quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O dia em que Marilyn Manson subiu ao palco com uma metralhadora

...e foi a melhor coisa que fez em 20 anos

Num dos seus melhores bits, o falecido comediante, filósofo mundano e meu camarada rocker Bill Hicks dizia que queria ver as suas estrelas Rock a entrar em palco com o instrumento numa mão e uma arma na outra, despedindo-se do público com um tiro na cabeça no fim do concerto. Isso sim, seria o clímax perfeito para um espectáculo que se quer o mais visceral possível.

Marilyn Manson elevou a parada esta semana e subiu a palco no tema "We Know Where You Fucking Live" com o que parecia ser uma metralhadora. Sem mais, apontou a arma ao público e "abriu fogo". Na verdade, a metralhadora era só um microfone, mas deve ter pregado um belo susto a quem lá estava.

Roger Waters já tinha aventado esta ideia na preparação do espectáculo original do álbum The Wall. Farto do público nos concertos dos Pink Floyd, Roger imaginou bombardeamentos sobre o público como metáfora do famoso incidente da cuspidela em Montreal (Roger chamou um fã da fila da frente para cima do palco e cuspiu-lhe na cara). O efeito nunca foi posto em prática, mas se havia alguém capaz de levar uma ideia arriscada deste tipo adiante, esse alguém seria Marilyn Manson. Só que ele fez isto no mesmo dia em que um homem entrou numa igreja com uma arma automática e matou 26 pessoas. Não é preciso ser bruxo para adivinhar que a reacção da inquisição moralista das redes sociais e da brigada do bom-gosto de alguns órgãos de comunicação social foi implacável, ao ponto de superar a indignação relativamente ao próprio atentado do Texas.

Os espectáculos de Marilyn Manson são provocatórios e ofensivos. Sempre foram. Noutras notícias, a água molha e o sol queima. Não sou o maior fã da música de Marilyn Manson, a banda; mas sempre tive um certo fascínio pela figura de Marilyn Manson, o homem. Brian Warner, o auto-proclamado "God of Fuck", é um one of a kind; foi ele a última estrela Rock capaz de chocar o mundo com histórias tão macabras que todos queríamos acreditar que fossem verdade. Retirar costelas para fazer um auto-felácio? Por que não? Vazar o próprio olho para substituir por um de vidro? Claro que sim. Antes dele, houve Iggy, Ozzy e Alice. Depois dele, mais ninguém.
"In an era where mass shootings have become a nearly daily occurrence, this was an act of theater in an attempt to make a statement."
Marilyn Manson

É como diz MM. Uma vez que os atentados terroristas são um acontecimento quase diário nos Estados Unidos, estes raramente já são notícia. Até porque neste caso o atirador não era islamita e como tal, já não é terrorismo, é só "um louco com uma arma". Até porque se há mais armas que pessoas no território americano, então é normal que isto aconteça com frequência e cada vez mais vezes. Portanto compreendamos os órgãos de comunicação: aqui a verdadeira notícia não é um gajo entrar numa igreja a varrer com uma metralhadora, é o Marilyn Manson entrar em palco com uma metralhadora de brincar.

Foi a melhor coisa que Marilyn Manson fez desde 1997. Ou vá, pelo menos desde aquele maravilhoso cover do "Personal Jesus" em 2004. Não só canalizou sobre si a atenção que pretendia, como também abriu alas ao ridículo que são os indignadinhos do mundo moderno, preocupados com merdas sem interesse nenhum, deixando as verdadeiras aberrações votadas à normalidade. Se a arma de brincar do Marilyn Manson nos aterroriza mais que as armas a sério, devem ser essas que devemos banir.

Quanto a quem estava na sala, pelo menos saíram de lá aterrorizados, com o susto de uma vida. Se isso não é um espectáculo visceral como se quer, não sei.


É o que se pode chamar de espectáculo .

The left the room with the thrill of their lives. That's when you know you've been to a great show.
That's a show.

Para além da atenção que reuniu

Foi punk
Actually, it was punk and it was genius. The best thing he ever did since 1997.
At least it got stereogum (and other outlets) to speak more about him holding a fake gun than all the real guns being shot at that country.
Marilyn Manson does offensive, provocative thing on stage. In other news, fire is hot and water is wet.

Se isto não é um espectáculo de emoções ao rubro, não sei.


(e poucos dias depois
Vale relembrar que a imagem é polêmica já que os EUA vivem passando por atentados cometidos por atiradores tal como o ocorrido no começo de outubro, quando um deles matou 59 pessoas e feriu mais de 500 durante um festival country em Las Vegas.

Já ninguém liga.

A páginas


Fez com que se desse mais cobertura ao stunt dele do que ao facto que um gajo entrou numa igreja a varrer tudo com uma arma

Às tantas

Nós estamos à distância de um oceano dos americanos

não se fez esperar.
Só que não era uma metralhadora a sério.




- Marilyn Manson
https://www.youtube.com/watch?v=LdzaFASKB5M




(MC Somsen)

Chamava-se Devin Patrick Kelley e, como sempre acontece nestes casos, não era um terrorista, porque os terroristas espalham o medo e o terror, enquanto estes assassinos, cuja motivação política, religiosa ou ideológica ninguém consegue explicar, “apenas” espalham a morte.
Isto contudo não invalida que nos EUA continue a ser maior o medo de terroristas que de assassinos comuns munindo as suas armas de forma banal.
Há um lado absolutamente inconsciente e profundo na cultura americana que leva a que estes casos sejam sempre excepcionais, ou apenas justificados por um homem louco, quando a maior loucura é esta liberdade institucional e constitucional de que qualquer americano tem o direito de pegar em armas para matar outro americano, a torto e a direito.

Notem que quando falo em fascínio, eu quero dizer mesmo é MEDO. Era o que aqueles

Quando era mais novo, o que eu tinha mesmo era MEDO. Aqueles vídeos surreais eram demais para a mente perturbável de um miúdo de 11 anos (ainda hoje não consigo ver "Begotten" — filme do realizador de "Antichrist Superstar", que se mantém unreleased até hoje).
 mas ele assustou-me quando eu era miúdo (Ver artigo) E pelos vistos continua com essa capacidade

Cryptorchid
https://www.youtube.com/watch?v=Jj_vCNevsfY

mórbido



Assumindo o papel de inimigo público, Manson (o homem) capitalizou – e de que maneira – a imagem de anticristo que se criou sobre ele no final dos anos 90. Foi ele que a alimentou e à sua custa, fez com que a música chegasse a muito mais pessoas.
Hoje vivemos tempos muito diferentes e Manson jamais terá o poder de choque de outrora. O problema é que se o poder de choque desvaneceu com os anos, a música também não melhorou. Mas isso é outra história.


Pena que as digressões fossem muito curtas.

ara atirar sobre a audiência.

chocou o seu público ao apr sentar-se em palco com uma arma e 


Isso sim, seria um concerto para contar aos amigos.


https://www.facebook.com/Pitchfork/posts/10155730026001000
https://www.facebook.com/Stereogum/posts/10155951976786979

https://www.facebook.com/businessinsider/videos/10155204911269071/


Fuck that! I want my rockstars dead! I want 'em to fucking play with one hand and put a gun in their other fucking hand and go, "I hope you enjoyed the show. Bang!" Yes! Yes! Play from your fucking heart!... I am available for children's parties, by the way.

Bill Hicks

Início
Bill Hicks descreveu o seu show Rock n roll perfeito






A juntar à imagem sinistra do vocalista, os Marilyn Manson (a banda) trouxeram-nos música que parecia saída de uma trituradora The Prodigy e Black Sabbath em esteróides, regados com muito vodka do Lidl. Um cocktail abrasivo.







quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Tears For Fears no Royal Albert Hall — Como pode música tão depressiva ser tão eufórica?

Crónica do concerto mais curto da minha vida

Foi tudo muito rápido. Num momento estava a virar pints no bar do Royal Albert Hall, ansioso que chegasse a hora do concerto e daí a nada, já estava a aplaudir a saída de Roland Orzabal e Curt Smith do palco, confuso com o facto de só terem tocado meia hora. Meia hora?! Então eu venho de Portugal para os ver e eles só tocam meia hora? Só que não foi bem assim.

Os Tears For Fears foram a Londres promover a nova compilação "Rule The World: The Greatest Hits" e tocaram durante 100 minutos para uma plateia ávida pela sua música. Foi o primeiro concerto dos TFF em nome próprio na Europa desde 2005 e no RAH, foi o primeiro desde 1985, ano em que nasceu este que vos escreve. O entusiasmo na plateia reflectia a saudade e a importância do momento. Já vi alguns concertos na minha vida (este foi o 200º) e poucas vezes vi uma reacção tão fanática por parte do público, a dançar e a cantar por cima de todos os códigos de etiqueta britânicos. Foi um verdadeiro Royal Happy Hall.

Da minha parte, este era "só" o concerto mais ansiado da minha vida. Partindo do princípio que a ciência não nos dará para breve a ressurreição do Freddie Mercury, de todas as minhas bandas de eleição, só os Tears For Fears me faltavam ver. E as expectativas — que não eram tímidas — voaram para a estratosfera. Lembram-se da "Get Psyched Mix" do Barney Stinson do "How I Met Your Mother"?
"Now, people think a good mix should rise and fall. But people are wrong! It should be all rise, baby! Now prepare yourselves for an audio journey to the white, hot center of adrenaline!"
Foi exactamente como o Barney descreveu. Em vez de uma sinusoidal de emoções, os Tears For Fears presentearam-nos com hora e meia de cabeçadas nos limites do êxtase. Qual é a banda que se atreve a começar um concerto com o seu maior hit? Os Tears For Fears, pois claro. Entraram em palco com "Everybody Wants To Rule The World" e daí até ao final com "Shout", foi sempre lá em cima (só não foi sempre a subir, porque já não havia mais para subir) com uma torrente de hits e deep cuts eufóricos. Porque é mesmo de euforia que se trata, quando falamos dos TFF. Tenho várias fotografias neste concerto que nunca poderão ser mostradas, porque estou com um sorriso tão idiota que parecia saído de uma excursão para ver o mar pela primeira vez. E isto a ouvir música sobre depressão e esgotamentos nervosos. Como pode música tão depressiva ser tão electrizante?

Desde a insanidade do primeiro single "Mad World" (tema de 1982 que teve segunda vida em 2003, quando foi o nº1 de Natal nas tabelas britânicas), passando pelo romantismo de "Head Over Heels" ("I wanted to be with you alone and talk about the weather"), ou pelo ecumenismo de "Sowing The Seeds Of Love" ("those fucking politics"). Sempre lá em cima. Mas não foram só os êxitos que fizeram o concerto; foram também os doces saídos das profundezas dos álbuns — "Secret World" (do fantástico "Everybody Loves A Happy Ending"), "Broken" (só com passagem instrumental) e "Memories Fade" (o momento mais intenso da noite); e a cereja no topo, o fenomenal cover de "Creep", de uma certa banda que em tanta coisa são os sucessores espirituais dos Tears For Fears.

O momento alto da noite surgiria no fim, com o épico jazzista-orgânico-progressivo "Badman's Song", deep cut do álbum "The Seeds Of Love" de 1989 que (dizem-me) durou 9 minutos, mas que quando terminou me fez pensar "Já?! Então mas isto não era suposto durar 9 minutos?". Para a noite ser perfeita, só faltou o feroz "Raoul And The Kings Of Spain", favorito dos fãs que Roland teima em não cantar. Faltou também o último single da banda "I Love You But I'm Lost", lançado para promover a compilação "Rule The World: The Greatest Hits" (que foi o que os TFF foram fazer ao RAH), mas inexplicavelmente ignorado na setlist. Que outra banda poderia dar um concerto para promover o lançamento de um single e não o tocar? Pois. Clássico trolling dos sempre elusivos Tears For Fears.

No fim, senti que foi o concerto mais curto da minha vida. Mas esse é um daqueles mistérios do tempo. Por que raio faz os bons momentos parecerem tão curtos e depois os estica na memória para a eternidade? Fuck knows.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

"George Michael: Freedom" é o último trabalho de George e é de partir o coração

Nos últimos dias de vida, George Michael realizou um documentário sobre os melhores anos da sua carreira. Esta semana o filme viu finalmente a luz do dia.

George Michael deixou-nos no último Natal com muito menos música do que devia. O seu derradeiro trabalho foi o documentário "George Michael: Freedom", filme que realizou nos últimos dias de vida para promover a reedição do álbum "Listen Without Prejudice Vol.1" de 1990 e que irá para as lojas amanhã. O filme tem como grande mérito explicar por que um talento tão grande como George nos deu tão pouca música.

George Michael lançou o seu primeiro single "Wham Rap! (Enjoy What You Do)" em 1982 e ao longo de 34 anos de carreira discográfica, editou apenas 7 álbuns de originais – 3 com os Wham! e 4 a solo. Em período semelhante, o seu amigo Elton John fez 17 álbuns e isto já em fase descendente da sua carreira. Porquê tão pouca produtividade? Ainda que nunca de forma explícita, o documentário indica-nos três razões: insegurança, perfeccionismo e perda. Nada que não soubéssemos já pela música de George. Bastava estarmos atentos.

Insegurança. George foi sempre um menino tímido e inseguro que precisava da aprovação dos outros. Foi Andrew Ridgeley (o miúdo fixe da escola, com quem formaria os Executive e mais tarde os Wham!) que lhe deu a confiança para se lançar no mundo do espectáculo. Em "Listen Without Prejudice Vol.1", já depois de se ter tornado uma mega estrela, George diz em "Waiting (Reprise)" que "All those insecurities that have held me down for so long, I can't say I've found a cure for these". Só esta necessidade de aprovação explica que o documentário passe tanto tempo a ouvir as opiniões de "famosos" como James Corden, Ricky Gervais, e Jean Paul Gaultier sobre a música de George.



Aliás, o rol de celebridades que aparecem para reverenciar George é avassalador: Mark Ronson, Mary J. Blige, Nile Rodgers, Tony Bennett, Elton John ("I think people generally adore George. Not just his music."), Stevie Wonder (que faz uma piada a ele mesmo – "O quê? O George é branco?!"), Kate Moss, as supermodelos de "Freedom '90" (Naomi Campbell, Christy Turlington, Cindy Crawford, Linda Evangelista e Tatjana Patitz – quem?) e até o actual líder das tabelas britânicas Liam Gallagher, que descreve George como "Modern day Elvis" e revela que Noel também ouvia os Wham!. Naturalmente que todos discorrem sobre como George é fantástico, mas disso já todos sabíamos. A maioria dos testemunhos é dramatizado e dispensável; teria sido preferível ouvir o que tinham para dizer os que estiveram realmente em palco e no estúdio com George, casos de Deon Estus (baixista dos Wham! e de George a solo) e claro, de Andrew Ridgeley. Nem sequer houve nada da Pepsi e da Shirlie. Uma pena.

Perfeccionismo. Talvez uma consequência da razão apontada em cima, George era também um control freak. Neste documentário é ele o realizador e o narrador, algo que só causa estranheza a quem não conhece George. Este é o mesmo George Michael que em 1984 se desentendeu com o realizador Lindsay Anderson no filme "Foreign Skies: Wham! in China"; que em 1990 dava ordens a David Fincher (esse mesmo, do "Fight Club") no teledisco de "Freedom '90"; que em 1992 afastou Thierry Mugler do vídeo de "Too Funky"; e que ao longo da sua carreira vetou o lançamento de todos os filmes-concerto que gravou porque não estava completamente satisfeito com eles, acabando por lançar (provavelmente por obrigação contratual) o mais insípido de todos – "Live In London", ao vivo no Earls Court em 2008. Para trás ficaram (pelo menos) os filmes do The Final Concert dos Wham! no Estádio do Wembley em 1986, da Faith Tour no Madison Square Garden em 1988 e da Cover To Cover Tour na Wembley Arena em 1991. Todos eles aparecem no documentário em pequenos excertos, que perfazem alguns dos melhores momentos deste filme.



George era muito teimoso, "um dos homens mais teimosos que já conheci", diz Elton John. Tão obstinado a fazer as coisas à sua maneira, que levou a toda-poderosa Sony a tribunal por esta não aceitar a mudança de direcção artística em "Listen Without Prejudice Vol.1". George tinha razão em querer fazer um álbum diferente de "Faith" (como questiona Nile Rogers: "quando se tem aquela dimensão de sucesso, chega-se a casa e pensa-se 'e agora? o que é que eu faço?!'"); mas não toda a razão, principalmente quando classificou como "escravatura" a sua relação com a editora, enquanto vivia numa mansão em Highgate. No fim, George perdeu no tribunal em toda a linha e confessou que "foi tudo uma completa perda de tempo". Acabaria por ser David Geffen a salvar George (também seria interessante ouvi-lo), ao comprar o contrato com a Sony por 40 milhões de dólares. Mas a história do litígio com a Sony tem muito que se lhe diga e isso é pela primeira vez explicado neste documentário.

Na verdade, a batalha legal contra a Sony serviu como escape para a morte de Anselmo Feleppa, o namorado de George (para os mais desavisados, sim, George era homosexual) que caiu aos pés da SIDA pouco depois daquela lendária actuação de George com os Queen, que serviu precisamente para consciencialização desta doença. O conflito foi a forma que George encontrou para canalizar a raiva que sentia pela perda do amor da sua vida. O que nos leva à última razão da falta de produtividade de George.

Perda. O terceiro e mais sombrio de todos os motivos aparece na parte final do documentário. "George Michael: Freedom" terá sido provavelmente a primeira vez em que George fala abertamente da sua relação com Anselmo Feleppa num registo pura e cruamente confessional. O desaparecimento da sua paixão abalou-o profundamente. Depois da batalha com a Sony e subsequente resgate pela Virgin, George sacou um álbum superlativo sobre luto, sofrimento e recuperação – "Older". O single de avanço  – "Jesus To A Child" – era sobre Anselmo e dizia tudo o que George sentia, numa perspectiva agridoce: "I've waited for you all those years and just when it began, he took you away".



"Older" foi um mega-sucesso crítico e comercial e parecia um bálsamo na vida de George Michael. Mas o alívio pela boa prestação do seu álbum não durou muito tempo. George descobriu que a mãe tinha cancro e Lesley morreria poucos meses depois, em 1997. George sentiu que estava amaldiçoado e confessa que aqui "perdeu a música" nele. 

E perdeu mesmo. Na prática, a carreira de George Michael parou ali. A seguir a "Older", houve um punhado de faixas na colectânea "Ladies & Gentleman" (1998), um álbum de covers em 1999 ("Songs From The Last Century") e um último album de originais em 2004 – "Patience" –, muito abaixo da bitola de qualidade de George.

George termina o filme com o desejo de ser recordado como um grande compositor e um artista com um integridade. Onde quer que esteja, pode ficar descansado, que isso ninguém lhe vai tirar. No resto, o tempo far-lhe-á a devida justiça, como já fez no último ano, em que até mereceu artigos na Pitchfork.

"George Michael: Freedom" é um documentário de George Michael, sobre George Michael e à George Michael. Não admira por isso que partilhe as virtudes e os defeitos do homem: é um retrato honesto, profundo e destemido, mas a espaços também auto-indulgente e disperso; é um filme de partir o coração, que nos recorda o quanto George melhorou as nossas vidas; é um excelente resumo dos anos musicais de George, desde os tempos dos Wham! até a música se lhe acabar em "Older"; e é especial, por ser o último trabalho de George Michael.

No documentário, Ricky Gervais recordou-me o motivo que me levou a começar a ouvir George Michael nos meus turbulentos anos de adolescente: "em tempos de grande depressão há sempre quem diga que 'isto é terrível'; e depois há os escapistas, aqueles que dizem 'let's party!'". George tinha essa coragem. Isto para além de me ter ensinado as primeiras dicas para engatar miúdas com a letra de "I'm Your Man". Fun fact: as dicas funcionaram na altura e ainda funcionam hoje. True story.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A saga dos irmãos Gallagher tem novo episódio e este é digno do Seinfeld

Neste novo capítulo, os Gallaghers vêem-se nos lugares opostos aos que nos habituaram

No último episódio da quinta temporada de Seinfeld – "The Opposite", um dos melhores da série –, tudo acontece ao contrário. George Costanza decide ignorar os seus instintos e começa a fazer o oposto do que normalmente faria. Em resultado, ele ganha a miúda gira, enfrenta os bullies e consegue o emprego nos Yankees. Ao mesmo tempo, tudo começa a correr mal à normalmente bem-sucedida Elaine, que perde o trabalho, o namorado e a casa. Enquanto esta inversão de forças acontece, tudo parece equilibrar no mundo de Jerry, que continua com um amigo bem-sucedido e outro desgraçado, só que agora ao contrário. O mundo dos Gallaghers nos últimos meses em tudo se assemelha a este episódio de Seinfeld.

"This is not working, Jerry. My life is the complete opposite of everything I wanted it to be."

Desde que os Oasis se separaram em 2008, parecia que a História estava escrita para os irmãos Gallagher. Noel era o compositor e principal força criativa nos Oasis e por isso seguiria naturalmente para uma carreira a solo triunfal. Liam, por seu turno, era "só" o cantor enraivecido da banda e por isso estava destinado a falhar miseravelmente nos seus projectos a solo. A História imediata deu razão a estas previsões, com o sucesso dos dois primeiros álbuns de Noel e a irrelevância dos trabalhos dos Beady Eye. Quando Liam acabou com os Beady Eye e se refugiou em casa durante anos a fio, parecia inevitável que o seu fim tinha chegado e que só a mão do mano mais velho o poderia salvar, com um eventual regresso nostálgico dos Oasis. Só que um dia Liam percebeu que a sua vida se tornara no oposto do que ele queria que fosse e como tal levantou o rabo do sofá e escreveu "Bold" (aqui ouvida pela primeira vez num pub irlandês em Julho de 2015). E tudo mudou.

"Here's your chance to try the opposite. Instead of tuna salad and being intimidated by women, chicken salad and going right up to her."

O que se passou a seguir é digno de um episódio escrito por Jerry Seinfeld e Larry David. O caído-em-desgraça Liam amadureceu e apostou tudo num regresso mad fer it para o seu primeiro álbum a solo. Em Agosto de 2016 assinou um acordo com a Warner e declarou-se oficialmente "a cunt"  (consistente com o que ele sempre chamou aos artistas a solo). O buzz foi crescendo ao longo dos meses até ao seu primeiro concerto em nome próprio em Maio deste ano e subsequente anúncio do álbum "As You Were" em Junho. A partir daí, Liam começou a aparecer em tudo o que era rede social e mostrou que vinha diferente – mais calmo, mais maduro e mais afável. De repente, instalou-se um ciclo positivo e tudo começou a correr bem para o Gallagher mais novo.

"Why don't we step outside and I'll show you what it's like?"

Fast-forward alguns meses de trabalho árduo (Liam bateu a todas as capelinhas para promover o seu álbum) e, chegados a Outubro, "As You Were" é finalmente lançado debaixo de enorme hype. O álbum prepara-se para pulverizar as tabelas britânicas na sua primeira semana, vendendo mais que o somatório de todo o restante Top 10. Com um impressionante bolo de 103 mil cópias vendidas só nos primeiros dias, Liam fica apenas atrás de Ed Sheeran na lista dos álbuns mais vendidos de 2017. A Liamania é tal (acho que acabei de cunhar uma palavra nova), que no Japão já há camiões luminosos com a cara de Liam, a bombar o "Wall Of Glass". Se dúvidas houvesse, elas ficaram desfeitas – tínhamos mesmo saudades de Liam Gallagher.



No pólo oposto, Noel Gallagher. O irmão mais velho de Liam estava confortável na sua cadeira de Godlike Genius (foi o Johnny Marr que o disse), com uma carreira a solo extremamente bem sucedida e um estatuto imaculado de senador do Rock. Mas em determinado ponto, Noel perdeu o contacto com a realidade; a mesma realidade que ele tão bem retratou nos últimos 25 anos, fazendo dele a maior voz dos anseios da classe média das últimas décadas. Talvez por privar demasiado tempo com Bono e outras estrelas igualmente desligadas da realidade, esse Noel parece ter desaparecido.

Os sinais de estranheza começaram naquela incompreensível decisão de abrir para os U2 que irritou Liam de sobremaneira , ao ponto de acusar o irmão de fazer brownosing a Bono (se não sabem o que é, tentem visualizar e chegam lá). Ao sujeitar-se a este lugar de subalternização, Noel afectou o prestígio da marca Oasis (mesmo que não fosse essa a sua intenção) e por arrasto, o seu irmão mais novo. A partir daqui, Liam deixou de insultar Noel com a alcunha juvenil de "batata" e passou a acusá-lo de algo bem mais verdadeiro – Beige Boy. E de repente, tudo começou a correr mal a Noel.

Esta segunda-feira, três dias depois do lançamento supernovico (os fãs dos Oasis chegam lá) de "As You Were", Noel decidiu dar a conhecer o primeiro single do seu novo álbum, a ser editado no próximo mês. Este é um modus operandi clássico de Noel, que no passado esperou sempre pelo lançamento dos Beady Eye, para a seguir esmagar o registo do seu irmão mais novo. Em circunstâncias normais, seria de esperar que Noel repetisse a façanha, mas este não parece ser o mesmo Noel que aprendemos a gostar.

"Can't you see what's happened? I've become George. I'm George! I'M GEORGE!"

"Holy Mountain" foi recebido por grande parte dos fãs dos Oasis em choque. O tema é altamente inspirado (para ser simpático) em "Ça Plane Pour Moi" dos Plastic Bertrand, com o refrão retirado a "She Bangs" de Ricky Martin e revela uma total alienação de tudo o que é cool e que sempre demos por garantido com o Noel. Parece que o toque de Midas esgotou desde que ele se tornou no Beige Boy que o irmão tanto o acusa. Para piorar, disse "fora de brincadeiras" que Liam precisa de ser visto por um psiquiatra. Ao contrário das alfinetadas hilariantes a que os dois irmãos nos habituaram, isto foi puramente maldoso. Quem precisa de ajuda neste momento não me parece que seja o Gallagher mais novo.

Noel parece desesperado para fazer algo que seja diferente, em detrimento de qualquer critério de qualidade que sempre adoptou na sua carreira. Notem que eu sempre defendi que ele era capaz de mais e melhor. Há muitos exemplos disso mesmo ao longo da sua carreira, em Lados B e temas que foi deixando na prateleira para apostar em material mais seguro. Já o critiquei extensivamente por se auto-censurar e bloquear essa evolução. Mas isto nada tem a ver com um "Teotihuácan" ou com um "Full On", tem mais a ver com Ricky Martin. Isto não é experimentação, é um descarrilamento. É diferente, mas não no bom sentido.

"If every instinct you have is wrong then the opposite would have to be right."

Independentemente do hype a que Liam foi sujeito, confesso que as minhas expectativas eram muito baixas relativamente a "As You Were" e à medida que ouvia o álbum pela primeira vez, estava sempre à espera do momento em que aquilo fosse por ali abaixo. Mas nunca foi. Sem nunca inventar a roda (já sabíamos que tal não iria acontecer), o álbum é surpreendentemente sólido e tem dois ou três momentos de puro brilhantismo: "Bold" (Liam a despejar 4 anos de depressão), "For What It's Worth" (um pedido de desculpas com violinos emprestados a "Whatever" dos Oasis que é "só" um dos temas do ano) e "It Doesn't Have To Be That Way", um dos melhores temas que Liam gravou nestas sessões e que foi criminosamente relegado para B-Side (reconhecem este padrão?). Curiosamente, este é um tema psicadélico que soa exactamente ao que o irmão mais velho se propôs a fazer e até ver, falhou miseravelmente.

Se olharmos para os números, o novo single do Noel entrou para o 70º lugar (?!) da tabela de singles, naquele que é o pior registo de sempre da carreira do Noel, com ou sem os Oasis, para um primeiro single. E já estou a contar com o "Supersonic", que foi o single de estreia. Por outro lado, o Liam mete à frente do "Holy Mountain" três temas: "For What It's Worth" (33º), "Greedy Soul" (56º) e "Bold" (60º), sendo que este nem sequer foi single. O Liam está a ganhar e de goleada. Os números valem o que valem, mas este resultado medonho do "Holy Mountain" é só um augúrio que o público não quer este Noel aburguesado. Talvez queria agradar os "kids" que gostam dos Coldplay, mas temo que os "kids" não se importem muito com o que ele ande a fazer.

Quando George Costanza disse a Seinfeld que decidira ignorar todos os seus instintos e começar a fazer o oposto, Jerry dificilmente poderia prever que desencadearia uma série de eventos que resultariam numa inversão de forças que atiraria Elaine para a miséria. O Jerry, aqui, sou eu e todos os fãs dos Oasis. E tal como Jerry, também nunca pensei que o (mais que merecido) regresso de Liam Gallagher à ribalta pudesse atirar Noel para a desgraça. Não acho que o público tenha que escolher um dos lados da guerra e defendo até que os fãs, como os filhos de um casamento que azedou, devem usufruir dos presentes a dobrar que agora recebem dos pais. A minha expectativa é por isso que "Who Built The Moon?" seja muito melhor do que a sua primeira amostra e que possamos desfrutar de dois grandes álbuns dos manos Gallagher este ano. Mas para isso temo que Noel terá que descer da Lua até à Terra novamente. As You Were.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Quilómetros de música — Uma viagem pelas 10 melhores canções sobre estrada, automóveis e roadtrips

Uma lista para ouvir de pedal a fundo.

A relação do automóvel com a música é tão antiga como a paixão do homem pela própria máquina. A partir do momento em que se tornou um meio de transporte acessível às massas e passou a fazer parte do nosso quotidiano, acompanhando-nos para todo o lado, o automóvel tornou-se numa musa de inspiração. Há um conforto que só aquela máquina solitária, cega, surda e muda nos pode oferecer. O triângulo amoroso homem-música-automóvel foi estreitado com o advento do auto-rádio, que tornou o próprio veículo num local privilegiado para audição de música, com vista cinemática para a paisagem lá fora.

É no espírito da celebração deste casamento perfeito entre a música e o automóvel que proponho uma viagem pelos 10 melhores temas sobre estrada, automóveis e roadtrips. Algumas escolhas são óbvias, outras talvez nem tanto, mas todas são prova que a relação entre o homem e a sua querida máquina automóvel é melhor explicada com guitarras eléctricas em volume máximo. No fim ainda ficam com a playlist do Spotify. Para ouvir de pedal a fundo.

10. AC/DC — "Highway To Hell" ("Highway To Hell", 1979)



Não podia faltar. Bem sei que ao mesmo tempo que clicavam neste post, já estavam a fervilhar com a a vossa própria lista das canções que tinham que estar aqui e grande probabilidade há que "Highway To Hell" fosse uma delas. Aqui a têm. Estamos numa auto-estrada a caminho do inferno e ainda bem, porque hell ain't a bad place to be.

9. The Clash — "Brand New Cadillac" ("London Calling", 1979) 



Qual carro clássico, sucessivamente tratado com pinturas renovadas ao longo dos anos, "Brand New Cadillac" foi originalmente um tema rockabilly de Vince Taylor and his Playboys em 1959 — incluído como Lado B do single "Pledgin' My Love" — e levou múltiplas roupagens nas 6 décadas seguintes. Em 2014, o tema foi regravado pela enésima vez para utilização num anúncio da Cadillac, mas nem essa, nem nenhuma outra toca sequer na versão dos The Clash.
Em 1979, vinte anos depois do seu lançamento original, os The Clash gravaram uma versão portentosa de "Brand New Cadillac" para o seu álbum seminal "London Calling" e deram com esta versão toda uma nova dimensão de coolness ao Cadillac.

8. Guns N' Roses — "Dust N' Bones" ("Use Your Illusion I", 1991)



Se achavam que isto ia ser uma lista de musiquinhas para acompanhar anúncios sorridentes de automóveis para a TV, esqueçam lá isso. Nem todas as viagens terminam com uma chegada em segurança e "Dust N' Bones" é certamente um desses casos:

"All about some guy who gets his brains all splattered on your beloved motherfuckin' Highway 65."

Axl Rose introduz desta forma elucidativa aquele que é um dos temas mais niilistas dos Guns ("in the end we are just dust n' bones"), num concerto em 1991 no Estado de Indiana, por onde passa a Interstate 65. É uma das melhores contribuições de Izzy Stradlin para os caóticos Use Your Illusions, mas não é propriamente um tema para abrir o vidro e meter a cabeça de fora da janela. A não ser que ao mesmo tempo passe um camião em sentido contrário.

7. Eagles — "Take It Easy" ("Eagles", 1972)



Por falar em meter a cabeça de fora da janela, eis a canção perfeita para o efeito. A discografia dos Eagles pode ser caracterizada na generalidade como o arquétipo de "música de estrada". Não que eles tenham inventado o conceito, mas adoptaram-no do imaginário americano do Country Rock e da Americana e exploraram-no até ao limite. São os próprios que admitem que adoptaram essa estratégia comercial na sua música.
"Take It Easy", como tantas canções dos Eagles, preenche o vácuo mental de quem vai ao volante com paisagens e histórias dramáticas de vidas mais interessantes e perigosas que as que vivemos. Pela capacidade de teleporte, é a banda sonora cinemática perfeita tanto para uma roadtrip no deserto, como para o regresso a casa ao fim de um dia no escritório.

6. Mark Knopfler — "Speedway At Nazareth" ("Sailing To Philadelphia", 2000)



Que a música dos Dire Straits é do melhor combustível para a condução, não é segredo para ninguém. Mark Knopfler reconheceu esse potencial em 1982, ao fazer-nos companhia no trânsito com o épico "Telegraph Road"("six lanes of traffic, three lanes moving slow"). Por isso não foi surpresa que quando Knopfler decidiu fazer um álbum sobre o imaginário americano na viragem do milénio – "Sailing To Philadelphia" –, o escocês tivesse aproveitado o potencial automobilístico da sua música com o superlativo "Speedway At Nazareth". O tema nasceu das conversas que Knopfler teve ao longo dos anos com o seu amigo sueco Stefan Johansson – antigo piloto de Fórmula CART e Fórmula 1 – e conta a história de uma temporada das corridas da NASCAR, utilizando-a como uma metáfora para a vida. Impossível não meter prego a fundo no acelerador quando se ouve o solo de guitarra final.

5. The Stills–Young Band — "Long May You Run" ("Long May You Run", 1976)



"Long May You Run" é uma carta de amor adorável de Neil Young a um veículo, com uma inspiração ligeiramente mórbida. Se gostam do tema e não querem ser spoilados com a sua verdadeira origem, é melhor pensarem bem antes de continuar a ler.
Na verdade, "Long May You Run" é uma homenagem de Neil ao seu querido Mortimer Hearseburg ("Mort"), um Pontiac de 1948 que foi o seu primeiro carro e era um... carro fúnebre. Neil Young não o utilizava para esse efeito, mas talvez aproveitasse o espaço lá atrás para umas belas sestas nas suas roadtrips. Foi precisamente numa dessas viagens ao volante do seu Mort – entre Toronto e Los Angeles – que Neil conheceu Stephen Stills e juntos formaram os Buffalo Springfield. Os dois continuaram a colaborar ao longo da década seguinte nos CSNY (Crosby, Stills, Nash & Young), mas quando estes se zangaram na mega-digressão de estádios em 1974, Stills e Young decidiram continuar onde tinham ficado nos Buffalo e lançaram "Long May You Run" em 1976.
Quanto ao Mortimer Hearseburg, o veículo acabaria por morrer em Junho de 1965, quando a caixa de velocidades rebentou em Blind River, Ontario (embora a letra diga que foi em 1962).

4. Tom Petty & The Heartbreakers — "Runnin' Down A Dream" ("Full Moon Fever", 1989)



E eis que chegamos ao mestre incontestável das roadtrips. A lírica cinemática, o solo que convida a carregar no acelerador, está aqui tudo. Tom Petty sabia como ninguém curar a banda sonora para uma viagem ao volante de um automóvel. A sua música evocava a pureza da descoberta, a inocência da aventura, a curiosidade pelo desconhecido.

"I felt so good like anything was possible."

"Runnin' Down A Dream" fala sobre as diferentes etapas da vida no contexto de uma roadtrip. Esteja a fazer sol lá fora ou a chover, o optimismo é uma constante, porque estamos a correr para o sonho:

"I put the pedal down to make some time, there's something good waitin' down this road."

Tom personificava o idealismo do coração americano pré-11 de Setembro, quando a amabilidade e o espírito aventureiro se sobrepunham à paranóia do desconhecido. Perdemos o músico na semana passada, mas ele deixou-nos o legado que nos vai acompanhar para sempre ao volante.

3. Steppenwolf — "Born To Be Wild" ("Steppenwolf", 1968)



Música central do épico motoqueiro "Easy Rider" de 1969, este é o tema pelo qual todos os outros nesta lista de alguma forma se guiaram. "Born To Be Wild" foi lançado originalmente no álbum homónimo dos Steppenwolf em 1968 e posteriormente usado em inúmeras bandas sonoras incluindo, obviamente, "Easy Rider", filme que projectou o tema a hino eterno dos motores.

2. Deep Purple — "Highway Star" ("Machine Head", 1972)



O expoente máximo da história de amor entre o homem e o automóvel. "Highway Star" retrata o automóvel como extensão natural do homem; como catalisador das suas emoções; como mulher-troféu que é mais bonita que todas as outras e que anda mais que todas as outras.
O tema nasceu no autocarro dos Deep Purple a caminho de Portsmouth em 1971, quando um jornalista perguntou à banda como era o sue processo de composição e Ritchie Blackamore – só para demonstrar – pegou numa guitarra acústica e inventou um riff, ao mesmo tempo que Ian Gillian improvisava a letra com uma declaração de amor ao seu carro. O tema foi criado ali, na hora, e tocado pela primeira vez nessa mesma noite. Seria gravado em Dezembro desse ano em Montreux e lançado no seguinte como tema de abertura do álbum "Machine Head".
"Highway Star" é pedal a fundo do princípio ao fim, a música perfeita para conduzir.

20-11. Menções honrosas

10 temas que não entraram na lista, mas poderiam ter entrado.

20. Tom Cochrane — "Life Is A Highway"
19. Saxon — "Wheels Of Steel"
18. The Kinks — "Drivin'"
17. ZZ Top — "I'm Bad, I'm Nationwide"
16. Brian May — "Driven By You"
15. Iggy Pop — "The Passenger"
14. The Doors — "Roadhouse Blues"
13. The Rolling Stones — "Start Me Up"
12. Queen — "I'm In Love With My Car"
11. Golden Earring — "Radar Love"

1. Bruce Springsteen — "Born To Run" ("Born To Run", 1975)



"I gotta know how it feels. I wanna know if love is wild. I wanna know if love is real."

Muito mais que uma música sobre conduzir, "Born To Run" é uma música sobre fugir. A estrada como a vida; o carro como a fuga; o assento do pendura como metáfora do casamento. É o jovem sonhador Bruce Springsteen a definir quem era e ao que vinha. Uma canção maior que o automóvel, maior que a estrada e maior que a vida. Porque a vida não é nada mais que uma longa – por vezes tranquila, por vezes tortuosa –, mas sempre fascinante estrada.



quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Carta aberta a Roberta Medina: Tudo o que eu quero para o Rock In Rio 2018 são os Tears For Fears

Um desejo especial para a produtora do Rock in Rio Lisboa

Querida Roberta. E aí? Tudo bom? Tudo na maior energia? Legal. Desculpa lá mas não me posso alongar nos coloquialismos do português brasileiro, que tudo o que sei aprendi-o na "Pedra Sobre Pedra" ("Hilda, minha filha!") e já lá vão 25 anos. Vamos lá então falar do teu (e nosso) Rock In Rio.

Antes de mais, parabéns pelo sucesso retumbante do Rock In Rio deste ano na sua cidade natal. Aquele cartaz do segundo fim-de-semana foi absolutamente insano. Imagino que tenha custado para cima de um dinheirão, mas conseguiu fazer justiça ao prestígio histórico do festival e, quanto muito, só ficou atrás das duas edições originais. Não te vou mentir, como é óbvio adorava ver aquele alinhamento no Rock In Rio Lisboa 2018, mas sei que é difícil. Sei que o nosso país é um mercado mais pequeno, por muito que eu desejasse ver Guns N' Roses e The Who na mesma noite. Por isso só tenho um pedido para a edição do próximo ano — os Tears For Fears.

A imprensa brasileira foi praticamente unânime: os Tears For Fears foram a grande revelação do Rock In Rio deste ano. O concerto foi um sucesso estrondoso, de tal forma que o Curt Smith até anuiu em alterar o nome da banda para a sua alcunha brasileira de "Tias Fofinhas". De todas as críticas do concerto na imprensa, tenho que destacar a certeira e deliciosa descrição de Sílvio Essinger n'O Globo:
"No pop, releva-se de tudo por causa do saudosismo: o mau estado das vozes, a barriga de chope do cantor, os péssimos novos arranjos, a falta daqueles cabelos... No caso dos ingleses Tears For Fears, nenhuma condescendência foi necessária. Banda com um caminhão de hits (todos eles, canções sofisticadas) e ainda em ótima forma vocal e instrumental, ela fez um show no Rock in Rio que foi como uma lufada de ar fresco para a noite de um dia ruim no Rio de Janeiro. Sem qualquer super aparato visual ou recursos bombásticos, Roland Orzabal e Curt Smith deitaram e rolaram em seu império de clássicos das rádios FM."
É imensamente gratificante ver que os Tears For Fears começam a ser finalmente reconhecidos como a banda superlativa e sofisticada que são e não como uns meros two-hit wonders. Já não era sem tempo. Era uma tremenda injustiça vê-los no mesmo saco de uns Culture Club, quando os TFF têm muito mais de Bowie e Byrne do que de Boy George. Sempre foi um cavalo de batalha para mim e uma luta que eu trouxe à NiT há um ano, naquele que se tornou — de muito longe — o post mais visto de sempre do meu blog.

À custa desta injusta percepção, os Tears For Fears não tocam na Europa com regularidade há mais de 10 anos. É o próprio Curt que admite que se eles não vêem ao velho continente mais vezes, é porque não lhes pagam para isso. Não terem um álbum novo desde 2005 também não ajuda, mas pela nova imagem do site da banda, isso parece estar prestes a mudar. É por isso que tu, Roberta, és a única pessoa que pode ajudar os fãs dos Tears For Fears que estão por todo o lado neste lado do Atlântico e a pouco e pouco começam a sair da toca.Como ajudaste o Marcos no Brasil, que estava assim poucos minutos antes do início do concerto dos TFF:




Enquanto escrevo isto, os Tears For Fears anunciam uma aparição especial no Royal Albert Hall, num concerto único (olha a surpresa) em Outubro deste ano.
Tendo em conta a raridade das suas aparições na Europa, o concerto dos Tears For Fears no Rock In Rio Lisboa seria um evento de interesse para gente de muitos outros países. Seria um concerto histórico e o cumprimento do sonho de milhares de fãs espalhados por toda a Europa. Sei bem do que falo porque sou um deles. Vá lá, Roberta. Chuta, que a bola é tua.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A assustadora coldplayzação dos U2

A banda irlandesa entrou num processo agressivo de banalização e é cada vez mais uma força inofensiva


Já todos terão ouvido que vem aí um álbum novo dos U2. O que há uns anos era motivo de festejo e expectativa generalizada, hoje é olhado com um bocejo ou, pior ainda, com total indiferença. "Songs Of Experience" tem lançamento marcado para dia 1 de Dezembro, mas a julgar pela primeira amostra, não há muitas razões para entusiasmo.

"You’re The Best Thing About Me" tenta somar uma série de clichés dos U2 a um tema banal e desprovido de qualquer edge (pun intended), cujo único objectivo parece ser soar igual a tudo o que ouvimos nas rádios generalistas. É uma canção aguada que tenta ser uma série de coisas ao mesmo tempo e não consegue ser nenhuma; que quer encaixar perfeitamente na paisagem como um caçador furtivo e assim tentar devolver aos U2 uma relevância que lhes escapa há décadas. Este é um processo pelo qual já vimos os Coldplay passar há 10 anos (ler aqui sobre esse flagelo), mas não é assim que o quarteto irlandês lá vai.



O problema de aguagem da música dos U2 não vem de agora. Se recuarmos um pouco na História da banda, tudo terá começado com o falhanço comercial do arrojado álbum "Pop" em 1997, que à data vendeu menos que qualquer disco desde "October" em 1981 e até menos que qualquer álbum lançado depois, até "Songs Of Innocence" em 2014 (já lá vamos). Em "Pop", os U2 continuaram a fazer o caminho corajoso de experimentação que começaram em "Achtung Baby", embora com resultados bem mais decepcionantes. A banda apareceu irreconhecível em "Pop", mas se isso alienou grande parte da audiência, tal não era necessariamente negativo. Foi uma experiência menos conseguida, mas outras poderiam vir a seguir. Faltou esse discernimento à banda na altura.

Em vez disso, soaram os alarmes financeiros e a banda percebeu que para manter o nível de sucesso e de receitas, tinha que voltar a soar a algo que o público reconhecesse imediatamente na rádio – a sonoridade dos U2, cuja impressão digital remonta a "The Electric Co.". E foi aí que os U2 se tornaram numa banda de auto-revivalismo. "All That You Can't Leave Behind" seguiu-se em 2000 e restaurou aos U2 o título de "Maior banda Rock do mundo" (e mais bem sucedida financeiramente) durante mais alguns anos. Este poderia ter sido apenas um álbum de regresso às raízes, um throwback antes de voltar a olhar para o futuro. Mas não.

A banda seguiu o mesmo rasto de regresso ao passado em "How To Dismantle An Atomic Bomb" que, apesar do título bombástico, se revelou completamente inofensivo. Manteve-se o sucesso, sim, mas à custa da crescente banalização do produto da banda. Os U2 inauguraram aqui uma nova fase da banda: os U2 em auto-piloto.

U2 em auto-piloto é um conceito que tentar somar múltiplos clichés da banda à sua música (quantos mais, melhor), de forma a que ela seja sucessivamente mais reconhecível e, claro está, comercial. Note-se que este não é um conceito nefasto em si mesmo. O pior é quando ele é aplicado a temas banais e desinspirados, produzindo resultados pouco acima do medíocre.

Para o álbum seguinte, os U2 tentaram – com sucesso – inverter esta tendência. A banda voltou à experimentação em (metade de) "No Line On the Horizon" em 2009. Pela primeira vez em mais de 10 anos, os U2 voltaram a correr riscos e a esticar as fronteiras da sua sonoridade, naquele que foi o álbum mais ambicioso desde "Pop". Mesmo sem escapar a uma mediocridade latente a partir do quarto tema do álbum, o início de "No Line" bateu forte com o tema-título, o belíssimo single "Magnificent" e o épico "Moment Of Surrender" – um dos mais intensos temas dos U2 de todo o sempre. A digressão 360º (que passou em Coimbra para dois concertos superlativos e muito molhados) também foi um sucesso global e devolveu aos U2 aquele edge que lhes escapava há uma década. O pior veio depois.



Tudo correu mal com "Songs Of Innocence". Começando com o lançamento intrusivo, pago a peso de ouro pela Apple e que (talvez por isso) acabou com o álbum nas contas de todos os utilizadores do iTunes, mesmo aqueles que não podem ver os U2 à frente (que é algo que eu não compreendo, mas isso é assunto para outro tópico, já discutido aqui). Pior foi ouvir Bono a desculpar-se por esta iniciativa arriscada, naquele que terá sido o momento mais anti-punk da História de uma banda que começou com raízes punk. Uma miséria.

Pior ainda que todo o backlash gerado pela estratégia de lançamento de "Songs Of Innocence", só mesmo o conteúdo do álbum. Se pelo menos fosse alguma coisa que se aproveitasse, com certeza que as pessoas não se queixariam tanto em ter música de borla na sua conta. O álbum mandou à fava a experimentação em toda a linha (excepção talvez a "Sleep Like A Baby Tonight") e limitou-se a somar clichés, numa hipérbole de U2 em auto-piloto sem qualquer história para contar. Salvou-se o belo single "Every Breaking Wave", "California" e pouco mais. O desinteresse reflectiu-se nas vendas (abaixo ainda de "Pop") e eu pensei que, tal como na ressaca deste, os alarmes voltassem a soar no campo dos U2. Mas não.

"You’re The Best Thing About Me" chegou e volta a mostrar a mesma lástima de clichés sem conteúdo que pejaram "Songs Of Innocence". Nunca os U2 soaram tão beige. Para um fã como eu, esta banalização dos U2 começa a tornar-se exasperante. Talvez o problema seja meu e esta seja apenas uma questão de gestão de expectativas. Fui habituado a esperar grandes feitos dos U2. Fui habituado a uma banda sempre a tentar novas coisas, sempre a esticar os limites da sua sonoridade. A mesma sonoridade que rasgou fronteiras nos anos 90 e que agora parece estar confinada a um quadrado. Talvez tenha sido mal habituado e agora tenha que me convencer que a banda é uma força esgotada, beige e inofensiva.

Desejo fortemente estar enganado e que "Songs Of Experience" me surpreenda positivamente. Mas a avaliar pela primeira amostra, a coldplayzação dos U2 segue dentro de momentos.