quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A crise de meia-idade de Noel Gallagher

Respirem fundo, vem aí um longo ensaio sobre o novo álbum de Noel Gallagher

Há quem compre um Porsche e há quem comece uma banda. Noel Gallagher já não quer nada com os Oasis e por isso fez um álbum ostensivamente diferente de tudo o que tinha feito até agora. Ou pelo menos é essa a ideia que ele quer passar. Só que não é bem assim.

Um desejo antigo

Vamos ler nos próximos dias muitas reviews que apontarão "Who Built The Moon?" como "uma revolução", "um enorme desvio na sonoridade" de Noel e se perguntarem ao próprio, ele será o primeiro a confirmar tal teoria. Nada mais falso. Quem esteve com atenção ao que Noel fez nos últimos 20 anos percebe que este disco é um avanço lógico e apenas a concretização de um desejo antigo. Os sinais estavam todos lá.

Noel começou a flirtar com sonoridades psicadélicas em tempos tão idos como 1998, nas sessões do que poderia ter sido o seu primeiro álbum a solo, abortado quando o seu irmão Liam invadiu Wheeler End — o estúdio onde Noel gravava sozinho — e assim ressuscitou os Oasis, nascendo daí o álbum "Standing On The Shoulder Of Giants" (2000); mais tarde, ainda nos Oasis, em temas como "Falling Down" e "The Turning" de "Dig Out Your Soul" (2008); já a solo, com "AKA... What A Life!" do seu homónimo álbum de estreia (2011); no álbum de colaboração com os Amorphous Androgynous que ficou na gaveta, de onde ainda sobreviveram pérolas como "The Right Stuff" e "The Mexican", que acabariam no último álbum até à data "Chasing Yesterday" (2014). Este disco não nasceu do vácuo.

Uma campanha desastrosa

Para quem esteve atento, a "nova direcção" trilhada em "Who Built The Moon?" é somente um passo natural no arco discográfico de Noel Gallagher. Já a forma como Noel quis promover este disco foi tudo menos natural. O mancuniano quis deixar bem claro que este é um corte com o passado e talvez com medo que as pessoas não percebessem a ideia, decidiu proceder a uma estratégia de marketing verdadeiramente kamikaze.
Para dar início às hostilidades, começou por virar os seus próprios fãs contra si, apelidando-os de "little 15-year-old snotty cunts with polka-dot scarfs" (uma tradução livre disto poderia ser "pequenos coninhas ranhosos de 15 anos com écharpes às bolinhas"), sublinhando que a intenção neste momento é dividir a sua fanbase para deitar fora os "Parka Monkeys" (numa óbvia referência ao irmão Liam).

Alienar propositadamente os próprios fãs? Como se justifica uma coisa destas? Duas hipóteses de explicação. Primeira hipótese: Noel passa por uma crise identitária de meia-idade e já não se identifica com os seus fãs; agora é BFF de Bono Vox, frequenta as festas da alta sociedade e acha que cresceu cultural e socialmente para lá do espectro dos Oasis, da Britpop e da lad culture que os engloba. Segunda hipótese: Noel sempre tratou os seus fãs com desdém e mesmo assim, eles estiveram sempre lá durante mais de 20 anos; Noel achou por isso que eles nunca o iriam abandonar e quis ir à procura de novos targets.

O problema é que nisto Noel esqueceu-se de duas coisas muito importantes: são os seus fãs leais que compram os discos que lhe dão o dinheirinho no fim do mês; os seus fãs são leais não só a ele, mas também ao irmão mais novo e até podem admitir que Noel os insulte, mas não admitem que rebaixe o Liam que, apesar dos 45 anos, ainda é carinhosamente chamado de R Kid (o nosso miúdo). O resultado desta campanha desastrosa, ao nível de António Costa nas Legislativas de 2015, foi que Noel passou de Chief — adorado por milhões, a Beige Boy — bombo da festa nas redes sociais.

As primeiras amostras

Não foram só os insultos que espantaram os fãs de Noel. O Chief quis desde logo dar a conhecer dois temas fracturantes para mostrar ao que vinha: o inenarrável primeiro single "Holy Mountain" (já lá vamos) e a faixa de abertura "Fort Knox", tema que Noel diz ser inspirado em "Power" de Kanye West (2007) — uma referência interessante, mas (não por acaso) das menos aprazíveis para os fãs dos Oasis. Escolhida a dedo, portanto.

"Fort Knox" é um tema predominantemente instrumental, que canaliza as brilhantes sessões de "Standing On The Shoulder Of Giants", mais especificamente temas como "Fuckin' In The Bushes" e "Teotihuacan" (que acabaria na banda sonora dos X-Files), com um óbvio toque do produtor David Holmes — cuja influência se faz sentir ao longo de todo o disco. Holmes é conhecido pelo seu trabalho em bandas sonoras cinematográficas e pelos seus discos Trip Hop no final dos anos 90 (atentem em "Don't Die Just Yet", do álbum "Let's Get Killed" (1997)). Foi uma excelente aposta de Noel para a produção deste álbum (já me estou a adiantar na review) e o seu dedo sente-se logo no primeiro tema.

Antes de "Fort Knox", já tínhamos ouvido o ofensivo "Holy Mountain". Já o disse aqui — um rip-off de uma banda francesa dos anos 70 (Plastic Bertrand) com um refrão do Ricky Martin. É tão mau que parece uma piada. O melhor que posso dizer deste descarrilamento é que é, de facto, catchy. Mas catchy na mesma medida em que "She Bangs" é catchy, por isso não sei até que ponto pode ser um elogio. "Holy Mountain" assustou toda a gente, mas talvez fosse esse mesmo o propósito de Noel — gerar atenção.

O Scissorgate

Não contente com o choque gerado pelas duas primeiras amostras do álbum, Noel subiu a parada e apareceu no programa de Jools Holland para tocar o novo "She Taught Me How To Fly" com uma miúda na banda a tocar... uma tesoura. Sim, leram bem. Foi o Scissorgate. Se os fãs de Noel já estavam confusos, pior ficaram. "O que raio se está a passar com o nosso Noel?", perguntava-se nas redes sociais. Do outro lado da barricada, Liam retorquiu com a promessa de ter alguém em palco a afiar um lápis e mais uma vez ganhou o lance.

Noel estava habituado a que tudo o que fizesse fosse visto como cool e a verdade é que se o scissorgate tivesse acontecido há um ano, a reacção teria certamente sido outra. Mas meses de má publicidade fazem muita coisa e quando começaram a aparecer pessoas a descascar batatas nos concertos de Liam (numa clara alusão ao insulto clássico do mano mais novo), Noel percebeu que passara a alvo de chacota público. Para piorar, os fãs não estavam a comprar bilhetes para os seus concertos (que normalmente esgotam em minutos) e terá sido aí que se deu o clique e Noel acordou da sua crise de identidade. Seguiram-se algumas entrevistas mais sóbrias, onde defendeu que "isto é só um álbum" e que "daqui a 10 anos isto vai ser olhado como apenas uma fase", mas o mal estava feito.

Resta apenas a música para salvar Noel Gallagher. Será que o seu novo álbum o pode salvar? A review de "Who Built The Moon?" segue dentro de momentos.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A música que nunca mais poderemos ouvir

Está na hora de enfrentar a realidade sobre os nossos artistas preferidos

Não vale a pena continuar a tapar o sol com a peneira. Depois de desmascararmos figuras repugnantes como Louis CK (de quem felizmente nunca mais vamos ouvir falar), chegou a hora de falarmos sobre John Lennon, George Harrison, Eric Clapton, Lou Reed, David Bowie, Iggy Pop, Keith RichardsAnthony Kiedis, Steven Tyler, Jimmy Page e todos os inveterados perpetradores no mundo da música de má conduta sexual em determinado momento nas últimas décadas. Não é por serem ícones culturais e autores de obras que engrandeceram as nossas vidas que devem escapar ao julgamento público. Tal como Kevin Spacey foi apagado do filme "All The Money In The World" (que tinha estreia marcada para este mês), também eles terão que ser inevitavelmente riscados da História em nome da decência.

Em defesa dos bons costumes, de hoje em diante deverá ser imoral ouvir Beatles, Velvet Underground, Led Zeppelin, Rolling Stones e, já que estamos com as mãos no machado, qualquer outra banda Rock que tenha existido (a expressão "Sexo, drogas e Rock 'n' Roll" já diz tudo). Nem vale a pena falar no Hip Hop, no Punk e muito menos no Metal, que isso obviamente terá que ir de vela também. Tudo a deitar esses discos fora. A mim, confesso que custou bastante mandar para o lixo aquela prensagem do White Album de 1978 em vinil branco que tanto estimava. Mas teve que ser. Não posso dar-me ao luxo de ser acusado de cúmplice dos homens asquerosos que estiveram envolvidos na criação daquele álbum.

Se tudo isto vos parece disparatado, é porque certamente o é.

Perguntar-me-ão sobre o dilema de ouvirmos arte produzida por um indivíduo (alegadamente) desprezível. Mas qual dilema? Não há dilema rigorosamente nenhum. A arte deve ser julgada pelos parâmetros da arte e os indivíduos devem ser julgados pelas leis do Homem. É tão simples quanto isto. E muita confusão vai nessas cabeças se existe algum dilema; confusão e desconhecimento da História. Acham mesmo que os vossos heróis levaram vidas puras e impolutas? Lamento, mas não. Nenhum deles. Eles são homens e mulheres como todos nós e estão pejados de defeitos; com a agravante de terem esses defeitos maximizados pelo tratamento faraónico a que muitas vezes são sujeitos.

Não há qualquer mal em perceber que os nossos heróis são humanos e falíveis. Isso pode desiludir alguns fãs que vivem num mundo de fantasia, mas aí o problema é deles, que precisavam de um reality check. Se os nossos heróis infringiram a lei, deverão ser julgados como os demais nos lugares indicados. Mas fora as contas com a justiça, o que eles fazem na vida privada não deveria afectar a apreciação que fazemos da sua arte. Muito menos para condenações sumárias e tentativas de apagamento da História pela Nova Inquisição. E eis que chegamos novamente ao tema da censura.

A brigada inquisitória do politicamente correcto continua a sua senda de sanitização do mundo segundo os seus próprios termos. Começa a ser corrente a tentativa de avaliar arte segundo ataques ad hominem; veja-se o caso do novo filme do Louis CK cujo lançamento foi cancelado, tal como os seus contratos com a FX e a HBO. A censura já não chega, portanto. A pena da moda agora está agravada com o despedimento com justa causa. De repente, regressámos à Idade Média, que não por acaso é recordada como a idade das trevas. Depois de ler artigos que pedem a demolição de estátuas em Roma, estamos um passo a menos de apagar as pinturas de Miguel Ângelo na Capela Sistina que, segundo rezam os historiadores, também não era flor que se cheirasse.

A este ritmo, vamos chegar ao ponto que o Sr Albano da contabilidade vai para a rua porque meteu a mão na cintura a uma miúda no Incógnito em 1997. E nem é preciso meter a mão. Com a criminalização do pedido do número de telefone e esta tendência de retroactivos morais, também eu estou na linha de fogo. E vocês? Estarão a salvo? Nunca tiveram uma acção não criminosa da qual não se orgulham? Porquê parar na má conduta sexual? Todos os pecados são susceptíveis de excomunhão social. Mentiu ao fisco? Despedido. Passou à frente na linha do Pingo Doce? Despedido. Ouviu música muito alto depois das 10 da noite? Despedido. Não sei se isto é o regresso à Idade Média, se um episódio de Black Mirror.

Se começarmos a querer reescrever a História e a apagar a arte dos pecadores, no fim de contas só ficaremos com os discos dos Anjos (e não sei até que ponto é que os manos Rosado não praticaram algumas patifarias com as suas fãs nos loucos anos 90). Pensem bem se querem subir ao pedestal dos moralistas porque então aí têm que mostrar consistência e no mínimo, serão obrigados a desfazer-se dos vossos artistas preferidos. Estarão dispostos a isso?

Da minha parte, recuso-me a julgar a arte pelo comportamento do autor. Vou continuar o ouvir o que eu quiser, a ver o que eu quiser e a rir-me com o que eu quiser. E sim, isso significa que vou continuar a ouvir os Beatles, os Led Zeppelin e os Velvet Underground e que me vou continuar a rir com as piadas do Louis CK. E ninguém tem nada a ver com isso.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O dia em que Marilyn Manson subiu ao palco com uma metralhadora

...e foi a melhor coisa que fez em 20 anos

Num dos seus melhores bits, o falecido comediante, filósofo mundano e meu camarada rocker Bill Hicks dizia que queria ver as suas estrelas Rock a entrar em palco com o instrumento numa mão e uma arma na outra, despedindo-se do público com um tiro na cabeça no fim do concerto. Isso sim, seria o clímax perfeito para um espectáculo que se quer o mais visceral possível.

Marilyn Manson elevou a parada esta semana e subiu a palco no tema "We Know Where You Fucking Live" com o que parecia ser uma metralhadora. Sem mais, apontou a arma ao público e "abriu fogo". Na verdade, a metralhadora era só um microfone, mas deve ter pregado um belo susto a quem lá estava.

Roger Waters já tinha aventado esta ideia na preparação do espectáculo original do álbum The Wall. Farto do público nos concertos dos Pink Floyd, Roger imaginou bombardeamentos sobre o público como metáfora do famoso incidente da cuspidela em Montreal (Roger chamou um fã da fila da frente para cima do palco e cuspiu-lhe na cara). O efeito nunca foi posto em prática, mas se havia alguém capaz de levar uma ideia arriscada deste tipo adiante, esse alguém seria Marilyn Manson. Só que ele fez isto no mesmo dia em que um homem entrou numa igreja com uma arma automática e matou 26 pessoas. Não é preciso ser bruxo para adivinhar que a reacção da inquisição moralista das redes sociais e da brigada do bom-gosto de alguns órgãos de comunicação social foi implacável, ao ponto de superar a indignação relativamente ao próprio atentado do Texas.

Os espectáculos de Marilyn Manson são provocatórios e ofensivos. Sempre foram. Noutras notícias, a água molha e o sol queima. Não sou o maior fã da música de Marilyn Manson, a banda; mas sempre tive um certo fascínio pela figura de Marilyn Manson, o homem. Brian Warner, o auto-proclamado "God of Fuck", é um one of a kind; foi ele a última estrela Rock capaz de chocar o mundo com histórias tão macabras que todos queríamos acreditar que fossem verdade. Retirar costelas para fazer um auto-felácio? Por que não? Vazar o próprio olho para substituir por um de vidro? Claro que sim. Antes dele, houve Iggy, Ozzy e Alice. Depois dele, mais ninguém.
"In an era where mass shootings have become a nearly daily occurrence, this was an act of theater in an attempt to make a statement."
Marilyn Manson

É como diz MM. Uma vez que os atentados terroristas são um acontecimento quase diário nos Estados Unidos, estes raramente já são notícia. Até porque neste caso o atirador não era islamita e como tal, já não é terrorismo, é só "um louco com uma arma". Até porque se há mais armas que pessoas no território americano, então é normal que isto aconteça com frequência e cada vez mais vezes. Portanto compreendamos os órgãos de comunicação: aqui a verdadeira notícia não é um gajo entrar numa igreja a varrer com uma metralhadora, é o Marilyn Manson entrar em palco com uma metralhadora de brincar.

Foi a melhor coisa que Marilyn Manson fez desde 1997. Ou vá, pelo menos desde aquele maravilhoso cover do "Personal Jesus" em 2004. Não só canalizou sobre si a atenção que pretendia, como também abriu alas ao ridículo que são os indignadinhos do mundo moderno, preocupados com merdas sem interesse nenhum, deixando as verdadeiras aberrações votadas à normalidade. Se a arma de brincar do Marilyn Manson nos aterroriza mais que as armas a sério, devem ser essas que devemos banir.

Quanto a quem estava na sala, pelo menos saíram de lá aterrorizados, com o susto de uma vida. Se isso não é um espectáculo visceral como se quer, não sei.


É o que se pode chamar de espectáculo .

The left the room with the thrill of their lives. That's when you know you've been to a great show.
That's a show.

Para além da atenção que reuniu

Foi punk
Actually, it was punk and it was genius. The best thing he ever did since 1997.
At least it got stereogum (and other outlets) to speak more about him holding a fake gun than all the real guns being shot at that country.
Marilyn Manson does offensive, provocative thing on stage. In other news, fire is hot and water is wet.

Se isto não é um espectáculo de emoções ao rubro, não sei.


(e poucos dias depois
Vale relembrar que a imagem é polêmica já que os EUA vivem passando por atentados cometidos por atiradores tal como o ocorrido no começo de outubro, quando um deles matou 59 pessoas e feriu mais de 500 durante um festival country em Las Vegas.

Já ninguém liga.

A páginas


Fez com que se desse mais cobertura ao stunt dele do que ao facto que um gajo entrou numa igreja a varrer tudo com uma arma

Às tantas

Nós estamos à distância de um oceano dos americanos

não se fez esperar.
Só que não era uma metralhadora a sério.




- Marilyn Manson
https://www.youtube.com/watch?v=LdzaFASKB5M




(MC Somsen)

Chamava-se Devin Patrick Kelley e, como sempre acontece nestes casos, não era um terrorista, porque os terroristas espalham o medo e o terror, enquanto estes assassinos, cuja motivação política, religiosa ou ideológica ninguém consegue explicar, “apenas” espalham a morte.
Isto contudo não invalida que nos EUA continue a ser maior o medo de terroristas que de assassinos comuns munindo as suas armas de forma banal.
Há um lado absolutamente inconsciente e profundo na cultura americana que leva a que estes casos sejam sempre excepcionais, ou apenas justificados por um homem louco, quando a maior loucura é esta liberdade institucional e constitucional de que qualquer americano tem o direito de pegar em armas para matar outro americano, a torto e a direito.

Notem que quando falo em fascínio, eu quero dizer mesmo é MEDO. Era o que aqueles

Quando era mais novo, o que eu tinha mesmo era MEDO. Aqueles vídeos surreais eram demais para a mente perturbável de um miúdo de 11 anos (ainda hoje não consigo ver "Begotten" — filme do realizador de "Antichrist Superstar", que se mantém unreleased até hoje).
 mas ele assustou-me quando eu era miúdo (Ver artigo) E pelos vistos continua com essa capacidade

Cryptorchid
https://www.youtube.com/watch?v=Jj_vCNevsfY

mórbido



Assumindo o papel de inimigo público, Manson (o homem) capitalizou – e de que maneira – a imagem de anticristo que se criou sobre ele no final dos anos 90. Foi ele que a alimentou e à sua custa, fez com que a música chegasse a muito mais pessoas.
Hoje vivemos tempos muito diferentes e Manson jamais terá o poder de choque de outrora. O problema é que se o poder de choque desvaneceu com os anos, a música também não melhorou. Mas isso é outra história.


Pena que as digressões fossem muito curtas.

ara atirar sobre a audiência.

chocou o seu público ao apr sentar-se em palco com uma arma e 


Isso sim, seria um concerto para contar aos amigos.


https://www.facebook.com/Pitchfork/posts/10155730026001000
https://www.facebook.com/Stereogum/posts/10155951976786979

https://www.facebook.com/businessinsider/videos/10155204911269071/


Fuck that! I want my rockstars dead! I want 'em to fucking play with one hand and put a gun in their other fucking hand and go, "I hope you enjoyed the show. Bang!" Yes! Yes! Play from your fucking heart!... I am available for children's parties, by the way.

Bill Hicks

Início
Bill Hicks descreveu o seu show Rock n roll perfeito






A juntar à imagem sinistra do vocalista, os Marilyn Manson (a banda) trouxeram-nos música que parecia saída de uma trituradora The Prodigy e Black Sabbath em esteróides, regados com muito vodka do Lidl. Um cocktail abrasivo.







quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Tears For Fears no Royal Albert Hall — Como pode música tão depressiva ser tão eufórica?

Crónica do concerto mais curto da minha vida

Foi tudo muito rápido. Num momento estava a virar pints no bar do Royal Albert Hall, ansioso que chegasse a hora do concerto e daí a nada, já estava a aplaudir a saída de Roland Orzabal e Curt Smith do palco, confuso com o facto de só terem tocado meia hora. Meia hora?! Então eu venho de Portugal para os ver e eles só tocam meia hora? Só que não foi bem assim.

Os Tears For Fears foram a Londres promover a nova compilação "Rule The World: The Greatest Hits" e tocaram durante 100 minutos para uma plateia ávida pela sua música. Foi o primeiro concerto dos TFF em nome próprio na Europa desde 2005 e no RAH, foi o primeiro desde 1985, ano em que nasceu este que vos escreve. O entusiasmo na plateia reflectia a saudade e a importância do momento. Já vi alguns concertos na minha vida (este foi o 200º) e poucas vezes vi uma reacção tão fanática por parte do público, a dançar e a cantar por cima de todos os códigos de etiqueta britânicos. Foi um verdadeiro Royal Happy Hall.

Da minha parte, este era "só" o concerto mais ansiado da minha vida. Partindo do princípio que a ciência não nos dará para breve a ressurreição do Freddie Mercury, de todas as minhas bandas de eleição, só os Tears For Fears me faltavam ver. E as expectativas — que não eram tímidas — voaram para a estratosfera. Lembram-se da "Get Psyched Mix" do Barney Stinson do "How I Met Your Mother"?
"Now, people think a good mix should rise and fall. But people are wrong! It should be all rise, baby! Now prepare yourselves for an audio journey to the white, hot center of adrenaline!"
Foi exactamente como o Barney descreveu. Em vez de uma sinusoidal de emoções, os Tears For Fears presentearam-nos com hora e meia de cabeçadas nos limites do êxtase. Qual é a banda que se atreve a começar um concerto com o seu maior hit? Os Tears For Fears, pois claro. Entraram em palco com "Everybody Wants To Rule The World" e daí até ao final com "Shout", foi sempre lá em cima (só não foi sempre a subir, porque já não havia mais para subir) com uma torrente de hits e deep cuts eufóricos. Porque é mesmo de euforia que se trata, quando falamos dos TFF. Tenho várias fotografias neste concerto que nunca poderão ser mostradas, porque estou com um sorriso tão idiota que parecia saído de uma excursão para ver o mar pela primeira vez. E isto a ouvir música sobre depressão e esgotamentos nervosos. Como pode música tão depressiva ser tão electrizante?

Desde a insanidade do primeiro single "Mad World" (tema de 1982 que teve segunda vida em 2003, quando foi o nº1 de Natal nas tabelas britânicas), passando pelo romantismo de "Head Over Heels" ("I wanted to be with you alone and talk about the weather"), ou pelo ecumenismo de "Sowing The Seeds Of Love" ("those fucking politics"). Sempre lá em cima. Mas não foram só os êxitos que fizeram o concerto; foram também os doces saídos das profundezas dos álbuns — "Secret World" (do fantástico "Everybody Loves A Happy Ending"), "Broken" (só com passagem instrumental) e "Memories Fade" (o momento mais intenso da noite); e a cereja no topo, o fenomenal cover de "Creep", de uma certa banda que em tanta coisa são os sucessores espirituais dos Tears For Fears.

O momento alto da noite surgiria no fim, com o épico jazzista-orgânico-progressivo "Badman's Song", deep cut do álbum "The Seeds Of Love" de 1989 que (dizem-me) durou 9 minutos, mas que quando terminou me fez pensar "Já?! Então mas isto não era suposto durar 9 minutos?". Para a noite ser perfeita, só faltou o feroz "Raoul And The Kings Of Spain", favorito dos fãs que Roland teima em não cantar. Faltou também o último single da banda "I Love You But I'm Lost", lançado para promover a compilação "Rule The World: The Greatest Hits" (que foi o que os TFF foram fazer ao RAH), mas inexplicavelmente ignorado na setlist. Que outra banda poderia dar um concerto para promover o lançamento de um single e não o tocar? Pois. Clássico trolling dos sempre elusivos Tears For Fears.

No fim, senti que foi o concerto mais curto da minha vida. Mas esse é um daqueles mistérios do tempo. Por que raio faz os bons momentos parecerem tão curtos e depois os estica na memória para a eternidade? Fuck knows.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

"George Michael: Freedom" é o último trabalho de George e é de partir o coração

Nos últimos dias de vida, George Michael realizou um documentário sobre os melhores anos da sua carreira. Esta semana o filme viu finalmente a luz do dia.

George Michael deixou-nos no último Natal com muito menos música do que devia. O seu derradeiro trabalho foi o documentário "George Michael: Freedom", filme que realizou nos últimos dias de vida para promover a reedição do álbum "Listen Without Prejudice Vol.1" de 1990 e que irá para as lojas amanhã. O filme tem como grande mérito explicar por que um talento tão grande como George nos deu tão pouca música.

George Michael lançou o seu primeiro single "Wham Rap! (Enjoy What You Do)" em 1982 e ao longo de 34 anos de carreira discográfica, editou apenas 7 álbuns de originais – 3 com os Wham! e 4 a solo. Em período semelhante, o seu amigo Elton John fez 17 álbuns e isto já em fase descendente da sua carreira. Porquê tão pouca produtividade? Ainda que nunca de forma explícita, o documentário indica-nos três razões: insegurança, perfeccionismo e perda. Nada que não soubéssemos já pela música de George. Bastava estarmos atentos.

Insegurança. George foi sempre um menino tímido e inseguro que precisava da aprovação dos outros. Foi Andrew Ridgeley (o miúdo fixe da escola, com quem formaria os Executive e mais tarde os Wham!) que lhe deu a confiança para se lançar no mundo do espectáculo. Em "Listen Without Prejudice Vol.1", já depois de se ter tornado uma mega estrela, George diz em "Waiting (Reprise)" que "All those insecurities that have held me down for so long, I can't say I've found a cure for these". Só esta necessidade de aprovação explica que o documentário passe tanto tempo a ouvir as opiniões de "famosos" como James Corden, Ricky Gervais, e Jean Paul Gaultier sobre a música de George.



Aliás, o rol de celebridades que aparecem para reverenciar George é avassalador: Mark Ronson, Mary J. Blige, Nile Rodgers, Tony Bennett, Elton John ("I think people generally adore George. Not just his music."), Stevie Wonder (que faz uma piada a ele mesmo – "O quê? O George é branco?!"), Kate Moss, as supermodelos de "Freedom '90" (Naomi Campbell, Christy Turlington, Cindy Crawford, Linda Evangelista e Tatjana Patitz – quem?) e até o actual líder das tabelas britânicas Liam Gallagher, que descreve George como "Modern day Elvis" e revela que Noel também ouvia os Wham!. Naturalmente que todos discorrem sobre como George é fantástico, mas disso já todos sabíamos. A maioria dos testemunhos é dramatizado e dispensável; teria sido preferível ouvir o que tinham para dizer os que estiveram realmente em palco e no estúdio com George, casos de Deon Estus (baixista dos Wham! e de George a solo) e claro, de Andrew Ridgeley. Nem sequer houve nada da Pepsi e da Shirlie. Uma pena.

Perfeccionismo. Talvez uma consequência da razão apontada em cima, George era também um control freak. Neste documentário é ele o realizador e o narrador, algo que só causa estranheza a quem não conhece George. Este é o mesmo George Michael que em 1984 se desentendeu com o realizador Lindsay Anderson no filme "Foreign Skies: Wham! in China"; que em 1990 dava ordens a David Fincher (esse mesmo, do "Fight Club") no teledisco de "Freedom '90"; que em 1992 afastou Thierry Mugler do vídeo de "Too Funky"; e que ao longo da sua carreira vetou o lançamento de todos os filmes-concerto que gravou porque não estava completamente satisfeito com eles, acabando por lançar (provavelmente por obrigação contratual) o mais insípido de todos – "Live In London", ao vivo no Earls Court em 2008. Para trás ficaram (pelo menos) os filmes do The Final Concert dos Wham! no Estádio do Wembley em 1986, da Faith Tour no Madison Square Garden em 1988 e da Cover To Cover Tour na Wembley Arena em 1991. Todos eles aparecem no documentário em pequenos excertos, que perfazem alguns dos melhores momentos deste filme.



George era muito teimoso, "um dos homens mais teimosos que já conheci", diz Elton John. Tão obstinado a fazer as coisas à sua maneira, que levou a toda-poderosa Sony a tribunal por esta não aceitar a mudança de direcção artística em "Listen Without Prejudice Vol.1". George tinha razão em querer fazer um álbum diferente de "Faith" (como questiona Nile Rogers: "quando se tem aquela dimensão de sucesso, chega-se a casa e pensa-se 'e agora? o que é que eu faço?!'"); mas não toda a razão, principalmente quando classificou como "escravatura" a sua relação com a editora, enquanto vivia numa mansão em Highgate. No fim, George perdeu no tribunal em toda a linha e confessou que "foi tudo uma completa perda de tempo". Acabaria por ser David Geffen a salvar George (também seria interessante ouvi-lo), ao comprar o contrato com a Sony por 40 milhões de dólares. Mas a história do litígio com a Sony tem muito que se lhe diga e isso é pela primeira vez explicado neste documentário.

Na verdade, a batalha legal contra a Sony serviu como escape para a morte de Anselmo Feleppa, o namorado de George (para os mais desavisados, sim, George era homosexual) que caiu aos pés da SIDA pouco depois daquela lendária actuação de George com os Queen, que serviu precisamente para consciencialização desta doença. O conflito foi a forma que George encontrou para canalizar a raiva que sentia pela perda do amor da sua vida. O que nos leva à última razão da falta de produtividade de George.

Perda. O terceiro e mais sombrio de todos os motivos aparece na parte final do documentário. "George Michael: Freedom" terá sido provavelmente a primeira vez em que George fala abertamente da sua relação com Anselmo Feleppa num registo pura e cruamente confessional. O desaparecimento da sua paixão abalou-o profundamente. Depois da batalha com a Sony e subsequente resgate pela Virgin, George sacou um álbum superlativo sobre luto, sofrimento e recuperação – "Older". O single de avanço  – "Jesus To A Child" – era sobre Anselmo e dizia tudo o que George sentia, numa perspectiva agridoce: "I've waited for you all those years and just when it began, he took you away".



"Older" foi um mega-sucesso crítico e comercial e parecia um bálsamo na vida de George Michael. Mas o alívio pela boa prestação do seu álbum não durou muito tempo. George descobriu que a mãe tinha cancro e Lesley morreria poucos meses depois, em 1997. George sentiu que estava amaldiçoado e confessa que aqui "perdeu a música" nele. 

E perdeu mesmo. Na prática, a carreira de George Michael parou ali. A seguir a "Older", houve um punhado de faixas na colectânea "Ladies & Gentleman" (1998), um álbum de covers em 1999 ("Songs From The Last Century") e um último album de originais em 2004 – "Patience" –, muito abaixo da bitola de qualidade de George.

George termina o filme com o desejo de ser recordado como um grande compositor e um artista com um integridade. Onde quer que esteja, pode ficar descansado, que isso ninguém lhe vai tirar. No resto, o tempo far-lhe-á a devida justiça, como já fez no último ano, em que até mereceu artigos na Pitchfork.

"George Michael: Freedom" é um documentário de George Michael, sobre George Michael e à George Michael. Não admira por isso que partilhe as virtudes e os defeitos do homem: é um retrato honesto, profundo e destemido, mas a espaços também auto-indulgente e disperso; é um filme de partir o coração, que nos recorda o quanto George melhorou as nossas vidas; é um excelente resumo dos anos musicais de George, desde os tempos dos Wham! até a música se lhe acabar em "Older"; e é especial, por ser o último trabalho de George Michael.

No documentário, Ricky Gervais recordou-me o motivo que me levou a começar a ouvir George Michael nos meus turbulentos anos de adolescente: "em tempos de grande depressão há sempre quem diga que 'isto é terrível'; e depois há os escapistas, aqueles que dizem 'let's party!'". George tinha essa coragem. Isto para além de me ter ensinado as primeiras dicas para engatar miúdas com a letra de "I'm Your Man". Fun fact: as dicas funcionaram na altura e ainda funcionam hoje. True story.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A saga dos irmãos Gallagher tem novo episódio e este é digno do Seinfeld

Neste novo capítulo, os Gallaghers vêem-se nos lugares opostos aos que nos habituaram

No último episódio da quinta temporada de Seinfeld – "The Opposite", um dos melhores da série –, tudo acontece ao contrário. George Costanza decide ignorar os seus instintos e começa a fazer o oposto do que normalmente faria. Em resultado, ele ganha a miúda gira, enfrenta os bullies e consegue o emprego nos Yankees. Ao mesmo tempo, tudo começa a correr mal à normalmente bem-sucedida Elaine, que perde o trabalho, o namorado e a casa. Enquanto esta inversão de forças acontece, tudo parece equilibrar no mundo de Jerry, que continua com um amigo bem-sucedido e outro desgraçado, só que agora ao contrário. O mundo dos Gallaghers nos últimos meses em tudo se assemelha a este episódio de Seinfeld.

"This is not working, Jerry. My life is the complete opposite of everything I wanted it to be."

Desde que os Oasis se separaram em 2008, parecia que a História estava escrita para os irmãos Gallagher. Noel era o compositor e principal força criativa nos Oasis e por isso seguiria naturalmente para uma carreira a solo triunfal. Liam, por seu turno, era "só" o cantor enraivecido da banda e por isso estava destinado a falhar miseravelmente nos seus projectos a solo. A História imediata deu razão a estas previsões, com o sucesso dos dois primeiros álbuns de Noel e a irrelevância dos trabalhos dos Beady Eye. Quando Liam acabou com os Beady Eye e se refugiou em casa durante anos a fio, parecia inevitável que o seu fim tinha chegado e que só a mão do mano mais velho o poderia salvar, com um eventual regresso nostálgico dos Oasis. Só que um dia Liam percebeu que a sua vida se tornara no oposto do que ele queria que fosse e como tal levantou o rabo do sofá e escreveu "Bold" (aqui ouvida pela primeira vez num pub irlandês em Julho de 2015). E tudo mudou.

"Here's your chance to try the opposite. Instead of tuna salad and being intimidated by women, chicken salad and going right up to her."

O que se passou a seguir é digno de um episódio escrito por Jerry Seinfeld e Larry David. O caído-em-desgraça Liam amadureceu e apostou tudo num regresso mad fer it para o seu primeiro álbum a solo. Em Agosto de 2016 assinou um acordo com a Warner e declarou-se oficialmente "a cunt"  (consistente com o que ele sempre chamou aos artistas a solo). O buzz foi crescendo ao longo dos meses até ao seu primeiro concerto em nome próprio em Maio deste ano e subsequente anúncio do álbum "As You Were" em Junho. A partir daí, Liam começou a aparecer em tudo o que era rede social e mostrou que vinha diferente – mais calmo, mais maduro e mais afável. De repente, instalou-se um ciclo positivo e tudo começou a correr bem para o Gallagher mais novo.

"Why don't we step outside and I'll show you what it's like?"

Fast-forward alguns meses de trabalho árduo (Liam bateu a todas as capelinhas para promover o seu álbum) e, chegados a Outubro, "As You Were" é finalmente lançado debaixo de enorme hype. O álbum prepara-se para pulverizar as tabelas britânicas na sua primeira semana, vendendo mais que o somatório de todo o restante Top 10. Com um impressionante bolo de 103 mil cópias vendidas só nos primeiros dias, Liam fica apenas atrás de Ed Sheeran na lista dos álbuns mais vendidos de 2017. A Liamania é tal (acho que acabei de cunhar uma palavra nova), que no Japão já há camiões luminosos com a cara de Liam, a bombar o "Wall Of Glass". Se dúvidas houvesse, elas ficaram desfeitas – tínhamos mesmo saudades de Liam Gallagher.



No pólo oposto, Noel Gallagher. O irmão mais velho de Liam estava confortável na sua cadeira de Godlike Genius (foi o Johnny Marr que o disse), com uma carreira a solo extremamente bem sucedida e um estatuto imaculado de senador do Rock. Mas em determinado ponto, Noel perdeu o contacto com a realidade; a mesma realidade que ele tão bem retratou nos últimos 25 anos, fazendo dele a maior voz dos anseios da classe média das últimas décadas. Talvez por privar demasiado tempo com Bono e outras estrelas igualmente desligadas da realidade, esse Noel parece ter desaparecido.

Os sinais de estranheza começaram naquela incompreensível decisão de abrir para os U2 que irritou Liam de sobremaneira , ao ponto de acusar o irmão de fazer brownosing a Bono (se não sabem o que é, tentem visualizar e chegam lá). Ao sujeitar-se a este lugar de subalternização, Noel afectou o prestígio da marca Oasis (mesmo que não fosse essa a sua intenção) e por arrasto, o seu irmão mais novo. A partir daqui, Liam deixou de insultar Noel com a alcunha juvenil de "batata" e passou a acusá-lo de algo bem mais verdadeiro – Beige Boy. E de repente, tudo começou a correr mal a Noel.

Esta segunda-feira, três dias depois do lançamento supernovico (os fãs dos Oasis chegam lá) de "As You Were", Noel decidiu dar a conhecer o primeiro single do seu novo álbum, a ser editado no próximo mês. Este é um modus operandi clássico de Noel, que no passado esperou sempre pelo lançamento dos Beady Eye, para a seguir esmagar o registo do seu irmão mais novo. Em circunstâncias normais, seria de esperar que Noel repetisse a façanha, mas este não parece ser o mesmo Noel que aprendemos a gostar.

"Can't you see what's happened? I've become George. I'm George! I'M GEORGE!"

"Holy Mountain" foi recebido por grande parte dos fãs dos Oasis em choque. O tema é altamente inspirado (para ser simpático) em "Ça Plane Pour Moi" dos Plastic Bertrand, com o refrão retirado a "She Bangs" de Ricky Martin e revela uma total alienação de tudo o que é cool e que sempre demos por garantido com o Noel. Parece que o toque de Midas esgotou desde que ele se tornou no Beige Boy que o irmão tanto o acusa. Para piorar, disse "fora de brincadeiras" que Liam precisa de ser visto por um psiquiatra. Ao contrário das alfinetadas hilariantes a que os dois irmãos nos habituaram, isto foi puramente maldoso. Quem precisa de ajuda neste momento não me parece que seja o Gallagher mais novo.

Noel parece desesperado para fazer algo que seja diferente, em detrimento de qualquer critério de qualidade que sempre adoptou na sua carreira. Notem que eu sempre defendi que ele era capaz de mais e melhor. Há muitos exemplos disso mesmo ao longo da sua carreira, em Lados B e temas que foi deixando na prateleira para apostar em material mais seguro. Já o critiquei extensivamente por se auto-censurar e bloquear essa evolução. Mas isto nada tem a ver com um "Teotihuácan" ou com um "Full On", tem mais a ver com Ricky Martin. Isto não é experimentação, é um descarrilamento. É diferente, mas não no bom sentido.

"If every instinct you have is wrong then the opposite would have to be right."

Independentemente do hype a que Liam foi sujeito, confesso que as minhas expectativas eram muito baixas relativamente a "As You Were" e à medida que ouvia o álbum pela primeira vez, estava sempre à espera do momento em que aquilo fosse por ali abaixo. Mas nunca foi. Sem nunca inventar a roda (já sabíamos que tal não iria acontecer), o álbum é surpreendentemente sólido e tem dois ou três momentos de puro brilhantismo: "Bold" (Liam a despejar 4 anos de depressão), "For What It's Worth" (um pedido de desculpas com violinos emprestados a "Whatever" dos Oasis que é "só" um dos temas do ano) e "It Doesn't Have To Be That Way", um dos melhores temas que Liam gravou nestas sessões e que foi criminosamente relegado para B-Side (reconhecem este padrão?). Curiosamente, este é um tema psicadélico que soa exactamente ao que o irmão mais velho se propôs a fazer e até ver, falhou miseravelmente.

Se olharmos para os números, o novo single do Noel entrou para o 70º lugar (?!) da tabela de singles, naquele que é o pior registo de sempre da carreira do Noel, com ou sem os Oasis, para um primeiro single. E já estou a contar com o "Supersonic", que foi o single de estreia. Por outro lado, o Liam mete à frente do "Holy Mountain" três temas: "For What It's Worth" (33º), "Greedy Soul" (56º) e "Bold" (60º), sendo que este nem sequer foi single. O Liam está a ganhar e de goleada. Os números valem o que valem, mas este resultado medonho do "Holy Mountain" é só um augúrio que o público não quer este Noel aburguesado. Talvez queria agradar os "kids" que gostam dos Coldplay, mas temo que os "kids" não se importem muito com o que ele ande a fazer.

Quando George Costanza disse a Seinfeld que decidira ignorar todos os seus instintos e começar a fazer o oposto, Jerry dificilmente poderia prever que desencadearia uma série de eventos que resultariam numa inversão de forças que atiraria Elaine para a miséria. O Jerry, aqui, sou eu e todos os fãs dos Oasis. E tal como Jerry, também nunca pensei que o (mais que merecido) regresso de Liam Gallagher à ribalta pudesse atirar Noel para a desgraça. Não acho que o público tenha que escolher um dos lados da guerra e defendo até que os fãs, como os filhos de um casamento que azedou, devem usufruir dos presentes a dobrar que agora recebem dos pais. A minha expectativa é por isso que "Who Built The Moon?" seja muito melhor do que a sua primeira amostra e que possamos desfrutar de dois grandes álbuns dos manos Gallagher este ano. Mas para isso temo que Noel terá que descer da Lua até à Terra novamente. As You Were.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Quilómetros de música — Uma viagem pelas 10 melhores canções sobre estrada, automóveis e roadtrips

Uma lista para ouvir de pedal a fundo.

A relação do automóvel com a música é tão antiga como a paixão do homem pela própria máquina. A partir do momento em que se tornou um meio de transporte acessível às massas e passou a fazer parte do nosso quotidiano, acompanhando-nos para todo o lado, o automóvel tornou-se numa musa de inspiração. Há um conforto que só aquela máquina solitária, cega, surda e muda nos pode oferecer. O triângulo amoroso homem-música-automóvel foi estreitado com o advento do auto-rádio, que tornou o próprio veículo num local privilegiado para audição de música, com vista cinemática para a paisagem lá fora.

É no espírito da celebração deste casamento perfeito entre a música e o automóvel que proponho uma viagem pelos 10 melhores temas sobre estrada, automóveis e roadtrips. Algumas escolhas são óbvias, outras talvez nem tanto, mas todas são prova que a relação entre o homem e a sua querida máquina automóvel é melhor explicada com guitarras eléctricas em volume máximo. No fim ainda ficam com a playlist do Spotify. Para ouvir de pedal a fundo.

10. AC/DC — "Highway To Hell" ("Highway To Hell", 1979)



Não podia faltar. Bem sei que ao mesmo tempo que clicavam neste post, já estavam a fervilhar com a a vossa própria lista das canções que tinham que estar aqui e grande probabilidade há que "Highway To Hell" fosse uma delas. Aqui a têm. Estamos numa auto-estrada a caminho do inferno e ainda bem, porque hell ain't a bad place to be.

9. The Clash — "Brand New Cadillac" ("London Calling", 1979) 



Qual carro clássico, sucessivamente tratado com pinturas renovadas ao longo dos anos, "Brand New Cadillac" foi originalmente um tema rockabilly de Vince Taylor and his Playboys em 1959 — incluído como Lado B do single "Pledgin' My Love" — e levou múltiplas roupagens nas 6 décadas seguintes. Em 2014, o tema foi regravado pela enésima vez para utilização num anúncio da Cadillac, mas nem essa, nem nenhuma outra toca sequer na versão dos The Clash.
Em 1979, vinte anos depois do seu lançamento original, os The Clash gravaram uma versão portentosa de "Brand New Cadillac" para o seu álbum seminal "London Calling" e deram com esta versão toda uma nova dimensão de coolness ao Cadillac.

8. Guns N' Roses — "Dust N' Bones" ("Use Your Illusion I", 1991)



Se achavam que isto ia ser uma lista de musiquinhas para acompanhar anúncios sorridentes de automóveis para a TV, esqueçam lá isso. Nem todas as viagens terminam com uma chegada em segurança e "Dust N' Bones" é certamente um desses casos:

"All about some guy who gets his brains all splattered on your beloved motherfuckin' Highway 65."

Axl Rose introduz desta forma elucidativa aquele que é um dos temas mais niilistas dos Guns ("in the end we are just dust n' bones"), num concerto em 1991 no Estado de Indiana, por onde passa a Interstate 65. É uma das melhores contribuições de Izzy Stradlin para os caóticos Use Your Illusions, mas não é propriamente um tema para abrir o vidro e meter a cabeça de fora da janela. A não ser que ao mesmo tempo passe um camião em sentido contrário.

7. Eagles — "Take It Easy" ("Eagles", 1972)



Por falar em meter a cabeça de fora da janela, eis a canção perfeita para o efeito. A discografia dos Eagles pode ser caracterizada na generalidade como o arquétipo de "música de estrada". Não que eles tenham inventado o conceito, mas adoptaram-no do imaginário americano do Country Rock e da Americana e exploraram-no até ao limite. São os próprios que admitem que adoptaram essa estratégia comercial na sua música.
"Take It Easy", como tantas canções dos Eagles, preenche o vácuo mental de quem vai ao volante com paisagens e histórias dramáticas de vidas mais interessantes e perigosas que as que vivemos. Pela capacidade de teleporte, é a banda sonora cinemática perfeita tanto para uma roadtrip no deserto, como para o regresso a casa ao fim de um dia no escritório.

6. Mark Knopfler — "Speedway At Nazareth" ("Sailing To Philadelphia", 2000)



Que a música dos Dire Straits é do melhor combustível para a condução, não é segredo para ninguém. Mark Knopfler reconheceu esse potencial em 1982, ao fazer-nos companhia no trânsito com o épico "Telegraph Road"("six lanes of traffic, three lanes moving slow"). Por isso não foi surpresa que quando Knopfler decidiu fazer um álbum sobre o imaginário americano na viragem do milénio – "Sailing To Philadelphia" –, o escocês tivesse aproveitado o potencial automobilístico da sua música com o superlativo "Speedway At Nazareth". O tema nasceu das conversas que Knopfler teve ao longo dos anos com o seu amigo sueco Stefan Johansson – antigo piloto de Fórmula CART e Fórmula 1 – e conta a história de uma temporada das corridas da NASCAR, utilizando-a como uma metáfora para a vida. Impossível não meter prego a fundo no acelerador quando se ouve o solo de guitarra final.

5. The Stills–Young Band — "Long May You Run" ("Long May You Run", 1976)



"Long May You Run" é uma carta de amor adorável de Neil Young a um veículo, com uma inspiração ligeiramente mórbida. Se gostam do tema e não querem ser spoilados com a sua verdadeira origem, é melhor pensarem bem antes de continuar a ler.
Na verdade, "Long May You Run" é uma homenagem de Neil ao seu querido Mortimer Hearseburg ("Mort"), um Pontiac de 1948 que foi o seu primeiro carro e era um... carro fúnebre. Neil Young não o utilizava para esse efeito, mas talvez aproveitasse o espaço lá atrás para umas belas sestas nas suas roadtrips. Foi precisamente numa dessas viagens ao volante do seu Mort – entre Toronto e Los Angeles – que Neil conheceu Stephen Stills e juntos formaram os Buffalo Springfield. Os dois continuaram a colaborar ao longo da década seguinte nos CSNY (Crosby, Stills, Nash & Young), mas quando estes se zangaram na mega-digressão de estádios em 1974, Stills e Young decidiram continuar onde tinham ficado nos Buffalo e lançaram "Long May You Run" em 1976.
Quanto ao Mortimer Hearseburg, o veículo acabaria por morrer em Junho de 1965, quando a caixa de velocidades rebentou em Blind River, Ontario (embora a letra diga que foi em 1962).

4. Tom Petty & The Heartbreakers — "Runnin' Down A Dream" ("Full Moon Fever", 1989)



E eis que chegamos ao mestre incontestável das roadtrips. A lírica cinemática, o solo que convida a carregar no acelerador, está aqui tudo. Tom Petty sabia como ninguém curar a banda sonora para uma viagem ao volante de um automóvel. A sua música evocava a pureza da descoberta, a inocência da aventura, a curiosidade pelo desconhecido.

"I felt so good like anything was possible."

"Runnin' Down A Dream" fala sobre as diferentes etapas da vida no contexto de uma roadtrip. Esteja a fazer sol lá fora ou a chover, o optimismo é uma constante, porque estamos a correr para o sonho:

"I put the pedal down to make some time, there's something good waitin' down this road."

Tom personificava o idealismo do coração americano pré-11 de Setembro, quando a amabilidade e o espírito aventureiro se sobrepunham à paranóia do desconhecido. Perdemos o músico na semana passada, mas ele deixou-nos o legado que nos vai acompanhar para sempre ao volante.

3. Steppenwolf — "Born To Be Wild" ("Steppenwolf", 1968)



Música central do épico motoqueiro "Easy Rider" de 1969, este é o tema pelo qual todos os outros nesta lista de alguma forma se guiaram. "Born To Be Wild" foi lançado originalmente no álbum homónimo dos Steppenwolf em 1968 e posteriormente usado em inúmeras bandas sonoras incluindo, obviamente, "Easy Rider", filme que projectou o tema a hino eterno dos motores.

2. Deep Purple — "Highway Star" ("Machine Head", 1972)



O expoente máximo da história de amor entre o homem e o automóvel. "Highway Star" retrata o automóvel como extensão natural do homem; como catalisador das suas emoções; como mulher-troféu que é mais bonita que todas as outras e que anda mais que todas as outras.
O tema nasceu no autocarro dos Deep Purple a caminho de Portsmouth em 1971, quando um jornalista perguntou à banda como era o sue processo de composição e Ritchie Blackamore – só para demonstrar – pegou numa guitarra acústica e inventou um riff, ao mesmo tempo que Ian Gillian improvisava a letra com uma declaração de amor ao seu carro. O tema foi criado ali, na hora, e tocado pela primeira vez nessa mesma noite. Seria gravado em Dezembro desse ano em Montreux e lançado no seguinte como tema de abertura do álbum "Machine Head".
"Highway Star" é pedal a fundo do princípio ao fim, a música perfeita para conduzir.

20-11. Menções honrosas

10 temas que não entraram na lista, mas poderiam ter entrado.

20. Tom Cochrane — "Life Is A Highway"
19. Saxon — "Wheels Of Steel"
18. The Kinks — "Drivin'"
17. ZZ Top — "I'm Bad, I'm Nationwide"
16. Brian May — "Driven By You"
15. Iggy Pop — "The Passenger"
14. The Doors — "Roadhouse Blues"
13. The Rolling Stones — "Start Me Up"
12. Queen — "I'm In Love With My Car"
11. Golden Earring — "Radar Love"

1. Bruce Springsteen — "Born To Run" ("Born To Run", 1975)



"I gotta know how it feels. I wanna know if love is wild. I wanna know if love is real."

Muito mais que uma música sobre conduzir, "Born To Run" é uma música sobre fugir. A estrada como a vida; o carro como a fuga; o assento do pendura como metáfora do casamento. É o jovem sonhador Bruce Springsteen a definir quem era e ao que vinha. Uma canção maior que o automóvel, maior que a estrada e maior que a vida. Porque a vida não é nada mais que uma longa – por vezes tranquila, por vezes tortuosa –, mas sempre fascinante estrada.