo nas publicações, mas vemo-lo de boa saúde na venda de bilhetes para espectáculos — veja-se a loucura na procura para o Alive, para os Metallica e para os U2. É dado como fora de moda, mas a venda de t-shirts (até nas lojas mais mainstream) mostram que o Rock é que tem ainda as marcas mais cool do mercado. Por isso não se deixem levar pelas notícias — o Rock está bem vivo. O que não significa que o panorama seja só de rosas. Ignorar o complexo labirinto onde o Rock está colocado é contribuir para a sua marginalização. O que também não significa que seja um mau prenúncio. Mas vamos por partes.

O labirinto onde o Rock está metido é complexo. Por um lado, há um claro défice de investimento nas bandas Rock, tanto monetário por parte das editoras, como social por parte dos media. Sem o dinheiro nem a projecção de outros tempos, as bandas vêem-se com menos recursos e menos tempo para criar as obras grandiosas do passado. Os tempos dos adiantamentos de milhões para a gravação de um álbum já lá vão e isso, inevitavelmente, vai reflectir-se na qualidade do material. Porque por cada "Chinese Democracy" há um "A Night At The Opera" ou um "The Seeds Of Love".

Por outro lado, se esse investimento megalómano porventura existir (pela própria banda, por exemplo), o lucro com as vendas em formatos físicos não vai justificar a despesa. Os tempos mudaram e com as novas formas de ouvir música e a migração para as plataformas de streaming, o investimento na criação da música Rock — mais caro que a EDM ou que o Hip Hop, onde basta um laptop para "fazer" música — deixou de compensar. As bandas veêm-se encurraladas neste ciclo vicioso do qual é complicado sair. A solução que encontraram para recuperar rendimentos foram longas digressões após longas digressões, interrompidas por um "novo álbum", muitas vezes apenas como pretexto para ir novamente para a estrada. E por isso chegamos a este ponto curioso — perverso, até — em que numa altura que se ouve cada vez mais música, os artistas passem cada vez mais por dificuldades. O reavivamento do mercado do vinil e a aposta nos (meus tão amados) boxed sets veio equilibrar um pouco as coisas e a aposta na valorização da música é um dos caminhos, mas os puristas e os coleccionadores não deixam de ser apenas um nicho do mercado.

Antes que venham com a questão da pirataria, esqueçam. Ela sempre existiu e está aqui desmistificada. Porque não é a restringir a audição e a perseguir os ouvintes que os miúdos se vão apaixonar pela música, pelas bandas e pelas suas histórias, O que é preciso é deixar as pessoas apaixonarem-se pela música. As pessoas fazem as coisas mais incríveis por amor. Até comprar discos. Uma porrada deles.

Independentemente das vendas físicas, a transição para o streaming é evidente, pelo que terão que ser essas plataformas — que vieram, em parte, substituir o papel das "editoras" — a compensar melhor os artistas pela sua música e até a investir neles; mas isso implica uma negociação complexa, da qual estamos ainda muito longe. A não ser, claro, que estejamos a falar de "marcas" já estabelecidas, com poder de alavancagem suficiente para negociar. Foi o caso dos Beatles, que por causa disto mesmo, só recentemente entraram no Spotify. E aqui reside outra questão importante na marginalização do Rock — a falta de "marcas" novas.

Se pensarmos em cada banda (ou artista) como uma "marca", em que marcas é que os novos investidores preferem apostar? Se virmos as bandas novas axiomaticamente como marcas de risco e as bandas mais antigas e já estabelecidas como marcas seguras, a resposta é fácil. A falta de "marcas" novas acaba por ser o grande problema dos media, nomeadamente das publicações musicais, problema esse do qual são ao mesmo tempo réus e vítimas. Vítimas, porque não são eles os principais culpados do que está a acontecer, sendo apenas um peão (um cavalo, vá) nesse grande tabuleiro de xadrez; réus, porque não fazem nada para mudar o estado das coisas e deixam simplesmente a coisa andar, até finalmente afundarem elas mesmas — casos da NME, Rolling Stone e, obviamente, da Blitz.

Depois há a questão da projecção social. Com a falta de promoção por parte das editoras, as bandas são obrigadas a auto-promover-se. Mas o mundo está hoje pejado de um falso e pútrido puritanismo que disseca todas as opiniões (ou meros desabafos nas redes sociais), confunde a criação com o criador e tritura quem se atreve a pensar pela sua cabeça. Não é por isso fácil ser-se um jovem rocker com ideias fortes e vontade de transcender as regras. Se estas fugirem do status quo, um bocadinho que seja, cai uma shitstorm sobre ele e lá se vai o seu trabalho. Nem para os velhos a coisa está fácil. Perguntem ao Cid, humilhado por causa de uma piada; ou ao Reininho, indignadamente expulso de um programa da RTP. Ser um homem livre é algo que se paga e em Portugal paga-se a dobrar.

Com o panorama mirrado em "estrelas" beije e com pouco brilho, fica difícil vender revistas. Principalmente quando elas estão demasiado preocupadas em encaixar nos "novos tempos", ou então com medo de apostar em alguém com um discurso mais anguloso, não vá o alvo ser apontado para eles também. É de facto, um ciclo vicioso.

Há também o argumento que tudo está feito. Que o Rock está esgotado e só estamos a repetir os ases do passado. Isto é historicamente falso. Desde a sua invenção que o Rock teve a capacidade de se reinventar sempre —Prog, Punk, Metal, Grunge, Britpop, Indie e por aí fora. Há sempre espaço mais uma mutação. E porquê? Porque o Rock está sempre aí em quem o ama e olhem à vossa volta — somos muitos. Enquanto houver rockers, haverá Rock. E aqui recupero o argumento do início, que esta marginalização do Rock não tem de ser forçosamente um mau prenúncio. Porque todas as grandes explosões, todos os grandes movimentos do passado, começaram assim. Debaixo do radar. A mensagem continua a mesma do célebre concerto do Liceu D. Pedro V em Maio de 1979, onde os Xutos & Pontapés fizeram a sua segunda actuação ao vivoEstamos vivos. Pela minha parte, enquanto eu viver e me for dado espaço para difundir o Rock, nestas linhas ele viverá.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Toda a verdade sobre as lojas de discos em Lisboa

Guia completo com tudo o que precisam saber sobre onde ir e de onde fugir.

As notícias dizem que o mercado do vinil está em contínua subida, mas se falarem com os vendedores independentes vão ouvi-los defender que não é bem assim; ou pelo menos que não vêem uma fatia significativa do bolo desse tão badalado crescimento. É pena. Com as Amazons e as Fnacs cada vez mais poderosas e lucrativas e a crise ainda a tilintar na cabeça dos consumidores, não sobra muito para os verdadeiros carregadores do ceptro da cultura do vinil — as lojas de discos. E porque precisamos cuidar das coisas boas que ainda temos, é tempo de vos dar a conhecer quais as lojas que devem visitar em Lisboa (e referir aquelas com que não devem perder o vosso tempo). Mas antes disso, um pouco de contexto.

Sou um melómano inveterado e coleccionador obsessivo. Desde que esvaziei o meu primeiro mealheiro para comprar o "Greatest Hits I&II" dos Queen aos 8 anos, acumulei muita experiência em lojas de discos. Quando viajo não vou a museus, vou a lojas de discos. Em Lisboa, no fim-de-semana, em vez de ir à praia, vou a lojas de discos. Percebem a ideia. Foram muitos anos e muitos milhares de euros gastos a comprar discos todas as semanas, rua-acima, escadas-abaixo, crate-para-a-frente, prateleira-para-trás, eCooltra-para-aqui, metro-para-ali. A lista que vos trago representa o meu legado e esteve 10 anos in-the-making. 

Não sei se já repararam, mas levo isto muito a sério. Record shopping é o meu hobby, o meu yoga, a minha amante. Tal não significa que seja uma actividade solitária — só eu e os discos. Pelo contrário. Record shopping a dois é ainda melhor e não há nada como partilhar a paixão pela música com alguém especial. Chamem-lhe ménage a trois — um chavascal com o amor e a música. Mas hey, divago.

Em suma, record shopping é muito mais do que apenas "comprar discos". É uma experiência multi-sensorial (visão, olfacto e, obviamente, audição) que só pode ser devidamente cultivada a explorar as crates (caixas de discos) de uma lojinha perdida num qualquer recanto da cidade, enquanto se discute o estado e a história da música e do mundo com o senhor atrás do balcão. E é tão bom viver numa cidade como Lisboa, lugar privilegiado para record shopping. Com lojas para todos os gostos, escolha aqui não falta. Sem mais, sigamos então para a lista definitiva com tudo o que precisam de saber sobre as lojas de discos em Lisboa. São 20 lojas, devidamente organizadas por ordem de preferência. Boas descobertas.


Sound Club Vinyl Store
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 24,
1200-273 Lisboa

Uma arca do tesouro. Não se deixem enganar pelo pequeno tamanho da loja, porque se a área é diminuta, a densidade de discos é insana. Como todas as melhores lojas de discos do mundo (e acreditem, já fui a algumas), também a Sound Club é um caos. Um caos com personalidade própria e pérolas inesperadas em cada esquina e cada caixa. No fundo, a loja apenas reflecte a imagem do dono, vivendo consoante o mood do Alexandre Barbosa, um artista em nome próprio, record seller de dia e DJ à noite.
Ser atendido por ele é sempre uma experiência diferente. Se o apanharem num dia bom, podem desmarcar os planos que tiverem porque não vão sair da loja tão cedo, perdidos em conversas filosóficas sobre o mercado do vinil (o Alexandre defende que a subida é uma ilusão) e estórias e lendas e dossiers sobre a noite lisboeta (que ninguém conhece tão bem como ele). E podem também desmarcar o jantar, porque vão sair de lá de sacos cheios e o orçamento só vai dar para uma lasanha do Pingo Doce.
A primeira vez que fui à Sound Club, há mais de 10 anos (ainda estava no Largo da Trindade), questionei o Alexandre acerca da organização caótica da sua loja. A resposta ensinou-me aquele que é o verdadeiro espírito do record shoppinga beleza está na descoberta. Estar a procura de Beatles e levar Creedence. Querer o "Sgt. Pepper", levar o "Magical Mystery Tour" e descobrir que é ainda melhor. E é isto mesmo. É possível que a Sound Club não tenha o disco que procuram, mas tem de certeza o disco que precisam.


Carbono
R. Telhal 6B,
1150-323 Lisboa

Selecção riquíssima, porventura a maior de Lisboa. É impossível explorar a Carbono numa só visita, até porque há vários níveis de investigação, os quais podem ser identificados altimetricamente: nas caixas em cima, mais fáceis de analisar, estão os discos mais caros, seleccionados de acordo com a procura do público; nas crates do chão está tudo o resto, muitas vezes discos repetidos em igual ou melhor estado do que há em cima, mas marcados 5€ a 10€ abaixo. É a mergulhar nas crates que se descobrem as verdadeiras pechinchas. O pior é que os discos estão dispostos de forma aleatória e por isso vão ter mesmo que aguentar essas costas, com longas horas de cócoras.
O downside da Carbono é que é uma loja geralmente overpriced (embora haja lá muitas surpresas, se for bem investigada) e não dão muito espaço a descontos, mesmo com quantidades grandes. O upside é que se estão à procura de um disco, é muito provável que ele esteja na Carbono. Paragem obrigatória.


Discolecção
Calçada do Duque 53-A, 
1200-156 Lisboa

A loja do Sr Vítor Nunes é o David Lynch das lojas de discos em Lisboa. Fascinante, mas elusiva, charmosa, mas fugida. Adorava ir lá mais vezes, bastava que para isso ela estivesse aberta. Parece fácil, não é? Antes fosse, mas eu tenho mais dificuldade em encontrar a porta da Discolecção aberta do que o Dale Cooper tem em encontrar o portal para o Black Lodge. Às vezes penso que vivemos em fusos horários antípodas, tal é a taxa de nariz na porta que eu tenho na loja.
Lá dentro, a selecção discográfica é relativamente pequena, mas gloriosa e totalmente imprevista. Prensagens que nunca viram, discos que nem sabiam que existiam, é o que podem esperar aqui. E tudo fairly priced. Nunca se sabe que maravilha ou raridade se vai apanhar, mas é garantido que o Sr. Vítor consegue sempre sacar umas surpresas no seu espólio. Afinal, já são 20 anos disto.


Tabatô Records (Crew Hassan)
R. Andrade 8A, 
1170-014 Lisboa

Uma revelação. Não se deixem enganar pela inexistência de prateleiras com discos quando entram na loja, porque na verdade a Tabatô Records faz parte da Crew Hassan, que é um restaurante/bar/cooperativa-cultural/fuck-knows-what-else e para chegarem à parte que interessa, têm que entrar, cruzar o bar e descer as escadas até à cave. Ainda não estão convencidos pelo aspecto hippie? Calma. Cheguem-se às prateleiras e comecem a passar os discos enquanto o vosso queixo desce de estupefacção.
O core pode ser o Reggae e a música africana, mas a Tabatô tem “só” a melhor selecção de música portuguesa de toda a cidade. E mais ainda. Discos raros, álbuns impossíveis de encontrar num estado em que não pareça que foram lavrados por um tractor, é uma pérola atrás da outra. Os preços estão um pouco puxados para cima, mas os discos estão muito bem seleccionados e já sabem, a qualidade paga-se. Mas não se assustem, falem com o Bastien, que o rapaz é uma simpatia. Levem um porradão de discos e ele faz-vos uma atenção.
A loja é um filão escondido numa zona up-and-coming no coração de Lisboa e é de visita obrigatória. 


Glam-O-Rama
R. Viriato 12, 
1050-010 Lisboa

Selecção mais virada para o metal e música pesada. Se essa for a vossa praia, não sei o que é que ainda estão a fazer a ler isto, já deviam estar a caminho. A loja do Luís Lamelas é tão obviamente um produto da sua paixão que é impossível sair de lá sem nos apaixonarmos por ela também. O Luís é de uma amabilidade e disponibilidade impagáveis e se lhe pedirem ajuda, ele vai fazer das tripas coração para vos encontrar o disco que desejam. Ou então fazer de Spotify humano e sugerir algo que não conhecem, mas que ele de alguma maneira adivinhou que iam gostar (e não falha). Ou então apenas discorrer (quilo)gramas de sabedoria sobre a cena punk lisboeta dos anos 80. Tudo enquanto mergulham nas crates recheadas de bons discos a preços baixos. Atenção àquelas crates do chão, peçam-lhe o banquinho e percam ali uns minutos, que vale a pena. Visita essencial para collectors, obrigatória para metalheads.


Zero à Direita
R. Almeida Garrett 162A,
2785-338 São Domingos de Rana

Não é bem em Lisboa, não é bem uma loja de discos, não é bem uma loja sequer, mas vale a pena a viagem a São Domingos de Rana para conhecer o Vítor Aguiar e explorar o seu magnífico espólio discográfico e de áudio high-end. O negócio dele é feito maioritarmente pelo Discogs, o que é melhor em comodidade, mas isto de comprar discos sem contacto humano e visual não é a mesma coisa. A selecção é variada e a qualquer momento podem dar de caras com aquela irresistível prensagem japonesa que até há um minuto não sabiam que tinham que ter, mas agora não conseguem deixar para trás. É sempre um prazer fazer uma visita ao Vítor, tão voluntarioso que nada custa saírem de lá sócios dele.


Vinyl Gourmet
R. Lourenço Marques 4, 4º Dto, 
2685-326 Prior Velho

Também fora de Lisboa, também loja online e também com um showroom para visitas atempadamente agendadas. A selecção da Vinyl Gourmet é diferente das outras todas nesta lista, uma vez que é estritamente virada para audiófilos. A qualidade sónica é a palavra de ordem aqui. O Sérgio presta-vos um serviço premium a todos os níveis, desde a escolha da prensagem do álbum que procuram (sempre a melhor do mercado, desde que não esteja out-of-print), passando pelo embalamento do disco, até à sua manutenção ao longo do tempo. Caro, como é óbvio. Mas já sabem, a qualidade paga-se sempre e aqui não é excepção.


Magic Bus
Av da Liberdade 9, loja 6
1250-139 Lisboa

Mini-loja escondida numa pequena área comercial na Avenida da Liberdade (lado oposto ao Hard Rock), com uma selecção pequena mas cirúrgica de tudo um pouco. Recomendo vivamente uma visita porque encontram sempre uma ou outra pérola.
Recordo a primeira vez que lá fui (ainda a loja estava na Calçada do Duque — atenção que a informação do Google não está actualizada) e o senhor me deixou mexer na caixa de singles dos The Smiths da sua própria colecção (nem estava para venda) enquanto suava nervosa e compulsivamente, provavelmente a ver a sua vida a andar para trás. No fim, passou com distinção o teste da paciência com o cliente. Podem também encontrá-lo nas feiras do LXFactory aos fins-de-semana.


Largo (Books & Records Megastore)
Largo do Intendente Pina Manique 18, 
1150-041 Lisboa

Outra loja elusiva. Encontro o senhor dos discos mais vezes nas feiras de vinil do Park e na feira da ladra, que na sua loja do Largo do Intendente. A loja deixou recentemente de ter também livros, dedicando-se a partir de agora somente à música. E ainda bem, que o senhor dos livros não transpirava simpatia (ao contrário do senhor dos discos, que é impecável). A selecção discográfica é bastante interessante, com a maioria dos discos em excelente estado e a preços razoáveis. Tem também uma parede deliciosa, forrada a bandas sonoras.


Mau Génio
Estr. de Benfica 731A. Centro Comercial Nevada, Loja 9,
1500-089 Lisboa

No Centro Comercial Nevada, bem no coração de Benfica, a Mau Génio fica um pouco fora de mão para quem vive no centro de Lisboa, mas a viagem vale muito a pena. Isto porque o Nevada é um dos últimos sobreviventes dos centros comerciais pequenos dos anos 80 e é por isso também uma viagem até à infância, principalmente para quem, como eu, sente saudades daquelas lojas maravilhosamente claustrofóbicas. Não estou a brincar. Estou farto do design minimalista das Apple Stores, o que eu gosto mesmo é de ter a vista ocupada com tanta coisa, que põe a minha cabeça a andar à roda. Mais que uma loja de discos — dos quais tem uma selecção muitíssimo interessante, também disponível online —, o core da Mau Génio é a quantidade babilónica de CDs e DVDs que enchem a loja (literalmente) até ao tecto. Uma vista impressionante.


Groovie Records
Rua de São Paulo, 252
1200-399 Lisboa

Fuck knows. Adorava ir à loja e dizer-vos como é (o feedback que tenho é bom), mas já perdi a conta ao número de eCooltras que aluguei para dar invariavelmente com o nariz na porta. O que me vale é que a viagem nunca é perdida, porque tenho ali ao lado a Tabacaria para beber um daqueles morteiros picantes e dar gás para a viagem de volta de eCooltra. De táxi, queria dizer. Depois volto para casa de táxi. É isso.
Adenda: Consegui finalmente encontrar a loja aberta e vale muito a pena a visita. A selecção é variada e tem particular foco no Garage Rock. A loja tem a sua própria label e promove artistas em ascensão com edições cuidadosamente curadas. O atendimento também é impecável.


T'N'T
R. de Campolide 54C, 
1070-037 Lisboa

TNT é nome de explosivo e de um tema dos AC/DC, mas o baptismo da loja vem dos nomes do Tó e da Ticha, casal de roqueiros e donos da loja de discos mais Rock N' Roll de Lisboa. Fora do circuito do Bairro Alto, e mais parecida com uma loja de bairro, a visita ao T'N'T vale pela conversa com a Ticha, que nos enche com a sua simpatia e as suas estórias com olhos a brilhar de quando conheceu os seus ídolos. A paixão pelo Rock N' Roll bate forte aqui.


Vinil Experience
Rua do Loreto 65, 
1200-471 Lisboa

Sabes que estás numa loja de discos quando o dono parece o Neil Young. A Vinil Experience é uma pequena loja no primeiro andar da Rua do Loreto, melhor encontrada pro quem desce a Rua da Atalaia. Loja mais virada para o Prog e Rock psicadélico, tem uma invejável vitrine com boxed sets e várias salas com oferta para todos os gostos. As selecção de caixas é única em Lisboa e de esvaziar a carteira ou chorar por vê-la cheia.


Flur
Avenida Infante D. Henrique, Armazém B4 Cais da Pedra - Santa Apolónia, 
1900 Lisboa

Loja eclética em Santa Apolónia, ao pé do Lux.  Ideal para uma visita depois de um bom almoço num dos restaurantes no Cais da Pedra, a Flur é mais virada para a música electrónica, mas tem um pouco de tudo nas prateleiras. Muito procurada pelos DJs puristas que só passam vinil. Se quiserem saber o que anda a passar nos bares, é fazer-lhes uma visita.


Peekaboo Records
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 35,
1200-273 Lisboa

Loja no terceiro piso do Espaço Chiado gerida pelo DJ Trol2000 (Rodrigo Alves), é focada no Disco e Soul, mas tem uma selecção muito interessante de música ambiental e experimental, com discos que não é habitual encontrar noutros locais.


Discoteca Lisboa
Rua dos Fanqueiros 166, 
1100-232 Lisboa

Loja com uma selecção eclética e imprevista, mas mais virada para a música folk portuguesa para alimentar a procura dos turistas que povoam a área. Se explorarem as crates, vão encontrar algumas belas surpresas.


Carpet & Snares Records
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 28,
1200-273 Lisboa

A Carpet & Snares é local de passagem sempre que vou a caminho a caminho da Sound Club. Não tenho nada a apontar à loja, mas como é virada para a música electrónica (dubstep, house, techno) e essa não é a minha praia, nunca a explorei. Se gostarem do estilo, dêem lá uma saltada e avaliem vocês mesmos.


Amor Records
Tv. do Marquês de Sampaio 14, 
1200-109 Lisboa

A loja é recente e nunca lá fui espreitar para ver como é. Culpa minha, neste caso. O projecto é uma aventura de 3 imigrantes brasileiros apaixonados pela música e só pela paixão, merecem uma visita. Já comuniquei com eles por mensagem e sempre foram prestáveis.


Pretérito Perfeito
R. Sampaio Bruno 39, 
1350-149 Lisboa

Mais um punhado de viagens de eCooltra perdidas. Meu, atende-me lá a campainha, que eu quero gastar aí umas notas.


Louie Louie
Esc. do Sto. Espírito da Pedreira 3,
1200-290 Lisboa

Uma tourist trap. Selecção paupérrima e overpriced, mas pior que tudo é o atendimento abominável. De uma antipatia e agressividade inenarráveis, representa a completa antítese da experiência desanuviadora que é record shopping. Se querem espairecer e gastar o vosso dinheirinho, há muitos locais para o fazer, mas este não é definitivamente um deles. De fugir.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Live at Earl's Court

A história de como se cumpriu o destino londrino do cronista que vos escreve

Tenho pressa de sair / Quero sentir ao chegar / Vontade de partir / P’ra outro lugar Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar / Porque até aqui eu só Estou bem / Aonde não estou Porque eu só quero ir / Aonde eu não vouPorque eu só estou bem / Aonde não estou
O António Variações é que a sabia toda. O sentimento de inadequação que descreve no seu hit "Estou Além" ("Anjo da Guarda", 1982) é algo que me acompanha desde sempre, uma armadilha da condição humana directamente ligada àquela tentação inócua de pensar n'o que podia ter sido. Todos o fazemos. Eu talvez abuse mais um bocadinho, porque remoer tudo até à infinita iteração é o modo de funcionamento automático do meu cérebro. Não tenho culpa que a minha cabeça me fustigue incessantemente com universos paralelos d'o que podia ter sido, caso tivesse feito as coisas de outra forma.

Pensar n'o que podia ter sido não é mais que uma forma de auto-ressabiamento, mas mais do que ressabiar o que fiz, a minha regra é só me arrepender do que ficou por fazer. É por isso que de todos os que podia ter sido da minha vida, o que sempre me bateu com mais força foi aquela vez em que estive a uma assinatura de cumprir o meu destino de viver em Londres. As estrelas estavam todas alinhadas: havia dinheiro em cima da mesa; havia a promessa de uma carreira; havia interesse de todas as partes. Havia tudo. Então por que raio eu não fui?!

Sempre me imaginei a viver em Londres. Londres é o centro do (meu) universo, a capital do país que deu à luz quase todos os meus ídolos, onde todos eles viveram (alguns ainda vivem) e que a todos consagrou em espaços sagrados como o Estádio de Wembley, Earl's Court, Hammersmith Odeon, Rainbow Theatre, Marquee e por aí fora. Por isso sempre me fez todo o sentido mudar para lá e viver as mesmas experiências que os meu ídolos viveram. Claro que a realidade não funciona bem assim, uma vez que só na minha cabeça é que sou uma "Rock 'n' Roll Star", mas pelo menos poderia estar no sítio onde tudo acontece primeiro e assim poder testemunhar ao vivo o nascimento do meu próximo ídolo.

Notem que em lado nenhum me referi a Londres como um "sonho". Não é bem disso que se trata. Lá em cima utilizei a expressão "cumprir o meu destino" porque na verdade, sempre achei que Londres era onde eu ia parar, era ali que eu pertencia. Como se a minha mudança fosse uma inevitabilidade. Não é um sonho na medida de, por exemplo, ver o Benfica campeão europeu, ou dar um abraço ao David Gilmour. É sim algo que eu sempre senti que tinha que fazer. Se é que esta dicotomia vos faz algum sentido.

Há cerca de cinco anos, a viver naquela agitação permanente (tão bem descrita pelo António Variações) de nunca estar satisfeito com o que tinha, achei que estava na hora de mandar tudo ao ar e ir atrás do meu destino londrino. Comecei a mandar currículos em Agosto e a resposta foi overwhelming. Estava de férias e na praia o telefone não parava de tocar com propostas para entrevistas. London was calling, literalmente. Para fazer o bingo de coincidências, tinha um concerto do Roger Waters no Estádio de Wembley marcado para Setembro, daí a poucas semanas. Uau. Parecia que o destino queria mesmo que eu fosse para Londres.

Mas já diz o ditado: Careful with what you wish for. Sem que eu tivesse tempo para reflectir, eles meteram-me um contrato à frente. Bastava assinar o papel et voilá, cumpria-se o destino de viver Londres. Não assinei. De regresso a Lisboa, poucos dias depois da entrevista, voltam a ligar-me com uma proposta mais alta. Voltei a rejeitar. Porquê? Fuck knows. De todos os que podia ter sido, este sempre foi aquele que mais dificuldade tive em encaixar. Foi uma decisão que tomei e que nunca soube se foi a mais correcta. Será que Londres não era, afinal, o meu destino? Ou será que simplesmente ainda não tinha chegado a hora de assinar o papel?

Importa agora chamar a atenção que os parágrafos em cima foram adaptados de um texto que escrevi no Verão passado, onde reflectia sobre o meu destino nunca cumprido de Londres. Mal eu sabia que, poucos meses volvidos, chegaria a hora de assinar o papel.

Vou finalmente cumprir o meu destino londrino e para que não falte nada para completar a experiência, vou viver em Earl's Court, outrora palco que coroou todos os meus ídolos: os Queen em 1977 na digressão da obra-prima da banda "A Day At Races"; os Pink Floyd em 1973 na digressão de "The Dark Side Of The Moon", em 1980 e 1981 com o espectáculo megalómano de "The Wall" e em 1994 com catorze concertos (um recorde na altura) que fecharam a digressão de "The Division Bell"; os Oasis em 1995 com a digressão de "(What's the Story) Morning Glory?". Percebem a ideia. Agora que o Earl's Court Exhibition Centre foi abaixo, serei eu "Live at Earl's Court".

Mas há mais. Vou também viver ao pé da casa onde viveu o Rei. A meros 500 metros do Garden Lodge de Freddie Mercury estarei protegido; posso sentir-me em casa. Porque esteja onde estiver, não há para mim sentimento igual ao de casa. Talvez por isso desde o concerto da Passagem de Ano que só ouço música portuguesa. Wait, what? Ainda nem fui e já estou com saudades disto. Et voilá, vejam lá o Variações a acertar outra vez. Agora não há volta atrás. Citando outro clássico do Rock português, agora é "carga pronta e metida nos contentores" e "adeus aos meus amores que me vou para outro mundo". Espero trazer-vos novidades de lá.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Delfins – Uma Marcha de Desalinhados e Injustiçados

Uma apologia à banda mais sociologicamente injustiçada nos últimos 20 anos em Portugal


Depois de ver os vinte fogos-de-artifício da Margem Sul a competirem entre si (ganhou Almada, se quiserem saber), desci desde as Portas do Sol até ao Terreiro do Paço para ver o muito badalado espectáculo "Hits do Pop Rock Português", curado pelo Luís Varatojo dos Peste & Sida. E obrigado, Luís; não poderia ter escolhido uma Passagem de Ano mais adequada para a minha despedida do país. Não foi propriamente um regresso à infância, uma vez que nasci em 1985 e muitos destes êxitos, não os vivi no seu tempo. Mas isso pouco importa. Estas canções são parte indefectível da cultura nacional, seja qual for a geração e são por isso parte da minha identidade portuguesa.

Embora tenha achado o espectáculo um tremendo triunfo cultural com um todo, é impossível não apontar alguns pontos altos (Samuel Úria com "Patchouly") e outros que nem por isso (presumo que a Ana Deus – Ban e Três Tristes Tigres – tivesse abusado do champanhe à meia noite). Em particular, não posso deixar de sublinhar o quanto um dos segmentos se destacou acima de todos os outros – o set sólido de êxitos dos Delfins, interpretado pelo Miguel Ângelo.

Com isto, senti-me na obrigação de fazer aquele que arrisca ser a minha coluna mais uncool de sempre – uma apologia aos Delfins, a banda portuguesa mais sociologicamente injustiçada dos últimos 20 anos. E se o post é uncool, muito se deve à ridicularização exagerada a que a banda foi sujeita ao longo deste tempo, principalmente no início dos anos 00 em programas como o Levanta-te e Ri, uma consequência da ubiquidade que gozou em Portugal na segunda metade dos anos 90 (lembram-se do Cantigas da Rua?), no fundo o mesmo pecado que acabou com a carreira do Phil Collins. Adoro o Ricardo Araújo Pereira (única voz corajosa neste país contra a censura), mas temo que terá sido ele quem deu o prego final no caixão da banda de Cascais com este bit de stand-up sobre o Miguel Ângelo. O RAP, como sempre, teve piada. Mas com isto, meteu o Miguel Ângelo debaixo de um pesadelo mefistofélico que, em última instância, acabou com os Delfins em 2009.

Sim, eu sei. O Miguel Ângelo usa e abusa daqueles tiques idiossincráticos como acrescentar um "z" depois de cada "t" ("um lugar ao sol, sempre tzeu""não pares de lutzar""só tzu podes vencer"), ou colocar acentos circunflexos nos verbos da primeira conjugação ("sonhâr é só viver e viver imaginâr") - e tudo isto só no clássico "1 Lugar Ao Sol". Se ficarmos obcecados com estes trejeitos, a música dos Delfins tornar-se-á irremediavelmente irritante. Se tivermos a grandeza de nos rirmos deles, podemos apreciar a música. Até porque tem uns tiques fixes. Como quando o Miguel substitui dissimuladamente a linha "ser um corpo de prazer" no cover da "Canção do Engate" de António Variações, por "ser um porco de prazer". Ouçam o tema com atenção.

O que me deixa mais confuso ao ver tanto ódio aos Delfins é o espectro do mesmo. A carreira dos Delfins não pode ser comparada, por exemplo, ao sucesso meramente circunstancial dos D'ZRT. Ao contrário da banda dos Morangos Com Açúcar, que tiveram o seu tempo durante a temporada de Verão de 2005 (bolas, estou velho), os Delfins, que tiveram o "seu tempo" nos Anos 80, só começaram a vender discos em quantidades pornográficas na segunda metade dos Anos 90. Foi uma expansão consolidada. E no entanto, parece tão difícil encontrar alguém que tem um disco dos Delfins como encontrar um benfiquista que votou no Vale e Azevedo. Se só a compilação "O Caminho Da Felicidade" vendeu mais que 200 mil cópias – um número monstruoso para o nosso país – tem que haver alguém, algures, com o álbum em casa.

Para além da intemporalidade das canções de Miguel Ângelo e Fernando Cunha ( o "Steven Seagal", para quem não se lembra) que foram objecto de celebração da noite da Passagem de Ano, é preciso ainda lembrar o virtuosismo da besta que tocava baixo nos Delfins. Rui Fadigas era um extraterrestre do baixo e isso é por demais evidente no álbum "U Outro Lado Existe" (1988). Se têm dúvidas, é ouvir temas como "Bandeira" (atentem na intro), "1 Só Céu" (solo antes do refrão) e "1 Lugar Ao Sol" (mais um solo). Que besta.

Deixo para último o mais óbvio dos argumentos. É que vocês também gostam de pelo menos um tema dos Delfins. Nem que seja o superlativo cover do António Variações ("se tzu tze dá-ás"), com tiques e tudo. Vá, podem admitir, que já estamos em 2018 e odiar os Delfins é tão 2008.

É verdade, vou-me embora. London is calling. Mas as crónicas continuarão a partir da grande ilha.