quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Top 10: Dez momentos em que Freddie Mercury foi o Rei

O maior dos Maiores, o rei dos Reis (e acho que já esgotei as hipérboles e os superlativos) fez anos


O dia em que o Rei faz anos. Foi ontem. Como todos os dias são bons para festejar o aniversário do Rei, eis uma pequena lista com as suas 10 melhores performances ao vivo. E um pouco de História também. Parabéns, amigo Farrokh.


10. "It's In Everyone Of Us" – Dominion Theatre, London (1988/04/14)



Quando se pensa na última actuação ao vivo de Freddie Mercury, quase sempre se fala no concerto de Knebworth Park em 1986. Mal. Knebworth foi de facto o último concerto de Freddie com os Queen, mas a sua última actuação ao vivo seria em 1988 no Dominion Theatre, por honras do musical "Time", para o qual Freddie contribuiu com dois temas: "Time" e "In My Defence". Ambos maravilhosos, diga-se (se não ouviram ainda, é carregar nos links).

Freddie fez uma aparição especial no Dominion para a caridade e teve um dueto inesperado com Cliff Richard no seu tema "It's In Everyone Of Us". A voz de Freddie está impecável (já não andava em tour há quase 2 anos) e a performance é irrepreensível. Ouçam só o entusiasmo na plateia; todos sabiam que estavam a assistir a um momento único, mas ninguém imaginava que seria a última actuação ao vivo do Rei.

Curiosamente, o Dominion Theatre alojaria entre 2002 a 2014 o musical "We Will Rock You" dos Queen e como tal teve durante 12 anos uma mega-estátua de 8 metros de altura (!!!) de Freddie à porta.


9. "Sheer Heart Attack" – Summit, Houston (1977/12/11)



Se quiserem ver o Freddie Mercury 'going nuts' em palco, é pesquisarem qualquer performance de "Sheer Heart Attack". O tema remonta às sessões do álbum de 1973 com o mesmo nome, mas só foi terminado em 1977 para "News Of The World", mesmo a tempo da revolução Punk que pretendia destruir as bandas da realeza do Rock, bandas precisamente como os Queen. Era a anarquia contra a monarquia.

Sempre que os Queen tocavam "Sheer Heart Attack", normalmente no encore, Freddie entrava em modo vendaval e levava tudo à frente — amplificadores, microfones, o Brian May —, injectado a entusiasmo e muita cocaín... Entusiasmo, era isso.

Freddie podia querer levar o ballet às massas, mas não se deixem enganar pelas poses — Freddie era um bad boy. Se têm dúvidas, aproveito para recordar o episódio em que Sid Vicious dos Sex Pistols tentou intimidar Freddie nos Wessex Studios em Londres e saiu de lá com o rabinho entre as pernas. Freddie não estava para aturar as merdas de Sid e depois de gozar com ele (chamando-o de Simon Ferocious), pegou-lhe nos colarinhos e empurrou-o para fora do estúdio. Freddie era ballet, punk, ópera, rock, o que quer que ele quisesse ser, a qualquer momento. Bom em tudo. Como se comprova pelo vídeo em cima no lendário concerto em Houston (vejam aqui outro ponto alto do concerto – "My Melancholy Blues"), na légua americana da News Of The World Tour em 1977. Punk de lantejoulas? Siga.

P.S.: Na verdade o vídeo em cima é uma compilação de várias performances de "Sheer Heart Attack" (em Houston, o tema corta para "Jailhouse Rock"). Se quiserem ver o Freddie a destruir mais cenas, podem ver as performances completas de Houston em 1977, Hammersmith em 1979, Paris em 1979 e Buenos Aires em 1981.


8. "Another One Bites The Dust" – Estadio Vélez Sarsfield, Buenos Aires (1981/03/01-08)



Na ressaca da conquista dos Estados Unidos com o (algo inesperado) sucesso do álbum "The Game", os Queen quiseram dar novos mundos ao mundo e decidiram ir à conquista de mercados nunca antes navegados. Ao saber que tinham uma grande legião de fãs na América do Sul, os Queen embarcaram rumo ao hemisfério sul, na que terá sido provavelmente a maior aventura da sua história – a South America Bites The Dust Tour.

Entenda-se que o Brasil e a Argentina viviam ditaduras militares, por isso fazer um concerto num destes países era algo impensável para quem queria um controlo rígido de massas. As peripécias foram muitas; começando logo pela recepção na Argentina, onde os Queen foram escoltados pelo exército que os conduziu em contramão na autoestrada, enquanto militares disparavam as metralhadoras para o ar para desviar o trânsito. Assustador? O Freddie tinha um guarda-costas cujo cartão de visita era ter assassinado 212 pessoas. Os fãs perseguiam os Queen para todo o lado, a loucura era total. Na terceira e última data em Buenos Aires (1981/03/08), Freddie apareceu em palco para "Another One Bites The Dust" com a camisola da selecção da Argentina, na companhia de um tal de Maradona. Esse mesmo. Dois deuses no mesmo palco, ao mesmo tempo. Loucura a dobrar.

O vídeo em cima é de "Another One Bites The Dust" na segunda data de Buenos Aires (não há vídeo da terceira noite), com Brian May a usar uma cartola irresistível, que se tornaria a imagem de marca de um outro guitarrista que apareceu uns anos mais tarde. Mas o ponto alto desta noite veio antes, na indizível comunhão de Freddie com a audiência argentina. Quem me dera estar ali no meio:




7. "Staying Power" – Milton Keynes Bowl (1982/06/05)



Volvido apenas um ano da loucura da América do Sul e em 1982, os Queen já eram alvo de fuzilamento em praça pública. A banda constou o interesse gerado por temas dançáveis como "Another One Bites The Dust" (principalmente nos Estados Unidos) e resolveu entrar em modo full (gay) disco no Lado A do controverso "Hot Space" (álbum que alegadamente terá influenciado Michael Jackson para o seu "Thriller"). Inovação e reinvenção, dizem uns; sell-outs, acusam outros.

Dentro da banda, nem todos concordaram com esta nova direcção: Freddie Mercury (e o seu tão odiado assistente Paul Prenter, que não gostava de guitarras) foram os maiores impulsionadores da nova sonoridade; John Deacon sempre foi fã dos Chic e adepto do funk, por isso também estava em casa; no pólo oposto, Roger Taylor foi (e ainda é) abertamente contra este álbum; Brian May também não achou grande piada ao conceito (que o afastava da frente da sonoridade dos Queen), mas tentou adaptar-se como pôde à nova direcção musical. E que bem que o fez; principalmente quando a banda levou o álbum à estrada e proporcionou uma das melhores digressões da História dos Queen. Os temas cresceram em palco e ali, os Queen voltaram a ser um grupo coeso, com Brian May de regresso ao centro da paisagem sonora.

O concerto de Milton Keynes Bowl em 1982 (lançado em DVD em 2004) é o melhor exemplo da relação de amor-ódio que tanto os fãs como a banda têm com este período acidentado. De um dos álbuns mais odiados dos Queen saiu uma das melhores digressões, com passagens triunfais por Leeds e Edimburgo e uma saída pela porta grande em Milton Keynes. Sabendo da gravação televisiva do espectáculo, Freddie quis deixar algumas palavras sobre a reacção negativa do público e da crítica ao álbum novo da banda:
"Most of you know that we’ve got some new sounds out in the last week. We’re gonna do a few songs in the funk/black category - whatever you call it. That doesn’t mean we’ve lost our rock’n’roll feel, ok? It's only a bloody record! People get so excited about these things... We just wanna try a few new sounds; this is "Staying Power"."
Sorrio sempre com a ingenuidade do Freddie nestas palavras – "é SÓ um disco dos Queen". Como se isso fosse de somenos. Freddie sentia que tinha algo a provar e arrancou para uma performance olímpica de "Staying Power", uma das canções mais difíceis de cantar ao vivo; ou como Freddie disse em Kassel, semanas antes – "a real bitch to sing". O tema era tão difícil que sempre que Freddie não se sentia na sua melhor forma, os Queen não o tocavam; ainda começou por fazer parte da setlist da The Works Tour em 1984, mas foi completamente abandonado depois da débâcle em Milão e nunca mais apareceu. Em Milton Keynes, Freddie vai a todas.

"Hot Space" gerou tensões tão grandes no seio da banda, que só não separou os Queen em definitivo porque os projectos a solo que lhe seguiram foram unanimemente desastrosos. E rapidamente os Queen se aperceberam que a soma das partes valia muito mais que cada uma das rainhas.


6. "Somebody To Love" – Hammersmith Odeon, London (1979/12/26)



Por falar em "real bitches to sing", esta é a maior bitch de todas. Há vídeos no Youtube só dedicados às falhas ao vivo de Freddie (não foram assim tantas) e a maioria deve-se às notas ingratas de "Somebody To Love". Se Freddie estivesse em noite sim, "Somebody To Love" era invariavelmente o ponto alto do espectáculo; se estava em noite não, a canção podia ser um desastre.

A insana agenda dos Queen durante os anos 70 não ajudou em nada a voz de Freddie. Não havia tempo de descanso no meio do infinito ciclo álbum-tour-álbum e as cordas vocais bem precisavam do repouso. Isso torna ainda mais impressionante quando ouvimos a forma soberba que Freddie apresentou durante a Crazy Tour no fim de 1979. A primeira metade do ano fora passada na estrada, na promoção do álbum "Jazz" e gravação do álbum ao vivo "Live Killers"; mal chegaram do Japão, logo os Queen entraram em estúdio para a primeira fase das sessões do álbum "The Game". "Crazy Little Thing Called Love" foi lançado no Outono e, para promover o single, os Queen fizeram-se à estrada novamente para uma curta digressão. No meio, umas semanas de paragem que fizeram milagres.

Depois das merecidas férias, a Crazy Tour apanhou os Queen em modo caviar, com a banda ultra coesa e Freddie em grande forma vocal, talvez mesmo a melhor de sempre. O segundo concerto de Newcastle, em especial, tem a fama de ser a sua melhor performance ao vivo. Pena não haver gravações de qualidade ao nível da performance. Ouçam aqui "Bohemian Rhapsody" de Newcastle, com Freddie a atingir as todas as notas mais altas que normalmente evita. Impressionante.

O vídeo em cima documenta a performance irrepreensível da maior das bitches – "Somebody To Love" – na última noite da Crazy Tour. O concerto completou uma série de 7 espectáculos em Londres, onde em Dezembro de 1979 os Queen bateram consecutivamente uma série de salas icónicas da cidade: Lyceum Ballroom, Rainbow Theatre, Purley Tiffany's, Tottenham Mayfair, Lewisham Odeon, Alexandra Palace e Hammersmith Odeon. O último fez parte da série Concerts for the People of Kampuchea, que reuniu em Hammersmith bandas como os Wings (Paul McCartney), The Who e os The Clash, para a angariação de fundos para o povo do Cambodja.

O concerto de Hammersmith foi gravado em vídeo e é uma das (muitas) pérolas que o Dr. Brian May continua a fazer refém no seu arquivo, ao invés de a lançar para a ávida comunidade de fãs dos Queen, que desesperam por isto há décadas. É um dos pontos altos da banda, particularmente de Freddie que fez aqui a sua última aparição pública antes de deixar crescer o seu icónico bigode.


5. "White Queen (As It Began)" – Rainbow Theatre, London (1974/11/20)



Os Queen são sobejamente conhecidos pela sua imagem dos anos 80, com Freddie Mercury de bigode. O que nem todos sabem, é que houve um tempo em que os membros da banda usavam maquilhagem, pintavam as unhas e vestiam roupas femininas em palco. Foram os early days dos Queen.

No início de 1974, os Queen eram uma banda em ascensão, esfomeada pelo sucesso, com tudo para provar ao público. Ainda a banda andava na estrada com o seu primeiro álbum (lançado em Julho de 1973) e já planeava a estratégia para a promoção do segundo álbum, que fora gravado em Agosto. Sem nenhum hit single, a banda lutava para sobreviver. Naquela altura, parecia uma loucura uma banda como esses tais de "Queen" marcarem um concerto para o Rainbow Theatre – uma das salas mais prestigiadas de Londres. Mas Freddie sabia que ia ser uma estrela e só estava à espera de uma oportunidade para brilhar.

A oportunidade surgiu quando a 21 de Fevereiro, David Bowie (que estava a promover "Rebel Rebel") desistiu da sua aparição no Top Of The Pops da BBC e assim abriu uma vaga no programa musical mais visto do Reino Unido. Não foi Bowie, foram os Queen tocar o seu novíssimo single "Seven Seas Of Rhye", lançado daí a dois dias. De repente, tudo mudou.

"Seven Seas Of Rhye" disparou para o nº 10 da tabela de singles, "Queen II" subiu ao nº 5 dos álbuns e quando os Queen apareceram no Rainbow, esgotaram os mais de 3 mil lugares, provando que eram uma banda que vinha para ficar. Os Queen quiseram documentar a ocasião e foram ao Rainbow gravar o seu terceiro álbum ("Queen III – Live At The Rainbow" soa tão bem...), só que o motor da banda estava em alta rotação e obviamente, esse álbum nunca veria a luz do dia (até 2014). Mesmo depois de Brian May ter caído na cama do hospital por exaustão após 6 concertos consecutivos em Nova York e de lhe ser diagnosticada hepatite, os Queen enfiaram-se em estúdio e escreveram novas canções para um novo álbum de originais. Assim nasceu "Sheer Heart Attack".

Os Queen voltariam ao Rainbow em Novembro de 1974 para promover "Sheer Heart Attack" – um álbum menos polido que "Queen II", mas mais pesado e com mais potencial comercial. Na semana do concerto, o single de promoção ao álbum – o double A-Side "Killer Queen" / "Flick Of The Wrist" –chegou ao nº 2 das tabelas, falhando por uma unha negra o posto mais alto (Brian May faria referência a essa frustração durante o concerto). Mal sabia ele que aquilo seria apenas o início de uma longa caminhada real dos Queen.

O concerto de Novembro foi mais uma vez gravado profissionalmente em áudio e em vídeo, mas igualmente posto na gaveta, até à sua inclusão parcial na (extremamente limitada) caixa "Box Of Tricks" em 1992. O concerto veria apenas o seu lançamento completo, em toda a sua glória, na maravilhosa caixa "Live At The Rainbow" em 2014, a qual agrupou também o concerto de Março.

Tanto no concerto de Março como no de Novembro, podemos ouvir os Queen a darem o litro. Nesta altura, Freddie ainda não tinha as manhas que foi apanhando ao longo da carreira – por vezes "protegendo-se" de algumas notas mais ambiciosas – e dava tudo noite após noite. Por isso não é de admirar que possamos ouvir coisas incríveis nas gravações ao vivo dos early days dos Queen. O tema em cima é um dos melhores exemplos disso – o superlativo "White Queen (As It Began)", uma balada do álbum "Queen II" que ao vivo ganha outra dimensão.

Freddie já se mostrava um predestinado a lidar com a plateia, mas ainda não era o showman que conhecemos dos estádios dos anos 80. Em sua defesa, ele não teve nenhum modelo para se basear; foi ele, em grande parte, que inventou o seu próprio conceito. Freddie Mercury inventou-se a si próprio: inventou o seu nome, inventou a sua persona no palco, inventou a banda que os Queen se tornariam.


4. "Love Of My Life" – Rock In Rio, Rio de Janeiro (1985/01/18)



Quando os Queen regressaram ao Brasil em 1985, para a primeira edição do festival Rock In Rio (que hoje é um franchising milionário), Freddie já era um especialista em audiências sul-americanas. Aliás, de todas as bandas estrangeiras que ali actuaram, os Queen eram provavelmente a mais experiente naquele país, uma vez que já tinha actuado em São Paulo em 1981 para uma audiência de 130 mil pessoas, na altura um recorde do mundo para concertos pagos. Os Queen sempre gostaram de recordes – até porque, como dizia Freddie: "the bigger, the better... in everything" – e voltaram a bater o recorde do mundo no Rock In Rio, quando actuaram duas noites para uma audiência de 250 a 350 mil pessoas.

Freddie já sabia que o público brasileiro tinha um fraquinho por "Love Of My Life" (vejam aqui no concerto de São Paulo em 1981), por isso quando chegou a hora de cantar para o audiência do Rio, Freddie... não cantou. Limitou-se a levantar os braços e a conduzir o público como se de uma orquestra se tratasse. 350 mil pessoas na palma da mão do Rei. Arrepiante.


3. "You Take My Breath Away" – Hyde Park, London (1976/09/18)



Estejam a fazer o que estiverem, parem. Parem e ouçam com atenção o Rei ao piano na melhor balada de todos os tempos. Nesta fase avançada de evolução civilizacional, já deveria ser unânime e axiomaticamente aceite que "You Take My Breath Away" é a melhor canção de amor alguma vez escrita. Quem não corrobora desta doutrina, ou nunca ouviu a canção (façam favor), ou anda com o coração parado e ainda não foi avisado.

“You Take My Breath Away” é Freddie Mercury em todo o seu esplendor. Com exceção de um (majestoso) solo de guitarra de Brian May lá para o fim, aqui só há Freddie: ao piano e na voz; aliás, Freddie em todas as vozes: agudos, médios e graves, layers e layers de Freddie, é tudo dele. E há o silêncio, elemento fulcral neste tema. Sozinho, Freddie vê-se obrigado a um dueto com o silêncio, amiúde interrompido pela rede de harmonias que mostram um Freddie perdido, atormentado pelas vozes do seu subconsciente. “You Take My Breath Away” é sombrio; é a declaração de amor mais visceral e incondicional, quase ameaçadora; um amor como uma força bruta que lavra tudo à sua passagem e nem o próprio Freddie consegue deter.

Muito se fala em “Bohemian Rhapsody” como a grande obra-prima de Freddie Mercury e em termos de grandeza, é um ponto de vista difícil de refutar. Mas se olharmos atentamente, qual obra-prima de menor porte mas mais polida e refinada, é “You Take My Breath Away” o momento de maior beleza da carreira de Freddie. E por que não? De toda a História da música Pop.

2. "Crazy Little Thing Called Love" – Wembley Stadium, London (1986/07/12)



Se o Live Aid foi a noite triunfal de Freddie Mercury (já lá vamos), a aparição dos Queen  no Wembley um ano mais tarde, para dois concertos esgotados, foi o seu coroamento. O "Live At Wembley '86" (ou mais tarde "Live At Wembley Stadium" é não só o concerto mais famoso dos Queen, como também uma das gravações ao vivo mais célebres de qualquer banda Rock. Não há ninguém que não identifique de imediato o casaco amarelo ou a icónica pose de Freddie (que anos mais tarde daria um meme para assinalar qualquer triunfo).

Na Magic Tour em 1986 (digressão de promoção ao álbum "A Kind Of Magic"), já todo o concerto dos Queen era milimetricamente pensado. O climax surgia perto do fim, na eufórica sequência "Bohemian Rhapsody" / "Hammer To Fall" / "Crazy Little Thing Called Love", todos com performances estratosféricas na épica noite do segundo concerto de Wembley. O melhor momento da História da Humanidade – há quem diga. Eu, por exemplo.

Era muito novo para me lembrar, mas o meu Pai conta-me que eu "nasci para a música" quando o concerto de Wembley passou na RTP no Verão de 1988, tinha eu dois anos. Durante aquelas duas horas em que olhei hipnotizado para a televisão, fui feliz como nunca e daí para a frente, a minha vida mudou. Se eu sou como sou, se hoje estou aqui a escrever isto, é tudo por causa deste concerto.

P.S.: Ver também a não menos épica performance de "Crazy Little Thing Called Love" na primeira noite de Wembley, que Freddie dedica a todos os "crazy faggots out there".


1. "We Will Rock You" - Live Aid, Wembley Stadium, London (1985/07/13)



A noite de Freddie Mercury. Quando Freddie conduzia a audiência em "We Will Rock You" com um grito de "I like it, sing it again!", milhares de milhões de espectadores em todo o Mundo já moravam na palma da sua mão. O Wembley, esse era seu desde que "Radio Ga Ga" pusera as 74 mil pessoas que enchiam o estádio a bater palmas com a coordenação de um comício nazi. Mas naquela noite, Freddie queria mais que o Wembley; queria o Mundo. E agarrou-o, ao dançar com o cameraman em "Hammer To Fall", como se desse a mão às 1.9 mil milhões de pessoas (um terço da humanidade) que o viam em casa. Arrepiante.

E foi assim que na noite de 13 de Julho de 1985, o planeta acordou para um facto que estivera o tempo todo à sua frente: não havia um showman como Freddie Mercury. Não havia e não voltou a haver alguém com aquela capacidade para captar e entreter a audiência. O Wembley parecia uma pequena chávena para o brilho da estrela que explodia em palco. Assim foi a vida de Freddie Mercury: como uma estrela que brilhou muito, muito rápido, muito intensamente e explodiu, porque o universo não aguentava com tanto brilho. Parabéns, Rei.


domingo, 3 de setembro de 2017

Fogueira de scrobbles do Chico Buarque

A censura volta a atacar. Chico Buarque é o novo alvo


É a segunda crónica consecutiva que escrevo sobre censura. Espero que a actualidade me permita mudar de assunto no próximo texto, mas torna-se difícil quando em pleno 2017 surge à vista de todos uma nova Ordem de Inquisição a querer impor a censura como algo de socialmente aceitável. E tenham lá paciência, mas se há coisa para a qual eu não tenho paciência nenhuma é para a censura.

Esta nova inquisição moral ignora o princípio básico de que não há boa nem má censura, há apenas censura; a mesma do lápis azul que há 5 décadas proibiu as cantigas do Zeca Afonso que entoam nos comícios; a mesma que há uma semana proibiu ("aconselhou" a retirada) livros infantis à custa de duas páginas aleatórias, sem sequer se darem ao trabalho de analisar as obras em questão, num dos maiores atentados à liberdade de expressão desde os saudosos tempos do Cavaquistão (estou a lembrar-me do programa do Herman).

Esta censura não é melhor porque é nova e muito menos porque é apoiada por um órgão governamental (a 'Comissão para a Igualdade de Género', que nos deixou aqui um belo cartão de visita). Pelo contrário. O facto de decisões perigosas — como a retirada de um livro do mercado —
estarem apoiadas por um órgão do Estado que age de forma imprudente, nervosa e coarcível só dão a este fenómeno proporções muito mais assustadoras. Eu estou à vontade para falar nisto, uma vez que votei numa das forças que apoia o partido que está no Governo, mas estamos a dar passos firmes em direcção a uma nova censura e se ninguém é Capaz de pôr mão nisto, honestamente, não sei onde vamos parar.

A normalização da censura chegou a tal ponto que esta semana li uma notícia que dava conta da retirada dos livros da Anita do mercado (sim, essa Anita) devido a uma recomendação da CIG, a qual apontava o facto da maioria das actividades levadas a cabo pela heroína da série "transmitirem mensagens que possam ser promotoras de uma diferenciação e desvalorização do papel das raparigas no espaço público e dos rapazes no espaço privado". Fiquei de tal forma nauseado ao ler isto, que fui logo tentar confirmar a veracidade da notícia. Uma vez que não vi nada nesse sentido (o que até é de estranhar, dada a facilidade com que se agora se espalham boatos como factos), presumo que tenha sido só uma brincadeira de Facebook. O problema é que este é um sinal dos tempos em que vivemos onde uma aberração deste tipo passa por verosímil. Não é verdade, mas podia ter sido.

São sinais de tempos esquizofrénicos e paranóicos. Paranóicos, porque querem analisar tudo ao milímetro, julgar sumariamente e linchar em praça pública. Esquizofrénicos porque fazem tudo em nome da liberdade, sem se aperceberem do paradoxo que encerra a censura que promovem, num auto-de-fé só comparável aos gloriosos tempos da Inquisição Medieval.

O alvo desta nova inquisição volta a ser a música, desta vez Chico Buarque (esse machista) que, depois de décadas de fitas gravadas, querem higienizar em 2017. Logo ele, que tem uma história de combate à censura. O tema no pelourinho é "Tua Cantiga" e fala de um homem que promete à amante "Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir". Alegadamente, isto coloca a mulher num papel secundário, indexado aos anos 70. A traição é uma coisa démodé, hoje a mulher é independente e por isso não sofre de amor. Porque é isso mesmo que a nova mulher deve ser — um autómato. Porque qualquer tipo de sentimento mais visceral deve ser reprimido em nome dos paradoxos do politicamente correcto defendidos pela Nova Ordem da Inquisição. E porque a nova mulher livre, só é livre segundo as condições estabelecidas pelas Capazes. Nojo.

A música é sentimento e é suposto que assim seja. Por isso é um meio de comunicação tão massivo e poderoso. Se não se identificam com as palavras do Chico, sigam para o próximo artista. É simples. Ou então façam como nos anos 60, quando acusaram os Beatles de anticristos e fizeram fogueiras com os seus discos. Uma vez que hoje já ninguém compra discos, podem fazer uma fogueira com os scrobbles do Chico Buarque no Spotify (para os non-Millennials que me estejam a ler, scrobbles = nº de audições). É que a média de scrobbles dos temas do último álbum é de cerca de 100 mil por canção, exceptuando o "Tua Cantiga", que já foi ouvido mais de 700 mil vezes. Têm muito para queimar.

Atentem bem: não vão conseguir censurar a música. Tal como não conseguiram calar o Zeca, não vão ser Capazes de calar o Chico (até me admiro como ainda não pegaram no assunto) e jamais vão calar alguém que queira enterrar o coração numa fita. Ontem, hoje e amanhã, a música será sempre livre. E não há nada que possam fazer acerca disso.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A censura é sempre um caminho perigoso, mesmo quando se trata de música racista

Uma reflexão sobre a nova forma de censura socialmente aceite

Na semana passada, o Spotify eliminou uma série de bandas identificadas como "racistas" e de "incentivo ao ódio" pelo Southern Poverty Law Center (organização americana que monitoriza os grupos de ódio). Enquanto alguma imprensa musical se apressou a aplaudir a decisão, eu não tenho a certeza que a censura seja o melhor caminho para combater os nazis. Nem que seja por abrir um precedente muito perigoso.

Na cena final do "Inglorious Basterds" de Tarantino, o Tenente Aldo "The Apache" Raine (o Brad Pitt) explica ao Coronel Hans Landa (Christoph Waltz) do exército nazi que não o pode deixar ir embora sem lhe "dar uma coisa que ele não pode tirar". O Tenente americano gostava de identificar os nazis que prendia cravando-lhes à faca uma suástica na testa, de modo a que eles nunca pudessem esconder quem tinham servido (eu teria escolhido usar o uniforme). Se alguma coisa se pode aprender com o "Apache" é que o caminho para a derrota dos nazis não se faz escondendo os nazis. Pelo contrário. Faz-se expondo-os ao absurdo que eles defendem. Porque nem eles gostam de ser conhecidos como nazis.

Veja-se o caso do estudante universitário que andou pelas marchas de Charlottesville e em poucos dias viu a sua cara publicada por toda a internet e como tal agora diz que "não é o racista que vêem nas fotos". Talvez não seja. Mas de certeza que é um miúdo muito confuso.
Melhor ainda é o caso do "temível" protagonista da (excelente) reportagem da Vice sobre Charlottesville, que no dia da marcha era uma máquina de guerra "treinada para a violência", mas dias mais tarde chorava como uma Madalena arrependida e afinal já não era violento. Como vêem, estes gajos só precisam de educação, um pouco de realidade e talvez um abraço do Morgan Freeman. Alguém que lhes explique, por exemplo, que a música que eles ouvem foi muito provavelmente criada por indivíduos de raça negra.

O assunto da censura musical é mais complexo do que pode parecer e merece uma reflexão fria e cuidada; nem que seja pelo paradoxo da liberdade que implica a censura de uma peça de arte, por muito obscena que seja. É que tirando os meus tímpanos (e de todos os que gostam do volume no máximo), a música nunca matou ninguém. Pode moldar erradamente cabeças mais incautas, é verdade, mas esse é um problema que se resolve com educação. Vou ligar o caps lock: EDUCAÇÃO. Não é por acaso que estes movimentos tendem a surgir nos sectores mais iletrados (sendo o universitário mencionado em cima uma óbvia excepção, com a atenuante da idade e de provavelmente só ter visto brancos em toda a sua vida) e portanto mais susceptíveis ao populismo e a ideologias de ódio com fundações instáveis.

Quando foi reeditado o "Mein Kampf" — livro onde Adolf Hitler expressou a sua ideologia — também surgiu esta discussão. Contra algumas correntes a favor da censura, o livro foi mesmo editado e faz-me confusão ver os mesmos que estiveram do lado da publicação do livro, em nome da liberdade, agora defenderem a censura de música. Qual o sentido disto? É porque se pensava que o nazismo já tinha passado? Agora que está aqui outra vez, vamos à Fnac fazer uma queima de livros?

É um caminho perigoso, este que estamos a trilhar. Onde é que se traça a linha do aceitável? Vamos eliminar os Ace Of Base, cujo passado tem ligações nazis? E o "Station To Station" do David Bowie? Aquele Thin White Duke era um fascista, não enganava. E já que estamos com o machado na mão, podemos mandar abaixo a maioria da música punk, que incita à anarquia e à revolta contra o sistema? E o metal? Isso é só violência, era mandá-los de vela também. E por falar em violência, que dizer dos filmes do Tarantino, cheios de ideias criativas para assassínios? E por falar nisso, e a Céline Dion? Caso não tenham percebido a ironia, não, não vamos eliminar nada disto. O que levanta a questão anterior: onde é que se traça a linha? Na minha opinião, ao estarmos a censurar a música destes gajos, estamos a dar-lhe a sua maior vitória — a vitória da relevância.

Este é um problema grave, mas não é um problema que se resolve com censura. Pelo contrário. A censura dá-lhes força. A censura só gera publicidade que leva ao aumento da procura (nem que seja por curiosidade) por este tipo de movimentos. Falo por mim, que não sabia dizer o nome de uma única banda desta ideologia, mas que agora, depois de tanta publicidade, já sei.

Esta medida do Spotify fez com que eu fosse obrigado a pesquisar o que é afinal isto da música de supremacia branca para perceber o fenómeno, algo que nunca me passaria pela cabeça. Como eu, terão havido muitos mais curiosos. Encontrar as bandas foi fácil, depois foi só abrir o Youtube, pesquisar a primeira banda da lista e estava lá tudo; até álbuns completos. No Google, facilmente temos acesso à sua discografia, naqueles sites de torrents que fingimos que desconhecemos (Pirate Bay? Isso é um site de piratas, não é?). O que vai nas caixas de comentários do Youtube não é nada bonito, diga-se. Discurso de ódio, sim, muito. Mas é diferente de qualquer secção de comentários na internet, em qualquer site de notícias? Vamos fechar o Público, o Observador e o Expresso por causa das caixas de comentários a abarrotar com ódio e visões toldadas e obtusas do mundo? Vêem como é mais complexo do que parece?

A partir do momento em que começamos a dobrar a espinha e a moldar os nossos valores, os nazis já estão a ganhar. Precisamos de ser mais inteligentes que isto. Mais espertos. Não podemos dar-lhes o luxo da vitimização. E muito menos a publicidade que advém dessa vitimização. Esta história da proibição foi o melhor cartaz que estas bandas poderiam desejar. Notem que em lado nenhum neste texto eu refiro nomes. Os sites de lápis azul que listam dezenas bandas racistas, só facilitam o trabalho de pesquisa a quem quer que queira ter acesso a esta música. Nem o Spotify faria melhor nas suas recomendações semanais.

Entendam, não estou aqui a advogar a sua difusão generalizada. Incomodar-me-ia tanto ouvir um tema racista na rádio, como ver um outdoor na rua a promover o Mein Kampf. Mas tal como não defendo a proibição do livro de Hitler, como documento histórico que é, também não defendo a censura da música. Por princípio, sou contra a censura de qualquer forma de música ou literatura. Porque atrás da exposição, vem a crítica; e atrás da crítica, a compreensão do fenómeno. Dadas as bases correctas, em forma de valores e educação, e toda a arte será devidamente enquadrada e compreendida. Porque tal como acontece há séculos, a arte continua a ser uma ferramenta fundamental no processo educacional. Censurá-la, ou fingir que não existe, é um passo atrás na educação.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O que é uma música de verão?

"Despacito" é apenas a mais recente das ervas daninhas que germinam todos os anos por esta altura. Mas há esperança.



O que é uma música de verão? É difícil definir. Será o "Despacito" — a praga de que não conseguimos fugir este ano —, ou será o "Loud Places" do Jamie XX, que paulatinamente bateu todas as festas do verão passado sem incomodar ninguém? Deverá falar sobre os fugazes amores de verão como o "Baile de Verão" do José Malhoa, ou como o "Babe I'm Gonna Leave You" dos Led Zeppelin? E por falar em Rock, deverá a música de verão ser como o Rockzinho da praia do Jack Johnson, ou como o Rockzão do deserto dos Queens Of The Stone Age? Eles até escreveram uma modinha para o efeito, adequadamente baptizada de "Feel Good Hit Of The Summer". Bons vibes e tal.

A "nossa" música de verão não é mais que a soma do que queremos ouvir (quando podemos escolher) e do que escolhem para nós quando estamos em locais públicos. O pior é que o que escolhem para nós é quase invariavelmente merda. Já todos passámos por aquele sentimento de terror e impotência — sentados numa esplanada fora da redoma da nossa música, com os ouvidos susceptíveis a qualquer mórbido hit de verão que já sabemos que vai passar dez vezes e não mais sair da cabeça o resto do dia.

Este ano temos que levar com o Luis Fonsi, mas o "Despacito" é apenas a mais recente espécie de uma longa linhagem de ervas daninhas que germinam todos os anos por esta altura. São temas virais que invadem rádios, programas de televisão, festas populares e, Freddie me livre, qualquer sítio no meio do nada onde haja uma coluna e um leitor de CD, cassetes ou — obrigado, tecnologia — um telemóvel com Bluetooth.

No início custava-me a perceber de onde vinham estas canções bizarras; e mais que isso, por que raio tinham tanto sucesso. Lembro-me de ter 9 anos e pensar como é que o "Scatman (Ski-Ba-Bop-Ba-Dop-Bop)" era o maior hit de verão em todo o mundo. Como era possível?! Ao mesmo tempo, tínhamos por cá o Iran Costa a dançar em cima das Amoreiras e a conduzir um cacilheiro (?!) com a coreografia d'"O Bicho". Estávamos em 1995 e o Big Show SIC estabelecia as tendências musicais em Portugal (eu sei, tão trágico que parece mentira). Em 1998, o Ediberto Lima trouxe-nos o Netinho com a "Milla" e as "mil e uma noites de amor com você" e aí percebi logo que estava a ouvir o "hit de verão". Não havia muito para perceber. Era tentar levar uma vida normal, evitando ao máximo ouvir o tema, o que com sorte resultava num total de apenas quinze a vinte audições diárias da "Milla".

O que é então um hit de verão? É um fenómeno sociológico (quase sempre) acidental, alimentado pelos media e por milhões de pessoas que numa situação normal não abdicam das suas noções de postura social, mas que quando ouvem o hit de verão vigente mandam tudo ao ar e não se importam de cantar assertivamente versos impronunciáveis — "Aserejé" (2002), "Dragostea Din Tei" (2003), "Gangnam Style" (2012) — e fazer as coreografias mais ridículas — "O Bicho" (1995), "Macarena" (1996), "Bomba" (2000), "Aserejé" (2002), "Ai Se Eu Te Pego" (2011), "Gangnam Style" (2012) — em frente a toda a gente que conhecem e não conhecem. Não que eu seja diferente. At one time or another, também fiz estas coreografias todas em público. É o que faz beber whiskey com muito calor.

Todos os anos há uma praga deste género. Felizmente a maior parte delas desaparece tão rapidamente como germinou, mas outras ficam para nos atormentar para sempre. Vejam a Rihanna, para quem o verão de 2007 ainda dura até hoje à custa do "Umbrella"; ou os Black Eyed Peas, cujo verão durou 6 penosos anos (entre 2003 e 2009), mas que ainda hoje leva pessoas a procurarem objectos pontiagudos para perfurar os ouvidos sempre que começa a tocar o "I Gotta Feeling". Eu, por exemplo. Mas já chega de pragas, que acho que tive um mini-AVC a recordar isto. Ouçam por vossa própria conta e risco, se tiverem coragem.

Música de verão, todos temos a nossa. A minha (a que ouço quando posso escolher) pode ser muita coisa: a Electronica Downtempo dos Air e dos Zero 7 para ouvir ao final da tarde; o Rock acelerado dos Deep Purple e dos Guns N' Roses para conduzir à hora de maior calor; o Rock mais pesado dos Led Zeppelin e dos Scorpions para as noites quentes; a Americana dos Eagles e do Tom Petty para longas roadtrips; a New Wave dos Tears For Fears e dos Duran Duran para deixar o vento da marginal bater na cara. E por falar em Duran Duran, é deles a melhor música de verão de sempre — "Save A Prayer" — ou não tivesse o verso que melhor define a proverbial noite de verão: "Some people call it a one-night-stand but we can call it paradise". Essa e outras nesta playlist de risco mais controlado:

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O dia em que o Rock morreu

O 21º aniversário do último grito de glória do Rock à escala global. É hoje.


Knebworth Park, 10 de Agosto de 1996. Noel Gallagher entra no palco cheio de si: "THIS IS HISTERAY! THIS IS HISTERAY! Right here, right now, THIS IS HISTERAY!" grita, ciente que naquele momento estava sentado no topo do mundo. Ao seu lado, o irmão Liam podre de bêbedo, como sempre (naquela altura). Na sua cabeça, tudo normal; afinal, ele já se sentia no topo do mundo desde que cantava nos bares de Manchester "Tonaaaaaaaaaaaaaaaaaaa-ite I'm a Rock N' Roll staaaaaaaaaaaar" para dez bifes saídos das obras. Knebworth Park era por isso somente o cumprimento do óbvio para Liam. A sua maior preocupação naquela era a cerveja, que não estava suficientemente fresca.

Mas Noel sabia da efeméride que Knebworth encerrava. Depois de ditar que todos os que estavam ali, naquele momento, presenciavam História, Noel dá as boas vindas oficiais com um "bom dia, planeta Terra!"... e arranca para um eufórico "Columbia" (do álbum de estreia "Definitely Maybe"). Basta ouvir os gritos de "Yeah-yeah-yeah!!! Yeah! Yeah! YEAAAAAH!" do Noel nas backing vocals e medir, de zero a Knebworth, o quanto ele estava a flutuar acima do chão.



Nunca fui a Knebworth Park. Com muita pena minha, nunca tive oportunidade de ir ao local sagrado onde os Pink Floyd enterraram o "The Dark Side Of The Moon" em 1975, os Led Zeppelin enterraram os seventies em 1979 e os Queen se enterraram em 1986. Por alguma razão, Knebworth parece estar sempre associado a uma imagem bipolar de apogeu e fecho de ciclo. Qual acaso profético, foi também o local escolhido pelos Oasis para celebrar aquele que seria o pináculo da Britpop e último grande grito do Rock no mainstream musical, com um fim-de-semana de concertos esgotados em Agosto de 1996. Faz hoje exactamente 21 anos. Sem saberem, na sua noite da sua maior bebedeira, os Oasis estavam também ali a enterrar o Rock.

A ressaca da bebedeira viria logo a seguir. Numa perversa coincidência, ao mesmo tempo que se fazia a festa em Knebworth, um grupo de raparigas desconhecidas — umas tais de Spice Girls — saltava para o primeiro lugar das tabelas do Reino Unido e da Irlanda com o tema "Wannabe". Mal sabiam Noel, Damon, Jarvis e seus pares, que tudo ia mudar a partir dali. Atrás das Spice, vieram as Britneys, os Backstreets e até por cá os Excesso. O Rock tinha deixado de ser o estilo com maior projecção e em breve deixaria de ser tocado nas rádios generalistas.

Esta troca de poderes fez-me ganhar uma aversão especial às Spice Girls. Na verdade, hoje posso confessar que "Wannabe" tinha aquele hook de piano (ba-bada, badá-bababada) que até nem era mau de todo. Somaram-se uns bons hooks a uma imagem polida e milimetricamente medida e mudou-se todo um panorama musical.

Desde então, o mais próximo que o Rock esteve do mainstream e das rádios generalistas terá sido na vaga de Nu Metal do fim dos 90s; ou quando os White Stripes lançaram "Seven Nation Army" em 2003; ou talvez quando Foo Fighters encheram o Wembley em 2008, cavalgando no sucesso do single "The Pretender; ou mais recentemente quando os Arctic Monkeys lançaram "A.M." e o single "Do I Wanna Know?" em 2013. Em 21 anos, não houve muitas bandas Rock a ocuparem novamente a cadeira dos deuses.

Quanto aos Oasis, o melhor que poderiam ter feito a seguir a Knebworth seria gozar umas merecidas férias para limpar a cabeça. Mas Noel e a Creation (a editora da banda) queriam capitalizar o momentum e como tal afogaram-se em cocaína para fazer o álbum "Be Here Now", lançado um ano mais tarde, em Agosto de 1997. O mundo recebeu "Be Here Now" em euforia, mas rapidamente se apercebeu que não era assim tão bom como desejava. O álbum denotava clara falta de quality control: metade brilhante, metade decepcionante, mas todo ele dilatado ao máximo. Quando a banda se apercebeu disso, já o mundo tinha seguido em frente e trocado os Oasis pelos "zig-a-zig-ahhh". Terminava assim a última dinastia do Rock no mainstream.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A melhor música da primeira metade do ano

O crítico de música da NiT tem a playlist perfeita para o verão

Já dobrámos a primeira metade de 2017 e chegou a altura de rever a matéria dada com uma playlist mesmo a tempo da praia, da piscina, ou daqueles 'warm sunny days indoors' tão bons. Notem que isto não é bem a vossa clássica "Playlist de verão". Pelo menos não estou a ver ninguém a curtir Mount Eerie num sunset de copo de gin na mão. O espectro é mais largo que isso e o critério é absolutamente pessoal e parcial. Passemos então aos maiores destaques da playlist.

Álbum do ano: Ryan Adams — "Prisoner"

A playlist abre com "Doomsday", um tema retirado de "Prisoner" — o mais recente álbum de Ryan Adams e o que mais me encheu as medidas este ano. O Ryan tem dado muito que falar pelo tamanho da sua língua, numa série de ataques aos The Strokes no Twitter, que já não víamos desde que o Liam Gallagher se tornou um gajo calmo (até quando fala do irmão!). O próprio reconheceu isso mesmo e assinou o tweet da mesma forma que Liam fecha os seus escritos — "As you were". Adoro, adoro, adoro.

Infelizmente só se fala nas bocas de Ryan Adams e não no que realmente importa, que é o seu mais recente, superlativo e criminosamente ignorado trabalho "Prisoner". Este álbum mostra um Ryan na sua zona de conforto, que no seu caso é o mesmo que dizer —  a carpir mágoas com canções sobre relações falhadas e corações partidos. Continua a haver algo de irresistivelmente masoquista e metaromântico nesta vontade Louis-CKiana de Ryan se apaixonar sem medo da miséria do pós-heartbreak, ou até na ânsia da inspiração que essa miséria lhe pode dizer. E não é esse o sal da vida?

Mas não pensem o universo de "Prisoner" se esgota nos 12 temas que compõem o álbum. Semanas após o seu lançamento, Ryan lançou 17 (!!!) temas adicionais gravados nas sessões deste álbum. Se quiserem mergulhar mais a fundo nesta fase prolífica do músico americano, não deixem de ouvir a overwhelming compilação "Prisoner B-Sides".


Tema do ano: Radiohead — "Man Of War"

A segunda entrada da playlist é "Man Of War" dos Radiohead. Segundo a minha fiel fonte dos Radiohead, "Man Of War" foi o tema que a banda sugeriu à EoN  (produtora dos filmes do James Bond) quando foram abordados para escrever o tema de "Spectre". "Man Of War" foi escrito por alturas do "The Bends" como uma homenagem aos Bond themes, na expectativa de um dia os Radiohead serem chamados à prova (no documentário "Meeting People Is Easy", podemos ver a banda no estúdio a gravar o tema). A chamada não chegou tão cedo como esperavam e "Man Of War" ficou na gaveta durante 20 anos.

O telefone tocou finalmente em 2015, mas a EoN perversamente não aceitou "Man Of War" por ser um tema antigo. Como tal, os Radiohead gravaram "Spectre", que foi igualmente rejeitado por ser 'demasiado dark' e em última instância foi chamado Sam Smith, que acabaria por gravar o deveras underwhelming "Writing On The Wall".

Na verdade, talvez "Man Of War" fosse demasiado complexo para o retrato que a EoN quer fazer do James Bond nos seus filmes. Na visão original de Ian Fleming, James Bond é um assassino. Pura e simplesmente. É um homem com mais morte e menos swing que a série de filmes quer fazer crer. Mas acima de tudo, Bond é um homem. Um homem igual aos demais, com medos, desejos e anseios. A morte dos outros é a forma que Bond encontrou para compensar a sua própria morte interna. E é assim que os Radiohead se atrevem a caracterizá-lo no melhor tema de 2017... mas que foi gravado em 1997 (ou entre 1995 e 1997 para ser mais exacto) e agora viu finalmente a luz do dia na reedição de "OK Computer". Podem ler mais sobre "Man Of War" aqui.


Regresso do ano: Roger Waters — "Is This The Life We Really Want?"

O regresso mais surpreendente do ano tem que ser o de Roger Waters. Tanto pelo simples facto de ele acontecer, como (e principalmente) por ser algo que realmente vale a pena ouvir. Faz-me muita confusão ler as opiniões quase unanimemente complacentes e moderadas relativamente a "Is This The Life We Really Want?". Condescendentes, diria até. Parece que ouviram uma vez — se ouviram uma vez sequer — escreveram meia dúzia de banalidades e siga para bingo. Mas que é isto? Todas as reacções são possíveis, mas se há uma coisa que Roger Waters não provoca é indiferença. Esta condescendência constitui maior ofensa ao Roger do que se lhe dissessem na cara que o álbum é uma valente merda. Mas que nova moda é esta de não ter opinião para não magoar ninguém? Vamos agora todos pintar as nossas palavras de cinzento porquê? Para agradar aos outros? Citando o Roger, "fuck them!".

Vou ser directo: "Is This The Life We Really Want?" não é um álbum de digestão imediata. É uma audição extenuante, tal o negativismo que assola a música do princípio ao fim. É também um álbum fatalmente político; eu até costumo ser apologista que os meus artistas se mantenham longe da política, mas a verdade é que o "Animals" era político e não deixa de ser uma obra-prima por isso. Roger tem opiniões fortes e quer expressá-las; e ainda bem. Se ao menos o fizesse mais vezes.

Para lá da visão niilista da vida e do mundo, "Is This The Life We Really Want?" é também um exercício de introspecção implacável. Roger despe-se por completo, olha para dentro e escava a fundo em si mesmo. Sem medos. E desta vez, não é só a interminável saga do pai que morreu na guerra; é o Roger que morreu por dentro e quer falar sobre isso. Este é o álbum mais pessoal de toda a sua carreira. E se eu tivesse que apostar, diria que este álbum confessional só chegou agora, porque só agora é que Roger aprendeu a olhar para dentro e viu a besta que é.

Roger descreveu "Is This The Life We Really Want?" como um álbum "parte tapete mágico, parte discurso político, parte angústia". Belo resumo. Ouçam, mas tenham um copo de vinho à mão, de preferência. Sempre é uma anestesia para o vazio que vão sentir.

Para uma leitura mais aprofundada sobre "Is This The Life We Really Want?", podem ir aqui, aqui e aqui.

O que resta do ano: Foo Fighters, The War On Drugs e Liam Gallagher

A primeira metade de 2017 também nos deu muitas amostras do que podemos esperar para o que resto do ano. Muitos destes temas são singles de avanço dos respectivos álbuns que aí vêm e compõem também parte do melhor que já se ouviu este ano.

Começando pelos Foo Fighters, que deixaram água na boca com o novo "Run", tema que testaram no concerto do Alive com resposta positiva. No último álbum, Dave quis dar uma de Roger Waters e formular um elaborado conceito que cruzava uma série televisiva sobre a cultura musical de várias cidades, com um álbum em que cada tema era inspirado numa cidade e acompanhava o respectivo episódio. O conceito era ambicioso, a série foi excelente, o álbum nem por isso. "Run" parece ser um regresso dos Foos à boa forma, depois do sensaborão "Sonic Highways".

Os The War On Drugs vêm aí com "A Deeper Understanding", o tão aguardado sucessor do maravilhoso "Lost In the Dream" de 2014. E cada faixa parece ser melhor que a anterior. Este não engana.

Liam Gallagher está de volta e o seu álbum "As You Were" (que como já vimos parece estar a virar hashtag para qualquer post mais corrosivo) é ao mesmo tempo a maior expectativa e a maior incógnita deste ano. Apesar de ser um enorme fã do Liam, confesso que não esperava muito das suas canções (que nunca fogem muito à regra dos 'Liam standards'), mas cada faixa tem-me vindo a surpreender. Quem sabe e não teremos aqui uma revelação. Em qualquer dos casos, o que eu quero mesmo é o regresso dos Oasis. As you were.


A playlist

Sem mais demora, fiquem então com a playlist com os 25 temas que fizeram o melhor que ouvi na primeira metade de 2017 (na verdade são 26, mas quem está a contar?).

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Os Pretenders recusaram-se a dar um concerto sénior e 'suddenly thunder showered everywhere'

A banda de Chrissie Hynde levantou o pó da carpete que cobria o campo dos Parque dos Poetas

São duas e meia da manhã e estou a escrever isto na esperança que finalmente me dê o sono. Não consigo dormir e a culpa é dos Pretenders. Foi uma maravilhosa surpresa. Sabem quando vão a um concerto sem grandes expectativas na ressaca de um dia de trabalho extenuante, mas aquilo acaba por ser tão empolgante que depois nem conseguem pregar olho, tal é a adrenalina a bater no vermelho? Foi isso que aconteceu hoje com o concerto dos Pretenders no Parque dos Poetas.

Mas a coisa não esteve fácil para a banda de Chrissie Hynde. Os Pretenders foram contratados para um festival tranquilo de plateia sentada (chama-se Cool Jazz por alguma coisa) que, numa noite fria como a de ontem (a Rita Redshoes já se tinha queixado quando abriu), previa um concerto morninho, calminho e outros adjectivos cinzentos de grau diminutivo. Mas os Pretenders são uma banda de Rock 'n' Roll e não vieram a Portugal preparados para dar um concerto sénior. E por isso cedo começaram a levantar o pó da carpete que cobria o campo do Parque dos Poetas.

Depois de abrirem o set com uma sequência do novo álbum e o deep cut "Message Of Love", a Chrissie (que não está com merdas) mostrou-se desagradada com a falta de gente a dançar e chamou toda a gente para a frente do palco (lá fui eu a correr). Sacou de "Don't Get Me Wrong" e "suddenly thunder showers everywhere". Chrissie deu um pontapé na letargia do público e de repente, a temperatura disparou. Já não fazia mais frio em Oeiras. "Who can explain the thunder and rain, but there's something in the air". O que havia no ar era Rock 'n' Roll.



Mas desenganem-se se pensam que foi um set apoiado nos êxitos. Os Pretenders têm uma carreira muito longa, mas não têm tantos como isso. O último grande hit já remonta aos mid-90s ("I'll Stand By You") e foi introduzido com um "let's get this out of the way". O que transcendeu o concerto de ontem foi algo muito simples: foi puro Rock 'n' Roll. Solos de guitarra, solos de bateria e canções entregues furiosamente, uma em cima da outra, sempre a abrir. Velhos? Velhos são os que ficam sentados.

O baterista Martin Chambers já leva 66 anos  e não é por isso que denota a idade; está na banda com Christie há 35 anos – "Se tivéssemos feito sexo teríamos durado 6 meses; é o meu máximo", disse Chrissie; acrescentando depois "Too much information, sorry". Martin é um espectáculo dentro do espectáculo. Baquetas ao ar, baquetas para o chão, cuspo para o ar, cuspo para o chão e carregar na bateria como se a vida dependesse disso.

Por falar em espectáculos à parte, o guitarrista James Walbourne está na banda desde 2008, mas parece que nasceu para aquele lugar. Foi ele quem mais brilhou no eléctrico "Thumbalina", um dos pontos altos do concerto, com um riff a fazer lembrar Johnny Marr dos The Smiths. Que besta de guitarrista.

Num set de 18 temas disparados em hora e meia, houve obviamente espaço para os maiores hits. "Don't Get Me Wrong", "Brass In Pocket" e "I'll Stand By You" foram chegando sempre que era preciso arrebitar as linhas mais duras da audiência. Chrissie prestou ainda homenagem a Ray Davies dos The Kinks –  "talvez o melhor compositor de sempre" e "quem começou tudo para mim", confessou –, relembrando o clássico "Stop Your Sobbing".

O meu único senão da noite foi a falta de temas de "Viva El Amor!" – álbum que teve muita tracção em Portugal e que me deu a conhecer os Pretenders em 1999 – , especialmente o single "Popstar", que é uma deliciosa 'revenge song' contra Jim Kerr dos Simple Minds. Jim era casado com Chrissie (8 anos mais velha que ele), mas trocou-a por uma wannabe da Kylie Minogue – a quase actriz / quase cantora Patsy Kensit (que mais tarde também andou com o Liam Gallagher) – e que tinha menos 9 anos que ele. Que idiota, este Jim.
A Chrisssie continua impecável. Aos 65 anos, aquele lendário eyeliner ainda mexe; a voz está igualzinha, uma autêntica powerhouse; e continua a ser a miúda mais cool com uma guitarra na mão. Também confirmou a minha teoria de que a história de que o melhor do mundo são as crianças é uma grande mentira. O melhor do mundo são as roqueiras. Nem que tenham 65 anos.

Grande concerto, a surpresa do ano. Os Pretenders ganharam ontem um fã.