domingo, 3 de setembro de 2017

Fogueira de scrobbles do Chico Buarque

A censura volta a atacar. Chico Buarque é o novo alvo


É a segunda crónica consecutiva que escrevo sobre censura. Espero que a actualidade me permita mudar de assunto no próximo texto, mas torna-se difícil quando em pleno 2017 surge à vista de todos uma nova Ordem de Inquisição a querer impor a censura como algo de socialmente aceitável. E tenham lá paciência, mas se há coisa para a qual eu não tenho paciência nenhuma é para a censura.

Esta nova inquisição moral ignora o princípio básico de que não há boa nem má censura, há apenas censura; a mesma do lápis azul que há 5 décadas proibiu as cantigas do Zeca Afonso que entoam nos comícios; a mesma que há uma semana proibiu ("aconselhou" a retirada) livros infantis à custa de duas páginas aleatórias, sem sequer se darem ao trabalho de analisar as obras em questão, num dos maiores atentados à liberdade de expressão desde os saudosos tempos do Cavaquistão (estou a lembrar-me do programa do Herman).

Esta censura não é melhor porque é nova e muito menos porque é apoiada por um órgão governamental (a 'Comissão para a Igualdade de Género', que nos deixou aqui um belo cartão de visita). Pelo contrário. O facto de decisões perigosas — como a retirada de um livro do mercado —
estarem apoiadas por um órgão do Estado que age de forma imprudente, nervosa e coarcível só dão a este fenómeno proporções muito mais assustadoras. Eu estou à vontade para falar nisto, uma vez que votei numa das forças que apoia o partido que está no Governo, mas estamos a dar passos firmes em direcção a uma nova censura e se ninguém é Capaz de pôr mão nisto, honestamente, não sei onde vamos parar.

A normalização da censura chegou a tal ponto que esta semana li uma notícia que dava conta da retirada dos livros da Anita do mercado (sim, essa Anita) devido a uma recomendação da CIG, a qual apontava o facto da maioria das actividades levadas a cabo pela heroína da série "transmitirem mensagens que possam ser promotoras de uma diferenciação e desvalorização do papel das raparigas no espaço público e dos rapazes no espaço privado". Fiquei de tal forma nauseado ao ler isto, que fui logo tentar confirmar a veracidade da notícia. Uma vez que não vi nada nesse sentido (o que até é de estranhar, dada a facilidade com que se agora se espalham boatos como factos), presumo que tenha sido só uma brincadeira de Facebook. O problema é que este é um sinal dos tempos em que vivemos onde uma aberração deste tipo passa por verosímil. Não é verdade, mas podia ter sido.

São sinais de tempos esquizofrénicos e paranóicos. Paranóicos, porque querem analisar tudo ao milímetro, julgar sumariamente e linchar em praça pública. Esquizofrénicos porque fazem tudo em nome da liberdade, sem se aperceberem do paradoxo que encerra a censura que promovem, num auto-de-fé só comparável aos gloriosos tempos da Inquisição Medieval.

O alvo desta nova inquisição volta a ser a música, desta vez Chico Buarque (esse machista) que, depois de décadas de fitas gravadas, querem higienizar em 2017. Logo ele, que tem uma história de combate à censura. O tema no pelourinho é "Tua Cantiga" e fala de um homem que promete à amante "Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir". Alegadamente, isto coloca a mulher num papel secundário, indexado aos anos 70. A traição é uma coisa démodé, hoje a mulher é independente e por isso não sofre de amor. Porque é isso mesmo que a nova mulher deve ser — um autómato. Porque qualquer tipo de sentimento mais visceral deve ser reprimido em nome dos paradoxos do politicamente correcto defendidos pela Nova Ordem da Inquisição. E porque a nova mulher livre, só é livre segundo as condições estabelecidas pelas Capazes. Nojo.

A música é sentimento e é suposto que assim seja. Por isso é um meio de comunicação tão massivo e poderoso. Se não se identificam com as palavras do Chico, sigam para o próximo artista. É simples. Ou então façam como nos anos 60, quando acusaram os Beatles de anticristos e fizeram fogueiras com os seus discos. Uma vez que hoje já ninguém compra discos, podem fazer uma fogueira com os scrobbles do Chico Buarque no Spotify (para os non-Millennials que me estejam a ler, scrobbles = nº de audições). É que a média de scrobbles dos temas do último álbum é de cerca de 100 mil por canção, exceptuando o "Tua Cantiga", que já foi ouvido mais de 700 mil vezes. Têm muito para queimar.

Atentem bem: não vão conseguir censurar a música. Tal como não conseguiram calar o Zeca, não vão ser Capazes de calar o Chico (até me admiro como ainda não pegaram no assunto) e jamais vão calar alguém que queira enterrar o coração numa fita. Ontem, hoje e amanhã, a música será sempre livre. E não há nada que possam fazer acerca disso.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A censura é sempre um caminho perigoso, mesmo quando se trata de música racista

Uma reflexão sobre a nova forma de censura socialmente aceite

Na semana passada, o Spotify eliminou uma série de bandas identificadas como "racistas" e de "incentivo ao ódio" pelo Southern Poverty Law Center (organização americana que monitoriza os grupos de ódio). Enquanto alguma imprensa musical se apressou a aplaudir a decisão, eu não tenho a certeza que a censura seja o melhor caminho para combater os nazis. Nem que seja por abrir um precedente muito perigoso.

Na cena final do "Inglorious Basterds" de Tarantino, o Tenente Aldo "The Apache" Raine (o Brad Pitt) explica ao Coronel Hans Landa (Christoph Waltz) do exército nazi que não o pode deixar ir embora sem lhe "dar uma coisa que ele não pode tirar". O Tenente americano gostava de identificar os nazis que prendia cravando-lhes à faca uma suástica na testa, de modo a que eles nunca pudessem esconder quem tinham servido (eu teria escolhido usar o uniforme). Se alguma coisa se pode aprender com o "Apache" é que o caminho para a derrota dos nazis não se faz escondendo os nazis. Pelo contrário. Faz-se expondo-os ao absurdo que eles defendem. Porque nem eles gostam de ser conhecidos como nazis.

Veja-se o caso do estudante universitário que andou pelas marchas de Charlottesville e em poucos dias viu a sua cara publicada por toda a internet e como tal agora diz que "não é o racista que vêem nas fotos". Talvez não seja. Mas de certeza que é um miúdo muito confuso.
Melhor ainda é o caso do "temível" protagonista da (excelente) reportagem da Vice sobre Charlottesville, que no dia da marcha era uma máquina de guerra "treinada para a violência", mas dias mais tarde chorava como uma Madalena arrependida e afinal já não era violento. Como vêem, estes gajos só precisam de educação, um pouco de realidade e talvez um abraço do Morgan Freeman. Alguém que lhes explique, por exemplo, que a música que eles ouvem foi muito provavelmente criada por indivíduos de raça negra.

O assunto da censura musical é mais complexo do que pode parecer e merece uma reflexão fria e cuidada; nem que seja pelo paradoxo da liberdade que implica a censura de uma peça de arte, por muito obscena que seja. É que tirando os meus tímpanos (e de todos os que gostam do volume no máximo), a música nunca matou ninguém. Pode moldar erradamente cabeças mais incautas, é verdade, mas esse é um problema que se resolve com educação. Vou ligar o caps lock: EDUCAÇÃO. Não é por acaso que estes movimentos tendem a surgir nos sectores mais iletrados (sendo o universitário mencionado em cima uma óbvia excepção, com a atenuante da idade e de provavelmente só ter visto brancos em toda a sua vida) e portanto mais susceptíveis ao populismo e a ideologias de ódio com fundações instáveis.

Quando foi reeditado o "Mein Kampf" — livro onde Adolf Hitler expressou a sua ideologia — também surgiu esta discussão. Contra algumas correntes a favor da censura, o livro foi mesmo editado e faz-me confusão ver os mesmos que estiveram do lado da publicação do livro, em nome da liberdade, agora defenderem a censura de música. Qual o sentido disto? É porque se pensava que o nazismo já tinha passado? Agora que está aqui outra vez, vamos à Fnac fazer uma queima de livros?

É um caminho perigoso, este que estamos a trilhar. Onde é que se traça a linha do aceitável? Vamos eliminar os Ace Of Base, cujo passado tem ligações nazis? E o "Station To Station" do David Bowie? Aquele Thin White Duke era um fascista, não enganava. E já que estamos com o machado na mão, podemos mandar abaixo a maioria da música punk, que incita à anarquia e à revolta contra o sistema? E o metal? Isso é só violência, era mandá-los de vela também. E por falar em violência, que dizer dos filmes do Tarantino, cheios de ideias criativas para assassínios? E por falar nisso, e a Céline Dion? Caso não tenham percebido a ironia, não, não vamos eliminar nada disto. O que levanta a questão anterior: onde é que se traça a linha? Na minha opinião, ao estarmos a censurar a música destes gajos, estamos a dar-lhe a sua maior vitória — a vitória da relevância.

Este é um problema grave, mas não é um problema que se resolve com censura. Pelo contrário. A censura dá-lhes força. A censura só gera publicidade que leva ao aumento da procura (nem que seja por curiosidade) por este tipo de movimentos. Falo por mim, que não sabia dizer o nome de uma única banda desta ideologia, mas que agora, depois de tanta publicidade, já sei.

Esta medida do Spotify fez com que eu fosse obrigado a pesquisar o que é afinal isto da música de supremacia branca para perceber o fenómeno, algo que nunca me passaria pela cabeça. Como eu, terão havido muitos mais curiosos. Encontrar as bandas foi fácil, depois foi só abrir o Youtube, pesquisar a primeira banda da lista e estava lá tudo; até álbuns completos. No Google, facilmente temos acesso à sua discografia, naqueles sites de torrents que fingimos que desconhecemos (Pirate Bay? Isso é um site de piratas, não é?). O que vai nas caixas de comentários do Youtube não é nada bonito, diga-se. Discurso de ódio, sim, muito. Mas é diferente de qualquer secção de comentários na internet, em qualquer site de notícias? Vamos fechar o Público, o Observador e o Expresso por causa das caixas de comentários a abarrotar com ódio e visões toldadas e obtusas do mundo? Vêem como é mais complexo do que parece?

A partir do momento em que começamos a dobrar a espinha e a moldar os nossos valores, os nazis já estão a ganhar. Precisamos de ser mais inteligentes que isto. Mais espertos. Não podemos dar-lhes o luxo da vitimização. E muito menos a publicidade que advém dessa vitimização. Esta história da proibição foi o melhor cartaz que estas bandas poderiam desejar. Notem que em lado nenhum neste texto eu refiro nomes. Os sites de lápis azul que listam dezenas bandas racistas, só facilitam o trabalho de pesquisa a quem quer que queira ter acesso a esta música. Nem o Spotify faria melhor nas suas recomendações semanais.

Entendam, não estou aqui a advogar a sua difusão generalizada. Incomodar-me-ia tanto ouvir um tema racista na rádio, como ver um outdoor na rua a promover o Mein Kampf. Mas tal como não defendo a proibição do livro de Hitler, como documento histórico que é, também não defendo a censura da música. Por princípio, sou contra a censura de qualquer forma de música ou literatura. Porque atrás da exposição, vem a crítica; e atrás da crítica, a compreensão do fenómeno. Dadas as bases correctas, em forma de valores e educação, e toda a arte será devidamente enquadrada e compreendida. Porque tal como acontece há séculos, a arte continua a ser uma ferramenta fundamental no processo educacional. Censurá-la, ou fingir que não existe, é um passo atrás na educação.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O que é uma música de verão?

"Despacito" é apenas a mais recente das ervas daninhas que germinam todos os anos por esta altura. Mas há esperança.



O que é uma música de verão? É difícil definir. Será o "Despacito" — a praga de que não conseguimos fugir este ano —, ou será o "Loud Places" do Jamie XX, que paulatinamente bateu todas as festas do verão passado sem incomodar ninguém? Deverá falar sobre os fugazes amores de verão como o "Baile de Verão" do José Malhoa, ou como o "Babe I'm Gonna Leave You" dos Led Zeppelin? E por falar em Rock, deverá a música de verão ser como o Rockzinho da praia do Jack Johnson, ou como o Rockzão do deserto dos Queens Of The Stone Age? Eles até escreveram uma modinha para o efeito, adequadamente baptizada de "Feel Good Hit Of The Summer". Bons vibes e tal.

A "nossa" música de verão não é mais que a soma do que queremos ouvir (quando podemos escolher) e do que escolhem para nós quando estamos em locais públicos. O pior é que o que escolhem para nós é quase invariavelmente merda. Já todos passámos por aquele sentimento de terror e impotência — sentados numa esplanada fora da redoma da nossa música, com os ouvidos susceptíveis a qualquer mórbido hit de verão que já sabemos que vai passar dez vezes e não mais sair da cabeça o resto do dia.

Este ano temos que levar com o Luis Fonsi, mas o "Despacito" é apenas a mais recente espécie de uma longa linhagem de ervas daninhas que germinam todos os anos por esta altura. São temas virais que invadem rádios, programas de televisão, festas populares e, Freddie me livre, qualquer sítio no meio do nada onde haja uma coluna e um leitor de CD, cassetes ou — obrigado, tecnologia — um telemóvel com Bluetooth.

No início custava-me a perceber de onde vinham estas canções bizarras; e mais que isso, por que raio tinham tanto sucesso. Lembro-me de ter 9 anos e pensar como é que o "Scatman (Ski-Ba-Bop-Ba-Dop-Bop)" era o maior hit de verão em todo o mundo. Como era possível?! Ao mesmo tempo, tínhamos por cá o Iran Costa a dançar em cima das Amoreiras e a conduzir um cacilheiro (?!) com a coreografia d'"O Bicho". Estávamos em 1995 e o Big Show SIC estabelecia as tendências musicais em Portugal (eu sei, tão trágico que parece mentira). Em 1998, o Ediberto Lima trouxe-nos o Netinho com a "Milla" e as "mil e uma noites de amor com você" e aí percebi logo que estava a ouvir o "hit de verão". Não havia muito para perceber. Era tentar levar uma vida normal, evitando ao máximo ouvir o tema, o que com sorte resultava num total de apenas quinze a vinte audições diárias da "Milla".

O que é então um hit de verão? É um fenómeno sociológico (quase sempre) acidental, alimentado pelos media e por milhões de pessoas que numa situação normal não abdicam das suas noções de postura social, mas que quando ouvem o hit de verão vigente mandam tudo ao ar e não se importam de cantar assertivamente versos impronunciáveis — "Aserejé" (2002), "Dragostea Din Tei" (2003), "Gangnam Style" (2012) — e fazer as coreografias mais ridículas — "O Bicho" (1995), "Macarena" (1996), "Bomba" (2000), "Aserejé" (2002), "Ai Se Eu Te Pego" (2011), "Gangnam Style" (2012) — em frente a toda a gente que conhecem e não conhecem. Não que eu seja diferente. At one time or another, também fiz estas coreografias todas em público. É o que faz beber whiskey com muito calor.

Todos os anos há uma praga deste género. Felizmente a maior parte delas desaparece tão rapidamente como germinou, mas outras ficam para nos atormentar para sempre. Vejam a Rihanna, para quem o verão de 2007 ainda dura até hoje à custa do "Umbrella"; ou os Black Eyed Peas, cujo verão durou 6 penosos anos (entre 2003 e 2009), mas que ainda hoje leva pessoas a procurarem objectos pontiagudos para perfurar os ouvidos sempre que começa a tocar o "I Gotta Feeling". Eu, por exemplo. Mas já chega de pragas, que acho que tive um mini-AVC a recordar isto. Ouçam por vossa própria conta e risco, se tiverem coragem.

Música de verão, todos temos a nossa. A minha (a que ouço quando posso escolher) pode ser muita coisa: a Electronica Downtempo dos Air e dos Zero 7 para ouvir ao final da tarde; o Rock acelerado dos Deep Purple e dos Guns N' Roses para conduzir à hora de maior calor; o Rock mais pesado dos Led Zeppelin e dos Scorpions para as noites quentes; a Americana dos Eagles e do Tom Petty para longas roadtrips; a New Wave dos Tears For Fears e dos Duran Duran para deixar o vento da marginal bater na cara. E por falar em Duran Duran, é deles a melhor música de verão de sempre — "Save A Prayer" — ou não tivesse o verso que melhor define a proverbial noite de verão: "Some people call it a one-night-stand but we can call it paradise". Essa e outras nesta playlist de risco mais controlado:

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O dia em que o Rock morreu

O 21º aniversário do último grito de glória do Rock à escala global. É hoje.


Knebworth Park, 10 de Agosto de 1996. Noel Gallagher entra no palco cheio de si: "THIS IS HISTERAY! THIS IS HISTERAY! Right here, right now, THIS IS HISTERAY!" grita, ciente que naquele momento estava sentado no topo do mundo. Ao seu lado, o irmão Liam podre de bêbedo, como sempre (naquela altura). Na sua cabeça, tudo normal; afinal, ele já se sentia no topo do mundo desde que cantava nos bares de Manchester "Tonaaaaaaaaaaaaaaaaaaa-ite I'm a Rock N' Roll staaaaaaaaaaaar" para dez bifes saídos das obras. Knebworth Park era por isso somente o cumprimento do óbvio para Liam. A sua maior preocupação naquela era a cerveja, que não estava suficientemente fresca.

Mas Noel sabia da efeméride que Knebworth encerrava. Depois de ditar que todos os que estavam ali, naquele momento, presenciavam História, Noel dá as boas vindas oficiais com um "bom dia, planeta Terra!"... e arranca para um eufórico "Columbia" (do álbum de estreia "Definitely Maybe"). Basta ouvir os gritos de "Yeah-yeah-yeah!!! Yeah! Yeah! YEAAAAAH!" do Noel nas backing vocals e medir, de zero a Knebworth, o quanto ele estava a flutuar acima do chão.



Nunca fui a Knebworth Park. Com muita pena minha, nunca tive oportunidade de ir ao local sagrado onde os Pink Floyd enterraram o "The Dark Side Of The Moon" em 1975, os Led Zeppelin enterraram os seventies em 1979 e os Queen se enterraram em 1986. Por alguma razão, Knebworth parece estar sempre associado a uma imagem bipolar de apogeu e fecho de ciclo. Qual acaso profético, foi também o local escolhido pelos Oasis para celebrar aquele que seria o pináculo da Britpop e último grande grito do Rock no mainstream musical, com um fim-de-semana de concertos esgotados em Agosto de 1996. Faz hoje exactamente 21 anos. Sem saberem, na sua noite da sua maior bebedeira, os Oasis estavam também ali a enterrar o Rock.

A ressaca da bebedeira viria logo a seguir. Numa perversa coincidência, ao mesmo tempo que se fazia a festa em Knebworth, um grupo de raparigas desconhecidas — umas tais de Spice Girls — saltava para o primeiro lugar das tabelas do Reino Unido e da Irlanda com o tema "Wannabe". Mal sabiam Noel, Damon, Jarvis e seus pares, que tudo ia mudar a partir dali. Atrás das Spice, vieram as Britneys, os Backstreets e até por cá os Excesso. O Rock tinha deixado de ser o estilo com maior projecção e em breve deixaria de ser tocado nas rádios generalistas.

Esta troca de poderes fez-me ganhar uma aversão especial às Spice Girls. Na verdade, hoje posso confessar que "Wannabe" tinha aquele hook de piano (ba-bada, badá-bababada) que até nem era mau de todo. Somaram-se uns bons hooks a uma imagem polida e milimetricamente medida e mudou-se todo um panorama musical.

Desde então, o mais próximo que o Rock esteve do mainstream e das rádios generalistas terá sido na vaga de Nu Metal do fim dos 90s; ou quando os White Stripes lançaram "Seven Nation Army" em 2003; ou talvez quando Foo Fighters encheram o Wembley em 2008, cavalgando no sucesso do single "The Pretender; ou mais recentemente quando os Arctic Monkeys lançaram "A.M." e o single "Do I Wanna Know?" em 2013. Em 21 anos, não houve muitas bandas Rock a ocuparem novamente a cadeira dos deuses.

Quanto aos Oasis, o melhor que poderiam ter feito a seguir a Knebworth seria gozar umas merecidas férias para limpar a cabeça. Mas Noel e a Creation (a editora da banda) queriam capitalizar o momentum e como tal afogaram-se em cocaína para fazer o álbum "Be Here Now", lançado um ano mais tarde, em Agosto de 1997. O mundo recebeu "Be Here Now" em euforia, mas rapidamente se apercebeu que não era assim tão bom como desejava. O álbum denotava clara falta de quality control: metade brilhante, metade decepcionante, mas todo ele dilatado ao máximo. Quando a banda se apercebeu disso, já o mundo tinha seguido em frente e trocado os Oasis pelos "zig-a-zig-ahhh". Terminava assim a última dinastia do Rock no mainstream.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A melhor música da primeira metade do ano

O crítico de música da NiT tem a playlist perfeita para o verão

Já dobrámos a primeira metade de 2017 e chegou a altura de rever a matéria dada com uma playlist mesmo a tempo da praia, da piscina, ou daqueles 'warm sunny days indoors' tão bons. Notem que isto não é bem a vossa clássica "Playlist de verão". Pelo menos não estou a ver ninguém a curtir Mount Eerie num sunset de copo de gin na mão. O espectro é mais largo que isso e o critério é absolutamente pessoal e parcial. Passemos então aos maiores destaques da playlist.

Álbum do ano: Ryan Adams — "Prisoner"

A playlist abre com "Doomsday", um tema retirado de "Prisoner" — o mais recente álbum de Ryan Adams e o que mais me encheu as medidas este ano. O Ryan tem dado muito que falar pelo tamanho da sua língua, numa série de ataques aos The Strokes no Twitter, que já não víamos desde que o Liam Gallagher se tornou um gajo calmo (até quando fala do irmão!). O próprio reconheceu isso mesmo e assinou o tweet da mesma forma que Liam fecha os seus escritos — "As you were". Adoro, adoro, adoro.

Infelizmente só se fala nas bocas de Ryan Adams e não no que realmente importa, que é o seu mais recente, superlativo e criminosamente ignorado trabalho "Prisoner". Este álbum mostra um Ryan na sua zona de conforto, que no seu caso é o mesmo que dizer —  a carpir mágoas com canções sobre relações falhadas e corações partidos. Continua a haver algo de irresistivelmente masoquista e metaromântico nesta vontade Louis-CKiana de Ryan se apaixonar sem medo da miséria do pós-heartbreak, ou até na ânsia da inspiração que essa miséria lhe pode dizer. E não é esse o sal da vida?

Mas não pensem o universo de "Prisoner" se esgota nos 12 temas que compõem o álbum. Semanas após o seu lançamento, Ryan lançou 17 (!!!) temas adicionais gravados nas sessões deste álbum. Se quiserem mergulhar mais a fundo nesta fase prolífica do músico americano, não deixem de ouvir a overwhelming compilação "Prisoner B-Sides".


Tema do ano: Radiohead — "Man Of War"

A segunda entrada da playlist é "Man Of War" dos Radiohead. Segundo a minha fiel fonte dos Radiohead, "Man Of War" foi o tema que a banda sugeriu à EoN  (produtora dos filmes do James Bond) quando foram abordados para escrever o tema de "Spectre". "Man Of War" foi escrito por alturas do "The Bends" como uma homenagem aos Bond themes, na expectativa de um dia os Radiohead serem chamados à prova (no documentário "Meeting People Is Easy", podemos ver a banda no estúdio a gravar o tema). A chamada não chegou tão cedo como esperavam e "Man Of War" ficou na gaveta durante 20 anos.

O telefone tocou finalmente em 2015, mas a EoN perversamente não aceitou "Man Of War" por ser um tema antigo. Como tal, os Radiohead gravaram "Spectre", que foi igualmente rejeitado por ser 'demasiado dark' e em última instância foi chamado Sam Smith, que acabaria por gravar o deveras underwhelming "Writing On The Wall".

Na verdade, talvez "Man Of War" fosse demasiado complexo para o retrato que a EoN quer fazer do James Bond nos seus filmes. Na visão original de Ian Fleming, James Bond é um assassino. Pura e simplesmente. É um homem com mais morte e menos swing que a série de filmes quer fazer crer. Mas acima de tudo, Bond é um homem. Um homem igual aos demais, com medos, desejos e anseios. A morte dos outros é a forma que Bond encontrou para compensar a sua própria morte interna. E é assim que os Radiohead se atrevem a caracterizá-lo no melhor tema de 2017... mas que foi gravado em 1997 (ou entre 1995 e 1997 para ser mais exacto) e agora viu finalmente a luz do dia na reedição de "OK Computer". Podem ler mais sobre "Man Of War" aqui.


Regresso do ano: Roger Waters — "Is This The Life We Really Want?"

O regresso mais surpreendente do ano tem que ser o de Roger Waters. Tanto pelo simples facto de ele acontecer, como (e principalmente) por ser algo que realmente vale a pena ouvir. Faz-me muita confusão ler as opiniões quase unanimemente complacentes e moderadas relativamente a "Is This The Life We Really Want?". Condescendentes, diria até. Parece que ouviram uma vez — se ouviram uma vez sequer — escreveram meia dúzia de banalidades e siga para bingo. Mas que é isto? Todas as reacções são possíveis, mas se há uma coisa que Roger Waters não provoca é indiferença. Esta condescendência constitui maior ofensa ao Roger do que se lhe dissessem na cara que o álbum é uma valente merda. Mas que nova moda é esta de não ter opinião para não magoar ninguém? Vamos agora todos pintar as nossas palavras de cinzento porquê? Para agradar aos outros? Citando o Roger, "fuck them!".

Vou ser directo: "Is This The Life We Really Want?" não é um álbum de digestão imediata. É uma audição extenuante, tal o negativismo que assola a música do princípio ao fim. É também um álbum fatalmente político; eu até costumo ser apologista que os meus artistas se mantenham longe da política, mas a verdade é que o "Animals" era político e não deixa de ser uma obra-prima por isso. Roger tem opiniões fortes e quer expressá-las; e ainda bem. Se ao menos o fizesse mais vezes.

Para lá da visão niilista da vida e do mundo, "Is This The Life We Really Want?" é também um exercício de introspecção implacável. Roger despe-se por completo, olha para dentro e escava a fundo em si mesmo. Sem medos. E desta vez, não é só a interminável saga do pai que morreu na guerra; é o Roger que morreu por dentro e quer falar sobre isso. Este é o álbum mais pessoal de toda a sua carreira. E se eu tivesse que apostar, diria que este álbum confessional só chegou agora, porque só agora é que Roger aprendeu a olhar para dentro e viu a besta que é.

Roger descreveu "Is This The Life We Really Want?" como um álbum "parte tapete mágico, parte discurso político, parte angústia". Belo resumo. Ouçam, mas tenham um copo de vinho à mão, de preferência. Sempre é uma anestesia para o vazio que vão sentir.

Para uma leitura mais aprofundada sobre "Is This The Life We Really Want?", podem ir aqui, aqui e aqui.

O que resta do ano: Foo Fighters, The War On Drugs e Liam Gallagher

A primeira metade de 2017 também nos deu muitas amostras do que podemos esperar para o que resto do ano. Muitos destes temas são singles de avanço dos respectivos álbuns que aí vêm e compõem também parte do melhor que já se ouviu este ano.

Começando pelos Foo Fighters, que deixaram água na boca com o novo "Run", tema que testaram no concerto do Alive com resposta positiva. No último álbum, Dave quis dar uma de Roger Waters e formular um elaborado conceito que cruzava uma série televisiva sobre a cultura musical de várias cidades, com um álbum em que cada tema era inspirado numa cidade e acompanhava o respectivo episódio. O conceito era ambicioso, a série foi excelente, o álbum nem por isso. "Run" parece ser um regresso dos Foos à boa forma, depois do sensaborão "Sonic Highways".

Os The War On Drugs vêm aí com "A Deeper Understanding", o tão aguardado sucessor do maravilhoso "Lost In the Dream" de 2014. E cada faixa parece ser melhor que a anterior. Este não engana.

Liam Gallagher está de volta e o seu álbum "As You Were" (que como já vimos parece estar a virar hashtag para qualquer post mais corrosivo) é ao mesmo tempo a maior expectativa e a maior incógnita deste ano. Apesar de ser um enorme fã do Liam, confesso que não esperava muito das suas canções (que nunca fogem muito à regra dos 'Liam standards'), mas cada faixa tem-me vindo a surpreender. Quem sabe e não teremos aqui uma revelação. Em qualquer dos casos, o que eu quero mesmo é o regresso dos Oasis. As you were.


A playlist

Sem mais demora, fiquem então com a playlist com os 25 temas que fizeram o melhor que ouvi na primeira metade de 2017 (na verdade são 26, mas quem está a contar?).

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Os Pretenders recusaram-se a dar um concerto sénior e 'suddenly thunder showered everywhere'

A banda de Chrissie Hynde levantou o pó da carpete que cobria o campo dos Parque dos Poetas

São duas e meia da manhã e estou a escrever isto na esperança que finalmente me dê o sono. Não consigo dormir e a culpa é dos Pretenders. Foi uma maravilhosa surpresa. Sabem quando vão a um concerto sem grandes expectativas na ressaca de um dia de trabalho extenuante, mas aquilo acaba por ser tão empolgante que depois nem conseguem pregar olho, tal é a adrenalina a bater no vermelho? Foi isso que aconteceu hoje com o concerto dos Pretenders no Parque dos Poetas.

Mas a coisa não esteve fácil para a banda de Chrissie Hynde. Os Pretenders foram contratados para um festival tranquilo de plateia sentada (chama-se Cool Jazz por alguma coisa) que, numa noite fria como a de ontem (a Rita Redshoes já se tinha queixado quando abriu), previa um concerto morninho, calminho e outros adjectivos cinzentos de grau diminutivo. Mas os Pretenders são uma banda de Rock 'n' Roll e não vieram a Portugal preparados para dar um concerto sénior. E por isso cedo começaram a levantar o pó da carpete que cobria o campo do Parque dos Poetas.

Depois de abrirem o set com uma sequência do novo álbum e o deep cut "Message Of Love", a Chrissie (que não está com merdas) mostrou-se desagradada com a falta de gente a dançar e chamou toda a gente para a frente do palco (lá fui eu a correr). Sacou de "Don't Get Me Wrong" e "suddenly thunder showers everywhere". Chrissie deu um pontapé na letargia do público e de repente, a temperatura disparou. Já não fazia mais frio em Oeiras. "Who can explain the thunder and rain, but there's something in the air". O que havia no ar era Rock 'n' Roll.



Mas desenganem-se se pensam que foi um set apoiado nos êxitos. Os Pretenders têm uma carreira muito longa, mas não têm tantos como isso. O último grande hit já remonta aos mid-90s ("I'll Stand By You") e foi introduzido com um "let's get this out of the way". O que transcendeu o concerto de ontem foi algo muito simples: foi puro Rock 'n' Roll. Solos de guitarra, solos de bateria e canções entregues furiosamente, uma em cima da outra, sempre a abrir. Velhos? Velhos são os que ficam sentados.

O baterista Martin Chambers já leva 66 anos  e não é por isso que denota a idade; está na banda com Christie há 35 anos – "Se tivéssemos feito sexo teríamos durado 6 meses; é o meu máximo", disse Chrissie; acrescentando depois "Too much information, sorry". Martin é um espectáculo dentro do espectáculo. Baquetas ao ar, baquetas para o chão, cuspo para o ar, cuspo para o chão e carregar na bateria como se a vida dependesse disso.

Por falar em espectáculos à parte, o guitarrista James Walbourne está na banda desde 2008, mas parece que nasceu para aquele lugar. Foi ele quem mais brilhou no eléctrico "Thumbalina", um dos pontos altos do concerto, com um riff a fazer lembrar Johnny Marr dos The Smiths. Que besta de guitarrista.

Num set de 18 temas disparados em hora e meia, houve obviamente espaço para os maiores hits. "Don't Get Me Wrong", "Brass In Pocket" e "I'll Stand By You" foram chegando sempre que era preciso arrebitar as linhas mais duras da audiência. Chrissie prestou ainda homenagem a Ray Davies dos The Kinks –  "talvez o melhor compositor de sempre" e "quem começou tudo para mim", confessou –, relembrando o clássico "Stop Your Sobbing".

O meu único senão da noite foi a falta de temas de "Viva El Amor!" – álbum que teve muita tracção em Portugal e que me deu a conhecer os Pretenders em 1999 – , especialmente o single "Popstar", que é uma deliciosa 'revenge song' contra Jim Kerr dos Simple Minds. Jim era casado com Chrissie (8 anos mais velha que ele), mas trocou-a por uma wannabe da Kylie Minogue – a quase actriz / quase cantora Patsy Kensit (que mais tarde também andou com o Liam Gallagher) – e que tinha menos 9 anos que ele. Que idiota, este Jim.
A Chrisssie continua impecável. Aos 65 anos, aquele lendário eyeliner ainda mexe; a voz está igualzinha, uma autêntica powerhouse; e continua a ser a miúda mais cool com uma guitarra na mão. Também confirmou a minha teoria de que a história de que o melhor do mundo são as crianças é uma grande mentira. O melhor do mundo são as roqueiras. Nem que tenham 65 anos.

Grande concerto, a surpresa do ano. Os Pretenders ganharam ontem um fã.


domingo, 16 de julho de 2017

Deftones criaram a sua república e Seu Jorge levou-nos às estrelas

A crónica do último e mais esquizofrénico dia do Super Bock Super Rock

O Super Bock Super Rock 2017 terminou com o mais esquizofrénico dos cartazes deste ano. No palco principal, juntou-se Indie Pop, Nu Metal e Electronica; isto enquanto se ouvia Stoner cá fora e Bossa Nova no Pavilhão de Portugal (quando o público deixava). Eu percebo, há muita gente para agradar. É muito bonito querer juntar tudo e dizer que vivemos todos em harmonia, mas no mundo real a maioria das pessoas que vai a um festival, vai à procura de um destes estilos; ou dois, três no máximo. O melhor dos festivais é poder descobrir bandas novas, mas isso é mais complicado quando saltamos sucessivamente para pontos opostos do espectro musical.

O resultado disto é que o público junto aos palcos se desinteressa pela música que não é a "sua" e aí começa a conversa que, quando multiplicada por milhares, resulta num ruído que muitas vezes se sobrepõe à própria música. Como se esperaria num cenário que quer agradar a toda gente, quem lá foi pode ter ficado com a sensação que soube a pouco. Mas já chega de preliminares, vamos ao que se passou nos concertos.

Foster The People (Palco Super Bock Super Rock, 20h20)

Os Foster The People abriram o palco principal para um Meo Arena ainda a meio gás. A colocação da banda de Indie Pop californiana antes de Deftones é difícil de entender, mas felizmente o público português já não é tão impaciente como o de há 15 anos (que o digam os Nickelback) e o concerto correu sem problemas. Também ajudou o facto de terem trazido muitos fãs.

A banda de Mark Foster apresentou um set enérgico e positivista, carregado com os seus êxitos mais catchy como "Don't Stop (Color On The Walls)", "Coming Of Age" e "Pumped Up Kicks", alinhados para fazer o público cantar e saltar. Cumpriram o que se propuseram. Música fácil de ouvir, sem esconder alguma juvenilidade e superficialidade, mesmo quando Foster tentou puxar por um lado mais denso, afirmando (e muito bem) que "what makes the world great is our differences not our similarities". A verdade é que todos os presentes aceitaram os Foster The People, mesmo tendo em conta que a maioria estava ali para a banda que ia tocar a seguir.

Black Bombaim (Palco LG/SBSR.fm, 20h55)


À saída de Foster The People, ainda consegui apanhar o fim de Black Bombaim no palco LG e tenho que lhes fazer referência. Outra loiça. A música fácil de ouvir ficou obviamente dentro do Meo Arena e cá fora mergulhamos nos longos instrumentais psicadélicos dos rapazes de Barcelos, entre o pôr do sol e o cheiro a erva. É como se de outra dimensão se tratasse.

Deftones (Palco Super Bock Super Rock, 22h)

Se já esperava a meia casa em Foster The People, fiquei mais surpreendido com a não enchente em Deftones. O tempo áureo do Nu Metal já lá vai e o cartaz heterogéneo não ajudou a cativar mais público desta franja. E se soubessem que o concerto duraria pouco mais de uma hora, menos teriam comparecido. Só vieram os fiéis, mas estes ocuparam a primeira metade do recinto num imenso mosh pit, onde se fundou uma república metaleira para quem o concerto não tinha como dar errado.

Aqui tenho desde já que apresentar o meu acto de contrição. Ao contrário do que é hábito, não fui para o mosh pit (comecei a ter mais cuidado desde que parti quatro dedos do pé direito há dois anos em The Prodigy) e sinto que por isso perdi o algum do mojo do concerto. Deftones não é a mesma coisa se não se estiver lá em baixo a sujar os pés. Vi o concerto da bancada e lá em baixo, o ambiente pegou fogo por diversas vezes. A loucura explodiu em "Change (In The House Of Flies)", altura em que se provou que é possível música pesada no Atlântico sem violar os tímpanos da audiência.


O concerto de Deftones proporcionou também o momento de maior beleza de todo o festival, quando Chino Moreno se chegou perto das grades e um fã abraçou-o a chorar compulsivamente, como se naquele momento estivesse ali a expelir todos os seus demónios. E não é para isso que serve a música?

Seu Jorge (Palco EDP, 22h50)


O Palco EDP teve a sua maior enchente ao longo de todo o festival ontem em Seu Jorge, que (em boa hora) trouxe ao SBSR o seu tributo a David Bowie. Este tributo consiste na apresentação integral da banda sonora de "The Life Aquatic with Steve Zissou" de Wes Anderson (que já remonta a 2004) e que é composta por covers de David Bowie com "tradução livre" em português. "Tradução livre" porque Seu Jorge não percebe muito da língua (ou pelo menos na altura não percebia) e como tal, quando Wes lhe apresentou o desafio de fazer as covers de Bowie, ele limitou-se a inventar a letra que melhor lhe soava naquela música. Os resultados foram interessantes, tão interessantes que mais de 10 anos depois, o brasileiro ainda anda aqui a cantar esses temas.

Seu Jorge chegou 10 minutos atrasado e ainda bem, porque me permitiu ver um dos melhores concertos do Super Bock Super Rock na íntegra. Um gajo e uma guitarra. Só. Às vezes não é preciso mais nada. O silêncio era (devia ser) um elemento essencial do espectáculo, mas eu cedo me apercebi que ia ser muito difícil respeitá-lo. Aparentemente, este era 'the place to be' na noite de sábado —tranquilo, música baixinha, à beira rio, ambiente perfeito para conversar. Até porque os Deftones fazem muito barulho, um horror, e não dá para falar em condições. Está explicada a enchente. Mas voltemos à música que é o que importa e foi tão, tão boa.

O concerto começou com o inconfundível "Ziggy Stardust" e o mais difícil foi resistir ao ímpeto de gritar "SO WHERE WERE THE SPIDERS" no refrão, que aqui foi substituído por "meu instinto não falha!". Nada a ver, mas é bonito ver que a barreira da língua não impediu Seu Jorge de fazer a sua interpretação. Depois contou a história do telefonema de Wes Anderson que começou tudo e que ele não quis atender porque estava num dia de folga, em casa a jogar FIFA. Seu Jorge foi apanhado desprevenido uma vez que os únicos temas que conhecia de Bowie eram "Let's Dance" e "This Is Not America" — "menino preto da favela não ouve Rock 'n' Roll" justificou, tocando a seguir "O Samba Da Minha Terra" como um exemplo do que ouvia. 

Ao longo do concerto, o carioca foi contando as histórias da génese de cada uma das suas covers. Como "Rebel Rebel", que foi escrita em 15 minutos na caravana do set do filme, porque se tinha esquecido de ouvir este tema. Seu Jorge estabeleceu uma ponte com quem o queria ouvir (e foram muitos que o respeitaram) e abriu portas para uma visão ainda mais profunda da música que tocava. Ficámos por exemplo a saber que esta digressão se deve à morte do seu pai, dois dias depois da morte de David Bowie que alinhou as estrelas para este tributo a Bowie. "Acredito que eles estão os dois a viver em Marte", atirou.

Os clássicos foram desfilando sem parar ao longo de uma hora, mas o público só ficou totalmente rendido quando chegou o cover de "Life On Mars?" (terá entrado nalguma novela?) e enfim cantou, aplaudiu e fez tudo o que se pede num espectáculo ao vivo. Pela minha parte, fiquei rendido logo de início à simpatia, honestidade e simplicidade de Seu Jorge. Um gajo, uma guitarra e as estrelas. Melhor concerto do dia, quiçá do festival.

Fatboy Slim (Palco Super Bock Super Rock, 23h50)

O Super Bock Super Rock fechou o palco principal com um DJ set, sublinhando ainda mais a heterogeneidade do cartaz deste ano. Não foi a primeira vez que vi Fatboy Slim ao vivo, mas admito desta vez estava com um problema de enquadramento que me impediu de melhor curtir o DJ britânico — estava sóbrio.

Fatboy Slim começou forte, a tentar captar o público com cânticos de "hey ho, let's go!" roubados aos Ramones, mas depressa começou a ficar muito repetitivo. Num set pejado de diversos samples de outros artistas ("Radio Ga Ga" dos Queen teve especial ênfase), esperava-se que Norman Cook deixasse os seu próprios hits para o fim, até porque êxitos são coisa que não lhe falta. Mas eles nunca vieram. Só teasers de poucos segundos para deixar água na boca, mas dos singles que todos conhecem e amam, nada. No fim de contas, acabou por ser um DJ set um tom acima da média, mas pouco mais que isso. Gostei muito mais do concerto de Fatboy Slim no Sudoeste 2005. Mas admito que aí estava bastante mais bezano.

Epílogo

O SBSR terminou e o saldo não é especialmente positivo. O festival parece estar com graves problemas de esquizofrenia, na dúvida se é ainda é o Super Rock, se é Super Hip Hop, ou se é o Sudoeste In The City. Para além do problema da aleatoriedade, o cartaz deste ano foi particularmente fraco em comparação com os anos mais recentes. Também é preciso dar mais tempo de palco aos cabeças de cartaz, que são eles quem traz mais gente ao festival. Mas o ponto mais negativo do festival são sem dúvida as obscenas condições acústicas do Meo Arena, um problema antigo para o qual urge encontrar solução, nem que para isso tenhamos que regressar ao místico Meco.

No pólo positivo, tivemos o tão aguardado (ainda que curto) regresso a Portugal dos Red Hot Chili Peppers, a revelação dos The Orwells, a humanidade dos Língua Franca e a pureza de Seu Jorge. As condições de mobilidade do festival também são extraordinárias e o conforto de estar em casa meia hora depois de sair do recinto (para quem mora em Lisboa, obviamente) é um luxo que não tem paralelo nos festivais em Portugal. A ideia dos copos alugados continua a ser ganhadora (mas 2€ por um copo?), mantém o recinto limpo e evita a vergonha alheia que é ver pessoas a vasculharem os caixotes do lixo para conseguirem mais um copo para uma t-shirt. Para o ano há mais.