quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Toda a verdade sobre as lojas de discos em Lisboa

Guia completo com tudo o que precisam saber sobre onde ir e de onde fugir.

As notícias dizem que o mercado do vinil está em contínua subida, mas se falarem com os vendedores independentes vão ouvi-los defender que não é bem assim; ou pelo menos que não vêem uma fatia significativa do bolo desse tão badalado crescimento. É pena. Com as Amazons e as Fnacs cada vez mais poderosas e lucrativas e a crise ainda a tilintar na cabeça dos consumidores, não sobra muito para os verdadeiros carregadores do ceptro da cultura do vinil — as lojas de discos. E porque precisamos cuidar das coisas boas que ainda temos, é tempo de vos dar a conhecer quais as lojas que devem visitar em Lisboa (e referir aquelas com que não devem perder o vosso tempo). Mas antes disso, um pouco de contexto.

Sou um melómano inveterado e coleccionador obsessivo. Desde que esvaziei o meu primeiro mealheiro para comprar o "Greatest Hits I&II" dos Queen aos 8 anos, acumulei muita experiência em lojas de discos. Quando viajo não vou a museus, vou a lojas de discos. Em Lisboa, no fim-de-semana, em vez de ir à praia, vou a lojas de discos. Percebem a ideia. Foram muitos anos e muitos milhares de euros gastos a comprar discos todas as semanas, rua-acima, escadas-abaixo, crate-para-a-frente, prateleira-para-trás, eCooltra-para-aqui, metro-para-ali. A lista que vos trago representa o meu legado e esteve 10 anos in-the-making. 

Não sei se já repararam, mas levo isto muito a sério. Record shopping é o meu hobby, o meu yoga, a minha amante. Tal não significa que seja uma actividade solitária — só eu e os discos. Pelo contrário. Record shopping a dois é ainda melhor e não há nada como partilhar a paixão pela música com alguém especial. Chamem-lhe ménage a trois — um chavascal com o amor e a música. Mas hey, divago.

Em suma, record shopping é muito mais do que apenas "comprar discos". É uma experiência multi-sensorial (visão, olfacto e, obviamente, audição) que só pode ser devidamente cultivada a explorar as crates (caixas de discos) de uma lojinha perdida num qualquer recanto da cidade, enquanto se discute o estado e a história da música e do mundo com o senhor atrás do balcão. E é tão bom viver numa cidade como Lisboa, lugar privilegiado para record shopping. Com lojas para todos os gostos, escolha aqui não falta. Sem mais, sigamos então para a lista definitiva com tudo o que precisam de saber sobre as lojas de discos em Lisboa. São 20 lojas, devidamente organizadas por ordem de preferência. Boas descobertas.


Sound Club Vinyl Store
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 24,
1200-273 Lisboa

Uma arca do tesouro. Não se deixem enganar pelo pequeno tamanho da loja, porque se a área é diminuta, a densidade de discos é insana. Como todas as melhores lojas de discos do mundo (e acreditem, já fui a algumas), também a Sound Club é um caos. Um caos com personalidade própria e pérolas inesperadas em cada esquina e cada caixa. No fundo, a loja apenas reflecte a imagem do dono, vivendo consoante o mood do Alexandre Barbosa, um artista em nome próprio, record seller de dia e DJ à noite.
Ser atendido por ele é sempre uma experiência diferente. Se o apanharem num dia bom, podem desmarcar os planos que tiverem porque não vão sair da loja tão cedo, perdidos em conversas filosóficas sobre o mercado do vinil (o Alexandre defende que a subida é uma ilusão) e estórias e lendas e dossiers sobre a noite lisboeta (que ninguém conhece tão bem como ele). E podem também desmarcar o jantar, porque vão sair de lá de sacos cheios e o orçamento só vai dar para uma lasanha do Pingo Doce.
A primeira vez que fui à Sound Club, há mais de 10 anos (ainda estava no Largo da Trindade), questionei o Alexandre acerca da organização caótica da sua loja. A resposta ensinou-me aquele que é o verdadeiro espírito do record shoppinga beleza está na descoberta. Estar a procura de Beatles e levar Creedence. Querer o "Sgt. Pepper", levar o "Magical Mystery Tour" e descobrir que é ainda melhor. E é isto mesmo. É possível que a Sound Club não tenha o disco que procuram, mas tem de certeza o disco que precisam.


Carbono
R. Telhal 6B,
1150-323 Lisboa

Selecção riquíssima, porventura a maior de Lisboa. É impossível explorar a Carbono numa só visita, até porque há vários níveis de investigação, os quais podem ser identificados altimetricamente: nas caixas em cima, mais fáceis de analisar, estão os discos mais caros, seleccionados de acordo com a procura do público; nas crates do chão está tudo o resto, muitas vezes discos repetidos em igual ou melhor estado do que há em cima, mas marcados 5€ a 10€ abaixo. É a mergulhar nas crates que se descobrem as verdadeiras pechinchas. O pior é que os discos estão dispostos de forma aleatória e por isso vão ter mesmo que aguentar essas costas, com longas horas de cócoras.
O downside da Carbono é que é uma loja geralmente overpriced (embora haja lá muitas surpresas, se for bem investigada) e não dão muito espaço a descontos, mesmo com quantidades grandes. O upside é que se estão à procura de um disco, é muito provável que ele esteja na Carbono. Paragem obrigatória.


Discolecção
Calçada do Duque 53-A, 
1200-156 Lisboa

A loja do Sr Vítor Nunes é o David Lynch das lojas de discos em Lisboa. Fascinante, mas elusiva, charmosa, mas fugida. Adorava ir lá mais vezes, bastava que para isso ela estivesse aberta. Parece fácil, não é? Antes fosse, mas eu tenho mais dificuldade em encontrar a porta da Discolecção aberta do que o Dale Cooper tem em encontrar o portal para o Black Lodge. Às vezes penso que vivemos em fusos horários antípodas, tal é a taxa de nariz na porta que eu tenho na loja.
Lá dentro, a selecção discográfica é relativamente pequena, mas gloriosa e totalmente imprevista. Prensagens que nunca viram, discos que nem sabiam que existiam, é o que podem esperar aqui. E tudo fairly priced. Nunca se sabe que maravilha ou raridade se vai apanhar, mas é garantido que o Sr. Vítor consegue sempre sacar umas surpresas no seu espólio. Afinal, já são 20 anos disto.


Tabatô Records (Crew Hassan)
R. Andrade 8A, 
1170-014 Lisboa

Uma revelação. Não se deixem enganar pela inexistência de prateleiras com discos quando entram na loja, porque na verdade a Tabatô Records faz parte da Crew Hassan, que é um restaurante/bar/cooperativa-cultural/fuck-knows-what-else e para chegarem à parte que interessa, têm que entrar, cruzar o bar e descer as escadas até à cave. Ainda não estão convencidos pelo aspecto hippie? Calma. Cheguem-se às prateleiras e comecem a passar os discos enquanto o vosso queixo desce de estupefacção.
O core pode ser o Reggae e a música africana, mas a Tabatô tem “só” a melhor selecção de música portuguesa de toda a cidade. E mais ainda. Discos raros, álbuns impossíveis de encontrar num estado em que não pareça que foram lavrados por um tractor, é uma pérola atrás da outra. Os preços estão um pouco puxados para cima, mas os discos estão muito bem seleccionados e já sabem, a qualidade paga-se. Mas não se assustem, falem com o Bastien, que o rapaz é uma simpatia. Levem um porradão de discos e ele faz-vos uma atenção.
A loja é um filão escondido numa zona up-and-coming no coração de Lisboa e é de visita obrigatória. 


Glam-O-Rama
R. Viriato 12, 
1050-010 Lisboa

Selecção mais virada para o metal e música pesada. Se essa for a vossa praia, não sei o que é que ainda estão a fazer a ler isto, já deviam estar a caminho. A loja do Luís Lamelas é tão obviamente um produto da sua paixão que é impossível sair de lá sem nos apaixonarmos por ela também. O Luís é de uma amabilidade e disponibilidade impagáveis e se lhe pedirem ajuda, ele vai fazer das tripas coração para vos encontrar o disco que desejam. Ou então fazer de Spotify humano e sugerir algo que não conhecem, mas que ele de alguma maneira adivinhou que iam gostar (e não falha). Ou então apenas discorrer (quilo)gramas de sabedoria sobre a cena punk lisboeta dos anos 80. Tudo enquanto mergulham nas crates recheadas de bons discos a preços baixos. Atenção àquelas crates do chão, peçam-lhe o banquinho e percam ali uns minutos, que vale a pena. Visita essencial para collectors, obrigatória para metalheads.


Zero à Direita
R. Almeida Garrett 162A,
2785-338 São Domingos de Rana

Não é bem em Lisboa, não é bem uma loja de discos, não é bem uma loja sequer, mas vale a pena a viagem a São Domingos de Rana para conhecer o Vítor Aguiar e explorar o seu magnífico espólio discográfico e de áudio high-end. O negócio dele é feito maioritarmente pelo Discogs, o que é melhor em comodidade, mas isto de comprar discos sem contacto humano e visual não é a mesma coisa. A selecção é variada e a qualquer momento podem dar de caras com aquela irresistível prensagem japonesa que até há um minuto não sabiam que tinham que ter, mas agora não conseguem deixar para trás. É sempre um prazer fazer uma visita ao Vítor, tão voluntarioso que nada custa saírem de lá sócios dele.


Vinyl Gourmet
R. Lourenço Marques 4, 4º Dto, 
2685-326 Prior Velho

Também fora de Lisboa, também loja online e também com um showroom para visitas atempadamente agendadas. A selecção da Vinyl Gourmet é diferente das outras todas nesta lista, uma vez que é estritamente virada para audiófilos. A qualidade sónica é a palavra de ordem aqui. O Sérgio presta-vos um serviço premium a todos os níveis, desde a escolha da prensagem do álbum que procuram (sempre a melhor do mercado, desde que não esteja out-of-print), passando pelo embalamento do disco, até à sua manutenção ao longo do tempo. Caro, como é óbvio. Mas já sabem, a qualidade paga-se sempre e aqui não é excepção.


Magic Bus
Av da Liberdade 9, loja 6
1250-139 Lisboa

Mini-loja escondida numa pequena área comercial na Avenida da Liberdade (lado oposto ao Hard Rock), com uma selecção pequena mas cirúrgica de tudo um pouco. Recomendo vivamente uma visita porque encontram sempre uma ou outra pérola.
Recordo a primeira vez que lá fui (ainda a loja estava na Calçada do Duque — atenção que a informação do Google não está actualizada) e o senhor me deixou mexer na caixa de singles dos The Smiths da sua própria colecção (nem estava para venda) enquanto suava nervosa e compulsivamente, provavelmente a ver a sua vida a andar para trás. No fim, passou com distinção o teste da paciência com o cliente. Podem também encontrá-lo nas feiras do LXFactory aos fins-de-semana.


Largo (Books & Records Megastore)
Largo do Intendente Pina Manique 18, 
1150-041 Lisboa

Outra loja elusiva. Encontro o senhor dos discos mais vezes nas feiras de vinil do Park e na feira da ladra, que na sua loja do Largo do Intendente. A loja deixou recentemente de ter também livros, dedicando-se a partir de agora somente à música. E ainda bem, que o senhor dos livros não transpirava simpatia (ao contrário do senhor dos discos, que é impecável). A selecção discográfica é bastante interessante, com a maioria dos discos em excelente estado e a preços razoáveis. Tem também uma parede deliciosa, forrada a bandas sonoras.


Mau Génio
Estr. de Benfica 731A. Centro Comercial Nevada, Loja 9,
1500-089 Lisboa

No Centro Comercial Nevada, bem no coração de Benfica, a Mau Génio fica um pouco fora de mão para quem vive no centro de Lisboa, mas a viagem vale muito a pena. Isto porque o Nevada é um dos últimos sobreviventes dos centros comerciais pequenos dos anos 80 e é por isso também uma viagem até à infância, principalmente para quem, como eu, sente saudades daquelas lojas maravilhosamente claustrofóbicas. Não estou a brincar. Estou farto do design minimalista das Apple Stores, o que eu gosto mesmo é de ter a vista ocupada com tanta coisa, que põe a minha cabeça a andar à roda. Mais que uma loja de discos — dos quais tem uma selecção muitíssimo interessante, também disponível online —, o core da Mau Génio é a quantidade babilónica de CDs e DVDs que enchem a loja (literalmente) até ao tecto. Uma vista impressionante.


Groovie Records
Rua de São Paulo, 252
1200-399 Lisboa

Fuck knows. Adorava ir à loja e dizer-vos como é (o feedback que tenho é bom), mas já perdi a conta ao número de eCooltras que aluguei para dar invariavelmente com o nariz na porta. O que me vale é que a viagem nunca é perdida, porque tenho ali ao lado a Tabacaria para beber um daqueles morteiros picantes e dar gás para a viagem de volta de eCooltra. De táxi, queria dizer. Depois volto para casa de táxi. É isso.
Adenda: Consegui finalmente encontrar a loja aberta e vale muito a pena a visita. A selecção é variada e tem particular foco no Garage Rock. A loja tem a sua própria label e promove artistas em ascensão com edições cuidadosamente curadas. O atendimento também é impecável.


T'N'T
R. de Campolide 54C, 
1070-037 Lisboa

TNT é nome de explosivo e de um tema dos AC/DC, mas o baptismo da loja vem dos nomes do Tó e da Ticha, casal de roqueiros e donos da loja de discos mais Rock N' Roll de Lisboa. Fora do circuito do Bairro Alto, e mais parecida com uma loja de bairro, a visita ao T'N'T vale pela conversa com a Ticha, que nos enche com a sua simpatia e as suas estórias com olhos a brilhar de quando conheceu os seus ídolos. A paixão pelo Rock N' Roll bate forte aqui.


Vinil Experience
Rua do Loreto 65, 
1200-471 Lisboa

Sabes que estás numa loja de discos quando o dono parece o Neil Young. A Vinil Experience é uma pequena loja no primeiro andar da Rua do Loreto, melhor encontrada pro quem desce a Rua da Atalaia. Loja mais virada para o Prog e Rock psicadélico, tem uma invejável vitrine com boxed sets e várias salas com oferta para todos os gostos. As selecção de caixas é única em Lisboa e de esvaziar a carteira ou chorar por vê-la cheia.


Flur
Avenida Infante D. Henrique, Armazém B4 Cais da Pedra - Santa Apolónia, 
1900 Lisboa

Loja eclética em Santa Apolónia, ao pé do Lux.  Ideal para uma visita depois de um bom almoço num dos restaurantes no Cais da Pedra, a Flur é mais virada para a música electrónica, mas tem um pouco de tudo nas prateleiras. Muito procurada pelos DJs puristas que só passam vinil. Se quiserem saber o que anda a passar nos bares, é fazer-lhes uma visita.


Peekaboo Records
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 35,
1200-273 Lisboa

Loja no terceiro piso do Espaço Chiado gerida pelo DJ Trol2000 (Rodrigo Alves), é focada no Disco e Soul, mas tem uma selecção muito interessante de música ambiental e experimental, com discos que não é habitual encontrar noutros locais.


Discoteca Lisboa
Rua dos Fanqueiros 166, 
1100-232 Lisboa

Loja com uma selecção eclética e imprevista, mas mais virada para a música folk portuguesa para alimentar a procura dos turistas que povoam a área. Se explorarem as crates, vão encontrar algumas belas surpresas.


Carpet & Snares Records
Rua da Misericórdia 14. Espaço Chiado, Loja 28,
1200-273 Lisboa

A Carpet & Snares é local de passagem sempre que vou a caminho a caminho da Sound Club. Não tenho nada a apontar à loja, mas como é virada para a música electrónica (dubstep, house, techno) e essa não é a minha praia, nunca a explorei. Se gostarem do estilo, dêem lá uma saltada e avaliem vocês mesmos.


Amor Records
Tv. do Marquês de Sampaio 14, 
1200-109 Lisboa

A loja é recente e nunca lá fui espreitar para ver como é. Culpa minha, neste caso. O projecto é uma aventura de 3 imigrantes brasileiros apaixonados pela música e só pela paixão, merecem uma visita. Já comuniquei com eles por mensagem e sempre foram prestáveis.


Pretérito Perfeito
R. Sampaio Bruno 39, 
1350-149 Lisboa

Mais um punhado de viagens de eCooltra perdidas. Meu, atende-me lá a campainha, que eu quero gastar aí umas notas.


Louie Louie
Esc. do Sto. Espírito da Pedreira 3,
1200-290 Lisboa

Uma tourist trap. Selecção paupérrima e overpriced, mas pior que tudo é o atendimento abominável. De uma antipatia e agressividade inenarráveis, representa a completa antítese da experiência desanuviadora que é record shopping. Se querem espairecer e gastar o vosso dinheirinho, há muitos locais para o fazer, mas este não é definitivamente um deles. De fugir.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Live at Earl's Court

A história de como se cumpriu o destino londrino do cronista que vos escreve

Tenho pressa de sair / Quero sentir ao chegar / Vontade de partir / P’ra outro lugar Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar / Porque até aqui eu só Estou bem / Aonde não estou Porque eu só quero ir / Aonde eu não vouPorque eu só estou bem / Aonde não estou
O António Variações é que a sabia toda. O sentimento de inadequação que descreve no seu hit "Estou Além" ("Anjo da Guarda", 1982) é algo que me acompanha desde sempre, uma armadilha da condição humana directamente ligada àquela tentação inócua de pensar n'o que podia ter sido. Todos o fazemos. Eu talvez abuse mais um bocadinho, porque remoer tudo até à infinita iteração é o modo de funcionamento automático do meu cérebro. Não tenho culpa que a minha cabeça me fustigue incessantemente com universos paralelos d'o que podia ter sido, caso tivesse feito as coisas de outra forma.

Pensar n'o que podia ter sido não é mais que uma forma de auto-ressabiamento, mas mais do que ressabiar o que fiz, a minha regra é só me arrepender do que ficou por fazer. É por isso que de todos os que podia ter sido da minha vida, o que sempre me bateu com mais força foi aquela vez em que estive a uma assinatura de cumprir o meu destino de viver em Londres. As estrelas estavam todas alinhadas: havia dinheiro em cima da mesa; havia a promessa de uma carreira; havia interesse de todas as partes. Havia tudo. Então por que raio eu não fui?!

Sempre me imaginei a viver em Londres. Londres é o centro do (meu) universo, a capital do país que deu à luz quase todos os meus ídolos, onde todos eles viveram (alguns ainda vivem) e que a todos consagrou em espaços sagrados como o Estádio de Wembley, Earl's Court, Hammersmith Odeon, Rainbow Theatre, Marquee e por aí fora. Por isso sempre me fez todo o sentido mudar para lá e viver as mesmas experiências que os meu ídolos viveram. Claro que a realidade não funciona bem assim, uma vez que só na minha cabeça é que sou uma "Rock 'n' Roll Star", mas pelo menos poderia estar no sítio onde tudo acontece primeiro e assim poder testemunhar ao vivo o nascimento do meu próximo ídolo.

Notem que em lado nenhum me referi a Londres como um "sonho". Não é bem disso que se trata. Lá em cima utilizei a expressão "cumprir o meu destino" porque na verdade, sempre achei que Londres era onde eu ia parar, era ali que eu pertencia. Como se a minha mudança fosse uma inevitabilidade. Não é um sonho na medida de, por exemplo, ver o Benfica campeão europeu, ou dar um abraço ao David Gilmour. É sim algo que eu sempre senti que tinha que fazer. Se é que esta dicotomia vos faz algum sentido.

Há cerca de cinco anos, a viver naquela agitação permanente (tão bem descrita pelo António Variações) de nunca estar satisfeito com o que tinha, achei que estava na hora de mandar tudo ao ar e ir atrás do meu destino londrino. Comecei a mandar currículos em Agosto e a resposta foi overwhelming. Estava de férias e na praia o telefone não parava de tocar com propostas para entrevistas. London was calling, literalmente. Para fazer o bingo de coincidências, tinha um concerto do Roger Waters no Estádio de Wembley marcado para Setembro, daí a poucas semanas. Uau. Parecia que o destino queria mesmo que eu fosse para Londres.

Mas já diz o ditado: Careful with what you wish for. Sem que eu tivesse tempo para reflectir, eles meteram-me um contrato à frente. Bastava assinar o papel et voilá, cumpria-se o destino de viver Londres. Não assinei. De regresso a Lisboa, poucos dias depois da entrevista, voltam a ligar-me com uma proposta mais alta. Voltei a rejeitar. Porquê? Fuck knows. De todos os que podia ter sido, este sempre foi aquele que mais dificuldade tive em encaixar. Foi uma decisão que tomei e que nunca soube se foi a mais correcta. Será que Londres não era, afinal, o meu destino? Ou será que simplesmente ainda não tinha chegado a hora de assinar o papel?

Importa agora chamar a atenção que os parágrafos em cima foram adaptados de um texto que escrevi no Verão passado, onde reflectia sobre o meu destino nunca cumprido de Londres. Mal eu sabia que, poucos meses volvidos, chegaria a hora de assinar o papel.

Vou finalmente cumprir o meu destino londrino e para que não falte nada para completar a experiência, vou viver em Earl's Court, outrora palco que coroou todos os meus ídolos: os Queen em 1977 na digressão da obra-prima da banda "A Day At Races"; os Pink Floyd em 1973 na digressão de "The Dark Side Of The Moon", em 1980 e 1981 com o espectáculo megalómano de "The Wall" e em 1994 com catorze concertos (um recorde na altura) que fecharam a digressão de "The Division Bell"; os Oasis em 1995 com a digressão de "(What's the Story) Morning Glory?". Percebem a ideia. Agora que o Earl's Court Exhibition Centre foi abaixo, serei eu "Live at Earl's Court".

Mas há mais. Vou também viver ao pé da casa onde viveu o Rei. A meros 500 metros do Garden Lodge de Freddie Mercury estarei protegido; posso sentir-me em casa. Porque esteja onde estiver, não há para mim sentimento igual ao de casa. Talvez por isso desde o concerto da Passagem de Ano que só ouço música portuguesa. Wait, what? Ainda nem fui e já estou com saudades disto. Et voilá, vejam lá o Variações a acertar outra vez. Agora não há volta atrás. Citando outro clássico do Rock português, agora é "carga pronta e metida nos contentores" e "adeus aos meus amores que me vou para outro mundo". Espero trazer-vos novidades de lá.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Delfins – Uma Marcha de Desalinhados e Injustiçados

Uma apologia à banda mais sociologicamente injustiçada nos últimos 20 anos em Portugal


Depois de ver os vinte fogos-de-artifício da Margem Sul a competirem entre si (ganhou Almada, se quiserem saber), desci desde as Portas do Sol até ao Terreiro do Paço para ver o muito badalado espectáculo "Hits do Pop Rock Português", curado pelo Luís Varatojo dos Peste & Sida. E obrigado, Luís; não poderia ter escolhido uma Passagem de Ano mais adequada para a minha despedida do país. Não foi propriamente um regresso à infância, uma vez que nasci em 1985 e muitos destes êxitos, não os vivi no seu tempo. Mas isso pouco importa. Estas canções são parte indefectível da cultura nacional, seja qual for a geração e são por isso parte da minha identidade portuguesa.

Embora tenha achado o espectáculo um tremendo triunfo cultural com um todo, é impossível não apontar alguns pontos altos (Samuel Úria com "Patchouly") e outros que nem por isso (presumo que a Ana Deus – Ban e Três Tristes Tigres – tivesse abusado do champanhe à meia noite). Em particular, não posso deixar de sublinhar o quanto um dos segmentos se destacou acima de todos os outros – o set sólido de êxitos dos Delfins, interpretado pelo Miguel Ângelo.

Com isto, senti-me na obrigação de fazer aquele que arrisca ser a minha coluna mais uncool de sempre – uma apologia aos Delfins, a banda portuguesa mais sociologicamente injustiçada dos últimos 20 anos. E se o post é uncool, muito se deve à ridicularização exagerada a que a banda foi sujeita ao longo deste tempo, principalmente no início dos anos 00 em programas como o Levanta-te e Ri, uma consequência da ubiquidade que gozou em Portugal na segunda metade dos anos 90 (lembram-se do Cantigas da Rua?), no fundo o mesmo pecado que acabou com a carreira do Phil Collins. Adoro o Ricardo Araújo Pereira (única voz corajosa neste país contra a censura), mas temo que terá sido ele quem deu o prego final no caixão da banda de Cascais com este bit de stand-up sobre o Miguel Ângelo. O RAP, como sempre, teve piada. Mas com isto, meteu o Miguel Ângelo debaixo de um pesadelo mefistofélico que, em última instância, acabou com os Delfins em 2009.

Sim, eu sei. O Miguel Ângelo usa e abusa daqueles tiques idiossincráticos como acrescentar um "z" depois de cada "t" ("um lugar ao sol, sempre tzeu""não pares de lutzar""só tzu podes vencer"), ou colocar acentos circunflexos nos verbos da primeira conjugação ("sonhâr é só viver e viver imaginâr") - e tudo isto só no clássico "1 Lugar Ao Sol". Se ficarmos obcecados com estes trejeitos, a música dos Delfins tornar-se-á irremediavelmente irritante. Se tivermos a grandeza de nos rirmos deles, podemos apreciar a música. Até porque tem uns tiques fixes. Como quando o Miguel substitui dissimuladamente a linha "ser um corpo de prazer" no cover da "Canção do Engate" de António Variações, por "ser um porco de prazer". Ouçam o tema com atenção.

O que me deixa mais confuso ao ver tanto ódio aos Delfins é o espectro do mesmo. A carreira dos Delfins não pode ser comparada, por exemplo, ao sucesso meramente circunstancial dos D'ZRT. Ao contrário da banda dos Morangos Com Açúcar, que tiveram o seu tempo durante a temporada de Verão de 2005 (bolas, estou velho), os Delfins, que tiveram o "seu tempo" nos Anos 80, só começaram a vender discos em quantidades pornográficas na segunda metade dos Anos 90. Foi uma expansão consolidada. E no entanto, parece tão difícil encontrar alguém que tem um disco dos Delfins como encontrar um benfiquista que votou no Vale e Azevedo. Se só a compilação "O Caminho Da Felicidade" vendeu mais que 200 mil cópias – um número monstruoso para o nosso país – tem que haver alguém, algures, com o álbum em casa.

Para além da intemporalidade das canções de Miguel Ângelo e Fernando Cunha ( o "Steven Seagal", para quem não se lembra) que foram objecto de celebração da noite da Passagem de Ano, é preciso ainda lembrar o virtuosismo da besta que tocava baixo nos Delfins. Rui Fadigas era um extraterrestre do baixo e isso é por demais evidente no álbum "U Outro Lado Existe" (1988). Se têm dúvidas, é ouvir temas como "Bandeira" (atentem na intro), "1 Só Céu" (solo antes do refrão) e "1 Lugar Ao Sol" (mais um solo). Que besta.

Deixo para último o mais óbvio dos argumentos. É que vocês também gostam de pelo menos um tema dos Delfins. Nem que seja o superlativo cover do António Variações ("se tzu tze dá-ás"), com tiques e tudo. Vá, podem admitir, que já estamos em 2018 e odiar os Delfins é tão 2008.

É verdade, vou-me embora. London is calling. Mas as crónicas continuarão a partir da grande ilha.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Celebrar o Natal com as 10 melhores canções sobre homicídio

É Natal, é Natal, tralalalala. E estas são as 10 melhores canções sobre assassinatos.

Natal é tempo de paz, harmonia e daquelas playlists com canções que passam em centros comerciais para maximizar as vendas. E centros comerciais à pinha de gente a ouvir o "Adeste Fidelis" são lugares propensos a ideias desviantes. Tempo por isso para uma resenha de canções sobre homicídios. Não falo de referências metafóricas como a morte em "Bohemian Rhapsody" ("Mama, just killed a man..."), ou o afogamento que nunca aconteceu em "In The Air Tonight" ("if you told me you were drowning, I would not lend a hand"). Isto é homicídio, assassinato, supressão da vida. Percebem onde quero chegar.

10. Guns N' Roses — "Used to Love Her" (1988)



O homicídio como break up.

"I used to love her, but I had to kill her" — aquela vontade de enterrar a nossa amada sete palmos debaixo da terra. Quem nunca? E mesmo depois de ir de vela, "I can still hear her complain".

Na verdade, segundo Slash, o tema não é sobre uma ex-namorada de um dos Guns, mas sim sobre o cão de Axl Rose que estava doente e teve que ser abatido. Mas não deixemos a verdade intrometer-se no meio de uma história bem mais interessante, não é?

9. Eric Clapton — "I Shot The Sheriff" (1974) 



O homicídio como defesa.

O protagonista do tema de Bob Marley queria defender-se da acusação pelo homicídio do adjunto do Xerife e para isso... admitiu que baleou o próprio Xerife. Negar um crime, confessando outro — uma técnica sui generis de defesa, ou aquele charrito a mais. Para a próxima talvez seja melhor ideia planear a defesa só depois de passar o efeito da moca.

Marley era odiado pelo Xerife da cidade e embora defenda que não sabia porquê, admite que podia ter a ver com aquelas plantinhas que ele tinha a crescer lá no jardim. (na verdade, esta parte era sobre a pílula contraceptiva que a namorada tomava contra a vontade de Bob, mas mais uma vez a verdade não é tão interessante como a nossa imaginação)

Bob Marley escreveu "I Shot The Sheriff" em 1973 para o álbum "Burnin'" dos The Wailers. O álbum chegou a Eric Clapton, que não só incluiu um cover de "I Shot The Sheriff" no seu álbum de rehab "461 Ocean Boulevard" — gravado depois de 3 anos de dependência de heroína  —, como também o lançou em single. A versão de Clapton atingiu o primeiro lugar nos Estados Unidos e acabou por alavancar a difusão da música de Bob Marley e do Reggae no mercado americano.

8. GNR — "Bellevue" (1986)



O homicídio como misericórdia.

Se o homicídio em "Bellevue" não é um acto altruísta, é pelo menos inofensivo, ou não fossem as vítimas desempregadas. Que diferença fazem eles à sociedade? — desculpa-se o protagonista imaginado por Rui Reininho, pelos corpos que deixou a boiar no lago "só para brincar ao cinema negro". Sem mais amigos de sobra, todos enterrados no jardim, o homicida esconde-se solitário na Bellevue, encarcerado na sua própria prisão.

Muito curioso perceber que a referência aos "amigos enterrados no jardim" constante da letra original (e reproduzida na primeira prensagem de "Psicopátria") foi alterada à última hora na gravação do tema para "as minhas amiguinhas lá no jardim", que é a linha que se ouve na versão do álbum. Talvez os GNR achassem que a letra estava demasiado mórbida. E estava mesmo. Exactamente por isso é que era melhor.

Foto do LP original de "Psicopátria" cortesia de Paulo Garcia, radialista da Radar FM

7. Peter Gabriel — "Family Snapshot" (1980)



O homicídio como espectáculo.

Peter Gabriel escreveu "Family Snapshot" com base no livro "An Assassin's Diary" de Arthur Bremer (1973), um homem que vivia obcecado com a ideia de se tornar uma celebridade a qualquer custo. Inspirado pelo assassinato de John F. Kennedy em 1963, Bremer planeou o homicídio de Richard Nixon como a forma mais fácil de se tornar famoso e só quando percebeu que tal seria extremamente difícil (Nixon era o presidente dos EUA na altura), mudou o seu alvo para George Wallace, político que defendia a segregação racial.

Bremer pretendia obter a maior cobertura mediática possível, pelo que temporizou o ataque de forma a aparecer nos jornais da noite na Europa e de fim de tarde nos Estados Unidos. Chegou até a pensar num soundbite para gritar enquanto atirava em Wallace — "A penny for your thoughts!"—, mas com o nervosismo do momento, esqueceu-se.
Wallace sobreviveu, mas ficou com uma bala alojada na coluna e por isso paraplégico para o resto da vida.

"Family Snapshot" acompanha o carrossel emocional do assassino, desde a frieza durante o planeamento do ataque, passando pelo turbilhão nervoso no momento do tiroteio, até à depressão pós-clímax, em que se apercebe que tal como quando era criança, só queria ter a atenção dos outros.

6. Talking Heads — "Psycho Killer"



O homicídio como desporto.

"Psycho Killer" não é propriamente um tema sobre um homicídio. É sobre muitos. Aqui, o foco de David Byrne é o próprio homicida, um sociopata que age em regime compulsivo. É um dos raros temas que nos conduz à mente tensa, turva e elíptica de um serial killer.

"Psycho Killer" é uma canção nervosa, ansiosa e psicótica; um clássico de culto que se tornou o ex libris dos Talking Heads. Não admira por isso que fossem a banda preferida de Patrick Bateman de "American Psycho" (infelizmente esta informação só aparece no livro e foi omitida no filme de Mary Harron).


5. Nirvana — "Where Did You Sleep Last Night" (1994)



O homicídio como alienação.

"Where Did You Sleep Last Night" tem origem num tema muito antigo. "In The Pines" é um clássico do cancioneiro norte americano que remonta a 1870 (!!!) e que em diferentes iterações ao longo das décadas (dos séculos!) conta a história de um/uma amante (depende do sujeito) que se portou mal aos olhos do protagonista e de um marido/mulher cuja cabeça foi encontrada ao volante de um carro e o corpo nunca foi encontrado. Independentemente dos detalhes da história, o importante são as emoções obscuras de alienação, traição e culpa, sentidas pelo protagonista. Todas elas estavam próximas de Kurt Cobain aquando da interpretação que vemos em cima, no programa Unplugged da MTV.

Até eu — longe de ser o maior fã dos Nirvana — sou tomado pela intensidade de Kurt Cobain neste tema. Atentem no Kurt aos 4:15 deste vídeo. É um olhar que vale por mil palavras.


4. Elton John — "Ticking" (1974)



O homicídio como massacre.

Bernie Taupin viu em Elton John o parceiro ideal para musicar as histórias de bandidos saídas do seu imaginário. Os exemplos ao longo dos anos foram inúmeros, mas destaco "The Ballad of Danny Bailey (1909-34)" (1973), obra-prima maior de Elton que conta a história da (curta) vida errante de um pistoleiro no faroeste americano e "I Feel Like a Bullet (in the Gun of Robert Ford)" (1975), que compara o comportamento de Bernie no seu casamento à bala fatal que atingiu pelas costas o fora-da-lei Jesse James. Qualquer um destes temas seria candidato a esta lista, mas nenhum deles retrata um massacre como "Ticking".

"Ticking" é um épico que conta detalhadamente a história de um jovem calmo de classe média e boas notas na escola ("an extremely quiet child"), que um dia se passa da cabeça, entra num bar em Queens (NY) com uma caçadeira e mata toda a gente lá dentro. Uma história do imaginário de Taupin em 1975, mas que poderíamos ver nas notícias a qualquer momento nos dias de hoje.


3. Rage Against The Machine — "Killing In The Name" (1992)



O homicídio como ódio.

Não há nada de imaginário acerca do tema mais célebre dos Rage Against The Machine. "Killing In The Name" é sobre o inexplicável espancamento do taxista afro-americano Rodney King por 4 polícias da LAPD em 1991, os quais foram absolvidos em julgamento apesar das provas em vídeo. Quando as imagens foram parar às televisões, a revolta popular foi de tal ordem que se deram violentos motins em Los Angeles.

Os Rage Against The Machine (que no nome dizem logo ao que vêm) canalizaram esta revolta em música e o resultado é o superlativo "Killing In The Name". O tema teve várias vidas desde o seu lançamento original em 1991 e em 2009 lideraram a icónica Christmas Chart do Reino Unido, devido a uma campanha no Facebook destinada a impedir o single do X-Factor de ser nº 1 no Natal.


2. Pink Floyd — "Careful With That Axe, Eugene" (1969)



O homicídio como arte.

"Careful With That Axe, Eugene" é provavelmente o melhor tema de sempre sobre homicídio. Ou não. Fuck knows. Não sei eu e na verdade ninguém sabe o que em nome de Freddie significa este Mauna Kea psicadélico. Mauna quem? Mauna Kea, amigos, Mauna Kea — o ostracizado vulcão havaiano que é, ele sim, a montanha mais alta do mundo (isto é, que tem a maior distância altimétrica entre a base e o topo (10.2 km), em oposição ao popular rei-do-baile Monte Evereste, que é simplesmente a montanha de maior altitude (8.85 km) — e ora aí está um pouco de trivia para os meus pacientes leitores).  Mas porquê o Mauna Kea? Porque é hipster? Claro, mas mais que isso porque é um vulcão. E "Careful With That Axe Eugene" é um vulcão muito, muito zangado, que entra em erupção sempre que apertam os tomates ao nosso Roger o nosso Roger manda um daqueles gritos maníacos para dentro (já repararam? ele grita para dentro!), logo a seguir a suspirar "careful... careful... wi-that-axe Eugeeeeene". Mas divago.

A metáfora da montanha pretendia descrever a estrutura Gaussiana do tema, começando na calmaria aquática das profundezas do Pacífico, subindo paulatinamente até ao momento do homicídio — aquando do grito de Roger — e depois afundando novamente até ao silêncio absoluto do oceano. Estruturalmente, "Careful With That Axe Eugene" é perfeito. Só não é certo que o tema retrate mesmo o homicídio do pobre Eugene, não sendo conhecido (e ainda bem) o real significado do tema mais misterioso e intenso da discografia dos Pink Floyd. Não há aqui qualquer palavra discernível, só o grito maníaco da morte.


1. Nick Cave and the Bad Seeds + Kylie Minogue — "Where The Wild Roses Grow" (1995)



O homicídio como o epítome do romantismo.

"Where The Wild Roses Grow" conta a lenda de Elisa Day, de quem se dizia que era tão bonita como as rosas silvestres que cresciam à beira do rio. É uma história de amor que acaba com a morte de Elisa, porque "toda a beleza deve morrer". A supressão da vida como a expressão máxima da paixão. Um sentimento tão grande que a vida não pôde conter. Ou haverá algo mais visceral que o homicídio?

O tema de Nick Cave (a fazer de assassino, com Kylie Minogue a fazer de Elisa) é uma história de amor com fim trágico... ou será que é? Falta contar o outro lado da história. Elisa vivia infeliz. Ela esperou toda a vida por um amor torrencial, mas estava condenada a ser tratada como um bibelot por homens que viam nela um mero troféu. "I wish I was scared that you killed me, but I guess that will never happen." — pensou tantas vezes com antigos namorados. Quando finalmente chegou à cidade um homem que a amava com toda a intensidade que sempre sonhara, ela não se assustou quando o viu com uma pedra na mão e lhe sussurrou "all beauty must die". Elisa respondeu com a calma de quem sente um amor maior que a vida — "You can murder me if you want" — e deixou pacificamente que ele esmagasse a sua cara à beira rio, onde o seu fantasma vive desde então.


25-11. Menções honrosas

15 temas que não entraram na lista, mas poderiam ter entrado.

25. Sufjan Stevens — "John Wayne Gacy Jr." (2005)
24. The Decemberists — "Shankill Butchers" (2006)
23. The Police — "Murder By Numbers" (1983)
22. Richard Marx — "Hazard" (1991)
21. Tom Waits — "Murder In The Red Barn" (1992)
20. Bob Dylan — "Hurricane" (1976)
19. The Smiths — "Suffer Little Children" (1984)
18. Bauhaus — "Bela Lugosi's Dead" (1979)
17. Johnny Cash — "Folsom Prison Blues" (1957)
16. The Beatles — "Maxwell Silver Hammer" (1969)
15. Pearl Jam — "Jeremy" (1991)
14. Bruce Springsteen — "Nebraska" (1982)
13. Neil Young — "Powderfinger" (1979)
12. Misfits — "Die Die My Darling" (1984)
11. Eminem ft. Dido — "Stan" (2000)

Para finalizar, uma playlist com o serviço completo. É muita morte junta.
Feliz Natal, madafacas.

sábado, 16 de dezembro de 2017

A melhor música de 2017



Chegámos àquela altura do ano. Listas, listas e mais listas. Adoro. Sabem o que ai vem, por isso não vos vou fazer perder tempo. Sem mais demora, eis a lista daqueles que foram — considerados por mim — os melhores álbuns de 2017. E no fim uma playlist para ouvir tudo de uma vez.

10. Neil Young — "Hitchhiker"


Será que um álbum que foi gravado há mais de 40 anos (1976), mas lançado apenas em 2017, conta para as contas de melhor álbum no ano em que finalmente foi editado? É um dilema recorrente em artistas como Neil Young e Bruce Springsteen, adeptos de guardar na gaveta algumas das suas melhores pérolas durante longos períodos de tempo. No ano passado, tive uma dúvida semelhante com "The Gouster" de David Bowie e este ano com "Man Of War" dos Radiohead — o melhor tema de 2017, mas gravado em 1997 (com faixa vocal de 2017?).

Seja de que forma olhemos para "Hitchhiker", o resultado da análise será sempre superlativo. Seria um grande álbum se fosse lançado em 1976 e é igualmente saindo em 2017. Gravado numa única noite de lua cheia no Verão de 1976 (Neil insistia em gravar em noites de lua cheia), nos estúdios de Indigo Ranch em Malibu, "Hitchhiker" materializa em disco um momento mágico em que a interpretação imaculada e um lote de canções inatacável são somados.

A maioria das canções foi lançada em diferentes álbuns ao longo dos anos, com excepção de "Give Me Strength" e do maravilhoso "Hawaii" (como é que é possível?); o próprio tema-título — "Hitchhiker" — só apareceu em 2010, no álbum "Le Noise". Mas não pensem que o facto de já conhecermos a maioria das canções torna "Hitchhiker" irrelevante. O álbum apresenta versões definitivas de todos os seus temas, salvo "Powderfinger" e "Pocahontas" — ambas regravadas em 1979 para "Rust Never Sleeps".

Melhor momento: O falsetto em "Hawaii"iiiiii.


9. Mount Eerie — "A Crow Looked At Me"


É possível que nunca tenham ouvido falar nos Mount Eerie. Eu também não, até este ano. Um pouco de contexto então: os Mount Eerie são o projecto musical do músico e produtor Phil Elverum, que contou com diversos colaboradores ao longo dos anos. Entre eles, a sua mulher Geneviève Castrée, que participou em quatro álbuns da banda. Em Julho do ano passado, Geneviève morreu com um cancro no pâncreas, um ano a seguir ao diagnóstico. Phil foi atirado contra a brutalidade dos acontecimentos com uma única defesa: a música.

Menos de um ano volvido, chega-nos um novo álbum dos Mount Eerie, com o relato cronológico do processo de luto de Phil Elverum. E é brutal. Não é aquele brutal de quando saímos do cinema depois de uma reposição do "Blade Runner" e dizemos "ei, foi brutal!". Não. Isto é brutal no sentido bruto da palavra. É dor transformada em arte (embora o própria diga que tal é impossível) e é de partir o coração: "I don't want to learn anything from this, I love you".

Melhor momento: O niilismo de "Real Death".


8. VA — "Twin Peaks: Limited Event Series Original Soundtrack" / "Music from the Limited Event Series"



Vou ser o mais directo possível. As melhores coisas que aconteceram no mundo em 2017 foram o Tetra do Benfica, o "The Legend Of Zelda — Breath Of The Wild" para a Nintendo Switch e a terceira série de "Twin Peaks". Quaisquer palavras são parcas para descrever a experiência quimérica daquelas 18 horas de televisão, algo nunca antes visto e dificilmente repetível.

Para lá das dimensões filosóficas e visuais da série, também a música assume um papel fundamental, tanto na narração da história, como no fecho de cada capítulo da mesma. Isto porque a série é na verdade um longo filme de 18 horas, dividido em 18 partes de uma hora. Os marcadores que separam cada um dos capítulos são performances ao vivo na Roadhouse. A quantidade de música nova que David Lynch deu a descobrir na série é assombrosa, pelo que foram lançadas duas bandas sonoras para cobrir todo este espectro: "Twin Peaks: Limited Event Series Original Soundtrack", uma banda sonora mais tradicional e "Twin Peaks: Music from the Limited Event Series", com maior foco nos temas apresentados na Roadhouse. Ambos essenciais.

Melhor momento: A sombria versão instrumental de "Saturday" pelos Chromatics, superior à versão original de Johnny Jewel com lírica, incluída no seu álbum "Windswept".


7. Cigarettes After Sex — Cigarettes After Sex"


Os Cigarettes After Sex já andavam a prometer um álbum há vários anos; há 5 mais precisamente, altura do lançamento do seu primeiro EP — "I.". Desde então, o momentum da Dream Pop oscilou vigorosamente depois da sua expansão no início da década e já está longe do lugar de proa conquistado por discos como o homónimo dos The xx (que também tiveram novo trabalho este ano, mas abaixo das expectativas). Depois de vários singles dispersos ao longo dos últimos anos, os Cigarettes After Sex deram-nos finalmente o seu primeiro long play em 2017 e não desapontaram. O que não significa que nos dessem algo diferente do que esperávamos. Pelo contrário.

Se alguma coisa pode ser dita contra o álbum de estreia dos CAS é que é um disco de um mood só e só de um mood. Mas esses presumíveis desdéns podem ser vistos como virtudes por quem procura simplesmente um álbum introspectivo, ambiental e pacífico. Um álbum ao mesmo tempo vagaroso e poderoso. O disco descolou da pequena pista da banda texana e voou para alturas bem acima da dimensão do grupo, algo bem patente no concerto do Mexefest há poucas semanas. À imagem dos The xx, seguir-se-á o inevitável disco irrelevante dentro de dois anos.

Melhor momento: O riff de "K." que abre o álbum e estabelece o mood.


6. Slowdive — "Slowdive"


Entre muitas coisas, 2017 foi o ano da "second coming" do Shoegaze. E faz todo o sentido que assim seja. Numa altura em que há uma demanda por sonoridades cheias, projectadas em formato IMAX, o Shoegaze assenta que nem uma luva neste nicho do mercado.

Tivemos assim o regresso dos Ride — que voltaram a contar com Andy Bell, depois de 18 anos a colaborar com os irmãos Gallagher — e mais importantemente, vimos os Slowdive aterrar com um álbum astronómico, um dos melhores dreamies dos últimos anos. "Star Roving" é uma das grande malhas do ano.

Melhor momento: "Star Roving" a levar-nos às estrelas.


5. IDLES — "Brutalism"



Em tempos de incerteza, os IDLES trazem-nos carnificina concisa. Em tempos de mentira, os IDLES trazem-nos honestidade. Em tempos de Photoshop e body shaming, os IDLES trazem-nos uma barragem visceral de bílis alegre e jovial. Não são palavras minhas, são retiradas (e traduzidas) do site da banda, mas nem por isso deixam de ser a perfeita descrição do primeiro álbum da banda de Bristol, depois de "Welcome EP" (2012) e do "Meat EP" (2015). "Brutalism" é feroz, visceral e sucinto.

O impacto dos IDLES na cena underground não é de somenos. Numa das melhores (e mais deliciosamente exageradas) reviews que li este ano, o crítico descrevia o álbum de estreia da banda como a soma de "Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols", "It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back" (Public Enemy), "Fresh Fruit For Rotting Vegetables" (Dead Kennedys) e "Bad Brains", tudo ao mesmo tempo. Embora a descrição tenda muito para o lado da hipérbole (e eu adoro reviews desavergonhadamente hiperbólicas) e beneficie do marasmo em que vive a up-and-coming cena Rock em 2017, já dá para perceber o entusiasmo gerado pelos IDLES.

Melhor momento: O furioso "Mother", tema sobre a falecida mãe do vocalista Joe Talbot... e os Tories.


4. The War On Drugs — "A Deeper Understanding"


O novo dos The War On Drugs (que é o mesmo que dizer, de Adam Granduciel) era um dos discos mais esperados de 2017. O lançamento do épico "Thinking of a Place" no Record Store Day de Abril antecipava algo em grande e felizmente que as expectativas não foram defraudadas. "A Deeper Understanding" é um grandíssimo álbum e um grandíssimo candidato a álbum do ano. É certamente um dos mais sólidos — entra forte em "Up All Night" e mantém a bitola lá em cima até ao fim.

Cosendo texturas com as mesmas linhas do anterior "Lost In A Dream", o novo álbum dá uma sensação de continuidade na discografia dos The War On Drugs, como se de uma única música de 2 horas se tratasse. Este mesmismo funciona como um pau de dois bicos — por um lado, oferece conforto e segurança ao ouvinte; por outro, não oferece nada de novo. Porque sejamos sérios: a verdade é que The War On Drugs são tão variados como os AC/DC. Not that there's anything wrong with it. É o que é. Eu também passo o Verão inteiro a comer sardinha e o Inverno a comer bitoque e nunca me canso.

Melhor momento: O glorioso glockenspiel roubado a "Born To Run" de "Holding On". Tema do ano?

3. Roger Waters — "Is This The Life We Really Want?"


Uma esmagadora surpresa. Não devem encontrar o novo álbum de Roger Waters em muitas listas de final do ano e isso deve-se a duas razões: 1. Estamos em 2017 e Roger Waters já não é um artista relevante há quase 40 anos; 2. A maior parte do público não ouviu ou não prestou a devida atenção a "Is This The Life We Really Want?" devido à razão número 1.

Como toda a gente, também eu não tinha grandes expectativas para o novo disco de Roger. Mas acabou por ser uma das grandes obsessões deste ano. Para lá da visão niilista da vida e do mundo, "Is This The Life We Really Want?" é um exercício de introspecção implacável. Roger despe-se por completo, olha para dentro e escava a fundo em si mesmo. Nu e cru. Sem medos. E desta vez, não é só a interminável saga do pai que morreu na guerra; é o próprio Roger que morreu por dentro e quer falar sobre isso. Este é o álbum mais pessoal de toda a sua carreira e se eu tivesse que apostar, diria que só chegou agora, porque só agora é que Roger aprendeu a olhar para dentro. Um disco intenso e extenuante, dissecado aqui.

Melhor momento: A intensa trilogia que fecha o álbum — "Wait For Her" / "Oceans Apart" / "Part Of Me Died" — tão pessoal, que chega a ser desconfortável.


2. Ryan Adams — "Prisoner"


"If loving you is wrong, I am a criminal. I am a prisoner for your love." é talvez a melhor linha que eu ouvi este ano. É simples, tão simples que arranha o lugar-comum, mas tão certeira. E não é assim que nasce a melhor Pop?

As canções de "Prisoner" foram escritas na ressaca do divórcio de Ryan Adams com a actriz Mandy Moore. Na altura, em vez de se enclausurar para escrever e gravar esses temas, Ryan preferiu lidar com a separação através da desconstrução de "1989" que, tal como toda a música que Ryan escrevia na época, também é sobre amor perdido e corações partidos.

Prisoner" é um álbum pejado de canções de amor (e falta dele), obrigatório para quem vive as canções Pop como o Tom do "500 Days Of Summer". Esteve "assim" do galardão de álbum do ano (o álbum foi dissecado aqui), mas acabei por me deixar ir para onde me mandou o meu coração. E o meu coração mora em Manchester.

Melhor momento: "If loving you is wrong, I am a criminal.". Tudo dito. E não esquecer o álbum de B-Sides com 17 (!!!) faixas bónus.


1. Liam Gallagher + Noel Gallagher — "As You Were" + "Who Built The Moon?"


Tenho a perfeita noção de quão polémica arrisca a ser esta escolha. Não é segredo para ninguém que sou um apaixonado dos Oasis e dos irmãos Gallagher. Sim, sou um Parka Monkey. Prendam-me. Este ano cobri extensivamente o regresso glorioso do "nosso miúdo" (RKid para os fãs dos Oasis) Liam Gallagher, as bulhas com o mano mais velho, a crise de meia-idade de Noel, bem como o seu ambicioso álbum novo. Não há aqui sequer qualquer tentativa de imparcialidade — se estamos num ano em que um dos manos Gallagher lança um álbum, é muito provável que ele apareça no meu top. Ora, 2017 viu não um, mas dois álbuns dos manos — "As You Were" de Liam e "Who Built The Moon?" de Noel. E não poderiam ser mais diferentes.

A pergunta óbvia é qual deles o melhor. É óbvia, mas não é a pergunta correcta. Porque ambos se complementam. Algures entre "As You Were" e "Who Built The Moon?" está o álbum do ano. Pensem nestes discos como dois volumes da mesma obra, duas faces da mesma moeda. Liam tem as melhores canções, Noel tem a melhor produção. Liam tem o foco, Noel tem a ambição. Liam tem as melhores partes, Noel tem o melhor todo. Entre os dois, está o balanço perfeito entre canções e produção, atmosfera e atitude. E se Noel passou o ano a ser um idiota, não estou a ver nada que o irrite mais a ter que partilhar o primeiro lugar com mano mais novo. As you fucking were.

Melhor momento: O sincero e comovente pedido de desculpas de Liam em "For What It's Worth".


11-20. Menções honrosas

20. Brand New — "Science Fiction"
19. The Orwells — "Terrible Human Beings"
18. Spoon — "Hot Thoughts"
17. Morrissey — “Low In High School”
16. LCD Soundsystem — "American Dream"
15. Kaitlyn Aurelia Smith — "The Kid"
14. Waclaw Zimpel / Jakub Ziolek — "Zimpel / Ziolek"
13. Ride — "Weather Diaries"
12. Kurt Vile / Courtney Barnett — "Lotta Sea Lice"
11. Destroyer — "Ken"


Faixa bónus: as melhores canções

E para completar a resenha de 2017, fiquem também com a lista das 20 melhores canções do ano, com direito uma playlist com tudo incluído no fim. Maravilha.

20. Cloud Nothings — "Enter Entirely"
19. The Orwells — "Put The Body In The Bayou"
18. Queens Of The Stone Age — "Feet Don't Fail Me"
17. IDLES — "Mother"
16. Destroyer — "Tinseltown Swimming In Blood"
15. LCD Soundsystem — "Emotional Haircut"
14. Noel Gallagher's High Flying Birds — "The Man Who Built The Moon"
13. Morrissey — "Spent The Day In Bed"
12. Slowdive — "Star Roving"
11. The Weeknd — "Secrets"

10. Ride — "Home Is A Feeling"
9. Brand New — "Lit Me Up"
8. Kurt Vile / Courtney Barnett — "Over Everything"
7. Tears For Fears — "I Love You But I'm Lost"
6. Foo Fighters — "Run"
5. Neil Young — "Hawaii"
4. The War On Drugs — "Holding On"
3. Ryan Adams — "Prisoner"
2. Liam Gallagher — "For What's It Worth"
1. Radiohead — "Man Of War"

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Há um Mexefest para cada um e o meu foi de Samuel Úria

Crónica da última data no calendário da temporada festivaleira


Ano após ano, o Vodafone Mexefest vai solidificando a sua posição como o último festival dos melómanos da cidade (e de um pouco por todo o país, a avaliar pelo sotaque nortenho ouvido amiúde). Não só pela posição derradeira no calendário da temporada festivaleira, mas também por ser o último reduto dos que procuram música para além das ondas das rádios generalistas. Sem os nomes sonantes que fazem o palco principal dos maiores festivais, o Mexefest compõe o seu cartaz com artistas em ascensão (Aldous Harding), novíssimas coqueluches da cena alternativa (Cigarettes After Sex), nomes mais consolidados do Indie (Destroyer) e apostas seguras no plano nacional (Valete, Manel Cruz). E que bom termos um festival assim.

O bonito do Mexefest é que são vários festivais dentro de um festival. Com ofertas para todos os estilos de música, o Mexe permite que cada um possa fazer o seu próprio cartaz. E é bom que essa escolha seja firme, sem hesitações nem deambulações entre concertos — metade deste aqui e metade daquele ali —, com risco de se perder o tempo no caminho avenida acima e avenida abaixo (ou, pior, nas desesperantes filas para a entrada em algumas salas subdimensionadas) e no fim de contas, não se ver nada. Vi alguns espectadores mais desavisados em discussões de grupo desta índole e não é bonito. O melhor é seguir a velha máxima de "amigo não empata amigo", cada um vê o que quer e no fim encontram-se todos para uma imperial de balanço do que foi melhor. Fica a lição para o ano.

Por exemplo, os aficionados do Hip Hop tiveram jackpot no primeiro dia com joker de Valete e Orelha Negra. Eu gostaria de ter visto o Valete e ainda mais de ter visto o Manel Cruz, mas com os dois à mesma hora de Destroyer, a escolha caiu fatalmente no meu canadiano preferido a seguir ao Neil Young. Dan Bejar não esteve, porém, nas suas noites mais selvagens. O reportório foi apresentado de forma irrepreensível, mas faltou-lhe aquela intensidade a que me habituou em noites passadas. Alguém na Avenida comentava que Bejar parecia estar mais preocupado em beber do que em cantar, mas foi exactamente o contrário. De todos as vezes que vi os Destroyer, esta foi aquela em que Bejar bebeu menos; e foi também a mais morna. No Music Box, há 5 anos, Bejar bebeu tanto que teve que pedir ao bar um refill da sua geleira de minis a meio do concerto. E acreditem, o ambiente fervia por baixo da Rua do Alecrim. Mas também é verdade que o álbum que trazia na altura ("Kaputt") era bem melhor que este "Ken". O momento alto do concerto foi precisamente quando no fim se recordou "Chinatown" do álbum de 2011. Findo o espectáculo, tempo de seguir avenida acima.

Não pensem que isto da mobilidade no Mexefest é uma chatice. Pelo contrário, faz parte do espectáculo. Os carros de boleia do festival são muitos e muito voluntariosos. Mas o melhor são mesmo os autocarros com banda a tocar. Por falar nisso, El Señor no Vodafone Bus foram uma belíssima surpresa no primeiro dia. Não deve ser fácil tocar nos solavancos do trânsito da Avenida da Liberdade.

Se os Destroyer estiveram em noite mais morna, o ambiente à porta do S. Jorge fervia para ver Samuel Úria. Era a fila impaciente para entrar numa sala já a rebentar pelas costuras. Lá dentro, o tondelense pegava fogo à Sala Manoel Oliveira — palco maior dos cinemas — com a ajuda da Gisela João e da Ana Bacalhau (Deolinda). Samuel fechou o espectáculo com uma versão eufórica e furiosa de "Teimoso" que levantou toda a sala e que ainda ressoa hoje, dois dias volvidos, na minha cabeça com o grito "Eu nunca fui do Prog Rock!". E por acaso eu até sou do Prog Rock. Obrigado Samuel, é o momento que levo do festival.

A segunda noite tinha como pratos fortes do meu roteiro Cigarettes After Sex, Everything Everything e Moullinex. Sem grandes surpresas, os Cigarettes After Sex proporcionaram a maior enchente do festival no Coliseu dos Recreios. Nem a presença de Aldous Harding no S. Jorge — acabadinha de ganhar o galardão de álbum do ano para a Rough Trade — demoveu o público do nome mais forte de todo o cartaz. O set dos Cigarettes After Sex foi, como se esperava, moody e calmo, apenas interrompido pelos rugidos do público, nem só entre canções, desproporcionalmente vocal para a tranquilidade da música que saía das colunas. O som começou demasiado baixo e após alguns gritos de "MAIS ALTO!" no público lá foi levantado a volumes condizentes com o tamanho do Coliseu. A própria banda não parecia estar preparada para a dimensão da audiência que os esperava em Lisboa, mas pela reacção não devem demorar muito a voltar a terras portuguesas.

A minha curiosidade pelo Math Rock dos Everything Everything prendia-se muito pela sua origem. É que já dizia o Peter Hook (Joy Division / New Order), uma das 10 condições para uma banda ter sucesso é viver em Manchester. Os Everything Everything são mancunianos, mas têm mais de Wild Beasts do que de New Orde. É difícil ver-lhes os traços subversivos dos seus conterrâneos. Foi um passo abaixo no Coliseu, antes do clímax da festa que viveu a seguir com Moullinex. Um fecho de festival enérgico, ideal para o público despejar as últimas gotas do depósito da temporada festivaleira de 2017. Para o ano há mais.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Abram alas para o homem que fez a lua — O ambicioso novo álbum de Noel Gallagher

A crise de meia idade de Noel Gallagher não é assim tão má como parecia

Se a crónica de ontem deixou escapar que eu levo este assunto do álbum novo do Noel Gallagher demasiado a peito — pessoalmente até —, então deixem-me que vos diga que estão completamente certos. Se me lêem habitualmente, já deram conta da importância da música dos manos Gallagher na minha vida, pelo que esta é uma matéria que levo brutalmente a sério.

Não pensem que por isso sou brando com os rapazes de Manchester. Pelo contrário. A expectativa e o escrutínio andam de mãos dadas e eles estão sempre sujeitos a exigência máxima. Mais, isto é motivo de discussão diária ao jantar com a minha namorada. Ela defende o Noel e diz que o rapaz anda confuso. Eu ataco-o porque ele só tem dito merda. E ela depois acusa-me de ser igual a ele e com isso ganha automaticamente a discussão com o paradoxo do absurdo de qualquer ataque meu ao Noel ser um ataque também à minha pessoa. Parece-vos confuso? Bem-vindos à minha vida.

Já não estamos no Kansas. Muito menos em Oasis

Soa a sirene do quartel com uma explosão de sound effects e sintetizadores, ouvimos Ysée a canalizar demónios de "Smack My Bitch Up" (The Prodigy) e "Power" (Kanye West) e desde logo percebemos que já não estamos no Kansas. Muito menos em Oasis. Estamos sim no Kentucky, mais precisamente em "Fort Knox", no já conhecido tema de abertura de "Who Built The Moon?" onde Noel mostra ao que vem. Foi a última composição a entrar no álbum e é provavelmente o tema de todo o disco que mais se afasta do espectro tradicional dos álbuns de Noel. Como já vimos, não é propriamente uma grande revolução para o que o foi fazendo nos últimos 20 anos; a diferença é ver o que no passado era atirado para B-Side aparecer agora como figura de proa. Em condições normais, diria que é uma escolha sui generis para tema de abertura, mas já sabemos que a intenção de Noel era precisamente fazer um statement à cabeça. Início excelente e prometedor. O pior vem a seguir.

"Who Built The Moon?" evidencia alguma intermitência logo no início com a transição do auspicioso "Fort Knox" para o underwhelming "Holy Mountain"Já disse tudo o que havia para dizer sobre o híbrido Plastic Bertrand — Ricky Martin de Noel. Para esquecer.
Muito mais interessante é o toque Soul / R&B do tema seguinte — "Keep On Reaching". Presumo que era este o tema que a Noel se referia quando disse ao Chris Moyles que soava a Marvin Gaye no novo álbum. Não tenho a certeza quanto ao Marvin, mas um Stevie Wonder ficaria orgulhoso a ouvir isto. Fresco e entusiasmante.



Depois vem mais um headscratcher. "It's A Beautiful World"  soma um beat de Chemical Brothers a uma bassline pulsante e veste tudo numa atmosfera etérea, onde até a faixa vocal de Noel aparece mergulhada. É um tema ambicioso e um épico de manual. Mesmo fustigado pela clássica lírica nonsense de Noel — "It's like a dream you and one night and put it over there", hã? —, "It's A Beautiful World" tinha tudo para ser um triunfo inatacável. Só que a meio do tema, Noel resolveu inventar. Enquanto ouvimos o som maravilhoso de um sintetizador evocativo de "Cluster One", somos interrompidos por um anúncio em francês de Charlotte Marionneau (a tocadora de tesouras) — "Attention, attention! Mesdames, messieurs!" — que aparece do nada e completamente a despropósito. Sei que Noel quer fazer "some cutting edge shit" para gerar atenção, mas a música não tem que sofrer com isso. A vontade em agir fora da caixa é tão grande que Noel se permite a arruinar o clímax daquela que poderia ter sido a sua pièce de resistance. Uma pena.

Por falar em épicos de manual, "She Taught Me How To Fly" foi directamente retirado da cartilha dos New Order. A bateria é textbook Stephen Morris e o baixo emula Peter Hook na perfeição. Depois da interpretação algo insípida no programa de Jools Holland no mês passado (onde o grande destaque foi dado à tocadora da tesoura), com o enquadramento sónico adequado, o tema tem aqui palco para brilhar. A lírica carrega na mesma tecla de "Holy Mountain" e "It's A Beautiful World". Noel está feliz com a sua mulher (Sarah MacDonald, que também aparece na capa do álbum) e não se coíbe de elaborar extensivamente sobre o assunto.

O álbum continua a ganhar tracção com o enigmático "Be Careful What You Wish For", que a espaços parece um B-Side de Tears For Fears; e note-se que "parece Tears For Fears" é um dos maiores elogios no meu livro. Outrora um tema deste tipo teria sido sumariamente atirado para a escuridão do Lado B de um single. Hoje é mais um tema onde Noel sai, com sucesso, da sua zona de conforto.



Segue-se aquele que é provavelmente o tema mais "safe" de todo o álbum. "Black & White Sunshine" é o mais óbvio throwback da clássica sonoridade dos Oasis e poderia perfeitamente figurar no miolo de "Chasing Yesterday" como irmão-gémeo de "You Know We Can't Go Back". David Holmes não deixou porém que o tema passasse sem o seu dedo e acrescentou-lhe uns backwards sounds para ter a certeza que o álbum pára em todos os apeadeiros do que deve ser um disco psicadélico. Há ainda aqui um pequeno easter egg — um cheirinho a Pet Shop Boys sempre que Noel diz "You got the nerve, I got the brains" e me deixa sempre à espera que ele complete com "let's make lots of money!".

"Interlude (Wednesday Part 1)"  e "End Credits (Wednesday Part 2)" são os toques mais visíveis de David Holmes em todo o álbum. O produtor, para além do trabalhos em bandas sonoras cinematográficas, fez muita coisa apetitosa no advento do Trip Hop no fim dos anos 90. Estes interlúdios instrumentais solidificam a influência francesa do álbum (aposto que a menina Sarah MacDonald é fã da cultura do país), evocando o superlativo "Moon Safari" dos Air. Noel ganha a sua aposta quando arrisca na música ambiente e deixa água na boca para o que poderia ser um álbum ainda mais instrumental. Se contarmos com "Fort Knox", são três temas aqui. Mais uma prova que Noel sucede quando se preocupa apenas com a música e não com ser weird for the sake of it.



Já "If Love Is The Law" não é propriamente weird, mas soa a uma faixa horrível dos Mumford & Sons, embora tema que isso seja um pleonasmo. Vale pela harmónica de Johnny Marr que aparece no fim a salvar a honra da canção.

E agora "make room for the man who built the moon", que é como quem diz, o momento alto de "Who Built The Moon?" que estava guardado para o fim. Citando o irmão mais novo de Noel (desculpa lá, miúdo), "The Man Who Built The Moon" é bíblico. A guitarra maldosa, a produção angulosa, a lírica perigosa ("We never should have left town in the first place"), a orquestração cinemática de um filme de terror dos anos 60, tudo cai no sítio certo.
Este pode muito bem ser o Bond Theme de que tanto temos ouvido falar este ano. É pena que não seja utilizado na próxima entrada do franchise da EoN, uma vez que até o título encaixaria que nem uma luva a um filme da saga de James Bond, mas depois de rejeitarem os Radiohead duas vezes, já nada me surpreende. "The Man Who Built The Moon" é facilmente o melhor tema do álbum (até porque o outro concorrente é uma faixa bónus) e, por que não, um dos melhores temas que ouvi este ano.

Veredicto

"Who Built The Moon?" é o álbum que Noel Gallagher queria fazer desde há 20 anos e nunca teve coragem. A aposta na electrónica e na sonoridade psicadélica está longe de ser uma coisa nova, mas se até hoje esses temas haviam sido relegados para fora do corpo principal dos álbuns, aqui puderam finalmente ter o lugar de destaque que mereciam. Embora este seja o disco que já se esperava de Noel há muitos anos, não é necessariamente por isso o melhor da sua discografia, uma vez que sofre de alguma intermitência no reportório. É o próprio Noel quem admite que pela primeira vez na sua carreira foi para estúdio sem canções e foi inventando à medida que ia avançando. É uma abordagem diferente da que estava habituado, que por vezes resulta em cheio ("Fort Knox") e outras vezes nem por isso ("Holy Mountain").

Não é por acaso que pela primeira vez na sua carreira, faltaram B-Sides para completar o lote do álbum. Todos os discos de Noel Gallagher e dos Oasis podem ser desdobrados em dois: o álbum principal e as faixas bónus / Lados B, que na boa tradição Smithsiana oferecem uma audição tão ou mais aprazível que o lote principal. Normalmente, estas faixas extra incluem-se num de dois grupos: temas acústicos e/ou inacabados: ou temas experimentais, demasiado fora da caixa para o corpo principal. Ora, como os temas do segundo grupo desta vez foram parar ao álbum e não houve muitas sobras do primeiro grupo nas sessões de gravação, Noel correu o risco de não cumprir a tradição que mantinha desde o primeiro álbum dos Oasis. Valeu o engenheiro de som, que gravou uma lindíssima performance do pungente "Dead In The Water" nos estúdios da RTÉ 2FM em Dublin e que assim permite a Noel manter a sua tradição. É a clássica pérola escondida de Noel.



Noel disse um dia que "good times don't make good records" (bons tempos não fazem bons discos) e talvez seja essa a razão de não ter a torrente habitual de canções a cair na esferográfica. Estas carências são mascaradas com a produção cinemática de David Holmes, que faz este disco valer mais pela soma das partes. "Who Built The Moon?" é assim uma experiência sónica diferente dos dois primeiros álbuns de Noel — "Noel Gallagher's High Flying Birds" e "Chasing Yesterday" — que se focavam nas canções como entidades individuais. Pena que a espaços se sinta que Noel está demasiado preocupado em fugir do passado (uma antítese do álbum anterior) e força o pensamento fora da caixa sem critério. Não obstante tudo isto, "Who Built The Moon?" é um capítulo fulcral na carreira do Chief e deixa a promessa de ser um stepping stone para obras sónicas ainda mais ambiciosas no futuro. Aguardemos.

Por outro lado, o meu Last.fm diz-me que já fiz 193 scrobbles em "Who Built The Moon?" (isto é, já ouvi faxia do álbum por 185 vezes) desde Terça-feira. Se considerarmos uma média de 4 minutos por tema, isto resulta em 13 horas a ouvir o álbum em 4 dias apenas. Nada mau para um álbum de crise de meia-idade.